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sábado, 28 de janeiro de 2017

KIERKEGAARD, HOLLYWOOD E O SALTO NO ABISMO



Hoje estamos publicando um artigo da autoria do Prof. Dr. Wilson Roberto Vieira Ferreira que nos apresenta sua avaliação do filme Passengers — Passageiros. O filme procura recontar a história de Adão e Eva da perspectiva gnóstica e lida com temas queridos pelos cristãos, tais como: liberdade, ansiedade, angústia autoconhecimento, questões morais de todas as ordens e etc. Apesar das posições do prof. Wilson não representarem as opiniões do Blog O Grande Diálogo, ainda assim a leitura do seu artigo é recomendada como parte da oportunidade para discussão que propicia.  

O filósofo KierkegAard vai a Hollywood no filme "Passageiros"
 Wilson Roberto Vieira Ferreira

Por que diante do precipício ao mesmo tempo em que temos medo, também sentimos o impulso de saltar para o fundo do abismo? Em 1844 o filósofo Søren Kierkegaard disse que isso deriva da ansiedade da descoberta de sermos livres para saltar ou não saltar. E sempre temos medo daquilo que mais desejamos. “Passageiros” (Passengers, 2016) retoma essas ideias do filósofo dinamarquês, inclusive com a referencia do abismo: só, no espaço sideral, diante do vazio do Universo, o homem teme por descobrir que é livre, como se retornasse ao mito do Paraíso, antes de Adão e Eva terem descoberto a árvore do conhecimento. “Passageiros” é mais uma amostra da recente guinada metafísica de Hollywood sob camadas de entretenimento e efeitos digitais. Assim como a animação “WALL-E” (2008), também faz uma releitura gnóstica do Gênesis bíblico: como o homem, prisioneiro numa gigantesca espaçonave-resort que ruma para a destruição, pode conquistar a liberdade e autoconhecimento.

Passageiros (2016) é um ótimo exemplo sobre a guinada metafísica dos filmes hollywoodianos: o mix de mitologias e simbolismos filosóficos. Mais precisamente, sobre como, sob a superfície de entretenimento com muito efeitos digitais, os filmes comerciais desfiam sérios conceitos filosóficos tendo com fio condutor a mitologia gnóstica.

Lembrem de filmes como Lucy, Ex-Machina e Transcendence onde o conceito nietzschiano de “vontade de potencia” é introduzido por meio da discussão TecnoGnóstica da Inteligência Artificial; ou os simbolismos freudianos da interpretação dos sonhos aplicados em uma narrativa PsicoGnóstica no filme A Passagem (Stay, 2005).

E não poderia ser de outra forma: um diretor nórdico (Morten Tyldum, O Jogo da Imitação) introduz conceitos filosóficos do filósofo dinamarquês Kierkegaard em uma narrativa que faz uma alusão invertida do mito de Adão e Eva do Gênesis bíblico em uma narrativa da jornada do herói gnóstico — acordar prisioneiro em um cosmos que caminha para a entropia e destruição.

Uma gigantesca espaçonave (simbolicamente de forma helicoidal do DNA humano) atravessa a galáxia em uma viagem de 120 anos para uma colônia em um remoto planeta transportando milhares de pessoas em câmaras de hibernação. Porém, uma má função resulta no despertar prematuro de um passageiro, 90 anos mais cedo da chegada prevista. Ele se vê sozinho numa gigantesca nave automática que mais parece uma mistura de shopping center com hotel-resort.


Sozinho naquele microcosmo, cujas más funções começam lentamente a contaminar toda a nave, e junto com 5.000 almas hibernando, o protagonista será confrontado com sérias questões morais, a angústia e a ansiedade. Mas tudo isso traduzido pela filosofia de Søren Kierkegaard (1813-1855), mais precisamente na sua obra O Conceito de Ansiedade de 1844, muito tempo antes do Existencialismo e da Psicanálise.

O Filme

Jim (Chris Pratt) é um dos 5.000 passageiros, mais a tripulação, mantidos em câmaras de hibernação, na espaçonave automática Avalon. Viajando a metade da velocidade da luz, Avalon ruma em direção da colônia Homestead II em uma jornada de 120 anos. Após 30 anos, a Avalon atravessa uma região do espaço com uma intensa chuva de meteoros o que obriga a nave a concentrar quase a totalidade da energia nos seus escudos. Isso produzirá uma lenta disseminação de pequenas más funções na Avalon.

