Templo de Salomão,
recém-inaugurado em São Paulo, torna-se o mais vistoso símbolo da participação
evangélica na esfera pública brasileira
O material abaixo foi publicado
no site do jornal Zero Hora:
Política da salvação: novas estratégias e mudança de perfil marcam o
avanço dos evangélicos
por
Letícia Duarte — colaborou Paulo Germano
09/08/2014
| 18h01
Política
da salvação: novas estratégias e mudança de perfil marcam o avanço dos
evangélicos Foto: Marcos Porto / Agencia RBS
Se nos
anos 1990 a Igreja Universal do Reino de Deus ganhava destaque no Jornal
Nacional pelos chutes de um pastor na estátua de uma santa católica ou por
gravações de Edir Macedo ensinando discípulos a arrecadar doações dos fiéis, a
instituição que agora chegou às páginas do New York Times ostenta uma nova
imagem.
Ao afirmar
que o recém-inaugurado Templo de Salomão faz o "icônico Cristo Redentor do
Rio de Janeiro, que tem apenas metade da altura, parecer um enfeite em
comparação", um dos jornais mais respeitados do mundo reconhece não apenas
a magnitude da obra, mas as novas bases que sustentam a ascensão evangélica no
país.
Com
referências do Antigo Testamento e ares de profetismo – reforçados pela barba
branca que Edir Macedo deixou crescer no ano passado como um "voto"
de espera pelo templo –, o visual repaginado da Universal foi minuciosamente
planejado. De olho na classe média emergente, o movimento busca acrescentar
consistência simbólica à escalada pentecostal na sociedade brasileira. Ao
erguer uma réplica do espaço sagrado do judaísmo numa área equivalente a cinco
campos de futebol, hastear a bandeira de Israel na inauguração da sede de R$
680 milhões e adorná-la com símbolos judaicos, como os menorás (candelabros de
sete pontas) que decoram as paredes do templo, a Universal passa a reivindicar
também o seu quinhão na "terra santa". Um ambiente bem diferente de
sua fundação, em 1977, em um coreto na periferia do Rio.
Naqueles
tempos de vacas magras, não demorou a aparecer o debochado apelido de
"supermercado da fé". Uma alusão não apenas aos galpões onde os
cultos ocorriam, com placas de néon piscando nas fachadas, mas também à teologia da prosperidade – uma marca da Universal reprovada
por protestantes mais tradicionais –, que promete curas e glórias materiais em
troca de dízimos.
– Por
outro lado, a Igreja Católica sempre ocupou os ambientes mais nobres da cidade,
com sedes em praças públicas ou ao lado das prefeituras – lembra Ricardo
Mariano, professor da Universidade de São Paulo e pós-doutor em Sociologia da
Religião. – De 15 anos para cá, a Universal vem erguendo catedrais para obter
maior respeitabilidade e legitimidade.
O
faraônico Templo de Salomão surge como ápice dessa demonstração de força. Para
o sociólogo Clemir Fernandes, pesquisador do Instituto de Estudos da Religião
(Iser), a Universal muda sua identidade porque os fiéis também mudaram. Além de
os antigos adeptos terem sido beneficiados pelo avanço econômico da classe C, a
instituição cobiça novos públicos. -
– A
igreja agora busca uma tradição, e essa tradição é ressignificada à luz de seus
interesses. Como não tem história, precisa se embasar no que é sólido,
apoiando-se na tradição judaica – analisa Clemir.
Embora a
Igreja Universal tenha perdido 200 mil fiéis no último censo de 2010 em relação
ao anterior, disputando espaço com uma dissidência, a Igreja Mundial do Poder
de Deus, os evangélicos têm hoje uma representatividade inédita. Na contagem do
IBGE, saltaram de 2,61% da população, em 1940, para 22,16% em 2010. No
Congresso, a Frente Parlamentar Evangélica reúne 70 deputados e três senadores
- e a tendência é de aumento. Nas eleições deste ano, o número de candidatos
pastores cresceu 40%, saltando de 193 para 270, enquanto apenas 16 concorrentes
se apresentam como "padres", uma queda de 30% em relação ao pleito
anterior, conforme os registros do Tribunal Superior Eleitoral. Não por acaso,
todos os candidatos fazem adequações no discurso para contemplar os evangélicos
– como a presidente Dilma Rousseff, que, diante de fiéis da Assembleia de Deus
na sexta-feira, afirmou que "todo dirigente precisa da graça de
Deus".
Conhecida
por posturas conservadoras nos campos moral e sexual, com apoio de católicos em
temas como a proibição do aborto, a bancada evangélica aos poucos espicha seu
olhar. Professor da PUC Goiás, o cientista das religiões Alberto da Silva
Moreira observa que a aproximação dos pentecostais
com o judaísmo não se dá apenas no campo simbólico: também estreitam laços com
Israel na esfera política. Uma expressão
disso seriam as manifestações de líderes evangélicos contra a condenação do
governo Dilma à ofensiva israelense em Gaza - que incluíram um protesto com
cerca de 80 devotos diante do Ministério das Relações Exteriores.
