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quinta-feira, 30 de março de 2017

MISTURA DE POLÍTICA COM RELIGIÃO: ATÉ ONDE IREMOS?


Culto

Culto: a secretária Fátima Pelaes (primeira à esquerda), durante roda de oração em seu gabinete.

Vivemos dias singulares no Brasil do século XXI. De uma hora para a outra, toda uma população que passou a ser chamada de “evangélicos” foi reconhecida como uma força considerável em todos os horizontes. Facilmente manipuláveis pelas mais variadas razões, os evangélicos são levados a acreditar que podem tudo porque, afinal, Deus está do nosso lado. É essa abordagem levada a todas as esferas do dia a dia que faz surgir verdadeiras aberrações como o que está relatada abaixo pelo site da revista Carta Capital

Secretária das Mulheres de Temer faz culto evangélico em gabinete
por Débora Melo e Renan Truffi

Rodas de oração na sede do órgão, com a participação de Fátima Pelaes, têm constrangido funcionários.

A secretária Especial de Políticas para as Mulheres, Fátima Pelaes, tem realizado cultos evangélicos na sede do órgão em Brasília, o que tem constrangido profissionais da pasta.

Uma foto enviada à reportagem de CartaCapital mostra a secretária e funcionárias de sua equipe em um momento de oração dentro do gabinete, acompanhadas de um homem ao violão.

De acordo com uma fonte que não quis se identificar, subordinadas diretas de Pelaes têm aproveitado eventos de confraternização para fazer rodas de oração com os funcionários. “A equipe que assumiu chegou, digamos, com essa mania. Isso tem causado mal-estar”, disse a fonte. “Quem já estava na secretaria se surpreendeu, porque isso nunca fez parte da lógica dali.”

O Estado brasileiro é laico, e a Igreja não pode interferir no Estado. Além disso, o artigo 5º da Constituição Federal define que “é inviolável a liberdade de consciência e de crença”.

A secretária tomou posse em junho de 2016, ainda no governo interino de Michel Temer. O nome de Pelaes, que é presidenta do PMDB Mulher, foi indicado a Temer por deputadas do Partido Republicano Brasileiro (PRB), sigla ligada a Edir Macedo e à Igreja Universal do Reino de Deus.

A escolha do governo para a pasta das Mulheres foi fortemente criticada por movimentos feministas. Socióloga, Pelaes foi deputada federal pelo PMDB do Amapá e chegou a defender a legalização do aborto durante sua trajetória no Congresso, mas mudou radicalmente de opinião a partir de 2002, quando sobreviveu a um naufrágio no Rio Amazonas.

Após uma “busca por Deus”, Pelaes decidiu se converter à religião evangélica. Ela foi presidente da Frente Parlamentar Evangélica e passou a militar pelo direito à vida “desde a concepção”.

Em 2010, a então deputada fez um discurso em defesa da aprovação do Estatuto do Nascituro, projeto de lei que dá direitos ao feto e dificulta ainda mais o acesso ao aborto legal, mesmo em casos de estupro. Na ocasião, Pelaes revelou que nasceu de um estupro que sua mãe sofreu na prisão.

“Eu já estive também em alguns momentos, nesta comissão, defendendo [o aborto], dizendo que toda mulher tem direito, que a vida não começa na concepção. Mas eu precisava ser curada, porque eu estava com trauma. Eu não conseguia falar disso”, disse em uma comissão.

O episódio foi resgatado com a nomeação de Pelaes para a pasta das Mulheres e, após repercussão negativa, a secretária emitiu uma nota na qual recuava de suas posições. “A mulher vítima de estupro que optar pela interrupção da gravidez deve ter total apoio do Estado, direito hoje já garantido por lei”, dizia o texto.

A gafe mais recente da secretária ocorreu neste Dia Internacional da Mulher. Ao defender Temer de suas declarações machistas, Pelaes foi mais uma vez alvo de críticas de movimentos que lutam pelos direitos das mulheres.

Em um discurso infeliz, o peemedebista afirmou que “seguramente” cabe à mulher cuidar da casa e da formação dos filhos, palavras que ganharam as redes e correram o mundo.

Naquele mesmo dia, em entrevista no Palácio do Planalto, Pelaes minimizou as declarações e disse que se trata de uma realidade. “Acho que estamos falando do que a mulher ainda vive hoje”, afirmou.

CartaCapital tentou contato com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, mas não localizou os responsáveis pela comunicação do órgão. O canal segue aberto, caso a pasta queira comentar a reportagem.

O artigo original poderás ser acessado por meio do seguinte link:


Que os leitores não se percam pela publicação desse artigo em nosso blog. O mesmo tem o objetivo de divulgar as informações e fomentar o debate. Quanto à questão fundamental apresentada no texto e que diz respeito aos casos em que o aborto é admissível pela legislação brasileira, a posição do Blog que já foi apresentada em outros artigos permanece a mesma: não aceitamos o assassinato de uma criança não nascida sob qualquer desculpa que seja.

Que Deus tenha misericórdia de nós e nos abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A VITÓRIA DE MARCELO CRIVELLA E A TEOCRACIA DE EDIR MACEDO


Marcelo Crivella
Crivella se afastou de tom religioso na campanha à prefeitura do Rio

O artigo abaixo foi publicado no site DW.

O avanço dos evangélicos, agora também no Executivo

Vitória de Marcelo Crivella no Rio é marco na trajetória de pastores na política brasileira. Segundo especialistas, conquista de prefeituras faz parte de projeto amplo de ocupar governos e até mesmo a Presidência.

A vitória do bispo licenciado Marcelo Crivella na eleição municipal do Rio de Janeiro, neste domingo (30/10), marca uma nova etapa na trajetória dos pastores evangélicos na política brasileira. Eleito com 59,37% dos votos válidos, Crivella vai comandar a prefeitura da segunda maior cidade do Brasil e uma das principais vitrines do país, com orçamento de 31 bilhões de reais.

Com essa vitória, o projeto político dos pastores evangélicos finalmente conseguiu ir além do nicho que vem sendo cultivado na Câmara Federal – além dos Legislativos estaduais e municipais – e mostrar que também tem força em eleições majoritárias.

Sua ascensão também deve catapultar a influência do PRB, o partido dominado por membros da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). A denominação religiosa é comandada por Edir Macedo, que é também tio de Crivella e controla a Rede Record, a segunda maior emissora de TV do país. "É uma igreja com um projeto de poder que apresenta condições de colocá-lo em prática. A própria estrutura da Universal parece a de um partido ou de uma empresa", afirma Edin Abumanssur, professor de Sociologia da Religião da PUC-SP.
O PRB registrou um aumento de 31% no número de prefeitos e 33% no de vereadores nestas eleições. Em 2017, vai administrar 105 prefeituras. Mas o avanço dos evangélicos não se deu apenas com o PRB.
Neste ano, as 26 capitais brasileiras contaram com mais de 250 candidatos que se identificaram como "pastores", "missionários" ou "bispos" de diversas denominações. Na cidade como São Paulo, a bancada de evangélicos subiu de sete para treze vereadores (quase um quarto do total da Câmara).

