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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

ISRAEL: VENTOS DE MUDANÇAS?


Herzog
Yitzhak Herzog propõe congelar os assentamentos na Cisjordânia, portador da solução dos dois Estados

O artigo abaixo foi publicado pela revista Carta Capital e é de autoria de Giani Carta.

Israel: Yitzhak Herzog desafia Netanyahu

A um mês das eleições legislativas, ganha força a liderança trabalhista de Herzog, a ameaçar o irredutível belicista Benjamin Netanyahu. Por Gianni Carta

De Paris

Há seis anos no poder, o premier direitista Benjamin Netanyahu busca seu quarto mandato nas legislativas antecipadas de 17 de março contra o rival de centro-esquerda Yitzhak Herzog. O resultado do pleito dependerá de qual será o tema-mor para os eleitores: a economia, ou segurança? Uma vitória de Netanyahu, 65 anos, significará a supremacia da “segurança”, defendida por uma coalizão de legendas direitistas e de ultraortodoxos. Caso Herzog, líder da oposição e secretário-geral do Partido Trabalhista, seja o novo premier, o quadro será outro: os israelenses terão dado prioridade à economia, sem descuidar da segurança, área que nenhum líder deixaria de garantir ao povo.

Herzog, 54 anos, tem boas relações com o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas. O líder trabalhista propõe o congelamento de assentamentos na Cisjordânia. Acredita na chamada solução de dois Estados, duas áreas que Netanyahu deixou a desejar. Portanto, os árabes israelenses, cerca de 20% da população israelense de 8 milhões de habitantes no território de Israel, e representados por um bloco esquerdista no Knesset (Congresso), apoiariam Herzog. A aliança de Herzog aglutinaria esquerdistas, centristas, ecologistas.

Como de hábito, pesquisas de intenções de voto oscilam. Em dezembro de 2014, quando as eleições antecipadas foram anunciadas pelo fato de Netanyahu, mais conhecido como Bibi, ter demitido dois ministros de seu gabinete, Herzog parecia ter consideráveis chances. Dois foram os motivos a levar Netanyahu a demitir o ministro de Finanças, Yair Lapid, líder de 50 anos da centrista Yesh Atid, e a ministra da Justiça, Tzipi Livni, da agremiação Hatnuah, favorável à solução de dois Estados. Primeiro, a amortização de impostos para aqueles a comprar a primeira moradia. Segundo, o reconhecimento de Israel como Estado Judeu. A segunda legislação, mais grave no canto do mundo a gerar ódios entre civilizacões, chocou vários observadores. Mokhtar ben Barka, professor de História e Civilização Americana da Universidade de Valenciennes, diz a CartaCapital: “Segundo essa lógica, o cidadão árabe israelense se torna de segunda classe. Essa é uma equação irrefutável e implacável. Árabes israelenses são de fato excluídos”.

O falcão Netanyahu estava em baixa no fim de 2014. De acordo com uma pesquisa realizada por dois diários conservadores associados, The Jerusalem Post e Ma’ariv, 60% dos respondentes não queriam mais ver Bibi no cargo. Para os mesmos, a economia era o tema principal. O segundo tema era a segurança. No entanto, no início de fevereiro os israelenses mudaram de opinião.  De acordo com o diário esquerdista Haaretz, a agremiação de Netanyahu, o Likud, está, por alguns pontos, na dianteira do Partido Trabalhista, este há dez anos na oposição. A razão? No artigo intitulado “Acorde, Herzog!”, Nehemia Shtrasler, editorialista do Haaretz, preocupa-se com o fato de Herzog dar mais importância à economia do que à segurança. Diz Shtrasler: “A vida precede a qualidade de vida”. E acrescenta: “Quem vai proteger nossas crianças?” Claramente, o editorialista quer influenciar Herzog a mudar de rumo, visto que é visível o desgosto dela pelas empreitadas de Bibi.

