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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

PARÁBOLAS DE JESUS - SERMÃO 037G - A PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA — PARTE 007 —


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MATEUS 18:12—14 E LUCAS 15:4—7

Esse artigo é parte da série "Parábolas de Jesus" e é muito recomendável que o leitor procure conhecer todos os aspectos das verdades contidas nessa série, com aplicações para os nossos dias. No final do artigo você encontrará links para os outros artigos dessa série.

A Parábola da Ovelha perdida

A EXPLICAÇÃO DA PARÁBOLA

5. O Que Essa Parábola nos Ensina?

O propósito principal porque Jesus proferiu essa parábola era defender sua escolha deliberada em se associar com pessoas que eram notoriamente caracterizadas como sendo pecadoras. Ao se unir e realizar refeições na companhia de tais pessoas, Jesus demonstrava, de modo inequívoco, a presença do reino de Deus e o consequente perdão dos pecados. Por outro lado, a parábola também pode ser considerada como sendo ainda mais uma acerca do reino de Deus, pois com ela Jesus afirma que a promessa feita por Deus no passado, de cuidar como pastor do Seu próprio povo, estava, de fato, se cumprindo. Por fim, Jesus desejava mostrar por meio dessa parábola, a todos que estavam reclamando de Suas atitudes, que tal reclamação era incompatível tanto com o caráter, como com os desejos manifestos de Deus. Jesus convida a todos para participarem da alegria produzida pelo perdão gratuito oferecido a todos por meio da manifestação do reino de Deus.

O desejo de Lucas é que seus leitores entendessem o evangelho de Jesus e adotassem a mesma atitude demonstrada pelo Senhor. Uma implicação adicional no texto de Lucas é que nele encontramos uma acusação de que os líderes religiosos de Israel não estavam cumprindo com suas verdadeiras responsabilidades. Mateus, por sua vez, deseja que seus leitores se apropriem das características de caráter do próprio Deus e de Sua vontade revelada e apliquem as mesmas a todos os seus relacionamentos na comunidade, especialmente com relação àqueles que se encontram marginalizados. O elemento que deve controlar a vida do povo de Deus é o conhecimento do caráter do próprio Deus. E aqui, não estamos falando de uma abstração qualquer, porque o caráter de Deus é manifestado e revelado nas ações e no ministério do próprio Senhor Jesus.

O que essa parábola nos revela acerca do caráter de Deus é o valor que o Senhor atribui a todas as pessoas, especialmente às menos favorecidas, e o cuidado que Ele dedica a todos, sem exceção. Deus não está distante, como que aguardando que nos aproximemos dEle. Pelo contrário, Ele é o Deus que toma a iniciativa e vai à busca do perdido com o objetivo de encontrá-los e trazê-los de volta para a plena comunhão consigo. Isso é realizado por Deus, independentemente, de quão perdido o pecador esteja. Ninguém, absolutamente, ninguém, está fora do alcance da mão misericordiosa de Deus. Esse ensinamento de Jesus — de que o próprio Deus vai à busca dos pecadores — é, de acordo com o estudioso judeu Claude Montefiore, parte do novo material que o próprio Jesus trouxe e que ainda não tinha sido revelado no Antigo Testamento e também não fazia parte dos ensinamentos rabínico daquela época.[1] Todavia, devemos contra-argumentar que tal afirmação é bastante exagerada. Dizemos isso pela longa lista de versos do Antigo Testamento que já foram apresentados e que nos falam do interesse de Deus pelas pessoas e de como o próprio Deus é quem inicia todos os processos salvíficos e de oferecimento de perdão. Assim, o Deus revelado por Jesus é um Deus interessado e cuidadoso que valoriza até mesmo os que não têm valor algum, e se empenha em procurá-los até encontrá-los. Isso está bem claro nas seguintes afirmações:

Romanos 5:6—8

6 Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios.

7 Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer.

8 Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.

Romanos 8:31–38

31 Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?

32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?

33 Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica.

34 Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.

35 Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?

36 Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro.

37 Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.

38 Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes,

39 nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.

