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sábado, 29 de outubro de 2016

STAR WARS E O DESPERTAR DA FORÇA



Em alguns dias, a rede Telecine — TV Paga — irá apresentar a última produção da série Guerra nas Estrelas — Star Wars — The Force Awakens ou O Deespertar da Força. Certamente o mesmo irá chamar a atenção de muitos. As mensagens transmitidas pela série têm sido sempre muito intrigantes para a vasta maioria do povo evangélico, pois muitos procuram ver elementos que possa estar alinhados com os ensinamentos da Bíblia. Mas a realidade é completamente outra. A série está imersa em profundas imagens gnósticas e o artigo abaixo, de autoria do Professor Doutor Wilson Roberto Vieira Ferreira nos ajuda a compreender os diversos significados dos signos apresentados pela série. Todavia, devemos ressalvar que as opiniões do Prof. Wilson não representam, necessariamente, as do Blog O Grande Diálogo.

GNOSTICISMO E O SIGNIFICADO DA “FORÇA” EM GUERRA NAS ESTRELAS

"Star Wars: o Despertar da Força" mas... o que é "A Força"?
 Wilson Roberto Vieira Ferreira


Há muito tempo em uma galáxia muito distante não havia Deus... mas “A Força”. “Star Wars” foi o ápice da popularização do Panteísmo no Ocidente, iniciado com os Beatles nos anos 1960. Conceito tomado do livro “Relatos de Poder” de Castaneda, George Lucas nunca deixou clara as conexões teológicas do termo “A Força” com alguma religião em particular, mas há evidentes ligações com cosmovisões budistas, taoístas e nas atuais religiões New Ages. Mas o panteísmo de “Star Wars” é bem diferente: na saga, a “Força” ora é uma energia cósmica impessoal, ora uma entidade inteligente que manipula deliberadamente os eventos em busca do “equilíbrio” como fosse Deus, ora um instrumento de poder dos Jedi. Estamos no panteísmo hollywoodiano onde o confronto entre Bem e o Mal busca um equilíbrio sem redenção final para que a franquia torne-se uma narrativa transmídia e se expanda infinitamente em múltiplas mídias e plataformas.

Assistir à saga Star Wars chega a ser uma experiência quase religiosa.

A série salvou os estúdios da 20th Century Fox da falência em 1977, criou o padrão blockbuster de comercialização em Hollywood (onde um filme cria franquias de jogos, brinquedos etc.), e foi tão influente que fez o presidente dos EUA Ronald Reagan a chamar seu novo dispositivo de defesa militar durante a Guerra Fria nos anos 1980 de “Guerra nas Estrelas”.

Além de ser o primeiro “filme recuperativo”, série de retro-fantasias que se contrapôs à chamada Nova Hollywood – conjunto de filmes críticos e realistas dos anos 1970 como Taxi Driver, com Robert De Niro, e Um Estranho no Ninho, com Jack Nicholson. Depois de Star Wars vieram Indiana Jones, E.T., De Volta Para o Futuro, Ghost Busters, etc.

A retro-fantasia criada por George Lucas (inspirada no timing narrativo de séries sci fi antigas como Flash Gordon) pode também ser considerada a primeira produção hollywoodiana a explorar mitologias de várias religiões e mitos antigos.

Podemos considerar que a indústria do entretenimento explora três tipos de mitologias: as judaico-cristãs monoteístas, as politeístas e as gnósticas. Certamente, Star Wars chamou a atenção para a visão panteísta de Universo – da palavra grega “pan”, que significa “tudo” e “teísmo”, que significa Deus.

Star Wars e o Panteísmo no Ocidente

Lucas não tinha a intenção de promover uma religião em particular no filme. No entanto ele queria que os jovens pensassem em questões espirituais: “os jovens pensam sobre os mistérios. Mas não quer dizer: ‘aqui está a resposta’. Mas sim: ‘pense nisso num segundo. Existe um Deus? Como ele parece?’ Levar os jovens a pensar nesse nível é o que tentei em Star Wars.”, afirmou George Lucas - leia MOYER, Bill. "Of Myth and Men" In: Time Magazine, 26/04/1999, p.93.

