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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A BUSCA DO JESUS HISTÓRICO: A HISTÓRIA TEM MESMO ALGO A DIZER ACERCA DE JESUS?


jesus-mosaic

Esse é um tema que estamos vendo ser cada vez mais e mais debatido. Todavia, como cristãos, não podemos deixar de afirmar o que percebemos. A vasta maioria dos historiadores que se metem a escrever acerca de Jesus Cristo, sempre acabam por desprezar a verdade — a Bíblia — para se apegar em livros absurdos considerados apócrifos e pseudoepigráficos cujas narrativas estão, na maioria das vezes, separadas por séculos quanto aos eventos que pretendem narrar.

Hermann Reimarus

O que a história dos nossos dias tem para dizer sobre Jesus sofre de uma falta de originalidade crônica. Desde o século XVIII quando Reimarus lançou a primeira “busca” pelo Jesus histórico — nunca encontrado nas páginas da Bíblia, claro — tudo o que historiadores e teólogos liberais têm feito, é andar em círculos procurando em literaturas pseudoepigráficas — livros cujo o verdadeiro autor não é quem o livro diz que é — isso, quando não decidem inventar tolices de cunho próprio como aconteceu recentemente com o teólogo e historiador Reza Aslan que foi objeto de dois de nossos artigos recentemente.

A busca pelo Jesus histórico virou uma verdadeira terra de ninguém, pois até mesmo pessoas não ligadas à história ou à religião se atrevem a darem “sólidos” palpites – risos – acerca de Jesus, como o leitor poderá constatar no artigo abaixo.

Todavia, como não nos consideramos os donos da verdade, queremos sempre oferecer aos nossos leitores acesso ao que está sendo dito acerca de Jesus e combater, quando existem erros – a vasta maioria dos casos — de modo apropriado: usando a Palavra de Deus como a melhor ferramenta acerca da verdade revelada na pessoa de Jesus, que por sinal, é a encarnação do próprio Deus vivo, único e Todo-Poderoso.

O artigo abaixo foi publicado pelo site da Revista VEJA e é assinado por Guilherme Rosa

O que a história tem a dizer sobre Jesus


“Pesquisas de historiadores ajudam a confirmar que, de fato, Jesus caminhou sobre a região da Galileia há 2.000 anos. As descobertas, no entanto, não devem satisfazer aqueles que levam a Bíblia ao pé da letra”. Guilherme Rosa

Ao longo dos séculos, Jesus foi interpretado de maneiras diversas por religiosos, artistas e governantes. O trabalho dos historiadores é deixar toda essa carga teológica para trás e encontrar o homem e a mensagem que deu origem a tudo (Reprodução/VEJA)



Joseph Atwill

O pesquisador americano Joseph Atwill é categórico: Jesus não passa de um mito. O personagem, suas palavras e ações fazem parte de uma elaborada narrativa inventada por aristocratas romanos, com o objetivo de pacificar os judeus — um povo envolvido em sucessivas rebeliões contra o império. Atwill apresentou suas ideias em outubro, numa conferência realizada em Londres, na Inglaterra. "Os romanos perceberam que o melhor caminho para acabar com a atividade missionária fervorosa entre os judeus era criar um sistema de crenças que competisse com o deles", afirmou.

Joseph Atwill não é um acadêmico da área — sua formação é em ciências da computação. Ele não publicou suas pesquisas em periódicos científicos e suas ideias estão longe de ser apoiadas por seus pares. No entanto, sua teoria recebeu atenção mundial, e foi debatida entre pesquisadores, jornalistas e religiosos. Seu poder está no fato de ela ser o capítulo mais novo de uma antiga discussão — com quase 2.000 anos de idade — sobre qual é a verdade por trás de Jesus, seus feitos, milagres e mensagem.

Para Atwill, a ideia de que Jesus não passaria de uma montagem histórica deveria funcionar como um duro golpe aplicado pela ciência contra a ignorância propagada pela religião. "Embora o cristianismo possa ser um conforto para alguns, ele também pode ser muito prejudicial e repressivo, uma forma insidiosa de controle mental que levou à aceitação cega da servidão, pobreza e guerra ao longo da história", diz. Seu erro é que a existência de Jesus não é mais uma questão de fé, mas de ciência.


