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quarta-feira, 12 de julho de 2017

SÉRIE “3%” DO NETFLIX E A ILUSÃO DA MERITOCRACIA



Uma mentira muito em voga em nossos dias tem a ver com a chamada meritocracia. Nessa ideologia se defende que qualquer indivíduo pode prosperar em sua vida, em todos os aspectos, se tiver mérito para isso. De fato, tal prosperidade é automática para os que têm o mérito necessário. Todavia, tal ensinamento afronta o que é ensinado pelas escrituras sagradas. Se é por mérito, então não pode ser pela graça de Deus. Refletindo sobre isso, o apóstolo Paulo nos diz o seguinte:

Romanos 11:6

E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça.

O artigo a seguir é de autoria do Professor e Doutor Wilson Roberto Vieira Ferreira e analisa a nova série brasileira do NETFLIX, chamada “3%”, que retrata o Brasil atual de maneira surpreendente. A temática da meritocracia é a base para série, que inclui também ideias de golpes, corrupção e ambição. Todas essas coisas são apenas humanas e chamam nossa atenção para o vazio e a apatia experimentada pela maioria das pessoas. Como diria o Eclesiastes: Tudo é vaidade e correr atrás do vento.

Série brasileira "3%" é o "Black Mirror" do Brasil atual
Wilson Roberto Vieira Ferreira


Enquanto a crítica especializada estrangeira é só elogios à série brasileira “3%” (2016-), no Brasil a crítica torce o nariz. Complexo de vira-latas? Mais do que isso. A aposta da Netflix em uma produção sci-fi em língua portuguesa reafirma o interesse estratégico da plataforma de streaming no mercado brasileiro, ameaçando o mainstream da Globo e do negócio da TV aberta. Mas há algo além: enquanto a crítica brasileira tenta enquadrar a série no cânone das distopias “teens” como “Jogos Vorazes” e “Divergente”, “3%” fez mais do que isso, confundindo a todos – ao invés das tradicionais distopias hollywoodianas, a série apresenta uma desconcertante “hipo-utopia”: um espelho sombrio do Brasil atual apontado para o futuro. Uma alegoria política na qual a meritocracia transforma-se em religião, única esperança em um País transformado em um deserto rochoso com centros urbanos dominados pela desigualdade, miséria e violência. E um processo seletivo criado pela elite é a miragem de ascensão social na direção de uma terra supostamente utópica e longe do deserto brasileiro, na qual apenas 3% chegarão.

Com segunda temporada já em produção, a primeira série brasileira produzida para a plataforma de streaming Netflix gerou um fenômeno que muitos chamam de “complexo de vira-latas”.

Enquanto a série 3% (2016-) é elogiada pela crítica especializada estrangeira (aprovação de 7,8 no IMDB, elogios do indieWIRE, um dos sites de cinema mais respeitados do mundo, além de elogios rasgados de Henry Jenkins, um dos maiores pesquisadores em mídia), aqui no Brasil é descartada como produto abaixo da qualidade das outras séries Netflix. Uma espécie de "Jogos Vorazes piorado", série com “ideia atrasada”, “série nacional que constrange” e assim por diante. 

Uma flagrante má vontade que não percebe que o argumento da produção surgiu em uma websérie com três episódios lançada em 2011 criada por Pedro Aguillera, Jotagá Crema e Dani Libardi – portanto, antes dos primeiros Jogos Vorazes.

Enquanto a crítica estrangeira vê a série 3% como bem vinda e considera um "novo olhar sul americano para a ficção científica", gênero que sempre teve o monopólio norte-americano, aqui no Brasil os críticos limitam-se a dizer que a série “não entrega o que promete”.


Por que essas reações tão desiguais? Esse humilde blogueiro acredita que a questão vai além do “complexo de vira-latas”. Os críticos nacionais parecem se prender aos cânones hollywoodianos do gênero (reality shows ou games mortais em sociedades distópicas com muitos efeitos especiais e altíssima tecnologia) e passam a acreditar que uma série como 3% tenta imitar os congêneres da Netflix – por isso acham que a série não entregou o que prometeu.

A aposta da Netflix

Mas esse argumento “vira-lata” é apenas um álibi: a motivação está em outra cena. A série 3% dá um importante passo para a produção audiovisual nacional. A opção da Netflix em apostar em uma produção inteira em língua portuguesa, com atores e produção nacionais fora do circuito da Globo e Globo Filmes reafirma o interesse estratégico da plataforma de streaming no Brasil.

Não é à toa que as críticas mais ácidas partiram do portal G1 da Globo – o grupo sabe que os dias da TV aberta (pelo menos no modelo atual de venda de espaço publicitário) está com seus dias contados diante dos interesses de gigantes como Google, Facebook e a própria Netflix no mercado brasileiro.

Mas há algo mais incômodo para uma parte dos críticos brasileiros: o fato da série 3% ser estranha e difícil de ser enquadrada no gênero “distopia”, como Jogos Vorazes ou Divergente. Ela está mais próxima da estranheza da série inglesa Black Mirror.