Com a ideia de “A Força” que transpassa a narrativa da saga Star Wars, Lucas quis passar uma cosmovisão monista ou panteísta. É a crença de que Deus é impessoal, como uma essência que rege todo o Universo. Deus habita todas as coisas, seja a vida ou uma simples pedra. Deus não está separado do Universo, mas está contido dentro dele.



Essa cosmovisão está na base das religiões hindus, budistas e nas atuais religiões New Ages. Essa visão de mundo ganhou popularidade no Ocidente a partir da década de 1960 por meio de celebridades como os Beatles e os livros de autoajuda da atriz Shirley McClain. O sucesso de Star Wars despertou ainda mais o interesse popular pelas ideias do panteísmo.
Até então tanto a literatura como nos filmes sci-fi (C.S. Lewis, J.R. Tolkien ou filmes como O Planeta Proibido de 1956 ou 2001 de Kubrick) também apresentavam respostas a questões espirituais, porém ainda dentro de uma perspectiva teísta ou judaico-cristã. Ou mesmo sci-fis gnósticos dos anos 1970 como Zardoz ou O Homem Que Caiu na Terra.

Star Wars foi o ápice popular dessa cosmovisão panteísta. Panteístas acreditam na ausência de um ser divino pessoal e criador. Atestam uma força impessoal, uma energia cósmica que flui ao longo de todas as coisas do universo. Essa energia pode ser chamada “O Um”, o “Divino”, “Chi”, “Mana” ou “Brahma”. Em Star Wars é chamada de “A Força”.

A Força

O Mestre Jedi Obi Won Kenobi introduz a ideia de Força no primeiro filme em 1977, ao explicar para Luke Skywalker a sua natureza: “A Força é o que dá ao Jedi o seu poder. É um campo de energia criado por todas as coisas vivas. Ela nos cerca, nos penetra e conecta todas as galáxias.

Embora George Lucas tenha se inspirado nas religiões orientais como o Taoísmo que ensina que essa energia cósmica chama-se “Chi”, em Star Wars essa ideia de Força é, no mínimo, ambígua. Em certos momentos da série é vista um poder vinculativo, metafísico e onipresente; mas em outros momentos vê-se a Força como uma entidade sensível, dotada de pensamento inteligente e que direciona eventos na busca de um equilíbrio cósmico futuro; ou ainda como simples ferramenta para o Jedi aumentar a resistência, curar, telepatia, velocidade, telecinesia (movimentação de objetos à distância), visões pré-cognitivas e aguçamento dos sentidos.



O equilíbrio da Força

A saga Star Wars gira em torno da figura de Anakin Skywalker, que é identificado pelo Mestre Jedi Qui Gon Jinn como “O Escolhido” para restaurar o “equilíbrio da Força”, esperança que atravessa toda a série.

Esse é o centro da mitologia Star Wars: a Força envolve um equilíbrio de luta pelo poder entre os Jedi (do lado da Luz) e os Siths – o lado escuro da Força. Lembrando o princípio taoísta de Yin/Yang, o universo é composto por forças que serão sempre mantidas em estado de oposição. Nenhum dos lados tem domínio sobre o outro. Forças mutuamente dependentes – um não pode ser conhecido sem o outro. A Escuridão, a Morte e o Mal nunca serão derrotados; somente há equilíbrio enquanto existir oposição.

Em Star Wars o desequilíbrio ocorreu porque o lado escuro tornou-se mais influente com a consolidação do Império e deve ser levado ao equilíbrio pelas forças do bem. O lado escuro jamais será derrotado de forma permanente pela Luz, mas deve-se apenas restaurar a Força por meio da recuperação do equilíbrio. Esse é o conceito que George Lucas explora ao longo da série.

