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segunda-feira, 23 de maio de 2016

A SEMIÓTICA E O NOVO LOGO DO GOVERNO FEDERAL DE TEMER


Assim que iniciei meu curso de jornalismo tomei conhecimento da existência duma matéria chamada Semiótica, por meio da leitura dum livro de Umberto Eco, intitulado: A Estrutura Ausente.[1] A semiótica é assim definida pelo dicionário Dicio on line: s.f. Ciência que analisa todos os sistemas de comunicação presentes numa sociedade. Teoria de representação que, criada por Charles S. Pierce[2], considera os signos em seus modos de representações e de manifestações. Quinze anos após aquele início no curso de jornalismo, Joseph Campbel nos ajudou a entender a força das imagens e o que representam em sua obra clássica The Power of MythI.[3]



Nesses últimos dias tive minha atenção chamada pelo brilhante artigo escrito pelo Dr. Wilson Roberto Vieira Ferreira no qual analisa as mudanças realizadas no logo do governo federal pelo presidente interino Michel Temer. Segue o artigo:

Semiótica revela anomalias no logo do governo Temer
 Wilson Roberto Vieira Ferreira

Discursos podem mentir, mas as imagens não. Talvez porque a linguagem visual esteja próxima da lógica dos sonhos, ela pode revelar atos falhos e sintomas por trás dos simbolismos políticos e ideológicos. A marca visual criada pelo “novo” governo Temer pelo marqueteiro Elsinho Mouco obviamente é dominada por alusões aos simbolismos da bandeira nacional. Mas no meio do azul, verde, amarelo e branco saltam atos falhos análogos aos sintomas da psicanálise: estranhos domínios de cores, degradês e sólidos geométricos que, comparando as sucessivas marcas de governos anteriores, de Collor a Dilma, tornam-se “anomalias”. Quando a propaganda política dá o salto para convencer corações e mentes pode cair e quebrar o pescoço, revelando as verdadeiras intenções escondidas pelos símbolos.

Discursos e documentos políticos são repletos de tergiversações, eufemismos, camadas e mais camadas de retórica que escondem as verdadeiras intenções. O que torna a linguagem verbal opaca e de difícil interpretação ou desconstrução.

Ao contrário, produtos audiovisuais e imagens deixam transparecer atos falhos, índices, pistas que se revelam verdadeiros sintomas que podem traduzir o espírito do seu tempo.
Talvez porque as imagens trabalham com a mesma lógica dos sonhos: metáforas e metonímias ou “condensações e deslocamentos”, como Freud descrevia na sua interpretação dos sonhos.  Qualquer imagem (de fotografias ou pinturas até logotipos ou imagens publicitárias) opera por essa lógica onírica para conquistar corações e mentes. E nesse salto de propaganda para seduzir e convencer pode cair e quebrar o pescoço, deixando revelar atos falhos onde são reveladas as verdadeiras intenções.

Como toda peça de propaganda política, a marca ou identidade visual do “novo” governo do vice — agora-presidente-interino — em exercício, Michel Temer, idealizada pelo marqueteiro Elsinho Mouco também nos mostra essa dupla lógica da imagem: quer ser uma metáfora, um símbolo de uma plataforma política. Mas também revela sintomas, deslocamentos metonímicos, atos falhos que demonstram intenções mais profundas – aquilo que o discurso político sempre quer esconder.


Por que o verde desapareceu?

Como simbolismo, a marca criada por Mouco trabalha com elementos da bandeira nacional como o círculo celeste e a faixa com o lema “ordem e progresso”. Como propaganda política, quer evidentemente transferir a dignidade dos simbolismos republicanos para um novo governo tornando suas intenções mais “nobres e legitimas”. Assim como todas as outras marcas dos governos que antecederam, de Collor a Dilma.

Duas coisas chamam inicialmente a atenção: primeiro, o desaparecimento da cor verde (limitada à letra do lema “ordem e progresso”) pela primeira vez no histórico das marcas dos sucessivos governos que sempre contemplaram todas as cores da bandeira nacional de forma equilibrada – como podemos observar na série abaixo; e segundo, o domínio na composição da cor azul em degradê e do círculo celeste transformado em sólido geométrico que parece pairar muito próximo sobre a palavra “BRASIL” desenhada em extrusão (convertido de 2D para 3D), em perspectiva como se estivesse colocada em uma superfície sobre a qual paira o sólido.


