sábado, 8 de outubro de 2011

Um Estudo Sobre a Mentira



A Verdade é uma só, todo mundo mente! - Leon Eliachar

Em vários dos nossos últimos posts tratamos da mentira e dos mentirosos, especialmente, do problema da mentira entre os evangélicos. Para aqueles que quiserem ler o que já escrevemos antes seguem os links para os referidos posts:

http://ograndedialogo.blogspot.com/2011/07/quem-mente-mais-evangelicos-ou-gays.html

http://ograndedialogo.blogspot.com/2011/09/resumo-das-principais-ideias-acerca-da.html

http://ograndedialogo.blogspot.com/2011/10/pastores-evangelicos-mentem-as-provas.html

http://ograndedialogo.blogspot.com/2011/08/cai-por-completo-mascara-do-silas.html

Agora queremos compartilhar com todos nossos leitores, um estudo bíblico e teológico acerca da mentira. Boa leitura e bom estudo.

A mentira é um verdadeiro flagelo social. Infelizmente a mesma está arraigada em nossa cultura, porque as maiores autoridades políticas e religiosas estão, em sua grande maioria, completamente atoladas em mentiras. Nossa intenção nesse estudo é apresentar uma análise de como a Bíblia define e entende a mentira tanto no Antigo como no Novo Testamento. Certamente o maior prejuízo que a mentira causa está ligado à perda da verdade. Sem verdade não temos nada em que nos segurar. Estamos sozinhos, abandonados e completamente no escuro. Esse, talvez, tenha sido um dos motivos porque Jesus fez questão de afirmar que ele era, em sua própria pessoa, a personificação da verdade – ver João 14:6. Mas, nosso interesse, nesse momento, não é lidarmos com a verdade e sim com a mentira.

I. Termos usados nas línguas originais para expressar o conceito de “mentira”.

A. Termos em Hebraico.

בַּד – bad – traduzido por jactância pela ARA em Isaías 16:6. O Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento – doravante chamado de DITAT – define essa palavra como: gabarolices, palavreado mentiroso e mentira. O sentido básico é de conversa vazia ou vã. Por esse motivo a mesma está intimamente ligada, à idéia de orgulho e soberba da parte de Moabe, como acontece nesse verso. O profeta Jeremias, por sua vez, usa essa mesma expressão para se referir aos falsos profetas – ver Jeremias 50:36 – aos quais qualifica como gabarolas insensatos. As falsas profecias que os falsos profetas anunciam e acerca das quais se orgulham não passam, na realidade, de um discurso vazio – ver Isaías 44:24—25. Já em Oséias 11:6 a mentira funciona como um ferrolho, algo que causa algum tipo de impedimento. Pelos versos que lemos as implicações que podemos derivar acerca da mentira são as seguintes: a mentira está relacionada à soberba, à arrogância, ao orgulho, à jactância e à insensatez. Além disso, Deus promete desfazer as mesmas e, de alguma forma, a mentira funciona como algo que impede a passagem de algo. Como podemos ver a mentira não é “café pequeno”, e devemos buscar a ajuda de Deus para vencer esse pecado em nossas vidas.

אַכזָב – `akzab – traduzido como ilusório em Jeremias 15:18 e por engano em Miquéias 1:14 a palavra é definida pelo DITAT como: enganoso, traiçoeiro, decepção, mentira, decepcionante, desapontador. Essa raiz e seus derivados aparecem 49 vezes em todo o Antigo Testamento. Seu sentido mais básico está relacionado com algo pronunciado que é inverídico e que nada tem a ver com a realidade dos fatos. Uma invenção, portanto. Nesses contextos a mesma tem forte intenção de enganar. A palavra hebraica é aquela que expressa, por excelência, o ato de mentir. Quando lemos o Antigo Testamento e pensamos nos conceitos de falsidade e de verdade é da maior importância entender que o Deus Verdadeiro, que se revela ao homem é um Deus que não mente – ver Números 23:19 e Salmos 89:35—37.

Deus é fiel em tudo o que fala e espera que Seus filhos – ver Zacarias 8:16 - o Seu povo – ver Êxodo 19:5—6 – imite Seu exemplo. Esse é o motivo porque o “falso testemunho” é um delito tão sério, a ponto de constar nos próprios “Dez Mandamentos” – ver Êxodo 20:16 e comparar com Provérbios 6:16—19; 19:5. Toda vez que alguém profere uma mentira ele não está apenas mentindo, mas está também invocando o Deus da verdade para ser testemunha do pecado que está cometendo. A mentira é semelhante a um pronunciamento de uma falsa profecia dita em nome de Deus, como temos em Ezequiel 13:6—9, 19; Miquéias 2:11. Além de mentirosas, essas profecias eram consideradas como verdadeiras vaidades – vazias, vãs - porque estavam despojadas de qualquer verdade. Eram, portanto, ocas ou sem conteúdo real.