Shtrasler escreve: “Todo israelense sabe que nossas vidas dependem da nossa relação com nosso melhor amigo”. Netanyahu não soube lidar com Obama. E isso às vésperas de o presidente americano selar um acordo nuclear com o Irã. Além disso, Obama não quer impor novas sanções econômicas contra os iranianos. Os fatos são preocupantes para os israelenses. No entanto, por essas e outras, Netanyahu deveria entrar em sintonia com Obama, pelo interesse de Israel. Bibi não deveria, como fez, tentar dissuadir Obama de lidar com o Irã. A situação entre os dois estadistas, que Ben Barka diz se “odiarem”, deteriorou-se.

De passagem pelo Oriente Médio, Obama preferiu não se encontrar com o premier israelense às vésperas de eleições. Compreensível. Um presidente não pode intervir em campanhas políticas. Por sua vez, Bibi aceitou o convite do presidente da Câmara dos Representantes, o republicano John Boehner, para exprimir suas percepções sobre o Irã e grupos dissidentes islamitas no Congresso estadunidense, em 3 de março. Para a oposição americana, a incluir judeu-americanos, a posição de Netanyahu também foi interpretada como a de um estadista com intenções de esnobar Obama.

James Baker, o ex-secretário de Estado americano, avaliou, em entrevista à rede de TV CBS, que a decisão de Netanyahu de se dirigir aos deputados americanos às vésperas do pleito em Israel como “um erro”. Ademais, Obama, como todo presidente americano, tem laços bíblicos com Israel. Disse Ben Barka: “Remontam ao século XVII, com a chegada dos primeiros puritanos. Tratava-se de cristãos, perseguidos na Inglaterra, após o nascimento da Igreja Anglicana. Assim, esses cristãos ao fugirem da Inglaterra, comparavam-se aos hebreus do Êxodo. Por isso os EUA são chamados de “a nação escolhida”. Assim, os puritanos ingleses estabeleceram paralelos entre eles e os hebreus, que, em busca da Terra Prometida, atravessaram o Deserto do Sinai quando expulsos do Egito. E é importante expressar a importância do lobby judeu (Aipac) na eleição de qualquer presidente americano. Por que Obama faria um acordo com o Irã sem proteger Israel?

A questão da segurança voltou à tona. Em 28 de janeiro, o Hezbollah, legenda xiita libanesa com braço armado apoiado pelo Irã, matou dois soldados israelenses, no sul do Líbano. Uma retaliação esperada. Dez dias antes, um ataque aéreo israelense em território sírio havia tirado a vida de seis militantes do Hezbollah, e mais um general da Guarda Revolucionária Iraniana. A questão é grave, mas o Hezbollah avisou que não quer mais entreveros, pois tem de se ocupar da Síria. Bibi, por sua vez, tem um pleito dentro de pouco mais de um mês. Ao que parece, Obama quer alterar táticas no Oriente Médio. Netanyahu, ou qualquer outro a substituí-lo, deveria atuar em sintonia com a aliada Washington. Herzog já disse alto e claro que o fará.
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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

ISRAEL A CAMINHO DA AUTODESTRUIÇÃO


 Benjamin Netanyahu
Benjamin Netanyahu durante entrevista coletiva em 1º de dezembro: ele faz mais um aceno para os extremistas. Baz Ratner / AFP

ISRAEL A CAMINHO DA AUTODESTRUIÇÃO

As recentes decisões adotadas pelo liderança de direita e de extrema direita em Israel não devem surpreender a ninguém. Elas são parte de um gigantesco arsenal que os nazistas instalados no poder daquele PIS têm dentro de muitas gavetas, esperando apenas a hora e a motivação certa para serem implementadas. Essas últimas às quais nos referimos foram colocadas em prática logo depois do lamentável assassinato de alguns israelenses em uma sinagoga por um Palestino.

Para entender melhor o que tais mudanças significam estamos publicando abaixo o artigo escrito pelo jornalista Antônio Luis M. C. da Costa para a Revista Carta Capital.

Israel, rumo ao apartheid

Para agradar à ultradireita, projeto do governo coloca o judaísmo de Estado acima da democracia e dos direitos humanos
por Antonio Luiz M. C. Costa

Dizer que Israel é um “Estado Judeu” pode soar trivial, mas não é. A expressão consta da Declaração de Independência, mas sem uma definição clara. O conceito de “judeu” é problemático e seus primeiros líderes se queriam modernos e laicos, mesmo se não se importavam se isso soava às minorias tão ofensivo quanto seria os Estados Unidos se proclamarem “Estado Anglo-Saxão Protestante” ou o Brasil “Estado Eurodescendente Católico”.

