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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

REDE GLOBO E A EXPLORAÇÃO DO ACIDENTE DA CHAPECOENSE



O artigo abaixo é de autoria do professor Wilson Roberto Vieira Ferreira. A expressão tautismo é um neologismo criado pelo francês Lucien Sfez que une as palavras tautologia ou repetição com autismo. Dessa maneira, o tauismo se refere a um indivíduo, ou organização, preso em seu próprio silêncio do mesmo modo em que um autista se encontra prisioneiro de sua fortaleza interior.

Globo expõe metástase do tautismo na tragédia da Chapecoense

Invasão de privacidade e exploração sensacionalista das emoções são traços generalizados na cobertura de grandes tragédias pela mídia. Porém, com a Globo há um elemento mais insidioso: depois de décadas exercendo o monopólio político e comunicacional no País, sua autocentralidade entrou em metástase através do tautismo (autismo + tautologia). A extensa cobertura da tragédia do desastre aéreo do time da Chapecoense deixou mais explícito esse estado patológico no qual a emissora só consegue olhar para além dos muros cenográficos do Projac através de referências que faz de si mesma. Do “turbilhão de emoções” da narração do velório coletivo por Galvão Bueno à insistência como repórteres e locutores tiveram que demonstrar a si mesmos emocionados (chegando a fazer “selfies” com celulares), chorando e até consolados pela mãe de um dos jogadores, é como se o tempo todo repetissem: “tenho emoções, logo a tragédia é real!”. Chegando a um surreal “Efeito Heisenberg”: o global Galvão Bueno narrando o outro global Cid Moreira lendo a Bíblia com a mesma inflexão de voz com que lia as notícias do “Jornal Nacional” e narrava as peripécias do Mister M.

O hábito do cachimbo entorta a boca. Por décadas a TV Globo usou e abusou do recurso de metalinguagem (falar de si mesma) como forma de demonstração do seu monopólio e poder absoluto na comunicação social brasileira: não se limitava transmitir um acontecimento. O acontecimento era a Globo transformando o acontecimento em notícia – o repórter sempre foi o protagonista da notícia enquanto a História sempre garantiu exclusividade e pioneirismo para a emissora.

A deferência como o técnico da Itália Enzo Bearzot tratou em toda Copa de 1982 o repórter Ernesto Paglia, a amizade exclusiva de Galvão Bueno com Airton Senna, a forma como praticamente a emissora salvou a cidade do Rio de Janeiro nas enchentes de 1966, a emissora que virou notícia de si mesma com o sequestro de William Waack por forças de segurança de Saddam Hussein na Guerra do Golfo, o jornalista Reginaldo Leme escrevendo o prefácio do livro do CEO da Fórmula 1 Bernie Eclestone etc.

Passagens que a emissora sempre fez questão em destacar, como se a História sempre conspirasse para as câmeras da Globo.

Embora mantenha seu poder econômico e político graças, entre outras coisas, ao BV (Bônus por Volume) para garantir a maior parte do bolo das verbas publicitárias, nos últimos anos a Globo vem sofrendo crescente queda nas audiências e a concorrência das tecnologias de convergência e Internet.

Como destacamos em postagem anterior, a reação global foi abandonar a estética space opera de Hans Donner (adotando um visual mais “orgânico”, deixando o artificialismo metálico) e mergulhar ainda mais na metalinguagem como demonstração de que ainda continua poderosa e influente –  veja artigo sobre esse assunto por meio do link abaixo:

http://cinegnose.blogspot.com.br/2014/05/globo-reaje-crise-de-audiencia-e.html

Porém, o cachimbo entortou a boca: essa obsessão pela metalinguagem entrou em metástase, resultando na patologia do tautismo – autismo + tautologia. De tanto falar de si mesma, criou o “fechamento operacional” de um sistema que se tornou obeso – a audiência já não sustenta a folha de pagamento, dependendo a emissora das gordas verbas publicitárias governamentais.

De tão obesa e fechada em si mesma, simplesmente a emissora não consegue mais ver o mundo do outro lado dos muros do Jardim Botânico e da cenografia do Projac. O exterior somente é traduzido a partir de uma descrição que a Globo faz de si mesma.

Ao lado das telenovelas, o futebol é prioridade comercial da TV Globo. Dona do futebol brasileiro (a ponto de “antecipar” com horas de antecedência resultado de sorteio da final da Copa do Brasil –  ver aqui: http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/11/tautismo-da-globo-preve-resultado-de.html - a tragédia do acidente aéreo que vitimou o time da Chapecoense mereceu uma extensa cobertura. Sendo o auge a transmissão de seis horas do velório coletivo em Chapecó, na Arena Condá.

Para quem estuda a evolução das mídias, as transmissões ao vivo ou coberturas extensivas , principalmente de uma emissora em estado de metástase tautista, é uma oportunidade de obter flagrantes dessa tradução autorreferencial que a Globo faz do mundo. 

“Tenho emoções, logo a tragédia é real”

Que ao longo da evolução da linguagem televisiva os jornalistas deixaram de ser simples repórteres para se transformarem em protagonistas das notícias, não é nenhuma novidade.

Porém, na Globo esse traço do telejornalismo também alcançou a metástase: as imagens por si mesmas parecem não conseguir expressar a dimensão exata da tragédia e tristeza que se abateu sobre a Chapecoense, sua torcida e o País. Repórteres e locutores devem constantemente abandonar a função referencial da linguagem para insistirem na função emotiva, centrada no receptor – só para relembrar, há seis funções da linguagem: referencial (sobre o quê a comunicação fala), emotiva (emissor), conativa ou apelativa (receptor), poética (mensagem), fática (canal), metalinguagem (a comunicação falando dela mesma).


No contexto atual da emissora é sintomática a escolha de Galvão Bueno para narrar o velório coletivo em Chapecó. Se em 1994 o velório de Ayrton Senna em São Paulo, narrado ao vivo por William Bonner, deu um caráter jornalístico hard news para o evento, agora, com Bueno, parece que foi transferido para a editoria do jornalismo esportivo.

E não foi para menos. O registro solene jornalístico foi substituído pelo “turbilhão de emoções que não para” – sem conter a emoção, chorou: “não aguento mais”, disse perdendo a voz diversas vezes na transmissão.

O que fez a atenção do espectador diversas vezes concentra-se nele, chegando a comover internautas em redes sociais elevando seu nome mais comentados no Twitter.

É uma das características da linguagem tautista: fechada em si mesma, a imagem deve contar com redundância sígnica do emissor, da mesma maneira que o Papa Léguas tinha que sublinhar sua velocidade para as crianças (e, por isso, jamais o Coiote o pegaria) fazendo “bip-bip” como buzina de carro.

