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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

A ORAÇÃO DO “PAI NOSSO” - SERMÃO 010 — O REINO DE DEUS — PARTE 2 — Mateus 6:10


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Essa série tem por objetivo expor de maneira ampla, bíblica, literária, histórica e teologicamente, a oração que chamamos de “Oração do Pai Nosso”. Nosso desejo é enriquecer a vida de todos por meio desses esboços de mensagens que também estão disponíveis em áudio. Na parte final desse artigo o leitor encontrará os links para os outros esboços e para os áudios à medida que forem sendo publicados.



Essa série tem por objetivo expor de maneira ampla, bíblica, literária, histórica e teologicamente, a oração que chamamos de “Oração do Pai Nosso”. Nosso desejo é enriquecer a vida de todos por meio desses esboços de mensagens que também estão disponíveis em áudio. Na parte final desse artigo o leitor encontrará os links para os outros esboços e para os áudios à medida que forem sendo publicados.

A ORAÇÃO DO “PAI NOSSO”

Uma Exposição Bíblica, Literária e Teológica de Mateus 6:9—13

SERMÃO 010 — O REINO DE DEUS — PARTE 2 — Mateus 6:10


Introdução

A. O Reino de Deus está intimamente ligado aos acontecimentos históricos que dizem respeito ao planeta Terra e seus habitantes.

B. Essa verdade nos levou às seguintes considerações acerca de como podemos ver a história da humanidade —

1. A primeira visão é aquela esposada pela maioria dos cientistas, ateus ou agnósticos e pessoas sem religião de um modo geral. Para eles: A HISTÓRIA NÃO TEM NENHUM SIGNIFICADO. Começando com os deístas do século XVIII, a idéia básica desse pessoal é que Deus criou o Universo e tudo o que está aí e depois virou as costas deixando as coisas seguirem seu curso, até a exaustão do Universo em um processo chamado de “Entropia do Universo”. É lógico que nesses últimos 400 anos muito perderam a fé na existência de um deus qualquer que seja ele.

2. A Segunda visão era promovida já nos dias de Jesus pela filosofia grega, que acreditava que a história é uma série de eventos se movendo em círculos. O que já aconteceu, tornará a acontecer. Assim, concluíam os gregos: Nossas vidas podem estar cheias de fúria e tumulto, mas TUDO ISSO NÃO TEM NENHUM SIGNIFICADO.

3. A terceira visão é aquela apresentada pela Bíblia. Nessa visão da História: 1) Deus é o Criador e Sustentador do Universo; 2) Ele é o Senhor Soberano da História e a mesma se dirige para o fim que Deus mesmo idealizou para a mesma:

Hebreus 1:1—3  

1  Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas,
2  nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.

3  Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas.    

C. Mas como falamos no sermão anterior a questão envolvendo a vinda do Reino de Deus é bastante paradoxal, por causa dos três fatores a seguir:

D. O Novo Testamento faz as seguintes afirmações acerca do Reino de Deus:

1. O mesmo já está presente em nosso meio, mas não ainda.

2. O mesmo está próximo, mas ainda encontra-se distante.

3. Existem sinais da proximidade do mesmo, mas é impossível saber com exatidão quando o mesmo irá chegar.

D. Os motivos porque os ensinamentos acerca do reino de Deus são tão paradoxais, são dois:

1. Em primeiro lugar quando Jesus nos mandou orar: “VENHA O TEU REINO”, ele fez isso para nunca nos esquecermos dessa realidade: DEUS ESTÁ O TEMPO TODO NO CONTROLE, INDEPENDENTE DAS DIFICULDADES, DAS TRAGÉDIAS E SOFRIMENTOS QUE TENHAMOS QUE ENFRENTAR. Nossa oração é uma manifestação aberta e constante da nossa inabalável confiança no controle e na soberania de nosso Deus sobre a História. Portanto devemos sempre dizer: “VENHA O TEU REINO”.

2. O segundo motivo, eu creio, tem a ver com o ensinamento de Jesus em Marcos 13:33—37 que nos ordena manter uma atitude vigilante, enquanto oramos: VENHA O TEU REINO.