Isso porque, como veremos, 3% enquadra-se numa tendência chamada pelos estudiosos de cinema e audiovisual de “ficção científica do Sul” – filmes latino-americanos, de países periféricos à Zona do Euro ou originados nos BRICs cujas produções mostram um futuro que não é figurado nem pelo olhar distópico e muito menos pelo utópico: o futuro é mostrado pelo desconcertante ponto de vista da hipo-utopia. Alta tecnologia convivendo com favelas, deterioração urbana, precarização do trabalho e muito lixo que acaba se confundindo com os próprios seres humanos – sobre o conceito de “hipo-utopia” e “ficção científica do Sul” clique aqui:


A série nacional 3% incomoda porque projeta no futuro de forma hiperbólica e expressionista as mazelas que já estão no presente, no Brasil atual – o momento em que a meritocracia se transforma em religião em contextos de extrema desigualdade, miséria e injustiças. E como pessoas que não têm qualquer outra alternativa se submetem à humilhação e resignação tentando acreditar em um sistema supostamente justo, no qual “você faz o seu próprio mérito”.

A Série

No primeiro episódio é apresentada toda a mitologia que domina aquele mundo futuro. Nos créditos de abertura vemos um mapa brasileiro com o recorte do litoral do Pará. Uma seta sai da região amazônica até chegar a um ponto distante no alto mar brasileiro – uma localidade chamada Maralto.

A região da Amazônia (e pressupõe-se que todo o País) se transformou em um gigantesco deserto rochoso, com grandes áreas urbanas deterioradas, miseráveis e violentas. As ruas não passam de perigosas vielas nas quais vemos homens, mulheres e crianças maltrapilhas se arrastando em lugar escasso de recursos.

Aos 20 anos de idade, todo cidadão recebe a chance de se inscrever no chamado Processo: um rigoroso processo seletivo que consiste principalmente de provas cognitivas, morais e psicológicas que oferece somente a 3% dos aprovados a oportunidade de ascender ao Maralto, região onde as oportunidades de vida são supostamente justas e abundantes.


A mitologia que envolve o Processo diz que um “Casal Fundador” criou Maralto, uma sociedade utópica que se perpetua através da meritocracia na qual uma elite desfruta de uma ordem onde todos os problemas ambientais e sociais foram resolvidos por meio de altíssima tecnologia.

Mas entre os 97% condenados à miséria no Continente, cresce um movimento denominado “A Causa”, grupo revolucionário que denuncia a injustiça de todo o sistema. Seu objetivo é infiltrar militantes da Causa no Processo para sabotá-lo.

Ainda nessa primeira temporada não fica claro o plano da causa – se a sabotagem é apenas uma vingança pelas mortes e injustiças cometidas nas várias edições do Processo ou há um projeto político maior.

Muito além das distopias “teens”

O interessante (e inovador) na série 3% é que o Processo vai muito mais além das distopias teens como Jogos Vorazes ou Divergente. Tem muito mais a ver com os processos seletivos corporativos atuais – por isso, todo gestor de RH deveria assistir a essa série.

Pressões psicológicas, salas e corredores claustrofóbicos, dilemas ou escolhas impossíveis marcam os testes em ambientes cleans, de simplicidade asséptica em branco, cinza e azul, lembrando bastante outro filme brasileiro hipo-utópico: 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras (2001) de Marcelo Mazagão (sobre o filme, clique aqui:


Que a má vontade da crítica brasileira qualificou, como “produção pobre” fora do padrão Netflix.

O chefe do Processo, Ezequiel (João Miguel), observa a todos através de dezenas de câmeras como uma espécie de reality show, avaliando, ao lado de psicólogos, reações, atitudes e comportamentos – principalmente a capacidade de resignação, resiliência e a fé cega no ideário meritocrático que legitima todas as provas.


A chave crítica de 3% em relação à injustiça de todo o Processo está na observação de uma das protagonistas, Michele (Bianca Comparato), ao ver como candidatos tentam ludibriar testes, enganar concorrentes ou corromper as provas. Para Michele, as pessoas não são más. Na verdade o propósito do Processo é criar situações absurdas (humilhação, dilemas impossíveis, medo etc.) para extrair de cada um o pior da natureza humana.

Na verdade, os 3% que restam não são os “melhores” – são aqueles que conseguiram esconder melhor o pior que habita dentro de todos nós.

Se o papel da sociedade é criar dispositivos éticos e morais que “sublimem” essa “sombra” psíquica, ao contrário o Processo atiça o pior da nossa natureza para premiar aqueles que melhor disfarçaram o Mal.

Essa visão acerca da natureza do Mal coincide com a própria filosofia gnóstica: o Mal não está na natureza humana, mas no Demiurgo que cria um cosmos que se alimenta dessa sombra psíquica humana ao criar os absurdos dilemas impostos ao homem. Na literatura, O Processo de Franz Kafka é um dos exemplos descritivos do absurdo que aprisiona o homem no interior de armadilhas propositalmente criada por um Demiurgo que não nos ama.

