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quarta-feira, 21 de maio de 2014

PARÁBOLAS DE JESUS - LUCAS 10:25—37 — A PARÁBOLA DO SAMARITANO — SERMÃO 027 — PARTE 001


Ilustração de Jesus respondendo a uma pergunta que lhe foi dirigida por um doutor da Lei - Museu de Artes de Montreal 

Esse artigo é parte da série "Parábolas de Jesus" e é muito recomendável que o leitor procure conhecer todos os aspectos das verdades contidas nessa série, com aplicações para os nossos dias. No final do artigo você encontrará links para os outros artigos dessa série.


Sermão 027

A PARÁBOLA DO SAMARITANO

lUCAS 10:25—37

25 E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

26 E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?

27 E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo como a ti mesmo.

28 E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso e viverás.

29 Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?

30 E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.

31 E, ocasionalmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo.

32 E, de igual modo, também um levita, chegando àquele lugar e vendo-o, passou de largo.

33 Mas um samaritano que ia de viagem chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão.

34 E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, aplicando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele;

35 E, partindo ao outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele, e tudo o que de mais gastares eu to pagarei, quando voltar.

36 Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?

37 E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai e faze da mesma maneira.

Introdução

A. Como nas três parábolas anteriores que podem ser vistas por meios desses links aqui:

024 — A Parábola dos Pássaros e da Raposa

025 — A Parábola do Discípulo que Desejava Sepultar Seu Pai

026 — A Parábola da Mão no Arado

essa também é parte de um diálogo teológico. E nosso estudo irá assumir — seguindo a opinião de vários estudiosos — que a mesma possui uma unidade básica e trata-se de uma parábola autêntica proferida por Jesus.[1]

B. Quando comparamos a estrutura dessa parábola notamos que, ao contrário de outras parábolas de estrutura semelhante — ver Lucas 7:36—50 e 18:18—30 — aqui o diálogo é consideravelmente curto quando comparado com a extensão da parábola. Isso, muitas vezes, causa o sério problema de levar o leitor a centra-se na parábola em si e a ignorar o diálogo ao redor da mesma. Não é incomum revistas de escola dominical tratarem o texto dessa maneira. Ao agirem assim transformam o mesmo apenas numa exortação ética, voltada para suprir apenas as necessidades de pessoas que estejam precisando de uma palavra de conforto.

C. Nosso interesse nesse estudo é entendermos a parábola no contexto do diálogo em que a mesma está inserida.

D. A parábola do Samaritano é precedida e, imediatamente, seguida por um diálogo entre Jesus e um doutor da Lei.

E. Nos dois casos existem duas perguntas e duas respostas.

F. Em cada um dos diálogos o doutor da lei apresenta uma pergunta a Jesus, que invés de responder a pergunta diretamente, responde fazendo outra pergunta para seu interlocutor.

G. Em cada um dos diálogos o doutor da Lei responde à pergunta feita por Jesus.

H. Por fim, cada um dos diálogos termina com uma resposta de Jesus.

I. Vamos começar analisando o primeiro diálogo.

I. O PRIMEIRO DIÁLOGO

A. A narrativa se inicia com o doutor da Lei se colocando em pé — uma aparente atitude de respeito — mas ele tem a intenção de colocara Jesus à prova — uma atitude que revela a maldade intrínseca de seu coração — apesar de chamar Jesus de “mestre” que é expressão geralmente usada por Lucas como equivalente do hebraico rabi.

B, O teste do doutor da Lei tem o propósito simples e direto de descobrir o entendimento que Jesus tinha de como era possível alguém herdar a vida eterna.

C. Na superfície a pergunta não faz muito sentido, porque apenas herdeiros podem herdar alguma coisa, qualquer coisa que seja. Qualquer pessoa que seja herdeiro legal de alguém poderá tomar parte da herança.

D. No Antigo Testamento a ideia de herança estava vinculada, principalmente, ao conceito do privilégio de Israel de herdar a terra prometida, que curiosamente, continuava na posse do SENHOR, o qual considerava os judeus apenas como Seus “inquilinos” — estrangeiros e peregrinos — de acordo com

Levítico 25:23 — Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois para mim estrangeiros e peregrinos.

