Mostrando postagens com marcador Céu. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Céu. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Gênesis — Estudo 053 — A TORRE DE BABEL — PARTE 005 — A INTERVENÇÃO DE DEUS


Imagem relacionada

Este estudo é parte de uma Análise do Livro do Gênesis. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da História Primeva da Humanidade. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo. 
O Livro do Gênesis
O Princípio de Todas as Coisas

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ        
             Eretz   ha   ve-et  Hashamaim  et      Elohim        Bará        Bereshit
            Terra  a      e        céus       os        Deus         criou   princípio No
                                                                                     Gênesis 1:1

CONTINUAÇÃO

XII — Gênesis 11 — “Deram com uma Planície na Terra de Sinear”.

G. A Intervenção de Deus - Gênesis 11:5 - 9.

Gênesis 11:5

Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam.

A linguagem de Gênesis 11:5 apresenta certa dificuldade que tem sido muito explorada pelos críticos da fé cristã. Ela tem a ver com a linguagem que diz que o “SENHOR desceu para ver a cidade e torre”. Os críticos nos dizem que esse tipo de expressão “prova” quão ridículas são as crenças religiosas de todos os tipos. Mas nós não precisamos nos alarmar. A intenção dos críticos, como bem sabemos, é a de se aproveitar de todas as oportunidades para minimizar e ridicularizar a revelação divina, de tal forma que possam seguir fazendo com suas vidas aquilo que melhor entenderem. Tais atitudes são esperadas porque já foram previstas pela revelação bíblica —

Romanos 1:18—23

18 A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça;

19 porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.

20 Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis;

21 porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.

22 Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos

23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.

Agora para todos aqueles que estão abertos a uma explicação que seja racional e não fantasiosa, basta dizer que durante o desenvolvimento da revelação divina, por muitas vezes, os autores bíblicos usaram expressões chamadas de antropomórficas[1]. Isto é algo aceito de forma tão pacífica pela maioria dos comentaristas bíblicos que eles não se dão sequer ao trabalho de responder aos críticos. Nossos comentaristas bíblicos agem desta maneira porque entendem que tal atitude crítica não passa realmente de má vontade por parte dessas pessoas que querem usar essas passagens, como desculpas para evitar discussões mais pertinentes a seus estilos de vida.

O verso 5 serve de ponte natural entre os versos 1—4 e 6—9 de Gênesis 11. Ele representa o ponto de rotação, onde a ênfase da história muda de foco saindo de cima dos “filhos dos homens” para centrar-se no SENHOR Deus. Ao caracterizar os construtores como בְּנֵי הָאָדָם benei haAdam — filhos de Adão ou filhos dos homens o autor bíblico não deixa nenhuma dúvida que a cidade e a torre pretendidas não passavam de invenções humanas e estavam destinadas a passar, assim como seus próprios construtores iriam também passar.

Existem algumas lições espirituais nesses versículo acerca das quais é nosso desejo chamar a atenção do leitor.

1. O SENHOR Deus é descrito como aquele cujo trono está nas alturas, mas que ao mesmo tempo acompanha tudo que se passa no céu e sobre a Terra — ver Salmos 113:5—6.

2. Sendo assim, é intenção do autor do Gênesis nos esclarecer que Deus não é precipitado em Seus juízos porque ele é um Deus justo — ver Salmos 7:11 — e não executa juízo sem pesar todos os aspectos envolvidos nas ações dos pecadores.

3. Como Deus teve que “descer” para ver a cidade e a torre, nós temos nessa afirmação uma indicação clara de que todas as nossas obras humanas, por mais gigantescas que sejam, são sempre ridículas comparadas com a grandeza verdadeira de Deus. Será mesmo que os homens poder chegar a serem mais sábios e mais fortes do que Deus? Veja a resposta em 1 Coríntios 1:25.

4. Como “filhos de Adam” aqueles construtores eram caracterizados como “filhos rebeldes” e como “filhos da ira” — ver Isaías 30:1 e Efésios 2:3.

5. Quando a Bíblia nos diz que “Deus desceu para ver”, não está dizendo que Ele veio para ser um espectador como alguém que vai ao estádio assistir a um evento qualquer. Ele desceu como SENHOR e Juiz. Como alguém que é poderoso para infligir pesada e definitiva derrota e humilhação a Seus adversários — ver Jó 40: 11—13.

6. O tempo que Deus permitiu que eles investissem construindo a cidade e a torre serviu ao mesmo propósito que o tempo em que Noé estava construindo a arca. Era o tempo que Deus estava concedendo para que aquele bando se arrependesse.

Gênesis 11:6

E o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer.

Existem nesse versículo dois verbos בָּצֵר batzer — restringir e זְמוּ zemu — intentar. Estes dois verbos só aparecem juntos em apenas um único outro versículo em todo o Antigo Testamento. Mas os contextos são bem distintos. Nesse verso nós temos uma ponderação divina acerca das consequências da pecaminosidade humana e existe uma inferência de que Deus planeja “frustrar” o que o povo estava planejando. No outro, que está localizado em Jó 42:2, por sua vez, nós temos uma ponderação feita por Jó que reconhece que nada daquilo que Deus intenta pode ser restringido ou frustrado. Por esse motivo devemos nos lembrar sempre de

Isaías 8:13.

Ao SENHOR dos Exércitos, a ele santificai; seja ele o vosso temor, seja ele o vosso espanto.

Na compreensão de Deus, que conhece o fim de todas as coisas desde o início das mesmas, aquela circunstância envolvendo a construção da cidade e de uma torre era vista como sendo da maior gravidade. Para Deus algo precisava ser feito imediatamente por causa das consequências que viriam a seguir. A situação descrita em Gênesis 11 era tão grave que, caso aquele empreendimento seguisse livremente seu curso, o mesmo marcaria apenas o começo de uma nova situação onde, a partir daí, não haveria mais nenhuma restrição para tudo que os homens intentassem fazer. Este é o motivo que leva Deus a agir como o faz.

A ponderação feita pelo Senhor é marcada por dois fatos, a saber:

1. A unidade que existia entre o povo. Esta união representava, na prática, que muito da superfície do planeta ficaria sem habitantes porque aquele povo estava planejando ficar por ali mesmo e não se espalhar como era o desejo de Deus. A cidade e a torre representavam, ademais, uma concentração massiva de poder nas mãos de uns poucos e isto era um grave perigo para aqueles que pertenciam ao povo de Deus. Se o povo ficasse concentrado, como planejava, havia a real possibilidade de os eleitos de Deus serem absorvidos e destruídos por aquela estrutura. A expectativa era que a maldade, a pecaminosidade e a perversão deveriam atingir a níveis exorbitantes, como podemos ver acontecendo nos grandes centros urbanos do século XXI. Por este motivo Deus decide frustrar aquele plano.

2. A construção da cidade e da torre deve nos fazer parar e analisar a seguinte realidade: aqueles construtores apesar de pertencerem a famílias diferentes, de possuírem disposições distintas uns dos outros e de terem interesses diversos, todavia, eram unânimes em sua oposição a Deus. Era esse sentimento de oposição que os unia. Que pena! Os filhos de Deus dos nossos dias, por sua vez, apesar de terem todos uma cabeça comum — o Senhor Jesus Cristo — e de serem habitados por um mesmo espírito — o Espírito Santo — estão tão fragmentados que só podemos dizer: que vergonha! E entre pena e vergonha é difícil dizer quem está em situação pior.

3. Em terceiro lugar o Senhor entende as consequências da obstinação humana. Aquilo que os construtores estavam fazendo era apenas o início. E esse é outro motivo porque Deus decide atravessar no caminho daquele povo e desbaratar-lhe o desígnio. Através de palavras de admoestação e de exortação Deus havia tentado dirigir o povo na direção que Ele desejava, certamente porque esta era a melhor direção a ser seguida.

4. Esses motivos que levam Deus a agir, são permanentes na relação que existe entre Deus e os seres humanos. Herdamos a desobediência e a empáfia de nosso primeiro pai — Adão. Estamos em permanente rebelião contra Deus. Por sua vez a ira de Deus se manifesta hoje como se manifestou naqueles dias — ver Romanos 1:18; Efésios 5:3—5; Colossenses 3:5—6; e, de forma especial, João 3:36.

5. Todas as manifestações pecaminosas são pálidas e pequenas no começo. Mas com o passar do tempo assumem proporções formidáveis e gigantescas. Uma vez tendo iniciado aquela obra marcada por uma concentração massiva de pessoas, por uma ambição exagerada e pela sede de marcar o nome nos anais da história, não haveria limites para o que aqueles homens pudessem intentar ou mesmo imaginar no futuro.

É, portanto, apenas apropriado que o Senhor decida agir e Sua intenção nos é fornecida no versículo seguinte:

Gênesis 11:7

Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro.

Essas palavras refletem tanto a sabedoria de Deus quanto Sua misericórdia. É Seu propósito intervir naquela situação, mas Ele irá fazê-lo, como sempre, de forma a manifestar sua grandeza tanto em juízo quanto em graça. Esse verso, pode não parecer, mas ele nos ensina o princípio fundamental de que: todas as vezes que os seres humanos se agitarem no pecado serão confrontados por uma ação voluntária da parte de Deus —

Isaías 59:17—18

17 Vestiu-se de justiça, como de uma couraça, e pôs o capacete da salvação na cabeça; pôs sobre si a vestidura da vingança e se cobriu de zelo, como de um manto.

18 Segundo as obras deles, assim retribuirá; furor aos seus adversários e o devido aos seus inimigos; às terras do mar, dar-lhes-á a paga.