O Mal não está no homem mas na criação (do Demiurgo)


Um espelho do presente

O incômodo da série brasileira, que parece ter calado fundo nos críticos da mídia corporativa, é que o mundo de 3%  parece estar muito mais no presente do que no futuro.

Enquanto os candidatos acreditam cegamente nos mantras da meritocracia (que Ezequiel recita a cada discurso de parabéns aos candidatos sobreviventes), na cúpula que envolve o comando do Processo e o Conselho do Maralto há uma trama envolvendo golpes, corrupção e ambição – o inimigo político de Ezequiel, Matheus (Sérgio Mamberti) trama um golpe para retirá-lo do comando através da sua espiã Aline (Viviane Porto) que a todo custo procura deficiências comprometedoras na gestão de Ezequiel.

Enquanto isso, entre as vielas miseráveis do Continente, a Meritocracia virou uma religião e o Casal Fundador de Maralto ganhou status de Messias que virá um dia salvá-los – vemos espécies de Pastores fazendo pregações para pessoas desesperançadas ao melhor estilo das atuais igrejas evangélicas.

Assim como Distrito 9 (metáfora em ficção científica do apartheid racial da África do Sul), 3% partilha da mesma hipo-utopia: Continente e Maralto são projeções em hipérbole do Brasil atual. Enquanto a elite política-judicial-midiática se engalfinha numa guerra fratricida, no andar de baixo a massa de desempregados e pobres crê na ascensão social pelo mérito e na justiça dos processos seletivos corporativos.

Acredito que a maior perplexidade dos críticos de cinema desses tristes trópicos foi perceber que 3% contrariou aquilo que esperavam: ao invés de algum tipo de “Jogos Vorazes” tupiniquim, viram um “Black Mirror” do Brasil atual.

O trailer oficial da série poderá ser visto por meio do link abaixo:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.

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sábado, 28 de maio de 2016

A MENINA ESTUPRADA E O SILÊNCIO DOS EVANGÉLICOS

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Foi algo realmente lamentável esse fato envolvendo uma menina de apenas 16 anos e 30 ou mais homens que a estupraram. Mais lamentável ainda é o silêncio dos evangélicos, inclusive desse blog, porque só foi tomar conhecimento do que aconteceu graças a uma leitora atenta ao que se passa nas mídias sociais. Visando corrigir esse erro, hoje estamos publicando um artigo da BBC Brasil. O artigo é de autoria da jornalista Renata Mendonça nos chama atenção para essa verdadeira aberração que é como esses crimes são tratados no país chamado Brasil. Ou seria índia?

Segundo a promotora de Justiça e coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (GEVID), do Ministério Público do Estado de São Paulo, Silvia Chakian, que é especialista no tema, o fato revela a certeza da impunidade por parte daqueles que o praticaram.

E mais: O estupro revela uma sociedade criminosa e violenta contra a mulher. Que enxerga que o corpo da mulher é feito para o homem usufruir."

Segue o artigo.

'A Índia é aqui': Impunidade fez estupro coletivo virar motivo de ostentação, diz promotora.

Renata Mendonça
Da BBC Brasil em São Paulo

Vídeo do estupro foi divulgado no Twitter

Um estupro coletivo de uma jovem de 16 anos chocou o Rio de Janeiro e causou comoção nas redes sociais após imagens do crime terem sido divulgadas pelos próprios suspeitos dele no Twitter.

O vídeo que foi amplamente compartilhado nas redes sociais tem cerca de 40 segundos de duração e mostra a garota deitada e desacordada enquanto os rapazes conversam ao fundo. "Engravidou de 30", diz um deles. Em uma das fotos divulgadas também pelo Twitter é possível até ver o rosto de um deles, que posa para a câmera em frente à menina.

O fato é ainda mais chocante porque revela a certeza da impunidade de estupradores, segundo a promotora de Justiça e coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (GEVID), do Ministério Público do Estado de São Paulo, Silvia Chakian, que é especialista no tema.

"Mostra a certeza total da impunidade desses criminosos, que agem em grupo e que gravam e publicam a própria prova do crime que praticaram. Mostra o descaso pra eventuais responsabilizações, descaso com a Justiça", afirma à BBC Brasil.

"Um deles revela até a autoria, o rosto. Qual é a mensagem que ele está passando? É de 'eu não acredito na lei, na polícia, na Justiça, eu não tô nem aí'. Essa mensagem não pode ficar para sociedade."

Chakian opina que a maneira como o vídeo foi compartilhado pelos suspeitos do estupro, que mostravam "orgulho" pelo crime praticado, é um sinal de como a "violência contra a mulher é naturalizada no Brasil".

"O (episódio) mostra que praticar crime dessa natureza é motivo de vaidade, de ser ostentado", diz.

"Não tem 30 monstros juntos. Não tem patologia nisso. É uma questão cultural. São 30 pessoas que participaram do crime e nenhuma delas agiu para evitar que aquele crime acontecesse. Isso revela uma sociedade criminosa e violenta contra a mulher. Que enxerga que o corpo da mulher é feito para o homem usufruir."