A ascensão de Crivella e de outras figuras é influenciada pelo aumento da proporção de evangélicos no país. O Brasil continua sendo o maior país católico do mundo, mas o último censo mostrou que a população de evangélicos subiu de 15,4% em 2000 para 22,2% naquele ano. Segundo pesquisa do instituto Datafolha, 33% dos 4,9 milhões de eleitores registrados no Rio se identificam como evangélicos. Um levantamento antes do pleito mostrou que 91% deles apoiavam a candidatura de Crivella.

Imagem e retórica

Políticos evangélicos já exercem influência decisiva na política carioca e fluminense desde o final dos anos 90. O Estado do Rio já foi governado entre 1999 e 2006 por uma orquestração de políticos evangélicos que contou com Anthony Garotinho. Só que nenhum deles iniciou a trajetória política nas fileiras de uma igreja ou é tão fortemente identificado com uma denominação específica como Crivella, que se licenciou como bispo da IURD para disputar sua primeira eleição para o Senado, em 2002.

Para vencer a prefeitura do Rio, Crivella acabou tendo que moderar seu tom. Em 2008, quando se lançou pela primeira vez à prefeitura, foi derrotado ainda no primeiro turno. À época, fez uso de discurso religioso e provocou controvérsia ao atacar um de seus adversários, que defendia direitos de homossexuais, afirmando com desprezo que este promovia "o homem com homem".

Resultado de imagem para TEMPLO DE SALOMÃO 
Megatemplo da Igreja Universal em São Paulo

"Nem todo o Brasil é evangélico. Eles podem formar uma bancada numa eleição proporcional, mas esses votos não são suficientes para conquistar o Executivo. Para ir além dos seus fiéis, os políticos evangélicos têm que fazer concessões, especialmente no tom religioso. Elas não precisam tanto ser nos costumes, já que o brasileiro em geral é conservador", afirma Abumanssur.

Para Christina Vital, professora de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Crivella ofereceu diferentes motivos para votar do que simplesmente a religião. "Ele enfatizou muito o discurso do cuidado com a população, sobre a qualidade dos serviços. A própria IURD tem um lado liberal na economia que tem apelo entre empresários. No Legislativo, os pastores podem falar só para sua base, mas no Executivo tem que falar com toda a sociedade", afirmou.

Em um debate na eleição deste ano, Crivella exemplificou sua nova abordagem para conquistar eleitores fora do nicho evangélico ao responder a uma acusação de um adversário. "Você está preocupado com a minha igreja? E a fila dos hospitais? Interessa para eles se eu sou católico, espírita, umbandista ou evangélico?", disse o político na ocasião.

O candidato chegou a dizer na TV: "eu jamais misturei política com religião" – apesar de sua ficha demonstrar que isso não é verdade. No Senado, ele promoveu projetos que beneficiavam diretamente igrejas, como uma proposta de isentar do pagamento de IPTU os imóveis alugados utilizados para cultos.

Voos mais altos

Para Abumanssur, mesmo que Crivella tenha apenas disfarçado sua tendência religiosa, não vai ser tão simples para ele implementar uma agenda religiosa numa cidade como o Rio. "Existem questões jurídicas e políticas difíceis de contornar. A principal pauta dos evangélicos está ligada aos costumes. Só que isso não é tema de competência de uma prefeitura", afirmou.

Segundo Abumanssur, o provável papel de Crivella será de mostrar a um público mais amplo que pastores são capazes de administrar uma cidade. "Não tenho dúvidas de que a Universal quer alçar voos mais altos."

Vital também afirma que Crivella deve deixar a religião de lado na administração e mostrar uma face amigável de políticos religiosos. "Existem, sim, áreas em que se pode promover uma agenda religiosa em uma prefeitura, como a educação. Mas Crivella deve se concentrar em fazer uma gestão eficiente para produzir uma vitrine para os evangélicos e expandir o eleitorado", afirma. "Ele é parte de um projeto amplo de ocupação do Executivo, que quer conquistar governos e até mesmo a Presidência e que, aí sim, vai deixar sua marca na cultura e na sociedade. Esse projeto envolvendo o Executivo também deseja influenciar o Judiciário."

Em 2012, mesmo ano em que sugeriu que os gays podem ser fruto de aborto malsucedido, Crivella declarou durante um encontro com pastores da IURD registrado em vídeo que os brasileiros ainda vão "eleger um presidente da República que vai trabalhar para nós e nossas igrejas".

O artigo original poderá ser visto por meio do link abaixo:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 18 de outubro de 2016

ACIDENTE NO ESTACIONAMENTO DO TEMPLO DE SALOMÃO MATA DOIS



O artigo abaixo foi publicado no site da Folha de São Paulo com notícias do Agora.

Motorista atropela 7 pessoas no Templo de Salomão em SP: 2 morrem

Duas pessoas morreram e cinco ficaram feridas na tarde deste domingo (16) em um acidente no estacionamento do Templo de Salomão, da Igreja Universal, no Brás, região central de São Paulo.

Uma mulher, que chegava de carro – um Sandero prata – para participar do culto por volta das 18h, perdeu o controle da direção do veículo que manobrava no estacionamento e avançou contra os fiéis que esperavam para entrar no templo.

Em nota, a Igreja Universal informou que sete pessoas foram atropeladas e que imediatamente acionou apoio médico aos feridos. Ao menos 11 equipes dos bombeiros foram ao local para prestar socorro aos feridos.

A policial militar aposentada Iraci da Silva Fabri, 48, e Rosimeire Rodrigues Gunter, 39, chegaram a ser levadas para o Hospital das Clínicas, mas não resistiram aos ferimentos e morreram. Os outros feridos foram encaminhados para hospitais das Clínicas, Tatuapé, Vila Alpina e Ipiranga.

O caso foi registrado no 8º DP (Brás) onde a motorista, identificada apenas como Dilza, afirmou à polícia que o carro, que funciona com câmbio automático, sofreu uma pane. Segundo ela, o veículo deu um tranco e acelerou sozinho.

Localizado no Brás (região central), o Templo de Salomão, com 75.948 metros quadrados, é o maior da cidade. Tem área construída 13 vezes maior que a da Catedral da Sé (5.700 metros quadrados).
A edificação é capaz de receber até 10 mil pessoas sentadas e, segundo a Universal, custou R$ 680 milhões. A arquitetura tenta reproduzir o que teria sido o templo bíblico de mesmo nome.