Se o reino de Deus se manifesta com graça sem limites, mas também com exigências sem limites então, essa parábola enfatiza a graça ilimitada. Não temos dúvidas que Deus irá buscar e restaurar o perdido. A busca e a alegria resultante de encontrar o que estava sendo buscado, são os dois pilares que sustentam essa parábola. Todavia, devemos deixar claro que a busca de Deus é graciosa e não interesseira. Autores como J. Jeremias e J. Fitzmyer defendem a ideia que Lucas 15:7 introduz a ideia do juízo por meio do uso da expressão haverá.[2], [3] Mas isso está aberto a muita discussão. A alegria mencionada por Jesus reflete tanto a atitude de Deus em conseguir resgatar o perdido, quanto a celebração pelo fato de que as boas novas de salvação trazidas pelo reino de Deus já começaram a se manifestar. Tal manifestação de alegria é comunitária e todos os ouvintes de Jesus, inclusive eu e você, devem se unir nessa celebração.

CONTINUA...

Outras Parábolas de Jesus Podem ser encontradas nos Links abaixo:

001 – O Sal

002 – Os Dois Fundamentos

003 – O Semeador

004 – O Joio e o Trigo =

005 – O Credor Incompassivo

006 — O Grão de Mostarda e o Fermento

007 — Os Meninos Brincando na Praça

008 — A Semente Germinando Secretamente

009 e 010 — O Tesouro Escondido e a Pérola de Grande Valor

011 — A Eterna Fornalha de Fogo

012 — A Parábola dos Trabalhadores na Vinha

013 — A Parábola dos Dois Irmãos

014 — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 1

014A — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 2

015 — A Parábola das Bodas —

016 — A Parábola da Figueira

017 — A Parábola do Servo Vigilante

018 — A Parábola do Ladrão

019 — A Parábola do Servo Fiel e Prudente

020 — A Parábola das Dez Virgens

021 — A Parábola dos Talentos

022 — A Parábola das Ovelhas e dos Cabritos

023 — A Parábola dos Dois Devedores

024 — A Parábola dos Pássaros e da Raposa

025 — A Parábola do Discípulo que Desejava Sepultar Seu Pai

026 — A Parábola da Mão no Arado

027A — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 1

027B — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 2 — Os Ladrões e o Sacerdote

027C — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 3 — O Levita

027D — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 4 — O Samaritano

027E — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 5 — O Socorro

027F — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 6 — O transporte até a hospedaria

027G — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 7 — O pagamento final

027H — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 8 — O diálogo final entre Jesus e o doutor da Lei

028 — A Parábola do Rico Tolo —

029 — A Parábola do Amigo Importuno —

030 — A Parábola Acerca de Pilatos e da Torre de Siloé

031 — A Parábola da Figueira Estéril

032 — A Parábola Acerca dos Primeiros Lugares

033 — A Parábola do Grande Banquete

034 — A Parábola do Construtor da Torre e do Grande Guerreiro

035 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 001

036 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 002

037A — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 001

037B — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 002

037C — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 003

037D — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 004 — A Influência do Antigo Testamento

037E — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 005 — Características Cristológicas da Parábola da Ovelha Perdida

037F — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 006 — A importância das pessoas perdidas.

037G — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 007 — O que essa parábola nos ensina.
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/parabolas-de-jesus-sermao-037g-parabola.html

037H — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 008 — Conclusão.
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/05/parabolas-de-jesus-sermao-037h-parabola.html

037 — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Completa
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/06/parabolas-de-jesus-sermao-037-parabola.html



038A — PARÁBOLAS DE JESUS — A PARÁBOLA DA DRACMA PERDIDA — LUCAS 15:8—10 —— PARTE 001

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.          

Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.