O crime foi bastante agravado, segundo a promotora, pela exposição das imagens da garota na web.

"A impunidade anda de mãos dadas com a violência. Precisa haver uma punição exemplar e essa punição tem que ser divulgada para que a sociedade saiba. Temos que conscientizar essa sociedade de que quem compartilha, quem faz piada, (está agindo de modo) tão grave quanto ao do estuprador."

Comoção

O vídeo começou a ser compartilhado nas redes sociais na noite da última quarta-feira e logo despertou uma enxurrada de comentários - alguns em tom de comoção e revolta, e outros em tom jocoso.

A exposição do caso na web, porém, também fez com que centenas de pessoas se mobilizassem para reportar os autores do vídeo ao Ministério Público do Rio de Janeiro. Até a manhã desta quinta-feira, o órgão já havia recebido mais de 800 denúncias relacionadas ao episódio.

Jovem havia ido a uma festa, foi dopada e levada pelos mais de 30 homens que a estupraram

"O lado positivo nesse mar de crueldade é que foi graças à revolta da internet, dos usuários, que as denúncias chegaram em um número muito grande ao Ministério Público", o que pode ajudar a polícia na identificação de responsáveis, disse Chakian. Segundo a TV Globo, a polícia civil do Rio já identificou um suspeito do crime e outros dois de terem divulgado as imagens online.

"A internet não pode ser encarada só no aspecto negativo. Ela também é usada como veículo de empoderamento das pessoas para denunciar. As pessoas conseguiram denunciar com a mesma velocidade com que o vídeo foi divulgado."

Além da busca pelos suspeitos, a polícia do Rio de Janeiro está identificando também as pessoas que compartilharam o vídeo e endossaram o crime nas redes sociais. Segundo a promotora de São Paulo, não existe tipificação específica para o ato de compartilhar vídeos íntimos na internet, mas casos assim podem ser encaixados em "apologia ao crime" ou "crime contra a honra".

"É bem verdade que a nossa legislação não acompanhou a evolução tecnológica. Mas esse caso pode se encaixar em violação da privacidade, que é crime mais grave no Estatuto da Criança e do Adolescente. É apologia ao crime, é crime contra a honra."

"As pessoas têm que entender que os que compartilharam são tão criminosos e conduta deles foi tão violenta quanto à do estupro em si", opinou Chakian.

'A Índia é aqui'

Além do episódio no Rio de Janeiro, vieram a público recentemente também outros dois casos de estupro coletivo - ambos no Piauí, um no ano passado e outro na última semana. A promotora de São Paulo explicou que crimes graves contra a mulher como esses tendem a ser mais comuns em países onde a desigualdade de gênero é mais acentuada.

"As pessoas falam da Índia e se chocam a cada caso de estupro lá, mas a Índia é aqui. Gerou repercussão o caso de lá, mas a nossa realidade é similar", disse.

No Brasil, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, segundo os dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública no final do ano passado. Em 2015, o país registrou 47.646 casos de estupros.

"Por tudo isso, esse caso precisa de uma punição exemplar. E acima de tudo, precisamos fazer um trabalho de educação de gênero, de respeito ao corpo da mulher e aos direitos dela."

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:

É mesmo uma pena que nenhum daqueles que se dizem líderes dos evangélicos e se declaram defensores da moral e dos bons costumes tenham ficado calados. Que nenhum deles tenham se manifestado em defesa desse verdadeiro massacre sofrido pelas mulheres: 47.646 mulheres foram estupradas apenas no ano 2015 no Brasil. Mesmo diante disso você não vê ninguém levantando um protesto ou clamor contra isso. Mas vão falar muito contra a parada gay e etc. O cinismo de pessoas como Marco Feliciano, Silas Malafaia, Ana Paula Valadão, Jair Bolsonaro — recentemente batizado no Rio Jordão — et caterva, deve ficar evidente para todos.

Que Deus tenha misericórdia de todos nós.

Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 15 de março de 2016

XUXA E O RACISMO DOS RICOS CONTRA OS POBRES

Xuxa
Xuxa: 'Daivison, João e Pedro...meus novos amiguinhos ralando para conseguir um dindin', escreveu Xuxa no Facebook
  
O artigo abaixo foi publicado no site da revista Carta Capital e é de autoria de Djamila Ribeiro

Xuxa e a fetichização da pobreza

Ao dizer que os três meninos negros no sinal estavam “ralando para conseguir um dindin”, Xuxa não percebe a violência e o racismo da situação.

por Djamila Ribeiro —

No dia 5 de março, sábado último, a apresentadora Xuxa postou em sua página do Facebook uma foto de, no mínimo, mau gosto. Na foto, a “rainha dos baixinhos” está dentro de seu carro importado e, do lado de fora, estão três meninos negros, segurando bolas que sugerem o trabalho em algum semáforo, com a seguinte legenda: “Daivison, João e Pedro...meus novos amiguinhos ralando para conseguir um dindin”. De imediato, a foto viralizou (eram mais de 5 mil compartilhamentos até a manhã da segunda) e várias críticas surgiram.