A mentira tornou-se uma parte tão integral da nossa sociedade moderna, que muitos defendem a idéia que seria impossível viver socialmente, sem a contínua prática da mentira proferida aos borbotões. De fato, essas mesmas pessoas dizem que nossa vida social existe apenas por causa das mentiras que proferimos. São elas que tornam a vida mais tolerável ou aceitável. Mas a verdade, biblicamente falando, é que a mentira nos aliena ou afasta de Deus e tornou-se uma verdadeira endemia entre todos os habitantes do planeta – ver Gênesis 3:8—12; Salmos 4:2.

Uma vez que mentimos para nós mesmos, como fez Adão, acerca da verdadeira condição do nosso relacionamento com Deus – lembre-se que não estamos falando de religião nem de práticas religiosas e sim de relacionamento com Deus e uns com os outros – e de termos perdido a segurança de que podemos confiar no Senhor, somos então forçados a produzir mentiras cada vez maiores acerca das nossas vidas – ver Isaías 57:11. A essência da nossa pecaminosidade transforma-se, através da mentira, em uma negação da fidelidade que devemos às pessoas – incluindo Deus – e aos fatos ao nosso redor – ver Salmos 62:4. De repente, nos vemos tão enredados em nossas próprias mentiras, que a única saída que vemos é nos manter fiéis e dedicados às mesmas. Mas não conseguimos enganar a Deus – ver Isaías 28:17. Por outro lado, aquele que considerado fiel fugirá de proferir mentiras – ver Provérbios 14:5.

A confiança do ser humano em Deus precisa ser completa e absoluta. A confiança em qualquer coisa ou pessoa é considerada com vã e inútil pela Bíblia, e consequentemente trata-se de uma mentira – ver Jó 41:9-11; Provérbios 30:6. Isso é tanto verdade, que a expressão אַכזָב – `akzab é utilizada em Isaías como sinônima da expressão “ídolo”, no sentido de que, quem mente é semelhante a alguém que procura ajuda ou socorro de algum ídolo – ver Isaías 28:15, 17 e conferir com Salmos 40:4 e Amós 2:4. Da mesma maneira que os ídolos corrompem e destroem as pessoas que os adoram – ver Salmos 115:5—8 – a mentira engana e faz fracassar aqueles que a proferem – ver Isaías 44:14—20. Essa era a verdade que Deus estava tentando ensinar ao Povo de Israel através dos profetas. A esperança do povo de que teria suas necessidades atendidas sem uma dedicação honesta a Deus, não passava de uma mentira. Quanto mais o povo insistiu nesse caminho mais árido e estéril o mesmo se tornou – ver Oséias 4:1—2. A salvação estava em retornar à realidade, abandonando a mentira – ver Isaías 1:16—17 e Oséias 7:13. Agindo dessa maneira Israel poderia descobrir a verdadeira liberdade e uma vida frutuosa – ver Isaías 58:11 e Sofonias 3:13. É exatamente isso que o Deus da Verdade espera ver acontecer sempre em nossas vidas – ver Salmos 25:10—13; 40.4.

Uma terceira expressão que deve merecer nossa atenção é כֵחַשׁ – kehash – que traduz o conceito de “mentiroso”. Essa palavra e todos os seus derivados aparecem 29 vezes no Antigo Testamento. Ela possui uma gama incrivelmente ampla de significados possíveis. Ao que parece, o uso hebraico dessa palavra procura enfatizar o aspecto relacional, pois ressalta a natureza não confiável de uma pessoa ou coisa num determinado relacionamento.

Em treze passagens a ênfase recai sobre a idéia de “agir falsamente com alguém em detrimento desse mesmo outro”. Em todos esses casos a expressão encontra-se associada com os conceitos de traição e roubo. Em Levítico 6:2 o ato de enganar alguém sobre um depósito, penhor ou ato de extorsão é considerado um grave delito e ofensa contra o próprio SENHOR. O mesmo é verdadeiro acerca do ato de mentir acerca de algo que alguém encontrou – ver Levítico 6:3. Os profetas em geral, mas especialmente Oséias previram que o clima reinante de engano e infidelidade que existia no meio do povo de Deus do Antigo Testamento conduziria esse mesmo povo a sofrer as mais trágicas consequências – ver Oséias 4:2; 7:3; 10:13 e 12:1

Em alguns casos o mentiroso é aquele que procura contradizer os fatos com vemos em Gênesis 18:15. A mentira também serve para caracterizar a rebeldia contra Deus – ver Isaías 30:9.

Mas o pior pecado que alguém pode cometer relacionado à mentira é negar a Deus. Esse ato não é apena alguma coisa que o indivíduo faz. Negar a Deus é viver uma mentira. As maneiras mais comuns de se negar a Deus são:

• Esquecer-se daquilo que Deus tem feito – ver Josué 24:26—27.