É como se Galvão Bueno quisesse dizer a todo momento: “vejam como estou emocionado, a tragédia é real!”. Assim como um correspondente ao vivo de Washington tem que se posicionar diante do Capitólio ou da Casa Branca para que o telespectador acredite que de fato o repórter está lá – autismo (a função emotiva supera a referencial) e tautologia (repetição na função emotiva daquilo que poderíamos ver apenas nas imagens).

Resultado: infantilização da transmissão, análoga à linguagem das onomatopeias dos desenhos animados.

“Vejam eu transmitindo, logo é verdade!”

A insistente centralidade no jornalista (como se ele antecedesse o próprio acontecimento) criou duas insólitas situações na cobertura dos eventos de Chapecó.

Na edição do Jornal Nacional do sábado (03/11) a repórter Kiria Meurer (da RBS, afiliada à Globo) parou diante do ônibus que levaria os familiares ao aeroporto onde seriam recebidos os corpos. “Eu consegui um lugarzinho aqui no ônibus, vou acompanhar esses familiares. A partir daqui, a nossa câmera, com o nosso cinegrafista, não pode gravar. Então vou gravando com o meu celular”, disse ela - assista ao vídeo por meio do link abaixo a partir dos 55:30 minutos:

https://www.youtube.com/watch?v=pbTkQgjbLx4

O auge foi quando Meurer filmou a si mesma com seu celular percorrendo a área do velório. Além da consciente invasão de privacidade (talvez um traquejo de anos de pauta sobre corrupção com câmeras secretas para mostrar corruptos amealhando dinheiro vivo – de novo o cachimbo entortou a boca), demonstra a obsessão metalinguística tautista de querer dizer sempre: “vejam eu transmitindo. Se transmito, então é verdade!”.
E o segundo episódio explícito de autorreferência metalinguística foi quando a mãe do goleiro Danilo, “num momento de tragédia pessoal encontrou forças para consolar o repórter Guido Nunes da SporTV”. E termina dizendo: “numa demonstração de respeito aos jornalistas que também morreram...” - veja o vídeo por meio do link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=zTDCg1zbBNU

O paroxismo de Cid Moreira

Da metástase ao paroxismo. No ápice de um efeito Heisenberg (efeito no qual ao transmitir acontecimentos, a mídia na verdade transmite seus próprios efeitos nos acontecimentos – sobre esse conceito veja aqui: http://cinegnose.blogspot.com.br/2013/06/o-efeito-heisenberg-na-irrealidade.html -  eis que vemos um patibular Cid Moreira lendo trechos bíblicos em um episódio que jamais esse humilde blogueiro poderia imaginar nos mais loucos pesadelos: Galvão Bueno narrando Cid Moreira.

Jornalista e apresentador do Jornal Nacional da Globo por 27 anos, a aparição de Cid Moreira como protagonista na própria transmissão global do velório coletivo foi o sintoma mais explícito (o efeito Heisenberg) de uma cobertura na qual o tautismo foi generalizado.

 Nesse episódio, a Globo projetou involuntariamente a si mesma no próprio evento que transmitia.

Além de comprovar como, ao longo das décadas, a emissora conseguir dominar corações e mentes, de tal maneira que a busca por conforto espiritual à tragédia veio através da inflexão da voz familiar que entrou nas casas das famílias de Chapecó por décadas – dessa vez não mais dando notícias ou narrando as peripécias de Mister M, mas lendo versículos das cartas do apóstolo Paulo aos Coríntios.

“Nossos companheiros...”

Vinte profissionais de comunicação morreram no desastre aéreo, entre jornalistas, produtores, cinegrafista e locutores das emissores Globo, RBS, Fox, Rádio Oeste, Rádio Super Condá.

Mas somente os profissionais da Globo e afiliada RBS mereceram, desde o primeiro momento da cobertura, serem nomeados. Os restantes dos profissionais eram genericamente denominados como “nossos companheiros”. Ao longo da semana, apenas no canal fechado Globo News apresentou um infográfico objetivo com a lista completa com nome, foto e a emissora na qual cada um trabalhava.

Tanto nas edições do Jornal Nacional como no Fantástico passou a ser informada a lista completa dos profissionais, porém com a evidente autocentralização tautista que contamina a descrição que a Globo faz do mundo exterior: para cada profissional da Fox Sports citado, era destacado o período em que cada um deles havia trabalhado na SporTV, jornal O Globo, rádio Globo ou na TV Globo.

Ou seja, somente pareciam merecer figurar na descrição completa por serem ex-profissionais das organizações Globo.

Exploração sensacionalista das emoções e invasão de privacidade são elementos generalizados nas coberturas que a grande mídia sempre faz nas tragédias.

Mas na Globo há um elemento mais crônico: seu monopólio e estrutura obesa que não mais se sustenta (a não ser através da intervenção na política nacional) criou uma patologia (autocentralidade) que entrou em fase de metástase – o tautismo.

O artigo original poderá ser visto por meio do seguinte link:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis
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Desde já agradecemos a todos.

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domingo, 8 de novembro de 2015

UMA ABORDAGEM POUCO ORTODOXA DOS CHAMADOS EVANGÉLICOS



O artigo abaixo foi publicado pelo site da Revista Superinteressante da Editora Abril.

Evangélicos

Não dá mais para fingir que não vemos. Um a cada cinco brasileiros já é evangélico - e o número continua crescendo. Se você quer entender o Brasil e antever o futuro, precisa antes saber como isso foi acontecer.

Por Redação da Revista Supernteressante

O texano Kenneth Hagin, nascido em 1917, era uma criança doente. Desde os 9 anos, ficou confinado na casa do avô. Aos 16, desenganado pelos médicos, infeliz e preso a uma cama, tinha poucas esperanças de ver sua vida melhorar. Um ano depois, em agosto de 1934, Hagin teve uma revelação. Ele compreendeu de repente o significado de um versículo do Evangelho de São Marcos. A passagem do Novo Testamento dizia: “Tudo quanto em oração pedires, credes que recebeste, e será assim convosco”. Hagin então ergueu as mãos para o céu e agradeceu a Deus pela cura, mesmo sem ver sinal de melhora. Então levantou-se da cama. Estava curado.

A mensagem, que Hagin popularizou por meio de mais de 100 livros, é clara: Deus é capaz de dar o que o fiel desejar. Basta ter fé e acreditar que as próprias palavras têm poder. Sendo assim, para os verdadeiros devotos, nunca faltará dinheiro ou saúde. Essa doutrina ficou conhecida como “teologia da prosperidade”. A crença foi incorporada anos depois por várias igrejas. Ela é central no mais impressionante fenômeno religioso do Brasil contemporâneo: a explosão evangélica.