O ardil da Força

Percebe-se na série o ardil da Força, revelando também ser uma entidade inteligente como um Deus o que, paradoxalmente, o panteísmo pretende negar. A Força manipula eventos, cria profecias e sonhos e até mesmo engravida uma mulher da qual nascerá a figura messiânica (Luke Skywalker) que trará o equilíbrio da Força.

Em última análise, ao passar para o lado negro da Força e transformar-se em Darth Vader, Anakin traz um novo equilíbrio a um desequilíbrio inicial: a purga dos Jedi aos transformá-los em inimigos da República surge num momento em que o lado luminoso era mais forte, quando haviam centenas de Jedi, enquanto no lado escuro havia um número reduzido.


Os episódios do I ao III revelam como a religião Jedi turvou seus próprios pontos de vista, corrompendo-os e tornando-os tão maus quanto os Sith – passaram a operar pela mentalidade “os fins justificam os meios” e sua reputação fica tão obscura que, quando são enviados dois Jedi (ao invés de diplomatas treinados) para resolver uma disputa comercial comum, causam grande medo – parecem a Gestapo da República.

Darth Vader traz um novo desequilíbrio, cuja solução veio através dos próprios filhos de Anakin: Luke Skywalker e Leia.

O perfeito panteísmo hollywoodiano

Por isso essa noção panteísta da Força é um moto-contínuo perfeito para uma franquia hollywoodiana: jamais nenhum dos lados sofrerá uma derrota final. Potencialmente a série não tem um fim, está em constante expansão. No universo Star Wars não há redenção e todos os meios parecem justificar o fim – o equilíbrio da Força.

A Força parece ser sempre um “deus ex machina” do roteiro (termo usado para designar intervenções arbitrárias em uma narrativa para fazê-la fluir) – um panteísmo hollywoodiano perfeito para produzir um blockbuster sem fim, uma narrativa transmídia onde a história jamais termina, apenas continua através de múltiplas mídias e plataformas.

Embora a série Star Wars tenha um appeal gnóstico (as análises mais apressadas veem nos Siths o Demiurgo e nos Jedi os anjos da Luz) e até um planeta chamado Geonosis (Gnosis?), não há uma redenção, uma gnose que faça os personagens transcenderem a dualidade sem fim. Na saga, a dualidade não é maniqueísta (no sentido do pensador gnóstico persa Mani) mas monista - Bem e Mal são dependentes um do outro para manter uma ordem onde indivíduos e acontecimentos são meras peças de um jogo.



Gnosticismo e Panteísmo

O Gnosticismo possui uma cosmovisão essencialmente dualista: é impossível existir harmonia nesse cosmos – o conflito entre o Bem e o Mal será sempre entre aqueles que anseiam fugir da prisão cósmica material e as forças que pretendem nos manter prisioneiros – tema central de um arco de produções que vai de Truman Show e Matrix até a atual série Sense8 do Netflix — saiba mais por meio desse link aqui:


Nesses filmes até há sugestões panteístas onde o protagonista somente será bem sucedido se puder sentir a uma voz interior que o conecte a um Todo – principalmente em Sense8 onde os sensates se conectam por meio de um sistema nervoso coletivo través do qual partilham emoções e percepções. Porém, a finalidade não é a busca de um equilíbrio, mas a destruição de uma sinistra conspiração que envolve a própria construção da realidade.

Ao contrário, em Star Wars desde a Realpolitik (tramas palacianas envolvendo Federações, Confederações, Repúblicas e Impérios) até as relações afetivas são ardilosamente manipuladas pela Força por meio de sonhos (as premonições de Anakin sobre a morte da sua esposa grávida, Padmé, é o primeiro passo para a sedução pelo lado Escuro) e profecias.

Por um ponto de vista gnóstico, a Força é um Demiurgo – talvez bem próximo do Deus impiedoso do Velho Testamento bíblico. Para a Força, o fim (equilíbrio/desequilíbrio) justificam os meios - até a destruição de planetas inteiros.