• Não tendo esperança na bondade de Deus ou esquecendo-se das próprias necessidades e vivendo sem depender de Deus – ver Provérbios 30:7—9.

• Tendo uma vida falsa e corrupta – ver Jó 31:24—28; Isaías 59:12—13.

• Quando duvidamos que a justiça derradeira pertence a Deus e ninguém escapará do Juízo divino – ver Jeremias 5:12.

Outra expressão cognata com a anterior é כַחַשׁ – kahash – que é traduzida por “mentiras” em Salmos 59:12; Oséias 7:3; 10:13; 11:12 e Naum 3:1. Todos esses versos servem para nos admoestar a não confiar em nós mesmos – o que não passa de uma grande mentira – mas a confiarmos em Deus.

Outra expressão hebraica que traduz o conceito de “mentira”, de forma incisiva é שַׁקַּר – shaqar - agir ou tratar com falsidade, ser falso, trapacear, enganar. Esse verbo é usado, principalmente, para indicar a quebra de uma promessa, o ato de ser infiel a um acordo ou tratado ou não cumprir um compromisso assumido. Assim, o mesmo soa como uma promessa vazia – uma mentira. O salmista tinha uma enorme preocupação em não ser infiel – ou mentir contra – à aliança feita com Deus – ver Salmos 44:17. A resposta de Deus à lealdade do salmista pode ser vista em Salmos 89:33. No verso seguinte – ver Salmos 89:34 – a mesma verdade é enfatizada – ver ainda Gênesis 21:23; Levítico 19:11; 1 Samuel 15:29; Isaías 63:8.

Expressão cognata a שַׁקַּר – shaqar, que acabamos de estudar, é שֵׁקֵּר – sheqer – que é traduzida por mentira, falsidade ou engano. Esse substantivo representa qualquer palavra ou atividade falsas, no sentido de não estarem baseadas em fatos ou na realidade. É dessa forma que Davi se queixa em Salmos 38:19, onde a expressão שֵׁקֵּר – sheqer é traduzida por “sem causa”, i. e. sem uma causa que seja verdadeira. De modo semelhante a testemunha falsa mencionada em Êxodo 20:16 e Deuteronômio 19:16—20 é assim caracterizada, porque apresenta uma acusação infundada e não baseada nos fatos.

A passagem de Jeremias 23:32, o profeta, fala daqueles que “profetizam sonhos mentirosos”. Esses são sonhos que se baseiam, de forma exclusiva, na imaginação daquele que os profere. De modo semelhante, Jeremias denuncia aqueles que proferem falsas profecias – ver Jeremias 27:10 e comparar com Zacarias 10:2; 13:3. Pouco importa quão persuasivas, ou até mesmo lógicas sejam as palavras proferidas por um profeta. Elas são falsas e infundadas a menos que estejam completamente baseadas na auto revelação de Deus. A confissão de todo verdadeiro crente deve encarar a realidade de que somos mentirosos – ver Isaías 59:12—13. Não que temos sido mentirosos, nem que fomos mentirosos, mas que somos mentirosos. Somente quando admitimos essa realidade, Deus pode nos ajudar a nos libertar da tirania e da escravidão representadas pelo ato de proferir mentiras.

Nos dias do profeta Miquéias, já perto do fechamento do cânon do Antigo Testamento, o profeta acusa o povo de Israel de dar ouvidos aos mentirosos. De fato, ele diz que o povo prefere um mentiroso como profeta a um profeta verdadeiro – ver Miquéias 2:11.

Jó acusa seus amigos de “besuntarem a verdade com mentiras” – ver Jó 13:4. Já o profeta Jeremias, em um contexto diferente, acusa tanto os sacerdotes quanto os profetas de buscarem apenas o lucro, agindo com שֵׁקֵּר – sheqer – engano, curando de forma superficial, a ferida do povo de Deus com mentiras – ver Jeremias 8:10—11. Era realmente uma grande surpresa que eles acolhessem tamanhos canalhas como profetas.

Em outras passagens do Antigo Testamento os ídolos são também chamados de שֵׁקֵּר – sheqer – ver Isaías 44:18—20; Jeremias 51:17. O profeta Jeremias diz, explicitamente, que os ídolos não passam de uma mentira ou enganação, exatamente porque “neles não há fôlego, vaidade são, obra ridícula” – ver Jeremias 10:14—15.
O profeta Habacuque se refere às imagens de fundição de modo semelhante. Ele pergunta acerca do valor das mesmas já que não passam de “mestras de mentiras”. Com isso o profeta acusa as imagens de fazerem promessas vazias que despertam esperanças vãs.

