sábado, 7 de novembro de 2015

A ORAÇÃO DO PAI NOSSO - SERMÃO 003 — O Pai Nosso — Parte 2 — Mateus 6:9



Essa série tem por objetivo expor de maneira ampla, bíblica, literária, histórica e teologicamente, a oração que chamamos de “Oração do Pai Nosso”. Nosso desejo é enriquecer a vida de todos por meio desses esboços de mensagens que também estão disponíveis em áudio. Na parte final desse artigo o leitor encontrará os links para os outros esboços e para os áudios à medida que forem sendo publicados 


Uma Exposição Bíblica, Literária e Teológica de Mateus 6:9—13



Introdução:

A. Em nossa apresentação da “Oração do Pai Nosso”, nós temos afirmado e reafirmado que através dela Jesus mudou, por completo, o modelo ou paradigma de oração usado pelos Judeus.

B. Essas mudanças podem ser facilmente vistas no seguinte:

1. Enquanto os Judeus gostavam de orar em pé nas praças e nas sinagogas para serrem vistos por todos — ver Mateus 6:5. Jesus, por sua vez nos ordena orar em secreto e nos garante que essa é a oração que Deus ouve e atende – ver Mateus 6:6.

Mateus 6:5—6

5 E, quando orardes, não sereis como os hipócritas; porque gostam de orar em pé nas sinagogas e nos cantos das praças, para serem vistos dos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa.

6 Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará.

2. Os judeus tinham por costume orar três vezes ao dia, ao passo que em Cristo nós somos livres para orar quantas vezes quisermos durante o dia.

3. Os judeus tinham um conjunto fixo de 18 orações, além do Shemá. Jesus passava noites inteiras em oração, o que indica que ele não estava limitado a repetir, ad infinitum, orações decoradas. Suas orações refletiam a profunda comunhão que tinha com o Pai.

4. Os judeus oravam exclusivamente em hebraico, a única língua que eles achavam Deus entendia. Jesus nos ensina que Deus é Espírito e devemos orar na língua do nosso coração. Jesus ensinou seus discípulos a orar na língua aramaica, porque essa era a língua que eles usavam no dia a dia. O Novo Testamento registra várias orações dos apóstolos feitas na língua grega.

5. Jesus ensinou seus discípulos a orarem a Deus como Pai — Abba em aramaico. Como iremos ver hoje, o uso dessa expressão representava o rompimento definitivo com a língua e a cultura hebraica por parte de Jesus Cristo.

6. Vamos então passar a análise de como os judeus se referiam a Deus como Pai e a diferença, fundamental, que o ensinamento de Jesus trouxe a esse entendimento.

PAI NOSSO

I. Como os Judeus Usavam a Expressão Pai no Antigo Testamento

A. Já mencionamos que em 2 orações das chamadas tefillah — orações diárias — os judeus iniciavam a mesma com a expressão “Pai Nosso” que traduz a expressão hebraica “Abinu”.

B. A palavra hebraica para pai em sua raiz mais simples é אָב`ab — Pai. Nesse sentido a expressão é usada mais de 1200 vezes no Antigo Testamento. De todas essas vezes, apenas 12 fazem referência a Deus como “Pai do povo de Israel”. Essa paternidade foi forjada quando da libertação do povo da escravidão do Egito como podemos ler em:

Deuteronômio 7:6—8

Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra. Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito.

Deuteronômio 14:2

Porque sois povo santo ao SENHOR, vosso Deus, e o SENHOR vos escolheu de todos os povos que há sobre a face da terra, para lhe serdes seu povo próprio.

Isaías 63:15—16

Atenta do céu e olha da tua santa e gloriosa habitação. Onde estão o teu zelo e as tuas obras poderosas? A ternura do teu coração e as tuas misericórdias se detêm para comigo! Mas tu és nosso Pai, ainda que Abraão não nos conhece, e Israel não nos reconhece; tu, ó SENHOR, és nosso Pai; nosso Redentor é o teu nome desde a antiguidade.

Isaías 64:8

Mas agora, ó SENHOR, tu és nosso Pai, nós somos o barro, e tu, o nosso oleiro; e todos nós, obra das tuas mãos.

C. Apesar do fato que nem todos esses versos usam a expressão “Pai”, é bem evidente que foi nisso mesmo que Deus se tornou — PAI — quando adotou o povo hebreu como Seu povo.