Acima: governos Collor e Itamar Franco; no centro, governo FHC; abaixo governos Lula e Dilma

O interessante na percepção em semiótica são as chamadas “dominantes” seja de cor, textura, forma. Nesse caso temos a dominante da cor azul em degradê. Por que esse desequilíbrio na aplicação das cores da bandeira nacional olhando a série histórica das marcas? Estamos diante de um sintoma?

No simbolismo das cores o azul é a cor masculina – e ainda no contraste com o branco passaria os significados de “inteligência”, “racionalidade” e “concentração”, significados que no âmbito do senso comum seriam qualidades exclusivamente masculinas, contrastando com a “emotividade” feminina – leia HELLER, Eva, Psicologia das Cores, GG Brasil, 2012.

A nostalgia retro-futurista

Muitos analistas veem no ministério formado por Temer um retrocesso – eminentemente masculino, branco e rico, num país marcado pela diversidade étnica. Coincidência ou sintoma? O processo criativo da marca inconscientemente expressou essa realidade?

Mas se a cor em si é um simbolismo, o degradê é uma metonímia: dá uma aspecto 3D a dimensão plana onde repousam as palavras “Brasil Governo Federal” e confere volume à esfera azul. Se o azul expressaria um “retrocesso” (masculinização e homogeneidade étnica), esse efeito em 3D lembra outra coisa antiga: a estética “platinada”, metálica e artificial de Hans Donner.

A primeira impressão que se tem quando bate os olhos na marca é a velha identidade da TV Globo que marcou a emissora por décadas criada pelo designer austríaco nos anos 1970: mulheres metálicas e sólidos geométricos voando em círculos no vazio onde o efeito em degrade dava um aspecto de maior profundidade para o movimento das formas.

Nos anos 1970 os movimentos futuristas de esferas, cones e pirâmides na seminal computação gráfica das vinhetas criadas por Hans Donner dava uma atmosfera de “modernidade” para uma nova classe média que surgia no chamado “Brasil Grande” no Milagre Econômico da Ditadura Militar. 

O retro-futurismo de Hans Donner


Depois de décadas esse retro-futurismo tornou-se tão brega que a própria TV Globo abandonou a identidade visual space opera de Donner adotando uma estética mais “orgânica”: logos com desenhos em contornos estilo “hand shop”, bancadas e cenários dos programas abandonando o visual espaçonave para adotar pisos que simulam tábuas de madeira e uma paleta de cores sem mais o brilho metálico.

A classe média já não era mais a mesma dos anos 1970, mas agora a da Classe C com novos hábitos de consumo representado pelo “funk ostentação”.

As próprias marcas oficiais dos governos Lula e Dilma participaram dessa mudança visual quando adotaram uma paleta de cores pastéis com uma variedade cromática que ia além das cores da bandeira nacional para expressar a variedade étnica do País.

A marca que já nasceu velha

Ato falho no processo criativo de Elsinho Mouco? Uma identidade visual que já nasceu velha assim como o “novo” governo?

O logotipo parece dialogar com as pessoas que compartilham dessa mesma linguagem ultrapassada: aquelas que cresceram nas décadas de hegemonia global cuja visão de mundo foi moldada até hoje pelos telejornais. Mais do que isso, uma geração cuja mentalidade é formada pela tradicional mídia de massas. Bem diferente das novas gerações que abandonam a TV para trocá-las pelas mídias de convergência – smartphones, tablets e lap tops.

Temer dialoga com essa velha geração que quer ver novamente o País ser colocado nos trilhos dos quais jamais deveria ter saído – do neodesenvolvimentismo da era Lula para o desenvolvimento neoliberal de dependência externa. Da frigideira para cair no fogo.


Mas o que talvez seja mais perturbador na identidade visual de Elsinho Mouco é que diante de tantos sintomas e atos falhos talvez possa também expressar uma sinistra profecia: o lema de origem positivista “Ordem e Progresso” (da filosofia do Positivismo do século XIX de Augusto Comte até a influência na alta oficialidade do Exército Brasileiro no movimento Republicano) pairando sobre a palavra “Brasil”: para haver progresso é necessário haver ordem – uma ideologia de péssimas lembranças como a Ditadura Militar onde era necessário haver ordem a qualquer preço, mesmo que para isso fosse necessária a repressão violenta, perseguição e tortura.

