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segunda-feira, 8 de maio de 2017

SERMÃO PARA O DIA DAS MÃES 2017 - MARIA, UMA MÃE CHAMADA PELO PRÓPRIO DEUS


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TEXTO BASE: Lucas 1:34—38
Introdução

A. Quando olho para as mães, todas as mães, qualquer mãe, eu sei que a chamada Teoria da Evolução é uma grossa mentira. Se fosse verdadeira as mães já teriam desenvolvido bem mais que duas mãos!

B. Uma mãe foi colocar seu filho de quatro anos para dormir na véspera dele completar cinco anos. Ela disse para o filho que ele iria dormir com quatro anos, mas que acordaria na manhã seguinte com cinco. A mãe então perguntou para o filho se ele entendia o que ela estava dizendo? O filho balançou a cabeça que sim e mostrou os quatro dedos que estava acostumado a mostrar sempre que alguém perguntava a idade dele. Em seguida ele adicionou o polegar mostrando a mão para a mãe dizendo: amanhã eu vou estar com minha mão cheia!

C. Para todas vocês, mães, que estiveram, estão e estarão com suas mãos cheias, nos celebramos esse dia: o dia das mães.
D. Nossa igreja tem mães, avós e bisavós. Cada uma delas tem histórias e histórias para contar. E a Bíblia também está cheia de histórias acerca de mães e avós.

E. Talvez a mais emblemática de todas as histórias da Bíblia acerca das mães e avós, seja a que envolve Maria, porque a ela foi confiada uma importante missão, do mesmo modo como vocês também receberam uma importante missão relacionada a seus filhos, netos e bisnetos.

F. Nosso interesse hoje é buscarmos aprender com Maria, a mãe de Jesus, algumas verdades importantes que valem para todos, mas valem, especialmente para as mães. Vejamos:

MARIA, UMA MÃE CHAMADA PELO PRÓPRIO DEUS

I. Uma Mãe Chamada Por Deus se Submete à Vontade de Deus

A. Maria era apenas uma adolescente já engajada num compromisso de casamento, quando o anjo Gabriel lhe apareceu e lhe disse que ela tinha sido escolhida para ser a mãe do filho de Deus.

B. Depois de pedir esclarecimentos óbvios relativos àquela revelação, o que Maria fez? Ela disse as seguintes palavras:

Lucas 1:38

Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra.

C. Maria estava ansiosa? Com certeza. Maria tinha dúvidas acerca de suas próprias habilidades para executar tamanha tarefa? Qual mulher não teria? E ela era apenas uma adolescente. Como qualquer mãe aqui presente Maria estava apreensiva quanto ao futuro. Ela certamente desejava o melhor para seu filho, mas ela sabia que a vida reserva coisas boas, mas traz também situações desagradáveis.

D. O que realmente representava para Maria ser a mãe do Filho de Deus? Será que ela e ele seriam protegidos por forças especiais. Será que estariam isentos das dores pelas quais todas as mães e seus filhos e filhas precisam passar. A história nos revela o que se passou. Apesar de ser a mãe do Filho de Deus, Maria não foi preservada das dores mais angustiantes, como:

1. Ver a família dividida:

Marcos 3:20—21

20 Então, ele foi para casa. Não obstante, a multidão afluiu de novo, de tal modo que nem podiam comer.

21 E, quando os parentes de Jesus ouviram isto, saíram para o prender; porque diziam: Está fora de si.

2. Acompanhar de perto a crucificação do próprio filho.

João 19:25

E junto à cruz estavam a mãe de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena.

E. Essas são algumas das muitas situações desagradáveis que Maria teve que enfrentar como mãe. Mas o objetivo principal de Maria em sua vida não era evitar a dor e o sofrimento e sim fazer a vontade de Deus.

II. Uma Mãe Chamada Por Deus Não Precisa Ser Perfeita

A. Essa é uma verdade libertadora. Vocês que são, foram ou serão mães não recebem um chamado de Deus para serem perfeitas. Vocês recebem um chamado para serem mães.

B. Quando minha mãe engravidou pela terceira vez, ela já estava com 39 anos. Como ela tinha úlceras estomacais essa situação era agravada pela gravidez o que colocava em risco sua própria vida e a vida da criança. Por razões relacionadas à preservação da saúde dela, o médico recomendou que um aborto fosse feito. Até meu pai era a favor do aborto. Mas minha mãe tinha plena consciência do chamado que recebera de Deus e sua posição foi bem firme. Ela decidiu levar a gravidez até o final. Se algo acontecesse antes do final e ela viesse a perder a própria vida, ela estava resignada que aquela teria sido a vontade de Deus. Matar o filho que levava no ventre estava fora de qualquer cogitação para ela.

C. Ela levou a gravidez até o final. Depois de oito anos do nascimento do segundo filho, nasceu o terceiro. Minha mãe não era perfeita, mas ela não queria desobedecer a Deus tirando a vida de uma criança ainda não nascida.

D. Certamente Maria não era perfeita como o texto sagrado nos mostra com clareza. Mas Deus não esperava perfeição dela. Apenas obediência em meio às lutas da vida diária.

E. Como Maria, vocês também cometeram erros hoje mesmo. E cometerão outros amanhã e depois. No entanto, nada disso impede e nem impedirá que Deus ame e continue amando sempre vocês e acolhendo-as todas as vezes que vocês o procurarem.

