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sábado, 25 de novembro de 2017

GÊNESIS — ESTUDO 056 — O PERÍODO PATRIARCAL — O CHAMADO DE ABRAÃO


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               וַיֵּרָא יְהוָה אֶל־אַבְרָם וַיֹּאמֶר אֵלָיו אֲנִי־אֵל שַׁדַּי הִתְהַלֵּךְ לְפָנַי וֶהְיֵה תָמִים׃
    perfeito sê e presença  minha    na anda Poderoso-Todo   Deus  o sou Eu disse-lhe e  Abrão a  Deus  SENHOR o apareceu
Gênesis 17:1b

I. A Transição Entre os Capítulos 11 e 12 do Livro do Gênesis.

Ao lermos os onze primeiros capítulos do Livro do Gênesis não podemos evitar a triste constatação de que, à medida que o tempo passa, duas coisas sempre se repetem. Elas são:

1. Que os homens vão sempre e de forma contínua derivando para práticas pecaminosas que os levam a se afastar cada vez mais de Deus. Ver Gênesis 6:5, especialmente as palavras que dizem: “era continuamente mau todo o desígnio do seu coração”.

2. Que Deus sempre intervém visando manter vivas as informações necessárias acerca da salvação. Todos aqueles que aqui e ali fazem a pergunta: “Onde está ou estava Deus?”, encontram nesses primeiros capítulos de Gênesis resposta mais que suficiente para suas indagações. Certamente, se Deus não tivesse interferido neste nosso mundo por muitas e repetidas vezes, as coisas estariam bem piores do que estão.

Dos três filhos de Terá, Abrão foi o escolhido por Deus para fundar uma nova nação na qual a luz da salvação pudesse ser preservada até os últimos dias, de acordo com o plano estabelecido por Deus desde antes da fundação do mundo. É através da família de Abrão e de seus descendentes que a promessa do evangelho feita em Gênesis 3:15 irá encontrar pleno cumprimento.

II. O Aparecimento de Abrão – Gênesis 12:1—20.

Quando consideramos a vida de Abrão – ela se estende de Gênesis 11:27 a 25:11 — não podemos deixar de notar que tanto as primeiras como as últimas palavras que Deus lhe dirigiu, são muito parecidas. Vejamos:

1. A primeira palavra de Deus dirigida diretamente a Abrão está em —

Gênesis 12:1

Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei.

2. A última palavra de Deus dirigida a Abrão encontra-se em —

Gênesis 22:2

Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei.

Estas duas palavras possuem mais elementos coincidentes do que podemos imaginar. Nas duas Teofanias — manifestações onde Deus se faz visível aos olhos humanos — mencionadas acima, nós temos um verbo no modo imperativo seguido de um triplo objetivo:

Gênesis 12:1 possui um verbo inicial no modo imperativo: לֶךְ  leqe —que quer dizer: sai. Este verbo é seguido pelos seguintes objetivos:

1. Sai da tua terra.

2. Sai da tua parentela.

3. Sai... e vai para a terra que te mostrarei.

Nesse versículo nós podemos notar um movimento que vai do geral para o particular. De uma condição onde existe menos intimidade com Deus para outra, onde existe mais intimidade. À medida que Deus fala, a proximidade entre Deus e Abrão aumenta de tal maneira, que Deus substitui e supre tudo aquilo que Abrão estava abrindo mão ou perdendo.

Gênesis 22:2, por sua vez, possui um verbo inicial no modo imperativo: קַח — qach – que quer dizer: toma. E esse verbo é seguido pelos seguintes objetivos:

1. Toma teu filho.

2. Toma... teu único filho.

3. Toma... e vai-te.

Note que nas duas referências Deus não diz a Abrão, onde exatamente Ele pretendia levá-lo. Tudo o que Deus faz é apontar a direção que Abrão precisa seguir. É necessário exercitar fé para seguir para um lugar que a gente nem sabe onde fica. Em Gênesis 12:1 Deus lhe diz apenas: vai para a terra que te mostrarei. Já em Gênesis 22:2 Deus lhe diz: vai-te à terra de Moriá... um dos montes, que eu te mostrarei. E foi exatamente isso que Abrão fez —

Hebreus 11:8

Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia.