O templo teria IPTU anual de cerca de R$ 3 milhões por ano. Cercado de polêmica desde sua inauguração em 2014, o local ainda não tem alvará definitivo. Sem isenção até o momento, o Templo de Salomão consta como devedor de R$ 7,6 milhões em IPTU. Segundo a Universal, a imunidade está em análise pela prefeitura.

O artigo original poderá ser visto por meio do link abaixo:


Que Deus abençoe a todos e possa consolar as famílias dos mortos e feridos.

Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 17 de maio de 2016

O QUE OS EVANGÉLICOS QUEREM DA POLÍTICA NO BRASIL


 

O artigo abaixo foi publicado pelo site Pública e nos apresenta uma entrevista com a Dra. Bruna Suruagy da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Afinal, o que os evangélicos querem da política?

por Andrea Dip

A professora de psicologia Bruna Suruagy, da Universidade Presbiteriana Mackenzie, fez 42 entrevistas para sua tese de doutorado Religião e política: ideologia e ação da ‘Bancada Evangélica’ na Câmara Federal”. Ouviu parlamentares da bancada evangélica (de 2007 a 2011), assessores e jornalistas. Continuou acompanhando o movimento dos políticos evangélicos e o crescimento da bancada no Congresso. Em entrevista à Pública, Bruna explica como acontece a seleção dos candidatos dentro das igrejas, o esquema político das principais denominações pentecostais e o que querem os políticos evangélicos.

Como começou sua pesquisa sobre a bancada evangélica?

Meu objetivo era entender como se processava a articulação entre os discursos religiosos e políticos. Foi na legislatura de 2007 a 2011, que aconteceu logo após a CPI das Sanguessugas que apresentou alguns nomes de parlamentares evangélicos. Na ocasião, a Igreja Universal retirou a candidatura de muitos parlamentares e o início da legislatura de 2007 foi bastante tenso por conta desse processo. Teve uma redução significativa da bancada. Na época eles estavam com 45 membros.

Quando os evangélicos passaram a se organizar politicamente?

Antes da década de 1990, já existiam vários parlamentares evangélicos, mesmo antes da Constituinte – muitos protestantes históricos e alguns pentecostais, mas não existia uma organização institucional da campanha desse grupo específico. Eram evangélicos que decidiam se candidatar e eventualmente recebiam o apoio de suas igrejas. Claro que, embora independentes, havia na Câmara uma certa articulação em nome sobretudo da manutenção dos interesses e valores morais próprios desse grupo. Mas no início da década de 1990 a Universal passou a protagonizar a participação política entre os evangélicos e já começou atuando com um plano político. Ela criou uma forma de fazer política no sentido de quase atuar como partido.

Funciona assim: A cúpula da igreja, formada por um conselho de bispos da confiança de Edir Macedo, indica candidatos em um procedimento absolutamente verticalizado, sem a participação da comunidade. Os critérios para a escolha desses candidatos geralmente têm base em um certo recenseamento que se faz do número de eleitores em cada igreja ou em cada distrito. E cada templo, cada região, tem apenas dois candidatos, que seriam o candidato federal e o estadual. Ela desenvolve uma racionalidade eleitoral a partir de uma distribuição geográfica dos candidatos e a partir de uma distribuição partidária dos candidatos. Isso mudou um pouco agora porque existe um partido que é da Universal, o PRB, que fica cada vez mais forte no Congresso. Na época, havia uma distribuição por vários partidos para garantir a eleição. E são escolhidos bispos com um carisma midiático, que conduziram programas, radialistas e mesmo não bispos, mas figuras que se destacavam como comunicadores. Porque existe uma interface da mídia religiosa com a igreja e a política.

Não são parlamentares que se destacam na questão litúrgica como grandes estudiosos da Bíblia – até porque a tradição pentecostal está mais na produção de emoções e de momentos afetivos do que de fato na liturgia. Então os bispos e líderes religiosos que promovem essas catarses coletivas e demonstram esse carisma institucional são normalmente os escolhidos para candidatos. A Universal se tornou um modelo para outras igrejas porque a cada novo mandato havia um aumento significativo dos parlamentares da Universal. A Assembleia de Deus, que hoje tem a maioria dos deputados, mas que não funcionava assim, passou a ter a Universal como modelo. Não atuando da mesma forma porque o funcionamento institucional é outro. A Assembleia é uma igreja com muitas dissidências e muitas divisões internas, por isso não é possível estabelecer hierarquicamente os candidatos oficiais. As igrejas têm fortes lideranças regionais e uma fragilidade do ponto de vista nacional. A sede não tem tanta força e, por isso, eles criam prévias eleitorais. As pessoas se apresentam voluntariamente ou são levadas pela própria igreja e ainda há a ideia de que alguns são indicados por Deus porque mobilizam grandes multidões, ou contagiam, como dizia Freud, também termina sendo um critério.

Ainda há a ideia de que alguns são indicados por Deus porque mobilizam grandes multidões.

Então tem uma lista, depois uma pré-seleção que passa por um conselho de pastores – isso em cada ministério [a Assembleia de Deus é uma igreja com muitas ramificações]. É interessante que os que pretendem se candidatar assinam um documento se comprometendo a apoiar o candidato oficial caso ele não seja escolhido. Na Universal, como o poder é nacional, tem uma sede hierarquizada que consegue controlar a instituição, candidaturas independentes não acontecem. Até porque os parlamentares que foram eleitos com esse apoio institucional e que na segunda legislatura tentaram se candidatar de forma independente não ganharam as eleições. A vitória está totalmente atrelada à instituição. Existe uma estratégia bem construída porque eles preveem uma fidelidade de 20%, que não é alta. A Assembleia de Deus está tentando construir essa fidelidade e essa unidade política que são extremamente difíceis devido a essa fragmentação interna. E faz as prévias nacionais com a participação de pastores e obreiros, novamente sem a participação da comunidade – não é um processo transparente. No Congresso então você tem essas lideranças religiosas que demonstram uma maior habilidade na interlocução com o sujeito, um carisma que gera catarse, contágio, impacto afetivo e as lideranças que foram identificadas e constituídas pela igreja como nomes importantes para ocupar o cenário nacional.

A bancada evangélica é homogênea?