E. Hoje queremos voltar nossa atenção para as formas mais comuns como foi entendida a frase ensinada pelo Senhor que diz:

VENHA O TEU REINO

I. QUATRO ENTENDIMENTOS CLÁSSICOS ACERCA DO REINO DE DEUS

Durante a história da Igreja nós podemos notar quatro entendimentos básicos acerca do Reino de Deus.

A. Primeiro Entendimento: ESCATOLÓGICO

1. A Escatologia é a doutrina bíblica que trata dos ensinamentos relativos ao final dos tempos. 

2. Dentro dessa visão — Escatológica — o Reino de Deus é visto com um dom de Deus reservado para o final da história.

B. Segundo Entendimento: MÍSTICO

1. De acordo com esse entendimento o Reino de Deus é visto como presente dentro dos corações dos crentes.

2. Nessa visão, entrar no Reino de Deus é o mesmo que tornar-se cristão e se empenhar em conhecer e fazer a vontade de Deus dia a dia.

3. Ainda dentro dessa visão, o Reino de Deus está localizado no céu e a vida cristã é vista, primeiramente — ou exclusivamente — como uma preparação para entrar nesse Reino celestial.
   
C. Terceiro Entendimento: POLÍTICO
  
Esse entendimento enxerga o reino de Deus em algum reino humano em particular: Bizâncio no leste, o Sacro Império Romano Germânico no Oeste, os Estados Unidos da América, especialmente sob George Walker Bush — o idiota perfeito.

D. Quarto Entendimento: IDENTIFICA O REINO COM UMA DENOMINAÇÃO ESPECÍFICA.

Já tivemos a oportunidade, no passado, de falar que a verdadeira Igreja de Jesus Cristo não pode nunca ser confundida com nenhuma denominação. O mesmo é verdadeiro no que diz respeito ao Reino de Deus.

II. Qual Desses Entendimentos é o Melhor?

A. Aqueles que identificam o Reino de Deus com um Dom de Deus que será concedido, em toda sua plenitude no final dos tempos, estão refletindo aspectos do ensino do Novo Testamento no que diz respeito ao Reino de Deus.

B. Aqueles que defendem que o Reino de Deus está dentro dos nossos corações nos preparando para chegar ao céu, refletem outro conjunto de verdades também ensinadas pelo Novo Testamento.

C. Apesar de nenhuma Igreja poder ser identificada com o Reino de Deus, as igrejas que se empenham em pregar o verdadeiro evangelho da graça e proclamar a Jesus como único Senhor e Salvador têm um papel importante em preparar os seres humanos para receberem o Reino de Deus em seus corações.

D. O imperador Constantino imaginou que seu império romano correspondia ao reino dos céus, mas ele e tantos outros depois dele estavam completamente errados. Todavia é importante entendermos que o Reino de Deus tem tudo a ver com a promoção da paz, da justiça, da defesa do meio ambiente, e muitos outros aspectos que só podem ser desenvolvidos através de meios políticos e sociais.

Conclusão

A. Diante de tudo o que vimos e falamos até aqui, nós podemos afirmar com segurança que o Reino de Deus inclui tudo o que Jesus disse e ensinou.

B. As parábolas de Jesus — muitas delas foram iniciadas com essas palavras: O REINO DE DEUS É — foram, de modo prioritário, descritoras do Reino de Deus. Cada uma delas nos ensinou algum aspecto do Reino.

1. As parábolas de Jesus nos ensinam que o Reino de Deus estabelece normas éticas que os seres humanos precisam seguir.

2. Em outras passagens Jesus nos ensinou que o Reino de Deus precisa ser abordado por nós com a mesma atitude que uma criança aborda qualquer coisa: sem malícia e com plena confiança.

3. Não é impossível, mas é muito difícil para as pessoas ricas entrarem no Reino de Deus. Fica aqui a pergunta para os promotores e adoradores da Teologia da Prosperidade: Como vocês reconciliam ficar rico com as palavras de Jesus?

4. O Reino de Deus tem três mandamentos básicos:

a. Amar a Deus —

Mateus 22:37—38

37 Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.

38 Este é o grande e primeiro mandamento.

b. Amar o próximo —

Mateus 22:39

O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.

c. Amar os irmãos do mesmo modo como Jesus nos amou — Jesus chamou esse de “NOVO MANDAMENTO”:

João 13:34

Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros.