שֵׁקֵּר – sheqer – também é usado em Provérbios 12:22 e 26:18—19 para designar lábios e línguas mentirosa. Já em Zacarias 5:4 e 8:17 essa mesma expressão é usada para fazer referência a juramentos falsos e em Provérbios 20:17 a mesma indica o ato de se obter alimento por meio da mentira e do engano. Independente do contexto ou da circunstância, Deus não tolera nem a mentira nem o engano, pois Ele é o Deus da verdade, da fidelidade e da realidade e essas devem ser também as características do Seu povo eleito.

B. Termos em Grego.

1. Uso no Grego Profano

A etimologia da palavra ψεύδους – pseúdous – mentira, em grego, é incerta. O significado primário mais abrangente é de algo que é: falso, de quebra de acordo, de afirmação falsa e erro e de uma declaração deliberadamente falsa. Como verbo a expressão básica significa “enganar”, “ser enganado” ou enganar-se a si mesmo”. Além disso, a mesma pode representar o ato de “estar errado quanto a uma opinião” ou “falar falsamente”. Nesse último caso, apenas o contexto pode deixar claro se o ato é ou não intencional.

A mesma expressão pode também ser traduzida por “mentira”, ou mentir para outra pessoa com o objetivo específico de enganar. De modo exclusivo também pode ser usada para designar o ato de “fingir”. Em outras palavras, qualquer coisa que possa ser considerada como não verdadeira, enganadora, falsa ou mentirosa está incluída dentro dos conceitos de ψεύδους – pseúdous.

2. Significado no Grego Profano.

Na língua grega, o ato de mentir não pode ser entendido meramente como algo que se opõe à verdade. Nesse idioma o conceito é bem mais amplo, pois pode ser dividido em duas partes:

• De forma objetiva: como mentira, engano etc.

• De forma subjetiva: como algo não verdadeiro, como algo que não existe de verdade – uma ilusão – e, finalmente, como um erro que é fruto de um falso julgamento da realidade.

A mentira, como tal, se opõe tanto à verdade quanto a justiça. A mentira é incapaz de produzir a justiça. Esse é o motivo porque os gregos consideravam o perjúrio1 , o pior tipo de mentira. O homem justo era considerado aquele que não proferia mentiras – calúnias ou mentiras, falsidades ou invenções – contra seu próximo. A calúnia era considerada um verdadeiro assalto à dignidade da outra pessoa. Era totalmente reprovável entre a aristocracia, especialmente quando se originava entre o povo comum com a intenção de enganar a elite. O grande problema que existia entre os gregos com respeito às mentiras e ao ato de mentir é que os deuses mitológicos estavam muito habituados à mentira. Alguns deuses consideravam a capacidade de enganar ou iludir outros, como verdadeiro sinal de esperteza. Mas, de modo geral, as pessoas na Grécia Antiga tinham a posição de desacreditar qualquer indivíduo que fosse flagrado mentindo ou tentando induzir ao erro seu próximo. Todavia, mentiras sociais – esconder a verdade do público – ou políticas – promessas vazias – eram toleradas, quando proferidas por algum motivo que pudesse ser justificado. Historiadores eram considerados como verdadeiros, ao passo que os poetas eram considerados mentirosos por definição.

C. Termos no Novo Testamento.

1. Termos nos Evangelhos Sinóticos e no Livro dos Atos.

A expressão ψεύδους – pseúdous, cujo significado é qualquer coisa que possa ser considerada como não verdadeira, enganadora, falsa ou mentirosa não aparece nem como substantivo nem como adjetivo nos evangelhos sinóticos. A única exceção aparece em Atos 6:13 onde encontramos uma referências a “falsas testemunhas”. Em sua forma verbal ψευδόμαι – pseudómai aparece apenas em Mateus 5:11 e Atos 5:3—4 e os dois contextos são bastante distintos, mas revelam quão insidioso é o ato de mentir contra seres humanos e, especialmente, contra Deus.

No texto de Mateus, a referência encontra-se dentro no bloco das “Bem Aventuranças”, mas se distingue de todas as anteriores por causa da sua natureza composta – injuriarem2 , perseguirem e mentindo – e pelo uso da segunda pessoa – ver Lucas 6:22—23. Note que a citação de Lucas não apresenta a expressão “mentindo”. Como Lucas usou uma tradição diferente da de Mateus, é possível que a de Mateus incluísse a expressão ψευδόμαι – pseudómai – mentindo que não está presente em Lucas. O fato é que nenhum dos dois foi testemunha ocular do chamado Sermão da Montanha. Outra possibilidade é que Jesus costumava pregar o mesmo sermão para audiências diversas, e não seria incomum que não usasse, rigorosamente, as mesmas palavras. A forma verbal usada por Mateus e Lucas em Atos, nos ensinam que as mentiras proferidas contra o povo de Deus são tão ofensivas a Deus quanto mentiras proferidas contra a Igreja que é o Corpo de Cristo.