A misericórdia de Deus se manifesta na proposta disciplinar que não é, nem de longe, proporcional às ofensas que estavam sendo feitas. Esse é um fato bíblico: Deus não nos trata de acordo com o que nossos pecados merecem – Salmos 103:8—10. Note como Deus, apesar de dispor dos recursos para tal, não propõe destruir nem varrer da face da terra aquele bando de alucinados. Não é sua intenção acelerar a decida para o abismo daqueles que pretendiam alcançar os céus. O plano é realmente muito simples: “desçamos e confundamos ali a sua linguagem”. Deus poderia destruí-los por completo, mas o castigo fixado é bem mais simples. Isto prova a fragilidade humana. Toda a arrogância humana se dissipa de imediato quando Deus executa seus juízos. A capacidade dos seres humanos de provocar a Deus é enorme, mas a paciência de Deus é maior, felizmente. Punições para valer são deixadas para o estado eterno. A Bíblia reserva duras palavras para descrever o castigo eterno daqueles que desprezam as ofertas de Sua graça misericordiosa — ver Sofonias 2:1—3 e Hebreus 10:31.

A sabedoria de Deus, por sua vez, se manifesta nessa engenhosa confusão de línguas. A ciência humana, que não acredita na narrativa bíblica, admite que não possui nenhuma explicação para a multiplicidade de línguas faladas sobre a terra. Nosso aparelho fonador é uma verdadeira “obra de arte” que esbanja sons de qualidade e sofisticação. A língua única falada por aqueles homens servia como fonte de conforto e ânimo. Deus sabia o exato valor da língua única. Quando o Senhor decide agir daquela maneira, confundindo a língua, Ele o faz porque sabe, de forma precisa, quais serão as consequências: os seres humanos seriam tomados por verdadeiro pavor e ato contínuo iriam desanimar de continuar construindo a malfadada torre e cidade. Deus possui recursos variados e infindáveis para lidar com os seres humanos. Suas ações sempre alcançam Seus propósitos, porque nenhum de Seus planos pode ser frustrado. Quando a Bíblia diz בְלָה belah — confundir, o que está implícito é a introdução de várias formas de expressar um mesmo vocábulo no lugar da forma única existente até então. Dessa maneira o que era uma língua única foi transformada em muitas variedades mediante uma diversificação estrutural, sem existir a necessidade de interferir no material do qual a língua era propriamente formada. Este tipo de manipulação constitui um enorme mistério para os filólogos, para os quais a origem comum das línguas humanas não possui nenhuma explicação plausível. Mas nós sabemos, porque a “Bíblia assim nos diz”...

Gênesis 11:8

Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade.

A ação de Deus anunciada em Gênesis 11:7 não demora em ser executada e, como temos visto inúmeras vezes, os planos humanos não passam de quimeras quando o Deus Todo-Poderoso se levanta para julgar.

O pecado central dos construtores é orgulho e humanismo pretensioso. Esse é o mesmo pecado básico cometido pelos nossos primeiros pais no Jardim do Éden. Existe um abandono frontal da vontade revelada de Deus bem como de suas palavras proferidas anteriormente. O desejo humano assume o centro do palco e, fazer a própria vontade, torna-se mais importante do que fazer a vontade do Criador. Adão, Eva e os construtores da cidade e da torre pensam de uma mesma maneira. Mas aquilo que aqueles homens mais temiam, aquilo contra o que haviam estabelecido seus exaltados propósitos, os alcança de modo inexorável porque é o SENHOR quem executa o juízo que causa a dispersão. Não sendo capazes de compreender uns aos outros como antes, o projeto de construção em andamento sofre súbita paralisação. Aos poucos eles vão descobrindo outros com quem conseguem se entender e, em pequenos grupos, abandonam o local se dispersando e povoando a superfície da terra conforme era a vontade de Deus desde o princípio da criação.

Autores pagãos atribuem a dispersão dos seres humanos sobre a face da terra tanto a uma intervenção divina quanto à confusão das línguas. Mas enquanto a Bíblia diz que a construção da torre foi paralisada os autores pagão falam que a mesma foi destruída, ora por tempestades, ora por ventos impetuosos. Como sempre a narrativa bíblica é mais serena e discreta e por este motivo mais verossímil.

A Bíblia não nos diz exatamente quando estes fatos aconteceram. É certo que quando a Terra foi “repartida, durante os dias de Pelegue” — ver Gênesis 10:25 — os seres humanos já estavam dispersos, pois somente desta maneira poderíamos explicar o aparecimento dos mesmos em todos os rincões desse nosso planeta. Pelegue viveu um total de 239 anos — ver Gênesis 11:18—19. Como esse é um tempo bastante extenso existe uma grande discussão entre os eruditos se os eventos concernentes à cidade e à torre tiveram lugar no início, em algum ponto do meio da vida ou no fim dos dias de Pelegue.

Pelegue nasceu no centésimo primeiro ano depois do dilúvio — ver Gênesis 11:10, 12, 14 e 16. E muitos eruditos, tanto judeus como cristãos, acreditam que o desenlace descrito em Gênesis 11:8 teria acontecido exatamente no ano do nascimento de Pelegue. A frase que temos em Gênesis 10:25 mencionada acima diz que “a terra foi repartida” nos dias de Pelegue e isso não é uma referência à dispersão das pessoas e sim ao repartimento da porção seca da Terra nos continentes, como temos hoje. Dessa maneira, a dispersão poderia ter acontecido no ano do nascimento de Pelegue e a repartição da Terra em continentes teria acontecido mais adiante, ainda durante os “dias de Pelegue”. Outros acreditam que a intervenção de Deus teria acontecido no quadragésimo ano da vida de Pelegue i.e., 140 anos depois do dilúvio. Mas não existem elementos que justifiquem esta hipótese. Os cronologistas judeus dizem que a dispersão teria acontecido próxima do fim da vida de Pelegue. Como Pelegue viveu 239 anos então os eventos descritos em Gênesis 11:1—9 teriam acontecido 340 anos depois do dilúvio, quando Noé ainda estava vivo — ver Gênesis 9:28 — e Abraão já estava com 38 anos de idade — ver Gênesis 11:18,20, 22, 24 e 26 . Mas essa explicação é insatisfatória para justificar a presença de seres humanos nos quatro cantos do mundo.

Independentemente do exato momento quando esta dispersão aconteceu, o que podemos observar aqui é o fato de que o desejo expresso de orgulho — tornemos célebre o nosso nome — e a vontade férrea de desobedecer ao mandamento expresso de Deus — para que não sejamos espalhados por toda a terra — chamaram a atenção do Todo Poderoso. Da mesma maneira como aconteceu com Caim, essa história registra apenas o esforço inútil dos seres humanos de tentar alcançar segurança mediante a construção de uma cidade. Segurança verdadeira existe somente em Deus. Existem muitas passagens da Bíblia que enfatizam o que estamos dizendo. Entre essas nós podemos citar:

Salmos 4:8

Em paz me deito e logo pego no sono, porque, SENHOR, só tu me fazes repousar seguro.

Salmos 23:4

Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam.

Salmos 118:6

O SENHOR está comigo; não temerei. Que me poderá fazer o homem?

Isaías 12:2

Eis que Deus é a minha salvação; confiarei e não temerei, porque o SENHOR Deus é a minha força e o meu cântico; ele se tornou a minha salvação.

Hebreus 13:6

Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?

A construção da torre não parece ser o foco de interesse do autor bíblico. No começo da história ele menciona de forma explícita uma cidade e uma torre — ver Gênesis 11:4—5. No fim da história sua ênfase recai sobre a cidade somente — ver Gênesis 11:8. Alguns acham que a falta da menção da torre no verso oito é um sinal de que a mesma já estava terminada. Mas esta não é a opinião desse autor. O fato que a Bíblia menciona somente a cidade aqui é um indício claro de que aquilo que realmente desagradava a Deus não era a tanto a torre e sim a cidade. É a cidade que ofende a Deus por causa da falsa impressão de segurança que ela transmite e porque a estrutura e os confortos que a cidade oferece fazem com que os homens se afastem de Deus. Vejam a quantidade de distrações que uma cidade pode oferecer e será fácil perceber por que as pessoas têm tão pouco interesse em Deus e nas coisas de Deus.

A história da dispersão dos construtores da cidade e da torre de Babel serve como um verdadeiro apêndice da Tábua das Nações — Gênesis 10 — e completa a história dos povos até o presente momento. Conforme iremos perceber, a sequencia da história irá sofrer um grande estreitamento para se concentrar na vida de um único indivíduo. Esse personagem será declarado o pai da “semente da fé”. E será através dos seus descendentes espirituais que o conhecimento do Deus verdadeiro e de Sua verdade serão preservados no meio da total e completa degeneração que será experimentada por todas as nações espalhadas ao redor do mundo. Essas nações irão espiralar na ignorância e no erro como consequências naturais do pecado.

Aqui devemos fazer um destaque: as ciências modernas, que negam o relato bíblico e repudiam a possibilidade da existência de Deus são confrontadas por um dado básico que diz respeito a certos traços da história que aparecem em todas as tradições do todos os povos ao redor do mundo. Esses traços dizem respeito, com maior ou menor intensidade, a estórias referentes ao Deus Único e Verdadeiro, à Criação, à queda bem como ao dilúvio. Se os seres humanos tivessem evoluído de várias espécies distintas de animais inferiores — primatas em geral — como seria possível a existência de tradições unificadoras e, muito exclusivas, diga-se de passagem, entre as mais diversas nações? Tradições como as que acabamos se citar acima só podem ser explicadas pela existência de um ancestral comum, exatamente como a Bíblia nos ensina.
  
Os construtores da cidade e da torre declararam de forma explícita o seguinte: “tornemos célebre o nosso nome” — ver Gênesis 11:4. Não temos dúvidas de que alcançaram esse objetivo. Só que a celebridade tornou-se algo vergonhoso. Famosos sim, mas humilhados pelo Deus Todo Poderoso a quem desafiaram. Da mesma maneira que Gênesis 11:5 nos diz que em vez dos homens alcançarem o céu, foi o próprio Deus quem “desceu”, Gênesis 11:9 reflete uma fina ironia por parte do cronista bíblico quando diz:

Gênesis 11:9

Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra e dali o SENHOR os dispersou por toda a superfície dela.
  