E Jim é a primeira vítima: sua câmara de hibernação desperta-o prematuramente, como se a espaçonave já estivesse se aproximando de Homestead II. Tudo parece normal (o protocolo de boas vindas é acionado automaticamente pelos sistemas da nave), mas logo Jim cai em si – ele está sozinho em uma gigantesca espaçonave, faltando ainda 89 anos para o destino. Morrerá sozinho antes do restante dos passageiros despertar.

No início temos a clássica jornada do herói: primeiro ele fica confuso e desesperado. Depois, aparentemente aceita o destino e passa a usufruir de todos os serviços daquele autêntico hotel resort espacial – come sushi todas as noites e bebe uísque com a única companhia, o barman robô chamado Arthur (Michael Sheen) programado para bate papos superficiais de balcão de bar com os clientes.


A nave Avalon, o design interior e o balcão com o solicito robô barman são evidentes alusões a 2001 e O Iluminado de Stanley Kubrick. Assim como em O Iluminado, a solidão num lugar distante de qualquer coisa humana na Galáxia começa a enlouquecer o protagonista – por meses caminha nu pela nave, deixa crescer uma espessa barba, embriaga-se em longas conversas com repostas protocolares do barman androide, faz caminhadas espaciais e por horas fica olhando para o vazio e quase tenta suicídio em uma câmara de ar na saída da Avalon.

A partir daí, Jim passa o tempo lendo textos e os registros de vídeo dos passageiros em hibernação. Até ter um interesse peculiar por Aurora (Jennifer Lawrence), jornalista e escritora. Como engenheiro mecânico, Jim leu todos os manuais sobre as câmaras de hibernação o que o coloca em uma sinuca existencial e moral: um ano de solidão lhe deu uma inesperada consciência de liberdade. Jim pode despertá-la para dividir com ele a solidão. Mas por outro lado, isso significava roubar-lhe a vida que Aurora teria no futuro.

Jim convence a si mesmo que poderiam se apaixonar e ele iria construir uma casa para ela – um dos temas ao longo do filme é como a automação impossibilita as pessoas de construírem coisas com suas próprias mãos, roubando a humanidade dos objetos.

Depois de muitos dilemas éticos e existenciais, Jim decide acordá-la fazendo tudo parecer mais uma disfunção da nave Avalon.

De um lado, a solidão e a liberdade; do outro, o sequestro da vida de Aurora por Jim. Que ainda esconde um tema sombrio: o horror feminista pelo abuso emocional numa cultura do estupro que vê as mulheres como objeto de possessão. Jim é bonito, charmoso e sedutor. Mas esconde uma sombria escolha moral.


O Gênesis gnóstico

Passageiros faz uma interessante analogia com o Gênesis bíblico: o início de uma convivência fundada no pecado original, porém de forma invertida – foi Adão/Jim que conheceu o Mal (a liberdade de escolha) e não Eva/Aurora. O filme faz até uma alusão à árvore cujo fruto Jim não pode comer: a máquina de café automático Spice Extreme Latte, porque não é um passageiro com pulseira “ouro”. Quando Aurora/Eva chega, os dois podem consumir juntos os produtos do nível ouro, enquanto Jim sabe que fez algo muito errado.

O hotel-resort da nave Avalon é o Paraíso que tenta expulsar Jim e Aurora como uma espécie de punição por terem comido o fruto do Conhecimento – Jim, a descoberta da liberdade; e Aurora, permitir a Jim ter acesso “ouro” a serviços.

Mas esse Gênesis parece ter uma releitura bem gnóstica: assim como no Gênesis onde a mulher surge da costela de Adão, é Jim quem desperta uma mulher. Mas Adão e Eva despertam em uma Criação que já está em crise – as más funções anunciam uma destruição próxima de Avalon. Não foi o pecado que fez a Criação incorrer na Queda. A Queda foi a própria criação, que manteve o homem prisioneiro e colocado em condições existenciais extremas que só permitem tirar de dentro do homem o pior de si mesmo.

Aurora descobrirá como um homem aparentemente decente e charmoso foi capaz de roubar-lhe a própria vida. Como é colocado a certa altura em uma linha de diálogo, Jim era alguém que estava se afogando. E toda pessoa que se afoga agarra-se em alguém para levar junto.
Passageiros oferece mais uma releitura gnóstica da mitologia do Paraíso perdido, numa versão um pouco diferente da animação WALL-E (2008) - ver artigo sobre WALLE por meio do link abaixo:

http://cinegnose.blogspot.com.br/2011/02/wall-e-e-eva-disney-faz-releitura-do.html

Tal como na animação, o homem é prisioneiro em uma gigantesca espaçonave-resort que oferece comodismo e conforto. Mas que ao mesmo tempo oferece a oportunidade do autoconhecimento e a descoberta da liberdade.