No texto de Hebreus, note como a fé é caracterizada por uma série de decisões de acreditar em Deus e Sua palavra. A nossa fé cristã é assim mesmo. Ela não é um sentimento, nem algo irracional que não pode ser comunicado ou explicado. A fé cristã é uma fé, acima de tudo, racional e que se justifica por tomadas de decisão bem características. Para resumir podemos dizer que A FÉ É UMA DECISÃO. É a decisão de acreditar em Deus e em Sua palavra independentemente das circunstâncias. Este é o tipo de fé que Abrão demonstra. Que nos sirva de lição.

Este autor é da opinião que os diálogos mencionados no livro de Gênesis entre Deus e Abrão tiveram ocasião por sucessivas teofanias. Mas devemos registrar que outros autores pensam que Deus se comunicava com Abrão através de sonhos. Independente da forma, nós podemos afirmar que em todas essas ocasiões, Abrão reconheceu que estava ouvindo a voz do próprio Deus e que o mais sensato era obedecer. O mesmo deve ser verdadeiro para nós. Quando tomamos a Bíblia em nossas mãos, nós devemos nos lembrar que trata-se de um registro escrito das palavras que foram proferidas pelo próprio Deus, e isso deve nos encher de espanto e de reverente temor. A Bíblia é a palavra de Deus para nós como as teofanias trouxeram a presença e a palavra de Deus para Abrão. Faremos bem em ouvir o que Deus tem a dizer, mas não podemos nos enganar a nós mesmos e nem deixar que nos enganem. Nossos corações não possuem, naturalmente, o desejo de crer em Deus e Sua Palavra. Muito pelo contrário. O profeta Jeremias diz:

Jeremias 17:9

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?

Nossa inclinação para o mal é tão marcante e característica que o próprio Deus insiste, através de Moisés, com as seguintes palavras:

Deuteronômio 30:15—20

Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal; se guardares o mandamento que hoje te ordeno, que ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então, viverás e te multiplicarás, e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra à qual passas para possuí-la. Porém, se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores seduzido, e te inclinares a outros deuses, e os servires, então, hoje, te declaro que, certamente, perecerás; não permanecerás longo tempo na terra à qual vais, passando o Jordão, para a possuíres. Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência  amando o SENHOR, teu Deus, dando ouvidos à sua voz e apegando-te a ele

III. O Chamado de Abrão — Gênesis 12:1—4.

Abrão ouve a voz de Deus e decide, pela fé, seguir a orientação recomendada. Acerca do seu chamamento nos podemos dizer o seguinte:

1. Foi um chamado distinto e seletivo como é tão comum da parte de Deus através de toda a Bíblia. As escolhas de Deus não são baseadas em nenhum tipo de mérito existente no objeto da Sua escolha. A eleição ou escolha de Deus está baseada exclusivamente em Sua graça — ver, por exemplo,

Deuteronômio 7:7—8

7 Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos,

8 mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito.

Note que o chamado de Abrão é dirigido a ele somente, dentre todos os teraítas — descendentes de Terá. É a ele somente que a palavra de Deus é dirigida dentre todos os descendentes de Sem; dentre todos os habitantes do planeta; dentre todos os descendentes de Adão. O mesmo é verdadeiro para com o convite feito pelo Evangelho ou Boas Novas. Ouvir e aceitar a oferta feita não depende do ouvinte e sim de usar Deus a sua misericórdia —

Romanos 9:16

Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.