A esfera (elemento visualmente pesado) paira sobre um bloco visualmente mais leve (as palavras “Brasil Governo Federal) em 3D fino como folha de papel. Além de subverter uma técnica Gestalt em comunicação visual (as formas mais “pesadas” ficam abaixo para ser base das formas mais leves) passa a ideia de uma bola de ferro “esmagando” ou “oprimindo”.

E ainda dentro do estilo retro-futurismo da marca do “novo” Governo, as palavras “Brasil Governo Federal” em perspectiva cria a imediata associação metonímica com os créditos iniciais da velha trilogia Star Wars. Mais um ato falho? A marca do “Império do Mal” e Temer o novo Darth Vader?

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.


[1] Eco, Umberto. A Estrutura AusenteEditora Perspectiva, São Paulo, 7ª impressão - 4ª reimpressão, 2013.

[2]  Peirce, Charles S. Semiótica. Editora Perspectiva, São Paulo, 4ª impressão - 2ª reimpressão, 2015.

[3] Campbel, Joseph and Moyers, Bill.  The Power of Myth. Doubleday, Garden Grove, 1988.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

A DITADURA MILITAR E O PAPEL DAS LIDERANÇAS EVANGÉLICAS



O artigo abaixo foi publicado pelo site da Revista ISTOÉ. O mesmo fala da participação ativa das igrejas, principalmente históricas – Metodista, Batistas e Presbiteriana — nas perseguições, torturas e mortes de crentes. Todos os que têm sede e fome de justiça deve sempre insistir para que toda essa verdadeira calamidade seja revelada para o bem de todos.

Os evangélicos e a ditadura militar

Documentos inéditos do projeto Brasil: Nunca Mais — até agora guardados no Exterior — chegam ao País e podem jogar luz sobre o comportamento dos evangélicos nos anos de chumbo

Por Rodrigo Cardoso

No primeiro dia foram oito horas de torturas patrocinadas por sete militares. Pau de arara, choque elétrico, cadeira do dragão e insultos, na tentativa de lhe quebrar a resistência física e moral. “Eu tinha muito medo do que ia sentir na pele, mas principalmente de não suportar e falar. Queriam que eu desse o nome de todos os meus amigos, endereços... Eu dizia: ‘Não posso fazer isso.’ Como eu poderia trazê-los para passar pelo que eu estava passando?” Foram mais de 20 dias de torturas a partir de 28 de fevereiro de 1970, nos porões do Destacamento de Operações de Informações — Centro de Operações de Defesa Interna (DOI—Codi), em São Paulo. O estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP) Anivaldo Pereira Padilha, da Igreja Metodista do bairro da Luz, tinha 29 anos quando foi preso pelo temido órgão do Exército. Lá chegou a pensar em suicídio, com medo de trair os companheiros de igreja que comungavam de sua sede por justiça social. Mas o mineiro acredita piamente que conseguiu manter o silêncio, apesar das atrocidades que sofreu no corpo franzino, por causa da fé. A mesma crença que o manteve calado e o conduziu, depois de dez meses preso, para um exílio de 13 anos em países como Uruguai, Suíça e Estados Unidos levou vários evangélicos a colaborar com a máquina repressora da ditadura. Delatando irmãos de igreja, promovendo eventos em favor dos militares e até torturando. Os primeiros eram ecumênicos e promoviam ações sociais e os segundos eram herméticos e lutavam contra a ameaça comunista. Padilha foi um entre muitos que tombaram pelas mãos de religiosos protestantes.


O metodista só descobriu quem foram seus delatores há cinco anos, quando teve acesso a documentos do antigo Sistema Nacional de Informações: os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, já falecidos, aos quais era subordinado em São Paulo. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém”, diz Padilha, que não chegou a se surpreender com a descoberta. “Seis meses antes de ser preso, achei na mesa do pastor José Sucasas uma carteirinha de informante do Dops”, afirma o altivo senhor de 71 anos, quatro filhos, entre eles Alexandre, ex-ministro da Saúde da Presidência de Dilma Rousseff, que ele só conheceu aos 8 anos de idade. Padilha teve de deixar o País quando sua então mulher estava grávida do ministro. Grande parte dessa história será revolvida a partir da terça-feira 14, quando, na Procuradoria Regional da República, em São Paulo, acontecerá a repatriação das cópias do material do projeto Brasil: Nunca Mais. Maior registro histórico sobre a repressão e a tortura na ditadura militar, o material, nos anos 80, foi enviado para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização ecumênica com sede em Genebra, na Suíça, e para o Center for Research Libraries, em Chicago (EUA), como precaução, caso os documentos que serviam de base do trabalho realizado no Brasil caíssem nas mãos dos militares. De Chicago, virá um milhão de páginas microfilmadas referentes a depoimentos de presos nas auditorias militares, nomes de torturadores e tipos de tortura. A cereja do bolo, porém, chegará de Genebra — um material inédito composto por dez mil páginas com troca de correspondências entre o reverendo presbiteriano Jaime Wright (1927 – 1999) e o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, que estavam à frente do Brasil: Nunca Mais, e as conversas que eles mantinham com o CMI.