André Chevitarese, professor do Instituto de História da UFRJ

Os acadêmicos da área — historiadores das mais prestigiadas universidades do mundo — afirmam restar poucas dúvidas sobre a questão. "Volta e meia aparecem essas hipóteses sobre Jesus ser um mito. Mas, do ponto de vista metodológico, parece bastante claro que ele realmente existiu", diz André Chevitarese, professor do Instituto de História da UFRJ e autor dos livros Jesus Histórico - Uma Brevíssima Introdução e Cristianismos: Questões e Debates Metodológicos (Editora Kline), em entrevista ao site de VEJA.

Jesus histórico — Os historiadores deixam claro que o personagem estudado por eles não é o mesmo da religião. Eles estão em busca de informações sobre o homem chamado Jesus, que viveu na Galileia há 2.000 anos e em torno do qual foi criada a maior religião do mundo. “Os historiadores não buscam um ser divino, que é impossível de quantificar, medir e avaliar. O Jesus da história é estritamente humano“, afirma Chevitarese.

Nessa busca pelo Jesus histórico, a perspectiva dos pesquisadores lembra a de São Tomé, o apóstolo que duvidou de Cristo e exigiu provas de sua ressurreição. Do mesmo modo, os historiadores não podem acreditar cegamente no que dizem as religiões e seus líderes, mas devem embasar tudo que afirmam em evidências. Essas provas não precisam ser, necessariamente, físicas, como a descoberta de uma ossada ou um túmulo. "Se esse critério fosse adotado, 95% dos personagens históricos não seriam reconhecidos", diz o pesquisador.

Hoje, o critério mais importante que os pesquisadores possuem para atestar a existência de Jesus é o da múltipla confirmação: autores diferentes, que nunca se conheceram, afirmam fatos semelhantes sobre o personagem.

Os textos mais antigos sobre Jesus datam do século I, em sua maioria escritos por seguidores do cristianismo. A exceção é Flávio Josefo, um historiador judeu que tentou escrever toda a história do povo judaico, desde o Gênesis até sua época. Ele cita Jesus, João Batista e Tiago (irmão de Jesus) como exemplos de homens que lideraram movimentos messiânicos na região da Galileia.

No século seguinte, surgem mais textos de historiadores que citam Jesus e, principalmente, o movimento iniciado por seus seguidores. "Esses dados servem para mostrar que não estamos no campo da mitologia. São autores judeus e romanos, que nunca se tornaram cristãos, e permitem afirmar de modo muito seguro que Jesus é um personagem histórico."

O homem — A esses textos se somam descobertas recentes da arqueologia que fornecem informações precisas sobre o tempo e o espaço em que Jesus viveu. Os dados não são abundantes, mas permitem esboçar como se pareceria esse personagem histórico real. "Não podemos afirmar exatamente a cor de pele e cabelo de Jesus. A partir dos mosaicos e dos afrescos que retratam outros romanos, judeus e sírios que viviam no mesmo ambiente, a tendência maior é de vermos um Jesus de cabelos preto, com a pele queimada por causa de sol", diz Chevitarese.

Segundo a maior parte dos historiadores, Jesus não nasceu em Belém, como afirmam algumas passagens bíblicas, mas em Nazaré — uma pequena aldeia montanhosa da Galileia, cuja população era camponesa e girava em torno de 500 indivíduos. "A aldeia não tinha nenhuma relevância política, não possuía construções públicas ou sinagogas. Os escritores dos Evangelhos mudaram o lugar por razões teológicas, para que o nascimento de Cristo confirmasse algumas profecias do Antigo Testamento."