2. Foi também um chamado para viver uma vida separada. Abrão foi chamado para romper seu relacionamento com seus parentes mais próximos — eles certamente eram idólatras como era tão comum naqueles dias. O afastamento era necessário porque a proximidade da vida praticada pelos idólatras constituía um grande perigo para a salvação do próprio Abrão. Da mesma maneira, a voz de Jesus nos convida a abandonar a velha vida — como quem tira uma roupa velha — com suas corrupções e iniquidades e a nos revestirmos do novo homem, que é criado segundo Deus —

Efésios 4:17—24

17 Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos,

18 obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração,

19 os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza.

20 Mas não foi assim que aprendestes a Cristo,

21 se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus,

22 no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano,

23 e vos renoveis no espírito do vosso entendimento,

24 e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.

Se queremos ser verdadeiros seguidores de Jesus precisamos amar e dar mais importância à Sua voz do que, até mesmo, à voz dos parentes mais próximos —

Lucas 14:25—27

25 Grandes multidões o acompanhavam, e ele, voltando-se, lhes disse:

26 Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.

27 E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo.

3. O chamado de Abrão implicava em uma longa peregrinação onde ele certamente teria de passar por várias e muito grandes dificuldades, com não pouco sofrimento e muitas privações. Todas estas circunstâncias iriam exigir de Abrão uma atitude de permanente prontidão e uma paciência persistente. Para ser bem sucedido nesta empreitada seria necessário seguir a orientação da Palavra de Deus em seus mínimos detalhes, pois qualquer desvio poderia trazer consequências bastante desagradáveis. Cada passo precisava ser dado em plena confiança e fé no Deus que o estava chamando. Nosso chamado cristão não é muito diferente. O autor sabe bem que esse discurso está muito fora de moda no meio evangélico dos nossos dias. Hoje se ensina a vitória permanente, a saúde inabalável e a prosperidade à toda prova. Dificuldades e problemas são vistos como resultados da ação direta de Satanás e suas hostes de demônios. O besteirol chega a ser tão grande que nos sentimos nauseados. O engano é sutil, mas é também muito extenso. Temos sempre que nos lembrar que estamos aqui somente de passagem.  

O Novo Testamento nos ensina o seguinte:

Marcos 10:28—30

Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.

Atos 14:21—22

E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus.

2 Coríntios 5:6—7

Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; visto que andamos por fé e não pelo que vemos.

2 Timóteo 3:12

Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.

Apocalipse 7:13—17

Um dos anciãos tomou a palavra, dizendo: Estes, que se vestem de vestiduras brancas, quem são e donde vieram? Respondi-lhe: meu Senhor, tu o sabes. Ele, então, me disse: São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.

4. Mas o chamado de Deus também possuía outras implicações. Era um chamado cheio de palavras de ânimo e encorajamento. Ele estava repleto de várias promessas, como podemos ver a seguir: ver especialmente os versos 2 e 3 de Gênesis 12.

De ti farei uma grande nação.

Te abençoarei.

Te engrandecerei o nome.

Sê tu uma bênção.

Abençoarei os que te abençoarem.

Amaldiçoarei os que te amaldiçoarem.

Em ti serão benditas todas as famílias da terra.

Fica bem evidente que o que o Senhor estava prometendo não era pouca coisa. São estas promessas que colocam em perspectiva apropriada as palavras de Paulo em —

Efésios 3:20—21

20 Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós,

21 a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!

São essas promessas que servem como uma compensação mais do que abundante para os sacrifícios e as privações que teriam que ser enfrentadas por Abrão como resultado direto de decidir, pela fé, obedecer ao chamado de Deus. O apóstolo Pedro nos diz que —

2 Pedro 1:2—9

...pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas....

O mesmo é verdadeiro com respeito ao Senhor Jesus para quem somos exortados a olhar firmemente, pois Ele é tanto o autor como o consumador da nossa fé —

Hebreus 12:1—3

1  Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta,

2  olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.

3  Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma.

