sexta-feira, 18 de novembro de 2016

PARÁBOLAS DE JESUS - LUCAS 10:25—37 — A PARÁBOLA DO SAMARITANO — SERMÃO 027

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Esse artigo é parte da série "Parábolas de Jesus" e é muito recomendável que o leitor procure conhecer todos os aspectos das verdades contidas nessa série, com aplicações para os nossos dias. No final do artigo você encontrará links para os outros artigos dessa série.


Sermão 027

A PARÁBOLA DO SAMARITANO

lUCAS 10:25—37

25 E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?

26 E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?

27 E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo como a ti mesmo.

28 E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso e viverás.

29 Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?

30 E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.

31 E, ocasionalmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo.

32 E, de igual modo, também um levita, chegando àquele lugar e vendo-o, passou de largo.

33 Mas um samaritano que ia de viagem chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão.

34 E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, aplicando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele;

35 E, partindo ao outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele, e tudo o que de mais gastares eu to pagarei, quando voltar.

36 Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?

37 E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai e faze da mesma maneira.

Introdução

A. Como nas três parábolas anteriores que podem ser vistas por meios desses links aqui:

024 — A Parábola dos Pássaros e da Raposa

025 — A Parábola do Discípulo que Desejava Sepultar Seu Pai

026 — A Parábola da Mão no Arado

essa também é parte de um diálogo teológico. E nosso estudo irá tomar assumir — seguindo a opinião de vários estudiosos — que a mesma possui uma unidade básica e trata-se de uma parábola autêntica proferida por Jesus.[1]

B. Quando comparamos a estrutura dessa parábola notamos que, ao contrário de outras parábolas de estrutura semelhante — ver Lucas 7:36—50 e 18:18—30 — aqui o diálogo é consideravelmente curto quando comparado com a extensão da parábola. Isso, muitas vezes, causa o sério problema de levar o leitor a centra-se na parábola em si e a ignorar o diálogo ao redor da mesma. Não é incomum revistas de escola dominical tratarem o texto dessa maneira. Ao agirem assim transformam o mesmo apenas numa exortação ética, voltada para suprir apenas as necessidades de pessoas que estejam precisando de uma palavra de conforto.

C. Nosso interesse nesse estudo é entendermos a parábola no contexto do diálogo em que a mesma está inserida.

D. A parábola do Samaritano é precedida e, imediatamente, seguida por um diálogo entre Jesus e um doutor da Lei.

E. Nos dois casos existem duas perguntas e duas respostas.

F. Em cada um dos diálogos o doutor da lei apresenta uma pergunta a Jesus, que invés de responder a pergunta diretamente, responde fazendo outra pergunta para seu interlocutor.

G. Em cada um dos diálogos o doutor da Lei responde à pergunta feita por Jesus.

H. Por fim, cada um dos diálogos termina com uma resposta de Jesus.

I. Vamos começar analisando o primeiro diálogo.

I. O PRIMEIRO DIÁLOGO

A. A narrativa se inicia com o doutor da Lei se colocando em pé — uma aparente atitude de respeito — mas ele tem a intenção de colocara Jesus à prova — uma atitude que revela a maldade intrínseca de seu coração — apesar de chamar Jesus de “mestre” que é expressão geralmente usada por Lucas como equivalente do hebraico rabi.

B. O teste do doutor da Lei tem o propósito simples e direto de descobrir o entendimento que Jesus tinha de como era possível alguém herdar a vida eterna.

C. Na superfície a pergunta não faz muito sentido, porque apenas herdeiros podem herdar alguma coisa, qualquer coisa que seja. Qualquer pessoa que seja herdeiro legal de alguém poderá tomar parte da herança.

D. No Antigo Testamento a ideia de herança estava vinculada, principalmente, ao conceito do privilégio de Israel de herdar a terra prometida, que curiosamente, continuava na posse do SENHOR, o qual considerava os judeus apenas como Seus “inquilinos” — estrangeiros e peregrinos — de acordo com

Levítico 25:23 — Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois para mim estrangeiros e peregrinos.

Ainda com relação às palavras de

Isaías 60:21

E todos os do teu povo serão justos, para sempre herdarão a terra; serão renovos por mim plantados, obra das minhas mãos, para que eu seja glorificado.

E. Já era entendimento dos rabinos que a “herança” era uma referência à participação na salvação futura, portanto não guardava nenhuma relação com a terra de Israel em si mesma.

F. Nos dias do Novo Testamento, a frase “herdarão a terra” é aplicada pelo Senhor Jesus à salvação que se estende a todo o seu povo. A ideia da terra prometida ser concedida ao povo de Israel não é repetida no Novo Testamento.

G. A herança, torna-se portanto, vida eterna. E a forma de se alcançar essa vida eterna, era no entendimento dos judeus, por meio da estrita obediência da Lei.     

H. Diante dessas realidades tanto nas mentes dos seus ouvintes e do doutor da Lei, bem como no própria mente do Senhor Jesus ele tinha dois caminhos para escolher em sua resposta à pergunta que lhe foi dirigida:

1. Jesus poderia seguir pelo caminho do argumento apresentado no Antigo Testamento e insistir que a “herança de Israel” é um dom de Deus e que não se pode fazer nada para se merecer a mesma. Essa abordagem criaria apenas uma oportunidade para uma longa e estéril discussão acerca de filigranas da Lei quanto ao que deve ou não deve ser feito para tentar “herdar” a vida eterna.

2. Ou Jesus poderia adotar a opinião rabínica que a herança está, em realidade atrelada à vida eterna conforme vimos acima, e esse é o caminho que Jesus prefere seguir, até mesmo porque era parte do seu próprio ensinamento.

3. Aqui ainda precisamos mencionar que naqueles dias alguns rabinos achavam que era possível alcançar a vida eterna por meio da obediência estrita à Lei. Para esse caso ver, especialmente, a literatura pseudoepigráfica conhecida como “Salmos de Salomão” nas seguintes referências: 14:1—2; 9—10. O mesmo é ensinado no livro pseudoepigráfico do “Enoque Eslavônico” em seu nono capítulo.

I. Mas a questão realmente preponderante estava atrelada a esse último aspecto que mencionamos. A questão era: “Esse rabi — Jesus — acredita ou não acredita que a herança de Israel poderia ser alcançada pela obediência estrita da Lei. Como podemos ver aqui, a ideia de uma herança atrelada à terra já havia sido abandonada há algum tempo pelos rabinos judaicos, algo que torna apenas mais evidente a mentira propagada pelos judeus sionistas de que Deus deu a terra de Israel como possessão perpétua do povo judeu.

J. É obvio que Jesus não concordava com o entendimento dos rabinos dos seus dias e sabia bem a armadilha que lhe havia sito montada pelo doutro da Lei. Então, em vez de oferecer uma resposta que expusesse suas ideias, Jesus de modo genial, reverte a armadilha pedindo que seu interrogador dê sua opinião acerca dessas coisas.

K. A pergunta de Jesus é simples: “Que está escrito na lei? Como lês?” Na última parte da pergunta é como se Jesus dissesse: Gostaria muito de ouvir como as autoridades judaicas interpretam isso. Mas o doutor da lei, parecia muito seguro de si mesmo e oferece uma resposta a Jesus sem citar nenhuma autoridade como apoio.

L. A reposta do doutor da lei tem o seguinte teor:

Lucas 9: 27

Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo como a ti mesmo.

M. Em Mateus e Marcos a combinação das palavras de Deuteronômio 6:5 — amar a Deus — com as de Levítico 19:18 — amar o próximo — são atribuídas ao próprio Senhor Jesus Cristo. É possível que o doutor da Lei estivesse apenas repetindo de volta as palavras que ele mesmo teria ouvido dos lábio de Jesus, o que lhe teriam sido mencionadas por alguém.