F. A própria mulher virtuosa de Provérbios 31, que tantas vezes fez muitas mulheres desanimarem, por não poderem se equiparar com ela, é apenas fruto da imaginação do autor que escreveu um poema em forma de acróstico usando as 22 letras do idioma hebraico. A chave de como devemos entender o poema está, exatamente no primeiro versículo:

Provérbios 31:10

Mulher virtuosa, quem a achará?

G. Mulher perfeita assim, não existe.

III. Uma Mãe Chamada Por Deus Nunca Abandona Seu Compromisso

A. Como já foi mencionado, Maria estava ao lado da cruz em que Jesus estava crucificado. Mas essa cena verdadeira está muito longe das cenas que vemos em quadros ou vitais nas igrejas.  

B. Ali, aos pés da cruz Maria estava sofrendo vendo ao que tinham reduzido seu filho. Jesus, naqueles instantes era apenas uma figura pálida do homem dinâmico e brilhante que nos encanta nas páginas dos evangelhos. Naqueles instantes, certamente Maria ansiava por uma intervenção de Deus que a livrasse daquele sofrimento indescritível.

C. Aquele era certamente o momento que foi profetizado por Simeão logo após o nascimento de Jesus, quando disse:

Lucas 2:35

Também uma espada traspassará a tua própria alma.

D. Mas não existe nada nesse mundo que seja capaz de fazer uma mãe desistir de ser aquilo que ela é: MÃE. Uma mãe chamada por Deus nunca abandona suas responsabilidades como mãe.

E. Mães desse tipo podem ser encontradas nos hospitais, em velórios, na porta das penitenciárias. Em nenhuma condição, nem mesmo diante da morte, elas abandonam o chamado que receberam de Deus.

F. Mesmo em situações extremas, quando mães precisam abrir mão de seus filhos para que sejam adotados, porque isso é no melhor interesse da criança, ainda assim tal ato, tantas vezes incompreendido, é fruto do profundo amor que nutrem pelos filhos e filhas e desejam o melhor para eles.

G. Mães recebem um dom da parte de Deus que é a capacidade de amar seus filhos independentemente das circunstâncias. Nada, nesse mundo, pode ser comparado ao amor de uma mãe.

Conclusão.
A. Maria, ao decidir ser obediente ao chamado de Deus, teve a oportunidade de testemunhar o descortinar daquilo que Deus havia planejado antes da fundação do mundo: 
1. Ela testemunhou o nascimento do Filho de Deus. 
2. Ela acompanhou Seu ministério. 
3. Ela esteve perto do Filho quando o mesmo morria por nossos pecados. 
4. Ela se encheu de grande júbilo, junto com outros, quando Jesus ressuscitou dentre os mortos. 
5. Ela participou da inauguração da Nova Aliança por meio do derramamento do Espírito Santo como está registrado em Atos 2.
B. É um dom maravilhoso poder viver para ver o desenrolar da vida dos filhos. Algumas mães vivem o bastante para verem o desenvolvimento da vida de seus filhos até chegarem os netos e os bisnetos. Outras experimentam a dor da perda inoportuna. E outras ainda, partem cedo. Tudo é parte da vida que temos de viver. Nenhuma dessa coisas é extraordinária e única. 
C. Mães e seus filhos e filhas estão ligados pelo cordão umbilical. Eu creio que este vínculo permanece mesmo depois do nascimento. E quando mães e seus filhos e filhas conhecem a Jesus, o elo de ligação entre eles torna-se ainda mais forte! 
D. Nosso desejo é que vocês mães, avós e bisavó que estão presentes aqui hoje, sejam ricamente abençoadas por Deus e com a Sua ajuda cumpram fielmente o chamado que receberam.  
Deus abençoe a todas
Amém.
Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.

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quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS E O DEBATE COM OS JUDEUS — PARTE 006 — O SERVO DO SENHOR É JESUS, O JUSTO


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CONTINUAÇÃO... PARTE 006

Isaías 53:10—12: O triunfo do Servo

Os v.10—12 compõem a última estrofe do quarto cântico do Servo, e descrevem a razão da morte do Servo, afirmando que o seu sofrimento e sua morte violenta não são uma fatalidade, um acidente na história. Essa última estrofe focaliza a exaltação do Servo, e relaciona-se tematicamente com 52:13—15. “Esses versos demonstram que a morte do Servo não foi um erro trágico; sua morte deverá justificar a muitos e trará glória para ele.”73

10 E ETERNO desejou esmagá-lo,
fazendo-o adoecer;74
se der75 a sua alma como oferta pela culpa,
verá a sua posteridade
e prolongará os seus dias;
e a vontade de ETERNO prosperará76  nas suas mãos.

11Depois do penoso trabalho de sua alma, verá a luz,77
e ficará satisfeito;78
por seu conhecimento, o Justo,79 o meu Servo, justificará a muitos,
e as iniquidades deles levará sobre si.