[1] Montefiore, C. G. The Synoptic Gospels — 2 Volumes. Macmillan, Londres, 1927.
[2] Jeremias, J. As Parábolas de Jesus. Paulus, São Paulo, 1976.
[3] Fitzmyer, Joseph A. The Gospel According to Luke X—XXIV. Doubleday & Company, INC, Garden City, 1983.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

PECADOS QUE PODEM NOS DESTRUIR POR COMPLETO – PARTE 007 — A IMPACIÊNCIA — PARTE 004 - Final

Essa é uma série na qual pretendemos, dentro do possível, discutir alguns dos mais insidiosos pecados que ameaçam nossas almas. Trata-se de ações ou reações que caracterizam um coração perverso diante de Deus, algo com o que muitos personagens bíblicos tiveram que lutar, mas que pela graça de Deus conseguiram vencer. Nós também, como seres humanos iguais a eles estamos sujeitos a enfrentar esses mesmos pecados e temos que entender como essas situações funcionam, para poder lançar mão da graça de Deus e vencer as mesmas. A SÉTIMA questão que devemos analisar é:
VEJA NO FINAL DESSE ARTIGO OS LINKS PARA AS OUTRAS PARTES DESSE ESTUDO

7. A IMPACIÊNCIA — PARTE 004

A questão da impaciência levanta por fim, um importante aspecto de nossas vidas: se amamos verdadeiramente a Deus ou ao mundo. O apóstolo João já nos advertiu dos perigos de amar o mundo, quando disse:

1 João 2:15—17

15 Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele;

16 porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo.

17 Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.

Jesus mesmo nos advertiu que dividir a atenção que devemos a Deus e ao próprio Senhor Jesus é algo impossível de ser realizado. Fazemos apenas papel de tolos, todas as vezes que tentamos agir desse modo:

Mateus 6:24

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Marcos 10:37—38

37 Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim;

38 e quem não toma a sua cruz e vem após mim não é digno de mim.

A conclusão a que tudo isso nos leva é a seguinte: NÓS SEMPRE SERVIMOS AQUILO QUE ADORAMOS.

O verdadeiro combate da fé é travado entre aquilo que mais amamos. É um combate entre a comunhão eterna com Deus ou as recompensas passageiras do mundo. Na passagem de 1 João mencionada acima, cada um de nós pode encontrar a forma como Deus deseja que caminhemos.

Vamos então fazer uma análise mais detalhada de 1 João 2:15—17

Nesses versos nós vamos encontrar uma descrição do mundo e instruções acerca de como a igreja deve se comportar com relação ao mesmo. O apóstolo João usa a expressão grega κόσμος kósmos — mundo, das seguintes maneiras:

1. O Universo organizado — João 17:5; o Planeta Terra, talvez — João 21:25.

2. Como metonímia[1], os habitantes humanos do Planeta Terra, ou seja, a humanidade ou o ambiente onde a humanidade se movimenta e onde acontecem os eventos históricos relativos aos humanos, à raça humana e a estrutura social da humanidade — João 16:21.

3. O público em geral — João 7:4. O mesmo uso ocorre também, talvez, em João 14:22.

4. No sentido ético, o termo descreve a humanidade alienada da vida de Deus, pecaminosa, sob o severo juízo de Deus e precisando de salvação — João 3:19! Esta é a definição ou uso mais importante feito pelo apóstolo João.

5. O mesmo uso indicado no item 4 acima, com a ideia adicional de que não existe nenhuma distinção com respeito à raça ou nacionalidade. Assim o termo é usado para descrever seres humanos de todas as raças, línguas e nações, sejam judeus sejam gentios — João 4:42. O mesmo uso ocorre, provavelmente, em João 1:29; 3:16—17; 6:33, 51; 8:12; 9:5; 12:46; ver também 1 João 2:2; 4:14—15. Todos estes versos precisam ser entendidos à luz de

João 12:32 que diz —

E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo.

Para o apóstolo João como para todos os outros autores do Novo Testamento não havia, da perspectiva do pecado, nenhuma diferença diante de Deus entre judeus e gentios.
 
6. A jurisdição ou extensão do mal. O sentido é o mesmo no item de #4 com a seguinte ideia adicional: uma hostilidade aberta contra Deus, Seu Filho Jesus Cristo e o Povo de Deus — João 7:7; 8:23; 12:31; 14:30; 15:18—19; 17:9, 14.