N. A resposta de Jesus, então não poderia ser muito diferente:

Lucas 9:28

E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso e viverás

O. Alguns pontos que devemos considerar nesse contexto:

1. De acordo com Karl Barth[2]: “Jesus louva o doutor por seu bom conhecimento e fiel recitação do texto sagrado”. De fato podemos afirmar que o doutor da Lei tinha uma teologia correta, mas a pergunta que permanece é: ele estava disposto a viver à altura daquilo que afirmava crer? Sua condição intelectual é excelente, mas sua prática continua em jogo.

2. Como já havia acontecido no caso da visita de Jesus à casa de Simão, o fariseu — ver Lucas 7:43 — Jesus consegue arrancar do próprio doutor da Lei uma resposta apropriada. Jesus não diz o que o doutor da Lei deve fazer, ele mesmo responde sua própria pergunta.

3. A pergunta do doutor da Lei estava volta para a vida eterna. Mas na resposta que Jesus força o mesmo a dar, Jesus o obriga a incluir o todo da vida e não apenas a vida eterna. É muito provável que a expressão de Jesus “viverás”, não está tão relacionada ao futuro distante, mas sim ao futuro imediato. Ou seja, Jesus está afirmando para o doutor da Lei que ele poderá começar a viver de verdade, a partir do momento em que colocar essas coisas em prática. Ver também:

João 17:3

E a vida eterna é esta: que conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste.

4. Já o verbo “faze” está no imperativo presente, cujo significado é: continue fazendo. Isso era muito mais do que o doutor da lei poderia esperar. Tudo o que ele deseja ouvir do Senhor Jesus era algo na linha de: uma vez tendo feito isso, você herdará o que procura. Em vez disso ele recebe um mandamento no imperativo e que vale de forma contínua e inclui um estilo de vida que requer um amor ilimitado e incondicional por Deus e pelo Seu povo!

Tanto Jesus quanto Paulo concordavam com seus contemporâneos que, se fosse possível, podia-se alcançar a salvação eterna por meio de uma estrita obediência da Lei apresentada nas Escrituras Sagradas. Mas tanto Paulo quanto Jesus sabiam também que alcançar tal objetivo era impossível porque nosso ser humano encontra-se enfermo pelo pecado o que torna, na prática, impossível alcançar aquele objetivo — ser obediente a todos os mandamentos da Lei de Deus sem vacilar um instante sequer. Esse foi a razão central porque Deus enviou Seu filho ao mundo. Jesus viveu uma vida ser cometer nenhum pecado e assim: 1) enquanto por um lado ele assume sobre si mesmo todos os nossos pecados e recebe o justo castigo que os mesmo merecem da parte de um Deus absolutamente santo e justo; 2) por outro lado ele nos reveste com Sua própria santidade de tal maneira que podemos comparecer diante de Deus como se nunca tivéssemos cometido um único pecado durante todas nossas vidas.

Conclusão da Primeira Parte
Com isso está finalizada a primeira parte do diálogo entre Jesus e o doutor da Lei. Mas o doutor da Lei é persistente e não se dá por vencido. Ele não está disposto a abrir mão da possibilidade de alcançar a salvação eterna, por meio de seus próprios esforços. A lei de Deus foi citada e agora é necessário que se faça um comentário sobre a mesma. E ele espera que Jesus faça esse comentário. O Deus mencionado ele presume conhecer, mas quem é esse “próximo” a quem ele precisa amara como a si mesmo? Ele precisa, urgentemente, de uma definição. De uma lista talvez. Se a tal lista não for muito longa ele talvez possa tentar guardar suas ordenanças. É isso que o motiva a dar início à segunda parte da nossa parábola.

O doutor da Lei pergunta a Jesus:

Lucas 10:29

Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?    

A esperança da autojustificação é algo sempre entesourado pelo ser humano. Por esse motivo a pergunta do doutor da lei, não tem a intenção de apresentar uma desculpa para Jesus, uma vez que ele sabe muito bem o que Jesus pensa, mas tem a intenção de manifestar sua mais profunda esperança de que exista alguma coisa, qualquer coisa, que ELE possa fazer para ser merecedor da vida eterna.

O opinião de Karl Barth é pertinente nesse contexto: “O doutor da Lei não entende ainda, que é apenas por meio da misericórdia de Deus que se pode viver aqui e, no futuro herdar a vida eterna. Mas ele não deseja viver amparado pela misericórdia de Deus. De fato, ele não tem a menor ideia do que tal misericórdia significa. Nesse exato momento o doutro da Lei está vivendo com base em algo completamente diferente da misericórdia de Deus. Ele está baseando sua vida em suas próprias intenções e habilidades em se apresentar diante de Deus como um homem justo”.[3]

O verdadeiro interesse do doutor da Lei ao fazer tal pergunta era tentar conseguir alguma forma pela qual ele pudesse se apresentar, completamente justo, diante de Deus. Ele sinceramente esperava que Jesus adota-se a postura padrão dos rabinos judaicos acerca da interpretação de

Levítico 19:17—18

17 Não aborrecerás teu irmão no teu íntimo; mas repreenderás o teu próximo e, por causa dele, não levarás sobre ti pecado.

18 Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR.

De acordo com os rabinos as expressões: “teu irmão, teu próximo, os filhos do teu povo e teu próximo” incluíam todos os judeus. Até mesmo os prosélitos estavam incluídos nesse meio. Mas, de forma definitiva, essas expressões não incluíam os gentios.

Assim, a pergunta do doutor da Lei foi feita num contexto onde existiam muitas interpretações acerca de quem era, realmente, o próximo de alguém.

E é nesse contexto que Jesus apresenta sua parábola do Semeador com a intenção específica de obter uma resposta do doutor da Lei, para a pergunta que o Senhor Jesus tinha para fazer para ele.

II. AS PARTES DA PARÁBOLA

A. Os Ladrões

Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.

O caminho que se estende entre Jerusalém e a cidade de Jericó serpenteia pela encosta da montanha, com muitos pontos cegos e com condições imprevisíveis. Sua extensão é de pouco mais de 27 quilômetros.

Em sua narrativa Jesus não nos informa quem era o homem que descia para Jericó. Nada sabemos acerca de sua idade, de sua profissão, se era casado ou não e etc. Mas de alguma maneira a audiência judaica estava acostumada a entender que em tais casos tratava-se, sem sombra de dúvida, de um homem judeu. Nosso texto é claro: ele caiu nas mãos dos salteadores, foi despojado de seus pertences, foi espancado e, por fim, abandonado como se estivesse morto.

O fato dele ter sido espancado é uma indicação que esse homem entrou em luta corporal contra os que queriam assaltá-lo. Eles o machucaram tanto que foi deixado “meio morto” que é o estágio que os rabinos judeus qualificam como sendo aquele que precede, imediatamente, a própria morte. O homem assim agredido está inconsciente e não pode se identificar. Ele também não pode ser identificado por nenhuma pessoa viajando pela mesma estrada.

A descrição feita por Jesus não é acidental. Tudo o que Senhor menciona é proposital e tem um objetivo: o homem está despido e inconsciente. Esses detalhes são usados por Jesus para criar a tensão necessária para o drama à medida que o mesmo vai se desenrolando.

A Palestina naqueles dias estava repleta das mais variadas comunidades e nem todos que trafegavam por suas estradas eram, necessariamente, judeus. Era importante poder identificar o estranho na estrada, algo que poderia ser feito por meio das roupas que ele usava e também por estabelecer algum tipo de contato verbal. Mas nosso homem descrito na parábola está despido e não está em condições de falar. Fica então muito difícil, senão impossível, identificá-lo.

