Caim foge
Isaías 45.9
Ai daquele que contende com o seu Criador! E não passa de um caco
de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma:
Que fazes? Ou: A tua obra não tem alça –
Em 2009 o autor português e prêmio Nobel
de Literatura, José Saramago, publicou seu penúltimo livro, intitulado “Caim”. Nesse livro Saramago volta a destilar seu ódio contra Deus. Um
Deus em que, aliás, ele diz não acreditar na existência. Hum! Muito
curioso. Para ele bem se aplicam as palavras do apóstolo Paulo, que
caracterizam muito bem a todos os que rejeitam a revelação de Deus,
através do mundo criado, daquilo que aí está e pode ser percebido e
apreciado por qualquer um, quando diz:
Romanos 1:22
“Inculcando-se por sábios,
tornaram-se loucos”.
Saramago é uma versão empobrecida do
Mefistófeles de Goethe. Ele nega, mas se contradiz. Patético.
Em
“Caim”, Saramago escolhe como o herói da sua saga, nada mais nada
menos, que o Caim bíblico, o primeiro homicida. Demonstrando uma
ignorância proposital, ele consegue enxergar Caim nos momentos mais
inusitados da história do Antigo Testamento. Caim é para Saramago, o
“homem da hora”, o verdadeiro “salvador da pátria”. Deus, por sua vez, é
chamado por um nome que me recuso repetir. Saramago, como todos os que
não querem acreditar no Deus verdadeiro, está condenado a inventar um
deus à sua própria imagem e semelhança – ver Romanos 1:23—25. Portanto,
não deve nos surpreender que seu “salvador” seja apenas um homem, e dos
mais inveterados, pelo que a Bíblia nos revela. Caim personifica muito
bem o espírito de José Saramago. Ele foi o primeiro homem a assumir uma
atitude em tudo antagônica ao que Deus representava. Bem, vamos deixar o
Caim de Saramago de lado e vejamos o que a Bíblia tem a nos dizer
acerca de Caim.
I. CAIM
Após
Caim ter assassinado seu irmão Abel, ele foi confrontado pelo Senhor.
Pelo fato de ter derramado o sangue do seu irmão, Caim foi então
pronunciado maldito, por parte de Deus – ver Gênesis 4:11. A maldição
tem a ver com a forma como a terra irá reagir às tentativas de cultivo
feitas por Caim, bem como o fato de que ele iria se tornar um fugitivo e
alguém errante pela Terra. De acordo com a palavra do Senhor: “Quando
lavrares o solo, não te dará ele a sua força; serás fugitivo e errante
pela terra – Gênesis 4:12.
Caim, por sua vez, se
queixa ao Senhor alegando que seu castigo é muito grande e que,
certamente alguém irá encontrá-lo e matá-lo – ver Gênesis 4:13—14. O
Senhor responde de forma graciosa, como lhe é tão comum – ver Êxodo
34:5—7 – assegurando a Caim que: “O SENHOR, porém, lhe disse: Assim,
qualquer que matar a Caim será vingado sete vezes. E pôs o SENHOR um
sinal em Caim para que o não ferisse de morte quem quer que o
encontrasse – Gênesis 4:15. A partir desse momento a Bíblia nos diz que
“retirou-se Caim da presença do SENHOR” e foi habitar na terra de Node
onde conheceu sua mulher, teve um filho e construiu um cidade – ver
Gênesis 4:16—17. A frase que deve chamar nossa atenção, nestes últimos
dois versículos, é exatamente esta que diz que Caim “retirou-se da
presença do SENHOR”. E é aí, caro leitor, que reside a raiz de todos os
problemas e de todas as malfadadas ações que, como seres humanos,
intentamos contra Deus.
Até o momento em que Caim matou
Abel, existia certa segurança tácita em meio à raça humana, mediante a
proteção que, certamente, o Deus criador garantia às suas criaturas,
contra agressões causadas pela natureza. Mas Caim destruiu esta
segurança introduzindo o gosto por derramar sangue humano e por
vingança. E, como o sangue de Abel foi derramado sobre a terra, a mesma
se torna inimiga do homem. Por outro lado, nós, os ocidentais, não
fazemos a menor idéia da força representada pelo desejo de vingança pelo
sangue derramado que existe no meio dos povos que habitam o chamado
Oriente Médio.