Ainda com relação às palavras de

Isaías 60:21

E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado.

E. Já era entendimento dos rabinos que a “herança” era uma referência à participação na salvação futura, portanto não guardava nenhuma relação com a terra de Israel em si mesma.

F. Nos dias do Novo Testamento, a frase “herdarão a terra” é aplicada pelo Senhor Jesus à salvação que se estende a todo o seu povo. A ideia da terra prometida ser concedida ao povo de Israel não é repetida no Novo Testamento.

G. A herança, torna-se portanto, vida eterna. E a forma de se alcançar essa vida eterna, era no entendimento dos judeus, por meio da estrita obediência da Lei.     

H. Diante dessas realidades tanto nas mentes dos seus ouvintes e do doutor da Lei, bem como no própria mente do Senhor Jesus ele tinha dois caminhos para escolher em sua resposta à pergunta que lhe foi dirigida:

1. Jesus poderia seguir pelo caminho do argumento apresentado no Antigo Testamento e insistir que a “herança de Israel” é um dom de Deus e que não se pode fazer nada para se merecer a mesma. Essa abordagem criaria apenas uma oportunidade para uma longa e estéril discussão acerca de filigranas da Lei quanto ao que deve ou não deve ser feito para tentar “herdar” a vida eterna.

2. Ou Jesus poderia adotar a opinião rabínica que a herança está, em realidade atrelada à vida eterna conforme vimos acima, e esse é o caminho que Jesus prefere seguir, até mesmo porque era parte do seu próprio ensinamento.

3. Aqui ainda precisamos mencionar que naqueles dias alguns rabinos achavam que era possível alcançar a vida eterna por meio da obediência estrita à Lei. Para esse caso ver, especialmente, a literatura pseudoepigráfica conhecida como “Salmos de Salomão” nas seguintes referências: 14:1—2; 9—10. O mesmo é ensinado no livro pseudoepigráfico do “Enoque Eslavônico” em seu nono capítulo.

I. Mas a questão realmente preponderante estava atrelada a esse último aspecto que mencionamos. A questão era: “Esse rabi — Jesus — acredita ou não acredita que a herança de Israel poderia ser alcançada pela obediência estrita da Lei. Como podemos ver aqui, a ideia de uma herança atrelada à terra já havia sido abandonada há algum tempo pelos rabinos judaicos, algo que torna apenas mais evidente a mentira propagada pelos judeus sionistas de que Deus deu a terra de Israel como possessão perpétua do povo judeu.

J. É obvio que Jesus não concordava com o entendimento dos rabinos dos seus dias e sabia bem a armadilha que lhe havia sito montada pelo doutro da Lei. Então, em vez de oferecer uma resposta que expusesse suas ideias, Jesus de modo genial, reverte a armadilha pedindo que seu interrogador dê sua opinião acerca dessas coisas.

K. A pergunta de Jesus é simples: “Que está escrito na lei? Como lês?” Na última parte da pergunta é como se Jesus dissesse: Gostaria muito de ouvir como as autoridades judaicas interpretam isso. Mas o doutor da lei, parecia muito seguro de si mesmo e oferece uma resposta a Jesus sem citar nenhuma autoridade como apoio.

L. A reposta do doutor da lei tem o seguinte teor:

Lucas 9: 27

Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo como a ti mesmo.

M. Em Mateus e Marcos a combinação das palavras de Deuteronômio 6:5 — amar a Deus — com as de Levítico 19:18 — amar o próximo — são atribuídas ao próprio Senhor Jesus Cristo. É possível que o doutor da Lei estivesse apenas repetindo de volta as palavras que ele mesmo teria ouvido dos lábio de Jesus, o que lhe teriam sido mencionadas por alguém.

N. A resposta de Jesus, então não poderia ser muito diferente:

Lucas 9:28

E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso e viverás

O. Alguns pontos que devemos considerar nesse contexto:

1. De acordo com Karl Barth[2]: “Jesus louva o doutor por seu bom conhecimento e fiel recitação do texto sagrado”. De fato podemos afirmar que o doutor da Lei tinha uma teologia correta, mas a pergunta que permanece é: ele estava disposto a viver à altura daquilo que afirmava crer? Sua condição intelectual é excelente, mas sua prática continua em jogo.