E por um ponto de vista comercial da indústria do entretenimento, a Força é o ardil dos roteiristas e da própria franquia, agora da Disney. Nada mais irônico do que o novo filme da série Star Wars chamar-se O Despertar da Força – depois de mais de uma década do último filme e a aposentadoria do criador George Lucas, a saga continua em busca de um equilíbrio. E os fãs e a Disney esperam que essa busca nunca tenha uma redenção final.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos por meio das insondáveis riquezas de Cristo que são nossas porque estamos EM CRISTO.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.


Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Gênesis Estudo 028 — Gênesis 6 — A PERVERSIDADE HUMANA, OS FILHOS DE DEUS E AS FILHAS DOS HOMENS


Este estudo é parte de uma Análise do Livro do Gênesis. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da História Primeva da Humanidade. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo. 
O Livro do Gênesis
O Princípio de Todas as Coisas

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ        
       Eretz ha  ve-et  Hashamaim et   Elohim     Bará     Bereshit
       Terra   a  e    céus     os    Deus     criou   princípio No
                                                                                     Gênesis 1:1
X. Gênesis 6.

Depois da Criação original em si mesma, a informação mais impressionante que temos acerca do mundo antigo é certamente o registro da sua destruição pelo dilúvio. E a história dessa tremenda catástrofe que se abateu sobre a terra começa a ser escrita no capítulo 6 do livro do Gênesis. O esboço de Gênesis 6 pode ser como segue:

A. A Perversidade Humana se multiplica — Gênesis 6:1—5 e 11—12.

B. O Justo Ressentimento Divino Diante da Perversidade Humana e Sua Resolução de Castigar os Ofensores — Gênesis 6:6 – 7.

C. O Favor Especial de Deus Para com Seu Servo Noé pode Ser Visto:

1. No Caráter Concedido a Noé — Gênesis 6:8—10.

2. Na comunicação do Propósito de Deus para Noé — Gênesis 6:13 e 17.

3. Na Direção que Deus dá a Noé para que Ele Construa a Arca para Sua Própria Salvação — Gênesis 6:18—21.

4. No Espírito de Obediência Demonstrado por Noé — Gênesis 6:22  

Tudo isto foi escrito acerca do mundo antigo para nos servir de admoestação e exemplo. É uma pena realmente que sejamos tão lerdos para aprender. O autor concorda com muitos outros que acreditam que esta nossa geração é tão perversa como as mais perversas gerações que existiram no mundo antigo e que foram destruídas pelo dilúvio. Mas vejamos esta estória parte por parte:

A. Gênesis 6:1—5 e 11—12

1. Para que possamos compreender Gênesis 6 é necessário entendermos algumas asserções básicas que se encontram no texto que temos diante de nós. A primeira destas asserções é que a corrupção aqui descrita atinge a todos os seres humanos como pode ser deduzido pelos itens abaixo:

a. A multiplicação referida em Gênesis 6:1—2 diz respeito à humanidade em geral sem nenhum tipo de restrição.

b. Quando o texto fala da corrupção experimentada pelas pessoas se refere diretamente a toda a humanidade como indicado no item acima.

c. Isto quer dizer que toda a raça humana, com uma única exceção, Noé — ver Gênesis 6:8 — está descrita em Gênesis 6 como corrompida.

d. Neste capítulo nós somos informados que toda a humanidade, com exceção de Noé, estava madura e pronta para ser destruída – ver Gênesis 6:3 e 5—8.

2. A segunda asserção tem a ver com a necessidade de que para compreender a total degeneração da raça humana, torna-se necessário uma correta interpretação — dentro do possível — das expressões בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus e בְּנוֹת הָאָדָם benot haAdam — filhas dos homens. A tabela a seguir nos apresenta as três interpretações mais comuns a estas duas expressões:

Item
Teoria # 1
Teoria # 2
Teoria #3
Filhos de
Deus
Anjos Caídos
Descendentes de Sete
Soberanos
Dinásticos
Filhas dos
Homens
Seres Mortais
Descendentes de Caim
Pessoas não nobres