Jesus teria nascido na pequena vila em torno do ano 4 A.C., e teria passado a maior parte de sua vida na região, sem nunca pisar em uma cidade grande. A exceção acontece quando ele entra em Jerusalém — ato que teria como consequência sua crucificação pelas autoridades romanas. Sua morte deve ter acontecido por volta dos anos 35 e 36 D.C., pouco tempo depois de João Batista também ter sido morto pelos romanos, segundo a narrativa de Flávio Josefo.

A mensagem — Segundo os historiadores, tão importante quanto quem era Jesus é o que ele dizia — foi sua mensagem poderosa que repercutiu em todo o mundo e, séculos mais tarde, deu origem às diversas vertentes religiosas. "Ele era um camponês pobre que, diante das injustiças que o mundo apresentava, defendia a instauração do Reino de Deus — um reino de justiça e fartura, sem hierarquias sociais", diz Chevitarese.

A mensagem espiritual — e messiânica— de Jesus era voltada especialmente aos judeus de seu tempo. Ela, no entanto, adquiria caráter político ao afrontar o Império Romano e setores da elite judaica. Foi justamente a força dessa mensagem, e os rebanhos que ela poderia angariar, que levaram à sua crucificação e morte. Como aconteceu muitas vezes na história, no entanto, o assassinato de Jesus não conseguiu matar suas ideias.

Jesus teológico — Jesus nunca chegou a colocar suas ideias no papel (nem poderia, os historiadores afirmam que ele era analfabeto). A maior parte do que chega aos dias de hoje sobre o personagem e suas ideias foi escrito por seguidores das primeiras comunidades cristãs, duas ou três gerações depois de sua morte. Os autores não estão preocupados em transmitir uma versão fiel dos fatos, como uma biografia, mas em defender os pressupostos de sua fé. Assim, os primeiros cristãos que escrevem sobre Jesus — os evangelistas — já não estão fazendo história, mas teologia.

Nessa época o cristianismo começava a se distanciar do judaísmo em que ele estava originalmente inserido, e a se aproximar do Império Romano — o que exigiu algumas mudanças em sua mensagem. "Ao serem escritas, suas ideias começam a ser diluídas, pois vários filtros são impostos. Primeiro, Jesus é um indivíduo de fala aramaica, mas quase tudo que conhecemos sobre ele está escrito em grego. Além disso, os textos são destinados a convencer um público urbano, muito diferente dos camponeses para quem Jesus pregava", diz Chevitarese.

Com o passar dos séculos, isso abriu margem para que vários teólogos interpretassem as escrituras de maneiras variadas, criando as inúmeras vertentes do cristianismo que se encontram nos dias de hoje. Assim, a depender de quem faz a homilia, Jesus pode ser visto como um personagem sagrado ou humano, santo ou falho, foco de paz ou de guerra, de fundamentalismo ou de liberdade.

É por isso que o estudo do Jesus histórico é importante. "Ele pode ajudar a colocar um freio naqueles que querem transformar pressupostos teológicos em verdades históricas", diz Chevitarese. Seu objetivo não é acabar com a teologia ou retirar da história de Jesus seu caráter espiritual. O que a ciência faz é descobrir o que, de fato, pode ser afirmado sobre o homem e sua época. As muitas lacunas que permanecerão abertas apresentam mistérios suficientes para que a religião possa se instalar.

O artigo original da Revista VEJA poderá ser visto por meio desse link aqui:


NOSSO COMENTÁRIO

Cremos que o leitor é maduro o suficiente para perceber, nas entrelinhas, que os historiadores não possuem nada de concreto, acerca da pessoa, da vida, dos ensinamentos, da morte, da ressurreição e da ascensão de Jesus na literatura geral, por mais que novas descobertas sejam feitas, as mesmas estão sempre muito distante dos fatos.

Por outro lado a insistente recusa em ler os evangelhos, transforma esses homens apenas num bando de bobos fazendo afirmações absurdas, tais como o fato de Jesus ser analfabeto.

O leitor, todavia é livre para julgar e tomar sua própria decisão, sabendo que um dia terá que responder direta e pessoalmente ao próprio Jesus Cristo o QUAL É BENDITO DEUS SOBRE TUDO E TODOS.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis.

