Mostrando postagens com marcador Homero. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Homero. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 18 de julho de 2016

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus – ESTUDO 017 — A ESCOLHA OU ELEIÇÃO DIVINA — EFÉSIO 1:4 — PARTE 007



NESSA SÉRIE NÓS ESTAMOS TRATANDO DE DOIS ASPECTOS IMPORTANTES ACERCA DA VERDADEIRA IGREJA: 1) A IGREJA COMO CORPO DE CRISTO; E 2) A IGREJA NO PLANO ETERNO DE DEUS. CONVIDAMOS TODOS OS NOSSOS LEITORES A ACOMPANHAREM ESSA SÉRIE E COMPARTILHAREM A MESMA COM TODOS OS SEUS CONHECIDOS, AMIGOS E IRMÃOS. OUTROS ESTUDOS DESSA SÉRIE PODERÃO SER ENCONTRADOS POR MEIO DE LINKS NO FIM DE CADA ESTUDO.

CONTINUAÇÃO...

9. João 15:19  Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.


Apenas relembrando: em João capítulo 15 nós encontramos Jesus e os discípulos ainda no salão chamado de Cenáculo, onde eles haviam se reunido para celebrar a páscoa judaica. Os acontecimentos narrados pelo apóstolo João nos capítulo 13 a 17 do seu evangelho descrevem uma cena contínua e constituem o mais longo relato, relacionado a um único evento, que encontramos nas páginas do Novo Testamento.

Se vós fôsseis do mundo — A expressão grega κόσμος kósmos — mundo é usada por João 71 vezes e o sentido dado à mesma varia de acordo com o contexto, i.e., o significado não é monolítico[1]. Os próprios dicionários do grego do Novo Testamento não apresentam um resumo que seja adequado do uso que João faz da palavra “mundo”. O resumo a seguir foi sugerido pelo comentarista do Novo Testamento William Hendriksen no seu comentário de João[2]. Ele diz: o significado básico da expressão κόσμος kósmos — mundo como utilizado por escritores gregos como Homero — autor dos poemas épicos “a Ilíada” e “a Odisseia” — e Platão — filósofo que escreveu extensa obra própria além de preservar, em forma escrita, a obra de Sócrates — era “ordem”. A palavra era usada para designar algo “organizado” e, por extensão, algo “adornado”. O Dicionário Aurélio Século XXI define mundo como: a Terra e os astros considerados como um todo organizado; o universo. E em 1 Pedro 3:3 nós encontramos a expressão κόσμος kósmos — mundo sendo traduzida como “adorno” como uma referência a enfeites usados por mulheres. A partir dessas definições nós temos os seguintes usos da expressão κόσμος kósmos no Evangelho de João: (todas as referências a seguir são do Evangelho de João).

1. O Universo organizado — 17:5; o Planeta Terra, talvez — 21:25.

2. Como metonímia[3], os habitantes humanos do Planeta Terra, ou seja, a humanidade ou o ambiente onde a humanidade se movimenta e onde acontecem os eventos históricos relativos aos humanos, à raça humana e a estrutura social da humanidade — 16:21.

3. O público em geral — 7:4. O mesmo uso ocorre também, talvez, em João 14:22.

4. No sentido ético, o termo descreve a humanidade alienada da vida de Deus, pecaminosa, sob o severo juízo de Deus e precisando de salvação —

João 3:19

O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más.

A definição ou uso acima é a mais importante dentre todas as utilizadas pelo apóstolo João.

5. O mesmo uso indicado no item 4 acima, com a ideia adicional de que não existe nenhuma distinção com respeito à raça ou nacionalidade. Assim o termo é usado para descrever seres humanos de todas as raças, línguas e nações, sejam judeus sejam gentios — 4:42. O mesmo uso ocorre, provavelmente, em João 1:29; 3:16—17; 6:33, 51; 8:12; 9:5; 12:46; ver também 1 João 2:2; 4:14—15. Todos esses versos precisam ser entendidos à luz de João 12:32 que diz:

E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.

Para o apóstolo João como para todos os outros autores do Novo Testamento não havia, da perspectiva do pecado, nenhuma diferença diante de Deus entre judeus e gentios.
 
6. A jurisdição ou extensão do mal. O sentido é o mesmo no item de #4 com a seguinte ideia adicional: uma hostilidade aberta contra Deus, Seu Filho Jesus Cristo e o Povo de Deus —

João 7:7

Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más.