12 Por isso, eu lhe darei uma porção entre muitos,
e com os poderosos repartirá o despojo,
porquanto80 derramou para a morte a sua alma;
foi contado com os transgressores.
Contudo, levou sobre si o pecado de muitos
e pelos transgressores81  intercedeu

Nas duas primeiras frases do v10, “ETERNO” é o sujeito. A forma verbal empregada na primeira frase é hapes qal perfeito “ter prazer”, “desejar”, seguido imediatamente por daka’ piel infinitivo “esmagar”. O primeiro verbo, hapes, significa basicamente “sentir grande satisfação em alguma coisa”.82 Este vocábulo descreve o desígnio e a vontade do ETERNO.83  Deus desejou a morte do Servo. Novamente o profeta reitera que a desgraça que acometeu o Servo não foi resultado de uma trama de homens maldosos, mas sim, foi resultado da vontade do ETERNO (53:4). Revela-se assim a verdade neotestamentária a respeito da morte de cruz do Filho do Homem, que ocorreu “segundo o que está determinado” —

Lucas 22:22

Porque o Filho do Homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído!

Atos 2:36

Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.

Atos 32:13—14

13 O Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, o Deus de nossos pais, glorificou a seu Servo Jesus, a quem vós traístes e negastes perante Pilatos, quando este havia decidido soltá-lo.
14 Vós, porém, negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos concedessem um homicida.

A razão do “prazer/vontade” de ETERNO na morte horrenda do Servo é explicada ao longo do v.10. “se ele der a sua alma como oferta pela culpa”. É difícil compreender o sentido da frase hebraica. Provavelmente o sujeito do verbo é o próprio Servo, como se lê na conjugação dos verbos seguintes, na terceira pessoa masculina: yir’eh “ele verá” e ya’arik “ele prolongará”. De qualquer modo, é possível notar que o Servo não foi coagido à morte. Ele deu sua alma como “oferta pela culpa”. Ele entregou-se voluntariamente (53:7). “Embora tantos pensem num Pai irado e um Jesus amoroso que veio aplacar sua cólera, a Bíblia ensina que Deus é amor. O Novo Testamento não diz que Jesus nos reconciliou com Pai, mas que o Pai nos reconciliou consigo, em Cristo”84.

2 Coríntios 5:21

Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus.

A “alma”, nephex, é a vida. A vida do Servo foi uma “oferta pela culpa”. O termo hebraico ’axam (“culpa”, “pecado”; Gênesis 26:10; Jeremias 51:5) era um oferta que visava o perdão do “pecado” (hata’ah, Levítico 5:6—7, 10, 11—13). Além disto, no livro de Levítico, a “oferta pela culpa” também é apresentada numa linguagem legal e ritual, e constituía-se um tipo específico de sacrifício que apresentava o conceito de restituição (Levítico 5:14—19); “... a ideia de satisfação, em relação aos direitos ou leis que haviam sido violados, era mais proeminente”.85 Sobre Isaías 53:10, Gary V. Smith afirma: “Esse verso indica que quando o Servo entregou a sua vida, ele se apresentou como uma compensação ou restituição (como a compensação ou a oferta pela culpa de Lv 5:14 — 6:7) para Deus por causa dos danos cometidos pelo povo contra Deus.”86  Valhamos ainda das palavras de Crabtree: “O Servo inocente dá a sua vida em lugar da vida do povo culpado a fim de satisfazer à justiça divina. Ele era mais que um mártir. O seu sacrifício representa o amor, bem como a verdade da lei divina.”87

O grande problema do ser humano é a sua alienação de Deus. Mas a morte do Servo é um sacrifício que restaura a comunhão entre Deus e os homens. Não existe perdão sem derramamento de sangue (Hebreus 9:22; veja Levítico 17:11). Cristo é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo —

João 1:29

No dia seguinte, viu João a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!

“Um cordeiro não pode morrer no lugar de um humano, mas um homem perfeito poderia; e se o humano é também Deus, ele poderia morrer por todo pecado humano (Hebreus 9:11—14).” 88

A palavra “posteridade” é a tradução de zera‘ “semente”, “descendência”. No texto isaiano, refere-se àqueles que foram perdoados pelo sacrifício expiatório do Servo. Portanto, zera‘ são os descendentes espirituais do Servo, “a congregação nascida dele, o verdadeiro Israel (cf. Hebreus 2:13)...”.89

A expressão ya’arik  yamim “prolongará os seus dias” é usada no Antigo Testamento para se referir à promessa de durabilidade do reino dos monarcas de Israel, caso fossem obedientes à Palavra de ETERNO (Deuteronômio 17:2090; 1 Reis  3:1491 92 ) . No Salmo 21:4 [TM: 21:5], uma expressão semelhante93 refere-se à promessa da eternidade do trono de Davi (cf. 2 Samuel 7:13—16; Salmos 89:4 [TM: 89:5]; Salmos 132:12) que cumpriu-se cabalmente em Cristo.94 Portanto, é possível afirmar que, no texto de Isaías, o Servo é apresentado como uma pessoa ressurreta,95 que, mesmo tendo sofrido uma morte violenta, reinará eternamente. E não só isso. Considerando que a obra do Servo contempla a zera‘ “semente/descendência”, e, sendo esta “semente” aqueles que nasceram da morte expiatória do Servo e por Ele foram justificados (v.11), pode-se deduzir que o texto também se refere à ressurreição do povo redimido.96 