A cidade e sua torre, originalmente destinadas à grandeza e fama, foram abandonadas por seus orgulhosos construtores. O autor bíblico mistura uma fina pitada de ironia no final da história quando conecta, de forma sutil, o ato de confundir as línguas usando o verbo בָּלַל balal — confundir — com o nome da localidade que era Babel, que quer dizer “portal de Deus”. O texto não nos revela se o nome Babel foi atribuído àquele complexo pelo próprio Senhor ou pelo escriba. Esse é o motivo porque o sujeito é indefinido na expressão “chamou-se-lhe”.

As línguas que falamos nos dias de hoje constituem-se em um verdadeiro desafio para os linguistas do ponto de vista da necessidade de se explicar a origem das mesmas. As duas principais teorias são:

1. Monogenesis — todas as línguas que falamos hoje descendem de uma única língua original chamada tecnicamente em alemão de “Ursprache”.

2. Poligenesis — é a teoria de que as línguas faladas pelos seres humanos surgiram, de forma independente, entre os diversos grupos primitivos de humanos. 

Como é impossível saber como os primeiros humanos falavam, o melhor elemento que possuímos para desenvolver nossas teorias é a comparação das formas escritas das línguas da Antiguidade, porque as mesmas estão fixadas de forma permanente. Os primeiros registros existentes de escrita aconteceram entre os sumérios, na Mesopotâmia, entre 3500 e 3200 a.C. É a partir deste momento que os pesquisadores podem começar a fazer seus estudos comparativos. Essas pesquisas, em linhas gerais, nos mostram que, como resultado direto de mudanças linguísticas ocorridas sobre longos períodos de tempo, surgem vários grupos distintos de línguas, mas que estão historicamente relacionados. Ou seja, esses grupos, mesmo diversos, são interdependentes e através de pequenas variações nos dialetos fazem surgir as línguas distintas que temos hoje. Muitos linguistas costumam falar de um seleto grupo de línguas que costumam chamar de proto-línguas. Entre essas nós podemos citar o Proto-Germânico e o Indo-Europeu. Dessas proto-línguas surgem sub-famílias de línguas. Mas os estudiosos concordam que nenhuma das proto-línguas é a língua mais antiga da humanidade. E por este motivo existe muita discussão com defensores apaixonados dos dois lados da teoria da origem das línguas – monogenesis e poligenesis.

Por fim, nosso texto é bastante lacônico em nos explicar exatamente qual foi o efeito que a ação de Deus de confundir as línguas teve sobre a psique ou mente daqueles construtores. Pelo fato deles terem abandonado a construção da cidade nós podemos deduzir, pelo menos, que os mesmos, de alguma maneira, reconheciam que estavam sofrendo oposição de alguém que era bem maior do que eles. E esse sentimento normalmente nos abate e nos desanima. Que aqueles acontecimentos nos sirvam de lição. Deus é sempre capaz de detonar todos e quaisquer planos humanos que não lhe agradem — ver Provérbios 21:30 e Isaías 8:9—13. 

Outros artigos acerca dO LIVRO DE GÊNESIS
001 — Introdução e Esboço
002 — Introdução ao Gênesis — Parte 2 — Teorias Acerca da Criação
003 — Introdução ao Gênesis — Parte 3 — A História Primeva e Sua Natureza
004 — Introdução ao Gênesis — Parte 4 — A Preparação para a Vida Na Terra
005 — Introdução ao Gênesis — Parte 5 — A Criação da Vida
006 — Introdução ao Gênesis — Parte 6 — O DEUS CRIADOR
007 — Introdução ao Gênesis — Parte 7 — OS NOMES DO DEUS CRIADOR, OS CÉUS E A TERRA
008 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 1 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 1
009 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 8A – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 2
010 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus - Parte 9 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Segundo e o Terceiro Dia
011 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 10 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quarto Dia
012 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 11 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quinto Dia
013 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 1
013A — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12A — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 2
014 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 13 — Teorias Evolutivas
015 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 14 — GÊNESIS 2A
016 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 15 — GÊNESIS 2B
017 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 16 — GÊNESIS 3A
018 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 17 — GÊNESIS 3B
019 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 18 — GÊNESIS 3C
020 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Livre Arbítrio — Parte 19
021 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Dois Adãos — Parte 20
022 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Era Pré-Patriarcal e a Mulher de Caim — Parte 21
023 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, O Primeiro Construtor de Uma Cidade — Parte 22
024 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Assassino e Fugitivo da Presença de Deus — Parte 23
025 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Primeiro Construtor de uma Cidade e Pseudo-Salvador da Humanidade — Parte 24
026 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Conclusão Acerca de Caim — Parte 25
027 — Estudo de Gênesis — Gênesis 5 — Sete e outros Patriarcas Antediluvianos — Parte 26
028 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Perversidade Humana, Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens— Parte 27A
029 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — OS Nefilim e os Guiborim — Os Gigantes e os Valentes — Parte 27B
030 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Maldade do Coração Humano— Parte 27C.
031 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Corrupção Humana Sobre a Face da Terra e Deus Pode se Arrepender? — Parte 27D.
032 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28A.
033 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28B.
034 — Estudo de Gênesis — Gênesis 7 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 29 — O Dilúvio Foi Global Ou Local?
035 — Estudo de Gênesis — Gênesis 8 — A promessa que Deus Fez a Noé e seus descendentes — Parte 30 — Nunca Mais Destruirei a Terra Pela Água
036 — Estudo de Gênesis —  O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 001
037 — Estudo de Gênesis — O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 002
038 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 001
039 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 002
040 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 003
041 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 004 — A NATUREZA DA ALIANÇA ENTRE DEUS E NOÉ
042 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 005 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 001

043 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 006 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 002 — OS NEGROS SÃO AMALDIÇOADOS?
044 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 007 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 003 — A CONTRIBUIÇÃO DOS FILHOS DE NOÉ PARA A HUMANIDADE
045 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 001 — OS DESCENDENTES DE JAFÉ
046 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 002 — OS DESCENDENTES DE CAM: NEGROS, AMARELOS E VERMELHOS
047 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 003 — OS DESCENDENTES DE SEM E A ORIGEM DOS HEBREUS
048 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 004 — A TÁBUA DAS NAÇÕES É UM DOCUMENTO ÚNICO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE
049 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 001
050 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 002
051 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 003
052 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 004
053 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 005
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/08/genesis-estudo-053-torre-de-babel-parte.html
054 — Estudo de Gênesis — A GENEALOGIA DOS SEMITAS
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/11/genesis-estudo-054-genealogia-dos.html

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.

Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.



[1] Tendência para atribuir, ou a forma de pensamento que atribui formas ou características humanas a Deus, deuses, ou quaisquer outros entes naturais ou sobrenaturais. 

quinta-feira, 29 de junho de 2017

PARÁBOLAS DE JESUS — SERMÃO 037 — A PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA — COMPLETA


Imagem relacionada

MATEUS 18:12—14 E LUCAS 15:4—7 — A PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA —SERMÃO 037

Esse artigo é parte da série "Parábolas de Jesus" e é muito recomendável que o leitor procure conhecer todos os aspectos das verdades contidas nessa série, com aplicações para os nossos dias. No final do artigo você encontrará links para os outros artigos dessa série.

A Parábola da Ovelha perdida

Mateus 18:12—14

12 Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou?

13 E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram.

14 Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos.

Lucas 15:4—7

4  Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?

5  Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo.

6  E, indo para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida.

7  Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

I. O Tipo da Parábola

Tanto na versão de Mateus quanto na de Lucas estamos lidando com o que é chamado de “parábola interrogativa”. Em Mateus a questão introdutória — “Que vos parece” — é seguida por uma série de circunstâncias hipotéticas, as quais são seguidas pela questão que envolve a parábola — “não deixará ele”.

A condição que descreve o ato de encontrar — verso 18:13 “E, se porventura a encontra” — é seguida pela afirmação das consequências e uma explicação moral ou uma nimshal.

Já em Lucas temos uma parábola do tipo “Qual, dentre vós?, o que literalmente significa “qual é o homem dentre vós?”, seguido pela afirmação das consequências e pela moral da história. Alguns intérpretes costumam classificar essas narrativas como similitudes[1], enquanto outros defendem a ideia que se tratava, originalmente, de uma parábola que fazia referência a algum fato real do conhecimento de todos.

Todavia, como não existe nenhuma trama central fica difícil definirmos essa história, tecnicamente, como uma parábola. Na melhor das hipóteses estamos diante de uma similitude implícita. É como se Jesus estivesse querendo dizer: “minha associação com os pecadores é semelhante à circunstância de um pastor que perdeu uma ovelha e que se alegra com seus amigos depois de havê-la encontrado”. Entretanto, diante do interesse maior da clareza, o melhor é rotular nosso texto com sua forma mais simples, quer dizer, como uma parábola interrogativa.

As parábolas interrogativas não estão muito distantes das parábolas judiciais, pois elas estabelecem uma situação hipotética, forçam o ouvinte ou leitor a responder a uma questão e obrigam o indivíduo a transferir a resposta dada para outra situação. No caso das parábolas judiciais as mesmas têm ainda um elemento acusatório adicional.

II. Uma Comparação Entre As Narrativas de Mateus e Lucas

Mateus e Lucas possuem, relativamente, pouco em comum na narrativa dessa parábola. Além disso, as duas narrativas nos mostram um fenômeno surpreendente na relação existente entre os chamados “Evangelhos Sinóticos”. Como é de se esperar, uma tradição tripla de qualquer material — Mateus, Marcos e Lucas — mantém uma relação de proximidade muito grande. Mas numa tradição dupla — Mateus e Marcos, Marcos e Lucas ou Mateus e Lucas —, essa proximidade é ainda maior.