João 8:23

E prosseguiu: Vós sois cá de baixo, eu sou lá de cima; vós sois deste mundo, eu deste mundo não sou.


João 12:31

Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso.


João 14:30

Já não falarei muito convosco, porque aí vem o príncipe do mundo; e ele nada tem em mim.


João15:18—19

18 Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim.

19 Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia.


João 17:9, 14

9 É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.
14 Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou.

CONTINUA...

OUTROS ESTUDOS ACERCA DA IGREJA COMO CORPO DE CRISTO E NO PLANO ETERNO DE DEUS

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 001 — A Igreja

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 002 — A Unidade de Igreja

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 003 — Como a Unidade Funciona na Prática

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 004 — Como o Amor Funciona na Prática

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 005 — Unidade em Meio à Diversidade

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 006 — Unidade Com Variedade Mas com Harmonia

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 007 — A Igreja Como o “Mistério” de Deus e Uma Introdução a Efésios 1:3—14

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 008 — Uma Introdução a Efésios 1:3—14

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 009 — A Bênção Espiritual — Efésios 1:3

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 010 — As Regiões Celestiais — Efésios 1:3

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 011 — Nossa Escolha ou Eleição Divina — Efésios 1:4 — Parte 001

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 012  A —Escolha ou Eleição Divina — Efésios 1:4 — PARTE 002

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 013 — A Escolha ou Eleição Divina — Efésios 1:4 — PARTE 003

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 014 — A Escolha ou Eleição Divina — Efésios 1:4 — PARTE 004

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 015 — A Escolha ou Eleição Divina — Efésios 1:4 — PARTE 005

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 016 — A Escolha ou Eleição Divina — Efésios 1:4 — PARTE 006

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 017 — A Escolha ou Eleição Divina — Efésios 1:4 — PARTE 007 — O Mundo Nos Odeia

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 018 — A Escolha ou Eleição Divina — Efésios 1:4 — PARTE 008 — Por que O Mundo Nos Odeia

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 019 — As Desculpas para Rejeitar a Jesus e o Evangelho da Graça — PARTE 001

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 020 — As Desculpas para Rejeitar a Jesus e o Evangelho da Graça — PARTE 002

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 021 — As Desculpas para Rejeitar a Jesus e o Evangelho da Graça — PARTE 003
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/01/a-igreja-como-corpo-de-cristo-e-no_6.html

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 022 — O Propósito de Deus em Nossa Eleição: Nos Fazer Santos e Irrepreensíveis
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/03/a-igreja-como-corpo-de-cristo-e-no.html



A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 023 — Nossa Eleição e seu Relacionamento com nossa Predestinação

A Igreja Como Corpo de Cristo e No Plano Eterno de Deus — ESTUDO 024 — Nossa Predestinação Divina

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:

http://www.facebook.com/pages/O-Grande-Diálogo/193483684110775

Desde já agradecemos a todos. 



[1] Monolítico em forma figurada diz-se do caráter, do sentimento, da crença, etc., que não apresenta rupturas, que é Integro. Não é o caso do uso que João faz da palavra grega κόσμος kósmos — mundo.
[2] Hendriksen, William, New Testament Commentary – John. The Banner of Truth Trust, Edinburgh, 1976.
[3] Metonímia: Figura de linguagem que consiste em designar um objeto por palavra designativa de outro objeto que tem com o primeiro uma relação de causa e efeito - trabalho, por obra - de continente e conteúdo - copo, por bebida - lugar e produto - porto, por vinho do Porto - matéria e objeto - bronze, por estatueta de bronze - abstrato e concreto - bandeira, por pátria - autor e obra - um Camões, por um livro de Camões - a parte pelo todo - asa, por avião etc.

domingo, 18 de outubro de 2015

A PREGAÇÃO BASEADA NA BÍBLIA NÃO MUDA NUNCA EM SUA ESSÊNCIA


O artigo abaixo foi publicado pelo site da Editora Fiel e é de autoria de Peter Sanlon.

A Pregação Mudou Desde a Igreja Primitiva?
Peter Sanlon

A pregação expositiva sistemática e regular da Escritura tem um papel central em minha visão para o ministério eclesiástico normal. Quando prego através de cada livro da Bíblia para as minhas congregações, creio que estou continuando um ofício e uma tradição que tem suas raízes no Pentateuco, nos métodos de ensino judaicos e na Igreja Apostólica. O pouco espaço que tenho não me permite elucidar a natureza dessas primeiras florações da pregação expositiva; ao invés disso, foi–me pedido que compartilhasse algumas reflexões sobre a natureza de nossa obrigação para com a pregação da Igreja Primitiva pós-bíblica.