Em nosso texto central — 1 João 2:15—17 — João efetua uma mudança no que vinha falando, de uma “exortação”, para uma advertência acerca do comportamento dos crentes. O tempo verbal que caracteriza esses versículos não é o indicativo e sim o imperativo: Não ameis o mundo. Os cristãos receberam uma grande herança ao receberem o perdão dos seus pecados, a reconciliação e a comunhão com o próprio Deus e o poder de vencer tanto o diabo como o próprio pecado em suas vidas. Mas nada disso indica que estamos livres das tentações. Pelo contrário, as tentações existem e muitas vezes podem arruinar nossas vidas se nós deixarmos que isso aconteça.

O mandamento para não amarmos o mundo está baseado em dois argumentos principais:

1) a incompatibilidade entre o amor ao mundo e o amor ao nosso Pai celestial — 1 João 2:15—16;

2) a transitoriedade do mundo contrastada com a eternidade daquele que obedece a Palavra de Deus — 1 João 2:17.

Bem vamos analisar cada um desses três versos em separadamente.

1 João 2:15 —

Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele.

Muitas pessoas sentem-se intrigadas acerca de como é possível reconciliar esse verso como o que está afirmado em –

João 3:16 —

Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Para dirimir esse impasse é necessário ler nossas definições acerca da palavra grega κόσμος kósmosconforme estão acima. Ali nós alistamos seis maneiras diferentes em que essa expressão é usada, pelo apóstolo João em seus escritos. Assim falamos do κόσμος kósmoscomo representando os seres humanos que vivem no planeta terra e sabemos que tais pessoas precisam ser amadas e alcançadas como compaixão, graça e misericórdia. Por outro lado vimos também que essa mesma expressão é usada para designar, no sentido ético, a humanidade alienada da vida de Deus, pecaminosa, sob o severo juízo de Deus e precisando de salvação — João 3:19! Essa é a definição ou uso mais importante feito pelo apóstolo João. Mas ainda podemos adicionar o seguinte: A jurisdição ou extensão do mal: uma hostilidade aberta contra Deus, Seu Filho Jesus Cristo e o Povo de Deus. E é nesse sentido que João nos ordena a não amar o mundo. João 3:16 tem a ver com a necessidade de amar o mundo perdido. Já 1 João 2:15 tem a ver com não deixarmos nos envolver com a pecaminosidade do mesmo.

Nesse mesmo contexto, o cristão é ordenado a amar tanto a Deus quanto os membros da comunidade.  

1 João 2:5

Aquele, entretanto, que guarda a sua palavra, nele, verdadeiramente, tem sido aperfeiçoado o amor de Deus. Nisto sabemos que estamos nele.

1 João 2:10

Aquele que ama a seu irmão permanece na luz, e nele não há nenhum tropeço.

Mas aqui somos ordenados, explicitamente a não amar o mundo, ou a não nos identificar com suas práticas pecaminosas, seus cuidados e suas paixões. A expressão “amar” é bastante adequada nesse contexto tanto no aspecto positivo quanto no negativo, porque não se trata de uma emoção incontrolável e sim de uma devoção estável da nossa vontade. A razão porque somos ordenados a não amar o mundo é porque o amor ao Pai celestial e o amor ao mundo são completamente incompatíveis, e mutuamente excludentes. Se uma pessoa se ocupa com o mundo e seus cuidados, que são acintosamente contrários à pessoa de Cristo, é evidente que tal indivíduo não tem amor pelo Pai. Tiago nos diz o seguinte:

Tiago 4:4

Infiéis, — Infiéis; no original, adúlteras, isto é, os que são desleais para com Deus — não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus.

Jesus também fez claras referências ao fato que não podemos servir a dois senhores:

Mateus 6:24

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro, ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Lucas 16:13

Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Dessa forma, temos que: se não podemos servir a Deus e às riquezas simultaneamente, do mesmo modo não podemos servir o Pai e o mundo simultaneamente.

1 João 2:16

Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo.