Nessas condições esse homem não pode ser identificado como alguém pertencendo a algum grupo seja étnico, seja religioso. Ele é apenas um home ferido à beira da estrada. Ele está próximo da morte e precisa, desesperadamente, de socorro. A grande questão é: quem irá socorrer esse homem nessas condições?

B. O Sacerdote

E, ocasionalmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo.

É muito provável que o sacerdote mencionado por Jesus estivesse montado — em um jumento — já que pertenciam à classe mais abastadas e tinham recursos para adquirir animais que servissem como meio de transporte. Até hoje, na Palestina, ninguém que tenha posses caminha 27 quilômetros. Apenas os pobres e os destituídos andavam e andam até os dias de hoje. Então, parece que todos os ouvintes de Jesus assumiam essa realidade tornando a menção da mesma dispensável.

Por outro lado, o samaritano também estava montado, mas esse fato não é revelado logo de cara. O animal do samaritano terá um papel fundamental mais para frente, mas quando ele surge no cenário seu animal não é mencionado.

Assim temos motivos de sobra para assumir que a atitude do sacerdote é tanto mais condenável, porque o mesmo tinha meios de transportar o homem caído à beira da estrada. Era sua obrigação sepultar o homem caso estivesse morto, mesmo que isso representasse ficar cerimonialmente impuro por 7 dias,  ou socorrê-lo caso ainda se encontrasse vivo. Os rabinos ensinavam que recusar ajuda a alguém machucado era tornar-se responsável por tudo o que pudesse acontecer com aquela pessoa. Mas escritos como o livro de Sabedoria de Ben Sirach — ver Sabedoria 12:1—7 — ensinava que não se devia socorrer o “pecador” — odiado por Deus — sob nenhuma hipótese. Então podemos entender que o sacerdote estivesse dividido, do ponto de vista teológico entre esses dois ensinamentos, mas as Escrituras hebraicas exigiam dele que socorresse o homem necessitado.

Mas como podemos ler sua atitude não é nem uma nem a outra. A parábola assume que aquilo que o samaritano fez era o mínimo que o próprio sacerdote também poderia ter feito. Mas a impressão que temos é que o sacerdote montado vê o homem caído a certa distância e decide dirigir seu animal no sentido de se afastar o mais possível do necessitado.

O maior problema do sacerdote está no fato dele não ter visto o que aconteceu. Então como ele poderia ter certeza que aquele homem caído à beira da estrada era realmente seu próximo, conforme as definições que mencionamos acima? Diante de um corpo despido e mudo o sacerdote fica completamente paralisado, no que diz respeito a fazer o bem. Consequentemente, ele opta por fazer o que é errado. Além do mais, se o homem estivesse morto isso tornaria o sacerdote cerimonialmente impuro e ele não poderia funcionar como sacerdote em sua cidade — recebendo, distribuindo e se alimentando de dízimos — e isso poderia ser um grande problema tanto para ele quanto para sua família como para seus servos. Mas, no fundo, tudo isso prova que o sacerdote de Deus não confiava em Deus para seu sustento!

O dízimo de todos os dízimos era oferecido pelos levitas para o sustento dos sacerdotes e de seus lares. Tais ofertas eram chamadas de “ofertas movidas”. Os mesmos só poderiam ser recebidos e comidos num estado de pureza cerimonial. Além disso, enquanto estivesse cerimonialmente impuro, por ter entrado em contato com um cadáver, o sacerdote não podia executar nenhuma função sacerdotal nem usar seus filactérios durante as orações diárias.

As Escrituras apresentam uma lista de cinco coisas que tornam uma pessoa cerimonialmente impura: entrar em contanto com um cadáver estava no topo da lista — ver Números 19:11. Os judeus arrogantes como eram acrescentaram a essas cinco, quatro outras coisas das quais a mais importante era entrar em contato com algum gentio! Sendo assim, o sacerdote estava em vias de tornar-se cerimonialmente impuro, da forma mais grave, tanto pelas Escrituras, quanto pelas tradições orais dos judeus.

Aqui entra a perversidade do coração humano. O sacerdote em todos esses seus arrazoados deseja acalmar sua consciência que, na realidade, ao agir dessa maneira ele está desejoso de viver em santidade para Deus e evitar qualquer tipo de contaminação! Naqueles dias a purificação só podia ser realizada no próprio templo em Jerusalém e a mesma representava uma profunda humilhação, especialmente no caso do sacerdote que se deixara contaminar. Quanta hipocrisia. Quanta cegueira. Quanta distância dos ensinamentos do Antigo Testamento por desejarem obedecer a suas próprias invencionices! Se o sacerdote estava indo de Jerusalém para Jericó, isso indica que o mesmo já tinha cumprido suas duas semanas de serviços conforme a escala estabelecida. Agora seria muito vergonhoso para tal homem, depois de ter servido durante duas semanas na adoração do templo ter que retornar ao mesmo e se posicionar entre aqueles que precisavam ser purificados.

A lei oral também estabelecia que era necessário manter uma distância de 4 cúbitos — 2 metros aproximadamente — de um cadáver para não se deixar contaminar pelo mesmo. E esse sacerdote teria que cruzar tal limite, apenas para se certificar se o homem caído estava vivo ou morto. Caso o homem estivesse morto, então o sacerdote deveria em primeiro lugar rasgar suas vestes como uma forma de chamar a atenção para o fato que havia se tornado cerimonialmente impuro.

O certo é que sua família, seus servos e seus companheiros não o condenariam por ter feito o que fez. Pelo contrário, eles iriam aplaudi-lo. Os fariseus também achariam justificado o ato de não parar para ajudar o homem caído. Afinal de contas, o mandamento de amar o próximo era condicional, enquanto que o mandamento de manter-se puro cerimonialmente era incondicional.

Sem desejar desculpar o sacerdote, temos que admitir que o mesmo era, por sua própria opção, vítima das regras teológicas e éticas do sistema oral, inventado para resolver as inúmeras novas questões que a vida insistia em apresentar a cada novo dia. A vida do sacerdote era um código de “faça e não faça”. Essa mentalidade ridícula é a mesma adotada pelas igrejas legalistas que pretendem possuir uma resposta rápida e certeira para todas as perguntas e problemas da vida. O seguidor de tais regras está sempre seguro de sua posição, até que encontra um homem inconsciente caído à beira do caminho. Quando isso acontece então a agenda religiosa assume o controle e ordena que o mesmo siga as instruções recebidas para sua própria segurança, em vez de lançar mão da liberdade do amor e se dispor a ajudar o necessitado. É essa dinâmica que parece ter dominado o sacerdote e o faz dirigir seu animal para longe do homem ferido.

C. O Levita

Tanto o Levita como o sacerdote são descritos por Cristo como agindo dentro de um mesmo padrão que foi primeiro estabelecido pelos ladrões: eles veem, vêm e vão embora. Pode não parecer mais tal descrição torna o sacerdote e o levita em pessoas semelhantes aos ladrões! Eles contribuem para aumentar o mal e a dor do homem ferido, por causa da negligência que demonstram.

A expressão grega ὁμοίωςomoíos — traduzida por “de igual modo” no verso 32, indica que o Levita estava seguindo na mesma direção do sacerdote. Ou seja, ele estava indo de Jerusalém para Jericó. É muito provável que o levita tivesse ciência que o sacerdote estava indo adiante dele. O autor J. D. M. Darrett imagina que o próprio samaritano tinha conhecimento que os outros dois — o sacerdote e o levita estavam indo à sua frente pelo caminho, e que tinham passado pelo homem ferido à beira da estrada.[4] A velha estrada romana ainda está visível e pode ser percorrida por turistas mais aventureiros. Pelo fato da estrada ter sido criada nas encostas das montanhas é possível, de qualquer parte mais alta, enxergar trechos da mesma mais abaixo, como acontece, por exemplo, com a Via Anchieta em São Paulo ou a estrada do Corcovado no Rio de Janeiro.