2. Como já havia acontecido no caso da visita de Jesus à casa de Simão, o fariseu — ver Lucas 7:43 — Jesus consegue arrancar do próprio doutor da Lei uma resposta apropriada. Jesus não diz o que o doutor da Lei deve fazer, ele mesmo responde sua própria pergunta.

3. A pergunta do doutor da Lei estava volta para a vida eterna. Mas na resposta que Jesus força o mesmo a dar, Jesus o obriga a incluir o todo da vida e não apenas a vida eterna. É muito provável que a expressão de Jesus “viverás”, não está tão relacionada ao futuro distante, mas sim ao futuro imediato. Ou seja, Jesus está afirmando para o doutor da Lei que ele poderá começar a viver de verdade, a partir do momento em que colocar essas coisas em prática. Ver também:

João 17:3

E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste.

4. Já o verbo “faze” está no imperativo presente, cujo significado é: continue fazendo. Isso era muito mais do que o doutor da lei poderia esperar. Tudo o que ele deseja ouvir do Senhor Jesus era algo na linha de: uma vez tendo feito isso, você herdará o que procura. Em vez disso ele recebe um mandamento no imperativo e que vale de forma contínua e inclui um estilo de vida que requer um amor ilimitado e incondicional por Deus e pelo Seu povo!

Tanto Jesus quanto Paulo concordavam com seus contemporâneos que, se fosse possível, podia-se alcançar a salvação eterna por meio de uma estrita obediência da Lei apresentada nas Escrituras Sagradas. Mas tanto Paulo quanto Jesus sabiam também que alcançar tal objetivo era impossível porque nosso ser humano encontra-se enfermo pelo pecado o que torna, na prática, impossível alcançar aquele objetivo — ser obediente a todos os mandamentos da Lei de Deus sem vacilar um instante sequer. Esse foi a razão central porque Deus enviou Seu filho ao mundo. Jesus viveu uma vida ser cometer nenhum pecado e assim: 1) enquanto por um lado ele assume sobre si mesmo todos os nossos pecados e recebe o justo castigo que os mesmo merecem da parte de um Deus absolutamente santo e justo; 2) por outro lado ele nos reveste com Sua própria santidade de tal maneira que podemos comparecer diante de Deus como se nunca tivéssemos cometido um único pecado durante todas nossas vidas.

Conclusão da Primeira Parte    
Com isso está finalizada a primeira parte do diálogo entre Jesus e o doutor da Lei. Mas o doutor da Lei é persistente e não se dá por vencido. Ele não está disposto a abrir mão da possibilidade de alcançar a salvação eterna, por meio de seus próprios esforços. A lei de Deus foi citada e agora é necessário que se faça um comentário sobre a mesma. E ele espera que Jesus faça esse comentário. O Deus mencionado ele presume conhecer, mas quem é esse “próximo” a quem ele precisa amara como a si mesmo? Ele precisa, urgentemente, de uma definição. De uma lista talvez. Se a tal lista não for muito longa ele talvez possa tentar guardar suas ordenanças. É isso que o motiva a dar início à segunda parte da nossa parábola.

O doutor da Lei pergunta a Jesus:

Lucas 10:29

Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?    

Em resposta Jesus irá então, contar a Parábola do Samaritano, mas isso será assunto do nosso próximo estudo.



OUTRAS PARÁBOLAS DE JESUS PODEM SER ENCONTRADAS NOS LINKS ABAIXO:

001 – O Sal

002 – Os Dois Fundamentos

003 – O Semeador

004 – O Joio e o Trigo =

005 – O Credor Incompassivo

006 — O Grão de Mostarda e o Fermento

007 — Os Meninos Brincando na Praça

008 — A Semente Germinando Secretamente

009 e 010 — O Tesouro Escondido e a Pérola de Grande Valor

011 — A Eterna Fornalha de Fogo

012 — A Parábola dos Trabalhadores na Vinha

013 — A Parábola dos Dois Irmãos

014 — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 1

014A — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 2

015 — A Parábola das Bodas —

016 — A Parábola da Figueira

017 — A Parábola do Servo Vigilante

018 — A Parábola do Ladrão

019 — A Parábola do Servo Fiel e Prudente

020 — A Parábola das Dez Virgens

021 — A Parábola dos Talentos

022 — A Parábola das Ovelhas e dos Cabritos

023 — A Parábola dos Dois Devedores

024 — A Parábola dos Pássaros e da Raposa

025 — A Parábola do Discípulo que Desejava Sepultar Seu Pai

026 — A Parábola da Mão no Arado

027 — A Parábola do Bom Samaritano — Completo

027A — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 1

027B — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 2 — Os Ladrões e o Sacerdote

027C — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 3 — O Levita

027D — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 4 — O Samaritano

027E — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 5 — O Socorro

027F — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 6 — O transporte até a hospedaria

027G — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 7 — O pagamento final

027H — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 8 — O diálogo final entre Jesus e o doutor da Lei

028 — A Parábola do Rico Tolo —

029 — A Parábola do Amigo Importuno —

030 — A Parábola Acerca de Pilatos e da Torre de Siloé

031 — A Parábola da Figueira Estéril

032 — A Parábola Acerca dos Primeiros Lugares

033 — A Parábola do Grande Banquete

034 — A Parábola do Construtor da Torre e do Grande Guerreiro

035 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 001

036 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 002

037A — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 001

037B — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 002

037C — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 003

037D — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 004 — A Influência do Antigo Testamento

037E — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 005 — Características Cristológicas da Parábola da Ovelha Perdida

037F — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 006 — A importância das pessoas perdidas.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos. 


[1]  Ver os livros de Joachim Jeremias nas Parábolas de Jesus, de T. W. Manson intitulado The Sayings of Jesus que tratam das parábolas de Jesus e o comentário de I. Howard Marshall no livro de Lucas escrito para a série: The New International Greek Testament Commentary.
[2]  Barth, Karl. The Doctrine of the Word of God, Volume I, Parte II, em Church Dogmatics. Hendrickson Publishers, Marketing, LLC, Peabody, 2010.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

ENCONTROS DE PODER – 016 — UMA EXEGESE DE 1 CORÍNTIOS 2:6—8 — PARTE 2 — OS PODERES HUMANOS


Concepção artística de Cristo diante do Sinédrio


Atenção esse artigo é parte de uma série onde pretendemos tratar dos alegados encontros de poder e de curas maravilhosas que nos são apresentadas todos os dias pelos pastores midiáticos. No final de cada estudo você encontrará links para outros estudos.

Continuação do Estudo Anterior

Em Romanos 13:3, qualquer que seja a interpretação de ἐξουσίαι exousíai — autoridade no verso 1, os chamados ἄρχοντες árchontes — magistrados são, necessariamente, magistrados humanos uma vez que os mesmos carregam a espada e cobram tributos — ver Romanos 13:4 e 6. Nesse caso essa expressão não pode ser considerada como um termo técnico usado pelos gnósticos, porque é evidente que Paulo está falando de sua própria mensagem e não daquela de seus opositores.

Herodes Antipas

Assim temos que o caso a favor dos ἄρχοντες árchontes — autoridades em 1 Coríntios 2:6—8 serem humanos é bastante persuasivo. Mesmo assim precisamos considerar, mesmo que brevemente, o apelo feito pelos que defende a ideia oposta, de que os mesmo se referem a ser espirituais sobre humanos. Martin Dibelius em sua obra Die Geisterwelt in Glauben de Paulus, alega de maneira correta no nosso entender, que a frase “os poderosos deste século” não poderia estar fazendo referência a indivíduos como Herodes, Pilatos e as autoridades Judaicas. O argumento de Dibelius se baseia no fato que em 2 Coríntios 4:4 o próprio Satanás é chamado de “deus deste século”. Além do mais, quando Paulo está escrevendo para os Coríntios nenhum desses três continuava em seus respectivos cargos. Herodes já havia morrido e sua morte não tinha nenhuma importância escatológica. A frase original de Paulo parece um tanto extravagante quando aplicada a seres humanos, mas bastante sensível se seus leitores se os mesmos pensarem que tais poderes são imortais. 