Os pregadores da Igreja Primitiva que eu vejo como mestres de ofício incluem Ambrósio, Jerônimo, Gregório de Nazianzo, Crisóstomo, Atanásio, Agostinho e Pedro Crisólogo. Contudo, quando leio os sermões desses praticantes da pregação expositiva, é impossível não notar que a pregação deles parece estranha àquilo que se pensa hoje como uma exposição. Como a pregação expositiva moderna pode ser dependente da pregação da Igreja Primitiva que parece tão estranha a nós?

Uma convicção comum aos antigos e modernos

Em primeiro lugar, é vital enfatizar a convicção que nós e os pregadores da patrística temos em comum. Tanto praticantes antigos quanto contemporâneos da pregação expositiva criam que a Escritura é verdadeira em tudo o que ela afirma. Além disso, ambos os grupos defendem que quando a Bíblia é pregada, o próprio Deus fala.

Em muitos lugares os Pais, como Tertuliano, afirmaram que o que quer que a Escritura ensine é a verdade.1 Agostinho também declarou: “Aprendi a render tal respeito e honra apenas aos livros canônicos da Escritura: apenas nesses creio decisivamente que os autores eram completamente livres de erro”.2 Tais afirmações explícitas da confiabilidade bíblica são valiosas na reconstrução da visão patrística da Escritura.

Todavia, as implicações que podem ser tiradas de como a Escritura foi usada por toda a vasta obra dos Pais da Igreja são, no mínimo, tão relevantes quanto. A pregação era o principal ponto em que a Bíblia era usada na Igreja Primitiva, e quando menções após menções são empilhadas sobre citações após citações, fica abundantemente claro que os pregadores antigos lidavam com a Escritura daquela maneira porque criam que ela era verdadeira e que através dela Deus falava aos seus ouvintes.

Como Agostinho pregou: “Tratemos a Escritura como Escritura: como Deus falando”.3 Sem tal convicção há pouca motivação para debruçar-se sobre o texto bíblico na preparação do sermão, como os Pais faziam.

Por que, então, os sermões da Igreja Primitiva parecem tão diferentes dos pregadores modernos ocidentais que compartilham do mesmo comprometimento para com o papel da Escritura no discurso de Deus? Os sermões da patrística sempre utilizam alegorias obscuras, presumem significado nos números e podem saltar por passagens bíblicas aparentemente aleatoriamente. Os sermões da patrística podem conter reflexões e excursões que aparentemente divergem grandemente do texto sendo considerado. A ideia de que a pregação expositiva moderna é descendente de tais homilias antigas seria, meramente, uma ilusão?

A pregação expositiva se relaciona com a cultura pagã

Pregação expositiva é um ofício, uma arte e uma disciplina pastoral que interage com a cultura pagã em geral e com a oratória pagã em especial.

Os pregadores da patrística (e os pregadores contemporâneos) comprometidos com a pregação expositiva têm visões radicalmente divergentes da erudição pagã. Alguns pregadores teciam citações de autores pagãos no tecido de suas exposições. Por exemplo, Ambrósio tem mais de cem citações de Virgílio em sermões de sua autoria a que temos acesso hoje, e usava o autor médico Galeno para ajudá-lo a explicar Gênesis. Tertuliano desacreditou o ensino pagão como inimigo da teologia. O fato de seu estilo de discurso se utilizar de técnicas retóricas forjadas nas escolas pagãs nos lembra que ninguém pode escapar completamente do seu contexto.

A frequência das citações de autores pagãos é a única e mais óbvia forma que o aprendizado pagão influenciou os sermões da patrística. Mais profundamente, a cultura pagã do mundo antigo era fascinada pelas palavras — seu sentido, formação e significado. O empilhamento nos sermões de citação bíblica após citação bíblica, assim como o uso de passagens bíblicas mais claras para interpretar passagens mais obscuras, eram técnicas que os pregadores aprenderam nas técnicas escolas pagãs usavam para interpretar Homero.