Kierkegaard vai a Hollywood

Dessa maneira, Passageiros ingressa na ideia principal do livro O Conceito de Ansiedade do filósofo Kierkegaard, que inclusive é visualmente referenciado no filme.

Kierkegaard usa o exemplo de um homem à beira do precipício. Quando o homem olha para baixo ele sente o medo da queda. Mas ao mesmo tempo, sente um grande impulso de se atirar para o fundo do abismo. Esse sentimento paradoxal deriva da nossa ansiedade pela descoberta de que somos livres para escolher saltar ou não saltar. O mero fato de sabermos que temos a liberdade de escolha por sermos seres finitos diante da eternidade do Universo desperta ao mesmo tempo a solidão e a completa liberdade. Isso criaria tanto a possibilidade do autoconhecimento como da ansiedade neurótica – a angústia, que impede a evolução da ansiedade normal em autoconhecimento.

Um dos momentos-chave do filme é quando Jim em um dos seus passeios espaciais vê, solitário, a imensidão do Universo. Isso dá uma inesperada sensação de liberdade – ele pode se atirar no espaço, se matar, ou retornar e despertar Aurora. São atos equânimes moralmente naquelas condições existenciais nas quais Jim é prisioneiro.

Para Kierkegaard o mito de Adão retrata o despertar do indivíduo para a autoconsciência. Uma representação poética do instante em que o indivíduo coloca-se frente a si mesmo.

Tanto Jim quanto Aurora temem a extrema experiência simultânea da solidão e liberdade de poderem construir um novo mundo dentro do microcosmo da espaçonave Avalon. Mas, como Kierkegaard que antecipou muitas ideias freudianas, aquilo que mais desejamos é sempre o que mais tememos.

A ansiedade neurótica à descoberta de que sãos seres livres faz Jim pensar no suicídio e Aurora em tentar retornar à câmara de hibernação.

O filme Passageiros é uma jornada de autoconhecimento para os protagonistas: a transformação do medo da liberdade em atos que ecoarão na posteridade, como acompanhamos na sequência final - quando finalmente a nave Avalon chega ao destino 89 anos depois e os passageiros descobrem o legado deixado por Jim e Aurora.

Assista o trailer legendado em português por meio do link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=yRPECNxkMVA

O artigo original poderá ser acessado por meio do link abaixo:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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domingo, 28 de dezembro de 2014

LUIZ FELIPE PONDÉ FALA DA RELIGIOSIDADE DOS BRASILEIROS


O filósofo Luiz Pondé

O material abaixo foi publicado pela revista Cristianismo hoje

Entrevista com o professor e escritor Luiz Felipe Pondé

O filósofo e cientista da religião analisa a religiosidade no Brasil e identifica qualidades na postura evangélica de combater o relativismo.

Escrito por  Carlos Fernandes

Um dos maiores críticos da moda do politicamente correto, o filósofo e escritor Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé é daqueles intelectuais que parecem não se preocupar muito com as repercussões do que diz. Critica o PT no governo com a mesma acidez com que debocha do sujeito que passa horas no Facebook procurando causas nobres para defender e posar de bom moço. “Para os defensores do politicamente correto, tudo é justificado dizendo que você é pobre, gay, negro ou índio”, ironiza. Pernambucano de 55 anos, graduou-se em Medicina na juventude, mas foi com a Filosofia – na qual chegou ao pós-doutorado – que Pondé se tornou conhecido e respeitado no meio acadêmico. Pela densidade de suas obras, como Conhecimento na desgraça: Ensaio da epistemologia pascaliana ou Crítica e profecia: Filosofia da religião em Dostoiévski, pode parecer à primeira vista um eremita de biblioteca, escrevendo coisas que um simples mortal não compreende. Mas, não – em sua coluna semanal na Folha de São Paulo, Pondé trata de temas da vida cotidiana e analisa relacionamentos humanos como num papo de mesa de escritório. O intelectual fala até mesmo de futebol, como em Amarelou, texto escrito pouco depois do indescritível vexame brasileiro na Copa do Mundo.