A. Exemplos do que estamos dizendo podem ser vistos nas seguintes parábolas —

1. A parábola dos dois construtores — Mateus 7:24 e Lucas 6:47—49.

2. A parábola do Fermento — Mateus 13;33 e Lucas 13:20—21.

3. A parábola do servo fiel e do servo infiel — Mateus 24:45—51 e Lucas 12:41—48.

B. Por outro lado, também em tradições duplas, as parábolas são tão distintas que devemos perguntar se existe mesmo alguma relação entre as mesmas. Exemplos do que estamos dizendo podem ser vistos nas seguintes parábolas —

1. A Parábola das Bodas — Mateus 22:1—15 e Lucas 14:15—24.

2. A parábola dos Talentos — Mateus 25;14—30 e Lucas 19:11—27

As duas narrativas da Ovelha Perdida se encaixam nessa segunda categoria mencionada. Mateus usa 65 palavras e Lucas 89 palavras. Dessas palavras todas, apenas 14 são idênticas nas duas narrativas. Ainda quatro outras palavras são compartilhadas, mas que são expressadas de forma gramatical diferente. As palavras em comum envolvem os conceitos básicos como “cem ovelhas”, “uma delas” e “noventa e nove”, mas para todo o resto, cada evangelista usa sua própria coleção de palavras. Entre as diferenças mais importantes, nós podemos citar as seguintes:


Mateus
Lucas
A parábola é contada para os discípulos de acordo com Mateus 18:1. Ela é parte do discurso eclesiástico de Mateus e seu objetivo principal são discípulos que se desviam
A parábola é contada por Jesus como uma resposta contra a murmuração dos fariseus e dos escribas porque o Senhor recebia e participava de refeições com pecadores — Lucas 15:1—2
A ovelha se extravia — πλανηθῇplanethê.
A ovelha se perde — ἀπολέσαςapolésas.
A palavra para deixar é — ἀφήσει afései.
A palavra para deixar é — καταλείπειkataleípei.
A palavra para deserto é — τὰ ὄρηtà ore.
A palavra para deserto é — ἐν τῇ ἐρήμῳén tê erémo.  
 E, se porventura a encontra
até encontrá-la
A parábola é mais curta
A parábola é mais extensa. O homem coloca a ovelha sobre seus ombros e se alegra. Quando chega em sua casa ele chama os amigos para se alegrarem com ele.
A conclusão permanece dentro da própria narrativa da parábola e diz que o homem se alegra mais pela ovelha perdida que ele voltou a encontrar do que pelas outras 99 ovelhas.
A conclusão move-se na direção do plano teológico e explica que haverá um maior regozijo no céu sobre um pecador arrependido do que sobre noventa e nove justos que não precisam de arrependimento.
O texto então se move em direção ao plano teológico concluindo que é contrário à vontade de Deus que até mesmo um desses pequeninos venha a se perder — ἀπόληταιapóletai.
Lucas não tem nada que possa ser visto como paralelo a essa conclusão.

INFORMAÇÕES CULTURAIS PERTINENTES À PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA
Conforme várias passagens do Novo Testamento registram os fariseus se recusavam a manter qualquer tipo de associação com o que eles chamavam de pecadores. Algumas dessas passagens já foram citadas nos estudos anteriores de Lucas 15. Mais há outras como, por exemplo:

Marcos 2:15—17

15 Achando-se Jesus à mesa na casa de Levi, estavam juntamente com ele e com seus discípulos muitos publicanos e pecadores; porque estes eram em grande número e também o seguiam.

16 Os escribas dos fariseus, vendo-o comer em companhia dos pecadores e publicanos, perguntavam aos discípulos dele: Por que come e bebe ele com os publicanos e pecadores?

17 Tendo Jesus ouvido isto, respondeu-lhes: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes; não vim chamar justos, e sim pecadores.

Mateus 11:16—19

16 Mas a quem hei de comparar esta geração? É semelhante a meninos que, sentados nas praças, gritam aos companheiros:

17 Nós vos tocamos flauta, e não dançastes; entoamos lamentações, e não pranteastes.

18 Pois veio João, que não comia nem bebia, e dizem: Tem demônio!

19 Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e dizem: Eis aí um glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas a sabedoria é justificada por suas obras.

Quando lemos a literatura judaica, não é difícil perceber que a recusa dos fariseus em se associar com os pecadores estava firmemente arraigada em suas próprias tradições. Exemplo disso podem ser vistos na Melkita Amalek que diz o seguinte em 3:55—57: “Com relação a isso os sábios dizem:Que um homem nunca se associe com uma pessoa perversa, nem mesmo com o propósito de aproximá-lo da Torá”. Em muitas citações os sentimentos manifestados eram muito intensos, como vemos em:

Eclesiástico 13:17 — O que pode haver de comum entre o lobo e o cordeiro? O mesmo acontece entre o pecador e o piedoso.[2]

Texto rabínico M. Demai 2:3Todo aquele que decide tornar-se associado não deve vender para um Am-haaeretz — literalmente, povo da terra, i.e. pessoas comuns — alimentos sejam secos ou molhados, nem comprar os mesmos de tais pessoas; também não deve aceitar o convite para participar numa refeição na casa dum Am-haaeretz, e nem recebê-lo em sua casa com tais propósitos.

Texto rabínico M. Hagigah 2:7 — Para um fariseu, até mesmo as roupas de um Am-Haaeretz são suficientes para contaminá-lo e torná-lo impuro.

Texto rabínico B. Pesahim 49:b, depois de apresentar uma lista das qualidades desejáveis numa esposa, temos essa advertência: Mas que não se case com a filha dum Am-haaretz, porque são detestáveis e suas mulheres não passam de vermes. Também se diz o seguinte de suas filhas: Maldito seja aquele que se deitar com qualquer tipo de besta. E mais: É permitido esfaquear um Am-haaretz até mesmo no dia da expiação, mesmo que esse dia seja um sábado... Ninguém deve se associar com Am-haaretz como companheiro de viagem...Um devoto pode partir um Am-haaretz como faz com um peixe... Qualquer um que dá sua filha em casamento com um Am-haaretz faz o mesmo que amarrá-la e colocá-la diante dum leão; do mesmo modo que um leão não se envergonha de estraçalhar e devorar sua presa, assim também um Am-hararetz que ataca e coabita não tem nenhuma vergonha... Qualquer que estuda a Torá na presença de um Am-haaretz faz o mesmo que manter uma relação sexual com sua noiva na presença dele... Seis coisas são afirmadas acerca dos Am-haaretz: Não damos testemunho a favor deles; não aceitamos o testemunho deles a nosso favor; não revelamos nenhum tipo de segredo para eles; não os designamos com protetores de nossa crianças órfãs; não os indicamos como administradores de fundo de caridade; e não devemos compartilhar da companhia deles andando pelos caminhos.

Diante desse quadro, fica bem mais fácil entender o ódio que os fariseus sentiam pelos publicanos e pelos Am-haaretz e também por Jesus, por se associar com eles e ainda comer com os mesmos.

Nos dias de Jesus as refeições tinham grande importância no desenvolvimento duma amizade e também na identificação daquele que oferecia a refeição com aqueles que participavam da mesma. Isso fica bem evidente no Novo Testamento em passagens, tais como —

Lucas 14:7—14

7 Reparando como os convidados escolhiam os primeiros lugares, propôs-lhes uma parábola:

8 Quando por alguém fores convidado para um casamento, não procures o primeiro lugar; para não suceder que, havendo um convidado mais digno do que tu,

9 vindo aquele que te convidou e também a ele, te diga: Dá o lugar a este. Então, irás, envergonhado, ocupar o último lugar.

10 Pelo contrário, quando fores convidado, vai tomar o último lugar; para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, senta-te mais para cima. Ser-te-á isto uma honra diante de todos os mais convivas.

11 Pois todo o que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado.

12 Disse também ao que o havia convidado: Quando deres um jantar ou uma ceia, não convides os teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem vizinhos ricos; para não suceder que eles, por sua vez, te convidem e sejas recompensado.

13 Antes, ao dares um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos;

14 e serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.

Além disso, o ofício de pastorear era muito desprezado pelas elites judaicas como podemos perceber, claramente, no midrash do Salmos 23:2 feito pelo rabino José bar Hanina, que diz: “No mundo inteiro é impossível encontrar uma profissão mais desprezível do que a do pastor de ovelhas, pelo fato dele caminhar o dia inteiro com seu bordão e sua algibeira”. Entretanto, tanto Jacó quanto Davi e Asafe chamam Deus de “pastor”, conforme podemos ler em

Gênesis 49:24

O seu arco, porém, permanece firme, e os seus braços são feitos ativos pelas mãos do Poderoso de Jacó, sim, pelo Pastor e pela Pedra de Israel.

Salmos 23:1

O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.

Salmos 80:1

Dá ouvidos, ó pastor de Israel, tu que conduzes a José como um rebanho; tu que estás entronizado acima dos querubins, mostra o teu esplendor.

O escrito rabínico M. Qidusin 4:14 assume que os pastores são todos ladrões, porque conduzem seus rebanhos para pastar nas terras de outras pessoas.

Já o escrito rabínico B. Sanhedrin 25b inclui os pastores de ovelhas na lista de pessoas inelegíveis como testemunhas e associa os mesmos com os cobradores de impostos — publicanos. Além disso, o escrito rabínico B. Baba Qamma 94b afirma que é muito difícil para pastores se arrependerem e fazerem restituição de qualquer coisa que seja. Apesar de existirem várias outras passagens, cremos que essa são suficientes para os nossos propósito. Todavia, gastaríamos de citar apenas mais uma, por causa de sua relevância:

Texto rabínico de M. Qiddusin 4:14 — “Um homem não deve ensinar seu filho a se tornar condutor de jumentos ou de camelos, nem barbeiro ou marinheiro, nem pastor de gado miúdo — ovelhas, cabras e etc. — e nem mesmo proprietário dum comércio, porque esses trabalhos são todos trabalhos executados por ladrões”.