Pôncio Pilatos

Os deuses gregos eram considerados imortais e, de fato, um dos seus nomes era, exatamente esse: Os Imortais. Mas uma vez que os apologistas judeus identificaram os deuses gregos como sendo demônios, a eternidade dos mesmos tornou-se problemática. Aqui e em

1 Coríntios 15:24—25

24 E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder.

25 Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés.

de acordo com essa interpretação — Paulo afirma que esses seres pertencem apenas a “essa era”, a qual está com seus dias contados.

Quanto a ignorância desses Poderes, a semente da mesma já foi plantada em 1 Enoque 16:1—2 onde lemos: “A partir dos dias da matança, do extermínio e da morte dos gigantes, quando os espíritos abandonarem seu corpo carnal sem sofrerem julgamento e condenação, eles continuarão a agir daquela maneira perversa, até o dia do grande Juízo Final, quando então o mundo acabará completamente para os Guardiões e para todos os ímpios. Dize agora aos Guardiões, que outrora moravam no céu, e que te enviaram como seu intercessor: Vós estáveis no céu. Nem todos os segredos vos foram revelados; contudo conhecíeis um segredo que não convinha passar, e na vossa imprudência o transmitistes às mulheres. Através da revelação desse segredo, homens e mulheres praticam muitas desgraças sobre a terra. Vós não tereis nenhuma paz”!

Esse tema que trata do segredo da redenção que estava escondido dos ἄρχοντες árchontes — autoridades celestiais pode estar sendo aludido em

Colossenses 1:26

o mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos.

Isso parece ainda mais evidente em

1 Timóteo 3:16 que fala de Cristo de modo litúrgico:
Evidentemente, grande é o mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne foi justificado em espírito, contemplado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória.

Por que temos a frase: “Contemplado por anjos”? Os mesmos são citados apenas como testemunhas — como, por exemplo, em Marcos 16:5 e passagens paralelas? Ou seria isso uma alusão aos anjos das nações, os quais precisam ver a Jesus ressuscitado antes que a evangelização das nações tenha início? Qualquer que seja o caso, o texto assume a ignorância dos anjos e da necessidade que eles tem de receberem uma revelação da parte de Deus.

Não temos conhecimento se outros autores estavam desenvolvendo esse mesmo tema naqueles dias. Todavia no livro pseudoepigráfico Assunção de Moisés 1:12—16, nós lemos o seguinte: “E quando Josué terminou (estas) palavras, ele se lançou novamente aos pés de Moisés. E Moisés tomou sua mão e o elevou ao assento diante dele, e lhe respondeu e disse: Josué, não menospreze a ti mesmo; mas fixe sua mente e ouça minhas palavras”. A partir daí Moisés explica a Josué como Deus manteve a eleição de Israel escondida das nações com o objetivo de condenar os gentios. Mas essa ideia é melhor elaborada no livro pseudoepigráfico que trata da Ascensão de Isaías. O material relevante encontra-se na seção da Visão, que de acordo com R. H. Charles, trata-se de um texto cristão produzido perto do final do primeiro século. O texto de Ascensão de Isaías 11:16—17 diz: “E eu vi, ó Ezequias, e Josabe, meu filho, e todos vós profetas, com os quais estou conversando neste momento, eu vi tudo o que havia sido ocultado de todos os céus, de todos os principados, de todos os deuses desse mundo. E eu o vi em Nazaré no seio da mãe, como uma criancinha e uma condição humilde e ignorada”. Ainda no mesmo livro em 8:7 nós lemos o seguinte: “E ele me disse: Sim aqueles do sexto céu e do céu superior, onde não há lado esquerdo , nem trono no meio, é lá que habita aquele que não tem nome, e o Amado cujo nome é um mistério que todos os céus não poderiam penetrar”.

Prosseguindo na leitura da Ascensão de Isaías 11:13—15 nós temos o seguinte:

“Pois nos últimos tempos o Senhor descerá ao mundo e será chamado o Cristo , quando descer e vir a vossa forma; e se fará carne e será um homem. E o Deus deste mundo manifestar-se –á através de seu Filho; e deitar-lhe-ão as mãos e, ignorando quem ele é, haverão de dependurá-lo em uma árvore. E é assim que poderás ver, que sua descida nestes mundo será ocultada aos céus, para que não saibam quem é ele”.