Somente em 1968, quatro anos após a ascensão dos militares ao poder, o catolicismo começou a se distanciar daquele papel que tradicionalmente lhe cabia na legitimação da ordem político-econômica estabelecida. Foi aí, quando no Brasil religiosos dominicanos como Frei Betto passaram a ser perseguidos, que a Igreja assumiu posturas contrárias às ditaduras na maioria dos países latino-americanos. Os protestantes, por sua vez, antes mesmo de 1964, viveram uma espécie de golpe endógeno em suas denominações, perseguindo a juventude que caminhava na contramão da ortodoxia teológica. Em novembro de 1963, quatro meses antes de o marechal Humberto Castelo Branco assumir a Presidência, o líder batista carismático Enéas Tognini convocou milhares de evangélicos para um dia nacional de oração e jejum, para que Deus salvasse o País do perigo comunista. Aos 97 anos, o pastor Tognini segue acreditando que Deus, além de brasileiro, se tornou um anticomunista simpático ao movimento militar golpista. “Não me arrependo (de ter se alinhado ao discurso dos militares). Eles fizeram um bom trabalho, salvaram a Pátria do comunismo”, diz.


Assim, foi no exercício de sua fé que os evangélicos — que colaboraram ou foram perseguidos pelo regime — entraram na alça de mira dos militares. Enquanto líderes conservadores propagavam o discurso da Guerra Fria em torno do medo do comunismo nos templos e recrutavam formadores de opinião, jovens batistas, metodistas e presbiterianos, principalmente, com ideias liberais eram interrogados, presos, torturados e mortos. “Fui expulso, com mais oito colegas, do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1962, porque o nosso discurso teológico de salvação das almas passava pela ética e a preocupação social”, diz o mineiro Zwinglio Mota Dias, 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, da Penha, no Rio de Janeiro. Antigo membro do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que promovia reuniões para, entre outras ações, trocar informações sobre os companheiros que estavam sendo perseguidos, ele passou quase um mês preso no Doi-Codi carioca, em 1971. “Levei um pescoção, me ameaçavam mostrando gente torturada e davam choques em pessoas na minha frente”, conta o irmão do também presbiteriano Ivan Mota, preso e desaparecido desde 1971. Hoje professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dias lembra que, enquanto estava no Doi-Codi, militares enviaram observadores para a sua igreja, para analisar o comportamento dos fiéis.


Segundo Rubem Cesar Fernandes, 68 anos, antropólogo de origem presbiteriana, preso em 1962, antes do golpe, por participar de movimentos estudantis, os evangélicos carregam uma mancha em sua história por convidar a repressão a entrar na Igreja e perseguir os fiéis. “Os católicos não fizeram isso. Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”, diz ele, considerado “elemento perigoso” no templo que frequentava em Niterói (RJ). “Pastores fizeram uma lista com 40 nomes e entregaram aos militares. Um almirante que vivia na igreja achava que tinha o dever de me prender. Não me encontrou porque eu estava escondido e, depois, fui para o exílio”, conta o hoje diretor da ONG Viva Rio.