A afirmação de Jesus em Lucas 15:4 — Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas — era suficiente para causar nos escribas e fariseus enormes preocupações quanto a pureza cerimonial quando Jesus pede para que se vejam como pessoas envolvidas num tipo de comércio que consideravam impuro. Tal expressão nos lábios de Jesus era proposital e seria devidamente notada por esses hipócritas, mas fazia parte da estratégia retórica de Jesus[3]. Mas temos que enfatizar que, do ponto de vista bíblico, a figura do pastor é usada para se referir a Deus como aquele que tem profunda compaixão pelo seu povo. E essa mesma figura é usada para descrever a liderança do povo de Israel e do judaísmo no Antigo Testamento, incluindo-se ai a figura do grande libertador escatológico. Pessoas sem líderes ou submetidos a uma liderança ruim são caracterizados como ovelhas que não têm pastor. Para tudo isso basta ver as seguintes referências:

Salmos 28:9

Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre.

Jeremias 31:30

Ouvi a palavra do SENHOR, ó nações, e anunciai nas terras longínquas do mar, e dizei: Aquele que espalhou a Israel o congregará e o guardará, como o pastor, ao seu rebanho.

Ezequiel 34:15, 31

15 Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar, diz o SENHOR Deus.

31 Vós, pois, ó ovelhas minhas, ovelhas do meu pasto; homens sois, mas eu sou o vosso Deus, diz o SENHOR Deus.

Miqueias 7:14

Apascenta o teu povo com o teu bordão, o rebanho da tua herança, que mora a sós no bosque, no meio da terra fértil; apascentem-se em Basã e Gileade, como nos dias de outrora.

Marcos 6:34

Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compadeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas.

Mateus 26:31

Então, Jesus lhes disse: Esta noite, todos vós vos escandalizareis comigo; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas.

Retornando à parábola da ovelha perdida nós temos a impressão que o pastor citado é, também, o proprietário do rebanho mencionado. O tamanho do rebanho também indica que ele era um homem de posses consideráveis. Ele não era um homem rico, mas um rebanho composto de 100 ovelhas era dum tamanho digno de nota.

De acordo com o conhecimento que temos da vida das ovelhas, uma ovelha perdida, quando exausta, abre mão de continuar procurando o caminho de volta e se deita no chão com o abdômen tocando o solo e as quatro patas abertas, também sobre o chão. Ali ela fica esperando por socorro, ou até mesmo por algo pior[4]. Esse talvez seja o motivo porque o pastor se vê obrigado a deixar as outras 99 ovelhas em lugar seguro e partir em busca da ovelha perdida.[5]

O arrependimento mencionado por Jesus em Lucas 15:7 era o pilar central de todo o pensamento judaico dos seus dias. De acordo com o estudioso George Foot Moore “o arrependimento é a única, porém inexorável condição, para se obter o perdão de Deus e a restauração de seu favor e o perdão e favor divinos nunca são recusados para qualquer pecador  genuinamente arrependido”.[6]

A parábola da ovelha perdida é bastante realista com exceção do convite feito aos vizinhos para virem e celebrarem junto com o pastor, que pare certa liberdade poética adicionada à narrativa pelo próprio Jesus. Isso é ainda mais verdadeiro no caso da parábola da moeda perdida, porque tal ajuntamento implicaria num gasto adicional para bancar a celebração que poderia ir muito além do valor do bem encontrado. Por outro lado, as palavras de Jesus servem para enfatizar a realidade do fato de que Jesus estava, de fato, tendo refeições com pecadores, algo que serve para dar um destaque cada vez maior ao tema da verdadeira alegria ou júbilo, inclusive no céu.

A EXPLICAÇÃO DA PARÁBOLA

A. Opções de Interpretação

A Igreja Primitiva, em sua maior parte, sempre interpretou essa parábola como fazendo referência à encarnação de Jesus Cristo para salvar a humanidade perdida. Nesse contexto as outras noventa e nove ovelhas representam os anjos que foram deixados no céu. A maioria dos intérpretes modernos prefere entender a parábola como sendo a obra salvadora de Deus ou de Cristo. Eles enfatizam tanto a busca como o regozijo provocado pelo fato do pastor ter encontrado a ovelha. Alguns poucos intérpretes, todavia, colocam essa parábola na mesma categoria de outras que nos falam de pessoas que estão procurando pelo reino de Deus, como a parábola do tesouro escondido e a pérola de grande valor.

1. Decidindo por uma Interpretação

A relação entre Lucas 15:1—3 com Lucas 5:29—32 pode ser reconhecida com facilidade —

Lucas 5:29—32

29 Então, lhe ofereceu Levi um grande banquete em sua casa; e numerosos publicanos e outros estavam com eles à mesa.

30 Os fariseus e seus escribas murmuravam contra os discípulos de Jesus, perguntando: Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?

31 Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes.

32 Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento.

Lucas 15:1—3

1 Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir.

2 E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles.

3 Então, lhes propôs Jesus esta parábola.

Como as narrativas de Mateus e Lucas são bastante diferentes os estudiosos entendem que, como acontece com vários outros ensinamentos de Jesus, trata-se dum mesmo motivo utilizado em contextos diferentes conforme defende I. Howard Marshall em seu comentário exegético no texto grego de Lucas.[7] As duas narrativas — de Mateus e de Lucas — nos falam do esforço de Deus e de Sua atitude para salvar os perdidos. Muitos autores concluem o seguinte: Mateus se relaciona com a primeira parte da parábola — a busca — enquanto Lucas com a última — a alegria.

Da mesma forma como um pastor não descansa tranquilo ao perder uma ovelha, assim também acontece com Deus que não deseja que ninguém se perca —

1 Timóteo 2:3—4

3  Isto é bom e aceitável diante de Deus, nosso Salvador,

4  o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.

Concluindo podemos dizer que temos duas formas distintas da mesma parábola, com a de Lucas sendo mais precisa quanto às circunstâncias e as pessoas envolvidas. Desse modo não precisamos e nem devemos priorizar uma apresentação contra a outra.

2. Um pastor abandonaria as outras noventa e nove ovelhas? Qual a relevância desse fato para a compreensão da parábola?

Chega a ser quase inacreditável que muitos comentaristas acreditam que o ato do pastor abandonar as outras noventa e nove ovelhas é uma prova que a parábola é: 1) Absurda; 2) Que a misericórdia de Deus é um mistério; 3) Que o pastor é um irresponsável; 4) Que o pastor é o exemplo típico de alguém que assume riscos. Todavia, devemos deixar bem claro que tais interpretações violam os contextos culturais e literários envolvidos na parábola. O cuidado por uma ovelha não representa o descaso ou descuido pelas outras. Apesar do texto não fazer referência a isso, não temos como não imaginar que o pastor tenha deixado as noventa e nove dentro de algum cercado ou sob os cuidados de algum outro pastor[8]. De qualquer maneira um rebanho desse tamanho teria, certamente, mais do que um pastor apenas. Se o pastor tivesse abandonado as outras noventa e nove no deserto, então a narrativa de Lucas não faria sentido, pois depois de encontrar a ovelha perdida o pastor não retorna para as outras noventa e nove e sim para sua casa. Não teria o pastor retornado para o rebanho depois de ter encontrado a extraviada? O que o pastor fez com a ovelha perdida quando convidou seus vizinhos para se alegrarem com ele? Perguntas, perguntas. Mas o fato é que uma das muitas características da parábola é que as mesmas são marcadas por foco e  brevidade e não se preocupam com detalhes desnecessários. Quem se preocupa com esses detalhes somos nós. A parábola da Ovelha Perdida não se ocupa com nenhum detalhe representado pelas perguntas acima. O foco da parábola está na busca e na resultante alegria após ter encontrado a perdida. Nada mais é importante. Tornar as questões secundárias em questões relevantes, geralmente, produz resultados desastrosos para a interpretação. Toda tentativa de se produzir qualquer interpretação que tenha como base elementos que não estejam no texto, na maioria das vezes, se mostrará errada. Com isso em mente, podemos afirmar que qualquer foco centrado nas noventa e nove está fora do propósito original da parábola. Dizemos isso por dois motivos: 1) É apenas natural que os ouvintes/leitores da parábola tivessem a expectativa que o pastor devia deixar as noventa e nove e buscar a perdida; 2) A ideia que o pastor, simplesmente, abandonou as outras noventa e nove no deserto não encontra analogia semelhante nas duas próximas parábolas que seguem na narrativa de Lucas — a parábola da dracma perdida e a parábola dos dois filhos perdidos. Qualquer interpretação baseada nas noventa e nove, não deve ser levada a sério.

3. A Parábola da Ovelha Perdida foi Moldada com Base em Textos do Antigo Testamento?

Já tivemos a oportunidade de mencionar em outra parte dessa mesma parábola que imagens dum pastor conduzindo seu rebanho no Antigo Testamento fazem referência a Deus e aos líderes do povo de Israel. Ezequiel 34 é uma dessas passagens, porque ali encontramos um vocabulário muito parecido com o que temos na parábola que estamos estudando. Ezequiel 34 se refere a uma ovelha que se perdeu ou que se extraviou que são as duas expressões utilizadas por Mateus e Lucas na narrativa da Ovelha Perdida — ver Ezequiel 34:4 e 16 e comparar com Mateus 18:2 e Lucas 15:4.

O texto de Ezequiel 34 diz mais ainda. Nele temos afirmado o seguinte:

a. Ovelhas desgarradas por todos os montes — Ezequiel 34:6.

b. O próprio Deus irá procurar e buscar suas ovelhas — Ezequiel 34:11.

c. O próprio Deus irá cuidar de suas ovelhas — Ezequiel 34:16.

d. Deus irá julgar os que oprimem suas ovelhas — Ezequiel 34:17, 20—22.

e. O texto afirma que Deus levantará a Davi para cuidar de suas ovelhas — Ezequiel 34:23—24.