No começo, essa explosão se deu em silêncio, praticamente ignorada pelas classes médias. Os templos evangélicos surgiam nas cidadezinhas perdidas e nas periferias miseráveis das metrópoles. Já não é mais assim. No primeiro dia de 2004, a Igreja Pentecostal Deus é Amor inaugurou no coração de São Paulo o seu novo templo. A obra tem tamanho de shopping center, arquitetura de gosto duvidoso e comporta 22 mil pessoas sentadas.
É cinco vezes maior que a católica Catedral da Sé, lá perto.

Há meio século os evangélicos são a religião que mais cresce no país. Nos últimos 20 anos, mais que triplicou o número de fiéis: de 7,8 milhões de pessoas em 1980 para 26,4 milhões em 2001, um pulo de 6,6% para 15,6% da população brasileira. Em 2010 já ultrapassava os 40 milhões, Hoje representa cerca de 22% de toda população brasileira. Em algumas cidades, foram criados vagões de trem exclusivos para crentes, em que as pessoas podem viajar ouvindo pregações bíblicas. Em outras, não parece longe o dia em que eles representarão mais de 50% dos habitantes. Com mais de 400 anos de atraso, finalmente estamos sentindo os efeitos da Reforma protestante que varreu a Europa no século 16.

Um terreninho do Céu

Evangélicos, é importante esclarecer, é a mesma coisa que protestantes. As duas palavras são sinônimas. Ou seja, evangélicas são praticamente todas as correntes nascidas do racha entre o teólogo alemão Martinho Lutero e a Igreja Católica, em 1517. O alemão estava especialmente chateado com o comportamento dos padres, que, segundo ele, tinham virado corretores imobiliários do céu, comercializando indulgências – vagas no Paraíso para quem pagasse.

Lutero abriu a primeira fenda no até então indevassável poder papal sobre as almas do Ocidente. A ele se seguiram outros. Na Inglaterra, o rei Henrique VIII criou sua própria dissidência do catolicismo – depois batizada de anglicanismo – só porque o papa não queria que ele se divorciasse e casasse de novo. Na Suíça, Ulrico Zwinglio e João Calvino aprofundaram as reformas de Lutero. Zwinglio pregava o princípio que fundamentaria todo o movimento: o cristão deve seguir apenas a Bíblia (os católicos aceitam influências de teólogos, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino). Já Calvino foi o responsável pela introdução do puritanismo, que combinava regras rígidas de conduta com uma fervorosa dedicação ao trabalho. No começo do século 20, o sociólogo alemão Max Weber publicou o texto clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, no qual atribui a essa invenção de Calvino o sucesso do capitalismo em países evangélicos.

Todos esses movimentos estimulavam o fim do monopólio da Igreja sobre a interpretação da Bíblia. Cabia a todo e qualquer cristão ler as Escrituras e tirar delas o que quisesse. Os protestantes recusavam a idéia de que um único líder – o papa – deveria guiar os rumos da religião. Foi isso que começou a fragmentação do movimento em diversas correntes, com pequenas diferenças doutrinárias. Surgem os batistas, os metodistas, os presbiterianos...

Mas o Brasil colonial passou quase imune à avalanche protestante. Houve apenas algumas exceções, como os calvinistas franceses e holandeses que invadiram o país – o primeiro culto evangélico por estas terras foi celebrado por franceses no Rio de Janeiro, em 1557, só 57 anos depois da missa católica inaugural. Era proibido realizar cultos de qualquer religião que não o catolicismo no território português.

A liberdade religiosa no Brasil só veio com a independência, na Constituição de 1824, ainda que impondo restrições de que as reuniões acontecessem em locais que não tivessem “aparência exterior de templo”. No mesmo ano, alemães fundaram a primeira comunidade luterana do Brasil. Logo depois chegaram as correntes missionárias, como os metodistas, dispostas a pregar nas ruas para salvar almas. Eles caíram nas graças da elite intelectual republicana que, impressionada com a “ética protestante”, defendia a presença de evangélicos como condição para a modernização do país.

Mas os protestantes que prosperaram no Brasil pouco tinham a ver com a tal ética protestante de Weber. No início do século 20, a fundação de duas igrejas seria decisiva para definir o perfil evangélico nacional: a Congregação Cristã no Brasil, inaugurada em São Paulo pelo italiano Luigi Francescon, em 1910, e a Assembléia de Deus, aberta um ano depois em Belém pelos suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg. Apesar da origem européia, eles chegaram ao país via Estados Unidos, onde se envolveram com uma nova corrente protestante, o pentecostalismo, um grupo que crescia em popularidade por lá desde a virada do século.

Começou aí o que o sociólogo Paul Freston chama de “a primeira onda do pentecostalismo brasileiro”. O movimento era desaprovado tanto por católicos quanto pelos protestantes “históricos”, como são conhecidas as correntes diretamente ligadas a Lutero e Calvino. Nem uns nem outros gostavam da principal característica da doutrina pentecostal: a exacerbação dos poderes sobrenaturais do Espírito Santo (a palavra “pentecostalismo” vem de uma passagem da Bíblia que diz que, num dia de Pentecostes – a Páscoa judaica –, o Espírito Santo desceu aos apóstolos e começou a operar milagres). O mais notável desses poderes é a capacidade que Deus tem de curar imediatamente qualquer problema de saúde – daí as cenas de aleijados abandonando muletas e míopes pisando nos óculos. O pentecostalismo cresceu na classe baixa, promovendo cultos de adoração fervorosa e improvisada, bem dissonantes dos protestantes tradicionais, tão formais quanto contidos.

Para participar das novas congregações, os fiéis eram obrigados a se submeter a rígidas normas comportamentais. Os pentecostais eram os “crentes” estereotípicos: mulheres de cabelos compridos e saia, homens de terno e Bíblia na mão. As palavras essenciais para entender suas rotinas de vida são ascetismo, ou a recusa de usufruir os prazeres da carne, e sectarismo, o isolamento do restante da sociedade. Por trás delas, está a idéia de que o cristão deve se manter concentrado em Deus. Só assim ele pode evitar que o Diabo ganhe espaço na sua vida. Para os pentecostais, o mundo é simples: o que não é de Deus é o Diabo.