No final v.10, lê-se que “a vontade do ETERNO prosperará nas suas mãos”. Novamente o profeta apresenta a raiz hps (hepes “vontade”, “deleite”, “prazer”), que no início do v.10 aparece na forma verbal hapets qal perfeito “ter prazer”, “desejar”. Mas, se no início do verso a vontade do ETERNO era “esmagar” o Servo, agora, no final, a sua vontade é fazê-lo triunfar. A forma verbal salah qal imperfeito “prosperar” significa “ser forte/eficiente/poderoso”; “ser útil”; “ter sucesso”.97  Parece que o sentido correto da frase é transmitido pela tradução da BJ: “e por meio dele o desígnio de Deus triunfará”. No final, o desejo maior do ETERNO não é a derrota do Seu Servo pela morte ignominiosa, mas sim, a Sua vitória pela ressurreição. Pela cruz de Cristo e por sua ressurreição, a vontade de Deus triunfou.

O triunfo do Servo é descrito também no início do v.11: “Depois do penoso trabalho de sua alma, verá a luz, e ficará satisfeito”. A palavra ’or “luz” não consta no TM, no entanto, aparece em todas as cópias de Qumran, e também é acrescentada na LXX. Os verbos ra’ah qal imperfeito “ver” e sabe‘a qal imperfeito “ficar satisfeito” estão inter-relacionados.  “Os dois verbos constituem um só conceito, e significam que a contemplação da salvação que Ele adquirira para outrem e para Si próprio – fato que deve ser detalhado ulteriormente – O satisfaz e refrigera.”98

A frase seguinte descreve o efeito da morte do Servo sobre o seu povo: “por seu conhecimento, o Justo, o meu Servo, justificará a muitos,”. Para Ridderbos, o “conhecimento” do Servo, como em Isaías 50:4, “é um conhecimento espiritual concernente a Deus e ao Seu plano de salvação”.99 No entanto, a palavra hebraica da‘at “conhecimento” comumente refere-se ao conhecimento proveniente de um relacionamento. Assim, o Servo, através de sua experiência de sofrimento e morte vigária, poderá “justicar a muitos”. O verbo sadeq hifil imperfeito “justificar”, “declarar justo” (cf. Deuteronômio 25:1 e 1 Reis 8:32) apresenta o sentido forense, porque o Servo é julgado e condenado em lugar de outros: “e as iniquidades deles levará sobre si”. Mas essa forma verbal também traz implicações éticas, já que a condenação do Servo visa conduzir aqueles que são declarados justos para uma relação com Deus.100  E só o Servo é capaz de fazer isso. Pois, ele é sadiq “Justo”, e o padrão para se avaliar sua justiça é a sua íntegra relação com Deus, já que o próprio Deus chama-o de “Justo” e de “meu Servo” (como se nota, diferente do v.10, nesse v.11 é o próprio Deus que fala). “Só um homem justo poderia conferir justificação a outros. O Servo é justo e justifica a muitos. Jesus é justo (Atos 3:14) e é ele quem nos justifica (Romanos 5:1—2).”101  “De alguma forma, este Servo tem realmente sofrido a condenação proveniente de todos os pecados já cometidos, e em virtude desse fato ele está apto a declarar que todos quantos aceitarem sua oferta são justos, livres, diante de Deus.” 102

O v.12 descreve a vitória do Servo após a morte: “darei uma porção” é a tradução da forma verbal halaq piel imperfeito “repartir”, “dividir”. A segunda frase novamente emprega essa forma verbal, mas agora o sujeito é o Servo: “repartirá o despojo”. “O quadro é de um cortejo vitorioso com o Servo, de todos os povos, marchando em seu papel de vencedor, trazendo para casa os despojos da conquista.”103 “O homem de Dores agora é um Rei conquistador, que reivindica um povo numeroso como Seu, por direito de conquista através de uma luta tremenda.”104 Entretanto, o “despojo” do Servo não são os bens saqueados de uma cidade, mas são os “homens reabilitados, libertados da pena merecida”.105

É notável que a causa de sua vitória não é o seu poder, mas a sua morte: “porquanto derramou para a morte a sua alma”. O verbo ‘arah, no grau causativo em que se encontra (hifil), apresenta o sentido de “derramar”, “esvaziar”. À semelhança do Salmos 141:8, essa forma verbal significa “esvaziar” a “vida” (nepex) com a chegada da morte. Declara-se assim que a razão do triunfo do Servo (descrito nas duas primeiras frases do v.12) é a sua morte. E não somente isso: “foi contado com os transgressores”. Ele não somente morreu pelos transgressores, como lemos em 53:5 (pesha’ “transgressão”); também foi considerado como um dos pox‘im “transgressores” —

Lucas 22:37

Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido.