Outros textos também têm essas mesmas ênfases: Que Deus irá cuidar de seu povo e que levantará a Davi como pastor sobre elas. Algumas das outras passagens são:

Jeremias 23:1—6

1 Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto! —diz o SENHOR.

2 Portanto, assim diz o SENHOR, o Deus de Israel, contra os pastores que apascentam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes, e delas não cuidastes; mas eu cuidarei em vos castigar a maldade das vossas ações, diz o SENHOR.

3 Eu mesmo recolherei o restante das minhas ovelhas, de todas as terras para onde as tiver afugentado, e as farei voltar aos seus apriscos; serão fecundas e se multiplicarão.

4 Levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e elas jamais temerão, nem se espantarão; nem uma delas faltará, diz o SENHOR.

5 Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra.

6 Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará seguro; será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa.

Zacarias 11:3—17

3 Eis o uivo dos pastores, porque a sua glória é destruída! Eis o bramido dos filhos de leões, porque foi destruída a soberba do Jordão!

4 Assim diz o SENHOR, meu Deus: Apascenta as ovelhas destinadas para a matança.

5 Aqueles que as compram matam-nas e não são punidos; os que as vendem dizem: Louvado seja o SENHOR, porque me tornei rico; e os seus pastores não se compadecem delas.

6 Certamente, já não terei piedade dos moradores desta terra, diz o SENHOR; eis, porém, que entregarei os homens, cada um nas mãos do seu próximo e nas mãos do seu rei; eles ferirão a terra, e eu não os livrarei das mãos deles.

7 Apascentai, pois, as ovelhas destinadas para a matança, as pobres ovelhas do rebanho. Tomei para mim duas varas: a uma chamei Graça, e à outra, União; e apascentei as ovelhas.

8 Dei cabo dos três pastores num mês. Então, perdi a paciência com as ovelhas, e também elas estavam cansadas de mim.

9 Então, disse eu: não vos apascentarei; o que quer morrer, morra, o que quer ser destruído, seja, e os que restarem, coma cada um a carne do seu próximo.

10 Tomei a vara chamada Graça e a quebrei, para anular a minha aliança, que eu fizera com todos os povos.

11 Foi, pois, anulada naquele dia; e as pobres do rebanho, que fizeram caso de mim, reconheceram que isto era palavra do SENHOR.

12 Eu lhes disse: se vos parece bem, dai-me o meu salário; e, se não, deixai-o. Pesaram, pois, por meu salário trinta moedas de prata.

13 Então, o SENHOR me disse: Arroja isso ao oleiro, esse magnífico preço em que fui avaliado por eles. Tomei as trinta moedas de prata e as arrojei ao oleiro, na Casa do SENHOR.

14 Então, quebrei a segunda vara, chamada União, para romper a irmandade entre Judá e Israel.

15 O SENHOR me disse: Toma ainda os petrechos de um pastor insensato,

16 porque eis que suscitarei um pastor na terra, o qual não cuidará das que estão perecendo, não buscará a desgarrada, não curará a que foi ferida, nem apascentará a sã; mas comerá a carne das gordas e lhes arrancará até as unhas.

17 Ai do pastor inútil, que abandona o rebanho! A espada lhe cairá sobre o braço e sobre o olho direito; o braço, completamente, se lhe secará, e o olho direito, de todo, se escurecerá.

Diante dessas passagens não temos como contra-argumentar acerca da influência de passagens do Antigo Testamento na criação da parábola da Ovelha Perdida.

Tudo isso nos leva outros dois aspectos muito importantes na narrativa da parábola da Ovelha Perdida:

a. A parábola é uma severa crítica contra as lideranças daqueles dias por falharem em cuidar das ovelhas representadas pelo povo de Israel. Eles não estavam fazendo nada no sentido de buscar e salvar as ovelhas perdidas.

b. Jesus, por sua vez, assume o papel de pastor do povo e se declara como aquele que faz a vontade de Deus colocando-se a serviços das ovelhas.

Outras implicações de textos do Antigo Testamento poderá ser vista na longa defesa que Kenneth Bailey faz acerca do uso de imagens do Salmo 23 no contexto da Parábola da Ovelha Perdida[9].

A contribuição singular de Bailey na discussão da parábola da Ovelha Perdida e seu relacionamento com o Salmo 23 está em seu argumento que a afirmação “refrigera-me a alma” em Salmos 23:3 pode ser traduzida pela expressão “resgata minha alma”. Nesse sentido a mesma teria então os seguintes sentidos: a) Ele me faz voltar; b) Ele me faz com que me arrependa. Para Bailey o arrependimento representa a “aceitação de ter sido encontrado”.

Concluindo essa parte, podemos afirmar o seguinte: O uso de figuras retiradas do Antigo Testamento suprem as palavras do Senhor Jesus com imagens poderosas e facilmente compreendidas pelos ouvintes que apontam para: a) uma acusação direta de Jesus contra os líderes judeus de sua época no que diz respeito ao cuidado que deveriam ter com as ovelhas; b) o caráter amoroso de Deus e seu próprio ministério caracterizado pelas palavras buscar e salvar:

Lucas 19:10

Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido.

4. As características da parábola representam realidades teológicas? O pastor deve ser identificado com Deus, com Jesus, com os discípulos ou com qualquer pessoa que esteja buscando o reino de Deus? E, acima de tudo, existem implicações cristológicas nessa parábola?

Na parte anterior nós tivemos a oportunidade de destacar que os Pais da Igreja enxergavam a encarnação do Filho de Deus na narrativa dessa parábola. Além disso, vimos que o professor K. Bailey, em seu comentário nas Parábolas de Jesus em Lucas, visualizou a expiação no empenho demonstrado pelo pastor[10]. Outros autores, como J. Bengel chegaram à conclusão que o retorno do pastor para sua casa, na narrativa, corresponde ao retorno de Jesus para o lar celestial[11]. Para nós esse tipo de interpretação alegórica está fora dos limites que nos impomos, mas entendemos que, quando estamos lidando com parábolas, especialmente com essa parábola, as mesmas ensinam teologia sim. Se não for assim, elas seriam inúteis para qualquer propósito, salvo o mero entretenimento dos ouvintes.

Isso nos leva para a pergunta número um quando abordamos uma parábola, qualquer parábola: quanto da parábola possui importância teológica? A chave para isso é determinar de que maneira a analogia funciona dentro da parábola. Precisamos também tomar muito cuidado com a linguagem utilizada pelo autor: primeiro Jesus, depois Lucas. A parábola da ovelha perdida não afirma que Deus é um pastor, do mesmo modo que as duas parábolas seguintes não afirmam que Deus é uma mulher ou um pai. Essas três parábolas são analogias implícitas. As ações e as atitudes descritas — e não as pessoas envolvidas — refletem as ações e as atitudes do próprio Deus e do Senhor Jesus. A parábola da ovelha perdida é uma analogia que leva em conta o argumento que diz: se as coisas são assim, então quanto mais elas serão se... O pastor não é Deus, nem Jesus nem qualquer outra pessoa. E a ovelha não é representativa duma pessoa ou de um grupo de pessoas. Todas essas figuras encontram-se na história e devem permanecer, estritamente, dentro da história. Por outro lado, é mais certo ainda que as montanhas, o deserto e os vizinhos não representam nada mesmo. Mas ao mesmo tempo, as imagens selecionadas para compor as narrativas não são escolhidas ao acaso. Elas são escolhidas para provocarem certas reações, pois ao mencionarem o pastor e as ovelhas auxiliam as pessoas com imagens do Deus do Antigo Testamento, da liderança do Povo de Israel no passado e da esperança prometida ao povo de Deus — ver parte anterior.

Não existe absolutamente nada na parábola que nos possa fazer acreditar que a mesma descreve uma pessoa que está buscando o reino de Deus, conforme alega o pessoal do chamado Seminário de Jesus, na pessoa de seu mentor John Dominic Crossan. A opinião de Crossan é a grande responsável pelo surgimento da grande onda de pessoas correndo atrás da salvação — chamados de seeker ou buscadores — como defendida pelos papas do evangelismo de passado recente, como Rick Warren e Carlos Castellanos. Como acontece com todos os que não sabem nadar, eles acabaram se afogando na própria onda que tentaram surfar. Mas ganharam muito dinheiro com isso.

Dessa forma podemos afirmar que a lógica da parábola, mais coerente com a narrativa é: Como deve ser do entendimento geral, em condições normais, um pastor sempre irá em busca duma ovelha perdida, e irá se alegrar muito quando conseguir encontrá-la. Se isso é assim entre os homens, então quanto mais tais condições serão verdadeiras a respeito de Deus, que veio buscar e salvar o perdido? Tanto Mateus quanto Lucas procuram nos mostrar a pessoa de Deus como sendo análoga à pessoa do pastor na forma como estruturam suas narrativas. Com isso, se aproveitam das imagens já conhecidas pelas pessoas acerca do que afirmam as Escrituras do Antigo Testamento com respeito a esses fatos.

E a parábola é sim importante do ponto de vista cristológico. As associações com as narrativas do Antigo Testamento estabelecem, fortemente, a esperança que Deus irá estabelecer um descendente de Davi como pastor sobre seu povo.

Jeremias 23:4—5

4 Levantarei sobre elas pastores que as apascentem, e elas jamais temerão, nem se espantarão; nem uma delas faltará, diz o SENHOR.

5 Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que levantarei a Davi um Renovo justo; e, rei que é, reinará, e agirá sabiamente, e executará o juízo e a justiça na terra.

Ezequiel 34:23—24

23 Suscitarei para elas um só pastor, e ele as apascentará; o meu servo Davi é que as apascentará; ele lhes servirá de pastor.