A Deus é Amor, aquela que acabou de abrir um megatemplo no centro de São Paulo, é uma das mais rigorosas entre as pentecostais. Ela proíbe freqüentar praias, praticar esportes ou participar de festas. Às mulheres, é vetado cortar o cabelo e depilar. Crianças com mais de 7 anos não podem jogar bola, graças a um versículo bíblico que diz “desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança”. Tantas regras têm compensação: para os pentecostais, o melhor da vida está reservado aos fiéis para depois da morte.

Até a década de 50, esse modelo reinou sozinho no pentecostalismo nacional. Fez sucesso, mas ficou restrito a grupos relativamente pequenos. A chegada da “segunda onda”, no entanto, traria uma novidade. É o que se convencionou chamar de “neopentecostalismo”. Em 1951 desembarcou aqui a Igreja do Evangelho Quadrangular, inaugurando no país o pentecostalismo de costumes liberais. “Todas essas igrejas que fazem sucesso hoje são nossas filhas, netas ou bisnetas”, diz o pastor Neslon Agnoletto, do conselho nacional da Quadrangular. De fato, inovações como os hinos com ritmos populares, a forte utilização do rádio e regras de comportamento menos duras, todos ingredientes indispensáveis do “evangelismo de massas”, foram práticas importadas pela Quadrangular, fundada nos Estados Unidos em 1923.

Deus é um office-boy

Para resumir, neopentecostalismo quer dizer que Monique Evans, Gretchen e Marcelinho Carioca podem agora se considerar “crentes”. Para isso, algumas adaptações aconteceram: saem os homens de terno e as mulheres de pêlos nas pernas, entram pessoas que se vestem com roupas comuns e não se animam a seguir normas rígidas de conduta. A primeira inovação foi riscar do mapa o ascetismo, o sectarismo e a crença de que a melhor parte da vida está reservada para o Paraíso. “A preocupação dos neopentecostais é com esta vida. O que interessa é o aqui e o agora”, afirma o sociólogo Ricardo Mariano, autor de Neopentecostais – Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil.

Outra diferença é a radicalização da divisão do Universo entre Deus e o Diabo. Para os neopentecostais, os homens não são responsáveis pelos atos de maldade que cometem: é o Diabo que os leva a pecar. Numa sessão de descarrego da Igreja Universal, o pastor explicou que, se o fiel enfrenta um problema há mais de três meses, é provável que esteja carregando um encosto. “Se a dificuldade completar um ano, daí não há dúvida: a culpa é do demônio”, disse para a congregação. Ele não se referia só a entraves financeiros ou comportamentais. A receita vale para tudo, inclusive para doenças incuráveis. Assim, expulsar o demônio do corpo é a receita única para todos os males, de casamento infeliz até câncer no pulmão.

O ritual é feito aos gritos de “sai, capeta”, às vezes com lágrimas escorrendo pelo rosto e transes que terminam no exorcismo. Os cultos tornaram-se mais ativos, incluindo aplausos para Jesus e música gospel. Mas a inovação mais profunda do neopentecostalismo foi a aplicação da teologia da prosperidade, aquela exposta no primeiro parágrafo desta reportagem. Graças a ela, o neopentecostalismo ganhou o apelido de “fé de resultados”.

“A teologia da prosperidade faz o fiel encarar Deus como um office-boy”, diz o cientista da religião e pastor Paulo Romeiro, autor de Supercrentes – O Evangelho Segundo os Profetas da Prosperidade. “O crente dá ordens e determina o que pretende. Não há qualquer reconhecimento das fragilidades humanas e de suas necessidades em relação a um Deus superior”, afirma Romeiro. No Brasil, além da Universal, a Renascer em Cristo, a Sara Nossa Terra e a Internacional da Graça de Deus adotam a teologia da prosperidade.

A força de enxurrada com que o neopentecostalismo cresceu desorganizou todo o protestantismo. “Há uma verdadeira perda de identidade no movimento evangélico mundial. O pentecostalismo flexibilizou suas exigências comportamentais e até os protestantes históricos passaram a aceitar a participação mais ativa do fiel no culto e algumas manifestações sobrenaturais”, afirma o pastor batista Joaquim de Andrade, pesquisador da Agência de Informações da Religião. Mais e mais, boa parte do mundo protestante aceita a teologia da prosperidade.

A onda de mudança foi bater até onde a Reforma de Lutero não tinha chegado: nas praias do catolicismo. A influência neopentecostal sobre a renovação carismática católica é tão grande que seu maior expoente no Brasil, padre Marcelo Rossi, é acusado de ter gravado hinos religiosos tirados de templos evangélicos.

Promessas de um novo mundo

Mas por que cada vez mais pessoas abandonam suas religiões para tornarem-se evangélicas? Nos anos 60, a nova religião era vista como uma forma de migrantes de zonas rurais enfrentarem a falta de valores e regras da sociedade moderna e estabelecerem relações de solidariedade na metrópole. Demorou dez anos para essa hipótese ser desacreditada por estudos que mostraram que as igrejas eram compostas igualmente pelos pobres nascidos e viventes na cidade e no campo.

Houve espaço para teorias conspiratórias: o avanço evangélico seria um plano dos Estados Unidos (ou do Diabo) para dominar a América Latina. A hipótese foi defendida a sério pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, que na década de 80 enviou memorando ao Vaticano, citado no livro de Mariano, afirmando que a CIA, aliada à direita brasileira, acelerava a “expansão dessa religião alienante no continente para frear a proliferação da Igreja Católica progressista”.

Mas essas explicações não convencem ninguém e o avanço neopentecostal exigiu um novo foco nos estudos. Em seu mais recente trabalho, o ainda não publicado “Análise Sociológica do Crescimento Pentecostal no Brasil”, Mariano afirma que as motivações para a conversão estariam nas soluções mágicas oferecidas. “Uma grande parcela da população não tem acesso ao serviço de saúde – e, quando tem, recebe atendimento precário e mal entende os médicos. É muito mais fácil, e faz mais sentido, acreditar que os problemas são causados pelo demônio e se tratar na igreja”, afirma o sociólogo.

Não é apenas a questão médica que está em jogo. A dualidade entre Deus e o Diabo é uma das mais eficientes respostas para a eterna pergunta sobre como é possível existirem tantas coisas ruins. Um presidiário pode culpar a influência do demônio pelo passado violento – uma explicação para o sucesso da religião nas prisões. Essa dualidade também pode estar na raiz da popularidade evangélica entre ex-viciados em drogas – e de sua comprovada eficácia na luta contra o vício. O apelo pode efetivamente ajudar ex-criminosos e ex-viciados a deixarem seus “maus hábitos” para trás. Com isso, os neopentecostais respondem satisfatoriamente às questões dos nossos tempos – coisa que outras religiões nem sempre conseguem fazer.