Além do mais, todos os viajantes naqueles dias, tinham extremo interesse em saber quem mais estava indo pelo caminho, exatamente, porque era possível a presença de salteadores. Era sobre esse tipo de conhecimento que, muitas vezes, a vida e a segurança de um viajante dependiam. 

No caso da parábola que estamos estudando, assumir o fato que os viajantes mencionados tinham ciência da presença dos outros adiante deles, é, em nossa opinião, parte da trama da estória que Jesus está contando.

Os levitas não estavam obrigados aos mesmos e inúmeros regulamentos que escravizavam os sacerdotes. O levita sempre poderia lançar mão de uma latitude maior em suas ações do que aquelas que um sacerdote era capaz. O levita estava obrigado a manter-se cerimonialmente puro somente durante os dias de serviço no templo em Jerusalém. Por esse motivo, como ele já tinha cumprido seu período de serviço, ele poderia muito bem prestar socorro ao homem caído à beira da estrada. E, no caso do homem já estar morte, ou caso morresse em seus braços as repercussões seriam de pouca importância.

É curioso notarmos que Jesus nos diz que, ao contrário do sacerdote, o levita se aproxima do homem caído. Isso está refletido na expressão “chegando àquele lugar”. Enquanto, do sacerdote, Jesus diz apenas que: “vendo-o passou de largo”. Não são poucos os comentaristas que concordam que a expressão “chegando àquele lugar” indica que o levita se aproximou do homem caído. Desse modo, é possível que o levita tenha ido além da linha limite da contaminação, que era de 4 cúbitos — algo entre 1,80 e 2 metros — com o objetivo de satisfazer sua curiosidade. Mas depois de tudo isso, ele tomou a decisão de se afastar sem fazer nada para ajudar. Medo de se contaminar, não pode ser aceito como uma justificativa aceitável para a ação do levita. Medo de ladrões é possível. Mas o mais provável é que ele esteja seguindo o “mau” exemplo estabelecido pelo sacerdote que era seu superior. É fácil a gente racionalizar atitudes erradas quando vemos pessoas superiores agindo de forma errada. Mas como diz R. C. Trench: “o levita, por sua vez, pode ter pensado que não era sua obrigação se envolver numa questão tão delicada e perigosa, situação essa, que até mesmo um sacerdote tinha evitado se envolver. Não se tratava de uma questão de dever, caso contrário o sacerdote jamais teria se omitido de oferecer socorro. Para o levita se envolver agora nessa situação corresponderia a afrontar seu superior, o sacerdote, que havia se recusado a fazer qualquer coisa, de ter um coração duro e de praticar um ato desumano”[5].

Mas, mais do que acusar o sacerdote de dureza de coração, se o levita tivesse ajudado o homem caído estaria acusando o sacerdote de não saber a interpretar a Lei de Deus, a qual ele, o sacerdote, era responsável de ensinar ao povo de Israel.
Tal qual o sacerdote, o levita também não tem como saber se o homem caído à beira da estrada é seu próximo — no caso um judeu. Esse talvez seja um dos motivos porque ele se aproxima do homem caído. Talvez o homem caído possa falar? Não conseguindo fazer uma identificação positiva, ele prefere virar às costas ao necessitado e seguir seu caminho. Seja qual for sua verdadeira motivação, o resultado final é o mesmo; apesar de toda sua orientação religiosa, não existe nada nessa orientação que o leve a ajudar o homem ferido e necessitado.

O levita, sendo parte de uma classe social inferior à do sacerdote, está, provavelmente, andando pelo caminho. Mesmo sem ter condições de transportar o homem necessitado para um lugar seguro, ele ainda assim, poderia ter prestado um mínimo de socorro ao mesmo. Mas em vez disso, ele apenas segue seu caminho.

D. O Samaritano

Existem outras passagens no evangelho de Lucas em que a narrativa se ocupa do progresso de três personagens. Elas são:

Lucas 14:18—20

18 Não obstante, todos, à uma, começaram a escusar-se. Disse o primeiro: Comprei um campo e preciso ir vê-lo; rogo-te que me tenhas por escusado.

19 Outro disse: Comprei cinco juntas de bois e vou experimentá-las; rogo-te que me tenhas por escusado.

20 E outro disse: Casei-me e, por isso, não posso ir.

Lucas 20:10—14

10 No devido tempo, mandou um servo aos lavradores para que lhe dessem do fruto da vinha; os lavradores, porém, depois de o espancarem, o despacharam vazio.

11 Em vista disso, enviou-lhes outro servo; mas eles também a este espancaram e, depois de o ultrajarem, o despacharam vazio.

12 Mandou ainda um terceiro; também a este, depois de o ferirem, expulsaram.

13 Então, disse o dono da vinha: Que farei? Enviarei o meu filho amado; talvez o respeitem.

14 Vendo-o, porém, os lavradores, arrazoavam entre si, dizendo: Este é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança venha a ser nossa.

O mesmo ocorre na narrativa que temos diante de nós. Depois da passagem do sacerdote e do levita a expectativa da audiência era o surgimento de um judeu comum que iria surgir e “salvar” o dia.[6] Essa seria, para os ouvintes a sequência natural, já que todos sabiam que sacerdotes, levitas e pessoas comuns do povo subiam ao Templo para oficiar e adorar. Portanto, era apenas natura que desses grupos o terceiro fosse um judeu comum, alguém do povo e não um oficial religioso. Os ouvintes ouvem a narrativa acerca do primeiro e do segundo personagem com uma expectativa cada vez maior pelo terceiro personagem que seria alguém com um deles qualquer.

Todavia, a sequência esperada é bruscamente interrompida por Jesus. Para o grande choque e surpresa ainda maior da audiência, o terceiro homem que desce pela mesma estrada, não é um judeu e sim, um odiado samaritano! No Israel daqueles dias. Hereges e sismáticos, como os samaritanos eram considerados, eram vistos de modo muito mais negativo que os próprios incrédulos! Nós podemos ter uma percepção do verdadeiro sentimento que os judeus nutriam pelos samaritanos por meio desse texto de —

Eclesiástico 50:25—26

25 Há duas nações que minha alma detesta e uma terceira que nem sequer é nação;

26 os habitantes da montanha de Seir, os filisteus e o povo estúpido que habita em Siquém.

Pelo que podemos entender da leitura acima, os samaritanos são equiparados aos edomitas e aos filisteus. A Mishná[7] declara o seguinte: aquele que come pão de um samaritano é igual ao que come a carne de um porco. Nos dias de Jesus a amargura existente entre judeus e samaritanos havia alcançados níveis elevadíssimos, porque os samaritanos haviam, durante a celebração de uma Festa da Páscoa, invadido a área do templo e espalhado ossos de mortos na mesma tornando-a impura para a adoração. Isso causou enorme prejuízo para os que exploravam comercialmente a área do templo e também para o povo que não pode celebrar a páscoa depois de terem feito a viagem até Jerusalém[8].

Não é à toa que quando os judeus quiseram ofender a Jesus disseram que ele tinha demônio e era samaritano, conforme —

João 8:48

Responderam, pois, os judeus e lhe disseram: Porventura, não temos razão em dizer que és samaritano e tens demônio?

Jesus poderia ter contado outra história, a de um nobre judeu ajudando um odiado samaritano. Essa história poderia ser melhor assimilada, do ponto de vista emocional, pela sua audiência naquele instante. Mas em vez disso, Jesus de um odiado samaritano como o herói. Isso demonstra a vigorosa coragem de Jesus. O autor do blog é grego de nascença e nunca me passou pela cabeça contar para meus patrícios uma história onde o herói fosse um turco, já que existe um ódio irreconciliável entre esses dois povos. Mas Jesus não, ele usou como herói de sua história um personagem notoriamente odiado por aqueles a quem Jesus estava falando!