Na prática, isso não impediu Tel-Aviv de tratar como cidadãos de segunda classe os não judeus, principalmente os árabes que não conseguiu expulsar em 1948. Os cidadãos são oficialmente classificados por “le’om”, “etnia”: “judeu” para os cidadãos de primeira classe, “russo”, “francês” e assim por diante para filhos de judeus laicos casados com não judias e não convertidos por rabinos ortodoxos, “árabe”, “druso” ou “beduíno” para os nativos, um quarto da população. Esse item deixou de ser exigido nas carteiras de identidade em 2005, mas permanece no registro civil e, para deixar clara a distinção, só os judeus têm na carteira a data de nascimento pelo calendário judaico. Não há casamento civil, o que torna impossível o casamento misto se um dos noivos não se converter. Vários direitos sociais exigem o cumprimento do serviço militar, permitido aos “drusos”, mas não aos “árabes” israelenses. Vale notar ainda a invenção em 2014 da etnia “arameu” para cristãos que não querem ser identificados como árabes e se dispõem a servir no Exército para desfrutar de mais direitos.

A Organização para a Libertação da Palestina reconheceu Israel em 1993, porém desde 2006 Tel-Aviv faz de seu não reconhecimento como “Estado Judeu” um novo pretexto para não avançar nas negociações de paz. O significado disso não era claro, mas a Palestina resistiu por entender que aceitar a exigência implicava a renúncia incondicional ao direito dos seus compatriotas expulsos em 1948 de retornar ou serem adequadamente indenizados.

Agora, Benjamin Netanyahu aprovou e submeterá ao Parlamento uma proposta explícita de proclamar um “Estado Judeu”. Foi rejeitada por 6 dos 20 ministros, inclusive a titular da Justiça, Tzipi Livni, e o da Fazenda, Yair Lapid, líderes dos respectivos partidos, e criticada pelo presidente Reuven Rivlin, do mesmo partido Likud do primeiro-ministro. Este, mesmo assim, exige o reconhecimento do país nesses termos como base para negociar a paz. Para ele, trata-se de galvanizar a direita radical em torno de seu projeto e convocar novas eleições que lhe permitam dispensar os centristas.

Segundo as três propostas da bancada governista a serem unificadas por Netanyahu, “o direito à autodeterminação no Estado de Israel pertence apenas ao povo judeu” e o país é definido como “fundado de acordo com a visão dos profetas de Israel”. O Estado deve impor o ensino da história, cultura e costumes judeus nas escolas judias, estabelecer o Sabbath como dia de repouso, fortalecer os laços com a Diáspora judia e “proteger e resgatar” judeus em perigo por todo o mundo. Deve ainda “manter os direitos individuais de todos os cidadãos de acordo com a lei”, mas o país não tem uma Constituição para garantir a igualdade dos direitos individuais, muito menos dos coletivos. A proposta autoriza os não judeus a preservar sua religião e cultura em caráter pessoal, embora sem nenhum apoio oficial.

Duas das propostas acrescentam que “a lei judia deve guiar os legisladores e juízes”, uma contrapartida exata da exigência dos movimentos fundamentalistas islâmicos de impor a sharia como lei civil em seus países. Uma delas abole explicitamente o uso oficial do árabe e explicita que o Estado pode criar cidades e bairros reservados a judeus.

O objetivo explícito da lei é enquadrar o Judiciário, que tem dado prioridade aos direitos humanos ao obrigar o Estado a respeitar a unificação de famílias e dar cidadania a palestinos casados com árabes israelenses, recentemente exigiu o fim do campo de concentração para imigrantes africanos sem documentos, ordem desacatada pelo Executivo, e cobrou do governo que providencie sinalização bilíngue em cidades de população mista e ajude a manter instituições muçulmanas. Menos explicitamente, está na mira da lei a possibilidade de cassar a cidadania de não judeus acusados de “deslealdade” (por protestar, por exemplo) e banir os partidos árabes e seus deputados. Paralelamente, foi apresentado um projeto que permite cassar os mandatos daqueles que apoiarem a “resistência armada”.