A frase de João omite uma importante verdade, porque ele não está interessado nela nesse contexto. Essa verdade tem a ver com o fato de que: se existe algo nesse mundo — no sentido de mundo criado por Deus — que pertence ao Pai por direito, por ter sido Ele quem as criou e a Ele devem sua existência, então nós podemos amar essas coisas. Mas, no sentido que João cita essas coisas como “Porque tudo que há no mundo”, como algo que “procede do mundo”, então não podemos amar absolutamente nada que esteja nessa categoria. João escolhe fazer algumas menções especiais:

1) A concupiscência da carne.

2) A concupiscência dos olhos.

3) A soberba da vida.

De acordo com C. H. Dodd[2] essas três escolhas feitas por João, parecem as marcas essenciais da vida pagã, ou da vida sem o conhecimento do Deus verdadeiro. A primeira

A concupiscência da carne — descreve os desejos da nossa natureza caída e pecaminosa, vivendo no mundo dominado pelo próprio diabo, onde a mesma encontra plena liberdade para se manifestar. Deve ser algo notável por todos que no breve espaço de apenas três versículos — 1 João 2:14—16 — João menciona tanto o Maligno, como o Mundo e também a carne.
A segunda escolha de João —

A concupiscência dos olhos — parece indicar as muitas tentações que nos assaltam, não a partir do nosso interior, mas vindas do exterior, por meio dos nossos olhos. Essa é nossa tendência de nos deixar cativar pelo show externo, sem questionarmos absolutamente nada acerca do verdadeiro valor de tais coisas. Como Eva em

Gênesis 3:6

Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos.

nós também deixamos nos seduzir com facilidade por aquilo que vemos. Outros casos óbvios são os de Acã, acerca do qual lemos em —

Josué 7:21

Quando vi entre os despojos uma boa capa babilônica, e duzentos siclos de prata, e uma barra de ouro do peso de cinquenta siclos, cobicei-os e tomei-os; e eis que estão escondidos na terra, no meio da minha tenda, e a prata, por baixo.

E também o caso do próprio Davi, conforme a descrição que temos em

2 Samuel 11:2

Uma tarde, levantou-se Davi do seu leito e andava passeando no terraço da casa real; daí viu uma mulher que estava tomando banho; era ela mui formosa.

Os três casos acima — Eva, Acã e Davi — representam o amor pela beleza desprovido do amor pela bondade. É o amor maniqueísta — onde os fins justificam os meios — e a manifestação suprema do egoísmo, que é frontalmente contrária a Deus.

A soberba da vida — Essa é, sem sombra de dúvida a mais difícil de todas as três expressões. A língua grega tem duas palavras para expressar o sentido de vida:

 ζωὴ zoìo estado de alguém que está cheio de vitalidade ou é animado.

βίοσ bíos — vida num sentido amplo. Vida em seu estado presente e concreto de manifestação.

Essa mesma expressão βίοσ bíos — vida num sentido amplo aparece novamente em

1 João 3:17

Ora, aquele que possuir recursos — recursos aqui é βίοσ bíos — no original — deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus?

Nesse sentido a expressão é traduzida como “recursos” no sentido que são recursos necessários para o sustento da vida. A expressão “aquele” no verso acima reflete uma pessoa presunçosa — no grego é ἀλαζόνας alazónas — como em Romanos 1:30; jactanciosa, como em 2 Timóteo 3:2 ou pretensioso, como em Tiago 4:16. Trata-se de uma pessoa que deseja impressionar os outros com algo vazio, algo que não tem valor. Os bens dessa terra são necessários para nosso sustento, mas não possuem valor algum na eternidade, porque não são, absolutamente, necessários.

A soberba da vida é, portanto, uma arrogância ou vanglória da parte de uma pessoa que tem como base as circunstâncias externas que tal pessoa experimenta nessa vida. Podemos estar falando de riquezas, de posição nalgum tipo de hierarquia, ou ricas vestimentas que conduzem a pessoa a uma “ostentação pretensiosa”. Reflete o desejo de “brilhar” ou de “brilhar mais” que as outras pessoas.