C. O Batismo Cristão e a Celebração da Santa Ceia são formas perenes de sermos lembrados que estamos em uma santa aliança com Deus e que somos membros do glorioso Reino de Deus. Devemos abrir nossos corações todos os dias para receber as bênçãos que Deus tem para nós e nossas sociedades, enquanto aguardamos VIGILANTES e CHEIOS DE ESPERANÇA o cumprimento das promessas de Jesus com Respeito ao Reino de Seu Pai. Continuemos, pois orando sempre: VENHA O TEU REINO.

D. Como o pedido anterior: SANTIFICADO SEJA O TEU NOME; esse pedido VENHA O TEU REINO transcende o tempo e o espaço e nos fazem lembrar que Deus está SEMPRE em pleno controle de todos os acontecimentos.

E. Portanto, quando oramos essas palavras, precisamos nos lembrar que não estamos orando apenas por nós mesmos, nem apenas por nossas comunidades, mas estamos orando pelo mundo inteiro através da história.

F. Resumindo: o Reino de Deus possui pelo menos quatro componentes: É um dom de Deus para o seu povo no final da história humana, ao mesmo tempo em que o mesmo é parte da vida diária enquanto estamos nessa vida. A Igreja é importante para o Reino de Deus e as grandes questões da humanidade como PAZ, JUSTIÇA, MEIO AMBIENTE E UMA TOTAL IGUALDADE RACIAL SÃO CENTRAIS AO MESMO. 

G. Na próxima mensagem iremos falar da petição que tem a ver com FAZER A VONTADE DE DEUS.

Até lá que Deus abençoe a todos.

OUTRAS MENSAGENS DA SÉRIE DO PAI NOSSO

001 — INTRODUÇÃO A MATEUS 6:9—15

002 — O PAI NOSSO — PARTE 001 — MATEUS 6:9

003 — O PAI NOSSO — PARTE 002 — MATEUS 6:9

004 — O PAI NOSSO — PARTE 003 — MATEUS 6:9

005 — O PAI NOSSO — PARTE 004 — MATEUS 6:9a — PAI NOSSO QUE ESTÁS NOS CÉUS

006 — O PAI NOSSO — PARTE 005 — INTRODUÇÃO À ESTRUTURA DO PAI NOSSO — Mateus 6:9—13

007 — O PAI NOSSO — PARTE 006 — SANTIFICADO SEJA TEU NOME — Mateus 6:9

008 — O PAI NOSSO — PARTE 007 — A RELAÇÃO DA SANTIDADE DE DEUS COM A JUSTIÇA E O AMOR — Mateus 6:9

009 — O PAI NOSSO — PARTE 008 — O REINO DE DEUS — PARTE 001 — Mateus 6:10

010 — O PAI NOSSO — PARTE 009 — O REINO DE DEUS — PARTE 002 — Mateus 6:10
Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

OS DESIGREJADOS


O artigo abaixo foi publicado pelo irmão Augustus Lopes. Como o mesmo trata dum tema muito corrente resolvemos reproduzir o mesmo para o benefício de todos os nossos leitores. Nossa intenção é que a leitura do mesmo nos ajude a refletir sobre esse tema tão importante e também ajude alguns que se encontram nessa situação a repensarem suas escolhas.

Boa leitura.

Os Desigrejados

Postado por Augustus Nicodemus Lopes

Para mim resta pouca dúvida de que a igreja institucional e organizada está hoje no centro de acirradas discussões em praticamente todos os quartéis da cristandade, e mesmo fora dela. O surgimento de milhares de denominações evangélicas, o poderio apostólico de igrejas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas, a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo estado, a variedade infindável de métodos de crescimento de igrejas, de sucesso pastoral, os escândalos ocorridos nas igrejas, a falta de crescimento das igrejas tradicionais, o fracasso das igrejas emergentes – tudo isto tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada. Alguns simplesmente abandonaram a igreja e a fé. Mas, outros, querem abandonar apenas a igreja e manter a fé. Querem ser cristãos, mas sem a igreja.

Muitos destes estão apenas decepcionados com a igreja institucional e tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar nenhuma. Todavia, existem aqueles que, além de não mais frequentarem a igreja, tomaram esta bandeira e passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo sem igreja e a necessidade de sairmos da igreja para podermos encontrar Deus. Estas idéias vêm sendo veiculadas através de livros, palestras e da mídia. Viraram um movimento que cresce a cada dia. São os desigrejados.