Juntando tudo, o que se tem é uma religião que escancara uma ambição materialista e imediata na relação com Deus. Um apelo e tanto, que parece ter especial atração para os mais pobres. Estaríamos, portanto, diante de uma mudança naquilo que as pessoas esperam da experiência religiosa? “Não”, responde o estudioso de religiões Antonio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo. “A maior parte das religiões tem esse viés materialista. As pessoas sempre rezam com o objetivo de pedir e receber algo. A diferença é que os evangélicos assumem essa faceta sem se envergonhar.”

Seria injusto, no entanto, listar apenas explicações sociológicas para justificar a onda de conversões. Poucas religiões têm tanta disposição para atrair fiéis como os evangélicos. Templos são abertos nos mais distantes rincões e pastores dedicam-se com fervor. As igrejas estão à frente das demais no entendimento de que evangelizar é como convencer um consumidor a comprar. “Os depoimentos de fiéis na TV e no rádio são o apelo de marketing para demonstrar a eficiência dos serviços”, diz Ari Pedro Oro, antropólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e organizador do livro Igreja Universal do Reino de Deus. As igrejas seduzem com um produto atraente e oferecem bom serviço. São religiosamente adeptas da mais pura e simples mentalidade empresarial.

Crescei e mutiplicai

Em novembro do ano passado, um evangélico foi ao Programa do Ratinho pedir a devolução dos dízimos que havia dado à igreja. Argumentava que o pastor lhe prometera prosperidade em troca do dinheiro. Sem melhorar de vida, o fiel, como se fosse um consumidor lesado, foi ao Ratinho pedir o dinheiro de volta.

Essa história ilustra de modo brilhante a relação que as neopentecostais criaram com seus fiéis-clientes. Elas prestam um serviço. E eles pagam. É bom lembrar que dar dinheiro a Deus, seja através da caridade ou de doações, é parte da doutrina de diversas religiões, incluindo todas do braço judaico-cristão. Com a teologia da prosperidade, no entanto, o dinheiro ganhou nova função. Agora é preciso dar para receber. Num de seus livros, Edir Macedo, o líder da Universal, explica que devemos formar uma “sociedade com Deus”. “O que nos pertence (nossa vida, nossa força, nosso dinheiro) passa a pertencer a Deus; e o que é d’Ele (as bênçãos, a paz, a felicidade, a alegria, tudo de bom) passa a nos pertencer”, afirma o bispo.

É uma leitura polêmica do Evangelho. A idéia de que dar dinheiro é parte de uma relação de troca com Deus desperta calafrios em muitos religiosos. “É uma contradição. A Reforma protestante começou justamente porque Lutero se levantou contra a venda das indulgências”, diz o pastor Paulo Cezar Brito, líder da Igreja Evangélica Maranata, uma pentecostal que rejeita a teologia da prosperidade.

“Templo é dinheiro”, diz a maldosa adaptação do ditado popular. “Deus é o caminho, Edir Macedo é o pedágio”, diz outra. Na cabeça de muita gente, as igrejas evangélicas são ótimas opções de carreira para quem pretende enriquecer facilmente. Não dá para negar que muitos realmente ganharam dinheiro com a fé alheia – em especial os líderes das grandes igrejas. Como em qualquer empresa moderna, pastores hábeis que trazem muito dinheiro para a igreja ganham bem – ninguém confirma a informação, mas comenta-se que alguns salários se parecem com os de astros de futebol, na casa das várias dezenas de milhares de reais. Mas essas afirmações escondem também um preconceito. Em termos legais, não há diferença entre um templo evangélico e qualquer outro local de cultos religiosos. A Constituição garante a todos – evangélicos, católicos ou budistas – a mesma isenção de vários tributos, entre eles o IPTU e o Imposto de Renda.

Além disso, o crescimento da concorrência faz ser cada vez mais difícil sobreviver entre tantas denominações evangélicas. Calcula-se que uma congregação precise ter no mínimo 50 integrantes para recolher dízimos e doações em quantidade suficiente para cobrir as despesas mínimas, como aluguel e contas de luz e água. Nessas horas, ser a religião dos pobres não é vantagem. Por isso, cada denominação procura seu nicho de atuação. A Assembléia de Deus prefere abrir templos dentro de bairros isolados, enquanto a Universal opta pelas grandes vias de acesso – uma decisão que pouco tem a ver com a fé, segue mais a lógica da competição de qualquer mercado capitalista.

O maior país católico do mundo pode estar se tornando uma nação de maioria evangélica? Dificilmente, concorda a maioria dos especialistas. Mas eles discordam na hora de prever o ritmo do crescimento. De um lado, estão os que acham que o boom já passou e que a Igreja Católica, com a renovação carismática, equilibrou o jogo. Do outro, pesquisadores que veem no frágil compromisso dos brasileiros com a religião um prato cheio para os neopentecostais. Cerca de 80% dos nossos católicos se dizem não-praticantes. É um enorme mercado para os evangélicos.

Não é à toa que a maioria dos convertidos vem do catolicismo. Mas, na hora de afirmar a identidade e escolher um adversário, o pentecostalismo ataca o candomblé e a umbanda. E vai na jugular, às vezes escorregando para a intolerância religiosa. Em quase todos os templos é possível ouvir que essas religiões cultuam o Diabo. Também há casos de ataques a terreiros estimulados por pastores. Pode-se dizer que a briga contra as religiões afro-brasileiras, e não contra o catolicismo, o verdadeiro rival, seja uma estratégia de marketing. Quando enfrentaram os católicos, os evangélicos levaram um contra-ataque duro, que envolveu denúncias de charlatanismo e estelionato e ameaçou a sobrevivência das igrejas, além de provavelmente afastar fiéis. A popularidade dos evangélicos chegou ao fundo do poço quando um pastor da Universal chutou na TV uma estátua de Nossa Senhora Aparecida (os evangélicos não cultuam imagens).

Mas, embora esses episódios possam dar a impressão de que o fanatismo religioso esteja em alta no Brasil, muitos especialistas defendem a tese de que o crescimento evangélico seja um indício do contrário: de que cada vez mais gente rejeita a religião. É o que sugerem pesquisas mostrando concentrações de evangélicos nas mesmas regiões onde há altos índices de pessoas “sem religião” – caso do estado do Rio e da zona leste paulistana. “As pessoas estão experimentando uma nova crença. Se perceberem que não está dando certo, que Deus não é tão fiel, podem desistir da busca”, diz o sociólogo Pierucci. “Abandonar a religião oficial é o primeiro passo de saída do mundo religioso”, afirma.