O protestantismo histórico no Brasil também registra um alto grau de envolvimento de suas lideranças com a repressão. Em sua tese de pós-graduação, defendida na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Daniel Augusto Schmidt teve acesso ao diário do irmão de José, um dos delatores de Anivaldo Padilha, o bispo Isaías. Na folha relativa a 25 de março de 1969, o líder metodista escreveu: “Eu e o reverendo Sucasas fomos até o quartel do Dops. Conseguimos o que queríamos, de maneira que recebemos o documento que nos habilita aos serviços secretos dessa organização nacional da alta polícia do Brasil.” Dono de uma empresa de consultoria em Porto Alegre, Isaías Sucasas Jr., 69 anos, desconhecia a história da prisão de Padilha e não acredita que seu pai fora informante do Dops. “Como o papai iria mentir se o cara fosse comunista? Isso não é delatar, mas uma resposta correta a uma pergunta feita a ele por autoridades”, diz. “Nunca o papai iria dedar um membro da igreja, se soubesse que havia essas coisas (torturas).” Em 28 de agosto de 1969, um exemplar da primeira edição do jornal “Unidade III”, editado pelo pai do ex-ministro da Saúde, foi encaminhado ao Dops. Na primeira página, há uma anotação: “É preciso ‘apertar’ os jovens que respondem por este jornal e exigir a documentação de seu registro porque é de âmbito nacional e subversivo.” Sobrinho do pastor José, o advogado José Sucasas Hubaix, que mora em Além Paraíba (MG), conta que defendeu muitos perseguidos políticos durante a ditadura e não sabia que o tio havia delatado um metodista. “Estou decepcionado. Sabia que alguns evangélicos não faziam oposição aos militares, mas daí a entregar um irmão de fé é uma grande diferença.”


Nenhum religioso, porém, parece superar a obediência canina ao regime militar do pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército que à noite torturava os presos e de dia visitava celas distribuindo o “Novo Testamento”. O teólogo Leonildo Silveira Campos, que era seminarista na Igreja Presbiteriana Independente e ficou dez dias encarcerado nas dependências da Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo, em 1969, não esquece o modus operandi de Pontuschka. “Um dia bateram na cela: ‘Quem é o seminarista que está aqui?’”, conta ele, 21 anos à época. “De terno e gravata, ele se apresentou como capelão e disse que trazia uma “Bíblia” para eu ler para os comunistas f.d.p. e tentar converter alguém.” O capelão chegou a ser questionado por um encarcerado se não tinha vergonha de torturar e tentar evangelizar. Como resposta, o pastor batista afirmou, apontando para uma pistola debaixo do paletó: “Para os que desejam se converter, eu tenho a palavra de Deus. Para quem não quiser, há outras alternativas.” Segundo o professor Maurício Nacib Pontuschka, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, seu tio, o pastor-torturador, está vivo, mas os dois não têm contato. O sobrinho também não tinha conhecimento das histórias escabrosas do parente. “É assustador. Abomino tortura, vai contra tudo o que ensino no dia a dia”, afirma. “É triste ficar sabendo que um familiar fez coisas horríveis como essa.”

Professor de sociologia da religião na Umesp, Campos, 64 anos, tem uma marca de queimadura no polegar e no indicador da mão esquerda produzida por descargas elétricas. “Enrolavam fios na nossa mão e descarregavam eletricidade”, conta. Uma carta escrita por ele a um amigo, na qual relata a sua participação em movimentos estudantis, o levou à prisão. “Fui acordado à 1h por uma metralhadora encostada na barriga.” Solto por falta de provas, foi tachado de subversivo e perdeu o emprego em um banco. A assistente social e professora aposentada Tomiko Born, 79 anos, ligada a movimentos estudantis cristãos, também acredita que pode ter sido demitida por conta de sua ideologia. Em meados dos anos 60, Tomiko, que pertencia à Igreja Evangélica Holiness do Brasil, fundada pelo pai dela e outros imigrantes japoneses, participou de algumas reuniões ecumênicas no Exterior. Em 1970, de volta ao Brasil, foi acusada de pertencer a movimentos subversivos internacionais pelo presidente da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, onde trabalhava. Não foi presa, mas conviveu com o fantasma do aparelho repressor. “Meu pesadelo era que o meu nome estivesse no caderninho de endereço de alguma pessoa presa”, conta.