D. Os judeus se dirigiam a Deus como Pai de forma litúrgica onde era chamado de Abinu — Pai nosso — ou de Abi — Meu Pai. Mas nunca, nunca se referiam a Deus usando a forma familiar אַבָא`aba`— Pai pois consideravam a expressão vulgar e despretensiosa para ser usada com relação ao Deus Todo Poderoso.  

E. Agostinho diz em seu Comentário no Sermão Montanha o seguinte: “Entretanto, em nenhuma parte do Antigo Testamento encontramos nenhum mandamento ordenando ao povo de Israel que se dirigisse a Deus como Pai ou o invocasse como Pai nosso”.

F. O uso que os judeus faziam da expressão pai estava restrita às seguintes formas:

1. Como uma símile, i.e., “Isto é como Aquilo” com, por exemplo, em —

Salmos 103:13

Como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece dos que o temem.

2. E, ocasionalmente como uma metáfora, como vimos nos versos de Isaías acima.

G. Mas não existe nenhuma referência onde Deus seja, diretamente, referido, como Pai no Antigo Testamento, por algum de todos os personagens que encontramos em suas páginas.

H. No Antigo Testamento a expressão Pai é usada apenas para designar o que Deus é com relação ao povo de Israel, mas para Jesus, quando ele chama Deus de Pai em aramaico, Ele o faz usando tal expressão como um título.

I. Ao agir assim Jesus estava no limite da impiedade ao se dirigir a Deus de forma que os judeus consideravam imprópria — uma forma nunca vista e nunca praticada. Mas essa foi a expressão que Jesus usou: ABBA — Pai.

J. Mas quando Jesus usou o termo infantil ABBA, Ele o fez como uma expressão de confiança e obediência para com o Pai. Os judeus apenas pretendiam manter um relacionamento com Deus. O relacionamento de Jesus era íntimo e verdadeiro. Esse é o motivo porque Ele deseja usar esse termo pueril de “papai” para se referir a Deus!

II. A Expressão Aramaica ABBA

A. A expressão aramaica Abba manifesta um profundo relacionamento entre duas pessoas. Como já dissemos é um termo infantil cujo significado é “papai”. Esse é o motivo porque a igreja primitiva adotou essa expressão em suas orações. A mesma expressa o nível — a profundidade — do relacionamento que existe entre o crente e Deus por meio de Jesus Cristo.

B. Era costume da Igreja Primitiva sempre orar o Pai Nosso antes da celebração da Santa Ceia!

C. A igreja primitiva também procurava desestimular o uso da expressão ABBA por aqueles que não eram ainda convertidos.

D. Em nossos dias existe um grande debate acerca da validade do uso da expressão Pai para nos referirmos a Deus:

1. Em primeiro lugar nós temos os mulçumanos que alegam que chamar Deus de “Pai, Meu Pai ou Nosso Pai”, faz com que o adorador use um modelo humano para se referir a Deus — mesmo problema dos judeus nos dias de Cristo. De acordo com o Islamismo esse tipo de prática, certamente, irá degenerar em grossa idolatria. Eles dizem: “Deus é Deus e não devemos nos referir a Ele usando termos humanos. Podemos usar adjetivos, mas nunca metáforas”. Assim, nós podemos chamar Deus de:

a. Rahman ou misericordioso.

b. Raheen ou compassivo.

c. Akbar ou Todo Poderoso.

d. `Allim ou onisciente.

2. Mas nunca podemos chamá-lo de “Pai”.

E. Mas o fato que temos diante de nós é que Jesus nos ordenou chamar Deus de Pai. A pergunta que precisamos fazer aqui é a seguinte: Jesus, em algum momento de seus ensinamentos definiu a expressão “Pai”?

III. Como Jesus Definiu Expressão Aramaica ABBA

A. Creio que muitos de vocês já pensaram na resposta apropriada. Sim, Jesus definiu o termo Pai quando contou a Parábola do Filho Pródigo ou dos Dois Filhos Perdidos . Naquela parábola Jesus rompeu com todos os conceitos patriarcais da cultura de seus dias para nos apresentar uma figura de um pai que vai muito além daquilo que se esperava de um pai humano.

B. Na parábola do Filho Pródigo, Jesus não descreve um pai como era conhecido naqueles dias, mas, pelo contrário, ele cria uma nova imagem de Pai, a qual pretende usar como modelo para Deus.