Na bancada evangélica no Congresso e também nas bancadas estaduais e municipais, você tem uma diversidade tão grande de integrantes que não dá pra pensar esse grupo como um bloco coeso, homogêneo. Muitos vêm representando a Assembleia de Deus e a Universal e algumas neopentecostais que tentam imitar essa estratégia, como, por exemplo, Sara Nossa Terra, de onde saiu o Cunha. Você tem muitos parlamentares das chamadas protestantes históricas [batistas, presbiterianas, luteranas, metodistas] que têm uma candidatura totalmente independente porque não há um plano político já estabelecido dentro das igrejas. Eles simplesmente são evangélicos, mas a trajetória política geralmente não se dá dentro da igreja e não há uma vinculação direta ao exercício da fé. Esses parlamentares gostam de dizer que separam bem a fé no âmbito privado da política na esfera pública. Mas é uma distinção contraditória porque eles tomam, sim, como referência algumas crenças e valores para orientar suas práticas parlamentares e votações como quando se discute aborto e homofobia,a por exemplo.

A Universal passou a protagonizar a participação política entre os evangélicos e já começou atuando com um plano político.

Lembro que um parlamentar me disse na época em que fiz as entrevistas que não há como fazer uma separação absoluta porque um marxista, por exemplo, vai acabar se submetendo a essa orientação de consciência na hora de atuar. E que ele, como cristão, se submete a essa orientação de consciência. Mas que vota orientado pela consciência, e não por uma filiação religiosa ou institucional específica. Então, nas protestantes históricas, não há essa presença ostensiva da instituição. A pentecostal, que traz consigo a teologia da prosperidade, que tem a presença do neoliberalismo, do conservadorismo institucional e moral, já tem essa coisa de práticas políticas fisiológicas e clientelistas. É um grupo heterogêneo, mas os parlamentares pentecostais têm uma posição mais orientada pelas instituições religiosas. O mandato não é do parlamentar; é pouco do partido, é mais da instituição.

Isso já é combinado com relação aos temas que eles vão defender? “Te ponho lá mas você me garante que o aborto não sai!”

No começo, a gente tem a impressão de que a igreja interfere totalmente em tudo. Mas o Edir Macedo, por exemplo, é um líder muito complexo. Alguns parlamentares me contaram que ele determinou que eles precisavam ter uma formação política. Então eles frequentam cursos de formação política na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alguns outros cursos são dirigidos para bispos e parlamentares da Igreja Universal. Eles disseram isso explicando que não iam totalmente despreparados. “A gente tem uma formação, antes de vir tenta entender e conhecer.” O grande paradoxo da Universal é que no período eleitoral há uma mistura entre religião e política que é clara, não é velada. Ela se dá dentro do templo, o templo vira palco, o púlpito vira palanque político e as discussões pragmáticas sobre as eleições acontecem no púlpito. Tem toda uma pedagogia eleitoral que acontece dentro do templo. E no Parlamento eles tentam separar o discurso político do discurso religioso. Na verdade, isso começou a ser exigido pela cúpula da Universal depois de aparecerem escândalos e irregularidades envolvendo parlamentares evangélicos. Na época, quem era o grande líder político era o Bispo Rodrigues, que era o braço-direito do Edir Macedo. Depois dos escândalos do caso Waldomiro e do mensalão [que o levou à condenação a seis anos e três meses de prisão por lavagem de dinheiro], ele renunciou em 2005, perdeu o título de bispo e retiraram todas as candidaturas dos parlamentares justamente para não arranhar a imagem da igreja. Dizem que o Edir Macedo tem o privilégio de não participar desses momentos.

O templo vira palco, o púlpito vira palanque político e as discussões pragmáticas sobre as eleições acontecem no púlpito.

Tem até um líder de outra igreja, o Robson Rodovalho, que é da Sara Nossa Terra, que se candidatou e se elegeu, que dizia que era muito difícil para ele como líder estar ali. Que para o Edir Macedo era muito mais fácil porque, se algum parlamentar fosse citado ou cometesse alguma irregularidade, ele simplesmente diria que não sabia de nada. No caso dele, a igreja correria o risco de se enfraquecer. O que me chamou atenção quando fiz as entrevistas foi que nenhum tinha mais o título de bispo. Com os outros, eu começava sem perguntar nada sobre a religião, e eles mesmos em algum momento entravam nessa parte da fé. Já os parlamentares da Universal não falavam de Deus, era um discurso totalmente parlamentar. Não mais progressista, mas eles queriam separar os processos. E, segundo um deles, o próprio Edir Macedo orienta os parlamentares a seguir as orientações do partido nas votações exatamente para que eles não tenham divergências e eventualmente percam as verbas públicas destinadas às emendas parlamentares.

Então qual é o grande interesse da Universal?

Quando as temáticas são institucionais, relacionadas a isenção fiscal, alvará de funcionamentos das igrejas, doações de terrenos, distribuição de concessão de rádios e TV, a transformação de eventos evangélicos em eventos culturais pra receber financiamento da Lei Rouanet, questões relacionadas à lei do silêncio. Aí eles atuam de forma articulada, como um bloco, convergem em nome desses interesses, como em relação a questões morais. Com algumas diferenças, mas muitas aproximações. Alguns cargos dos gabinetes têm que ficar à disposição da igreja, que indica quem vai ocupar. É uma igreja pragmática, tem muito mais interesses institucionais do que morais. Se for analisar do ponto de vista moral, é muito mais flexível e aberta do que igrejas como a Assembleia de Deus. Essa, sim, tem um discurso de natureza moral além do institucional, de manutenção da ordem. Quando há convergência nesses temas institucionais e morais, a bancada se articula. É importante salientar que poucas vezes você verifica a articulação desse bloco de forma totalmente coesa. Eles excluem a política nessa discussão de pauta dos parlamentares evangélicos para criar uma falsa aparência de unidade. Muitas vezes a imprensa anuncia a bancada evangélica como um ser único, e para a bancada é muito interessante aparecer assim como um corpo único, um bloco suprapartidário…

E dizer “a bancada” convenientemente não dá nomes, né?

Exatamente, uma entidade com um poder e as divisões não aparecem. Mas no discurso desses parlamentares que estão à frente e que normalmente são os das igrejas pentecostais apresentam a bancada dessa forma. “A bancada decidiu”.

Eles se reúnem?

A mídia faz parecer que sim, mas não. Porque eles estão filiados a partidos e a movimentação na Câmara se dá por partidos. Eles ficam muito indignados com a falta de poder que têm, porque têm poder na igreja, mas a divisão por partido privilegia o alto clero. Você tem alguns líderes partidários que definem as orientações e eles tem que seguir ou são punidos de alguma forma, principalmente não tendo as verbas públicas para realização das emendas parlamentares. “Estou aqui, mas não tenho muito poder de decisão, tenho sempre que obedecer ao partido, não tenho autonomia” eram reclamações constantes. Estou falando principalmente desse grupo pentecostal, que é o mais barulhento e que fala pela bancada, principalmente os assembleianos [da Assembleia de Deus]. Eles têm o Feliciano, o Cunha, o João Campos, que é o líder da Frente. Engraçado que na época em que eu fiz a pesquisa o Eduardo Cunha era superinexpressivo como integrante da bancada evangélica. Mas eles se reúnem muito pouco, às vezes no dia do culto, quarta de manhã, fazem o ritual religioso e têm 
alguma discussão sobre projetos de lei e discussão de pauta.