2. Termos nos Escritos Paulinos.

Em Romanos 9:1 Paulo usa a expressão ψεύδομαι – pseúdomai – (não) minto, como uma maneira formal de protesto – ver uso semelhante em 2 Coríntios 11:31; Gálatas 1:20; Filipenses 1:8; 1 Tessalonicenses 2:5; 1 Timóteo 2:7. Ao envolver o nome de Deus ou Cristo, Paulo procura enfatizar sua credibilidade como testemunha. Referências ao Espírito Santo, bem como à sua própria consciência tem o mesmo objetivo.

Quando Paulo usa a palavra ψεύδει – pseúdei – mentira em Romanos 1:25, ele está caracterizando toda a humanidade como pecadora pelo ato mentiroso de alterar a verdade divina que nos ensina que Deus apenas é digno de adoração, e nada que foi criado por Deus deve ocupar esse lugar. Essa mudança causada pelos seres humanos é uma gigantesca mentira. Essa talvez seja a mais pervasiva, maior, mais intensa e a mais duradoura de todas as mentiras. O Novo Testamento confirma a relação da mentira com a idolatria. Essa relação com a idolatria é que deve conduzir Paulo a fazer a afirmação que encontramos em Romanos 3:4. Quando a verdade de Deus é revelada os homens são desmascarados e se manifestam como de fato são: mentirosos – ver Salmos 116:11 e comparar com Hebreus 4:12—13.

Mas, independente, de intensidade e da dimensão do pecado humano da mentira, a graça de Deus é sempre maior e Deus está sempre disposto a perdoar – ver Romanos 5:20; e comparar com Salmos 65:2—3 e Miquéias 7:18.

O Deus da verdade – ver Salmo 31:5 – não pode mentir – ver Tito 1:2; Hebreus 6:18. Mas Deus permite que Σατανάς – Satanás - lance mão da mentira para enganar aqueles que desejam serem enganados – ver 2 Tessalonicenses 2:9—12. A παρουσία – parousía – vinda, chegada, advento ou aparecimento do anticristo virá acompanhada de muitos σημείοις καὶ τέρασιν ψεύδους – semeíois kaì térasin pseúdous – sinais e prodígios da mentira. Esse é o motivo principal porque Paulo exorta os crentes em Colossos a: Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos – Colossenses 3:9 e comparar com Efésios 4:25 – conforme Zacarias 8:16. Note também 1 Timóteo 1:8—11 onde a mentira aparece numa lista de pecados sérios e particularmente ofensivos.

A pior mentira que podemos proferir é aquela contra a verdade – ver Tiago 3:14. Jesus nos advertiu com as mais duras palavras quanto a negarmos o Senhor – que é o mesmo que mentir, alegando que não o conhecemos – ver Mateus 10:32—33.

3. Termos nos Escritos Joaninos.

Deveríamos esperar um confronto entre a verdade e a mentira, como temos entre a luz e as trevas, desde o princípio do Evangelho de João. Mas, pela vontade do Espírito Santo não é esse o caso. Esse confronto entre a verdade e mentira só acontece no capítulo 8 do Evangelho de João – ver João 8:44—47. Para Jesus tanto a verdade quanto a mentira possuem “personalidades” e têm seus próprios filhos. Nesse contexto a mentira não é apenas algo errado, e sim, algo ativamente envolvido em contestar o que verdadeiro, i.e., a mentira é comparável com a falta de fé. De um lado nós temos vida e verdade e do outro nós temos a mentira e o homicídio. Veja como Jesus definiu o mal e a si próprio em João 10:10. Além disso, Jesus disse acerca de si mesmo as seguintes palavras: Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim – João 14:6.

Já nas Epístolas de João o uso das expressões verdade e mentira assumem uma condição mais exortatória, onde se exige de nós que pratiquemos a verdade e não a mentira. O motivo? É porque Deus é luz. A prática da verdade deve caracterizar nossa vida em comunidade – ver 1 João 1:6; 2:4; 4:20. Quando leio esses versículos e observo algumas coisas que acontecem dentro das comunidades chamadas cristãs eu acho que estou delirando. Que tais palavras não podem ser verdadeiras, tamanha a contradição que percebo. A prática da mentira corresponde a negação da confissão cristã – ver 1 João 2:21—22. O mentiroso é, nesse sentido, a manifestação histórica e local do próprio anticristo. O Espírito Santo é aquele que, habitando em nós, nos conduz à toda verdade – ver 1 João 2:27 e comparar com João 16:13. Assim o - χρῖσμα – Chrîsma – unção de 1 João corresponde ao παράκλητος – parácletos – Consolador, do Evangelho de João. Diante dessa realidade fica evidente a mentira desses pregadores modernos que falam da “unção” divina como algo, uma coisa etc. A unção que Deus tem concedido a todos seus filhos é o Espírito Santo – ver 2 Coríntios 1:21—22.