O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, criticou: “Israel é um Estado judeu e democrático e todos os seus cidadãos devem gozar direitos iguais. Esperamos que Israel se apegue a seus princípios democráticos”. Ze’ev Elkin, deputado do Likud, líder da bancada governista e autor da versão mais radical do projeto, bravateou: “Podemos manter as fundações da democracia mesmo sem ajuda do parceiro do outro lado do oceano”. O ministro da Economia, Naftali Bennett, do partido Lar Judeu, respondeu nos mesmos termos: “Digo aos americanos que nós mesmos administramos os assuntos do Estado de Israel”. Segundo ele, os direitos individuais foram, até agora, indevidamente sobrepostos ao caráter judeu do Estado.

Eufemismos à parte, anuncia-se o fim de Israel como Estado democrático e humanista e sua transformação em Estado confessional, racial ou ambos. Não é novidade na região, nem implica a perda do apoio de Washington, haja vista a Arábia Saudita, mas fortalece as campanhas de boicote e desinvestimento no Ocidente, bem como o fundamentalismo islâmico. Ante um Estado Judeu explícito, fica mais difícil argumentar contra o Estado Islâmico.

O artigo original da Carta Capital poderá ser visto por meio desse link aqui:


À TEMPO

Diante da oposição recebido ao projeto o primeiro Ministro Netanyahu demitiu do seu gabinete os conservadores Yair Lapid and Tzipi Livni. Netanyahu também está convocando eleições gerais na tentativa de formar um novo governo que apoie as decisçoes racistas recentemente adotadas. De acordo com Tzipi Livni as eleições deverão indicar se o Israel será apenas um país sionista, ou seja, racista ou se será um estado extremista. Os leitores poderão ler essa notícia completa por meio desse link aqui:


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Que Deus tenha muita misericórdia de todos naquele pequeno país.

Alexandros Meimaridis.

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sábado, 13 de setembro de 2014

ISRAEL PODE SER CHAMADO DE ESTADO JUDEU?

gaza

O artigo abaixo foi escrito por Max Altman e publicado no site VIOMUNDO via o Blog de Altamiro Borges.

Max Altman: Israel não é — e não pode ser o “Estado Judeu”

por Max Altman, no blog do Altamiro Borges

Faz tempo que as forças da direita e extrema-direita em Israel, hoje amplamente majoritárias, e as entidades do ‘establishment’ judaicos em todo o mundo, tentam criar a matriz de opinião de que o antissionismo é a outra ou a nova face do antissemitismo.

Este argumento, produzido com o objetivo de criar a ilusão da verdade, é inconsistente, incorreto e deliberadamente enganoso.

A estratégia é clara e serve aos interesses ideológicos dos sucessivos governos de direita de Israel: qualquer crítica a esses governos, a sua política belicista e expansionista ou aos objetivos históricos do sionismo leva os críticos a receber a pecha de antissemitas, e se forem judeus, ainda a de traidores e de vergonha de serem judeus.

A identificação de antissionismo com antissemitismo é levantada como escudo moral, esperto e cínico.
É que antissemitismo carrega uma conotação milenar de discriminação, perseguição, humilhação, condenação, extermínio de um povo pelos detentores de poder nos vários momentos da História: Inquisição, “pogroms”, Holocausto …

Vasta parcela da humanidade defensora das liberdades, dos direitos humanos, da justiça social, da convivência e fraternidade entre os povos, da paz, em especial a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, e diante dos horrores do nazi-fascismo, passaram a ver a discriminação contra os judeus como a mais abjeta das discriminações raciais.

Qualquer manifestação antissemita é imediatamente condenada e seus responsáveis execrados.

Foi no cenário de pós-Segunda Guerra Mundial que as Nações Unidas aprovaram a Partilha da Palestina.
Judeus progressistas não sionistas e de esquerda em todo mundo — e pode-se afirmar que na altura tinham importante peso numérico – saudaram o novo Estado. Afinal, a União Soviética saia da hecatombe mundial com enorme prestígio.