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sábado, 6 de outubro de 2012

A TRANSMISSÃO DO TEXTO DA BÍBLIA – PARTE 4 - ANTIGO TESTAMENTO




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Este estudo é parte de uma breve introdução ao Antigo Testamento. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da Antiga Aliança. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo.
 
INTRODUÇÃO AO ANTIGO TESTAMENTO - O Que é o Antigo Testamento? — pARTE 6

IV. Transmissão Textual: Como a Bíblia chegou até nós? — Continuação

Graças ao trabalho de inúmeros indivíduos fiéis ao longo de muitos séculos nós podemos ler a Bíblia hoje. Estes indivíduos são tecnicamente chamados de escribas. Estes homens copiaram, à mão, a Palavra de Deus, tomando grande cuidado para manter a exatidão daquilo que copiavam. 

C. A Transmissão do Texto em Outras Línguas.

1. A Septuaginta – LXX.

Um dos maiores testemunhos da transmissão do texto bíblico é a versão grega conhecida como Septuaginta — Setenta — LXX em algarismos romanos — que foi a primeira tradução completa do texto bíblico hebraico para outro idioma. A importância dessa tradução é enorme, pois além de ser um reflexo do judaísmo helenístico, também foi fonte de inspiração para os escritores do Novo Testamento e para os escritos teológicos dos chamados Pais da Igreja. Vários conceitos cristãos foram diretamente tomados da tradução que estamos chamando de Septuaginta — LXX. As comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, que não falavam grego ou latim, mas que tinham sua própria língua nacional, conheceram o texto da Bíblia, através de traduções feitas a partir da Septuaginta — LXX e isso, basta para demonstrar a sua influência e importância dentro da história do cristianismo primitivo.

O uso da Septuaginta — LXX pelos judeus durou até o inicio do segundo século da Era cristã, quando o judaísmo sentiu a necessidade de novas traduções, feitas a partir do texto hebraico, mas refletindo os conceitos do judaísmo rabínico de então. Com o passar do tempo, a LXX tornou-se a Bíblia por excelência da Igreja Cristã e seu impacto no cristianismo, nos seus primeiros séculos, foi definitivo, pois nessa tradução bíblica, os cristãos encontraram respaldo para as suas afirmações e para suas doutrinas.

A LXX é considerada, por muitos estudiosos, uma das mais importantes versões da Bíblia Hebraica e seu texto serviu, e serve até hoje, para estudos, pesquisas e reflexões sobre a tradição textual existente nos últimos três séculos anteriores à Era cristã. Além disso, o seu texto é uma das principais referências para os estudos de crítica textual do texto em hebraico.

2. Data e Origem da Septuaginta – LXX.

A primeira tradução completa do Antigo Testamento foi para a língua grega. Essa tradução feita por volta do século III a.C. em Alexandria, no Egito. Ela é importante para a crítica bíblica, tanto textual como literária, para a antiga exegese, para a terminologia do Novo Testamento, como também para a tradição histórica do texto bíblico. O nome dessa versão grega é Setenta - ἑβδομήκοντα - ebdomékonta - setenta. O nome em latim da mesma é Septuaginta e em hebraico é myubvh mgrt tergum ha-siveym - tradução dos Setenta. Esse nome, em grego, vem da carta apócrifa conhecida como Carta de Aristéias, escrita por volta de 130 a.C., e que pretende narrar a origem dessa antiga tradução.