Luiz Felipe Pondé também se destaca no estudo e crítica da religião. Professor de Ciências da Religião na respeitada Pontifícia Universidade Católica, ele tem origem judaica, já foi ateu e hoje flerta filosoficamente com o divino. “Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia”, admite. Mesmo assim, enxerga no mundo uma beleza e uma misericórdia no mundo que não consegue explicar pelas vias racionais: “Acho Deus a hipótese mais elegante que existe acerca do universo e da vida”. Nesta conversa com CRITIANISMO HOJE – a segunda consecutiva da revista com grandes autores nacionais –, Pondé fala sobre o momento religioso no Brasil, desde as consequências do crescimento evangélico até ao significado da inauguração recente do chamado Templo de Salomão, em São Paulo. “Com ele, a Igreja Universal quer se reposicionar no mercado da fé”, sintetiza, sem rodeios. “Os evangélicos mais éticos sofrem com o efeito de massificação do neopentecostalismo”. Com o perdão do lugar-comum, a entrevista é imperdível.

CRISTIANISMO HOJE – Que tipo de contribuição a fé evangélica, que a cada dia cresce mais no Brasil, pode trazer a um país onde, até poucas décadas, o catolicismo era praticamente absoluto?

LUIZ FELIPE PONDÉ – Antes de tudo, esse crescimento traz contribuições para o mercado religioso: mais opções e mais competição dentro do espectro cristão. Os evangélicos têm uma história combativa distante da chave marxista, coisa que a Igreja católica perdeu há muito tempo. Eles valorizam a iniciativa pessoal, já que o protestantismo é marcado pela capacidade de produzir riqueza, isso é muito bom para o país. Há um maior aprofundamento da ética cristã clássica, no caso do protestantismo não avivado. Do ponto de vista dos chamados hábitos morais, esse crescimento pode implicar numa guinada conservadora.  No geral, eu diria que o enfrentamento do relativismo comum de nossa época, algo típico dos evangélicos, é bom para o debate público.

O que o senhor chama de “guinada conservadora” é, necessariamente, ruim?

O problema é que guinadas conservadoras em moral podem complicar a tolerância entre diferentes, e isso pode ser uma desvantagem. Mas, por outro lado, elas tornam a vivência do Cristianismo no Brasil mais intensa.

Observa-se, nas igrejas e instituições religiosas, de modo geral, um contínuo processo de esvaziamento. Já se fala, hoje, em “evangélicos nominais”, assim como, durante muito tempo, consagrou-se a figura do “católico não-praticante”.

O processo de secularização ocidental, por si só, explica o fenômeno?
Acho que o secularismo é, sim, uma das causas. E, também, a distância, muitas vezes observada, entre a religião e as demandas cotidianas da vida contemporânea. Por outro lado, a institucionalização das religiões é mal recebida pela população de maior formação cultural e acadêmica, e isso também é um fato. Por isso, vemos espiritualidades que mesclam elementos de várias crenças, misturando, por exemplo, o Budismo com um “jeito Jesus de ser”, amoroso, tolerante – isso ajuda a aceitar a fé fora ditames institucionais. Há outros fatores que explicam esse esvaziamento. O mundo contemporâneo é pautado por projetos centrados em soluções rápidas e com baixo comprometimento cotidiano. Cria-se uma fé no estilo Facebook, e aí, a tendência é mesmo à diminuição. O Facebook gera pessoas com muitas bravatas e pouco comprometimento.

O senhor fala muito de seu desconforto com a moda do politicamente correto, que inclusive é tema de um de seus livros. A pregação cristã sobre pecado, juízo divino e inferno pode ser considerada o contrário disso. Essa moda não pode acarretar, no médio prazo, uma pressão irresistível sobre a religião?

Já acarretou. O politicamente correto é um fenômeno de mercado. A sociedade de mercado produz forte ressentimento devido à produtividade de uns em comparação com a baixa produção de outros; logo, a noção do politicamente correto ajuda a acalmá-lo. O Cristianismo clássico combate o politicamente correto, porque ajuda a aprofundar a critica à condição humana. Na filosofia, ele continua tendo peso; mas, na pastoral, temo que caia sob a tutela da teologia da prosperidade, associada à sensibilidade mau-caráter do politicamente correto.

O pensamento único, hegemônico, gera o que o senhor já chamou de “dominância burra” e parece ser a tônica, hoje, no Brasil. Quais são os maiores danos desse tipo de ideologia em um país como o nosso, com baixos níveis de instrução e pensamento crítico?