Não são poucos os comentaristas que enxergam essa trindade da perversidade manifestada nas tentações sofridas por Cristo no deserto e mais ainda, na tentação sofrida por Eva no Éden — conforme Gênesis 3:6. Mas devemos afirmar que nenhum paralelo é próximo o bastante para supormos uma alusão deliberada e intencional da parte de João. Também não percebemos nenhuma correspondência óbvia entre esses aspectos do mundo e os três principais vícios que ocupam lugar proeminente na ética do mundo antigo e medieval. Esse vícios eram: Voluptia, Avaritia e Superbia ou Prazer, Cobiça e Orgulho.

Em resumo, podemos afirmar que esses três vícios apontados por João, incluem duas cobiças e uma vanglória. Tratam de duas formas de depravação que surgem de dentro de nós mesmos e da nossa própria vontade e uma resulta das nossas posses, independentemente da sua natureza. Assim temos: desejos pecaminosos por coisas que não temos, mas desejamos ter e arrogância por causa das coisas que temos, mesmo que elas sejam vazias! Podemos finalizar dizendo que esses três vícios têm a ver com: desejos baixos, egoísmo e valores falsos. Daí a ordem de Deus de evitar os mesmos.   

1 João 2:17

Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.

A segunda razão para não amarmos o mundo — a primeira foi que se amarmos o mundo o amor do Pai não poderá estar em nós — é que Jesus inaugurou um novo tempo — o tempo do Reino de Deus, do Espírito Santo vindo para habitar nos crentes e etc. — o que indica que esse tempo presente está destinado a um fim catastrófico. O mundo, como as trevas que existem nele já estão se desintegrando. No grego a mesma expressão παράγεται parágetai — é usada tanto nesse verso, traduzida por “passa”, quanto em 1 João 2:8 onde é traduzida por “dissipando” conforme podemos ler em —

1 João 2:8

Todavia, vos escrevo novo mandamento, aquilo que é verdadeiro nele e em vós, porque as trevas se vão dissipando, e a verdadeira luz já brilha.

É nesse mesmo sentido, de algo passageiro ou que está já passando, que Paulo cita o mundo em —

1 Coríntios 7:31

E os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem; porque a aparência deste mundo passa.

E todos os seres humanos que, por meio das mais diversas cobiças se identificam com esse mundo, terminarão exatamente, como o próprio mundo: ou seja, passarão junto com o mundo. Somente uma classe de pessoas irá permanecer. Essa classe é descrita como a: “que faz a vontade de Deus permanece eternamente”. Jesus deixou bem clara a seguinte verdade —

Marcos 3:35

Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.


A conclusão de João, portanto, é apenas lógica: os crentes em Cristo têm o direito de habitar no mesmo local onde Cristo habita —

João 8:35

O escravo não fica sempre na casa; o filho, sim, para sempre.

João 13:1—3

1 Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim.

2 Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar.

3 E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também.

Portanto, nós temos uma escolha final para fazer, que está diante de nós, e que é entre Deus e o mundo ou as cobiças do mundo e a vontade de Deus. Nós teremos uma vontade maior de obedecer a vontade de Deus, se nos conscientizarmos que o mundo e suas cobiças são transitórias e estão próximas do fim — 2 Coríntios 4:18.


Conclusão para o pecado da impaciência relacionada com o que vimos em 1 João 2:15—17

A passagem de 1 João que acabamos de estudar é muito importante, porque é ela que nos fornece a chave para que cada pessoa encontre a forma, exata, como Deus que quer que ela caminhe.

Para que possa conhecer a vontade de Deus o crente deve optar entre e Deus e o mundo e, claro, deve preferir Deus ao mundo. Caso contrário não irá experimentar o amor do Pai em si mesmo e acabará perecendo junto com o próprio mundo. Se o crente agir assim, quando seu coração estiver triste, ele deverá esperar em oração que Deus mostre o próximo passo a ser dado ou próximo curso de ação a ser seguido, para que possa, desse modo, manter o amor do Pai em seu próprio coração. Todos as pessoas que agem dessa maneira seja nas pequenas, como nas grandes decisões demonstram que amam e confiam em Deus. A esse respeito é bom lembrar-nos das palavras do Senhor Jesus Cristo, quando disse —

Mateus 7:21

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.