Pecado
Casamento entre seres
sobrenaturais e  seres mortais
Casamento entre as
sementes benditas e as
sementes amaldiçoadas
Poligamia
Defensores
Philo de Alexandria
Livro Apócrifo de Enoque
Santo Ambrósio
F. Delitzsch
S. R. Driver
Henry M. Morris
Gerhard von Rad
C. Leupold
J. Stigers
F. Schaeffer
Targuns Aramaicos.
A vasta maioria dos
rabinos judeus.
Evidências
1. A expressão “filhos de Deus” é usada em outras passagens para se referir aos anjos – ver Jó 1:6; 2:1 e 38:7; Salmos 29:1 e 89:7.

2. Judas 6 – 7 talvez faça
referência a estes fatos.

3. É a leitura que parece ser a mais natural.

4. Os tradutores da LXX
optaram por traduzir a expressão hebraica בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei
 haElohim – por Anjos de Deus no Livro de Jó.

5. Cristo disse que os Anjos nos céus não se casam nem se dão em casamento, mas não disse
que não podem fazê-lo.
1. O conceito de uma
linhagem abençoada
está firmemente fixada
pela ênfase dada ao
nascimento de Sete.

2. O texto original em
hebraico sugere uma
continuidade na história sem espaços para uma intervenção angelical.

3. Este tipo de pecado
torna-se um tema
comum nas páginas do Antigo Testamento.
1. Magistrados e soberanos são Algumas vezes referidos como tendo a mesma
autoridade de Deus: ver
Êxodo 21:6
Êxodo 22:8 – 9 e 28!
Salmos 82:1 e 6.

2. Algumas vezes
os reis eram
chamados de
filhos dos deuses.
Dificuldades
1. Soa meio mitológico e distante da realidade.

2. Não há nenhuma menção a anjos feita antes.

3. Por que deveria a nossa raça ser punida pela perversidade dos anjos?

4. O apoio do NT a esta teoria é, no mínimo, questionável.
1. A expressão “filhos
de Deus” não possui
este significado em
nenhuma outra
passagem.

2.Não existe nenhuma
referência clara de que
as genealogias tenham
se mantido separadas
de modo estrito.

3. Deus não havia
ainda iniciado a tratar
com uma linhagem
específica.

4. O termo usado para “homens”  אָדָם adam – é genérico e não distingue qualidade.

5. Nos dias de Noé,
ele era o único justo.
1. Não existe
nenhuma
referência a
“nobreza”
neste texto.

2. As Escrituras não
consideram reis
como sendo filhos
de deuses –
uma única exceção
talvez seja –
Salmos 2
versos 6 e 7.

3. Esta hipótese não
explica o surgimento
dos gigantes הַנְּפִלִים — — hanefiliym


 Adaptado de Chronological Charts of The Old Testament[1].

3. Como podemos ver pela tabela acima a terceira posição, geralmente aceita como a posição judaico—rabínica ortodoxa e tradicional pode ser dispensada de cara, pois a mesma está baseada em palavras que não estão no texto como “soberanos dinásticos e nobres”, e depende de interpretações que fogem completamente do contexto bíblico. A primeira posição, diferentemente da terceira, pode ser defendida de forma plausível pelos seguintes fatores:

a. Não existe nenhum questionamento quanto ao fato de que a expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus em Jó 1:6; 2:1 e 38:7 seja uma referência aos anjos. O mesmo é verdade com relação as referências de Salmos 29:1 e Salmos 89:7.

b. A própria antítese representada pelas expressões “filhos de Deus” e “filhas dos homens”.

4. Deixando de lado quaisquer outras considerações, as duas que acabamos de mencionar acima, são suficientes para nos fazer pender para o lado de que a expressão “בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus” diz respeito aos anjos e a expressão בְּנוֹת הָאָדָם benot haAdam — se refere às filhas dos homens. Mas as boas normas da hermenêutica — interpretação de textos sagrados — nos advertem de que só podemos aceitar uma interpretação como definitiva se não existir nenhuma outra alternativa que seja também viável. Infelizmente não é esse o caso aqui, porque existem passagens onde a expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus não diz respeito exclusivamente aos anjos. Entre estas passagens podemos citar:

Salmos 73:15 onde a referência aos filhos de Deus diz respeito ao povo de Israel e não a anjos.