Um indício de que a conversão ao mundo evangélico significa um arrefecimento do fervor religioso é o fato de que as neopentecostais exigem poucas mudanças nos fiéis. O resultado é que, quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a cara do país – bem ao contrário da revolução que ocorreu na Europa com as idéias de Lutero e Calvino. Prova disso é a programação da Rede Record, comprada pela Igreja Universal com o dinheiro do dízimo, que pouco difere das concorrentes.

Talvez o trunfo evangélico para conquistar almas seja sua capacidade de adaptação. Com a rejeição à centralização da interpretação bíblica herdada da Reforma protestante, qualquer um pode abrir um templo e pregar como quiser. Assim, enquanto seus “irmãos” se expandiam em áreas pobres, a Igreja Bola de Neve cresceu 1 100% em três anos orando para os ricos. Seus dez templos, cuja marca registrada são as pranchas de surfe como púlpito e os hinos religiosos em ritmo de reggae, funcionam em áreas de classe média-alta de São Paulo e cidades de praia como Florianópolis, Itacaré e Guarujá. O público são jovens da classe A e B, com curso superior. Para quem está acostumado a fiéis pobres e pouco instruídos, a Bola de Neve é uma surpresa desconcertante. Para os evangélicos, somente mais uma prova de que a obra de Deus chegará a todos os corações.

Sérgio Gwercman

O artigo original poderá ser visto por meio do seguinte link:


NOSSO COMENTÁRIO

O artigo apesar de falho em vários aspectos tem méritos e deve ser lido por todas as pessoas interessadas no fenômeno que atende pelo nome de “Evangélicos”.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:

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Desde já agradecemos a todos. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

EFÉSIOS - SERMÃO 019 – PAULO, COMO INSTRUMENTO DE DEUS - EFÉSIOS 3:8—13


Concepção artística do encontro entre Jesus e Saulo de Tarso

Esse esboço de sermão é parte da série "Exposição da Epístola aos Efésios" e é muito recomendável que o leitor procure conhecer todos os aspectos das verdades contidas nessa exposição, com aplicações para os nossos dias. No final do artigo você encontrará um link para outros estudos dessa série.

EXPOSIÇÃO DA EPÍSTOLA DE PAULO AOS EFÉSIOS

Introdução.

A. Na mensagem anterior nós vimos como Deus, pela sua graça – ver Efésios 3:2 e 7 — escolheu a Paulo para fazer dele um instrumento útil para a propagação do Evangelho.

B. O Evangelho como a mensagem salvadora através de Jesus era um mistério que só foi dado a conhecer com o advento do próprio Senhor quando “o verbo se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória”. Ver Efésios 3: 4—5a.
C. Tanto a revelação do mistério quanto o conteúdo do Evangelho só podem chegar ao conhecimento humano através de revelação divina — ver Efésios 3:5b. Como tal, a revelação que procede de Deus mesmo constitui-se em uma perfeita manifestação da verdade.

D. A verdade do Evangelho pode ser resumida em três aspectos. Esses aspectos têm a ver com o fato de que todos os crentes, são, indistintamente:

1. Co-herdeiros com Cristo em toda a rica herança de Deus.

2. Membros de um mesmo corpo, i.e. o Corpo de Cristo que é a Sua Igreja.

3. Co-participantes em todas as coisas que são pertinentes a Jesus.

E. Por esses motivos Paulo considerava um grande privilégio:

1. Ter sido um dos escolhidos para receber de Deus a revelação acerca do μυστήριον mistérion – mistério.

2. Ter sido escolhido para proclamar a verdade do Evangelho.

F. De acordo com Efésios 3:8 Paulo se considerava o menor de todos os santos. Qual é o significado desta expressão — “menor de todos” — e porque ele se referia a si mesmos desta maneira?
1. A palavra que Paulo usa para se referir a si mesmo é ἐλαχιστοτέρῳ elachistotéro — não existe, em outra passagem, no grego em que o Novo Testamento foi composto. Ela é uma palavra inventada pelo apóstolo Paulo e quer dizer: menos que o mínimo ou menor que o mais baixo.

2. Entre os vários motivos que poderiam levar Paulo a se referir a si mesmo desta maneira nós podemos alistar:

a. Um trocadilho com o significado do seu nome romano — Paulo — cujo significado é: pequeno.

b. A tradição costuma indicar que o apóstolo Paulo era um homem de pequena estatura.

c. Paulo não se considerava digno sequer de pertencer ao povo de Deus, quanto menos de ser objeto da escolha de Deus para receber a revelação e tornar-se pregador da mesma. Por quê? A resposta encontramos primeiro em:

Atos 7:58—8:3

58 E, lançando-o fora da cidade, o apedrejaram. As testemunhas deixaram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo.

59 E apedrejavam Estêvão, que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito!

60 Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado! Com estas palavras, adormeceu.

1 E Saulo consentia na sua morte. Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria.

2 Alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele.

3 Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere.


Atos 9:1—2

1 Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote

2 e lhe pediu cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, caso achasse alguns que eram do Caminho, assim homens como mulheres, os levasse presos para Jerusalém.

Depois em:

1 Timóteo 1:12—17

12 Sou grato para com aquele que me fortaleceu, Cristo Jesus, nosso Senhor, que me considerou fiel, designando-me para o ministério,

13 a mim, que, noutro tempo, era blasfemo, e perseguidor, e insolente. Mas obtive misericórdia, pois o fiz na ignorância, na incredulidade.

14 Transbordou, porém, a graça de nosso Senhor com a fé e o amor que há em Cristo Jesus.

15 Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal.

16 Mas, por esta mesma razão, me foi concedida misericórdia, para que, em mim, o principal, evidenciasse Jesus Cristo a sua completa longanimidade, e servisse eu de modelo a quantos hão de crer nele para a vida eterna.

17 Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém!

d. Para um homem nestas condições era realmente um privilégio poder ser usado como:

UM INSTRUMENTO DE DEUS

De acordo com o texto base dessa exposição, o ministério de Paulo era constituído de três estágios diferentes:

I. Em Primeiro Lugar Tinha o Objetivo de Tornar Manifestas as Insondáveis Riquezas de Cristo aos Gentios – Efésios 3:8.

A. Em suas próprias palavras Paulo diz que recebeu a graça de εὐαγγελίσασθαι evangelísasthai — pregar no sentido de trazer ou anunciar as boas novas.

B. As boas novas em Jesus são tão impressionantes que só existe uma maneira de Paulo se referir às mesmas: INSONDÁVEIS RIQUEZAS DE CRISTO.