C. A impressão que eu tenho é que Jesus se inspirou para criar a Parábola do Filho Pródigo na narrativa de Oséias 11:1—11, onde Deus se descreve a si mesmo como um pai compassivo enquanto Israel se debate na terrível angústia causada pelo pecado.

D. Me chama muito a atenção de

Oséias 11:9

Não executarei o furor da minha ira; não tornarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; não voltarei em ira.

E. Nos versos de Oséias 11:1—8 nós vemos um Deus terno e pai amoroso que tem um filho, extremamente rebelde. O pai tem todo o direito de reagir com ira e castigo, mas ele opta por agir de forma amorosa.

F. A partir de Oséias 11 não é difícil entendermos que é possível que Jesus tenha se inspirado nessa narrativa para criar sua magnífica Parábola do Filho Pródigo.

G. Para Jesus, Deus é acima de tudo um Pai amoroso e o próprio Jesus nos dá uma demonstração clara disso na Parábola do Filho Pródigo. Essa é a única forma lícita de entendermos o sentido que Jesus queria dar para a expressão “Pai Nosso” e qualquer outra definição é uma rejeição do ensinamento de Jesus e uma traição à Sua pessoa.

H. A advertência islâmica permanece com uma possibilidade real, mas quando permitimos que o próprio Jesus defina o termo “Pai”, então a comunidade cristã evita a idolatria e pode usar e expressão de forma metafórica sabendo, exatamente, o que ela significa: que temos um Deus amoroso, compassivo, onisciente, Todo Poderoso e etc., com o qual mantemos um profundo relacionamento

I. O segundo aspecto desse debate será discutido na próxima mensagem.

Conclusão

A. A expressão aramaica Abba é a primeira palavra que as crianças aprendem em lugares tais como a Síria, a Palestina, o Líbano e Jordânia, apesar da língua oficial desses países todos ser o arábico.

B. Jesus inaugurou um novo modelo de oração ao ensinar seus discípulos a orarem em aramaico, que era a língua dos seus corações.

C. Com isso Jesus colocou de lado a “preciosa herança sagrada dos judeus” representada pela língua e pela cultura hebraica, assumindo o papel que o próprio Deus lhe havia conferido, de tornar-se o Salvador do mundo conforme lemos em —

Isaías 49:6

Sim, diz ele: Pouco é o seres meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e tornares a trazer os remanescentes de Israel; também te dei como luz para os gentios, para seres a minha salvação até à extremidade da terra.

D. Porque Jesus é o Salvador do Mundo Inteiro, todas as línguas e culturas são válidas diante de Deus como formas de expressar oração e adoração genuínas. Deus seja louvado.

E. A palavra escolhida por Jesus para iniciar o novo modelo de oração foi ABBA — PAI — que é um título que nos afirma e reafirma o profundo relacionamento que temos com Deus, o Nosso Pai. Daí o apóstolo Paulo concluir o capítulo 8 de Romanos com essas palavras:

Romanos 8:31—39

31 Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós?

32 Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas?

33 Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica.

34 Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós.

35 Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?

36 Como está escrito: Por amor de ti, somos entregues à morte o dia todo, fomos considerados como ovelhas para o matadouro.

37 Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.

38 Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes,

39 nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor.


OUTRAS MENSAGENS DA SÉRIE DO PAI NOSSO

001 — INTRODUÇÃO A MATEUS 6:9—15

002 — O PAI NOSSO — PARTE 001 — MATEUS 6:9

003 — O PAI NOSSO — PARTE 002 — MATEUS 6:9

004 — O PAI NOSSO — PARTE 003 — MATEUS 6:9

005 — O PAI NOSSO — PARTE 004 — MATEUS 6:9a — PAI NOSSO QUE ESTÁS NOS CÉUS

006 — O PAI NOSSO — PARTE 005 — INTRODUÇÃO À ESTRUTURA DO PAI NOSSO — Mateus 6:9—13

007 — O PAI NOSSO — PARTE 006 — SANTIFICADO SEJA TEU NOME — Mateus 6:9

008 — O PAI NOSSO — PARTE 007 — A RELAÇÃO DA SANTIDADE DE DEUS COM A JUSTIÇA E O AMOR — Mateus 6:9

009 — O PAI NOSSO — PARTE 008 — O REINO DE DEUS — PARTE 001 — Mateus 6:10

010 — O PAI NOSSO — PARTE 009 — O REINO DE DEUS — PARTE 002 — Mateus 6:10
Que Deus abençoe a todos 
Alexandros Meimaridis 

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