Se eu pensara em falar tais palavras, já aí teria traído a geração de teus filhos.

Deuteronômio 32:5 onde o povo de Israel é referido como “não sendo mais filhos” de Deus.

Procederam corruptamente contra ele, já não são seus filhos, e sim suas manchas; é geração perversa e deformada.

Oséias 1:10 onde a expressão “filhos de Deus” é uma referência aos filhos de Israel.

Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que se não pode medir, nem contar; e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo.

5. Essas passagens onde a expressão “filhos de Deus” aparece como uma referência aos filhos do povo de Israel não nos permitem chegar a uma interpretação filológica da mesma, já que ela possui dois sentidos completamente opostos — filhos do povo de Israel X seres angelicais. Dessa maneira o que nos resta fazer é tratar a solução desse problema utilizando apenas o método de interpretação teológica.

6. Tudo o que vimos até agora, é agravado pela seguinte consideração: qual era a intenção do autor ao usar a expressão “filhos de Deus”? Estaria ele utilizando a mesma para se referir a seres no sentido físico ou estaria utilizando a mesma para se referir a seres no sentido ético do termo? A noção de que o autor do Gênesis teria usado a expressão “filhos de Deus” no sentido físico do termo, como se estivesse se referindo a filhos “literalmente gerados por Deus”, precisa ser rejeitada, por se constituir em um grosseiro erro gnóstico. Foram os gnósticos que inventaram, a partir do segundo século d.C., a idéia de que os espíritos celestiais são fruto da essência divina ou que foram gerados sexualmente por Deus, quando o ensinamento bíblico é claro no sentido de que, todos os seres angelicais são criaturas de Deus, como de resto tudo o que existe em todo universo. Nada emana de Deus para o universo, estes são conceitos panteístas ou panteteístas e são completamente estranhos ao ensino das Escrituras. Em função de serem seres criados por Deus, quando a Bíblia usa termos variados para descrever os anjos, sempre o faz em termos éticos ou descritivos do caráter dos mesmos.

7. Com base no que acabamos de dizer, nós podemos afirmar de maneira categórica, que a expressão “filhos de Deus” no Antigo Testamento não pode ser utilizada para descrever exclusivamente seres angelicais, mas pode, como de fato é, ser aplicada também aos seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus — não é Adão chamado de “filho de Deus” em Lucas 3:38? Apesar de essa última idéia estar no Novo Testamento, é opinião do autor, que a base para usar a expressão “filhos de Deus” com referência a seres humanos, está amparada exatamente no fato de ter sido o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus.

8. Mas o que podemos dizer acerca da antítese representada pelas expressões “filhos de Deus” e “filhas dos homens”? Que a antítese existe, isso é verdade! Mas afirmar que essa antítese, pela sua simples existência, “prova” que os mencionados “filhos de Deus” são seres angelicais vai uma grande distância.

10. Talvez a melhor maneira para definirmos se a expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus — se refere a seres angelicais ou a seres humanos seja analisarmos o contexto imediato em que ela aparece, i.e., Gênesis 6. Talvez consigamos divisar no texto diante de nós, elementos suficientes para caracterizar estes בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim. Quando olhamos o texto de Gênesis 6, somos imediatamente lembrados que o mesmo é a sequência dos fatos ocorridos em Gênesis 4. Esse fato, por si só, nos leva a concluir que, descendentes de Caim certamente mantiveram relações com descendentes de Sete. Ou seja, houve casamentos entres os descendentes de Caim e os de Sete nos anos que antecederam o dilúvio —

Mateus 24:38

Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca,

Lucas 17:27.

Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e destruiu a todos.