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http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/08/genesis-estudo-052-torre-de-babel-parte.html
053 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 005
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054 — Estudo de Gênesis — A GENEALOGIA DOS SEMITAS
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Alexandros Meimaridis

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segunda-feira, 2 de outubro de 2017

FILME ESTÁ É A SUA MORTE E O DEBATE EM TORNO DA ELIMINAÇÃO DOS POBRES



O sociólogo Jesse de Sousa em seu livro intitulado A Elite do Atraso — Da Escravidão até à Lava Jato faz uma ponderação digna de ser repetida. A elite brasileira, repetindo outras elites ao redor do mundo, deseja perpetuar o esquema criado com a escravidão e a eliminação sistemática dos pobres. Mas como dissemos isso não é ideia da elite brasileira apenas. Prova disso é o filme Está é a sua morte, cujo tema central trabalha a autoeliminação via suicídio de pessoas pobres e que já não têm mais nenhuma esperança.

O comentário abaixo é da autoria do Prof. Dr. Wilson Roberto Vieira Ferreira e foi publicado originalmente em seu blog.

Wokesploitation é a fronteira final do reality show em "Esta é a Sua Morte"
Wilson Roberto Vieira Ferreira

Depois de explorar as mazelas do sexo e da vida, a última fronteira da TV é a morte. Mas não a das vítimas, mas daqueles que querem dar cabo das suas próprias vidas. Depois de décadas de críticas e sátiras cinematográficas ao gênero televisivo do reality show, “Essa é a Sua Morte” (2017) evoca a tendência atual do “Wokesploitation” — chamar a atenção das injustiças da mídia e sociedade por meio da hiper-violência e muito sangue, como na franquia “Uma Noite de Crime”. Mas é um reality show sobre suicidas endividados através do viés “camp”, “trash” como fosse uma típica “soap opera” norte-americana. Um filme que vai além da crítica ao reality show: mostra a fase terminal da TV, agora obcecada em procurar de forma tautista “a realidade do real” numa sociedade na qual a morte se tornou mais lucrativa do que a vida, seja no sistema econômico quanto no político.

O gênero televisivo reality show já foi desconstruído e virado ao avesso pelo cinema, desde o clássicos gnósticos Show de Truman e EdTV que suscitavam discussões espirituais e existenciais.

Porém, o século XXI a tendência foi a desconstrução a partir do viés chamado “wokesploitation”: despertar a consciência crítica do espectador para as injustiças da indústria do entretenimento através da hiper-violência, sangue e tripas — forçar o espectador a abrir os olhos. Mas, paradoxalmente, oferecendo ao mesmo tempo o prazer voyeurista que é a essência do reality show.

Esta é a Sua Morte (This is Your Death, aka The Show, 2017), dirigido pelo vilão “Gus” da série Breaking Bad Giancarlo Esposito, incorre nesse mesmo paradoxo. Entretanto, a novidade que Esposito nos entrega é uma wokesploitation num viés camp (estética baseada na ironia kitsch, no exagero e numa proposital vulgaridade), trash, com uma linguagem de câmera e performance dos atores como fosse uma grande soap opera – a telenovela norte-americana. O que é reforçado pela estética da fotografia de Paul Mitchnik, que passou a maior parte da sua carreira fazendo filmes para TV.

Como um filme camp, o próprio título do filme guarda uma ironia que talvez somente aqueles que viveram o suficiente a história da TV vão perceber: o título faz um trocadilho com um dos primeiros reality shows da primeira idade de ouro da TV, o programa This Is Your Life (1952-1961) – criado e apresentado por Ralph Edwards, foi o primeiro programa de TV forjado para criar intimidade com o espectador. Celebridades ou pessoas comuns (que de alguma forma contribuíram com sua comunidade) eram surpreendidas no show ao vivo com uma apresentação dos detalhes das suas vidas, contadas por parentes e amigos.

 Esse trocadilho do título, ao lado da linha de diálogo “eu quero mostrar a realidade do real!” confessada ansiosamente pelo protagonista a certa altura do filme, mostra que Esta é a Sua Morte vai muito além da discussão do reality show – Esposito pretende discutir o esgotamento atual do próprio formato da televisão, pelo menos da TV aberta comandada pelos níveis de audiência.