A Carta de Aristéias informa-nos que o rei do Egito, Ptolomeu II Filadelfo – 285— 247 a.C., desejava ter um cópia da תּוֹרָהtoráh - instrução ou ensino - composta dos 5 primeiros livros do Antigo Testamento que é também chamada de Pentateuco - traduzida para o grego. Para essa finalidade, ele enviou uma delegação - incluindo o próprio Aristéias - para Jerusalém, requisitando a Eleazar, o sumo sacerdote naqueles dias, uma cópia da תּוֹרָהtoráh - instrução ou ensino, e um grupo de sábios para traduzi-la em Alexandria. O seleto grupo de sábios era composto de 72 judeus versados em hebraico e grego - seis de cada uma das tribos de Israel. Ao chegar a Alexandria, o grupo se apresentou perante o rei Ptolomeu e expôs a sua sabedoria e conhecimento e, com isso, impressionou tanto ao rei como à sua corte. Logo após esses acontecimentos, os tradutores iniciaram o trabalho na ilha de Faros, defronte a Alexandria. Cada um trabalhava em uma cela separada com uma cópia da תּוֹרָהtoráh - instrução ou ensino. A obra de tradução foi concluída em 72 dias e constatou-se que todas as traduções eram absolutamente idênticas.

O objetivo do relato da carta de Aristéias era elevar e legitimar, o valor da LXX, perante os judeus que viviam em Alexandria e na diáspora, e que falavam o grego como língua do cotidiano. Com o passar do tempo, outros autores, tanto judeus como cristãos, acrescentaram dados à história de sua origem. Aristóbulo, Fílon de Alexandria, Flávio Josefo, fontes rabínicas e cristãs, colaboraram para que a imagem e a autoridade da LXX fossem reconhecidas por aqueles que desejavam conhecer e usar a versão da Bíblia Hebraica em sua roupagem grega.

Dos vários autores que escreveram sobre a origem da LXX, dois forneceram duas concepções importantes que seriam seguidas principalmente pelos cristãos. Eles são:

  • Fílon de Alexandria — 25 a.C.—40 d.C afirmou que a LXX era uma tradução inspirada.
  • Flávio Josefo — c. 37/38—100 d.C. — por sua vez, argumentou que essa versão possuía uma fidelidade literal ao hebraico, portanto, era de boa qualidade.
Os Pais da Igreja normalmente aceitavam as opiniões tanto de Fílon como de Josefo; entre esses estavam Justino Mártir, Clemente de Alexandria, Irineu de Lião, Cirilo de Jerusalém, Ambrósio de Milão, Hipólito de Roma, Agostinho de Hipona, e outros.

Outro dado da carta de Aristéias é que ela só se refere à tradução da — תּוֹרָה toráh — instrução ou ensino, não mencionando os outros livros bíblicos. Em sentido lato, a lenda da origem da LXX foi aplicada também aos demais escritos bíblicos, traduzidos posteriormente, e sob seu nome, estão englobados todos os livros do cânone hebraico, juntamente com os livros típicos do cânone grego. Da narrativa da Carta de Aristéias podemos tirar duas conclusões que se aproximam da verdade:

  • Por volta do século III a.C. apareceu uma tradução grega da — תּוֹרָה toráh — instrução ou ensino.
  • Essa versão foi feita em Alexandria, no Egito.
Os estudiosos, de acordo com as suas pesquisas, acreditam que a tradução da LXX não foi um único projeto de algum grupo específico, mas sim, um trabalho realizado por diversos tradutores em épocas distintas, com estilos e métodos diferentes e, além disso, cada um possuía um conhecimento relativo da língua hebraica. A LXX demorou a ser concluída e, provavelmente, a תּוֹרָה toráh — instrução ou ensino, apareceu em 250 a.C.; com os Profetas aparecendo por volta de 75 a.C. e, por último, os Hagiógrafos, que teriam surgido somente em 90 d.C. Desse modo, a versão apresenta-se muito irregular e reflete diversas concepções e métodos distintos de tradução[1]

O empenho de se traduzir as Escrituras hebraicas para o grego, foi fruto da própria comunidade judaica de Alexandria, que não falando mais o hebraico no dia-a-dia, desejava ler e compreender a Bíblia Hebraica em sua língua cotidiana, o grego. Os motivos da tradução, possivelmente, foram de ordem litúrgica, devocional e para estudos. Outro motivo foi fazer da Bíblia Hebraica uma obra conhecida pelos não judeus, para que estes pudessem lê-la e estudá-la – como em Atos 8:26—33.