Parte da história desses cristãos aterrissará no Brasil na terça-feira 14, emaranhada no mais de um milhão de páginas do Projeto Brasil: Nunca Mais repatriadas pelo Conselho Mundial de Igrejas. Não que algum deles tenha conseguido esquecer, durante um dia sequer, aqueles anos tão intensos, de picos de utopia e desespero, sustentados pela fé que muitos ainda nutrem. Para seguir em frente, Anivaldo Padilha trilhou o caminho do perdão – tanto dos delatores quanto dos torturadores. Em 1983, ele encontrou um de seus torturadores em um baile de Carnaval. “Você quis me matar, seu f.d.p., mas eu estou vivo aqui”, pensou, antes de virar as costas. Enquanto o mineiro, que colabora com uma entidade ecumênica focada na defesa de direitos, cutuca suas memórias, uma lágrima desce do lado direito de seu rosto e, depois de enxuta, dá vez para outra, no esquerdo. Um choro tão contido e vívido quanto suas lembranças e sua dor. 

O artigo original do site da ISTOÉ poderá ser visto por meio desse link aqui:


Alexandros Meimaridis 

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

NOVO LIVRO SOBRE A SENHORA APARECIDA BATE RECORDES DE VENDAS


SANTA PARTIDA A estátua de  Nossa Senhora hoje – e da forma como chegou para restauração, em 1978. Foi quase um milagre (Foto: Divulgação)

O artigo abaixo foi publicado no site da Revista Época e é de autoria de Ivan Martins e André Negri.

"Aparecida", de Rodrigo Alvarez: o milagre da santa quebrada

Ao contar a história de Aparecida, a obra revela que a estátua de 300 anos quase foi destruída – além de ser usada e abusada por políticos

IVAN MARTINS E ANDRÉ NEGRI

SANTA PARTIDA A estátua de  Nossa Senhora hoje – e da forma como chegou para restauração, em 1978. Foi quase um milagre (Foto: divulgação )
SANTA PARTIDA
A estátua de Nossa Senhora hoje acima – e da forma como chegou para restauração, em 1978. Foi quase um milagre;

Era noite de terça-feira, 16 de maio de 1978. No interior da Basílica de Aparecida, a missa das 8 horas estava em curso. Quando o padre Antônio Lino começou a distribuir as hóstias, acabou a luz. Na confusão que se seguiu, um vulto correu na direção do altar, onde estava a imagem religiosa mais importante da história do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Entre gritos do padre, que percebeu o movimento, o invasor saltou 2 metros e 20 centímetros de altura e tentou arrancar a santa do cofre de ouro onde ela estava, de porta aberta. Foi barrado por três folhas de vidro, que a protegiam. Pulou de novo e esmurrou a proteção. Na terceira vez, Rogério Marcos de Oliveira, de 19 anos, conseguiu arrancar do oratório a estátua de 36 centímetros de altura. A cabeça da santa saiu voando e se espatifou no chão. A luz voltou subitamente, como partira. O assaltante, dias depois posto num hospício, saiu caminhando lentamente para a saída da igreja. Levava na mão ensanguentada a santa de barro sem cabeça. Quando um guarda tentou detê-lo, a estátua caiu e se rompeu em vários pedaços.

Assim começa uma sequência eletrizante de capítulos do livro Aparecida (Globo Livros, 239 páginas), de Rodrigo Alvarez, que conta a história da padroeira do Brasil. Uma imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição foi encontrada por três pescadores no fundo do Rio Paraíba do Sul, perto da vila de Guaratinguetá, em 1717. Assim surgiu Nossa Senhora Aparecida. Desde então, a devoção por ela cresceu, em paralelo à formação do Brasil. “Nossa Senhora é parte da identidade brasileira”, afirma Alvarez, de 40 anos, correspondente da TV Globo no Oriente Médio. “Aparecida foi um símbolo do Brasil muito antes do samba, do futebol, da bandeira e mesmo da palavra brasileiro, que não existia quando ela foi descoberta. Tem uma legitimidade de 300 anos, que nenhum outro símbolo nacional tem.”

Lançado há quatro semanas, Aparecida já vendeu mais de 100 mil exemplares. Lidera as listas de mais vendidos na categoria de não ficção. O livro começou a nascer há quatro anos, depois de uma longa temporada de Alvarez  nos Estados Unidos. Ele queria escrever sobre religião, buscava um tema relevante ao Brasil, se interessou por Aparecida. “Descobri que não havia um livro bom que contasse os 300 anos de história da imagem”, afirma. Ao mergulhar no assunto, percebeu que a história da santa se misturava à própria história do Brasil. Fora abusada no Império, ignorada nos primeiros anos da República, usada por Getúlio Vargas para unir o país, nos anos 1930, e pela ditadura militar para se legitimar, nos anos 1960. Dessa mistura de história religiosa e política nasceu o livro.