O interessante é a atuação dos assessores. Eles acompanham os projetos diariamente, em uma tentativa de mapeamento dos projetos em tramitação e seleção dos mais importantes, projetos “anticristãos”. Você também tem uma distribuição dos parlamentares pelas comissões que eles consideram mais importantes como a de Seguridade Social, de Direitos Humanos, de Constituição Justiça e Cidadania. Aí eles vão tentando barrar a tramitação dos projetos. Alguns mais ativos tentam conseguir posto de presidente ou relator. Você tem uma estratégia bem elaborada, mas não conta com uma participação tão ativa quanto parece. É uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade de poder, de coesão. Acho que também é uma estratégia de parecer maior do que é pelo grito. Que é o que acontece nas próprias igrejas. As igrejas têm esse discurso de guerra, de combate. O exército da Universal que deixou todo mundo perplexo, mas isso sempre aconteceu, é o discurso de todas as igrejas. A convocação nas igrejas tem todo esse ritual bélico mesmo. E o soldado é aquele que está ali para obedecer e para combater. A bancada usa isso também. Você valoriza o tamanho do adversário para convocar os integrantes. Mas eu ouvi muitos relatos de parlamentares que estavam acompanhando votações e que tinham poucos para impedir a continuação da votação. Aí o assessor ligava para a lista da FPE: “Esse é pró-vida, vou chamar”. Aí liga: “Deputado, vem aqui, pede vista”. Eles têm uma assessoria que conhece os procedimentos regimentais e que orienta os parlamentares que muitas vezes não sabem nem o que está acontecendo ali. Tem uma disponibilidade em participar quando convocados e uma entrega total de alguns pela causa.

É uma bancada barulhenta, intempestiva, aguerrida, beligerante, e esse barulho cria a impressão de volume, de quantidade de poder, de coesão.

Qual é a missão da bancada evangélica nesse sentido?

Ao meu ver, é de preservação, não de criação. Eles não querem criar projetos, querem manter tudo intacto. É uma atuação ideológica, se posicionar contra projetos inovadores, transformadores. Agora que houve algumas críticas, eles estão tentando elaborar projetos mais numa perspectiva de manutenção de uma ordem do que de transformação. É uma ação mais combativa, defender uma ordem social hegemônica. Os projetos que estão surgindo são pra fazer frente a projetos que estão em andamento, por exemplo, com relação a projetos do grupo LGBT. Criminalização da homofobia – criminalização da heterofobia. São projetos estapafúrdios. Aborto, drogas, criminalização da homofobia, casamento entre pessoas do mesmo sexo, são contra a discussão de gênero, a favor do ensino religioso, contra todos os projetos pedagógicos e educativos que combatem qualquer tipo de discriminação de gênero, sexual…

Você acha que é uma causa legítima? Eles acreditam mesmo nisso?

Antes do Eduardo Cunha, eles estavam caminhando para um discurso mais coerente com aquele espaço. No fim de 1980, os discursos condenavam o aborto e justificavam trazendo passagens bíblicas, dizendo que Deus não permite. Depois a bancada amadureceu um pouco nesse sentido, entendeu que não dava pra usar esse discurso porque não tinha coerência e começaram a argumentar de forma mais legislativa, aderir a um discurso que tinha mais ressonância naquele contexto. Toda moral é um sistema de controle. A sexualidade é um tema central na igreja com um discurso muito forte constante porque a sexualidade de alguma forma expressa liberdade. Então, você tem um sistema normativo de controle. É genuíno no sentido de que eles acreditam nessas coisas, mas virou, sim, um jogo de poder com os movimentos LGBT, por exemplo. O aborto é um tema controverso. Alguns acham que o aborto deveria ser crime hediondo, que é um assassinato. Mas outros, como os da Universal, acham que o aborto é uma possibilidade. É uma defesa genuína de posições morais que eles querem transferir para a realidade social. É legítimo que um grupo pense assim. O que não é legítimo é trazer esse discurso para a esfera pública de um Estado laico.

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domingo, 15 de novembro de 2015

EVANGÉLICOS JÁ NÃO IMPRESSIONAM TANTO QUANTO NO PASSADO

 
O artigo abaixo foi publicado pelo site da revista Cristianismo Hoje e foi escrito pelo pessoal da redação do mesmo.

Já não cresce tanto

Declínio nas estatísticas de avanço numérico do segmento evangélico sinaliza crise da Igreja.

Escrito por: Da Redação

Há coisa de cinco anos, evangélicos de todo o Brasil entraram em festa. Pela primeira vez, desde que o país foi achado pelos portugueses, a fé católica perderia sua hegemonia. Esta, pelo menos, era a previsão de pastores, líderes e pesquisadores diante dos números promissores sobre o avanço da Igreja Evangélica no país. “O Brasil é do Senhor”, frase bradada dos púlpitos e nos programas evangélicos na TV, sintetizava a virada de mesa que aconteceria em breve. Quem cresse e vivesse, veria – e a base para tanto ufanismo eram as estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, que a cada década realiza o Censo da população nacional. No levantamento do ano 2010, chegou-se à cifra de 42,3 milhões de crentes, ou 22,2% do povo brasileiro. O processo fora mais avassalador ainda nas comparações anteriores, que mostravam um avanço de seis vezes do segmento em duas décadas. Em seu estudo A dinâmica das filiações religiosas no Brasil entre 2000 e 2010, o pesquisador José Eustáquio Diniz, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, chegou a dizer que o Brasil poderia ser um país de maioria evangélica já por volta de 2030: “Apenas pelo efeito da inércia demográfica, haverá crescimento da população evangélica.”

Na mesma onda foram muitos pastores e institutos de pesquisa evangélicos. O Departamento de Pesquisas do ministério Servindo Pastores e Líderes (Sepal) divulgou uma estimativa, em 2011, segundo a qual os evangélicos representariam mais da metade da população brasileira já em 2020. “Eles serão aproximadamente 109,3 milhões, para uma população de 209,3 milhões,” previu o teólogo e pesquisador Luis André Bruneto. O entusiasmo era corroborado por grandes manifestações, como a Marcha para Jesus (que, em 2009, levou às ruas de São Paulo quase 2 milhões de pessoas), pela maciça presença midiática dos pastores e pela crescente influência evangélica em setores como a política partidária, entre outros. “O Instituto Superior de Estudos da Religião fez, na década de 90, uma extensa pesquisa sobre a abertura de templos. Eram cinco por semana, só no Rio de Janeiro”, observa o pastor presbiteriano André Mello, na época integrante da equipe do Iser.