A passagem de “This Is Your LIFE” para “This Is Your DEATH” mostra o final tautista (tautologia + autismo) de uma mídia que parece devorar a si mesma, tão autocentrada e incapaz de mostrar o real de forma sincera e honesta que, depois de explorar a vida e o sexo restaria a última fronteira: a morte – um reality show com pessoas dando cabo da própria vida ao vivo.

E o sintoma de uma sociedade na qual a morte se tornou mais lucrativa do que a vida, seja no sistema econômico quanto no político.

O Filme

Os créditos iniciais do filme são entrecortados com cenas de um desastre ocorrido no episódio final do reality show Casei com um Milionário. Restando duas finalistas, o milionário em questão escolhe uma delas para ser sua esposa. Terminando com a vice-campeã rejeitada disparando uma arma contra o homem antes de virar a arma para si mesma, matando-se ao vivo e em rede nacional.

Para o galã apresentador (propositalmente caricato com seu “gel-hair”) Adam Roger (Josh Duhamel), é o momento da chamada para o despertar no dia seguinte da tragédia: no programa “Morning Show EUA”, apresentado com um sorriso de porcelana por James Franco, Adam desabafa ao vivo as afrontas dos jogos televisivos – colocar um contra o outro pessoas endividadas e  desesperadas para a emissora ganhar audiência e muito dinheiro.

O que lembra bastante o clássico de Sidney Lumet Network: Rede de Intrigas (1976) no qual um apresentador de telejornal ameaça se matar ao vivo gritando “Estou louco como o demônio, e não aguento mais isso!” – sobre o filme clique aqui:


Depois desse desabafo ao vivo, Adam se acha acabado para a TV, volta para casa e encontra sua irmã Karina (Sarah Wayne Callies), uma assistente de enfermagem, dando-lhe os parabéns pela atitude. Chamado pela executiva Ilana Katz (Famke Janssen) para uma reunião no dia seguinte com a cúpula da emissora, Adam acredita que será demitido e carreira na TV terminada.

Mas, para sua surpresa, descobre que em vez de demitido é apresentado para uma nova produtora chamada Sylvia (Caitlin Fitzgerald) para desenvolverem um novo reality show no qual pessoas pobres e com intenções suicidas sejam encorajadas a dar cabo de si mesmas ao vivo.

Um advogado dá o suporte jurídico necessário: a rede não poderia ser responsabilizada, desde que provasse que não estimulou os atos suicidas – apenas disponibilizou os meios, sem disparar o gatilho.

Inebriado pela sua tomada de consciência, Adam pretende conciliar sua nova “consciência crítica” com os propósitos de lucro dos executivos da rede: “não quero fazer um show que afirme a morte. Quero que as pessoas morram por um propósito maior...”, racionaliza Adam Roger em sua epifania.

Com o programa “Essa é a Sua Morte”, Adam vira uma espécie de tele-evangelista da morte, com a missão de “acordar a nação” mostrando pessoas desesperadas, endividadas ou com doenças terminais trocando a sua vida por um futuro melhor para seus familiares – em um jogo mórbido, os telespectadores fazem doações para o suicídio com melhor performance.

Paralela a essa estória, acompanhamos as desventuras de Mason Washington (interpretado pelo próprio Esposito), faxineiro da emissora e vivendo de diversos bicos mal remunerados. Aos 55 anos, já teve seus melhores dias, mas perdeu o emprego com a crise econômica. E hoje, endividado, está prestes a perder sua casa para o banco e não consegue mais sustentar sua família.

Fica óbvio que os destinos de Mason e do tele-evangelista da morte Adam Roger ocasionalmente se chocarão. Principalmente porque para Roger, a gincana dos suicídios acaba se transformando em um fim em si mesmo: obcecado pela audiência para continuar “despertando” o público para a realidade da nação, Roger vai inevitavelmente ultrapassar a linha da legalidade.