A confissão de que temos recebido o Espírito Santo em nossas vidas, implica de modo direto, uma admissão de que temos pecados em nossas vidas. O Espírito Santo é tão necessário para os pecadores com um médico é para aqueles que estão enfermos – ver Lucas 5:31. Se não admitirmos que temos pecado nós nos opomos à verdade de Deus e fazemos Deus passar por mentiroso – ver 1João 1:10; 5:10.

4. Termos Usados no Apocalipse.

Uma das características do livro do Apocalipse é a polêmica que encontramos no mesmo contra os judeus que adotam esse nome sem, todavia, serem judeus verdadeiros – ver Apocalipse 3:9. O background usado por Jesus nesse contexto inicial tem a ver, especialmente com os falsos apóstolos – ver Apocalipse 2:2. A mentira é algo que está destinada, do ponto de vista escatológico — i.e. do ponto de vista das últimas coisas — a desaparecer por completo – ver Apocalipse 14:5. A mentira estará definitivamente banida do estado eterno de pureza e santidade – ver Apocalipse 21:27. Quanto aos mentirosos, o destino dos mesmos é ficarem de fora do estado de bem aventurança eterna, em grande tormento e angústia – ver Apocalipse 21:8; 22:14—15.

5. Conceitos Advindos da Igreja Primitiva.

Curiosamente, não existe nenhum fato novo no período imediato ao dos apóstolos, bem como no período que veio logo em seguida – pós-pós apostólico. Na obra conhecida como “O Pastor de Hermas”, que é um trabalho literário cristão do século II d.C., a verdade é considerada como um dom de Deus, enquanto que mentira é considerada como um verdadeiro “assalto” contra a verdade. Durante esse período o conceito de verdade ligou-se profundamente ao representado pela expressão “fidelidade”, enquanto que o da mentira passou a ser visto como prova de infidelidade. Para os cristãos dos séculos II e III d. C. ser verdadeiro era o mesmo que ser fiel a Deus, às Escrituras e aos irmãos na comunidade dos cristãos. O mentiroso, por sua vez, era considerado infiel tanto a Deus, quanto às Escrituras, bem como à comunidade dos irmãos. Desse modo, a mentira funcionava como uma espécie de traição da pior espécie contra Deus, Sua Palavra e o próximo.

6. Implicações Teológicas.

O ato de mentir, como vimos, é condenado em toda extensão da Escrituras Sagradas – Antigo e Novo Testamento. Satanás é designado como o “pai da mentira” – ver João 8:44. E os emissários de Satanás são em sua maioria seres humanos que promovem e ensinam mentiras – ver 1 Timóteo 4:2. Toda mentira é, em última análise, uma mentira proferida contra o próprio Deus – ver Atos 5:4.

O verbo grego ψεύδω – pseúdo – só aparece no Novo Testamento na “voz-média”. A voz média no grego expressa uma ação que o sujeito realiza em si mesmo, para si mesmo ou de si mesmo. Nesse sentido, a voz média no grego tem alguma semelhança com a voz reflexiva em português. Isso quer dizer que, ao mentir, o indivíduo está enganando a si mesmo achando que está levando alguma vantagem, quando está, de fato, imitando o Diabo e indo para o inferno – ver Mateus 25:41.

No Antigo Testamento a mentira é condenada nos chamados Dez Mandamentos – ver Êxodo 20:16; Levítico19:11—12. Em tempos posteriores a mentira é identificada com a idolatria – ver Isaías 44:20, Jeremias 10:14. De forma especial a mentira é apresentada na Bíblia como muito bem relacionada com a adoração praticada pelas religiões pagãs – ver Romanos 1:25. Não temos dúvidas de que a maior mentira que é confrontada pelos ensinamentos da Escrituras, especialmente no Antigo Testamento, é a idolatria. De modo semelhante, a mensagem dos falsos profetas e dos adivinhadores é tão enganosa quanto a própria mentira – Isaías 9:15; Jeremias 14:14; Ezequiel 13:6—7. Já no Novo Testamento a mentira monumental é negar que Jesus é o Cristo – ver 1 João 2:22. Honestidade pura e simples é a virtude cardeal do seguidor de Jesus e o ato de mentir é o pecado mais básico que se opõe a esse tipo de vida – ver Colossenses 3:9.