A atitude de Jesus assume uma dimensão maior ainda, quando Jesus transforma um odiado inimigo em alguém moralmente superior aos líderes religiosos da audiência.
A expressão grega ἐσπλαγχνίσθη esplanchnísthe — traduzida por compadeceu-se tem um significado tocante na língua original que é: ser movido pelas entranhas; daí, ser movido pela compaixão; ter compaixão — pois se achava que as entranhas eram a sede do amor e da piedade. Jesus usa essa expressão para indicar a profundidade dos sentimentos do samaritano pelo desconhecido ferido à beira do caminho. É um verbo fortíssimo tanto no grego quanto nos idiomas semíticos! O samaritano não é um gentio. Ele é um indivíduo que conhece a Torá dos hebreus e sente-se obrigado a demonstrar compaixão pelo seu próximo conforme —

Levítico 19:18

Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o SENHOR.

O samaritano está viajando pela Judéia. Então ele sabe que a maior probabilidade é que o homem ferido seja um judeu. Mas isso não o impede de ajudar e socorrer o necessitado.

O texto torna-se cada vez mais claro e evidente à medida que Jesus desenvolve a narrativa. O sacerdote apenas “descia” pela estrada. O levita, por sua vez, “descia por aquele lugar”. Mas o samaritano “chegou-se até o homem”. Como os outros dois, o samaritano também corria o risco de contaminar-se, contaminação essa que incluiria seu animal e outros pertences! Além disso, ele é um excelente alvo para os ladrões da estrada, que poderiam, por respeito evitar atacar religiosos como o sacerdote e o levita, mas que não teriam nenhuma consideração por uma samaritano.

Jesus usa o samaritano, porque esse personagem tem uma vantagem. Como alguém de fora ele não será influenciado como um judeu comum poderia ser influenciado pelo mau exemplo daqueles que o precederam. Não sabemos em que sentido o samaritano estava seguindo pela estrada. Mas se estivesse subindo a mesma, ele tinha acabado de cruzar, primeiro com o sacerdote e logo em seguida com o levita, e sabia muito bem o que eles tinham feito, ou melhor, deixado de fazer. Caso o samaritano estivesse descendo, então como o levita ele tinha consciência de quem estava indo à sua frente. Essas situações poderiam telo levado a arrumar boas desculpas para não se envolver. Se os judeus não se interessaram em ajudar um provável judeu, porque deveria ele, um samaritano fazê-lo? Além do mais existe algo que não mencionamos até agora: caso o samaritano ajude o judeu ele corre o risco de sofrer graves retaliações por parte de amigos e parentes do homem ferido. Absurdo, mas, no entanto verdadeiro. Apesar de todas essas considerações ele sente profunda compaixão pelo homem ferido e tal compaixão o conduz a agir de modo eficaz para ajudar o necessitado.

E. O Socorro

Lucas 10:34

E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, aplicando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele;

O momento central da narrativa de Jesus descreve o inesperado aparecimento de um samaritano compassivo. O resto da ação, de agora em diante, é a manifesta expressão dessa profunda e comovente compaixão. Na cena que iremos estudar hoje o samaritano — que não tinha nenhuma obrigação legal — oferece ao homem ferido o socorro que lhe havia sido negado tanto pelo sacerdote como pelo levita — os dois tinham obrigações legais de ajudar.

Como é comum nas parábolas de Jesus, a simplicidade da linguagem pode nos fazer seguros do caminho que estamos seguindo, mas é maiss comum estarmos completamente errados.

O samaritano ao se aproximar do homem ferido, curiosamente, sabe o que precisa fazer:

1. Primeiro ele precisa limpar e amolecer as feridas com óleo.

2. A seguir ele precisa desinfetar os machucados com vinho.

3. Por fim, os ferimentos precisavam ser cobertos com ataduras.

Agora se você olhar o verso acima verá que essa não foi a ordem em que Jesus descreveu os acontecimentos. Sim, é necessário dizer que o texto no grego nos dá uma visão dessas coisas acontecendo simultaneamente. Mas no texto grego é a ação que envolve as ataduras que vem primeiro. Porque Jesus menciona as ataduras primeiro? Certamente porque ele quer enfatizar a teologia por trás desse gesto. Essa é a linguagem que os profetas estavam acostumados a usar no relacionamento ente Deus e o povo de Israel.

Jeremias 30:17

Porque te restaurarei a saúde e curarei as tuas chagas, diz o SENHOR; pois te chamaram a repudiada, dizendo: É Sião, já ninguém pergunta por ela.    

Note essa detalhada descrição do profeta Oséias e como a mesma nos faz lembrar o socorro do samaritano e também o desprezo do sacerdote e do levita para com a Lei de Deus:

Oséias 6:1—10

1 Vinde, e tornemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará.

2 Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele.

3 Conheçamos e prossigamos em conhecer ao SENHOR; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra.

4 Que te farei, ó Efraim? Que te farei, ó Judá? Porque o vosso amor é como a nuvem da manhã e como o orvalho da madrugada, que cedo passa.

5 Por isso, os abati por meio dos profetas; pela palavra da minha boca, os matei; e os meus juízos sairão como a luz.

6 Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.

7 Mas eles transgrediram a aliança, como Adão; eles se portaram aleivosamente contra mim.

8 Gileade é a cidade dos que praticam a injustiça, manchada de sangue.

9 Como hordas de salteadores que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém; praticam abominações.

10 Vejo uma coisa horrenda na casa de Israel: ali está a prostituição de Efraim; Israel está contaminado.

Depois de ferir, o primeiro ato do Deus ETERNO é “ligar” as feridas! De fato, a narrativa de Oséias está tão próxima da parábola contada por Jesus, que o início das palavras de Oséias serviriam perfeitamente como uma introdução para a parábola. Cada parte das palavras de Oséias pode ser aplicada à história contada por Jesus. De modo específico nos vemos no texto acima que Efraim é ferido e clama pelo Senhor que então intervém e:

1. Nos sarará

2. Fez a ferida e a ligará.

3. Nos revigorará.

4. Nos levantará, e viveremos diante dele. 

Deus, Deus, Deus e Deus outra vez. Só Deus é Salvador e é Ele quem escolhe os instrumentos que irá usar para realizar Sua vontade. É por isso, que na parábola contada por Jesus a salvação de Deus vem por meio das mãos de um odiado e desprezado samaritano. Como iremos ver a seguir, as duas narrativas têm profundas implicações cristológicas.

Além do mais, tanto o óleo quanto o vinho não eram apenas materiais para primeiros socorros, eles eram também elementos importantes da adoração no templo. Assim como o ato de derramar qualquer líquido na presença de Deus, também ara parte da adoração. Essas eram chamadas de libações e estavam, intimamente, ligadas aos sacrifícios. No entanto por muitos séculos o chamado ao povo de Israel tinha ido muito além das obrigações relativas aos sacrifícios. Deus desejava que seu povo oferecesse uma resposta adequada ao amor que tinham recebido de Deus e que tal resposta se manifestasse na forma de amor perseverante e não tanto na forma de sacrifícios:

Oséias 6:6

Pois misericórdia quero, e não sacrifício, e o conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.

Miqueias 6:7—8

7 Agradar-se-á o SENHOR de milhares de carneiros, de dez mil ribeiros de azeite? Darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo, pelo pecado da minha alma?

8 Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.

Nós temos essa mesma linguagem e atitude na ação de Paulo descrita como uma libação derramada sobre o sacrifício da fé dos filipenses:

Filipenses 2:17

Entretanto, mesmo que seja eu oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, alegro-me e, com todos vós, me congratulo.