O Exército Vermelho, principal responsável pela derrota de Hitler, salvara a humanidade da sanha do nazi-fascismo. E na sua ofensiva ao coração da Alemanha nazista abriu as portas do sinistro campo de extermínio de Auschwitz.

Isto calou fundo na alma de grande parte do povo judeu. O episódio da libertação de Auschwitz pelas tropas soviéticas marca nos dias de hoje a lembrança anual do Holocausto.

Na decisão da Partilha da Palestina a URSS logo se mostrou favorável ao anseio dos judeus sionistas de se estabelecer nas terras ancestrais. A ideia de uma região autônoma judaica já tinha se tornado realidade na criação – algo esdrúxula — pelo governo soviético em 1934 de Birobidjan na longínqua fronteira com a China, mas o projeto não foi adiante.

Os Estados Unidos a princípio se mostraram reticentes e a Grã Bretanha, por seus interesses na região, resistiu o quanto pode.

Os judeus progressistas não sionistas saudaram a proclamação da independência de Israel.

No conflito bélico que se seguiu, armas provenientes da Tchecoslováquia, país-membro do bloco socialista, serviram para consolidar o Estado.

Mas criticaram duramente a expulsão e a pilhagem dos habitantes que há séculos viviam naquelas terras, bem como os massacres praticados por organizações terroristas judaicas como o Irgun e o Stern contra a população palestina.

Centenas de milhares de judeus de todo o mundo emigraram para Israel. Muitos dos sobreviventes da “solução final” simplesmente queriam iniciar uma nova vida no país que se formava.

A maioria acreditou na consigna de Theodor Herzl “dar a um povo sem terra a uma terra sem povo”, essência do sionismo. Historicamente falso, porque aqueles territórios eram ocupados por uma população autóctone palestina que convivia com uma população judaica, então minoritária.

Os fundadores da nação israelense eram militantes sionistas na Europa nas primeiras décadas do século 20, bastante influenciados pelos ideais do socialismo e da social-democracia. E isto se refletiu no modelo de país que acabaram formando.

Os dois pilares desta construção – e a marca daqueles primeiros tempos – foram, na cidade, o Histadruth, a poderosa federação de trabalhadores, no campo, os ‘kibutzim’, fazendas coletivas de forte inspiração socialista (hoje reduzidos a uma expressão desprezível).

Constituiu-se como um Estado laico, embora com pesadas concessões ao segmento religioso conservador especialmente no que dizia respeito aos direitos civis.

Um expressivo contingente populacional árabe permaneceu no território no novo Estado. Partidos trabalhistas de centro-esquerda e esquerda sionista dominavam o Knesset (parlamento) e o partido da esquerda não sionista que reunia judeus e árabes tinha importante presença na cena política. A convivência com os palestinos e os países árabes vizinhos era tolerável.

As coisas começaram a mudar quando Israel resolveu estabelecer no começo dos anos 1950 com os Estados Unidos uma íntima relação geo-estratégica.

A situação foi se tornando complexa e se sucedem guerras – nacionalização do Canal de Suez, Guerra dos Seis Dias, Guerra do Yom Kipur, ocupação, atentados terroristas com homens bombas, massacres – Munique, Sabra e Chatila, Intifadas, retaliações sangrentas de lado a lado, o ódio se alastrando e o fosso da discórdia se abrindo.

Houve momentos em que as negociações de paz poderiam chegar a bom termo – Acordo de Camp David, Acordos de Oslo. O assassinato de Yitzhak Rabin por um fundamentalista de extrema-direita pôs tudo a perder.

Outro fenômeno foi uma radical mudança na composição demográfica. O denso fluxo imigratório dos judeus da ex-União Soviética e dos países árabes, além do crescimento da população religiosa judaica ultraconservadora nos anos 1980 fez com que a base eleitoral se inclinasse hegemonicamente para a direita elegendo, daí por diante e por grande maioria, partidos de direita e extrema-direita que hoje governam Israel.

O sionismo dessa gente comandada por Netanyahu e Lieberman, pelas mãos de seus cães de guerra, está cometendo crimes de guerra, ultrajando moralmente os valores seculares do judaísmo.

O repetido massacre de crianças, recolhidas em abrigos das Nações Unidas, constitui uma grave e imperdoável violação das leis humanitárias universais.