Mas, na verdade, o Servo não era um dos pox‘im “transgressores”, pois, como assevera o final do v.12, ele morreu por eles, e por eles intercedeu. “Os transgressores, pelos quais Ele intercede são os que ocasionaram a Sua execução, e por cujas iniquidades Ele foi ‘transpassado’ (v.5). Ele foi assim considerado; eles eram de fato os transgressores. Aqui todos são levados a pensar no clamor! ‘Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem’ (Lucas 23:34) – um cumprimento literal.”106

À luz de Isaías 59:16,107 onde o termo “intercessor” é paralelo a “ajudador” (na tradução da ARA )108, é possível afirmar que o verbo paga‘ “interceder” aqui em 53:12 não descreve só a intercessão, mas engloba também a intervenção.109  O Servo intervém na vida dos “transgressores”, e os restaura à comunhão com Deus. Lembremos que, de acordo com o Novo Testamento, os primeiros a gozarem dos resultados da morte vigária do Servo foram o ladrão arrependido e o soldado romano que, depois de crucificar a Cristo, reconheceu que verdadeiramente Ele era o Filho de Deus. De fato, o Servo conduziu ao paraíso celestial aqueles transgressores merecedores da punição eterna. 

Conclusão

O presente série de artigos constatou que o Servo de ETERNO apresentado em Isaías 52:13—53:12 dificilmente pode ser identificado com Israel ou com qualquer outro personagem do Antigo Testamento.

Notadamente há grandes diferenças entre o Servo e o povo de Israel:

1. O Servo não tem pecado; é perfeito. Só um Cordeiro perfeito poderia se oferecer como “oferta pela culpa” (53:10). Em contrapartida, Israel é pecador. Em Isaías 42:19, o ETERNO acusa o seu povo de cegueira espiritual. Obviamente este povo rebelde não estava em condições para resgatar ninguém. Na verdade, ele mesmo precisa ser regado pelo sacrifício do Servo. 

2. O Servo sofreu imerecidamente o juízo de Deus. Ele foi oprimido por Deus porque outros pecaram contra Deus (53:4-6, 8, 11), diferentemente de Israel que sofreu o exílio merecidamente, pois pecou contra o ETERNO (Isaías 1:25; 3.8; cf. Lamentações 1:8, 18; etc.). 

3. O Servo foi para o matadouro como uma ovelha, sem abrir a boca (53:7). Em contrapartida, Israel, quando foi julgado por Deus, reclamou contra Deus (Isaías 40.27).

Existem também nítidas diferenças entre o Servo e outros personagens do Antigo Testamento:

1) O Servo é identificado com o ETERNO (52:13). Ele é homem, mas é Deus. Nenhum outro personagem do Antigo Testamento, seja dentre os profetas ou dentre os reis tementes ao ETERNO, ousaria aplicar tais honrarias para si mesmo. 

2) O Servo do ETERNO realizou um sacrifício pelo pecado do povo; a oferta foi o seu próprio corpo (53:10). Nenhum outro personagem do Antigo Testamento realizou essa obra.

3) Conforme observamos, o texto de Isaías descreve a ressurreição do Servo, que resultaria na justificação dos pecadores (53:10—12); obviamente isso não se aplica a nenhum herói da fé do Antigo Testamento. O único que “ressuscitou para a nossa justificação” é Cristo —

Romanos 4:25

O qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.

As palavras de Isaías 52:13 — 53:12 são impressionantes. Nitidamente descrevem a humilhação, a condenação, a morte e a ressurreição de um homem. É praticamente impossível não ver essas palavras se cumprindo literalmente no Cristo apresentado no Novo Testamento. Até parece que as palavras de Isaías foram escritas aos pés do Gólgota.110

Portanto, a pergunta do eunuco, “a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?” (Atos 8:34), foi suficientemente respondida por Felipe: refere-se a Cristo —

Atos 8:34—35

34 Então, o eunuco disse a Filipe: Peço-te que me expliques a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?
35 Então, Filipe explicou; e, começando por esta passagem da Escritura, anunciou-lhe a Jesus.

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O texto original poderá ser acessado por meio desse link aqui:


Luciano R. Peterlevitz

Bacharel em Teologia (FTBC e FATEO/UMESP); Mestre e Doutor em Ciências da Religião, na área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico, pela Universidade Metodista de São Paulo. Coordenador Acadêmico da Faculdade Teológica Batista de Campinas, onde também leciona Hebraico, Antigo Testamento e Hermenêutica Bíblica nos cursos de Bacharelado em Teologia e Pós-graduação em Exposição Bíblica.


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.

NOTAS

74 TM: halah hifil perfeito “tornar dolorido”, “fazer adoecer”. 1QIsa: wyhllhu, provavelmente “para que ele o transpasse”. A BHS propõe hhlym ’et-sam  (?) em lugar do TM heheli  ’im-tasim  “fazendo-o adoeçer, se ele colocar”.

75 Vulgata: “se ele oferece”. TM: tasim qal imperfeito terceira pessoa feminino singular  “ela (“alma”?) colocará/depositará”. A tradução da Vulgata coaduna-se melhor com a conjugação dos verbos seguintes, na terceira pessoa masculina: yir’eh “ele verá” e ya’arik “ele prolongará”.

76 tsaleah II qal imperfeito “ser forte/eficiente/poderoso”; “ser útil”; “ter sucesso”. Nelson Kirst et. al., Dicionário hebraico-português e aramaico-português, p. 205.

77 BHS: todas as cópias de Qumram acrescentam a palavra ’or “luz”; também acrescentada na LXX.

78 TM: yisbba‘ qal imperfeito “ficar satisfeito”. A BHS propõe a revogalização: o patah debaixo da consoante bet, em lugar do gamets, formando assim um cólon entre o verbo e substantivo beda‘etto “em seu conhecimento”. 