Assim, quando havia a necessidade de se traduzir determinado livro bíblico, um grupo ou pessoa fazia a versão para a comunidade. Muitos livros foram traduzidos por mais de um tradutor, como, por exemplo, Isaías, Jeremias, e os Doze Profetas que tiveram dois tradutores; Ezequiel teve três tradutores, e assim por diante. Em relação ao Pentateuco, cada um de seus livros foi traduzido por uma única pessoa. Os estudiosos argumentam que a LXX foi, na verdade, uma coleção de traduções gregas feitas de maneira independente por várias pessoas e grupos da comunidade judaica do Egito, refletindo o espírito e as concepções do judaísmo helenístico.

Segundo os estudiosos, a qualidade da tradução da LXX é muito irregular e, além disso, os tradutores tinham diferentes níveis de conhecimento do hebraico. Os livros foram traduzidos obedecendo a métodos diversos e técnicas de tradução variadas. Podemos analisar alguns tipos de tradução encontradas ao longo dos livros da LXX:

  • O Pentateuco e os livros Históricos são fiéis.
  • Profetas e Salmos são literais.
  • Cantares e Eclesiastes são servis.
  • Os livros de Jó, Provérbios, Daniel e Ester são traduções livres.
À medida que os livros vão se distanciando do Pentateuco, a qualidade vai decaindo. Em relação à fidelidade à língua grega, os livros também não são homogêneos:

  • Jó e Provérbios são bons.
  • O Pentateuco, Josué e Isaías são versões medíocres.
  • Os outros livros são de qualidade mais inferior ainda.
Isto aconteceu devido ao fato de os tradutores, além de não terem um conhecimento pleno do hebraico, também não eram competentes na gramática e na composição na língua grega.
Em muitas passagens, a LXX, em vez de simplesmente traduzir o texto hebraico, faz uma interpretação e, assim, nem sempre é fiel à sua fonte hebraica. Várias expressões hebraicas foram adaptadas a um ambiente judaico helenizado. Alguns exemplos podem ser dados como ilustração:

         Texto Massorético - TM
       Septuaginta - LXX
Mão do Eterno
Poder do Senhor
O Eterno é a rocha de Israel
O Senhor é o auxílio de Israel
O manto do Eterno
A glória do Senhor
O rosto do Eterno
A presença do Senhor
O braço do Eterno
A força do Senhor

Outros termos hebraicos, também sofreram interpretação quando foram traduzidos na LXX. Entre estes encontramos:

           Texto Massorético - TM
             Septuaginta - LXX
חֶסֶדhessed - bondade
ἔλεος - éleos - misericórdia
קְהַלqehal – reunião
ἐκκλησία - ekklesía
assembleia
מָּשִׁיחַMashiyah – ungido - Messias
Χριστὸς - Christós - Cristo
תּוֹרָה toráh — instrução ou ensino
νόμος - nómos - lei
מַלַאךmal’ak - mensageiro
ἄγγελος  - ággelos - anjo
יהוה – YHVH — o Eterno
κυρίος - kuríos - Senhor

A Septuaginta – LXX, ao fazer modificações e interpretações de termos hebraicos, quando os mesmos foram traduzidos para o grego, acabou por fornecer uma terminologia específica que foi posteriormente usada pelo Novo Testamento e pelos primeiros cristãos. Das 350 citações do Antigo Testamento feitas pelo Novo Testamento, 300 foram tiradas da Septuaginta – LXX! Durante os três primeiros séculos da Era cristã, a Septuaginta – LXX foi, por excelência, a Bíblia da Igreja Cristã. Além de interpretar determinados vocábulos hebraicos, a Septuaginta – LXX também modificou os títulos hebraicos de alguns dos livros do Antigo Testamento como, por exemplo, os do Pentateuco:

Texto Massorético - TM
Septuaginta - LXX
בְּרֵאשִׁית bereshiyt — No princípio
ΓΕΝΕΣΙΣ Genesis — Gênesis
שְׁמוֹת shemot — Nomes
ΕΞΟΔΟΣ Exodos — Êxodo
וַיִּקְרָא wayyiqera` — E chamou
ΛΕΥΙΤΙΚΟΝ Leuítikon — Levítico
וַיְדַבֵּר vayedabber — Em um deserto
ΑΡΙΘΜΟΙ Arithimói — Números
דְּבָרִים devaryim — palavras 
coisas
ΔΕΥΤΕΡΟΝΟΜΙΟΝ Deuteronomíon   Deuteronômio

A divisão em dois livros cada de Samuel, Reis e Crônicas foi obra dos tradutores da LXX e esta divisão foi posteriormente adotada pelos cristãos em suas bíblias. Esta divisão não existe na Bíblia Hebraica. A divisão dos livros em blocos separados, também difere do adotado normalmente pela Bíblia Hebraica:
Os vinte e quatro livros da Bíblia Hebraica são ordenados em uma ordem diferente pela LXX, que classificou-os de acordo com o seu gênero literário e não de acordo com a sua aceitação no cânone, conforme o costume judaico. Além deste fato, os tradutores ou compiladores da LXX incluíram vários livros que não tiveram aceitação no cânone hebraico. Entres estes podemos citar os seguintes livros ou adições aos livros canônicos: Judith, Tobias, 1 Macabeus, 2 Macabeus, 3 Macabeus, 4 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, 1 Esdras (versão apócrifa do livro canônico de Esdras), Salmos de Salomão, Odes, Ester em sua versão grega, acréscimos gregos ao livro canônico de Ester, Epístola de Jeremias, acréscimos gregos ao livro canônico de Daniel contando as histórias de Suzana e de Bel e o dragão. Alguns destes escritos ou foram compostos diretamente em grego, tais como 2 Macabeus e Ester, na versão grega, ou tiveram seu original hebraico perdido, tais como Tobias, 1 Macabeus, Judith e Eclesiástico. Posteriormente, alguns destes livros foram aceitos no cânone da Bíblia católica romana de forma definitiva em 1546, e são chamados de deuterocanônicos pelos católicos ou de apócrifos pelos protestantes e pelos judeus. O termo grego para apócrifo representa o fato que a obra em questão está desprovida de autenticidade, ou cuja autenticidade não se provou. Em hebraico, estes livros são chamados, sem apologia, de externos ou heréticos.

Outros artigos acerca da Introdução ao Antigo Testamento

001 – O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO

002 – A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA

003 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 1 = Os Escribas e O Texto Massorético — TM

004 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 2 = O Texto Protomassorético e o Pentateuco Samaritano

005 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 3 = Os Manuscritos do Mar Morto e os Fragmentos da Guenizá do Cairo

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.

Parte do material contido neste estudo foi adaptado e editado das seguintes obras, que o autor recomenda para todos os interessados em aprofundar os conhecimentos acerca do Antigo Testamento:

Bibliografia

Arnold, Bill T. e Beyer, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2001.

Confort, Philip Wesley (Editor). A Origem da Bíblia. Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, 4ª Edição, 2003.

De Vaux, Roland. Social Institutions in Ancient Israel. 2 Volumes. MacGraw Hill Papebacks, New York, 1965.

Francisco, Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica – Introdução ao Texto Massorético. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo, 1ª Edição, 2003.

Geisler, Norman e Nix, William. Introdução Bíblica – Como a Bíblia chegou até nós. Editora Vida, São Paulo, 2ª Impressão, 1977.

Walton, John H. Chronological Charts of The Old Testament. The Zondervan Corporation, Grand Rapids, 1978.

Würthwein, Ernst. The Text of the Old Testament. William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, Reprinted, 1992.

Enciclopédias

__________The New Encyclopaedia Britannica. Encyclopaedia Britannica Inc., Chicago, 15th Edition, 1995.


[1] Não há consenso entre os eruditos sobre a data do término e do aparecimento de todos os livros em grego. Alguns argumentam que todos os livros já estavam traduzidos em torno de 150 a.C., enquanto outros defendem uma data mais tardia, pelo menos para os livros do bloco do Escritos, que teriam sido finalmente traduzidos por volta de 90 d.C.