Assim como na Reforma, o contexto educacional dos pregadores da patrística moldou seus ministérios profundamente. O primeiro manual para o aprendizado da pregação foi escrito por Agostinho. Ele continua extensas seções refletindo sobre como se apropriar melhor das lições de oratória de Cícero. Agostinho via valor no discernimento pagão de como falar bem: “Por que aqueles que falam a verdade o fariam como se fossem estúpidos, enfadonhos e sonolentos?”.4 Apesar de elogiar algumas lições de Cícero, no fim Agostinho considerou que orar e ouvir bons pregadores era mais importante.5

Muito daquilo que faz os sermões da patrística parecerem diferentes dos sermões modernos surge do fato de que, em nossos ministérios de pregação expositiva, nós e nossos antepassados estamos (deliberadamente ou não) usando os melhores conhecimentos pagãos disponíveis sobre hermenêutica e comunicação. Os pregadores antigos criam que a Bíblia era uma palavra divina de rica verdade para os ouvintes. Eles buscavam significado em padrões de números porque a cultura pagã via beleza, verdade e significado residindo em mistérios profundos nos números. Se era assim com a matemática, os discursos persuasivos e a filosofia, pensavam, certamente deve ser muito mais com um texto inspirado pelo próprio Deus. O contexto do aprendizado secular moldou as abordagens dos pregadores antigos ao seu ofício.

O mesmo é verdadeiro quando se fala de questões práticas da pregação. Alguns pregadores escreviam seus sermões por completo e depois os liam. Outros, como Agostinho, meditavam na passagem durante a semana e depois falavam extemporaneamente. Muitas escolas de retórica ensinavam seus alunos a falar em público fazendo-lhes ler e memorizar discursos. Quintiliano, o orador pagão, argumentou que essa era uma maneira superficial e imatura de falar em público. Se um pregador concordasse com Quintiliano ou não acabava moldando sua prática com relação a falar a partir de um roteiro.

Seria um erro grave assumir que nossas abordagens modernas ao entendimento e à pregação da Bíblia são automaticamente superiores àqueles dos pregadores antigos. Também seria incorreto não observar o fato de que a pregação expositiva moderna é descendente da homilética da patrística e partilha de suas convicções fundamentais.

A pregação expositiva se desenvolve com a história da igreja

Outra razão pela qual os sermões da patrística parecem tão singulares é porque foram pregados por pessoas de dentro do contexto da história da igreja em que habitavam. No mundo antigo, alguns pregadores se beneficiaram ao fazer referências cruzadas de traduções iniciadas por Orígenes em sua Héxapla. Agostinho teve dúvida se deveria adotar a tradução bíblica mais erudita de Jerônimo ou continuar com a versão com a qual sua congregação estava mais familiarizada. Ele optou por manter a tradução menos precisa para a sua congregação por causa de sua sensibilidade pastoral, enquanto lentamente integrava a tradução de Jerônimo aos seus escritos acadêmicos.

Conforme a história da igreja progredia, também progrediam as ferramentas, e a forma de pregação expositiva se desenvolvia. Uma das áreas mais óbvias onde isso se aplicava era na história da salvação. Na Igreja Primitiva, os pregadores estavam muito conscientes de que havia um desenvolvimento dentro da história bíblica. Irineu desenvolveu uma teologia de “recapitulação” baseada nas repetições que se percebia dentro da história da salvação como a árvore em Gênesis 2 e o madeiro em que Cristo foi pendurado. A rejeição herética de Marcião do Antigo Testamento e interações com estudiosos judeus levaram muitos pregadores a pregar entre a semelhança e a unidade entre os Testamentos. A ênfase de Agostinho na graça na controvérsia pelagiana o levou a enfatizar a diferença entre a lei e o evangelho. Todas essas — e a aparente presença da prática da alegoria — eram tentativas primitivas dos pregadores de se dedicarem às passagens das Escrituras de maneira a fazer justiça à história da salvação por inteiro.

Dados os muitos desenvolvimentos na história da igreja que nos oferecem novas maneiras de articular a história da salvação e lhe dar nuances, é compreensível que os sermões da patrística possam parecer bem estranhos em suas interpretações teológicas. Na realidade, os grandes pregadores dos primeiros séculos estavam mapeando as possibilidades para configurar unidade e diversidade dentro do cânon — algo com o que nós temos dificuldade e diferimos ainda hoje.