7. Dificuldades Representadas Pela Mentira.

Em primeiro lugar, nós precisamos reafirmar que não existe nenhuma dúvida de que, do ponto de vista das Escrituras, o ato de mentir é condenado de forma absoluta. Não existe desculpa aceitável para tal prática e a verdade nunca é relativa, nem pode ser relativizada através de frase, tais como: “cada pessoa tem sua própria verdade”. Todavia, mesmo dentro da Escrituras Sagradas nós vamos encontrar situações desconfortáveis envolvendo o ato de mentir. Algumas vezes nós nos deparamos com personagens bíblicos – verdadeiros heróis da fé – envolvidos no pecado da mentira. É o caso, por exemplo, de Abraão em Gênesis 20:2; de Davi em 1 Samuel 21:1—2 e de Pedro em Mateus 26:72. Essas atitudes não são mais aceitáveis nessas vidas do que em quaisquer outras vidas. Mas devemos notar que a mesma se constituía em algo esporádico e não caracterizava o padrão de vida desses personagens.

Por outro lado nós podemos notar que nenhum tipo de condenação é feita contra Raabe, a prostituta de Jericó, que escondeu e protegeu os espiões de Israel. Não apenas isso, mas ela veio se tornar tataravó do rei Davi – ver Josué 2:3—6, conferir com Mateus 1:5—6; Hebreus 11:31; Tiago 2:25. A única explicação possível que podemos oferecer aqui é aquilo que os teólogos têm chamado de hierarquia das leis. De acordo com essa hierarquia, a maior lei que existe e que precisa ser respeitada a todo custo é: a lei da preservação da vida. Essa é a lei mais importante que existe e qualquer atitude, até mesmo a mentira, pode ser justificada se o propósito de qualquer ato da nossa parte for o de preservar a vida de uma pessoa. Esse é o caso delicado em que um cirurgião se encontra diante de uma situação onde ele precisa tomar a decisão entre salvar a vida da futura mãe ou do futuro bebê. A norma, geralmente adotada nesses casos é:

• Se a mãe pode sobreviver ao procedimento, então ela tem a prioridade no processo de preservação, enquanto a criança é sacrificada.

• Se a mãe não pode sobreviver ao procedimento, então ela é sacrificada a favor da preservação da vida do bebê.

Mas no Antigo Testamento também encontramos situações cuja explicação não é tão fácil, como quando Micaías diz para o rei Acabe que o próprio Deus enviou um espírito mentiroso para falar através da boca dos falsos profetas – ver 1 Reis 22:23.

No Novo Testamento Paulo diz que Deus mesmo envia uma operação do erro para que os seres humanos dêem crédito à mentira – ver 2 Tessalonicenses 2:9—11. Nesse contexto devemos notar os seguintes fatos:

• Mesmo sabendo que Deus não mente, Ele permite que outros façam uso de mentiras e, algumas vezes, o próprio Deus usa essas mentiras para fazer avançar Seus planos.

• Todos esses que são “usados” por Deus desse modo, são pessoas que já se comprometeram a cumprir esse papel em suas próprias vidas.

Esses exemplos, entretanto, levantam questões éticas relevantes ao nosso comportamento nos dias de hoje. É possível lançarmos mão do ato de mentir como um expediente onde os fins justificam os meios? É possível que existam situações em que o estigma da mentira, como pecado, pode ser removido? É lícito um médico confortar alguém dando uma “falsa” esperança para um paciente terminal, dizendo que ele vai se recuperar? É lícito um marido mentir acerca do paradeiro de seus entes queridos para um assaltante? É certo um governo mentir para sua própria população, como fez o governo de George Walker Bush, alegando que o Iraque possuía Armas de Destruição em Massa visando justificar invadir aquele país?

O fato é que todos aqueles que mantêm que a verdade é relativa, e que pode ser alterada de acordo com as necessidades, o tempo e o lugar, estão naturalmente inclinados a negar qualquer coisa que se pareça com uma condenação absoluta do ato de mentir. Para esses, cada situação exige uma decisão distinta, pois possui seus próprios méritos. A ética está baseada na situação e não na revelação. Dessa maneira, nenhuma situação pode ser condenada ou aprovada “a priori”. Já vimos que a lei do amor e da auto defesa podem justificar a mentira, em certas situações específicas – quando existe o risco da morte de alguma pessoa. Em alguns livros de ética lidos por esse autor – ver lista abaixo3 – uma situação ficou bastante evidente: todos os autores, sem exceção, tentam assumir o lugar de Deus julgando as intenções e os princípios envolvidos em cada situação. Mas as Escrituras Sagradas nos ensinam a existência de valores absolutos. Todavia, diante de circunstâncias extenuantes ou extremas, Deus permite um “meio termo” entre o absolutamente certo – falar a verdade - e o absolutamente errado – falar uma mentira. Mas nesses casos, apenas Deus poderá dar a última palavra quanto ao erro ou acerto da decisão tomada. Quando pensamos dessa maneira – talvez a mais honesta de todas – devemos considerar que Deus irá levar em conta:

• É a afirmativa mentirosa deliberada?