C. Quais seriam essas riquezas? Já tivemos a oportunidade de ver muitos aspectos dessas riquezas. Vamos recordar uma parte do que já vimos:

1. Fomos abençoados com toda a sorte de bênçãos espirituais.

2. Fomos escolhidos por Deus antes da fundação do mundo.

3. Fomos escolhidos para sermos santos e irrepreensíveis perante Deus.

4. Fomos predestinados, em amor, para sermos adotados como filhos de Deus.

5. Fomos redimidos — libertados — da condenação e do poder do pecado e um dia seremos libertados da própria presença do pecado.

6. Fomos perdoados de todos os nossos pecados mediante o sangue de Jesus.

7. Deus derramou de forma abundante sobre nós a riqueza da Sua graça.

8. Deus nos revelou através de Jesus o mistério da Sua vontade.

9. Fomos feitos herança de Deus.

10. Fomos predestinados para servir como elementos do louvor da glória de Deus.

11. Fomos selados com o Espírito Santo de Deus.

12. Recebemos o Espírito Santo como penhor de que Deus irá cumprir tudo o que Ele nos prometeu.

13. Fomos colocados no Corpo de Cristo que é a Sua Igreja.

14. Recebemos de Deus o Espírito de sabedoria, de revelação e de conhecimento.

15. Tivemos os “olhos” dos nossos corações iluminados por Deus.

16. Fomos ressuscitados dentre os mortos.

17. Fomos assentados, juntamente com Cristo, nos lugares celestiais à destra de Deus.

18. Recebemos de Deus vida verdadeira quando nos encontrávamos mortos em nossos delitos e pecados.

19. Somos salvos pela graça de Deus, mediante a fé em Cristo, e não através da prática de boas obras.
20.Somos salvos para praticar boas obras.

21. Estávamos longe de Deus, mas fomos aproximados por intermédio de Cristo.

22. Jesus derrubou todas as paredes de separação criando um novo homem ou uma nova sociedade.

23. Fomos reconciliados com Deus.

24. Temos Paz com Deus.

25. Somos reconciliados uns com os outros.

26. Temos todos acesso ao Pai através de um só Espírito.

27. Estamos sendo edificados em um edifício espiritual no qual o próprio Deus irá habitar.

28. O mistério de Deus nos foi revelado através da vinda de Jesus.

29. Somos Co-herdeiros com Cristo em toda a rica herança de Deus.

30. Somos Membros de um mesmo corpo, i.e. o Corpo de Cristo que é a Sua Igreja.

31. Somos Co-participantes em todas as coisas que são pertinentes a Jesus.

D. Diante de tudo isso nós só podemos nos curvar na presença de Deus em reverente adoração.

E. Toda verdade revelada nos é concedida para ser compartilhada e não para ser monopolizada.

F. Quando a Igreja de Deus estiver convicta de que a mensagem do Evangelho é tanto verdadeira quanto representa riquezas insondáveis para todos os seres humanos, então nada poderá impedi-la de proclamar as boas novas.

II. Em Segundo Lugar Tinha o Objetivo de Tornar Manifesto o Mistério de Deus a Todas as Pessoas – Efésios 3:9.

A. A palavra “manifesto” em nossas Bíblias na Versão de Almeida Revista e Atualizada — ARA — traduz a expressão grega φωτίσαι fotísai — que, literalmente, quer dizer: iluminar ou tronar evidente.

B. Porque isto é necessário? Porque os seres humanos sem Deus estão imersos nas mais densas trevas. A condição das pessoas sem Deus é extremamente precária — ver Efésios 2:1—3. Por este motivo precisam ser alcançados com a poderosa mensagem do Evangelho.

C. O próprio Senhor Jesus disse a Paulo que este seria o seu ministério —

Atos 26:15—18

15 Então, eu perguntei: Quem és tu, Senhor? Ao que o Senhor respondeu: Eu sou Jesus, a quem tu persegues.

16 Mas levanta-te e firma-te sobre teus pés, porque por isto te apareci, para te constituir ministro e testemunha, tanto das coisas em que me viste como daquelas pelas quais te aparecerei ainda,

17 livrando-te do povo e dos gentios, para os quais eu te envio,

18 para lhes abrires os olhos e os converteres das trevas para a luz e da potestade de Satanás para Deus, a fim de que recebam eles remissão de pecados e herança entre os que são santificados pela fé em mim.

D. Escrevendo aos Coríntios, Paulo enfatiza essa verdade, pertinente a todos os crentes, ao dizer:

2 Coríntios 4:6

Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo.

III. Em Terceiro Lugar Tinha o Objetivo de Tornar Conhecida a Multiforme Sabedoria de Deus a Todos os Principados e Potestades nos Lugares Celestiais – Efésios 3:10.

A. O resultado direto da pregação do Evangelho é o surgimento da Igreja do Senhor Jesus que é o Seu corpo.

B. E é através da Igreja que a multiforme sabedoria de Deus se torna conhecida de todos os principados e potestades nos lugares celestiais.

C. A Igreja, essa maravilhosa comunidade de pecadores salvos pela graça de Deus; essa comunidade multirracial; multinacional e multicultural é o meio pelo qual a multiforme sabedoria de Deus se manifesta.

D. À medida que o Evangelho se espalha pelo mundo existe um verdadeiro drama em movimento, que somente Deus conhece integralmente. Assim temos: 

1. A História é apenas um grande teatro.

2. O planeta terra não passa de um palco.

3. Os crentes de todos os lugares da terra são os atores.

4. Deus é o autor, o produtor e o diretor e controla cada um dos detalhes.

5. Ato a ato e cena a cena a história prossegue.

E. Mas, quem, é a audiência?

F. Segundo Paulo eles são os principados e as potestades que habitam nos lugares celestiais.

G. Quem são estes principados e estas potestades? Temos que tomar muito cuidado para não irmos além daquilo que a Bíblia ensina.

H. Hoje em dia existem inúmeros ministérios de cura e libertação que alegam não apenas saber com exata precisão quem são estes seres, mas chegam ao cúmulo de alegar que conhecem até os nomes dos mesmos e que são capazes de mapeá-los cidade por cidade. 2 Pedro 2 e Judas têm bastante a nos dizer acerca desses que falam de coisas que realmente não entendem e cujo propósito é apenas aparecer e faturar.

I. É importante entendermos que a as palavras usadas por Paulo — potestade e potestades — são palavras comuns que podem se referir tanto a seres humanos quanto a seres não humanos. Seja qual for o sentido que Paulo deseja dar a estas palavras é importante destacarmos o seguinte:

1. Estes seres não são oniscientes. Da mesma maneira que Paulo e outros precisavam receber uma revelação divina acerca do mistério do Evangelho estes seres também só percebem aquelas coisas que Deus deseja revelar.