Conclusão

A pregação expositiva mudou desde a igreja primitiva? Na questão de que a pregação expositiva deve se relacionar com a cultura pagã e desenvolver com a história da igreja, a resposta é sim. Se isso nos cegasse quanto às convicções centrais partilhadas a respeito da autoridade da Escritura e a paixão que leva os pregadores a usar o melhor material a que tem acesso na cultura e na teologia para pregar a Bíblia fielmente, nós não só estaríamos desonrando os santos que labutaram antes de nós, mas também deserdaríamos a nós mesmos de um tesouro que pode nos ajudar a aprimorar a nossa pregação — a pregação da Igreja Primitiva.

Tradução: Alan Cristie

Revisão: Vinícius Musselman Pimentel

O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.

O Artigo original poderá ser visto por meio do link a seguir:

http://www.ministeriofiel.com.br/artigos/detalhes/847/A_Pregacao_Mudou_Desde_a_Igreja_Primitiva?utm_source=inf-set-2015&utm_medium=inf-set-2015&utm_campaign=inf-set-2015

Autor


Peter Sanlon é ministro da St. Mark’s Church em Tunbridge Wells, Reino Unido. Ele é autor de "Augustine’s Theology of Preaching".

Notas:

1 - Tertuliano, A Carne de Cristo, 6.

2 - Agostinho, Epístola 82.3.

3 - Agostinho, Sermão 162C.15.

4 - Agostinho, A Doutrina Cristã, 4.3.

5 - Agostinho, A Doutrina Cristã, 4.32.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:



Desde já agradecemos a todos.   

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — ESTUDO 006 - INTRODUÇÃO À CRÍTICA DE TEXTOS


Manuscritos de 1700 anos descoberto na Biblioteca do Vaticano

Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato queremos incentivar que todos possam ler esses artigos compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

ESTUDO 006 — ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 001

INTRODUÇÃO

A análise de textos antigos é algo muito complexo. Ficamos chocados de ver como as pessoas são tão facilmente manipuladas por historiadores, sociólogos, antropólogos que resolvem escrever acerca da Bíblia ou da pessoa de Jesus Cristo sem ter o mínimo conhecimento de como o material escrito foi processado para chegarmos onde estamos no século XXI.

OS AUTÓGRAFOS ORIGINAIS

Costuma-se afirmar que, quando se realiza uma análise textual estamos procurando encontrar o “texto original”. Mas o que queremos dizer quando usamos a expressão “texto original”? Como exemplo, vamos pegar o cronista grego Homero, suposto autor dos épicos “A Ilíada e a Odisséia”. Quando falamos de “texto original”, com relação à suas duas obras, estamos nos referindo, exatamente, aos manuscritos originais que ele, supostamente, escreveu? Ou nos referimos às palavras originais coletadas por ele e por muitos outros para, finalmente, compor, as duas obras? Ou podemos falar de Shakespeare, alguém mais próximo de nós. Quando nos referimos ao seu material original, estamos falando do primeiro rascunho que ele escreveu de alguma de suas peças, ou dos atores quando proferiram as palavras durante a primeira encenação?

No caso de Shakespeare e de outros dramaturgos da era de Elizabeth I, a questão é ainda bem mais complicada, do que as escolhas que temos que fazer podem nos dar a impressão. A relação entre o escrito original e a apresentação no palco pode ser extremamente complexa. O processo seguido por Shakespeare era, provavelmente, o seguinte: ele preparava um rascunho inicial, geralmente chamado de “os papeis sujos”. Esses papéis sofreriam depois, inúmeras correções e alterações, por meio de revisões sistemáticas aplicadas sobre os mesmos. Esse processo tornava esses “originais” impróprios para qualquer propósito relacionado com a produção da peça em si. Assim, alguém — talvez o próprio autor, mas talvez não — se empenhava em produzir uma cópia decente o suficiente para ser usada na produção. Os “papéis sujos” eram então arquivados em algum lugar, na mais completa desordem. Mas esses papéis sujos eram, provavelmente, a última cópia produzida pelas mãos do próprio Shakespeare. E tudo isso é ainda mais verdadeiro a respeito de Shakespeare quando comparado com outros dramaturgos elisabetanos, porque sabemos que seus manuscritos eram, extremamente, difíceis de serem lidos.