Acontece que, se a matemática é uma ciência exata, a dinâmica demográfica, muitas vezes, caminha na direção oposta, e aí não há fé capaz de fechar a equação. Os números relativos à religiosidade do povo brasileiro do Censo 2010 só foram fechados e divulgados mais de dois anos depois, e o festejado crescimento dos evangélicos, que se acelerou de maneira sem paralelo no mundo contemporâneo entre os anos 1980 e 2000, caiu bastante. Os números ainda são ascendentes, mas tendem à estabilização – e até ao encolhimento, como especulam alguns pesquisadores –, o que contraria frontalmente as previsões mais ufanistas. “Entre 1991 e 2000, o aumento médio foi de 120%”, lembra o bispo emérito da Igreja Metodista Paulo Ayres Mattos. Dali em diante, o avanço caiu pela metade. “Isso não pode ser ignorado de forma alguma para quem trabalha com rigor e seriedade as mutações no campo religioso brasileiro”.  Doutor em Teologia e professor da Universidade Metodista de São Paulo, Ayres é estudioso do movimento pentecostal brasileiro e avalia que o fato mais importante dos dados religiosos do último Censo é a diminuição comparativa do crescimento evangélico.

DESCONCENTRAÇÃO

Há diversas razões para essa perda do ímpeto de crescimento, que pôde ser sentida no dia 4 de junho, quando apenas cerca de 200 mil pessoas, na avaliação da Polícia Militar, prestigiaram a mesma Marcha para Jesus nas ruas da capital paulista. “As pesquisas atuais falam em fechamento de templos e dissolução de associações evangélicas por divergências ou luta por poder”, acrescenta André Mello. Tal fragmentação das igrejas, e seu consequente enfraquecimento, é apenas um dos motivos do quadro atual. Ela se verifica tanto na igrejinha da esquina, da qual o pastor assistente saiu para abrir seu próprio empreendimento religioso, até grandes grupos, como a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Nadando de braçada na explosão evangélica dos anos oitenta e noventa (ver quadro), a denominação de Edir Macedo começou a sofrer a concorrência – é, o termo usado pelos estudiosos é este mesmo, que remete à ideia de disputa por mercado – de grupos saídos de suas entranhas, como a Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada e liderada por Valdemiro Santiago, ex-pastor da Universal e atual desafeto do antigo chefe. O estrago é um dos motivos do encolhimento da Iurd, de 2,1 milhões de fiéis, há quinze anos, para os cerca de 1,8 milhão encontrados em 2010. De maneira análoga, diversas denominações têm sofrido fraturas e cizânias que, no médio prazo, acabam dificultando as coisas tanto para a igreja que fica como para aquela que se forma.

“As pessoas, hoje, têm mais liberdade para escolher e combinar diversas opções em seu próprio cardápio religioso, como num balcão de comida a quilo”, continua Paulo Ayres. Para ele, o quadro sinaliza as transformações sociais que melhoraram a situação econômica de boa parte da população nos últimos anos, como as classes C e D. “Isso possibilitou às pessoas resolverem seus problemas mediante meios mais racionais, sem buscar o recurso de soluções milagrosas”. Além disso, o bispo metodista aponta outros fatores, como o aparecimento mais visível dos evangélicos sem igreja e o aumento percentual de pessoas sem religião, ateus e agnósticos no cenário nacional. De fato, o IBGE encontrou 9.218.000 brasileiros que se enquadram na difusa categoria “evangélica não determinada”, que inclui os chamados desigrejados – gente que, apesar da origem evangélica, em determinado momento da vida assumiram uma fé “não institucional”, para usar o termo moderninho. “Tudo isso confirma um dado já identificado anteriormente, trabalhado com bastante competência por sociólogos da religião como Paul Freston”, cita.

Autor de um artigo polêmico, publicado na revista Ultimato em 2011 e no qual questionava as previsões entusiasmadas que anunciavam a quebra da antiga hegemonia religiosa do catolicismo, Freston cunha uma expressão para se referir ao esvaziamento da ideia de pertencimento religioso, antes tão cara aos evangélicos que era comum se ver, nos bancos das igrejas, sucessivas gerações de crentes. “Vários fatores podem estar por trás dessa ‘desdenominacionalização’. São aspectos negativos – como o individualismo e a falta de compromisso – e outros positivos, como a melhora econômica e a consequente diminuição da necessidade de uma relação clientelista numa igreja com liderança forte”. Inglês naturalizado brasileiro e colaborador nos programas de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos, Freston, que atualmente leciona no Canadá, chama a atenção para os subgrupos do universo evangélico brasileiro, lembrando que o fenômeno os atinge em diferentes graus. “As análises se complicam com as mudanças internas do segmento. Segundo o Censo, 60% dos evangélicos são pentecostais; 18% são de missão (ou seja, integrantes de igrejas históricas ou tradicionais); e 22% estão entre os ‘evangélicos não determinados’.”

Ele considera que o espantoso o aumento desta última categoria atrapalha as comparações com os Censos anteriores. Quem seriam eles? “Será que são neopentecostais decepcionados com as suas igrejas, mas que ainda se consideram evangélicos? Ou pentecostais clássicos, de terceira ou quarta geração, em processo de ‘despentecostalização’? Ou crentes de igrejas históricas que perderam a sua identidade denominacional? Ou uma soma de tudo isso e muito mais? De qualquer forma, diminui a porcentagem do mundo evangélico que se diz pentecostal ou que declara adesão a uma denominação categorizada como tal”, descreve o professor. Por outro lado, o Censo anuncia mudanças demográficas no Brasil que não favorecem o movimento, como o acelerado envelhecimento da população e a redução da taxa de fecundidade. Numa coisa, porém, Freston é categórico: “Os dados desmentem claramente as previsões absurdas que circularam de que haveria uma maioria evangélica até 2020. Estas previsões fazem um grande desserviço à comunidade evangélica.”