São tantos os erros nessa atitude que fica difícil nomear. Primeiro, trabalho infantil é crime e não deve ser naturalizado. Ao dizer que os meninos estavam “ralando para conseguir um dindin”, Xuxa não percebe a violência no fato de crianças estarem submetidas a este tipo de atividade.

Elas lá estão porque a sociedade é desigual e racista – não à toa os três meninos são negros. É sabido que o Ministério Público incentiva que se denuncie trabalho infantil, em vez de utilizá-lo como forma de se promover em redes sociais.

Não há nada de lindo naquela imagem: é o retrato de uma sociedade racista que nega oportunidades à população negra enquanto privilegia o grupo branco. Essa é a típica mentalidade do branco médio no Brasil. Finge se importar com os problemas sociais de dentro de sua SUV.

Em dezembro, houve uma situação semelhante: um homem fotografou um menino negro que trabalhava no sinal sorrindo para a filha dele, um bebê. Dentro do carro com ar-condicionado. Na legenda, dizia: “A sociedade os separa, mas o sorriso os une”.

É muita fetichização da pobreza.

Quem é essa sociedade que os separa? Por acaso, trata-se de uma entidade? Por que a criança branca está no conforto do carro e a negra trabalhando? Por que uma tem todas as oportunidades e a outra não?

Essas são as questões que precisam ser feitas e não a propaganda de si mesmo como cidadãos de bem, sem se responsabilizar por essa sociedade ser como é.

A branquitude precisa parar de nos tratar como fetiche e assumir a responsabilidade de mudar essa realidade.

Xuxa deveria ter vergonha de expor esses meninos, porque aí eu pergunto: eles são menores de idade, ela por acaso teve a autorização dos pais ou responsáveis para expô-los? Essas crianças têm direitos, não podem servir de zoológico humano para gente privilegiada. Se alguém tirasse uma foto de Sasha sem autorização, Xuxa gostaria?

Tirar fotos com esses meninos não contribui em nada para mudar a situação deles, eles seguirão à margem enquanto Xuxa se promove através da miséria.

Passou da hora das pessoas brancas realmente se posicionarem contra o racismo no Brasil. Estudarem sobre a história desse País, sobre os 354 anos de escravidão, os estupros cometidos pelos senhores romantizados sob a égide da miscigenação, os efeitos da herança escravocrata. Não podem mais se comportar como neo sinhás e senhores que ainda nos querem no lugar determinado para nós.

Não bastasse as quatro gerações de paquitas loiras que causaram danos profundo à autoestima de meninas negras, Xuxa agora quer passar-se por não racista exibindo exploração infantil. Lugar de criança é na escola, brincando e tendo direito à dignidade.

Xuxa não mostrou preocupação alguma com a situação desses meninos, os chamou de amiguinhos, expôs e seguiu para sua vida confortável. Esta é a harmonia das raças que esse país quer, negros do lado de fora do ar condicionado. A verdadeira consciência social é aquela que quer para os outros a mesma dignidade que tem o seu filho. Passou da hora da branquitude ter limites.


Que Deus ajude o povo brasileiro a ponderar na gravidade dessas palavras.

Alexandros Meimaridis

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sábado, 14 de março de 2015

JESUS E AS MULHERES - SERMÃO 001 – INTRODUÇÃO AO TEMA


Maria e o menino Jesus -  concepção artística

Jesus e as mulheres é um tema importante dentro do contexto do Novo Testamento. As denominações históricas aos poucos vão se libertando de seus próprios preconceitos, ao passo que nas denominações evangélicas, em muitos casos, os homens abriram mão completamente de suas responsabilidades a favor das mulheres, o que tem proporcionado uma verdadeira inundação de bobagens sem fim. Nossa série de estudos procura entender o papel da mulher como visto e como foram tratadas pelo Senhor Jesus. Para isso convidamos todos os leitores a fazerem uma análise desapaixonada do material da mesma.

Texto: Vários  
Introdução.

A. O lugar das mulheres tem sido um dos temas mais acalorados na história da Igreja. 
B. De importância crítica a toda essa discussão tem sido, sempre, a maneira como o próprio Senhor Jesus lidou com as mulheres, apesar de pouca atenção estar sendo dedicada a esse aspecto de sua vida nesses últimos dias. 
C. O propósito dessa série é analisar, em tantos sermões quantos forem necessários, seis encontros pessoais e individuais de Jesus com mulheres, conforme encontramos registrados no Novo Testamento. 
D. Nosso propósito nessa série é mostrar como Jesus, como fez com várias outras coisas, se distanciou, de uma forma radical, como era seu estilo pessoal, do quesito “DESIGUALDADE” entre homens e mulheres. 
E. Como parte desse nosso estudo introdutório nós queremos ver com a mulheres eram percebidas nas Escrituras hebraicas e, de modo especial, no livro apócrifo chamado de “Eclesiástico ou de A Sabedoria de Jesus Ben Siraque”.  
F. Depois, nós vamos fazer uma breve apresentação do Cântico de Maria — ver Lucas 1:46—55, e iremos nos concentrar em mulheres que foram discípulas de Jesus, e concluiremos a série com a forma como os autores do Novo Testamento reagiram aos novos ensinamentos apresentados pelo mestre.    
 JESUS E AS MULHERES — UMA INTRODUÇÃO