No diálogo travado entre Deus e Caim,
como vimos a pouco, nós temos a nítida impressão que estamos mesmo
diante de um homem que se revoltou contra seu Criador – ver Gênesis
4:3—8 – que matou seu próprio irmão e que, em muito pouco tempo, perderá
toda capacidade de continuar acreditando em Deus. Mas, independente da
sua atitude, Caim está sobre a proteção graciosa de Deus e será esta
proteção que irá garantir sua sobrevivência, mesmo que ele não a
reconheça. Caim demonstra que não confia nem no Senhor nem na marca que
este colocou sobre ele. Este é o motivo central porque Caim decide
retirar-se da presença de Deus. Mas do que, “mudar de endereço”, indo
habitar na terra de Node, Caim se retira espiritualmente da presença de
Deus. Ele não entende que bondade e severidade andam de mãos dadas
quando se trata da maneira como Deus lida com nossos pecados que, por
causa do fato de Deus ser eterno, o ofendem eternamente – ver Romanos
11:22. Pecados não são e não podem ser tratados como coisas
insignificantes porque ofendem eternamente o Deus eterno. Como bem
expressou o apóstolo Paulo “Graças a Deus pelo seu dom inefável! - 2
Coríntios 9:15. Não fosse pelo sacrifício de Cristo e nunca nossa
relação com Deus poderia ser restabelecida. Mas retornemos a Caim e sua
falta de confiança em Deus. Caim não confia que esta “tal marca”, que,
na nossa opinião, ele é incapaz de enxergar, será suficiente para
garantir sua sobrevivência em meio à gravidade da sua rebelião e
desobediência, que o haviam alienado de Deus e de sua família. Caim
percebe que, de agora em diante, ele precisará:
• Lutar contra inúmeras forças hostis – Deus, outros seres humanos e a própria natureza.
• Desenvolver meios para subjugar seres humanos e as forças contrárias da natureza.
• Tomar todas as medidas que estejam ao seu alcance para garantir sua sobrevivência.
Mas
tudo isto não passa de um grande engano, uma verdadeira quimera. Para
Caim todas estas atitudes lhe parecem necessárias e objetivas, mas na
realidade elas são incapazes de protegê-lo.
Caim
precisa procurar estabelecer sua própria segurança, porque não aceita a
segurança que Deus lhe oferece. O que ele não compreende é que não
existe verdadeira segurança fora da presença de Deus – veja como Davi
reconheceu, quando estava sendo perseguido por Saul e seus homens e por
Absalão e seus homens, que a verdadeira segurança está somente em Deus,
nos Salmos 7, 11, 12, 13, 17, 25, 26, 31, 34, 35, 52, 54, 56, 57, 59,
64, 109, 140, 141. Para Caim, todavia, a segurança oferecida por Deus
não vale absolutamente nada. Ele só irá se sentir seguro se seguir os
desejos mais profundos do seu coração insatisfeito.
Longe
de Deus, as duas maiores necessidades de Caim são: sua sede de
eternidade e de descanso. Ele olha para o Éden e o deseja. Sem saber,
ele realmente deseja a presença de Deus no Éden e não o jardim em si
mesmo. Mas seus sentidos estão turvados pelo pecado e ele não consegue
perceber a verdade. Como Caim acha que tudo o que ele precisa é um novo
Jardim do Éden, ele se propõe a criar um para si mesmo. Seu sonho de
eternidade também poderá ser satisfeito, assim ele imagina, através da
procriação. São estas considerações que estão por trás de seus atos de
“edificar uma cidade e de gerar um filho” – ver Gênesis 4:17.
II. CAIM COMO O PRIMEIRO COSTRUTOR DE UMA CIDADE E O PRIMEIRO PSEUDO SALVADOR DA HUMANIDADE
Caim,
como o primeiro construtor de uma cidade imagina seu ato como a
resposta mais apropriada a seus desejos mais profundos: segurança e
eternidade. A relação entre estes dois anseios mais profundos de sua
alma pode ser vista através do nome que ele atribuiu à cidade e a seu
filho primogênito:
• E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque.
• Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho.