24 Eu, o SENHOR, lhes serei por Deus, e o meu servo Davi será príncipe no meio delas; eu, o SENHOR, o disse.

Ezequiel 37:24

O meu servo Davi reinará sobre eles; todos eles terão um só pastor, andarão nos meus juízos, guardarão os meus estatutos e os observarão.

Miquéias 5:2—4

2 E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade.

3 Portanto, o SENHOR os entregará até ao tempo em que a que está em dores tiver dado à luz; então, o restante de seus irmãos voltará aos filhos de Israel.

4 Ele se manterá firme e apascentará o povo na força do SENHOR, na majestade do nome do SENHOR, seu Deus; e eles habitarão seguros, porque, agora, será ele engrandecido até aos confins da terra.

Se Jesus defende seu ato de se alimentar junto com pecadores apontando para o caráter de Deus e afirmando que Deus é como um pastor em busca dos perdidos, então o Senhor Jesus está, de modo implícito, afirmando que ele está fazendo a vontade de Deus. Pelo menos na parábola narrada em Lucas, nós temos plena certeza que a menção do pastor aponta tanto para o caráter de deus, como para as atividades de Jesus. Sem o entendimento ou a aceitação desses aspectos cristológicos, qualquer explicação da parábola torna-se superficial.

5. O que a parábola nos ensina acerca do arrependimento? Algumas pessoas não precisam de arrependimento?

A primeira coisa que devemos registrar quando tentamos responder as perguntas acima é que a posição de Jesus no que diz respeito ao arrependimento é frontalmente contrária à posição sustentada pelo judaísmo e pelo nacionalismo judaico da época, que viam o arrependimento como mérito da parte dos judeus[12].
Mas a parábola trata do tema do arrependimento? Temos que admitir que, a parábola em si mesma, não trata da questão do arrependimento. A parábola não nos apresenta uma definição de arrependimento e nem culpa a ovelha por ter se extraviado. O que a parábola faz é nos apresentar uma analogia do modo como Deus age, ou reage, com respeito às atitudes dos que estão perdidos. A ideia do arrependimento é mencionada apenas no texto de Lucas e a mesma está ausente do texto de Mateus. Nesse último a ênfase está colocada na alegria experimentada no céu pela restauração dos perdidos. Já para Lucas, a restauração do perdido está relacionada ao arrependimento. De qualquer forma que seja, a ideia do arrependimento não pode ser minimizada, independentemente do que falamos na abertura desse parágrafo.

Ainda nessa questão envolvendo o arrependimento, a pergunta mais intrigante diz respeito aos noventa e nove justos que não necessitam do mesmo, conforme Lucas 15:7. Uma vez que, da perspectiva teológica, assume-se que tais pessoas justas não existem e que os evangelhos entendem que os próprios fariseus precisavam de arrependimento, então a afirmação de Jesus é vista como sendo: irônica, exagerada ou, até mesmo, sarcástica. Mas analisando bem o texto não creio que essa seja a solução mais viável para a dificuldade apresentada pelo mesmo. É fato que o judaísmo atribuía uma ausência absoluta de pecado a certos personagens. Por outro lado, a expressão justo não indicava a ausência absoluta de pecado na vida duma pessoa descrita dessa maneira. Ela se refere a todas as pessoas que, de alguma maneira, acertaram sua condição diante de Deus. O arrependimento era algo tão central no pensamento judaico que é difícil de imaginar que os judeus pensassem que eles ou até mesmo a maioria das pessoas não necessitavam de arrependimento. A ideia que poderiam existir, entre eles, 99 pessoas que não necessitavam de arrependimento era incabível no pensamento judaico. Todavia, uma ideia semelhante é apresentada em —
Lucas 5:31—31

31 Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes.

32 Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento.

E em Lucas 15, na parábola dos dois filhos perdidos, o mais velho alega nunca ter transgredido nem mesmo um mínimo mandamento de seu pai. Era, portanto, junto nesse sentido — Lucas 15:29.

Por outro lado, temos as palavras de Jesus que ensinam, com clareza, que todos precisam se arrepender ou perecerão.

Lucas 13:3

Não eram, eu vo-lo afirmo; se, porém, não vos arrependerdes, todos igualmente perecereis.

Os pais da Igreja procuraram evitar a dificuldade alegando que o número noventa e nove fazia referência aos anjos.
Já o renomado autor I. Howard Marshall[13] sugere que falta no texto uma palavra que precisa ser suprida. Para ele, então, a leitura em vez de ser:

“do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”

Deveria ser:

“Mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento”

Com isso, os noventa e nove justos são relativizados e é como se os mesmos fossem citados apenas como uma ilustração e não algo real. Todavia, nesse caso devemos ponderar dois importantes aspectos:

1. Modificações no texto original não devem ser bem-vindas, independentemente de onde tenham se originado.

2. Nossa necessidade é centrarmos o foco na função exercida pelas palavras utilizadas pelo Senhor Jesus. A intenção primordial de Jesus é valorizar os perdidos e os desprezados pela sociedade daqueles dias, especialmente pelos fariseus, e não devemos centrar nosso foco nos noventa e nove chamados justos. A importância de entendermos as palavras de Jesus de modo adequado em Lucas 15:7 é perceptível pelo fato das últimas palavras serem a consequência natural duma escalada que se inicia com a expressão digo-vos utilizada por Jesus, para enfatizar a verdade de sua afirmação.

Lucas 15:7

Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

Leituras parafraseadas do verso acima, tentando entender a intenção de Jesus — algo muito subjetivo — apresentam as seguintes possibilidades:

1. Um pecador arrependido traz mais alegria para Deus, que noventa e nove pessoas que já estão reconciliadas com Deus.

Ou,

2. Um pecador arrependido traz mais alegria para Deus do que noventa e nove pessoas que estão reconciliadas com Deus.
Que a ênfase de Jesus está no valor colocado sobre os perdidos fica mais evidente na passagem paralela de Mateus onde lemos o seguinte, já no início da passagem:

Mateus 18:10

Vede, não desprezeis a qualquer destes pequeninos; porque eu vos afirmo que os seus anjos nos céus veem incessantemente a face de meu Pai celeste.

As palavras de Jesus acima são uma forma metafórica de indicar a grande importância dos chamados pequeninos. Desse modo, a ênfase de Jesus está na importância dos perdidos que precisam de salvação e não tanto na ideia de arrependimento. Esse último é crucial para a salvação, mas não é o elemento principal da parábola da ovelha perdida. 

6. O Que Essa Parábola nos Ensina?

O propósito principal porque Jesus proferiu essa parábola era defender sua escolha deliberada em se associar com pessoas que eram notoriamente caracterizadas como sendo pecadoras. Ao se unir e realizar refeições na companhia de tais pessoas, Jesus demonstrava, de modo inequívoco, a presença do reino de Deus e o consequente perdão dos pecados. Por outro lado, a parábola também pode ser considerada como sendo ainda mais uma acerca do reino de Deus, pois com ela Jesus afirma que a promessa feita por Deus no passado, de cuidar como pastor do Seu próprio povo, estava, de fato, se cumprindo. Por fim, Jesus desejava mostrar por meio dessa parábola, a todos que estavam reclamando de Suas atitudes, que tal reclamação era incompatível tanto com o caráter, como com os desejos manifestos de Deus. Jesus convida a todos para participarem da alegria produzida pelo perdão gratuito oferecido a todos por meio da manifestação do reino de Deus.

O desejo de Lucas é que seus leitores entendessem o evangelho de Jesus e adotassem a mesma atitude demonstrada pelo Senhor. Uma implicação adicional no texto de Lucas é que nele encontramos uma acusação de que os líderes religiosos de Israel não estavam cumprindo com suas verdadeiras responsabilidades. Mateus, por sua vez, deseja que seus leitores se apropriem das características de caráter do próprio Deus e de Sua vontade revelada e apliquem as mesmas a todos os seus relacionamentos na comunidade, especialmente com relação àqueles que se encontram marginalizados. O elemento que deve controlar a vida do povo de Deus é o conhecimento do caráter do próprio Deus. E aqui, não estamos falando de uma abstração qualquer, porque o caráter de Deus é manifestado e revelado nas ações e no ministério do próprio Senhor Jesus.

O que essa parábola nos revela acerca do caráter de Deus é o valor que o Senhor atribui a todas as pessoas, especialmente às menos favorecidas, e o cuidado que Ele dedica a todos, sem exceção. Deus não está distante, como que aguardando que nos aproximemos dEle. Pelo contrário, Ele é o Deus que toma a iniciativa e vai à busca do perdido com o objetivo de encontrá-los e trazê-los de volta para a plena comunhão consigo. Isso é realizado por Deus, independentemente, de quão perdido o pecador esteja. Ninguém, absolutamente, ninguém, está fora do alcance da mão misericordiosa de Deus. Esse ensinamento de Jesus — de que o próprio Deus vai à busca dos pecadores — é, de acordo com o estudioso judeu Claude Montefiore, parte do novo material que o próprio Jesus trouxe e que ainda não tinha sido revelado no Antigo Testamento e também não fazia parte dos ensinamentos rabínico daquela época.[14] Todavia, devemos contra-argumentar que tal afirmação é bastante exagerada. Dizemos isso pela longa lista de versos do Antigo Testamento que já foram apresentados e que nos falam do interesse de Deus pelas pessoas e de como o próprio Deus é quem inicia todos os processos salvíficos e de oferecimento de perdão. Assim, o Deus revelado por Jesus é um Deus interessado e cuidadoso que valoriza até mesmo os que não têm valor algum, e se empenha em procurá-los até encontrá-los. Isso está bem claro nas seguintes afirmações:

Romanos 5:6—8

6 Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.

7 Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer.

8 Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.

Romanos 8:31–38

31 Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?

32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?

33 Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica.

34 Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.

35 Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?

36 Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro.

37 Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.