79 BHS: transposto para depois de beda‘etto “em seu conhecimento”.

80 Para uma explicação da expressão causal tahat ’axer, veja John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 485, nota 380.

81 TM: welappox‘im “e pelos transgressores”. BHS: as cópias de Qumran (1QIsa e 1QIsb) apresentam ulpix‘am “por suas rebeliões”, corroporadas pela LXX.

82 R. Laird Harris; Gleason L. Archer Jr.; Bruce K. Waltke (organizadores), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, p. 509.

83 Is 44.28: “cumprirá tudo o que me apraz” (ARA); “ele cumprirá toda a minha vontade” (BJ). Is 46.10: “farei toda a minha vontade” (ARA). Is 48.14: “O Senhor amou a Ciro e executará a sua vontade contra a Babilônia”. Grifo nosso.

84 Isaltino Gomes Coelho Filho, Isaías, p. 171.

85 J. Ridderbos, Isaías, p. 437. Sobre o ’axam, não é necessário seguir a proposta de Hans-Jürgen Hermisson, que propõe a diferença entre um sentido sagrado e um sentido profano (supostamente em Nm 5.7-8; 1Sm 6.3-4, 8). Hans-Jürgen Hermisson, “The Fourth Servant Song in the Contexto of Second Isaiah”, p. 37.

86 Gary V. Smith, Isaiah 40-66, p. 458.

87 A. R. Crabtree, A profecia de Isaías, vol. 2, Rio de Janeiro, Casa Publicadora Batista, 1967, p. 237.

88 John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 469.

89 J. Ridderbos. Isaías, p.437.

90 yamim ‘al-mamlaktto “e prolongará os dias sobre[do] seu reinado”.

91 weha’araktti  ’et-yameyka “e prolongarei os teus dias”.

92 Gerard van Groningen, Revelação messiânica no Antigo Testamento, p. 609.

93 ’orek yamim ‘olam wa‘ed  “continuidade de dias para sempre e sempre”.

94 Ernst Hengstenberg, Christology of the Old Testament: And a Commentary on the Messianic Predictions, vol. 2, Project Gutenberg EBook of Christology of the Old Testament,  December, 2009, p. 303.

95 J. Ridderbos, Isaías, p. 437.

96 Ernst Hengstenberg, Christology of the Old Testament, vol. 2, p. 303; Gerard van Groningen, Revelação messiânica no Antigo Testamento, p. 609.

97 Nelson Kirst et. al., Dicionário hebraico-português e aramaico-português, p. 205.

98 J. Ridderbos, Isaías, p. 438.

99 J. Ridderbos, Isaías, p. 438.

100 Gary V. Smith, Isaiah 40-66, p. 462.

101 Isaltino Gomes Coelho Filho, Isaías, p. 179.

102 John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 493.

103 John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 493.

104 J. Ridderbos, Isaías, p. 440.

105 Luis Alonso Schökel; José Luis Sicre Dias, Profetas I: Isaias - Jeremias, 2ª edição, São Paulo, Paulus, p. 344.

106 J. Ridderbos, Isaías, p. 440-441.

107 Onde o termo “intercessor” é paralelo a “ajudador”.

108 A Bíblia de Jerusalém: “Viu que não havia ninguém, espantou-se de que ninguém interviesse”.

109 John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 495.

110 J. Ridderbos, Isaías, p. 441.

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sábado, 23 de julho de 2016

COMO A CANASTRICE DOMINOU A POLÍTICA

 

O artigo abaixo é de autoria do professor Wilson Roberto Vieira Ferreira

A canastrice dos sete dispositivos da propaganda
Wilson Roberto Vieira Ferreira

"Mera coincidência" (Wag The Dog, 1997)

Em 1940 um artigo denunciava os chamados “sete dispositivos da Propaganda” e exortava os leitores a detectá-los por ser uma necessidade absolutamente vital para não serem enganados. Setenta e três anos depois esses dispositivos continuam ativos apesar da absoluta obviedade, exagero, “overacting” e, principalmente, canastrice dos intérpretes desses verdadeiros scripts que são reeditados sob uma roupagem moderna e descolada por marqueteiros e publicitários. Como é possível que depois de tanto tempo esses dispositivos continuem na linguagem da mídia, da Política, do Marketing e da Publicidade? E, apesar da explícita natureza fake e não-espontânea desses dispositivos, continuam a pautar a sociedade e conquistar corações e mentes. Qual a causa dessa invasão da canastrice na política e na esfera pública?

Nesse final de semana um amigo mostrou-me um antigo exemplar de uma revista de artes gráficas norte-americana chamada “Print - A Quartely Journal of the Graphic Arts” de setembro de 1940. É muito mais do que uma revista, pois combina delícias visuais e belíssimas fotografias com textos pesados e com foco sério.

A revista abre com um ensaio intitulado “Propaganda e Artes Gráficas – a influência na opinião pública para a Unidade Nacional” de William E. Rudge. O texto nos oferece diversos exemplos de “mensagens positivas”, abordando como o design gráfico pode ser uma ferramenta para “condicionar o comportamento humano”. Rudge escreve: “é absolutamente vital distinguir, através da compreensão e análise, a boa e a má propaganda. Não se deixe enganar!”.