O avanço da Igreja Evangélica brasileira, alavancado pela explosão pentecostal e neopentecostal de vinte anos atrás, estará perto de bater no teto? “No momento, parecem precoces e arriscadas quaisquer conjecturas desse tipo”, comenta Ricardo Mariano, doutor em Sociologia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Em seu trabalho Mudanças no campo religioso brasileiro no Censo 2010, ele menciona que os sem religião, demograficamente insignificantes até 1970, já chegam a 15,3 milhões de brasileiros. “Eles quintuplicaram de tamanho entre 1980 e 2010, formando o terceiro maior ‘grupo religioso’ do país”, diz no estudo. Ao mesmo tempo, a expansão dos pentecostais na última década pesquisada, de 44%, não chega nem à metade das médias de crescimento obtidas nos dois decênios anteriores, como em 1991 (aumento de 111%) e em 2000, da ordem de 115,4%. O que parece certo, ainda conforme Mariano, é a perda de musculatura de grandes igrejas. “Em 2000, cinco denominações concentravam 85% dos pentecostais. Uma década depois, essa cifra declinou para 75,4%. Tal desconcentração denominacional é decorrente tanto da queda numérica de igrejas como Congregação Cristã no Brasil e Universal quanto do aumento da diversificação institucional do pentecostalismo.”

“QUANTO MAIS CRESCE, MENOS CRESCE”

No caso da Assembleia de Deus, a desaceleração é evidente. Embora fragmentada em diversas convenções e usada até como nome de fantasia para empreendimentos religiosos individuais, as Assembleias de Deus constituem a maior confissão religiosa do país depois do catolicismo – nada menos que 12,3 milhões de brasileiros disseram aos pesquisadores do IBGE que pertencem a uma igreja com essa placa na entrada. “Elas cresceram 245% na década de 1990 a 2000, mas avançaram ‘apenas’ 46% depois disso”, frisa Gedeon Freire de Alencar, membro da Rede Latinoamericana de Estudos do Pentecostalismo (Relep). Em sua tese de doutorado em Ciências da Religião, ele usou como objeto de estudo a denominação fundada há pouco mais de cem anos por missionários suecos. “Uma constatação óbvia se apresenta aos estudiosos: a de que, quanto mais cresce, menos cresce”, prossegue Alencar.

Luis Bruneto, diretor de Pesquisas do Projeto Brasil 21 da Sepal, admite que a previsão de alguns anos, feita ainda com base nos dados do período entre 1991 e 2000, continha erros e precisa de uma releitura. “O crescimento anual dos evangélicos mostrou-se aquém do previsto. O aumento perdeu força”. Segundo ele, o avanço do secularismo na sociedade brasileira, o utilitarismo do discurso evangélico, os escândalos envolvendo pastores e líderes e a falta de higidez teológica e doutrinária ajudam a explicar o atual momento histórico. “Durante anos, a liderança evangélica nacional tem afirmado, categoricamente, que o país experimenta um avivamento espiritual, dados os números tão expressivos. Mas, será mesmo?”, indaga. Bruneto invoca a falta de influência bíblica e profética da Igreja em diversas áreas da vida brasileira, como a política, a segurança pública, o desenvolvimento social e a ética, para exemplificar o paradoxo.

De menos de um por cento da população no início do século passado (ver quadro), o grupo religioso que mais cresceu na história do Brasil está representado em todas as mais de 5,6 mil cidades do país e ainda apresenta índices de expansão bem maiores do que os da população em geral. Mas as oscilações em seu crescimento precisam, ao menos, ser interpretadas como sinal de alerta. “Resta saber o que isso tem representado, na prática, em termos de transformação pessoal e coletiva”, insiste Bruneto. Para Paul Freston, em um futuro próximo, esse enfoque será cada vez mais necessário. “Se não recuperarmos a capacidade de interagir com o texto bíblico, de deixá-lo falar a nós e, a partir disso, tirar as implicações individuais, eclesiásticas e nacionais necessárias, nos mostraremos irrelevantes”, alerta. “A Igreja Evangélica brasileira de 2030 ou 2040 precisará de líderes mais diversos nos seus dons, profundos no seu conhecimento e sabedoria e transparentes nas suas vidas”. Quanto aos fiéis, a recomendação é simples, mas não necessariamente fácil de cumprir: “Precisamos redescobrir o verdadeiro sentido de ser evangélico, que é a vontade de sermos profundamente bíblicos em toda a nossa existência.”

“IMAGEM DESOLADORA”

Pesquisa realizada em junho pelo instituto Gallup mostrou que a maior nação evangélica do mundo já não é mais a mesma. Hoje, os americanos têm menos confiança na religião organizada do que nunca antes, e isso é sinal inquietante de que a Igreja pode deixar de ser um pilar da liderança moral na cultura dos Estados Unidos. Nos anos 1980, a Igreja e a religião organizada compunham a instituição que gozava de maior confiança na América. Agora, no geral, são os militares, as empresas de pequeno porte e a polícia que atraem mais credibilidade do cidadão americano. A Igreja desceu para a quarta posição. “Quase todas as organizações estão em baixa nesse quesito, mas a imagem formada da religião é particularmente desoladora”, avalia a autora do relatório do Gallup, Lydia Saad.

O dado de maior influência no resultado, segundo a pesquisadora, é a crescente quantidade de americanos que se desligam do que se chama de organização religiosa. Outra pesquisa, esta do Instituto Pew, especializado em levantamentos de natureza religiosa, apontou que 23% dos americanos não se identificam com nenhuma religião. Há, também, um declínio crescente de credibilidade nas igrejas Católica e Protestante. O descrédito em ambas cresceu, em pouco mais de trinta anos, na ordem de 50%. Escândalos sexuais e financeiros envolvendo pastores famosos, assim como a denúncia de casos de pedofilia entre o clero católico, colaboraram para essa rejeição. 

O PERIGO DA IRRELEVÂNCIA: ENTREVISTA COM PAUL FRESTON

Doutor em Sociologia e professor catedrático de Religião e Política na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, no Canadá, Paul Freston é um dos mais respeitados estudiosos do movimento evangélico brasileiro. Ele conversou com CRISTIANISMO HOJE.

CRISTIANISMO HOJE - O senhor já provocou polêmica ao contrariar previsões mais otimistas de que o Brasil teria maioria evangélica em sua população. Hoje, ainda pensa assim?

PAUL FRESTON – Não mudei de previsão. Continuo achando que, dentro de duas a três décadas, o crescimento do segmento evangélico irá, basicamente, parar.

CRISTIANISMO HOJE - Uma de suas preocupações é em relação ao que chama de irrelevância da Igreja devido à ausência de implicações individuais, eclesiásticas e nacionais do texto bíblico. Já chegamos a este ponto?

PAUL FRESTON – Não, mas estamos a caminho. Se não houver essa capacidade até o momento do fim do crescimento, aí sim, seremos irrelevantes. O crescimento numérico que ainda se observa nos dá uma relevância, por assim dizer, inercial. Mas depois, precisaremos mostrá-la de outras formas.
CRISTIANISMO HOJE - Qual o perfil eclesiástico que terá, então, maior sucesso?