Muitos livros recentes têm defendido a desigrejação do cristianismo[1].

Em linhas gerais, os desigrejados defendem os seguintes pontos.

1) Cristo não deixou qualquer forma de igreja organizada e institucional.

2) Já nos primeiros séculos os cristãos se afastaram dos ensinos de Jesus, organizando-se como uma instituição, a Igreja, criando estruturas, inventando ofícios para substituir os carismas, elaborando hierarquias para proteger e defender a própria instituição, e de tal maneira se organizaram que acabaram deixando Deus de fora. Com a influência da filosofia grega na teologia e a oficialização do cristianismo por Constantino, a igreja corrompeu-se completamente.

3) Apesar da Reforma ter se levantado contra esta corrupção, os protestantes e evangélicos acabaram caindo nos mesmíssimos erros, ao criarem denominações organizadas, sistemas interligados de hierarquia e processos de manutenção do sistema, como a disciplina e a exclusão dos dissidentes, e ao elaborarem confissões de fé, catecismos e declarações de fé, que engessaram a mensagem de Jesus e impediram o livre pensamento teológico.

4) A igreja verdadeira não tem templos, cultos regulares aos domingos, tesouraria, hierarquia, ofícios, ofertas, dízimos, clero oficial, confissões de fé, rol de membros, propriedades, escolas, seminários.

5) De acordo com Jesus, onde estiverem dois ou três que crêem nele, ali está a igreja, pois Cristo está com eles, conforme prometeu em Mateus 18. Assim, se dois ou três amigos cristãos se encontrarem no Frans Café numa sexta a noite para falar sobre as lições espirituais do filme O Livro de Eli, por exemplo, ali é a igreja, não sendo necessário absolutamente mais nada do tipo ir à igreja no domingo ou pertencer a uma igreja organizada.

6) A igreja, como organização humana, tem falhado e caído em muitos erros, pecados e escândalos, e prestado um desserviço ao Evangelho. Precisamos sair dela para podermos encontrar a Deus.
Eu concordo com vários dos pontos defendidos pelos desigrejados. Infelizmente, eles estão certos quanto ao fato de que muitos evangélicos confundem a igreja organizada com a igreja de Cristo e têm lutado com unhas e dentes para defender sua denominação e sua igreja, mesmo quando estas não representam genuinamente os valores da Igreja de Cristo. Concordo também que a igreja de Cristo não precisa de templos construídos e nem de todo o aparato necessário para sua manutenção. Ela, na verdade, subsistiu de forma vigorosa nos quatro primeiros séculos se reunindo em casas, cavernas, vales, campos, e até cemitérios. Os templos cristãos só foram erigidos após a oficialização do Cristianismo por Constantino, no séc. IV.

Os desigrejados estão certos ao criticar os sistemas de defesa criados para perpetuar as estruturas e a hierarquia das igrejas organizadas, esquecendo-se das pessoas e dando prioridade à organização. Concordo com eles que não podemos identificar a igreja com cultos organizados, programações sem fim durante a semana, cargos e funções como superintendente de Escola Dominical, organizações internas como uniões de moços, adolescentes, senhoras e homens, e métodos como células, encontros de casais e de jovens, e por ai vai. E também estou de acordo com a constatação de que a igreja institucional tem cometido muitos erros no decorrer de sua longa história.

Dito isto, pergunto se ainda assim está correto abandonarmos a igreja institucional e seguirmos um cristianismo em vôo solo. Pergunto ainda se os desigrejados não estão jogando fora o bebê junto com a água suja da banheira. Ao final, parece que a revolta deles não é somente contra a institucionalização da igreja, mas contra qualquer coisa que imponha limites ou restrições à sua maneira de pensar e de agir. Fico com a impressão que eles querem se livrar da igreja para poderem ser cristãos do jeito que entendem, acreditarem no que quiserem — sendo livres pensadores sem conclusões ou convicções definidas — fazerem o que quiserem, para poderem experimentar de tudo na vida sem receio de penalizações e correções. Esse tipo de atitude anti-instituição, antidisciplina, antirregras, anti-autoridade, antilimites de todo tipo se encaixa perfeitamente na mentalidade secular e revolucionária de nosso tempo, que entra nas igrejas travestida de cristianismo.