O mais notável é uma lista que o autor faz dos “Sete Dispositivos de Propaganda para os quais devemos estar atentos”.

“Print - A Quartely Journal of the Graphic Arts” de setembro de 1940

Os sete dispositivos descritos pelo autor parecem ser um tanto óbvios. Mas o incrível para mim é que, ainda em 2016, esses dispositivos clichês, exagerados, óbvios, saturados ou “overacting” (essa expressão inglesa parece ser a que melhor define-os) ainda são as principais ferramentas de engenharia de opinião pública. Vemos esses dispositivos o tempo todo sendo usados por políticos, relações públicas de empresas e “front groups”, reportagens em telejornais, discursos de porta-vozes de governos e peças publicitárias. A cada crise, eleições ou intervalos publicitários, lá encontramos esses mesmos dispositivos, reeditados em formatos modernos, descolados e antenados.

Por que tais dispositivos ainda continuam mobilizando pessoas, moldando a opinião pública e agendando a pauta de discussões das mídias e entre as pessoas? Como é possível que táticas tão caricatas, antigas e surradas ainda têm credibilidade e ressonância na sociedade?

Para tentar encontrar uma resposta, em primeiro lugar vamos enumerar e atualizar esses sete dispositivos explicados por Rudger.

1. Dispositivo de Estereotipagem


Incita as pessoas a criarem um julgamento sem examinar a evidência no qual o objeto possa estar baseado. Os propagandistas apelam para o nosso ódio e medo. Isso é feito ao aplicar “xingamentos” a indivíduos, grupos, nações, raças, políticas, práticas ou crenças. Em telejornais, qualquer show popular na periferia onde ocorreu um crime, chacina ou desordem é rotulado como “baile funk”. Qualquer culto afro-brasileiro é associado a “macumba”. “Terrorista”, “radicais”, xiitas ou “muçulmanos” são rótulos genéricos que dão nomes aos nossos temores mais irracionais. Suas fotografias são caricatas e exageradas – barbas mal aparadas, olhos esbugalhados ou ferinos, enfim, rostos de “maus”. A estereotipagem é evidente por si mesma, não são necessárias provas ou evidências. Por exemplo, em um “baile funk” só pode ocorrer coisas ruins. Ou pessoas com aquelas caras só podem ser terroristas.

2. Dispositivo das Generalidades Brilhantes




Propagandistas criam a identidade de um programa através de “palavras virtuosas”. Aqui se encontra o apelo a emoções como amor, generosidade e amizade. Usam-se palavras genéricas contra as quais ninguém pode se contra: liberdade, verdade, honra, justiça social, interesse público, direito ao trabalho, lealdade, progresso, democracia, defesa da Constituição etc. Se um artista como Bono Vox faz uma turnê com sua banda U2 pelo “fim da fome e da pobreza na África”, quem poderá se insurgir contra um desejo tão virtuoso? Afinal, Bono Vox está fazendo a “sua parte”. Essas palavras sugerem brilhantes desejos de “homens de boa vontade”. Mas, concretamente, o “como” realizar tais ideais é colocado entre parêntesis. Afinal, cada um faz “a sua parte”. Outra pessoa que ponha em prática. A tática da estereotipagem nos influencia a criar um julgamento para rejeitar e condenar sem provas. A tática das generalidades brilhantes nos faz aceitar e aprovar sem nenhum exame crítico dos possíveis meios para alcançar o ideal divulgado.

3. Dispositivo de Transferência


Propagandistas transferem algum tipo de autoridade, sanção ou prestígio de alguma coisa que nós respeitamos ou reverenciamos para algum programa que querem que aceitemos. Alguém se torna “presidente de honra” de uma empresa para que transfira seu prestígio ao novo presidente que o substituirá. Um jovem candidato é fotografado ao lado de uma lenda da política. Ou um cientista com pesquisas no exterior se deixa fotografar com a camisa aberta para que vejamos uma outra verde-amarela para conseguir a sanção nacionalista da opinião pública. Símbolos são constantemente usados: a cruz, a bandeira, combinações de cores etc.

4. Dispositivo do Testemunhal:


Aceitamos qualquer coisa, de uma patente médica ou um cigarro a um programa de política pública. O propagandista lança mão de testemunhos. Um recurso metomínico da parte substituir um todo. Um depoimento de um só médico, de uma só celebridade ou de um popular garante a aceitação do programa ou produto. A evidência está na visibilidade do testemunho. (Visibilidade x fama = Credibilidade). Essa fórmula resolve o problema lógico de um só exemplar representar a totalidade de um gênero.

5. Dispositivo da Pessoa Simples


O mito da “pessoa simples” é o dispositivo usado por líderes políticos, homens de negócios, ministros, cientistas ou celebridades para ganhar nossa confidencia e parecerem “pessoas como nós”. Candidatos mostram sua devoção com crianças no colo de potenciais eleitores; um emérito cientista torce por determinado time de futebol no twitter. À época da ascensão dos Nazistas ao poder nos anos 1930, a imprensa divulgava fotos de Hitler na sua vida privada ao lado de seus cães. Na revista “Life” Mussolini posava em uma foto com seus filhos e netos nessa mesma época.