PAUL FRESTON – Acredito que as igrejas que tiverem maior solidez teológica e oferecerem ensino mais aprofundado da Palavra de Deus, além de visões atraentes de discipulado, terão mais espaço. Igrejas que não estiverem preocupadas apenas com sucesso numérico, mas que adotarem perfis mais variados dentro da sua liderança, tanto clerical como leiga. Quanto a quais denominações se adequarão a esse perfil, isso vai depender da situação de cada igreja até lá.

MAIORIA FEMININA E MAIS IDOSA

A frequência a cultos religiosos no Brasil é maior para mulheres (57%) do que para homens (43%). Em relação à faixa etária, 58% dos frequentadores habituais têm mais de 50 anos
(Fonte: Novo Panorama das Religiões, estudo da Fundação Getúlio Vargas)

O avassalador crescimento dos evangélicos verificado a partir de 1980 é demonstrado na comparação com a série histórica. Desde o primeiro estudo que os contabilizou, um ano após a instauração da República, os números da população evangélica brasileira são estes:

1890 – 143.000

1940 – 1.075.000

1950 – 1.740.000

1960 – 2.825.000

1970 – 4.800.000

1980 – 7.900.000

1991 – 13.200.000

2000 – 26.200.000

2010 – 42.275.000

Fonte: IBGE

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sexta-feira, 28 de agosto de 2015

COMO A IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS DESEJA CONTROLAR A PRÁTICA ESPORTIVA NO BRASIL

Ministro dos Esportes vinculado ao PRB que é controlado pela IURD

O artigo abaixo foi publicado pelo site Gnotícias e é de autoria de Johnny Bernardo

A IURD e o Esporte como estratégia de crescimento

Por Johnny Bernardo

Com pouco mais de 2 milhões de membros – oito milhões, segundo a IURD – a Igreja Universal do Reino de Deus elegeu o esporte como uma de suas várias estratégias de crescimento. Articulada pela Força Jovem Universal, a iniciativa ganhou contornos federais com a indicação de George Hinton (PRB-MG) como o novo ministro do Esporte, no lugar de Aldo Rebelo (PCB-SP). Além do governo federal, o PRB assume quatro secretarias de esporte: São Paulo, com Jean Madeira; Minas Gerais, com Carlos Henrique; Ceará, com David Durand; e Distrito Federal, com Leila Barros. Além de Brasília e Estados o PRB ampliou sua presença em diversos municípios a pouco menos de um ano para os Jogos Olímpicos Rio 2016.

Existente desde a fundação da IURD, em 1977, mas com crescimento expressivo apenas na última década, a Força Jovem Universal (FJU) é uma das apostas do crescimento da Igreja em um seguimento pouco explorado pela Igreja Católica. Grande parte do quadro eclesiástico da IURD advém de jovens alcançados e formados pela FJU – o que inclui ex-detentos. Edir Macedo foi sagaz ao perceber a baixa presença de jovens em seminários católicos e a sua capacidade de produção, quando direcionada. De fato, os jovens constituem hoje uma das maiores forças da IURD e com tendência de crescimento. A guinada Universal se dá em um momento de efervescência juvenil, com as Jornadas de Junho, os movimentos de inclusão da juventude brasileira. Uma estratégia!

Atuando em cinco frentes, a FJU diz ter “beneficiado mais de dois milhões de jovens em todo o país”. Além dos projetos Arcanjo, VPR (Visão, Planejamento e Realização), Uniforça e o Força Jovem Universitários (FJUni), a FJU possui o projeto Esportes. Segundo a organização, “quem faz parte do grupo Força Jovem Universal tem a oportunidade de praticar diversas atividades esportivas”. As atividades incluem exercícios físicos, futebol, basquete, vôlei, boxe, judô entre outras modalidades esportivas. Nas eleições 2014, a Igreja Universal – por meio de seu braço político, o PRB – promoveu uma expressiva articulação com a finalidade de uma possível participação no ministério e secretarias do esporte, respectivamente. O objetivo é colar a imagem da Igreja Universal nos Jogos Olímpicos e expandir sua presença entre os jovens, em uma tentativa de consolidação internacional.

"As opiniões ditas pelos colunistas são de inteira e única responsabilidade dos mesmos, as mesmas não representam a opinião do Gospel+ e demais colaboradores."

Por Johnny Bernardo
Johnny Bernardo é jornalista, pesquisador da religiosidade brasileira e das relações entre religião e sociedade, autor de dois livros (dentre os quais a Enciclopédia Temática de Religião), colunista do Gnotícias e do Núcleo Apologético de Pesquisas e Ensino Cristão (NAPEC), e está em fase de conclusão do licenciamento em Ciências Sociais pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).

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quinta-feira, 23 de abril de 2015

MINISTÉRIO PÚBLICO CONSEGUE SUSPENDER LEI QUE OBRIGAVA ESCOLAS A EXIBIREM 3 EXEMPLARES DA BÍBLIA NAS ESCOLAS DE FLORIANÓPOLIS.


 

O pedido feito pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade — ADIN — foi aceita pelo desembargador Lédio Rosas Andrade em Florianópolis.

A controvertida lei municipal que obrigava todas as escolas da cidade de Florianópolis a exibirem, em posição de destaque três exemplares da Bíblia Sagrada foi suspensa pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina.

O povo evangélico, que não é muito adepto de ler e menos ainda de obedecer o que está escrito nas Bíblia, deseja de modo hipócrita impor a mesma ao resto da sociedade brasileira que entende que não devemos misturar Estado com religião.

A famigerada lei entrou em vigor no dia 17 de Março, depois que a Câmara dos Vereadores derrubou o veto do prefeito da cidade contra a mesma.

Em sua sentença, o desembargador disse: A constituição garante a liberdade religiosa e isso proíbe a imposição de qualquer culto, rito, livro, símbolo ou prática religiosa específica em detrimento de outras.

Duas ações continuam pendentes. O julgamento definitivo do mérito da questão e qual caminho a Câmara de Vereadores irá seguir.

A lei foi proposta pelo vereador Jerônimo Alves do partido PRB – notoriamente controlado e a serviço dos interesses da Igreja Universal do Reino de Deus. O vereador, inclusive é bispo ordenado da denominação e deseja que todas as escolas de Florianópolis disponibilizem três exemplares da Bíblia — sendo uma bíblia impressa, uma Bíblia em braile e outra Bíblia em áudio. A primeira aprovação da lei aconteceu em novembro de 2014, mas foi vetada pelo prefeito sob a alegação —  correta em nossa opinião — de que a mesma violava a liberdade religiosa preconizada na constituição.

OUTROS ARTIGOS ACERCA DE BISPO MACEDO E DA IURD

















































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