Por
que teria Caim atribuído a seu filho primogênito, bem como à cidade que
edificou, um e o mesmo nome? Comecemos pela cidade que Caim construiu.
Aquele era um lugar onde ele podia, acima de tudo, ser ele mesmo. O
lugar onde ele podia se sentir seguro, onde poderia encontrar descanso e
deixar de ser vagabundo no sentido próprio do termo – alguém que leva
uma vida errante; que vagueia. Além disso, a cidade representava para
Caim um sinal visível da sua segurança. De acordo com a decisão que ele
havia tomado de “retirar-se da presença do SENHOR”, sua segurança
dependia agora dele mesmo apenas. A construção da cidade, portanto, é
conseqüência direta do ato criminoso de Caim e de sua recusa terminante
de aceitar a segurança oferecida por Deus.
O Éden de
Deus é substituído pela cidade de Caim, da mesma maneira que o propósito
que o Deus Criador tinha para Caim foi substituído pelos planos que o
próprio Caim fizera para si mesmo. Sua cidade e seu filho são chamados
de Enoque e isto não é mera coincidência. Esse nome é derivado do verbo
que significa: dedicar, inaugurar ou iniciar. Para Caim seus atos
possuem um profundo significado. Eles representam um novo princípio, não
como o “princípio” originado por Deus e mencionado em Gênesis 1:1, e
sim algo completamente diferente. Algo iniciado pelo homem e dependente
do ser humano. “No princípio Deus” nos diz o livro do Gênesis. Para
Caim, porém, Deus não era mais nem apropriado nem pertinente. Um novo
início era necessário. Um início centrado no homem, em sua mente
distorcida e seu coração enfermo pelo pecado. É como se Caim estivesse
dizendo: “Vou mostrar a Deus como as coisas devem, de fato, serem
feitas”.
A cidade de Caim se opõe ao Éden de Deus. A
proposta de Caim é grandiosa. Ele deseja reconstruir o mundo conforme a
sua imagem e semelhança. Para alcançar seu objetivo Caim arrasta a
criação para dentro do mesmo abismo em que ele se encontrava. Abismo de
escravidão, de pecado e de uma amargurada revolta que, tenta a todo
custo, se libertar dessa situação. Com isto Caim aumenta ainda mais a
distância que existia entre ele e o Deus Criador. É dessa revolta que
nasce a primeira cidade. Sua maior dificuldade, todavia, é que a solução
para os problemas que ele enfrentava estava concentrada nas mãos de
Deus, e isto era algo que ele não podia tolerar. Caim deseja encontrar,
por si mesmo, a solução para todos os dilemas que seus atos haviam
criado. Mas seus projetos apenas agregam ofensa à injúria. Cada novo ato
de sua parte representa uma ofensa ainda maior a Deus, e o afunda em um
abismo cada vez mais profundo.
A civilização humana,
como a definimos em tempos modernos, começa com o estabelecimento de uma
cidade e com tudo o que esta cidade representa. Para Caim, Deus se
torna apenas uma figura imaginária, uma hipótese. Por modo semelhante o
Paraíso se torna em uma lenda e a própria criação não passa de um mito.
Quando Caim decide chamar seu filho e sua cidade de Enoque – início -
ele estava coberto de razão. Por todos os cantos do planeta Terra nós
encontramos exemplos de como aquele início se desenvolveu e se tornou
ubíquo. Ao registrar a história de Caim como construtor da primeira
cidade – Gênesis 4:17 - a Bíblia nos revela muito mais do que o mero
ato ali descrito. Ela nos revela:
• Qual era a intenção
do ser humano ao decidir construir a cidade – dar o ponta pé inicial em
um novo “princípio”, por completo, independente de Deus.
• O que o ser humano esperava alcançar por meio daquela construção – uma segurança que fosse independente de Deus.
• O que os pensamentos do ser humano desejavam estabelecer – um nome para si mesmo que se estendesse por toda a eternidade.