Por outro lado, a proibição que diz que o povo de Deus não deveria se casar com pessoas estrangeiras, dada mais tarde, também corrobora, de maneira indireta esta mesma verdade —

Êxodo 34:12—16

12 Falou Josué aos rubenitas, e aos gaditas, e à meia tribo de Manassés, dizendo:

13 Lembrai-vos do que vos ordenou Moisés, servo do SENHOR, dizendo: O SENHOR, vosso Deus, vos concede descanso e vos dá esta terra.

14 Vossas mulheres, vossos meninos e vosso gado fiquem na terra que Moisés vos deu deste lado do Jordão; porém vós, todos os valentes, passareis armados na frente de vossos irmãos e os ajudareis,

15 até que o SENHOR conceda descanso a vossos irmãos, como a vós outros, e eles também tomem posse da terra que o SENHOR, vosso Deus, lhes dá; então, tornareis à terra da vossa herança e possuireis a que vos deu Moisés, servo do SENHOR, deste lado do Jordão, para o nascente do sol.

16 Então, responderam a Josué, dizendo: Tudo quanto nos ordenaste faremos e aonde quer que nos enviares iremos.

11. Em Gênesis 6:2, nós lemos que: vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram. Se Gênesis 6:3, na sequência, representar uma conclusão ao que está descrito no verso 2, então, nosso problema parece encontrar uma solução lógica e natural, nas palavras do próprio Deus quando diz: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos. A consequência da união referida em Gênesis 6:2 é mencionada diretamente em Gênesis 6:4: filhos nasceram!

12. Ainda em Gênesis 6:2, temos que notar que a expressão hebraica לָהֶם נָשִׁים lahem nashiim — tomaram para si mulheres — é usada em todo o Antigo Testamento para se referir à união estabelecida por Deus na criação — entre um homem e uma mulher, portanto. Este fato, por si só, deve ser suficiente para banir de vez a possibilidade de o texto estar se referindo a anjos.

13. Como mencionamos antes, a hipótese de que a expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִיםbenei haElohim, se refira a anjos, soa completamente mitológica. Como cristãos e crentes na Bíblia somos incapazes de aceitar que sejam realmente históricos, os mitos dos povos, que nos falam acerca de como divindades mantiveram relações sexuais com seres humanos gerando filhos que eram “verdadeiros semideuses”. A Bíblia não trata de questões mitológicas! A Bíblia nos revela a história humana e nos oferece a interpretação divina para os eventos descritos em suas páginas. A Bíblia é história e não mitologia!

14. O mesmo é verdadeiro acerca de um livro pseudoepigráfico — livro de autoria desconhecida, mas atribuída a algum personagem notório do passado — conhecido como: “Primeiro Livro de Enoque”. Esse livro detém a honrosa distinção de ser o mais importante livro pseudoepigráfico dos dois primeiros séculos depois de Cristo. De acordo com os especialistas o mesmo foi composto por inúmeros autores durante um longo período de tempo. A data da composição não pode ser determinada com precisão, mas existem evidências internas no texto, que apontam para o fato que certas partes foram produzidas antes da época dos Macabeus — 200 anos a.C. A partir do capítulo 6 do Primeiro Livro de Enoque, nós podemos encontrar uma detalhada descrição acerca de como, mais ou menos 200 anjos, acompanhados pelos seus líderes, cobiçaram as belas mulheres que habitavam na terra e desceram dos céus para possuí-las. Desses encontros, entre seres angelicais e mulheres humanas, teriam nascido gigantes, alguns medindo cerca de 150 metros de altura — 300 cúbitos — de acordo com o texto do Livro de Enoque. Que o leitor possa tomar, ele mesmo, a decisão se deseja acreditar nesta estória.