Paulo também desafia os cristãos em Roma a apresentarem seus próprios corpos como sacrifícios vivos a Deus:

Romanos 12:1

Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional.

É desse modo que para os profetas a linguagem do altar evoca o autossacrifício de amor. Para Paulo tal oferta está unida ao chamado que o cristão tem recebido para servir o próximo de modo sacrificial. O sacerdote e o levita eram aqueles que conheciam muito bem a ordem prescrita para os rituais e a liturgia do culto no templo. Durante a adoração eles eram os que oficiavam os sacrifícios e as libações. Eles eram os que derramavam o óleo e o vinho diante e sobre os sacrifícios oferecidos ao Senhor. Na parábola que Jesus está contando aqui o samaritano executas esses gestos simples que tanto o sacerdote quanto o levita haviam evitado, apesar de estarem acostumados a realizarem os mesmos no templo. O homem ferido é a perfeita oportunidade para o sacerdote e o levita manifestarem o sacrifício vivo, algo que o samaritano demonstra cumpre, satisfazendo assim a perfeita vontade de Deus. É o doado Samaritano quem derrama a libação sobre o altar das feridas do homem atacado. Não existe nenhuma maneira de demonstrar חֶסֶד chesed — bondade, fidelidade ou benignidade para com o homem caído à beira da estrada do que esses simples gestos do samaritano de derramar óleo e vinhos sobre as feridas do mesmo. São esses gestos simples que demonstram toda a misericórdia e compaixão que Deus sente por cada um de nós, suas criaturas. Era isso pelo que clamavam os últimos profetas enviados ao povo de Israel. Mas é o samaritano quem derrama a verdadeira oferta aceitável a Deus.

Todavia, diante situação de relacionamento existente entre judeus e samaritanos naqueles dias, era bem possível que se o homem ferido fosse um judeu, ainda se desse o direito de insultar àquele que lhe fizera bem e lhe salvara a vida. Óleo e vinho são totalmente proibidos para os judeus se a origem dos mesmos for samaritana. E isso por dois motivos: 1) primeiro porque os samaritanos eram pessoas consideradas impuras; 2) Depois era necessário que o dízimo desses elementos tivesse sido paga, algo que, evidentemente, o samaritano não tinha feito, até porque se tentasse fazer seria rejeitado de pronto. Assim, o judeu quando despertasse também teria que pagar o dízimo corresponde ao óleo e ao vinho usado pelo samaritano. Como ele tinha acabado de ser assaltado, ele não tinha dinheiro sequer para pagar sua própria hospedagem numa hospedaria. Alguém já disse que o mestre da lei que havia iniciado a conversa com Jesus sentiria verdadeiro prazer se o homem ferido tivesse despertado e gritado: longe de mim seu samaritano imundo que eu aceite óleo e vinho de tuas mãos impuras. Bem, durma-se com um barulho desses.    


F. O Transporte até a hospedaria

E, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele — verso 34b.

Como tivemos oportunidade de notar, tudo isso poderia ter sido feito pelo sacerdote que também passou por aquele local, montado em seu próprio animal. A frase acima “a sua cavalgadura”, provavelmente serve para nos indicar que além desse animal o samaritano tinha outros animais consigo, provavelmente transportando mercadorias. Se for mesmo esse o caso, então ele se arriscou muito além do que podemos imaginar, porque certamente, suas mercadorias seriam um chamariz adicional para os mesmos ladrões ou para outro bando qualquer.

Depois de acomodar o homem sobre seu próprio animal, um jumento com quase toda certeza, o samaritano conduziu o seu animal, transportando o homem ferido para uma estalagem.

Como não é incomum para os jumentos daquela região transportarem duas pessoas, é possível que o próprio samaritano também estava montado no animal o que lhe permitia segurar melhor o homem a quem estava socorrendo. Isso, certamente fazia o animal caminhar mais lentamente o que aumentava em muito as chances de um novo ataque. Mas o samaritano sabia o que tinha que fazer e não tinha outras considerações!

Naquela sociedade o ato de apenas conduzir um animal e o ato de montá-lo indicavam uma distinção social que todos entendiam. Um exemplo clássico disso está registrado em

Ester 6:7—11

7 E respondeu ao rei: Quanto ao homem a quem agrada ao rei honrá-lo,

8 tragam-se as vestes reais, que o rei costuma usar, e o cavalo em que o rei costuma andar montado, e tenha na cabeça a coroa real;

9 entreguem-se as vestes e o cavalo às mãos dos mais nobres príncipes do rei, e vistam delas aquele a quem o rei deseja honrar; levem-no a cavalo pela praça da cidade e diante dele apregoem: Assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar.

10 Então, disse o rei a Hamã: Apressa-te, toma as vestes e o cavalo, como disseste, e faze assim para com o judeu Mordecai, que está assentado à porta do rei; e não omitas coisa nenhuma de tudo quanto disseste.

11 Hamã tomou as vestes e o cavalo, vestiu a Mordecai, e o levou a cavalo pela praça da cidade, e apregoou diante dele: Assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar. 

Tais atitudes sociais permanecem inalteradas por séculos.

No caso do samaritano, talvez, ele tivesse decidido apenas conduzir o animal com o homem ferido em cima, seguindo ele mesmo, a pé. Isso seria outra demonstração de humildade, de um homem que priorizava ser vir os outros acima de qualquer outra convenção social.

Sua atitude de levar o homem até a estalagem e ficar ali, a noite toda, cuidando dele é mais uma demonstração de amor sacrificial.

Onde ficava essa estalagem? Certamente não no deserto nem à beira do caminho. Mais provável que a mesma estivesse localizada dentro da cidade de Jericó. Diante da “lei do talião” — ver Números 34 e Deuteronômio XIX — o samaritano ao permitir ser identificado transportando um homem, possivelmente um judeu ferido, colocava-se numa condição precária, mas como já dissemos ele sabia de suas responsabilidades para com o outro ser humano — e é isso que Cristo quer enfatizar na história — que todas as outras considerações, inclusive correr risco de vida, são consideradas pelo samaritano como secundárias ou, realmente, sem importância. Na questão da aplicação da “Lei do Talião”, ao existe nenhum tipo de lógica. O clã agredido pode tentar agredir de volta o agressor original, ou um parente próximo, um parente distante e, até mesmo alguém remotamente conectado com o agressor. É tudo muito ilógico e até mesmo imoral. Todavia tal situação ainda é aceita e legislada em certos países do Oriente Médio. O fato do samaritano pertencer a uma minoria odiada apenas amplia a gravidade da sua situação diante de uma possível intenção de vingança por parte dos parentes do homem ferido. O ato de amor do samaritano não faria a menor diferença se fosse descoberto por parentes do homem ferido. Ele não teria a menor chance e seria massacrado. Inobstante todas essas coisas, ele não abre mão de cumprir o que o senso comum de ser humano lhe ordena: cuidar do ferido com toda a dedicação possível.

Se o samaritano estivesse levando em consideração os perigos que acabamos de mencionar, ele teria abandonado o homem ferido na porta da estalagem e teria ido embora. Estando o homem inconsciente desde o início da narrativa que envolve o samaritano, o mesmo, estaria completamente protegido se apenas tivesse abandonado o pobre homem ferido e partido. O samaritano era um perfeito anônimo para o homem ferido. Jamais poderia ser reconhecido. Mas quando ele decide ficar na estalagem a noite inteira, cuidando do homem e sendo visto pelo menos pelo estalajadeiro, a anonimidade se evapora por completo.

A coragem do samaritano pode ser vista nos seguintes pontos:

1. Quando ele para na beira da estrada para socorrer um desconhecido ferido e inconsciente, pois os ladrões ainda poderiam estar nas proximidades.
2. Mas sua verdadeira coragem se manifesta nesse último ato, ao entrar em Jericó e se dirigir para a estalagem e passar a noite toda cuidando do homem ferido.