Seria capaz algum ser humano sensível e justo defender essa selvageria, a punição coletiva de um povo? O ser humano, seja ele judeu ou não, que abomina o horror dos bombardeios a que se assiste em Gaza pode ser acoimado de antissemita?

Podem ser chamadas de antissemitas as pessoas que se opõem à política sionista de extensão dos assentamentos na Cisjordânia, anexando aos poucos o que chamam de Judeia e Samária, ou seja, o “Grande Israel”, expulsando os palestinos para fora dessas fronteiras?

Circula nas redes sociais manifesto de entidades progressistas judaicas de longa tradição da Argentina, do Brasil e do Uruguai.

Condenam a direita israelense e o Hamas como cúmplices da destruição de qualquer avanço nas negociações em direção a uma paz justa e duradoura.

E propõe:

1. Um imediato, incondicional e permanente cessar-fogo entre Israel e a Faixa de Gaza, com a retirada das tropas israelenses. Que o cessar-fogo seja supervisionado pelos capacetes azuis da ONU;

2. Desocupação dos territórios palestinos, estabelecendo-se novas fronteiras com base nas linhas existentes antes da guerra de junho de 1967 e respeitando-se a resolução número 242, da ONU, aprovada em 22 de novembro de 1967;

3. A implementação da fórmula dois povos para dois estados, com reconhecimento mútuo e garantias para a segurança de ambos. Que o estado palestino tenha direito a manter todas as instituições definidoras de um estado moderno;

4. O combate a todas as manifestações de antissemitismo originadas no conflito entre os dois povos. Repudiamos energicamente as tentativas de criminalizar todo o povo judeu por conta de atitudes dos governos israelenses. Podem essas entidades que tradicionalmente se opuseram e se opõem ao sionismo também ser tachadas de antissemitas?

Israel não é — e não pode ser o ‘Estado Judeu’.

Nele habitam atualmente cerca de 21 por cento de cidadãos árabes-israelenses.

Um ‘Estado Judeu’ os excluiria e se transformaria numa nação racista. Amplos setores políticos já vem propondo essa limpeza étnica.

O chanceler Avigdor Lieberman, por exemplo, líder do partido Beiteinu (Nosso Lar) com forte bancada no parlamento, defende que os árabes-palestinos sejam deslocados para algum território fora das fronteiras atuais de Israel. Isto se chama limpeza étnica.

Há um clima atual em Israel de patriotismo fanático, cego e opressivo. Já não é raro se ouvir nas ruas de Tel Aviv e Jerusalém gritos de “Morte aos árabes” e “Morte aos esquerdistas”. É assustador. A História já nos mostrou.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


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sexta-feira, 11 de julho de 2014

EDITORIAL DO HAARETZ CONDENA ÓDIO JUDEU CONTRA OS PALESTINOS


Foto do jovem palestino Mohammed Khdeir assassinado por seis judeus

O material abaixo é um editorial do Jornal Israelense Haaretz. Isso que dizer que não se trata da opinião de algum jornalista e sim da posição oficial do jornal. O editorial foi escrito no dia 9 de julho, ainda quando o Estado “democrático” de Israel impunha uma severa censura aos meios de imprensa e os ataques à Cisjordânia estava ocorrendo com a prisão de mais de 600 palestinos e a morte de cerca de 40 pessoas, incluído mulheres e crianças. O genocídio que está sendo perpetrado contra Gaza ainda não tinha começado, no qual Israel já efetuou mais de 900 ataques e matou mais de 100 pessoas, a maioria mulheres e crianças. Enquanto isso, nenhum judeu perdeu sua vida desde que os ataques de Israel tiveram início.  Segue o texto do Haaretz:

O ÓDIO QUE OS JUDEUS TÊM DOS ÁRABES PROVA QUE ISRAEL PRECISA PASSAR POR UMA REVOLUÇÃO CULTURAL

Sem uma revolução baseada em valores humanistas, a tribo judaica não será digna de possuir seu próprio estado.