Nesse verso o Senhor está falando acerca de falsos seguidores seus. E esses são mais numerosos do que podemos imaginar. Esses são aqueles que gostam muito de falar da vontade de Deus, mas não gostam de fazer essa mesma vontade. É possível que alguns dos falsos seguidores tenham se tornado em tais, porque ouviram e seguiram os falsos mestre citados em Mateus 7:15—20. Isso é muito fácil de acontecer, porque muitas vezes o discurso dos falsos mestres é coerente, bíblico até, mas a vida diária é outra história. O clamor desses falsos seguidores — Senhor, Senhor — reflete certa veemência, mas o mesmo não tem o sentido de soberano Senhor, e sim apenas de um mestre ou um tratamento respeitoso. Depois da ressurreição de Jesus, a Igreja adotou esse termo grego Κύριε Kúrie — Senhor como símbolo de adoração e confissão da divindade do Senhor Jesus Cristo. Mas esses mencionados aqui pretendem usar na eternidade o termo Senhor, quando em suas vidas diárias, eles foram os senhores e senhoras absolutos de suas próprias vidas.

Assim, o que temos nesse verso é uma afirmação clara que o fator determinante com relação a quem entra ou não no Reino de Deus é a obediência à vontade de Deus, o Pai no sentido prático e não apenas na forma de uma concordância mental ou até mesmo verbal

Malaquias 1:6—8

6  O filho honra o pai, e o servo, ao seu senhor. Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o respeito para comigo? —diz o SENHOR dos Exércitos a vós outros, ó sacerdotes que desprezais o meu nome. Vós dizeis: Em que desprezamos nós o teu nome?

7  Ofereceis sobre o meu altar pão imundo e ainda perguntais: Em que te havemos profanado? Nisto, que pensais: A mesa do SENHOR é desprezível.

8  Quando trazeis animal cego para o sacrificardes, não é isso mal? E, quando trazeis o coxo ou o enfermo, não é isso mal? Ora, apresenta-o ao teu governador; acaso, terá ele agrado em ti e te será favorável? —diz o SENHOR dos Exércitos.

Lucas 6:46

Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?

Examinemos, pois, não somente a vida dos outros, mas especialmente nossas próprias vidas, para conferir se o que pensamos e falamos é coerente com a forma como agimos. O fruto que produzimos não está relacionado apenas ao que ensinamos, mas também como vivemos. Desse modo, Jesus direciona essa verdade com toda força diretamente para os nossos corações. Jesus condena a todos cujas palavras e atitudes não casam de modo harmonioso. Mateus 7:21 nos mostra a primeira vez em que o termo πατρός patrós — Pai é usado por Jesus nesse evangelho, e desse modo, tal uso pode servir para sustentar a verdade ensinada por toda a extensão do Sermão do Monte, de que Jesus afirma ser o único Revelador verdadeiro da vontade do Pai. Desse modo, a vontade do Pai não pode ficar restrita ao Antigo Testamento, mas inclui os novos aspectos ensinados pelo próprio Senhor Jesus Cristo. Devemos obedecer ao todo da revelação de Deus.

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Que Deus nos abençoe a todos. 

Alexandros Meimaridis 

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[1] Metonímia: Figura de linguagem que consiste em designar um objeto por palavra designativa de outro objeto que tem com o primeiro uma relação de causa e efeito - trabalho, por obra - de continente e conteúdo - copo, por bebida - lugar e produto - porto, por vinho do Porto - matéria e objeto - bronze, por estatueta de bronze - abstrato e concreto - bandeira, por pátria - autor e obra - um Camões, por um livro de Camões - a parte pelo todo - asa, por avião etc.

[2] Dodd, C. H. Commentary on the Johannine Epistles in The Moffat New Testament Commentary. Hodder & Stoughton, London,1946.