38 Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes,

39 nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Se o reino de Deus se manifesta com graça sem limites, mas também com exigências sem limites então, essa parábola enfatiza a graça ilimitada. Não temos dúvidas que Deus irá buscar e restaurar o perdido. A busca e a alegria resultante de encontrar o que estava sendo buscado, são os dois pilares que sustentam essa parábola. Todavia, devemos deixar claro que a busca de Deus é graciosa e não interesseira. Autores como J. Jeremias e J. Fitzmyer defendem a ideia que Lucas 15:7 introduz a ideia do juízo por meio do uso da expressão haverá.[15], [16] Mas isso está aberto a muita discussão. A alegria mencionada por Jesus reflete tanto a atitude de Deus em conseguir resgatar o perdido, quanto a celebração pelo fato de que as boas novas de salvação trazidas pelo reino de Deus já começaram a se manifestar. Tal manifestação de alegria é comunitária e todos os ouvintes de Jesus, inclusive eu e você, devem se unir nessa celebração.

7. Adaptando a Parábola aos Nossos Dias.

A parábola da ovelha perdida é tanto teológica quanto cristológica, e o fator mais importante na adaptação da mesma para os nossos dias é entendermos como Deus é e qual era a natureza do ministério de Jesus. Poucas coisas são mais importantes do que nossa percepção acerca de Deus, uma vez que é da mesma que nós temos a possibilidade de perceber nossa própria identidade, como devemos pensar e agir, e como o mundo deve ser.

Se Deus é um Deus que busca o perdido e cuida do mesmo, então sua graça assim demonstrada, deve caracterizar a forma como nós percebemos e tratamos outros seres humanos. A percepção que Deus cuida e tem interesse em nossas vidas produz confiança e liberdade de viver. Com a graça de Deus para conosco como fator determinante em nossas vidas, nós devemos tratar outros seres humanos com respeito e sensibilidade. Nossa tendência é reconhecer essas verdades apenas da perspectiva abstrata. Mas é da maior importância que as mesmas sejam transformadas em coisas práticas no que dizem respeito:

a. À forma com enxergamos a nós mesmos.

b. No modo com tratamos outros seres humanos.

c. Como organizamos a vida de nossas igrejas locais.

Nós temos a tendência de sempre pensar que Deus é mais duro do que ele realmente é e, por isso, nos preocupamos mais com as noventa e nove ovelhas que estão seguras do que com a ovelha que está perdida. Será que as pessoas perdidas, desobedientes a Deus e que consideramos insignificantes, conseguem ver em nós que o Deus Verdadeiro tem amor por elas e está empenhado em procurá-las e salvá-las?

O texto de Mateus nos mostra que Deus está interessado não apenas nas ovelhas que estão perdidas, mas também naquelas que estão marginalizadas dentro do próprio rebanho. Muitas vezes nós estamos mais interessados em arrebanhar novas pessoas do que em trabalhar com aqueles que já se encontram entre nós. A graça de Deus manifestada em sua busca e cuidado se revela a favor de todos os seres humanos e nós devemos tomar Deus como nosso exemplo e nos envolver com todas as pessoas, tanto os perdidos como os marginalizados dentro de nossas próprias comunidades.

O texto da parábola que encontramos em Lucas enfatiza o arrependimento, um passo que se exige de cada um de nós. Não precisamos temer que o arrependimento nos exponha como se estivéssemos tentando alcançar nossa salvação por méritos próprios. Quando o assunto é salvação, as Escrituras são claras: a iniciativa é sempre de Deus:

Jonas 2:9

Mas, com a voz do agradecimento, eu te oferecerei sacrifício; o que votei pagarei. Ao SENHOR pertence a salvação!

Para que não tenhamos nenhuma dúvida acerca de como dependemos completamente do Senhor para nossa salvação, basta nos lembrar que, quando Jonas falou as palavras acima ele estava no ventre do grande peixe e nas profundezas do mar. Não havia nada que ele pudesse fazer para se salvar.

Além disso, as Escrituras também nos ensinam que toda reação humana é sempre motivada pela graça do próprio Deus. A Salvação pertence a Deus, mas nós estamos completamente envolvidos nesse processo.

Outro aspecto da parábola que merece nossa atenção nessa conclusão tem a ver com a alegria. A adoração cristã dos nossos dias está tão submetida a certos padrões fixos que, na maioria das vezes, não percebemos nenhum sinal de verdadeira alegria. Nossa adoração é profissional, músicos competentes, cantores afinados, pastores sempre dispostos a falar o que a audiência deseja ouvir. Mas alegria verdadeira mesmo que é bom é difícil de ser encontrada. A alegria que reina no céu deve ser uma das marcas mais evidentes na vida daqueles que estão sendo preparados para habitar no céu por toda a eternidade. Os céus vibram de alegria com cada pecador que se arrepende. O próprio Deus que se alegra em buscar e salvar o que está perdido deve ser maior motivo para adotarmos uma vida onde a alegria seja mais visível. Como Deus nós também devemos celebrar toda e qualquer recuperação, seja de pessoas perdidas ou pela integração daqueles que estão marginalizados dentro das nossas comunidades.

Outras Parábolas de Jesus Podem ser encontradas nos Links abaixo:

001 – O Sal

002 – Os Dois Fundamentos

003 – O Semeador

004 – O Joio e o Trigo =

005 – O Credor Incompassivo

006 — O Grão de Mostarda e o Fermento

007 — Os Meninos Brincando na Praça
008 — A Semente Germinando Secretamente

009 e 010 — O Tesouro Escondido e a Pérola de Grande Valor

011 — A Eterna Fornalha de Fogo

012 — A Parábola dos Trabalhadores na Vinha

013 — A Parábola dos Dois Irmãos

014 — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 1

014A — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 2

015 — A Parábola das Bodas —

016 — A Parábola da Figueira

017 — A Parábola do Servo Vigilante

018 — A Parábola do Ladrão

019 — A Parábola do Servo Fiel e Prudente

020 — A Parábola das Dez Virgens

021 — A Parábola dos Talentos

022 — A Parábola das Ovelhas e dos Cabritos

023 — A Parábola dos Dois Devedores

024 — A Parábola dos Pássaros e da Raposa

025 — A Parábola do Discípulo que Desejava Sepultar Seu Pai

026 — A Parábola da Mão no Arado

027 — A Parábola do Bom Samaritano — Completo

027A — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 1

027B — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 2 — Os Ladrões e o Sacerdote

027C — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 3 — O Levita

027D — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 4 — O Samaritano

027E — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 5 — O Socorro

027F — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 6 — O transporte até a hospedaria

027G — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 7 — O pagamento final

027H — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 8 — O diálogo final entre Jesus e o doutor da Lei

028 — A Parábola do Rico Tolo —

029 — A Parábola do Amigo Importuno —

030 — A Parábola Acerca de Pilatos e da Torre de Siloé

031 — A Parábola da Figueira Estéril

032 — A Parábola Acerca dos Primeiros Lugares

033 — A Parábola do Grande Banquete

034 — A Parábola do Construtor da Torre e do Grande Guerreiro

035 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 001

036 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 002


037 — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Completa
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/06/parabolas-de-jesus-sermao-037-parabola.html

037A — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 001

037B — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 002

037C — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 003

037D — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 004 — A Influência do Antigo Testamento

037E — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 005 — Características Cristológicas da Parábola da Ovelha Perdida

037F — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 006 — A importância das pessoas perdidas.

037G — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 007 — O que essa parábola nos ensina.

037H — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 008 — Conclusão.
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/05/parabolas-de-jesus-sermao-037h-parabola.html

037 — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Completa
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/06/parabolas-de-jesus-sermao-037-parabola.html



038A — PARÁBOLAS DE JESUS — A PARÁBOLA DA DRACMA PERDIDA — LUCAS 15:8—10 —— PARTE 001

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.

NOTAS


[1]  Similitude — s.f. Característica ou estado do que é similar; semelhança.

[2] A Bíblia de Jerusalém, Eclesiástico 13:17. Edições Paulinas, São Paulo, 1980.

[3] Bailey, Kenneth E. Poet and Peasant: A Literary Cultural Approach to the Parables in Luke. William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, 1983.

[4] Fitzmyer, A. Joseph. The Gospel According to Luke in Two Volumes — The Anchor Bible Series volumes 28 e 28A. Double day and Company, Garden City, 1981.

[5] Jeremias, Joachim. As Parábolas de Jesus na Nova Coleção Bíblica. Paulus, São Paulo, 1997.

[6] Moore, Foot George.  Judaism in the First Centuries of The Chistian Era: The Age of the Tanaim. Harvard University Press, Cambridge, 1950.

[7] Marshall, I. Howard. The Gospel of Luke em The New International Greek Testament Commentary. Eerdmans Publishing House

[8] Jeremias, J. As Parábolas de Jesus na Nova Coleção Bíblica. Editora Paulus, São Paulo, 2004

[9] Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas. Edições Vida Nova, São Paulo, 1995

[10] Bailey, Kenneth E. As Parábolas de Lucas. Edições Vida Nova, São Paulo, 1995.

[11] Bengel, Jonh Albert.  Gnomon of the New Testament  — 3 Volumes. T. & T. Clark, Edimburgh, 1873.

[12] Para maiores detalhes a esse respeito ver as seguintes obras de Kenneth Bailey: Finding the Lost: Cultural Keys to Luke 15. Concordia Publishing, St. Loius, 1992; Jacob & the Prodigal: How Jesus Retold Israel´s Story. IVP Academics, Downers Grove, 2003.

[13] Marshall, I. Howard. The Gospel of Luke: A Commentary on the Greek Text. William B. Eerdmans, Grand Rapids, 1978.

[14] Montefiore, C. G. The Synoptic Gospels — 2 Volumes. Macmillan, Londres, 1927.

[15] Jeremias, J. As Parábolas de Jesus. Paulus, São Paulo, 1976.

[16] Fitzmyer, Joseph A. The Gospel According to Luke X—XXIV. Doubleday & Company, INC, Garden City, 1983.

Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.