Haaretz Editorial

Não existem palavras para descrever o horror alegadamente feito por seis judeus — ver outra notícia por meio desse link aqui: http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/1.603317 — contra Mohammed Abu Khdeir de Shoafat. Apesar da censura imposta sobre a imprensa que nos proíbe de fornecer detalhes desse terrível assassinato e de revelar as identidades dos alegados assassinos, a narrativa feita pela família do jovem Abu Khedeir — segundo a qual o jovem foi queimado ainda vivo — é suficiente para horrorizar qualquer mortal. Qualquer um que não esteja satisfeito com essa descrição poderá assistir o filme de horror no qual membros da polícia de fronteira do Estado de Israel espancam brutalmente o jovem Tarik Abu Khdeir, que era primo do jovem assassinado por meio desse link aqui: note que o vídeo é brutal e não recomendável para crianças —


A polícia de Israel foi rápida em qualificar os assassinos como “extremistas judeus” querendo dizer com isso, que eles não são parte do rebanho e sim pessoas estranhas como “sementes selvagens”. Essa é a forma que a polícia de Israel procura justificar um pecado, ou tenta transformar o que é “kosher em vermes”. Mas o verme é enorme e tem muitas patas. O verme dominou os soldados e outros jovens israelenses que tomaram de assalto as mídias sociais com muitos clamores por vingança e com manifestações de ódio contra os árabes. O verme foi bem recebido pelos membros do parlamento — Knesset —, pelos rabinos e por figuras públicas que exigem vingança. O verme não deixou de infectar nem o próprio primeiro ministro, que declarou o seguinte: “Vingança por meio do sangue de uma pequena criança, que Satanás ainda não criou”.

Os assassinos de Abu Khdeir não são “extremistas judeus”. Eles são os descendentes e os construtores de uma cultura de ódio e vingança que é nutrida e fertilizada pela direção do “Estado Judeu”: Estado esse para o qual todo árabe é um inimigo terrível, apenas porque é árabe; são esses que se calaram durante os jogos Beitar em Jerusalém enquanto um grupo de fãs judeus gritava “morte aos árabes”, para os jogadores árabes; são esses que clamam por uma limpeza étnica do Estado de Israel de sua minoria árabe, ou no mínimo a expulsão dos mesmos de suas casas e das cidades dos judeus.

Não menos culpados pelo assassinato do jovem palestino são todos aqueles que não paralisaram, com mão de ferro, a violência praticada pelos soldados israelenses contra civis palestinos e que deixaram de investigar tais crimes sob a alegação de “falta de interesse do público pela questão” O termo “extremistas judeus” realmente parece mais adequado para uma minoria de judeus que ainda estão em estado de choque e horrorizados por esses atos de violência e assassinato. Mas eles também reconhecem, infelizmente, que também pertencem a uma rancorosa e vingativa tribo de judeus cuja licença para praticar atrocidades está baseada nas atrocidades que são cometidas contra ela.

Processar os assassinos já não é algo suficiente. É necessário que exista uma revolução cultural em Israel. Os líderes políticos e militares de Israel precisam reconhecer essa injustiça e fazer o que é certo. Eles precisam educar a próxima geração, pelo menos com valores humanistas e incentivar uma discussão pública que seja mais tolerante. Sem que isso aconteça, essa tribo de judeus nunca será digna do Estado de possuir seu próprio Estado.

© Haaretz Daily Newspaper Ltd. All Rights Reserved

FIM DO EDITORIAL DO JORNAL HAARETZ

O artigo original do Haaretz poderá ser visto por meio desse link aqui:


Todos os comentários, especialmente os que são fruto de ódio, devem ser dirigidos diretamente para o site do jornal israelense Haaretz por meio do seguinte link:


O fato desse editorial ter sido escrito antes do início da ofensiva contra Gaza torna o mesmo ainda mais emblemático.

Abaixo duas fotos de Tarik Abu Khdeir antes e depois de ser brutalmente espancado conforme o vídeo acima:

Tariq Khdeir

O mais curioso disso tudo é que esse jovem palestino é também cidadão estadunidense. Mas os Estados Unidos, como sempre, se mantêm calados enquanto o genocídio corre solto em Gaza e na Cisjordânia. Aliás acabaram de passar legislação apoiando o direito de Israel se defender de foguetes que não matam ninguém cometendo um verdadeiro massacre genocida contra a população palestina.

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