O cultivo do ressentimento, da repressão da iniciativa privada e individual, o ódio de classe e o populismo. Acho que, no caso de uma nova vitória eleitoral do PT, coisa que pode acontecer, inclusive, graças ao voto evangélico, será uma devastação na economia, na liberdade de imprensa e na manutenção de esquemas de corrupção, sustentada no embuste ideológico [N.da Redação: A entrevista foi concedida antes das eleições de outubro].

A passagem do pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) pela presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, entre março e dezembro do ano passado, provocou uma grita generalizada, sobretudo por conta de grupos de afirmação homossexual. Figuras evangélicas públicas enfrentam feroz resistência toda vez em que se pronunciam contra a homossexualidade, ainda que o façam por convicção pessoal ou de fé. A quem interessa isso?

Para a Igreja Católica, uma instituição cuja base do clero é socialista, os evangélicos são um risco, porque competem pelo mercado cristão. Mas, de outro ponto de vista, na medida em que os evangélicos formam a base do PT, católicos socialistas e evangélicos oportunistas se dão as mãos institucionalmente. Mesmo levando-se em conta a posição intolerante de muitos pastores que representam parte da opinião pública, os gays perderam a batalha, mesmo porque eles também formam, em grande parte, a base o governo. Portanto, acho que conflitos como esses ainda são perfumaria em política. No plano moral, onde há, de fato, o conflito, acho que os evangélicos têm ainda uma forte chance de resistir à chamada cultura gay, mas isso implica em rupturas políticas com partidos como o PT.

O recentemente inaugurado Templo de Salomão, megaconstrução da Igreja Universal do Reino de deus (Iurd) em São Paulo, gerou fortes críticas por promover a mistura de elementos do Judaísmo com a prática cristã, embora se possa criticar o Cristianismo pregado por Edir Macedo. Quais são, em sua opinião, as verdadeiras intenções da Universal com essa mudança de postura?

O Templo de Salomão está reposicionando a marca da Igreja Universal diante da perda competitividade da Iurd no mercado evangélico, que está muito aquecido. Esse reposicionamento se caracteriza pelo imaginário mágico que o Antigo Testamento carrega e pela ideia equivocada de que povo eleito é retribuído com prosperidade. A Universal quer criar seu novo povo eleito, sob a tutela do sumo sacerdote que é muito íntimo de Deus. Ora, ele recriou o templo judeu, e com isso também atrai sobre si mesmo a ideia de que ele está muito próximo do Messias Jesus. Repare que o afastamento do Judaísmo, pregado por Paulo nos primórdios do Cristianismo, também foi um posicionamento de uma “marca” jovem na época – a então recente seita herética judaica do galileu – em uma disputa no mercado de crenças no Império Romano. Mas não creio que certa “judaização” da Igreja Universal a faça perder consistência teológica, uma vez que só se perde o que se tinha um dia...

Isso não pode contaminar as outras correntes evangélicas?

Ainda é cedo para se dizer. Porém, religião é cultura, é promiscuidade simbólica permanente. Um dia, tudo é contaminado por tudo.

A lógica da recompensa divina à obediência, tão presente no Antigo Testamento, está na base da chamada teologia da prosperidade. Ela prega que, se o crente for fiel – através de contribuições financeiras –, necessariamente será abençoado por Deus. Não é uma apropriação desonesta?

A ideia de recompensa, tão inerente à teologia da prosperidade, erra ao entender que a eleição implica em uma dinâmica de retribuição. No Tanach (a Bíblia hebraica), todos os eleitos de Deus sofrem, inclusive Cristo no Novo Testamento. Deus é livre para fazer o que quer e nada nos deve. A Aliança, que nós quebramos, persiste por sua misericórdia, apenas. Acho que o ressentimento típico da herança adâmica se manifesta em toda teologia da retribuição, que é o caso da teologia da prosperidade. Porém, a interpretação na chave retributiva da eleição – a ideia de que Israel é rico e poderoso graças à “magica” do Antigo Testamento – erra porque a história do povo hebreu, apreendida no dia a dia, é de dor e sofrimento. Viver cobrando de Deus a promessa de sucesso e de felicidade é viver em idolatria. Ser eleito pelo Deus de Israel faz de você um sacerdote e de sua vida, um holocausto. A alegria nunca deve ser fruto da lógica retributiva do temor a Deus.