É verdade que Jesus não deixou uma igreja institucionalizada aqui neste mundo. Todavia, ele disse algumas coisas sobre a igreja que levaram seus discípulos a se organizarem em comunidades ainda no período apostólico e muito antes de Constantino.

1) Jesus disse aos discípulos que sua igreja seria edificada sobre a declaração de Pedro, que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.15-19). A igreja foi fundada sobre esta pedra, que é a verdade sobre a pessoa de Jesus (cf. 1Pd 2.4-8). O que se desviar desta verdade — a divindade e exclusividade da pessoa de Cristo — não é igreja cristã. Não admira que os apóstolos estivessem prontos a rejeitar os livre-pensadores de sua época, que queriam dar uma outra interpretação à pessoa e obra de Cristo diferente daquela que eles receberam do próprio Cristo. As igrejas foram instruídas pelos apóstolos a rejeitar os livre-pensadores como os gnósticos e judaizantes, e libertinos desobedientes, como os seguidores de Balaão e os nicolaítas (cf. 2Jo 10; Rm 16.17; 1Co 5.11; 2Ts 3.6; 3.14; Tt 3.10; Jd 4; Ap 2.14; 2.6,15). Fica praticamente impossível nos mantermos sobre a rocha, Cristo, e sobre a tradição dos apóstolos registrada nas Escrituras, sem sermos igreja, onde somos ensinados, corrigidos, admoestados, advertidos, confirmados, e onde os que se desviam da verdade apostólica são rejeitados.

2) A declaração de Jesus acima, que a sua igreja se ergue sobre a confissão acerca de sua Pessoa, nos mostra a ligação estreita, orgânica e indissolúvel entre ele e sua igreja. Em outro lugar, ele ilustrou esta relação com a figura da videira e seus galhos (João 15). Esta união foi muito bem compreendida pelos seus discípulos, que a compararam à relação entre a cabeça e o corpo (Ef 1.22-23), a relação marido e mulher (Ef 5.22-33) e entre o edifício e a pedra sobre o qual ele se assenta (1Pd 2.4-8). Os desigrejados querem Cristo, mas não querem sua igreja. Querem o noivo, mas rejeitam sua noiva. Mas, aquilo que Deus ajuntou, não o separe o homem. Não podemos ter um sem o outro.

3) Jesus instituiu também o que chamamos de processo disciplinar, quando ensinou aos seus discípulos de que maneira deveriam proceder no caso de um irmão que caiu em pecado (Mt 18.15-20). Após repetidas advertências em particular, o irmão faltoso, porém endurecido, deveria ser excluído da “igreja” — pois é, Jesus usou o termo — e não deveria mais ser tratado como parte dela (Mt 18.17). Os apóstolos entenderam isto muito bem, pois encontramos em suas cartas dezenas de advertências às igrejas que eles organizaram para que se afastassem e excluíssem os que não quisessem se arrepender dos seus pecados e que não andassem de acordo com a verdade apostólica. Um bom exemplo disto é a exclusão do “irmão” imoral da igreja de Corinto (1Co 5). Não entendo como isto pode ser feito numa fraternidade informal e livre que se reúne para bebericar café nas sextas à noite e discutir assuntos culturais, onde não existe a consciência de pertencemos a um corpo que se guia conforme as regras estabelecidas por Cristo.

4) Jesus determinou que seus seguidores fizessem discípulos em todo o mundo, e que os batizassem e ensinassem a eles tudo o que ele havia mandado (Mt 28.19-20). Os discípulos entenderam isto muito bem. Eles organizaram os convertidos em igrejas, os quais eram batizados e instruídos no ensino apostólico. Eles estabeleceram líderes espirituais sobre estas igrejas, que eram responsáveis por instruir os convertidos, advertir os faltosos e cuidar dos necessitados (At 6.1-6; At 14.23). Definiram claramente o perfil destes líderes e suas funções, que iam desde o governo espiritual das comunidades até a oração pelos enfermos (1Tm 31-13; Tt 1.5-9; Tg 5.14).