I. As Mulheres no Antigo Testamento e no Período Entre os Testamentos

A. O Antigo Testamento nos oferece algumas porções onde mulheres são apresentadas com destaque, às vezes até com grande destaque. Entre esses casos estão: 
1. Os livros de Rute e de Ester. 
2. A história de Raabe a prostituta de Jericó que escondeu os espiões de Israel, foi salva e entrou para a linhagem do próprio Senhor Jesus Cristo. 
3. As histórias da profetisa Débora e de Jael, mulher de Héber, são exemplos destacados em Juízes 4—5. 
4.A essa lista ainda podemos adicionar a excelente mulher, mãe do rei árabe, Lemuel, conhecida como a “Mulher Virtuosa de Provérbios 31”. 
5. Mas, ao que parece, durante o período entre os Testamentos, quando não houve revelação divina por um período de 400 anos, as coisas se deterioraram e muito.
6. Tal deterioração pode ser vista nos escritos de um aristocrata habitante de Jerusalém que nos legou suas opiniões em um livro chamado de Eclesiástico ou a Sabedoria de Ben Siraque ou Sirácida. Ele viveu e produziu sua obra entre 190 — 124 a.C.

7. Para Ben Siraque, as mulheres poderiam ser boas esposas e mães e deveriam ser respeitadas. Parece bonito! Mas ele também ensinava o seguinte:

Eclesiástico 7:26

Tens uma mulher segundo o teu coração? Não a repudies; contudo, se não a amas, não confie nela — BJ.

Eclesiástico 42:6—7

Com uma mulher curiosa é bom usar um selo; onde há muitas mãos, fecha com chave. Para depósitos, contas e pesos, são necessários, e tudo o que deres e receberes seja escrito — BJ.

Eclesiástico 33:20

Ao filho, à mulher, à filha e ao amigo não dês poder sobre ti durante tua vida — JB.

Eclesiástico 25:22—26

É motivo de ira, descaramento e grande vergonha uma mulher que sustenta o seu marido. Coração abatido, semblante triste, coração ferido; eis a obra de uma mulher má. Mãos inertes e joelhos vacilantes, assim é a mulher que não proporciona felicidade ao marido. Foi pela mulher que começou o pecado, por sua culpa todos morremos. Não dês saída à água, nem liberdade de falar à mulher má. Se ela não obedece ao dedo e ao olho, separa-te dela — BJ.

Eclesiástico 25:13

Qualquer ferida, menos a do coração; qualquer malícia menos a da mulher — BJ.

Eclesiástico 25:16

Prefiro morar com um leão ou um dragão, a morar com uma mulher perversa — BJ.

Eclesiástico 25:17

A perversidade de uma mulher muda a sua fisionomia, obscurecendo-lhe o rosto como o de um urso — BJ.

Eclesiástico 25:19

Pouca maldade é comparada com a da mulher, caia sobre ela a sorte dos pecadores — BJ.

Eclesiástico 29:20

Como uma ladeira arenosa para os pés de um velho, assim é uma mulher faladeira para um homem tranquilo — BJ.

Eclesiástico 29:21

Não te deixes prender pela beleza de uma mulher, não te apaixones por uma mulher — BJ.

Eclesiástico 7:24—25

Tens filhas? Cuida dos seus corpos e não lhes mostres um rosto muito Jovial — BJ.

Eclesiástico 22:3

Um filho mal-educado é a vergonha do pai, mas uma filha nasce para sua confusão — JB.

Eclesiástico 26:10

Reforça a tua vigilância em torno da filha audaciosa, a fim de que, achando-se mal vigiada, ela não se aproveite disso — BJ.

Eclesiástico 42:9—11

Sem saber, uma filha causa a seu pai inquietações ; o cuidado por ela tira-lhe o sono: se jovem, que não passe da idade de casar; se casada, que ela não se torne odiosa; se virgem que não seja profanada, e não fique grávida na casa paterna. Tendo um marido, que ela não erre; casada que não seja estéril. Fortifica a vigilância sobre uma filha audaciosa, a fim de que ela não faça de ti motivo de irrisão para teus inimigos, o assunto da cidade, a chacota do povo, e não te desonre aos olhos de todos - BJ.

8. Tudo o que se escreveu sobre as mulheres nesse período era pertinente apenas por causa dos homens. O próprio livro do Eclesiástico cita vários heróis da fé — Eclesiástico 44—50 — mas eles são todos, exclusivamente, homens.

9. O ponto mais baixo é alcançado quando ele escreve:

Eclesiástico 42:12—14

Diante de quem quer que seja, não te detenhas na beleza e não te assentes com mulheres. Porque das vestes sai a traça e da mulher, a malícia feminina. É melhor a malícia de um homem do que a bondade de uma mulher: uma mulher causa vergonha e censuras — JB.