• É a afirmativa mentirosa feita com a clara intenção de enganar?

• Qual é o propósito da afirmação mentirosa: 1. Causar um engano malicioso e prejudicial para a outra pessoa? 2. Provocar uma situação onde o mentiroso possa se aproveitar das circunstâncias para seu próprio benefício?

• O caráter e as intenções daquele a quem a mentira ou mentiras são dirigidas, são justificativas suficiente para serem usadas como uma forma de defesa?

• É possível separarmos a falta polida de mentir, por uma questão de “educação”, daquela mentira que não pode ser moralmente justificável?

Temos que admitir que nunca podemos dizer que o ato de mentir é algo correto, mas é certo que, algumas vezes, o ato de mentir poderá ser considerado “menos” errado, em algumas situações, do que em outras.

8. O Paradoxo do Mentiroso.

Esse paradoxo, atribuído a Epimênides de Creta, foi depois repetido por Eubulides. O paradoxo existe ao redor da afirmação que diz: “Todo cretense é mentiroso”. Se essa frase foi proferida por um cretense, então temos que nos perguntar: são mesmo todos os cretenses mentirosos ou não? O próprio apóstolo Paulo citou essa frase em Tito 1:12 dizendo que a mesma foi pronunciada por um profeta. Então, se esse profeta era um cretense podemos ou não acreditar em suas palavras?
Outro paradoxo é de cunho filosófico, onde uma afirmação está correta, do ponto de vista gramatical, mas está completamente destituída de lógica em sua formulação. Isso acontece quando alguém afirma: “Eu estou mentindo”. Tal afirmação só pode ser verdadeira se for falsa, e será falsa apenas em caso de ser verdadeira. Tal afirmação não faz nenhum sentido, mas serve para provar que uma frase gramaticalmente correta pode ser tornar em uma afirmação completamente absurda.

9. Consequências do Ato de Mentir.

Biblicamente falando as penas impostas sobre as mentiras e os mentirosos são bastante severas. Algumas vezes, a consequência é fazer o mentiroso sofrer o mal que ele mesmo inventou ao proferir palavras mentirosas – ver Deuteronômio 19:18—19. Outras vezes o castigo vem em forma do mentiroso receber, em si mesmo, algo do que outra pessoa foi libertada – ver 2 Reis 5:19b—27.
Além disso, o mentiroso se desqualifica a si mesmo de poder adorar a Deus como convém – ver Salmos 24:3—4; João 4:23—24. Por fim, o mentiroso contumaz, que mente sempre por causa da sua natureza corrompida e não regenerada, acaba desperdiçando qualquer possibilidade de herdar as promessas referentes à vida eterna – ver Apocalipse 21:27; 22:15.

A consequência mais terrível da mentira é que ela destrói nosso relacionamento com Deus e uns com os outros de um modo tal, que muitas vezes, a reconciliação se torna impossível.

“Temos que expor aqueles que prestam falso testemunho como falsas testemunhas que são. E temos que fazê-lo de maneira direta e franca. Vamos chamá-los pelo que são: mentirosos. Grandes mentirosos”4.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis 

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Desde já agradecemos a todos.


NOTAS:

1. Perjúrio - Juramento falso. O ato de falar falsamente quando sob juramento. O Cristão não precisa jurar, pois sua palavra dever ser suficiente – ver Tiago 5:12.

2. Ofender por ação ou dito infamante; dirigir injúria ou insulto a; difamar, insultar, desonrar, infamar.

3. 1 – What Does It Mean to Tell The Truth por Dietrich Bohhoeffer no livro Ethics. 2 – Ethics in a Christian Context por Paul L. Lehmann. 3 – On a Supposed Right to Lie from Altruistic Motives por Immanuel Kant em Kant´s Ethical Writtings.

4. Franken, Al. Mentiras e os Grandes Mentirosos que as Contam. W11 Editora Ltda, São Paulo, 2004.

Bibliografia

Chanplin, R. N. Enciclopédia da Bíblia, Teologia e Filosofia – Volume 4. Editora Hagnos, São Paulo, 6ª Edição, 2002.

Eliachar, Leon. O Homem ao Cubo. Editora Globo, Porto Alegre, 1966.

Harris, R. Laird, Jr, Gleason L. Archer, Waltke, Bruce K. Theological Wordbook of the Old Testament Volumes 1-2. Moody Press, Chicago, 1980.

Kittel, Gerhard, e Friedrich, Gerhard. Theological Dictionary of the New Testament Volume IX. Traduzido do alemão por Geoffrey W. Bromiley, W. B. Eerdmans, Grand Rapids, 1974.

Tenney, Merrril C. Editor Geral. The Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible in Five Volumes. Zondervan Puvlishing House, Grand Rapids, Terceira Edição 1978.

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