E continua em Ascensão de Isaías 10:10—12: “E dos anjos do firmamento e até, mas com cautela, dos anjos que estão nos infernos. E os anjos do mundo ignorarão que tu estás comigo , o Senhor dos sete céus e de seus habitantes , eles ignorarão que tu e eu somos um. Mas quando eu convocar os angélicos e luminosos habitantes do céu, quando eu ampliar o sexto céu , após ter julgado e condenado então os principados, os anjos e os deuses desse mundo, após ter condenado o próprio mundo, tu iniciarás teu reino”.

E mais em Ascensão de Isaías 10:29—31:”Eles desceu em seguida ao firmamento onde habitava o príncipe do mundo e deu seus passaportes àqueles que se encontravam à esquerda, e cuja forma eles haviam tomado, e eles não cantaram seus louvores, mas havia entre eles combates sangrentos, pois é lá que habita o poder do mal e da discórdia, poder que não deve durar para sempre. E vi-o, finalmente, descer ainda e tomar a forma dos anjos do ar e tornar-se semelhante a um dentre eles. E ele não deu seus passaportes, pois se entregavam a pilhagens e aos impostos extorsivos  de toda espécie”.

O Cristo deveria nascer da virgem Maria e de acordo com a Ascensão de Isaías 11:14:“Muitos outros asseguravam que ela não havia dado à luz, que ela não havia chamado uma parteira, e que não se ouvira os gritos do parto. E a inteligência de todos se apagara a respeito desta criança; sabia-se que ela havia nascido, não se sabia como ela havia nascido”.

Em seguida Ascensão de Isaías 11:19 diz: ”E os estrangeiros então alimentavam ódio contra ele e açulavam contra ele os filhos de Israel que não sabiam quem ele era; e o entregaram ao rei e o suspenderam numa cruz, e ele desceu para o anjo da morte”.

Quando ele for ressuscitado dentre os mortos com seu corpo glorificado e ascender, outra vez, através dos céus, onde “Ele chegou ao firmamento , mas não mais assumiu a forma daqueles que o habitam e todos os anjos do firmamento, e o próprio Satanás, se prostraram e o adoraram. E uma grande tristeza pairava sobre eles: e diziam: Como é que nosso Senhor pôde descer entre nós e nós não reconhecemos seus esplendor, que nos ofusca nesse momento, e que o distingue no sexto céu? —  Ascensão de Isaías 11:23—14.

Todas essas especulações, porque não passam de especulações, pois não existe nada inspirado pelo Espírito Santo em todo esse material pseudoepigráfico, atiçou bastante a imaginação de escritores posteriores tanto gnósticos quanto cristãos. O simples fato do próprio Inácio de Antioquia depender da tradição preservada no livro pseudoepigráfico da Ascensão de Isaías indica que 2 Coríntios 2:6—8 já estava sendo interpretado por cristãos, antes do final do primeiro século, como se estivesse se referindo a poderes demoníacos.

Então o que devemos fazer? Os dois argumentos que os ἄρχοντες árchontes — autoridades em 2 Coríntios 2:6—8 são seres humanos ou que são seres sobre naturais parecem bastante plausíveis. Parece que estamos diante de uma situação onde as duas possibilidades poder ser corretas. É possível que Paulo esteja se referindo tanto a poderes humanos quanto demoníacos. Ao que parece, todas as autoridades envolvidas na morte de Jesus são objeto da descrição feita pela expressão ἄρχοντες árchontes.

De acordo com o autor Gunther Dehn em seu livro “Engel und Obrigkeit: Ein Beitrag zum Verständnis Von Römer”, 1 Coríntios 2:6—8 representa um coincidência imediata ou simultânea entre atividades terrestres e celestiais, na qual Pilatos, os sumos sacerdotes e todo o resto do povo assassinaram a Jesus instigados por poderes mais elevados — sobre humanos. De que maneira as atividades terrestres e celestiais podem se conectar será discutido posteriormente.