10. Com o passar do tempo e o surgimento e a afirmação do movimento rabínico, a posição das mulheres nos dias de Jesus Cristo era, em todos os sentidos, inferior àquela dos homens.

11. Foi nesse contexto que Jesus nasceu, cresceu e foi educado. O que Jesus fez? Ele reforçou a atitude da sociedade judaica com relação às mulheres ou Jesus lutou para que uma reforma nisso tudo fosse implantada?

12. É impossível falamos da atitude de Jesus para com as mulheres sem notarmos Maria, a mãe de Jesus. Nós iremos fazer isso através do Cântico de Maria.

II. O Magnificat ou o Cântico de Maria – Lucas 1:46—55
A. Quando olhamos para esse cântico, mesmo de maneira despretensiosa, nós podemos notar o seguinte:

B. O cântico está dividido em duas partes:

1. Na primeira parte, os versos 46—49 tratam da própria Maria diante de três temas principais: 1) Louvor; 2) Salvação; 3)Exaltação/Humilhação. O clímax do cântico está bem no meio do mesmo, onde Maria é exaltada — verso 49a.

2. A segunda metade do Cântico de Maria fala da comunidade da fé e seus temas são: 1) Misericórdia; 2) Salvação; 3) Humilhação/Exaltação.

C. O que acontece com Maria — uma mulher — é uma antecipação do que irá acontecer com a comunidade dos crentes.

D. Vamos ler esses versículos notando as ênfases que mencionamos:

1. Lucas 1:46 – LOUVOR.

2. Lucas 1:47 — SALVAÇÃO.

3. Lucas 1:48 — HUMILDADE E EXALTAÇÃO.

4. Lucas 1:49a — SALVAÇÃO.

5. Lucas 1:49b — LOUVOR ao NOME DE DEUS.

6. Lucas 1:50 — MISERICÓRDOA SOBRE TODOS QUE TEMEM O SENHOR.

7. Lucas 1:51 — SALVAÇÃO E JULGAMENTO DOS PERVERSOS.

8. Luvas 1:52 — HUMILHAÇÃO E EXALTAÇÃO.

9. Lucas 1:53 — EXALTAÇÃO E HUMILHAÇÃO.

10. Lucas 1:54a — Amparou a Israel — SALVAÇÃO SEM CONDENAR OS NÃO JUDEUS.

11. Lucas 1:54b — MISERICÓRDIA

12. Luvas 1:55 — MISERICÓRDIA PARA ISRAEL SEM EXCLUIR OS GENTIOS.

E. O Cântico de Maria — proferido por uma mulher — além de elevar as mulheres, não fala nenhuma palavra contra os gentios, antecipando: 1) a igualdade de mulheres e homens diante de Deus; 2) a igualdade de todos os seres humanos diante de Deus — sem privilégios para Israel.

F. Como iremos ver, durante essa série, Jesus não adotou nenhuma das atitudes de seus dias, que eram tão comuns, quanto a inferioridade das mulheres e o ódio que os judeus nutriam pelos gentios ou não judeus

Conclusão:

A. O Cântico de Maria nos ensina:

1. Existe uma compaixão ilimitada da parte de Deus, por todos os oprimidos.

2. Deus também tem interesse em levantar os oprimidos e caídos, especialmente os oprimidos pelo pecado e pelo Diabo:

Atos 10:38

Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, o qual andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele.

B. Maria prova que, apesar da pouca idade, ela era uma menina inteligente que compreendia bem a graça de Deus tanto para sua comunidade étnica quanto para todos os estrangeiros. Ela é o modelo do que irá acontecer com todos os crentes. Ela foi levantada de sua humilde condição — mesmo sendo uma mulher — e exaltada pelo próprio Deus.

C. Em resumo: o Cântico de Maria nos apresenta uma mulher cheia de compaixão pelo oprimidos, juntamente, com uma clara visão de como os mesmos poderão ser levantados. Ela entende que os verdadeiros inimigos não são os estrangeiros e sim os poderosos e os arrogantes — judeus e gentios.

D. Se você prestar bastante atenção, você irá ver que todos os verbos no Cântico de Maria estão no passado, como se descrevesse coisas que já aconteceram, esse tempo verbal é conhecido como “tempo histórico verbal”, ou seja, ele não fala do passado, mas nos apresenta uma visão do futuro, acerca da qual não existe a menor possibilidade que a mesma não venha a se concretizar.

E. Jesus foi criado por uma mulher realmente extraordinária e por um homem — José — que precisou mudar seus conceitos para acomodar sua noiva grávida e o filho que nasceu como sendo dele mesmo. O resultado de tais influências nos iremos ver nas próximas mensagens, quando analisarmos as atitudes de Jesus para com as mulheres em seu ministério público.

Caso o leitor tenha interesse em ouvir essa mensagem, poderá fazê-lo por meio desse link aqui:

http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2013/06/sermao-em-audio-jesus-e-as-mulheres.html



Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos. 

domingo, 2 de novembro de 2014

A TENTATIVA FRUSTRADA DE IMPLANTAR UM “APARTHEID TUPINIQUIM”


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O artigo abaixo foi publicado pela revista Carta Capital e é de autoria de Luiz Gonzaga Belluzzo.