Somente a cópia limpa, mesmo vinda das mãos do próprio Shakespeare, servia para ser utilizada da produção da peça teatral. Também sabemos que Shakespeare não entendia muito bem de como as coisas se processavam no palco, onde suas peças eram representadas. Shakespeare também costumava usar certas formas peculiares e confusas ao soletrar palavras. Desse modo, alguém tinha que converter a cópia limpa num livro que pudesse ser melhor utilizado pelos atores e diretores. Isso, em adição aos acréscimos feitos pelas direções do palco e outras coisas semelhantes, que poderiam envolver um nivelamento da linguagem, a remoção de termos não condizentes, e pelo menos, em alguns casos, a clarificação de erros ou coisas não muito bem entendidas. A produção no palco nunca estava sob a direção direta do próprio Shakespeare. Era algum produtor não relacionado à peça que comandaria o espetáculo em si. Mas Shakespeare estava sempre disponível para esclarecer quaisquer dúvidas, e bem poderia ser o responsável final por certas mudanças ou correções na linguagem final utilizada.

Desse modo, muitos acreditam que Shakespeare atuava em algumas de suas peças, de tal maneira que pudesse experimentar, em primeira mão, o toma lá dá cá da apresentação.

E tudo isso acontecia antes da abertura oficial da encenação da peça. Depois da criação do livro definitivo estar pronto, mudanças ainda podiam ser feitas — e, se as mudanças fossem cortadas, as alterações não ficariam registradas no livro definitivo. Imagina-se que Shakespeare talvez não tivesse controle total ou absoluto sobre essas mudanças, porque o produtor poderia exigir um corte de, digamos, 20 minutos em uma determinada parte. É possível que Shakespeare pudesse escolher as partes que seriam cortadas, mas não temos certeza absoluta disso.

Desse modo, a questão fundamental que queremos tratar nesse e outros artigos dessa subsérie torna-se bastante real e crítica. Quais das versões poderá ser chamada de “original”: os chamados “papeis sujos” que é a única cópia conhecida como tendo sido inteiramente produzida por Shakespeare? Mas essa cópia continha erros, algo que, certamente não era a intenção do autor. E o que podemos dizer da copia limpa, mas que continha algumas correções feitas pelo próprio autor? Ou o livro final, que podia conter alterações que não foram feitas pelo autor, mas que contém materiais que ele poderia ter sugerido, isso para não falarmos das instruções referentes à encenação no palco e a identificação correta dos atores. E ainda podemos falar da versão final que foi utilizada pelos produtores.

E uma vez que decidimos qual manuscrito deve ser o objeto central do nosso estudo e análise, nós ainda teremos que repassar todo o material produzido no processo de desenvolvimento até atingirmos o livro final. Algumas das peças escritas por Shakespeare existem apenas na impressão chamada de “First Folio” e adições feitas a partir dele. Acredita-se que as peças encontradas nos “fólios” sejam derivadas de diversas fontes: desde os papéis sujos escritos pelo próprio Shakespeare até cópias do livro final impresso, mas que foram produzidos pelos mais variados editores.

Outras peças existem em quatro volumes individuais, cada uma correspondendo a uma das partes das mesmas. Alguns são “quartos” muito bons quando retirados de fontes semelhantes aos fólios. Já outros são considerados “quartos” ruins, pois procedem das lembranças de atores que participaram na peça. Esses são marcados pro trechos esquecidos ou cortados pelos produtores. No entanto, ainda assim todo esse material constitui a única fonte externa ao que encontramos nos fólios. Isso pode ser uma indicação que os mesmos são mais antigos que o material contido nos próprios fólios.

Muitos outros escritos têm sofrido de complicações similares e não temos motivos para pensar que apenas as obras de Shakespeare ou mesmo do Novo Testamento sejam as únicas envolvidas nessas questões. O problema da recomposição é algo bastante verdadeiro e sensível.

Esses problemas ocorrem através de todo o campo e dos processos do que chamamos de crítica do texto. Nós sempre devemos ter em mente o que estamos tentando reconstruir. Apesar de todos os nossos esforços em recriar os autógrafos originais, aquilo que foi escrito originalmente pelo próprio autor, o que estamos fazendo, de fato, é trabalhando com um arquétipo que pode ser definido assim: o ancestral comum mais antigo de todas as cópias sobrevivente de um determinado material.  

OUTROS ARTIGOS DE COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 001 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 002 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 003 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO — FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 004 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — OS PERGAMINHOS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 005 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — PAPEL E BARRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 006 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 007 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 008 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 – FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 009 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 010 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 011 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 003

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 012 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 004

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 013 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 005

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 014 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 006
Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.