Se em 2 Coríntios 2:6—8 Paulo acredita que Jesus foi crucificado e morto pela ação conjunta de Poderes humanos e sobre humanos, será que podemos concluir que todas as vezes que ele usar essa linguagem de poder ele estará fazendo uma referência a esses dois tipos de poderes? Não cremos que seja necessariamente assim. E isso ficará mais claro quando analisarmos a próxima passagem — Romanos 13:1—3 — onde Paulo faz suas categóricas afirmações acerca da obediência ao estado.

LISTAS DOS ESTUDOS DE ENCONTROS DE PODER

001 — Introdução =

002 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = Expressões Diversas

003 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἀρχῆ — arché e ἄρχων — árchon.

004 – A linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἐξουσίαις – exousías – potestades, autoridades.

005 – A linguagem de “Poder” no Novo Testamento = δυνάμεις — dunámeis — poderes.

006 – A linguagem de “Poder” no Novo Testamento = Θρόνοι— thrónoi — tronos.

007 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = κυριοτῆς — kuriotês — domínio.

008 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ὀνόματι — onómati — nome.

009 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἄγγελοs — ággelos — anjo.

010 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = δαιμονίον — daimoníon — demônioπνεῦμα τὸ πονηρὸν — pneûma tò poniròn — espírito malignoἀγγέλους τε τοὺς μὴ τηρήσαντας τὴν ἑαυτῶν ἀρχὴν— angélous te toùs me terèsantas tèn eautôn archèn — anjos, os que não guardaram o seu estado original ou anjos caídos.

011 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἀγγέλους  τῶν ἐθνῶν — angélous tôn ethnôn — anjos das nações.

012 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἀγγέλους  τῶν ἐθνῶν — angélous tôn ethnôn — anjos das nações — Parte 2.

013 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἀγγέλους  τῶν ἐθνῶν — angélous tôn ethnôn — anjos das nações — Parte 3 — Final.

014 — A Evidência do Novo Testamento – Parte 1 — Introdução

015 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 2 — As Passagens Disputadas — 1 Coríntios 2:6—8 — Parte 1

016 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 3 — As Passagens Disputadas — 1 Coríntios 2:6—8 — Parte 2

017 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 3 — As Passagens Disputadas — Romanos 13:1—3

018 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 4 — As Passagens Disputadas — Romanos 8:31—39

019 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 5 — As Passagens Disputadas — 1 Coríntios 15:24—27a — PARTE 1

020 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 6 — As Passagens Disputadas — 1 Coríntios 15:24—27a — PARTE 2

021 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 7 — As Passagens Disputadas — Colossenses 3:13—15 — PARTE 1

022 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 8 — As Passagens Disputadas — Colossenses 3:13—15 — PARTE 2

023 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 9 — As Passagens Disputadas — Efésios 1:20—23 — AS REGIÕES CELESTIAIS — PARTE 1

024 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 10 — As Passagens Disputadas — Efésios 1:20—23 — AS REGIÕES CELESTIAIS — PARTE 2

025 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 11 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 3

026 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 12 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 4

027 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 13 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 5

028 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 14 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 6

029 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 15 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 7 — A DESTRUIÇÃO DA MORTE E DE SEUS ALIADOS

030 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 16 — As Passagens Disputadas — COLOSSENSES 1:16 — A CRIAÇÃO DE TODAS AS COISAS POR MEIO DE E PARA O PRÓPRIO CRISTO

031 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 16 — As Passagens Disputadas — COLOSSENSES 1:16 — TENTANDO DEFINIR OS PODERES

032 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 16 — As Passagens Disputadas — COLOSSENSES 1:16 — TENTANDO DEFINIR OS PODERES —PARTE 002

033 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 17 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 001

034 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 18 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 002

035 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 19 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 003

036 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 20 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 004

037 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 21 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 005

038 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 22 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 006

039 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 23 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 007

040 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 24 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 008

041 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 25 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 009

042 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 26 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 010

043 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 27 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 011 — O PRÍNCIPE DA POTESTADE DO AR
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/encontros-de-poder-043-evidencia-do.html

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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