Mas a questão fundamental não é tanto a coragem e sim o preço que ele está disposto a pagar por se atrever ser tão compassivo. Esse preço ele ira continuar pagando na próxima parte da nossa exposição.

G. O Pagamento Final

 E, partindo ao outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele, e tudo o que de mais gastares eu to pagarei, quando voltar — verso 35.

E assim a história se completa. É a inversão de temas nas estrofes dessa balada parabólica que deixa bem clara a razão e a intenção de Jesus nessa última cena. Como história, a parábola poderia muito bem ter terminado quando o homem ferido foi levado para um local seguro. Mas não é isso o que acontece. Depois de ter compensado as atitudes pecaminosas e criminosas — omissão de socorro — do levita e também do sacerdote, o samaritano, por fim, oferece uma compensação inclusive pelo que os ladrões haviam levado! A forma como o samaritano reverte o dano causado pelos ladrões pode ser visto no quadro abaixo:

Os Ladrões
O Samaritano
Roubam o homem
Paga pelas despesas do homem
Deixam o homem como morto
Cuida do homem e toma providências para que o cuidado continue
Abandonam o homem
Promete retornar

Essa comparação revela toda a beleza da forma como Jesus construiu a parábola e a transmitiu a seus ouvintes. O local mais óbvio para levar o homem ferido seria a casa de algum conhecido ou até mesmo à sua própria casa. Mas a forma como a parábola é desenvolvida é que cria a possibilidade para o surgimento dessa última cena. É óbvio que o samaritano não poderia pagar nem aos parentes nem aos amigos do homem para que cuidassem dele. E também não faria nenhum sentido ele prometer que voltaria, caso a história tivesse terminado com o homem ferido em segurança.

Todavia, não devemos entender a narrativa de Jesus aqui como alguém que deseja apenas preencher um espaço vazio. Todos os fatos narrados por Jesus são retirados da vida real da Palestina do primeiro século. O homem ferido não tem dinheiro — foi roubado. Se ele não puder pagar sua conta na estalagem quando sair da mesma, ele poderá ser denunciado e até mesmo preso. Estalajadeiros do primeiro século tinham uma fama muito ruim. Dessa forma, o homem ferido não pode esperar que lhe seja estendido qualquer favor, como um ato de nobreza, vindo do dono do local onde ele estava hospedado. De outra parábola de Jesus não sabemos de pessoas que são lançadas na prisão por não conseguirem pagar suas dívidas — ver Mateus 18:23—35.

É claro que o homem roubado e ferido não tinha nenhum recurso que pudesse usar para pagar pela sua dívida. Dessa forma, se o samaritano não assumisse o compromisso de saldar a dívida total do homem ferido, ele não teria condições de sair da hospedaria até alguém aparecer para quitar sua dívida. A atitude do samaritano supre a verdadeira condição de liberdade para o homem ferido. E mais, se a relação fosse entre judeus, o que ajudou poderia cobrar o valor da ajuda daquele que foi ajudado. Mas sendo o ajudador um samaritano, e o ajudado, provavelmente um judeu, tal opção estava completamente descartada. O samaritano não tem nenhuma forma legal de exigir ser reembolsado por quem quer que seja. O samaritano é apenas um desconhecido estranho. Independentemente, do tempo gasto, do empenho e do esforço físico, do dinheiro gasto e do risco que assumiu, ainda assim, o samaritano demonstrou amor para um desconhecido em necessidade. Não é exatamente esse o mesmo tipo de amor que Deus nos oferece graciosamente em Jesus?

A exegese dos primeiros séculos identificou o samaritano com a própria pessoa de Jesus. De fato, em João 8:48, nós podemos ler as seguintes palavras proferidas contra Jesus pelos judeus com os quais debatia um assunto:

João 8:48

Responderam, pois, os judeus e disseram-lhe: Não dizemos nós bem que és samaritano e que tens demônio?

Mas o que deve nos chamar mais a atenção é o fato da custosa demonstração de amor demonstrada de forma totalmente inesperada. O samaritano surge na cena de forma totalmente surpreendente e inesperada, vindo de fora para agir de modo a salvar o perdido. Os líderes tradicionais da comunidade judaica são um fracasso vergonhoso, mas o agente enviado por Deus entra na cena, para trazer o socorro necessário.  

Comentando sobre essa entrada súbita do samaritano na cena, Karl Barth diz o seguinte:

O bom samaritano... não está muito distante do próprio doutor da lei. A exegese primitiva do texto estava, fundamentalmente, correta. O doutor da lei encontra-se presente diante daquele que se encarnou em forma humana; apesar de estar oculto aos olhos do doutor da Lei, na forma de alguém a quem ele acha que deveria odiar, como os judeus odiavam os samaritanos”.[9]

Em outras parábolas já tivemos a oportunidade de notar cerca cristologia funcional — ver, por exemplo, Lucas 7:36—50. Nessa parábola, todavia, os tons marcantes da cristologia encontram-se na própria parábola, e não na estrutura da mesma suprida pelo evangelista ou pela fonte que ele tenha usado. Aqui, com certeza podemos entrar em contato e até mesmo tocar o entendimento que o Senhor Jesus tinha acerca da exclusividade do ministério que Deus lhe havia atribuído como servo sofredor.

De que maneira essa parábola funciona no diálogo entre Jesus e o mestre da Lei?

H. O DIÁLOGO FINAL ENTRE JESUS E O DOUTOR DA LEI

29 Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?

36 Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?

37 E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai e faze da mesma maneira.

No centro desse diálogo nós vemos como Jesus, sabiamente, redireciona a pergunta do doutor da Lei de tal  maneira que obriga o mesmo a fornecer a resposta certa para, a pergunta que havia feito no início — verso 29 —, e cujo intuito era evitar assumir qualquer responsabilidade pelo próximo. Note que Jesus não está disposto a fornecer ao doutor da Lei uma lista de coisas para fazer. Cristo também se recusa a afirmar quem é e quem não é o verdadeiro próximo de qualquer um de nós. Pelo contrário: a pergunta original — que é o meu próximo? — torna-se agora: De quem eu devo me tornar próximo. É a essa pergunta que, talvez até sem perceber, que o doutor da Lei supre sua tão preciosa resposta — verso 37a.

Agora nós não podemos nos deixar enganar nesse ponto crucial. A última afirmação de Jesus — verso 37b — não é uma admoestação geral para se fazer boas obras e sim, a única resposta adequada à pergunta feita pelo doutor da Lei, que dizia respeito, originalmente, à questão da autojustificação. 

O diálogo inicial — versos 25—28 — termina com um mandamento para fazer algo. Da mesma forma, assim também termina o segundo diálogo — verso 37. No primeiro diálogo o doutor da Lei está interessado em saber QUANTAS pessoas ele precisa amar para alcançar a justificação diante de Deus por seus próprio méritos. Mas a resposta de Jesus deixa bem claro que se não considerarmos qualquer pessoa ao alcance das nossas mãos como nosso próximo, jamais poderemos herdar a vida eterna. Esse é o verdadeiro significado do amor ao próximo: estar disponível para ajudar qualquer pessoa em necessidade que esteja ao alcance das nossas mãos. Sem essa disposição pode esquecer qualquer esperança de ir para o céu.

Mas a pergunta que precisamos fazer agora é: Quem é suficiente para essas coisas? Quem pode, realmente, viver de acordo com esse padrão? Nossa reação pode ser muito semelhante àquela da multidão que se perguntava: “Quem, então, pode ser salvo”? — conforme Lucas 18:26. Nessa parábola, cada metade dos dois diálogos caminha nessa direção e dessa forma os dois terminam, exatamente, com a mesma conclusão. O que posso fazer para herdar a vida eterna? O que posso fazer para me autojustificar? A única e honesta conclusão a que podemos chegar é: Tudo isso está muito além da minha capacidade. Em não tenho como me justificar a mim mesmo, MAS todas as coisas são possíveis para Deus — conforme Lucas 18:27.