15. Como mencionamos acima, o conteúdo de Gênesis 6:3 que diz: “Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos”, só faz sentido se os בְּנֵי הָאֱלֹהִיםbenei haElohim mencionados em Gênesis 6:1 forem seres humanos. A expressão רוּחִי ruqui — meu espírito, expressa a manifesta oposição que existe entre o espírito do ser humano caído e o Espírito Santo de Deus. A palavra do Senhor é clara: meu espírito não irá יָדוֹן yadon — julgar, contender, pleitear com o homem para sempre. Essa passagem nos ensina que o Espírito de Deus não insiste, em termos morais, com o ser humano para sempre e sim, que essa insistência, se estende por um período, que, naquele caso, foi fixado, por Deus mesmo, em 120 anos. Os cento e vinte anos aqui mencionados, não se referem à extensão da vida humana, e sim ao tempo que Deus estava concedendo àqueles seres humanos para que se arrependessem. Essa é uma frase pequena, mas nela podemos ver toda a extensão da graça de Deus oferecida à raça humana apóstata. Cento e vinte anos, meus irmãos é um longo período de tempo em qualquer padrão!

16. É somente mediante a influência do Espírito Santo que a mente carnal dos homens pode ser dominada e completamente vencida. Mas, sempre existirão aqueles que resistem à ação de Deus, de forma voluntariosa, em suas vidas e que acabam por entristecer o Espírito Santo e são abandonados à sua própria dureza e cegueira de seus corações impenitentes. A Bíblia diz que Deus é compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia — 

Salmos 86:15

Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade.

17. E aqui, em Gênesis 6, nós podemos ver a realidade dessas palavras. A raça humana estava pronta para ser destruída — ver Gênesis 6:5 e 11—12. Mas, mesmo diante desse quadro, Deus resolve conceder aos homens 120 anos para se arrependerem. Se o fizerem, muito que bem. Caso contrário, perecerão. Enquanto isso, Deus envia Noé, homem justo e íntegro e que andava com Deus, para pregar — ver Gênesis 6:9. Mas, acima de tudo, o testemunho de Noé foi marcado pela construção de uma enorme arca que era muito evidente.     

Mas antes de falarmos de Noé propriamente, uma palavra acerca dos “gigantes” mencionados em Gênesis 6 se faz necessária. De fato, Gênesis 6:4 menciona dois tipos de homens como podemos ver: Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade.

Quem foram estes gigantes e quem foram esses valentes de renome da antiguidade é o que nos interessa saber neste momento. Em primeiro lugar devemos observar que se tratam de duas classes distintas de homens. Os primeiros são chamados de נְּפִלִים nefilim. A LXX — versão para o grego das escrituras hebraicas — chamou os  נְּפִלִים nefilim de γίγαντες gígantes – e foi daí que nós criamos nossa palavra “gigantes” em português. E é desses primeiros — os gigantes — com os quais vamos nos ocupar em seguida:

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017 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 16 — GÊNESIS 3A

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020 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Livre Arbítrio — Parte 19

021 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Dois Adãos — Parte 20

022 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Era Pré-Patriarcal e a Mulher de Caim — Parte 21

023 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, O Primeiro Construtor de Uma Cidade — Parte 22

024 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Assassino e Fugitivo da Presença de Deus — Parte 23

025 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Primeiro Construtor de uma Cidade e Pseudo-Salvador da Humanidade — Parte 24

026 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Conclusão Acerca de Caim — Parte 25

027 — Estudo de Gênesis — Gênesis 5 — Sete e outros Patriarcas Antediluvianos — Parte 26

028 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Perversidade Humana, Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens— Parte 27A

029 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — OS Nefilim e os Guiborim — Os Gigantes e os Valentes — Parte 27B

030 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Maldade do Coração Humano— Parte 27C.

031 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Corrupção Humana Sobre a Face da Terra e Deus Pode se Arrepender? — Parte 27D.

032 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28A.

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034 — Estudo de Gênesis — Gênesis 7 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 29 — O Dilúvio Foi Global Ou Local?

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045 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 001 — OS DESCENDENTES DE JAFÉ
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/genesis-estudo-045-tabua-das-nacoes.html
Que Deus abençoe a todos. 
Alexandros Meimaridis 
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[1] Walton, John H. Chronological Charts of the Old Testament. The Zondervan Corporation, Grand Rapids, 1978.