A
palavra hebraica ‘iyr – traduzida por cidade possui, na realidade,
outros significados. Estes são: agitação, angústia e terror. Uma
contração provinda da mesma raiz ‘ar - é traduzida pela palavra
“inimigo” – ver 1 Samuel 28:16. Esses significados denotam que as
cidades não são apenas ajuntamentos de moradias, ruas, palácios,
muralhas e etc. As cidades são forças espirituais. A primeira cidade foi
fruto da revolta do ser humano e certamente “outras forças” estavam
também presentes auxiliando o homem em sua empreitada. Como tal, as
cidades possuem a capacidade de influenciar as pessoas. Elas podem
direcionar e alterar o curso da vida espiritual dos seres humanos. As
cidades não representam apenas o “urbano” em oposição ao “rural ou
campestre”. Elas são poderosas na força de atração que exercem sobre as
pessoas e compõe um mistério que chega ser, até mesmo, assustador. Se
considerarmos, de forma desapaixonada, o significado da palavra ‘iyr -
agitação, angústia e terror, bem como da sua contração ‘ar – inimigo,
nós podemos concluir que elas descrevem, de modo preciso, o que as
cidades representam em pleno século XXI.
Por outro
lado, a cidade como concebida por Caim, também não passava de um ídolo.
Estava, portanto, destinada a ser destruída. Ao mesmo tempo, ela
representava um poder cujo propósito era o de se elevar acima do próprio
Deus. A cidade de Caim deveria representar para ele mesmo, muito
daquilo que só podemos encontrar, de forma verdadeira, na pessoa do
próprio Deus. Ao construir sua cidade Caim colocou toda sua revolta em
cada parte. Se pudéssemos ver tal construção a partir do seu espectro
espiritual, nós ficaríamos muito chocados com a terrível aparência da
mesma. Todas as vezes que podemos presenciar este tipo de manifestação,
nós estamos diante de uma força que só pode ser definida de uma maneira:
demoníaca.
As atitudes de Caim são representativas
daquelas que são comuns a todos os seres humanos. Caim foi pronunciado
arur – maldito pelo Senhor – ver Gênesis 4:11. De modo semelhante todos
os seres humanos, como descendentes de Adão, estão sobre a maldição da
condenação do pecado. É somente em Cristo que nós podemos nos livrar
desta maldição – ver Gálatas 3:13. E é por causa de Cristo que temos a
promessa de que na eternidade “nunca mais haverá qualquer maldição” –
ver Apocalipse 22:3. Mas, em vez de aceitar a provisão de Deus, tanto
Caim, como outros seres humanos, buscam solucionar seus problemas por si
mesmos. A posição de arrogância é refletida na imaginação que diz: “eu
posso resolver meus problemas sozinho e sem o auxílio ou a bênção de
Deus”. É por causa da maldição de Deus que pesa sobre os seres humanos
que eles fazem de tudo para tornarem-se poderosos – poder manifesto em
forma de riquezas, desenvolvimento, domínio, etc. Eles acreditam, em
suas mentes doentias, que ao se tornarem poderosos poderão manter em
cheque e impedir os efeitos da maldição proferida sobre suas cabeças.
Esse é o verdadeiro motivo porque o homem desenvolve as artes e as
ciências; porque ele organiza exércitos e constrói armamentos cada vez
mais sofisticados; porque constrói cidades. A manifestação deste
“espírito de poder” não passa de uma tentativa desesperada, do ser
humano, de tentar paralisar ou até reverter as conseqüências de ser
pronunciado arur – maldito pelo Senhor.
CONCLUSÃO
Caim
ao ser expulso da presença de Deus, percebe a fragilidade da sua
posição – ver Gênesis 4:14. Mesmo com a promessa de Deus de que qualquer
um que ferisse a Caim sofreria 7 vezes mais – ver Gênesis 4:15 – ainda
assim Caim não se sente confortável. Ao sair da presença de Deus para
habitar na terra de Node – esta terra não pode ser identificada com
precisão, mas o significado da palavra é - terra de peregrinação ou
exílio – Caim expressa toda sua preocupação com sua própria segurança ao
decidir construir uma cidadela fortificada – ver Gênesis 4:17. Esta
cidadela além de servir como elemento de segurança para Caim, era também
bastante representativa da rebelião instaurada em seu coração, pois ia
frontalmente contra o mandamento do Criador para – encher a terra – ver
Gênesis 1:28.