2. Foi do desejo de Deus revelar Seu plano eterno a todas as suas criaturas, sejam humanas ou não, somente através da Igreja. Não houve nenhum tipo de revelação direta ou preferencial aos principados e potestades sejam de que ordem for.

3. É somente através da Igreja que tanto a multiforme sabedoria de Deus — verso 10 — bem como o eterno propósito de Deus — verso 11 — tronam-se plenamente conhecidos.

J. A Igreja, como o centro da revelação de Deus, será o objeto da próxima mensagem

Conclusão:

A. Porque estamos em Cristo nós podemos compartilhar de riquezas que são realmente insondáveis. Precisamos nos empenhar em conhecer e nos apropriar cada vez mais e mais de tudo que é nosso porque estamos em Cristo.

B. A Igreja é algo maravilhoso porque é: multicultural, multinacional e multiracial. Todos os crentes têm a mesma posição: todos, indistintamente, estão “EM CRISTO”. Por este motivo somos todos irmãos e ninguém está acima de outrem, porque estamos todos no mesmo nível.

C. Quando a Igreja funciona como deve, o plano eterno de Deus bem como Sua multiforme sabedoria ficam manifestados a todos os seres criados, sejam eles humanos ou não.

D. Para refletir: Como estamos vivendo como comunidade? Estamos refletindo o propósito e a multiforme sabedoria de Deus? Ou estamos sendo apenas mais um “bando” perdido no meio desta terrível situação em que a Cristandade se encontra? Quando o mundo e os anjos, bons e maus, olham para nós, eles são capazes de compreender o propósito que Deus “guardou à sete chaves”? Somos um espelho daquilo pelo que Deus sacrificou Seu filho unigênito?

E. Se estivermos fracassando em alcançar esses objetivos, aqui está um bom lugar para recomeçar. Que possamos confessar a Deus nosso pecado de não conformidade e pedir que ele nos ajude a sermos o espelho que ele deseja que sejamos. Afinal, nosso Deus é rico em perdoar e especialista em usar pecadores, por mais terríveis que eles sejam, como nos ensina o caso do apóstolo Paulo.


OUTRAS MENSAGENS DA SÉRIE NA EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

ALGUNS ASPECTOS DAS INSONDÁVEIS RIQUEZAS DE CRISTO COMO APRESENTADAS EM EFÉSIOS

EFÉSIOS 1:1—2 — SERMÃO 001 — INTRODUÇÃO À EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

EFÉSIOS 1:3—14 — SERMÃO 002 — TODA SORTE DE BÊNÇÃO ESPIRITUAL

EFÉSIOS 1:4—6 — SERMÃO 003 —A BÊNÇÃO DA NOSSA ELEIÇÃO POR DEUS

EFÉSIOS 1:7—8 — SERMÃO 004 —A BÊNÇÃO DA NOSSA REDENÇÃO

EFÉSIOS 1:9—10 — SERMÃO 005 —A BÊNÇÃO DA UNIFICAÇÃO DE TODAS AS COISAS EM CRISTO

EFÉSIOS 1:11—14 — SERMÃO 006 — A BÊNÇÃO DE DEUS EM PERSPECTIVA

EFÉSIOS 1:15—16— SERMÃO OO7 — A IMPORTÂNCIA DA FÉ E DO AMOR

EFÉSIOS 1:16—17 — SERMÃO OO8 — A IMPORTÂNCIA DO ESPÍRITO SANTO EM NOSSAS VIDAS

EFÉSIOS 1:18—21 — SERMÃO OO9 — A ESPERANÇA DO SEU CHAMAMENTO EM NOSSAS VIDAS

EFÉSIOS 1:18—21 — SERMÃO O10 — A RIQUEZA DA GLÓRIA DA SUA HERANÇA NOS SANTOS

EFÉSIOS 1:18—21 — SERMÃO O11 — A SUPREMA RIQUEZA DO SEU PODER

EFÉSIOS 1:22—23 — SERMÃO O12 — A IGREJA E CRISTO COMO PLENITUDE

EFÉSIOS 2:1—3 — SERMÃO O13 — A CONDIÇÃO DO SER HUMANO SEM DEUS

EFÉSIOS 2:4—10 — SERMÃO 014 — A CONDIÇÃO HUMANA  PELA GRAÇA DE DEUS

O QUE DEUS FEZ POR NÓS — SALVAÇÃO

PARA O QUE DEUS NOS SALVOU?

EFÉSIOS 2:11—12 — SERMÃO 015 — NOSSA PRECÁRIA CONDIÇÃO ANTES DE CRISTO VIR AO MUNDO

A VERDADEIRA CIRCUNCISÃO E O VERDADEIRO BATISMO

EFÉSIOS 2:13—18 — SERMÃO 016 — NOSSA NOVA CONDIÇÃO “EM CRISTO”

EFÉSIOS 2:19—22 — SERMÃO 017 — A IGREJA COMO CIDADÃOS, FAMÍLIA E TEMPLO

EFÉSIOS 3:1—7 — SERMÃO 018 — A REVELAÇÃO DO MISTÉRIO DE DEUS

EFÉSIOS 3:8—13 — SERMÃO 019 — PAULO COMO INSTRUMENTO DE DEUS

EFÉSIOS 3:1—13 — SERMÃO 020 — A RELEVÂNCIA DA IGREJA

EFÉSIOS 3:14—21 — SERMÃO 021 — A PATERNIDADE DE DEUS AO QUAL ORAMOS

EFÉSIOS 3:14—21 — SERMÃO 022 — A ORAÇÃO DE PAULO A FAVOR DOS EFÉSIOS

EFÉSIOS 3:14—21 — SERMÃO 023 — A GLÓRIA DEVIDA A DEUS
EFÉSIOS 4:1—3 — SERMÃO 024 — A UNIDADE DA IGREJA

EFÉSIOS 4:4—6 — SERMÃO 025 — A IGREJA É UNA PORQUE DEUS É UM

EFÉSIOS 4:7—10 — SERMÃO 026 — UNIDADE EM MEIO A DIVERSIDADE

EFÉSIOS 4:11 — SERMÃO 027 — OS DONS DE EDIFICAÇÃO DA IGREJA

EFÉSIOS 4:11 — SERMÃO 028 — OS DOM DE PASTORES E MESTRES
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/03/efesios-sermao-028-o-dom-de-pastores-e_6.html

Que Deus Abençoe a Todos

Alexandros Meimaridis 

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Desde já agradecemos a todos.