– Isso
significa que igrejas como a Universal estão se alinhando em bloco com a
direita cristã conservadora filo-israelense. É o mesmo que faz a direita cristã
dos Estados Unidos – analisa Moreira, recordando que a defesa de boas relações
com Israel é ao mesmo tempo uma forma de defender a continuidade do rentável
turismo de crentes à Terra Santa.
Mas seria
um erro imaginar que a bancada evangélica funciona como um coral afinado de
mãos erguidas o tempo todo. No dia a dia, divisões internas e interesses
particulares separam os congressistas de diferentes igrejas, o que limita seu
poder. Autor do livro Mercado Religioso Brasileiro:
do Monopólio à Livre Concorrência (Nelpa, 2012) e professor da Universidade
Federal do Maranhão, o sociólogo Gamaliel da Silva Carreiro identifica que a
maioria dos eleitos por voto evangélico está ali para defender interesses
miúdos dos setores que representam, como uma concessão de rádio ou um terreno
para a nova igreja, e não para pensar um projeto de país.
– Eles
têm dificuldade em pensar o Brasil. Pensam pequeno. Só conseguem se organizar
quando há temas muito contraditórios que afrontam valores cristãos – afirma
Carreiro.
Na
avaliação do pesquisador, há preconceito em parte das críticas à atuação
política dos evangélicos, já que a organização em defesa de interesses
particulares é considerada legítima quando se trata de outros grupos, como a
bancada ruralista ou os metalúrgicos. Lembrando que os católicos historicamente
exercem grande influência política, Carreiro cita um conceito do sociólogo
alemão Norbert Elias para explicar a diferença atual entre o poder dos dois
grupos: enquanto os católicos são os "estabelecidos", seus
concorrentes ainda são "outsiders".
– Por
mais que os evangélicos venham crescendo, eles ainda são outsiders, e a
sociedade sempre desconfia de outsiders. Como a Igreja Católica está
estabelecida por muito tempo, os católicos têm confiança e credibilidade junto
ao Estado, com muitos recursos destinados a ONGs católicas. A vinda do Papa,
por exemplo, recebeu muitas verbas do Estado – compara Carreiro.
A
associação entre fé e política no Brasil remonta ao período colonial. Como
observa a cientista da religião Sandra Duarte de Souza, professora do programa
de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Metodista, a Igreja
Católica foi essencial para legitimar o projeto colonizador. E essa influência
sobrevive até hoje, apesar da laicidade, consagrada pela Constituição de 1891.
– O problema que a gente enfrenta é que a confissão religiosa de
alguns acabe sendo imposta para todos. O Estado tem que cuidar de todos, mas
isso não é possível quando uma bancada impede. O risco é que a religião se sobreponha
à cidadania e obstaculize políticas públicas
– preocupa-se Sandra.
Mas até
que ponto pode chegar a influência evangélica? Apesar da curva ascendente, o
professor Eduardo de Quadros, do Programa em Ciências da Religião da PUC Goiás,
não acredita em riscos à democracia. Por mais que seus membros atuem na arena
política, o projeto pentecostal teria um recorte mais individualista, associado
ao mercado.
– Talvez
a Universal seja a maior multinacional brasileira, presente nos cinco
continentes. Nenhuma empresa nacional fez esse sucesso em tão pouco tempo. É a
empresa de salvação – analisa Quadros. Na era do consumo, nada mais oportuno do
que a fé ostentação.
PARTIDOS
Partido Republicano Brasileiro (PRB)
Braço
político da Igreja Universal, tem como expoente o bispo Marcelo Crivella,
sobrinho de Edir Macedo. Senador eleito, Crivella foi ministro da Pesca e hoje
concorre ao governo do Rio.
Partido Social Cristão (PSC)
Ligado à
Assembleia de Deus, lançou Pastor Everaldo como candidato a presidente, embora
seu nome mais conhecido seja Marco Feliciano. Em março, insatisfeito com o
espaço no governo, o partido rompeu com Dilma Rousseff.
Partido da
República (PR)
Abrange
filiados das igrejas Batista, Universal, Assembleia de Deus e várias outras.
Presbiteriano, o ex-governador do Rio Anthony Garotinho integra a legenda.
Tiririca, embora nada tenha a ver com os evangélicos, busca a reeleição pelo
PR.
Outras
legendas
A
influência evangélica não se restringe a três partidos. Há representantes em
praticamente todas as siglas – uma mostra disso é a eclética Frente Parlamentar
Evangélica.

O material original do site do
Zero Hora poderá ser visto por meio desse link aqui:
Alexandros Meimaridis
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