Tautismo da Neotevê

“Mostrar a realidade do real!”. Essa exortação angustiada de Adam Roger é o sintoma da fase terminal da TV atual, a fase da metástase do que o pesquisador francês Lucien Sfez chamava de “tautismo”: o fechamento operacional de um sistema autocentrado, tautológico e isolado do mundo exterior – SFEZ, Lucien, Crítica da Comunicação, Loyola, 1994.

Depois da primeira fase áurea (dos tempos do Esta é a Sua Vida) no qual a TV pretendia ser uma janela aberta para o mundo, sua hipertrofia midiática fez se converter em “Neotevê” (Umberto Eco) – uma televisão mais preocupada em falar de si mesma com muita metalinguagem e making of — ver  aqui

Esta é a Sua Morte mostra a atual fase terminal: após tanta metalinguagem e de apresentar para o público o artifício por trás de câmeras e apresentadores, tardiamente a TV volta a lembrar que existe um mundo exterior, no deserto do real. Porém, o tautismo já está em metástase: a “realidade do real” está condenada a ser convertida pela realidade aumentada do show e entretenimento televisivos.

Mas por que a realidade aumentada através da morte? Em uma das linhas de diálogo de Adam Roger ainda consciente (antes de ser absorvido pela lógica mercadológica do show) dispara: “todos estão lucrando com a miséria dos outros... As igrejas lucram, os bancos lucram, as companhias de fast food lucram... jornalistas como você lucram!”.

Sistema tanático

Giancarlo Esposito e a dupla de roteiristas Noah Pink e Kenny Yakkel estão atentos de que a morte não está apenas no sensacionalismo televisivo. Há um sistema tanático em funcionamento na sociedade, no qual a TV é mais uma peça da engrenagem.

Uma sociedade essencialmente tanática (de Thanato, na mitologia grega a personificação da morte que reinava no mundo inferior dos mortos) como denunciava o pesquisador alemão Herbert Marcuse no seu livro clássico Eros e Civilização – uma sociedade dominada pela pulsão de morte, impulso instintivo que busca a morte e destruição.

Uma sociedade baseada em um modo de produção essencialmente mortal e negativo: o endividamento produz continuamente riqueza para o sistema financeiro, o dinheiro (riqueza) substituído pelo crédito (capacidade de endividamento), morte e violência como produtos de entretenimento, incitamento da violência urbana para justificar sistemas policiais repressivos.

Política e Economia pensados na sua forma mais negativa, mas não em um sentido moral – em sentido de um viés tanático na sua forma invertida: riqueza é endividamento, para manter a paz são necessários guerra e terror, prazer é morte, entretenimento é simular a excitante proximidade da morte, sexo é estupro ritualizado na mídia, e assim por diante.

Muito das críticas negativas feitas a Esta é a Sua Morte talvez estejam nessa proposital ausência de foco narrativo: ao contrário de Show de Truman (uma crítica filosoficamente séria ao gênero televisivo), Esposito nos mostra uma narrativa ambígua entre o tom da ironia camp, a estética de soap opera e insights sérios e críticos sobre a TV e além.

Ao negar aquilo que mostra (é simultaneamente wokesploitation e crítica a wokesploitation), Esposito nos coloca na mesma situação do espectador na série Breaking Bad: tudo pode parecer moralmente negativo (a busca da redenção familiar pelo protagonista por meio do tráfico de drogas), mas pelo menos nos mostra que a “realidade do real” não é tão maniqueísta ao ponto de podermos facilmente condenar apenas a mídia, seus executivos e apresentadores.

Thanato e o Mal estão no próprio funcionamento aparentemente ético e moralmente aceitável da sociedade inteira.

O artigo original poderá ser acessado por meio do link abaixo:


O trailer de Esta é a sua morte poderá ser visto por meio do link abaixo. O mesmo é impróprio para menores e pessoas fragilizadas por qualquer motivo:


Que Deus tenha misericórdia de todos nós.

Alexandros Meimaridis

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