6. Dispositivo das "Cartas Empilhadas"


Propagandistas contam uma única parte da verdade. Mas é como empilhasse cartas sobre a verdade, de tal maneira que um lado ou fator será mais enfatizado do que o outro. Dados estatísticos, gráficos e tabelas nada dizem, a não ser criar uma espiral de interpretações: números absolutos são tomados como verdade, esquecendo-se dos números relativos. A inflação caiu, mas por outro lado, podemos dizer que ela subiu, porém em um ritmo menor... Propagandas de pasta de dentes são hábeis em contar meias verdades: uma tem “flúor garde”; outra diz ser “antitártaro”, como qualidades únicas e exclusivas. Omitem que todas as pastas têm flúor e são antitártaros.

Uma variação desse dispositivo é o doublespeak (dupla fala) onde alterações de palavras podem alterar a resposta emocional do público. Por exemplo, a utilização do jargão pode contaminar a compreensão, obscurecendo o verdadeiro significado que seria passado com palavras diretas. A expressão “artilharia aérea” substitui a palavra “bomba”. “Defesa” é colocada no lugar de “Guerra”. Enchentes viram “pontos de alagamento” e quebras em composições de trem e metrô tornam-se “falhas pontuais no sistema”.

7. Dispositivo do “Carro de Propaganda”


Esse dispositivo nos faz seguir a multidão, aquilo que supostamente a maioria pensa e faz. Ou, pelo menos, o que a gente pensa que a maioria pensa e faz. O tema aqui é “todos estão fazendo isso”. Como ninguém quer ser deixado para trás por temer a solidão, exclusão ou esquecimento, queremos seguir a tendência majoritária. Está associado ao conceito de “Espiral do Silêncio” de Elizabeth Noelle-Neumann onde a criação de um “clima de opinião” pode isolar grupos discordantes até a extinção pela sua autopercepção do isolamento. “Havaianas: todo mundo usa!”. Poderíamos responder, “todo mundo quem, cara pálida!” O slogan quer criar o clima de opinião onde pessoas isoladas, temendo ficarem de fora da “onda”, embarquem em uma mera percepção psicológica sem fundamento real, o “carro da propaganda”. Claramente esse dispositivo baseia-se no medo de ficar excluído e no ódio daqueles que estejam fora do grupo, da massa, da maioria ou da nação.

A Canastrice na Propaganda

Lendo esses sete dispositivos de propaganda é nítido que eles se baseiam nos instintos mais básicos humanos: medo, ansiedade e sexo – este último latente no dispositivo do testemunhal onde sex appeal reforça a conexão retórica entre “celebridade” e causa, programa ou produto.

Mas apenas isso não explica a longevidade dessas táticas.
Há algo na estética de tudo isso que incomoda pela previsibilidade e canastrice dos atores que representam os scripts elaborados por publicitários, relações públicas e marqueteiros.

Em postagem anterior analisamos o filme “Mera Coincidência” (Wag The Dog, 1997) onde um presidente concorrendo à reeleição nos EUA é envolvido em um escândalo sexual. Com a ajuda de um produtor de Hollywood e um relações públicas cria uma guerra fictícia com a Albânia como estratégia de desvio da atenção. Um suposto vídeo real (na verdade produzido em estúdio) é exibido pelas emissoras de TV: vemos uma jovem albanesa com um gatinho branco nos braços fugindo de terroristas estupradores em meio ao fogo cruzado de bombas e incêndios. Tudo muito melodramático, “over”, kitsch, estereotipado e com o “appeal” e “look” semelhante às produções medianas de Hollywood e “sitcons” do horário nobre. Apesar disso, jornalistas e a opinião pública mordem a isca do suposto vídeo “vazado” como fosse um vídeo documental. 

Gerações de cultura pop visual moldaram nossa percepção do real

Fica a questão: como ninguém percebe a evidente natureza ficcional do vídeo, feito com recursos estéticos manjadíssimos do pior do cinema e TV? A opinião pública não percebe a natureza “fake” ou “forçada” destes pseudoeventos porque a própria estrutura de percepção do real já foi alterada anteriormente por décadas de cultura pop: tomar o real não a partir dele mesmo, mas a partir dos seus simulacros.

Depois de décadas de cultura pop visual nossa percepção para o real foi invertida pelo hiperrealismo das imagens: tomamos o real não mais por ele mesmo, mas a partir de imagens anteriormente feitas dele. Olhamos nossos filhos a partir das suas fotos e vídeos caseiros, vamos a pontos turísticos esperando que eles confirmem as fotos dos folders promocionais do pacote de viagem.

Se observarmos as fotos de momentos íntimos e afetivos postadas no Facebook perceberemos um grande número de imagens que reproduzem os clichês de composição visual dos filmes hollywoodianos – amantes se beijando tendo o sol poente em contraluz, namorados correndo para se abraçarem com o mar azul ao fundo etc.

Ou seja, toda a canastrice dos intérpretes desses dispositivos de propaganda e a obviedade dos scripts não são percebidos como fakes, forçados ou não espontâneos, pois a nossa percepção do real já está há muito tempo invertida por gerações de vivência em ambientes midiáticos e, principalmente visuais.

Apesar de toda obviedade e “overacting” esses sete dispositivos da propaganda ainda continuam conquistando corações e mentes. A canastrice dominou a Política.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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