As cidades são, desde o princípio, um
símbolo da desobediência humana contra o mandamento de Deus de encher a
terra. Desde os tempos mais antigos, as cidades sempre foram elementos
cativantes para os seres humanos caídos. Talvez o registro mais
dramático da construção de uma cidade, que cristaliza este sentimento
antagônico entre o Criador e suas criaturas, seja a tentativa da
construção da cidade e da torre de Babel. Gênesis 11:4 encapsula de
maneira perfeita toda a rebeldia encastelada no coração humano, que
deseja, simultaneamente, construir uma cidade e uma torre e, com isso,
tarnar-se célebre e evitar ser espalhado pela superfície da terra, em
flagrante desobediência ao mandamento do Criador. A cidade da Babilônia
irá ocupar a imaginação dos autores bíblicos de todos os tempos,
culminando com o Apocalipse de João – último livro da revelação bíblica.
A cidade e a torre mencionadas em Gênesis 11 são representativas de
todo e qualquer poder sociopolítico que se incorpore em uma entidade ou
organização contrária à adoração exclusiva de Deus. Ao agir desta
maneira os seres humanos desejam tornar-se um fim em si mesmos, e
reconstruir a realidade a partir de suas próprias convicções e
independentes da vontade de Deus. Mas tudo não passa de uma fantasia. De
pretensão pura e simples. Quando Deus se levanta para julgar, todo o
brilho, toda a glória, toda riqueza, toda segurança, bem como toda a
arrogância e empáfia, desaparecem imediatamente e por completo – ver
Apocalipse 18. Note, de modo especial, a forma veloz como tudo se
acabou.
As cidades representam a epítome do que
significa ser anti-Deus. Elas são os pólos, por excelência, que fazem o
homem se sentir seguro. Onde existe iluminação pública e privada,
transporte público, segurança policial, médicos e hospitais, água
encanada e esgoto recolhido e tratado, igrejas e cemitérios, comércio,
estradas pavimentadas e carros velozes etc, não existe nem espaço para,
nem necessidade de Deus. O homem cuida de tudo. Mas tudo não passa de
uma grande mentira, com conseqüências finais catastróficas.
O
ser humano caído perdeu a dimensão da eternidade e, de forma tola e
estúpida, age como se a vida se resumisse a esse plano sobre a Terra. De
fato, o Salmista inspirado por Deus, deixa claro que, ao agir
estupidamente desta maneira, o ser humano se iguala aos animais.
O
seu pensamento íntimo é que as suas casas serão perpétuas e, as suas
moradas, para todas as gerações; chegam a dar seu próprio nome às suas
terras. Todavia, o homem não permanece em sua ostentação; é, antes, como
os animais, que perecem. Tal proceder é estultícia deles; assim mesmo
os seus seguidores aplaudem o que eles dizem. Como ovelhas são postos na
sepultura; a morte é o seu pastor; eles descem diretamente para a cova,
onde a sua formosura se consome; a sepultura é o lugar em que habitam.
Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para
si. Não temas, quando alguém se enriquecer, quando avultar a glória de
sua casa; pois, em morrendo, nada levará consigo, a sua glória não o
acompanhará. Ainda que durante a vida ele se tenha lisonjeado, e ainda
que o louvem quando faz o bem a si mesmo, irá ter com a geração de seus
pais, os quais já não verão a luz. O homem, revestido de honrarias, mas
sem entendimento, é, antes, como os animais, que perecem – Salmos 49:11 –
20!
A história do Caim bíblico
é muito semelhante, em sua trajetória mental e espiritual, à do próprio
José Saramago. Movido por um ódio cego ao Deus criador, Saramago não
consegue nem aceitar, nem conviver com a idéia de que seu destino,
inclusive eterno, está nas mãos desse mesmo Deus. Suas tentativas,
inúteis, de se livrar de Deus, não passam de espasmos de um verme que
está prestes a ser esmagado. Seu último livro, não pode sequer ser
considerado como “literatura”. Como disse João Pereira Coutinho:
“’Caim’, em termos literários, é uma narrativa pobre e, sobretudo nas
descrições sexuais, vulgar e risível”.
Para Saramago, Caim é bom enquanto Deus é mau. O leitor, certamente, tem capacidade para julgar os fatos por si mesmo.
Que Deus abençoe a todos.
Alexandros Meimaridis
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