Cosmopolitismo selvagem

As classes “cosmopolitas” têm sido decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica a uma melhor distribuição de renda

por Luiz Gonzaga Belluzzo

Apartheid Social 
Andréa Farias Farias/Flickr —  Apartheid Social
A rejeição do “outro” não só atingiu os níveis mais profundos das almas nativas, mas também conseguiu angariar novos adeptos

Em seu rastro de contundências, as eleições presidenciais deixam no caminho os despojos do processo civilizador. Não falo das objurgatórias trocadas entre os articulistas da chamada grande imprensa, ataques que apenas mimetizam os sacolejos e grosserias perpetradas nos Facebooks da vida.

O apetite voraz de muitos brasileiros ricos e bonitos por preconceitos de todos os matizes chegou ao ponto do regurgitamento. Na onda recente de mastigação de impropérios racistas, homofóbicos e regionalistas, tal voracidade encontrou auxílio nos maxilares que proclamavam as virtudes da “meritocracia”.

A prática de negar a boa-fé dos outros, dando a própria como garantida, é dogmatismo da inteligência e farisaísmo moral. A rejeição do “outro” não só atingiu os níveis mais profundos daquelas almas nativas, mas também conseguiu angariar novos adeptos. A rejeição é mais profunda porque atingiu, de forma devastadora, os sentimentos de pertinência à mesma comunidade de destino, suscitando processos subjetivos de diferenciação e des-identificação em relação aos “outros”, ou seja, à massa de pobres e miseráveis. E essa des-identificação vem assumindo cada vez mais as feições de um individualismo agressivo e antirrepublicano. Uma espécie de caricatura do americanismo.

A rejeição também foi mais ampla porque essas formas de consciência social contaminaram vastas camadas das classes médias: desde os “novos” proprietários, passando pelos quadros técnicos intermediários até chegar aos executivos assalariados e à nova intelectualidade formada em universidades estrangeiras ou mesmo em escolas locais que se esmeram em reproduzir os valores e hábitos forâneos. Isso para não falar do papel avassalador da mídia nacional e estrangeira.

É ocioso dizer que tais expectativas e anseios não são um desvio psicológico, mas enterram suas raízes nas profundezas da desigualdade que há séculos assola o País. Produtos da desigualdade secular e daquela acrescentada no período do desenvolvimentismo a qualquer preço, as classes cosmopolitas têm sido, ao mesmo tempo, decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica ao uso da política fiscal para promover uma melhor distribuição de renda. Isso para não falar dos ataques à redução da pobreza absoluta, acoimada de “assistencialismo”.

Examinado à luz de um projeto nacional capaz de integrar os mais pobres, o cosmopolitismo das classes endinheiradas e de seus clientes revela o seu caráter parasitário e antirrepublicano. Parasitário, sim, porque amparado na internacionalização e na financeirização da riqueza e da renda dos estratos superiores, implica uma modernização restrita da economia, com seu séquito de destruição de empregos e exclusão social.

A dimensão individualista dessas formas de consciência, por outro lado, vem produzindo a desconstituição dos poderes e funções do Estado. Isso vai desde sua incumbência essencial, a de garantir a segurança dos cidadãos até o bloqueio sistemático da universalização das políticas de saúde, educação e previdência, marca registrada da “modernidade”, tão proclamada pelos Senhores da Terra.

Nas confrontações que hoje assolam a política brasileira, nada mais velho do que o novo.  Há um empenho edificante na troca de máscaras, enquanto o rosto do poder real permanece esculpido em sua pétrea solidez. O disfarce de maior sucesso no momento foi confeccionado por mãos hábeis. Os artesãos do cosmopolitismo selvagem ensaiam esculpir com novos cinzéis as formas petrificadas do velho arranjo oligárquico.  Os escultores altamente qualificados nos ofícios da mesmice secular encaixam, sem ajustes nem atritos, a persona da mudança nos rostos dos velhos donos do pedaço.

O cosmopolitismo abstrato, e não raro vulgar, mal consegue esconder a ferida que Nietszche desvendou nas profundezas da alma das sociedades massificadas: a diferenciação de atitudes, estilos, modos de ser são tão semelhantes entre si que, afinal de contas, não há nenhuma diferença entre eles. Condenados ao ciclo infernal do “eterno retorno do mesmo”, os “modernosos” da globalização tiveram os seus dias de glória ao proclamar o Fim da História. Hoje, o que vemos são cadáveres boiando na maré vazante da crise financeira global. Quanto mais crédula a adesão às torrentes da mercantilização universal, mais rasa a poça d’água em que terminam por se afogar os profetas do passado. Que São Pedro tenha piedade.

NOSSO COMENTÁRIO

As palavras acima precisam ser lidas com paciência e de forma meditativa, para que se possa aproveitar a profundidade e as ricas nuanças contidas nas mesmas.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis.

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