Em um de seus artigos para a Folha de São Paulo, no qual analisou o conflito entre forças israelenses e o grupo islâmico Hamas, o senhor disse que a questão da eleição de Israel por Deus, conforme descrita no Antigo Testamento – e que é a base do sentimento evangélico pró-Israel –, tem sido muito mal interpretada e apropriada, indevidamente, pelo discurso neopentecostal. Pode explicar melhor isso?

Em primeiro lugar, acredito que o apoio dos evangélicos a Israel é corajoso. Ele mostra, independentemente da concordância com suas posições, como o mundo evangélico tem sido uma das últimas resistências ao pensamento único e ao antissemitismo travestido de antissionismo que assola o mundo da mídia e da academia. Quanto à interpretação da eleição de Israel, o Cristianismo, em geral, entende-a mal. A intimidade do povo de Israel com Deus implica menor livre arbítrio do que o dos outros povos. Israel é menos livre. Deus faz uso dele quando quer. Os judeus veem a incompreensão da condição do Estado de Israel hoje como mais uma amostra da solidão de quem tem a mão de Deus sobre sua cabeça.

Figuras midiáticas do segmento neopentecostal, como Edir Macedo, Silas Malafaia e Valdemiro Santiago, entre outros, são vistos, pela sociedade em geral e amplos setores da imprensa, como representantes do movimento evangélico nacional, embora sejam refutados e até condenados por grande número de crentes. Numa sociedade de consumo, em que os veículos de informação, com os mais variados interesses, moldam a opinião pública, como os evangélicos mais preocupados com a ética cristã serão reconhecidos e diferenciados em relação àqueles que fazem da fé um simples instrumento de proveito próprio?

Os evangélicos mais éticos sofrem com o efeito de massificação do neopentecostalismo. Eles têm menos força no mercado de consumo de bens religiosos cristãos. Seu futuro é o futuro de todo mundo que não tem acesso à massificação. As redes sociais podem ajudar um pouco. Creio que um possível caminho é o da produção intelectual e a entrada no debate público de modo erudito, consistente e com elementos da cultura secular. Mais difícil é o preconceito contra evangélicos em geral. Os escândalos envolvendo líderes e políticos evangélicos têm um efeito explosivo como todo efeito de massa associado ao preconceito.

Então, aquela figura do crente como um sujeito correto, confiável e respeitável está definitivamente superada?

Acho que esta imagem está superada. Um misto do crente como o “certinho” reprimido permanece, mas tende a capitular diante dessa outra a outra, ou ficar apenas associada às “igrejas pobres”.

E como fazer para superar esse preconceito social?

Para vencê-lo, massificação neopentecostal não ajuda, porque reforça a imagem de intolerância e abuso da ingenuidade dos fiéis. Acho que os evangélicos mais éticos, como você fala, devem invadir as universidades e ler Nietzsche sem medo.
O senhor diz que deixou de ser ateu, apesar da sua formação em filosofia e toda uma trajetória humanista. Quem é Deus, hoje, para Luiz Felipe Pondé?

Acho Deus a hipótese mais elegante que existe acerca do universo e da vida. Toda vez que vejo a generosidade e a beleza no mundo, sinto que estou diante do milagre. Permaneço filosoficamente ateu, mas, as experiências com a doçura e beleza no mundo me fazem pressentir alguma misericórdia que não sei de onde vem. O que me interessa em teologia é a mística.

A ideia de um Deus criador e sustentador do universo ainda é viável no mundo pós-moderno?

Sim, ela é viável, como mais uma no supermercado de bens invisíveis de sentido para a vida.

O artigo original da Cristianismo Hoje, poderá ser visto por meio do seguinte link:


NOSSOS COMENTÁRIOS

1. As respostas de Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé não representam em nenhuma hipótese as opiniões do blog o Grande Diálogo. Todavia achamos que o mesmo tem uma contribuição a fazer para o debate envolvendo os evangélicos hoje em dia no Brasil. Essa é nossa motivação em publicar sua entrevista.

2. Por outro lado como ele mesmo se define como um “ateu” e “Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia”, não temos mesmo que esperar nenhuma resposta que reflita uma perspectiva cristã e muito menos reformada, vinda de sua parte.
3. Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé parece que ao fazer seus cursos de filosofia ficou estanque entre Marx e Nietzsche. Quem tem medo de ler Nietzszche?

4. Também achamos logicamente questionável fazer uma leitura dos dias presentes e depois inseri-la nos dias dos cristãos do primeiro século a.D.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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