Enquanto ele era escrito, Alvarez, num golpe do destino, foi convidado a trabalhar em Jerusalém. Desde 2013, vive com a mulher e os três filhos a 1 quilômetro e meio do local onde a tradição diz que Cristo foi crucificado. De manhã, leva os bebês para passear no Santo Sepulcro, como se estivesse num parquinho. “Hoje, me emociono mais com a religião”, diz ele. “Aqui, está tudo vivo. É como se tivesse acontecido ontem.”

O livro de Alvarez ganha tons de thriller policial ao narrar o ataque à imagem e sua dramática reconstrução, em 1978 – assim como o sequestro que se seguiu. Depois de dizer ao público que a santa seria restaurada por especialistas do Vaticano, os padres do santuário de Aparecida levaram a estátua às escondidas ao Museu de Arte de São Paulo, o Masp. Lá, sob intenso sigilo, os 2 quilos e 550 gramas de material consagrado foram entregues aos cuidados de uma jovem artista plástica chamada Maria Helena Chartuni, a restauradora. Mais de 30 anos depois, ela contou a Alvarez que quase teve um ataque de pânico quando viu o que lhe cabia fazer. Numa caixa forrada de pano branco, jaziam dezenas de pedaços do que antes fora a imagem. A cabeça, praticamente só lascas e pó, estava numa caixinha ainda menor, para além de qualquer possibilidade de restauração. A situação exigia um milagre.

 FÉ E HISTÓRIA

FÉ E HISTÓRIA O Santuário de Aparecida e, no alto, o escritor Alvarez com seu livro. A santa é o  símbolo mais antigo do Brasil (Foto: Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens e divulgação)
O Santuário de Aparecida e, no alto, o escritor Alvarez com seu livro. A santa é o símbolo mais antigo do Brasil (Foto: Mauricio Simonetti/Pulsar Imagens e divulgação)

Cinquenta dias depois, quando o trabalho de restauro terminou, com o auxílio inesperado de uma cola argentina, a cabeça da santa fora inteiramente refeita por Maria Helena, com base em duas cópias entregues a ela pelos padres. No finalzinho, um deles, Izidro de Oliveira Santos, insistiu que a santa fosse pintada em cor mais clara. Maria Helena se recusou, bateu o pé, e a santa continuou marrom-escura, quase preta, cor que ganhara no lodo do Rio Paraíba do Sul havia 300 anos. A história não acaba por aí. Quando a estátua foi devolvida à basílica, o padre Izidro a sequestrou do altar e tentou pintá-la da cor que julgava apropriada, no fundo de sua casa. Quase estragou a relíquia. Maria Helena teve de ser chamada novamente a dar outra demão de tinta na imagem, com a cor “terra de siena queimada”. Desde então, não se discute mais a morenice da santa.


O sucesso de Aparecida é impulsionado por um fenômeno editorial que sacode o país faz algum tempo, os livros religiosos. É o segmento do mercado editorial cujas vendas mais crescem. Entre 2012 e 2013, elas cresceram 17% e passaram de 72 milhões de exemplares. O antropólogo Bernardo Lewgoy, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, diz que a literatura religiosa é o gênero preferido por 54% dos brasileiros nas classes E e D e por 21% das classes A e B. “Os que menos leem têm começado a ler mais, privilegiam gêneros religiosos”, diz ele. A estabilidade financeira e a expansão da classe média ajudam e provocam outras mudanças no mercado. Se, há cinco anos, os livros espíritas eram os mais vendidos, hoje, outras religiões crescem em ritmo acelerado. O caso mais evidente é o padre Marcelo Rossi, cujos últimos lançamentos – Ágape e Kairós, lançados pela Globo Livros – venderam, juntos, 12 milhões de exemplares. Agora é a vez de Aparecida. “Acho positivo que busquem a religião e a espiritualidade”, diz Alvarez. “As pessoas procuram respostas à vida difícil que levam nas grandes cidades.” Aparecida talvez não tenha exatamente essa resposta. Mas ajuda a entender o Brasil e a fé dos brasileiros. Além de ser uma tremenda leitura.

O artigo original publicado no site da ÉPOCA poderá ser visto por meio do seguinte link:


OUTROS ARTIGOS ACERCA DA IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA
























































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Alexandros Meimaridis
  
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