Conclusão:

A que conclusão o doutor da Lei pode chegar? O que Jesus deseja, exatamente, ensinar a ele e a todos nós ao contar essa história? Somos todos pressionados a entender o seguinte:

1. A parábola deixa claro que toda e qualquer tentativa de autojustificação está fadada ao mais completo fracasso. O padrão é elevado demais. A vida eterna não pode ser conquistada ou adquirida.

2. Por outro lado, a parábola nos mostra um padrão ético que devemos procurar alcançar e manter, mesmo que não seja possível concretizá-lo por inteiro. È como o mandamento “Sê perfeito”. É um padrão, mas que não pode ser manifestado em toda sua plenitude, por ser excessivamente alto.

3. Um livro contendo um código de ética como os fariseus estavam desenvolvendo é completamente inadequado.

4. O samaritano, um odiado estrangeiro, demonstra o amor compassivo que a situação requeria; Dessa forma a parábola transforma-se em um agudo ataque contra todo tipo de preconceito seja de uma comunidade ou racial. É esse tipo de preconceito que está guiando o atual primeiro ministro do Estado de Israel a propor a transformação de Israel de uma “democracia” — que não é de fato — num estado puramente racial judeu.

5. Para Jesus, o amor se manifesta em ações práticas acompanhadas ou não de profundos sentimentos de compaixão.

6. A parábola nos supre com uma definição dinâmica de “próximo”. A pergunta “Quem é meu próximo”?,  é transformada em: “ De quem eu preciso me tornar próximo”? A resposta, por sua vez é: de qualquer um que esteja precisando de minha ajuda, mesmo que seja meu inimigo.

7. A soberania de Deus não está limitada pela liderança espiritual da comunidade, seja qual for a mesma. Quando tal liderança fracassa, como aconteceu com o sacerdote e o levita, Deus ainda é soberano para levantar outros agentes para satisfazer seus propósitos.
8. Dois tipos de pecado e dois tipos de pecadores são apresentados na narrativa de Jesus — os ladrões e os líderes religiosos. Os ladrões ferem o homem pelo uso da violência. Os líderes religiosos o machucam pela negligência. A história deixa clara a culpa de todos eles. A oportunidade desperdiçada para se fazer o bem torna-se num mal inominável e terrível.
9. Essa passagem de Lucas também faz uma afirmação acerca da salvação. A salvação alcança o homem ferido por meio de uma custosa e inesperada manifestação de amor compassivo. Nesse meio, parece fazer uma referência ao próprio Salvador. Conforme João 1:11 Jesus veio para os seus, mas foi considerado como um estranho e endemoninhado! Jesus é a própria personificação do estrangeiro rejeitado, e ele não se envergonha de assumir esse papel, que lhe permite surgir, de forma dramática e inesperada na cena, cuidar do homem ferido como o enviado EXCLUSIVO de Deus, com uma custosa demonstração do amor de Deu.


Outras Parábolas de Jesus Podem ser encontradas nos Links abaixo:

001 – O Sal

002 – Os Dois Fundamentos

003 – O Semeador

004 – O Joio e o Trigo =

005 – O Credor Incompassivo

006 — O Grão de Mostarda e o Fermento

007 — Os Meninos Brincando na Praça

008 — A Semente Germinando Secretamente

009 e 010 — O Tesouro Escondido e a Pérola de Grande Valor

011 — A Eterna Fornalha de Fogo

012 — A Parábola dos Trabalhadores na Vinha

013 — A Parábola dos Dois Irmãos

014 — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 1

014A — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 2

015 — A Parábola das Bodas —

016 — A Parábola da Figueira

017 — A Parábola do Servo Vigilante

018 — A Parábola do Ladrão

019 — A Parábola do Servo Fiel e Prudente

020 — A Parábola das Dez Virgens

021 — A Parábola dos Talentos

022 — A Parábola das Ovelhas e dos Cabritos

023 — A Parábola dos Dois Devedores

024 — A Parábola dos Pássaros e da Raposa

025 — A Parábola do Discípulo que Desejava Sepultar Seu Pai

026 — A Parábola da Mão no Arado

027 — A Parábola do Bom Samaritano — Completo

027A — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 1

027B — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 2 — Os Ladrões e o Sacerdote

027C — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 3 — O Levita

027D — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 4 — O Samaritano

027E — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 5 — O Socorro

027F — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 6 — O transporte até a hospedaria

027G — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 7 — O pagamento final

027H — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 8 — O diálogo final entre Jesus e o doutor da Lei

028 — A Parábola do Rico Tolo —

029 — A Parábola do Amigo Importuno —

030 — A Parábola Acerca de Pilatos e da Torre de Siloé

031 — A Parábola da Figueira Estéril

032 — A Parábola Acerca dos Primeiros Lugares

033 — A Parábola do Grande Banquete

034 — A Parábola do Construtor da Torre e do Grande Guerreiro

035 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 001

036 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 002

037A — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 001

037B — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 002

037C — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 003

037D — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 004 — A Influência do Antigo Testamento

037E — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 005 — Características Cristológicas da Parábola da Ovelha Perdida

037F — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 006 — A importância das pessoas perdidas.
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/11/parabolas-de-jesus-mateus-181214-e.html

037H — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 008 — Conclusão.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.



[1]  Ver os livros de Joachim Jeremias nas Parábolas de Jesus, de T. W. Manson intitulado The Sayings of Jesus que tratam das parábolas de Jesus e o comentário de I. Howard Marshall no livro de Lucas escrito para a série: The New International Greek Testament Commentary.

[2]  Barth, Karl. The Doctrine of the Word of God, Volume I, Parte II, em Church Dogmatics. Hendrickson Publishers, Marketing, LLC, Peabody, 2010.

[3] Barth, Karl. The Doctrine of the Word of God, Volume I, Parte II, p. 417 em Church Dogmatics. Hendrickson Publishers, Marketing, LLC, Peabody, 2010.

[4] Darret, J. D. M. Law in The New Testament. Darton, Longman and Todd, London, 1970.

[5] Trech. Richar Chenevix. Notes on The Parables of Our Lord. D. Appleton and Company, New York, 1881. Citado por Bailey, Kenneth E., em Through Peasant Eyes – More Lucan Parables. William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, 1980.

[6] Jeremias, J. The Parables of Jesus. SCM Press, London, 1963

[7] Mishná que também pode ser escrito como Mishnah significa em hebraico “estudo repetido” e cujo plural é Mishnayot. O Mishná é a mais antiga e autoritativa coleção e codificação da legislação judaica pós Antigo Testamento. Esta coleção foi sistematizada por inúmeros estudiosos, chamados de “tannanim”, durante um período superior a duzentos anos. Esta codificação assumiu sua forma definitiva no início do século III d.C. pelas mãos do estudioso conhecido como Judah ha-Nasi. O objetivo da coleção encontrada no Mishná era suplementar as leis escritas que estão registradas no Pentateuco. No Mishná podemos encontrar, na forma escrita, a interpretação seletiva de inúmeras tradições que haviam sido preservadas na forma oral, com algumas destas tradições sendo bastante antigas e datando dos dias de Esdras c. 450 a.C.

[8] Josefo, Flávio. Antiguidades Judaicas. Casa Publicadora das Assembleias de Deus, Rio de Janeiro, 8ª edição: 2004. 

[9] Barth, Karl.  The Doctrine of the Word of God. Volume I Parte II em Churrch Dogmatics. Nova Edição por  Hendrikson Publishing Company, Peabody, 2012.


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