5) Não demorou também para que os cristãos apostólicos elaborassem as primeiras declarações ou confissões de fé que encontramos (cf. Rm 10.9; 1Jo 4.15; At 8.36-37; Fp 2.5-11; etc.), que serviam de base para a catequese e instrução dos novos convertidos, e para examinarem e rejeitarem os falsos mestres. Veja, por exemplo, João usando uma dessas declarações para repelir livre-pensadores gnósticos das igrejas da Ásia (2Jo 7-10; 1Jo 4.1-3). Ainda no período apostólico já encontramos sinais de que as igrejas haviam se organizado e estruturado, tendo presbíteros, diáconos, mestres e guias, uma ordem de viúvas e ainda presbitérios (1Tm 3.1; 5.17,19; Tt 1.5; Fp 1.1; 1Tm 3.8,12; 1Tm 5.9; 1Tm 4.14). O exemplo mais antigo que temos desta organização é a reunião dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém para tratar de um caso de doutrina — a inclusão dos gentios na igreja e as condições para que houvesse comunhão com os judeus convertidos (At 15.1-6). A decisão deste que ficou conhecido como o “concílio de Jerusalém” foi levada para ser obedecida nas demais igrejas (At 16.4), mostrando que havia desde cedo uma rede hierárquica entre as igrejas apostólicas, poucos anos depois de Pentecostes e muitos anos antes de Constantino.

6) Jesus também mandou que seus discípulos se reunissem regularmente para comer o pão e beber o vinho em memória dele (Lc 22.14-20). Os apóstolos seguiram a ordem, e reuniam-se regularmente para celebrar a Ceia (At 2.42; 20.7; 1Co 10.16). Todavia, dada à natureza da Ceia, cedo introduziram normas para a participação nela, como fica evidente no caso da igreja de Corinto (1Co 11.23-34). Não sei direito como os desigrejados celebram a Ceia, mas deve ser difícil fazer isto sem que estejamos na companhia de irmãos que partilham da mesma fé e que crêem a mesma coisa sobre o Senhor.

É curioso que a passagem predileta dos desigrejados – “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20) – foi proferida por Jesus no contexto da igreja organizada. Estes dois ou três que ele menciona são os dois ou três que vão tentar ganhar o irmão faltoso e reconduzi-lo à comunhão da igreja (Mt 18.16). Ou seja, são os dois ou três que estão agindo para preservar a pureza da igreja como corpo, e não dois ou três que se separam dos demais e resolvem fazer sua própria igrejinha informal ou seguir carreira solo como cristãos.

O meu ponto é este: que muito antes do período pós-apostólico, da intrusão da filosofia grega na teologia da Igreja e do decreto de Constantino — os três marcos que segundo os desigrejados são responsáveis pela corrupção da igreja institucional — a igreja de Cristo já estava organizada, com seus ofícios, hierarquia, sistema disciplinar, funcionamento regular, credos e confissões. A ponto de Paulo se referir a ela como “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15) e o autor de Hebreus repreender os que deixavam de se congregar com os demais cristãos (Hb 10.25). O livro de Atos faz diversas menções das “igrejas”, referindo-se a elas como corpos definidos e organizados nas cidades (cf. At 15.41; 16.5; veja também Rm 16.4,16; 1Co 7.17; 11.16; 14.33; 16.1; etc. — a relação é muito grande).

No final, fico com a impressão que os desigrejados, na verdade, não são contra a igreja organizada meramente porque desejam uma forma mais pura de Cristianismo, mais próxima da forma original — pois esta forma original já nasceu organizada e estruturada, nos Evangelhos e no restante do Novo Testamento. Acho que eles querem mesmo é liberdade para serem cristãos do jeito deles, acreditar no que quiserem e viver do jeito que acham correto, sem ter que prestar contas a ninguém. Pertencer a uma igreja organizada, especialmente àquelas que historicamente são confessionais e que têm autoridades constituídas, conselhos e concílios, significa submeter nossas idéias e nossa maneira de viver ao crivo do Evangelho, conforme entendido pelo Cristianismo histórico. Para muitos, isto é pedir demais.

Eu não tenho ilusões quanto ao estado atual da igreja. Ela é imperfeita e continuará assim enquanto eu for membro dela. A teologia Reformada não deixa dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente, enquanto aguarda a vinda do Senhor Jesus, ocasião em que se tornará igreja triunfante. Ao mesmo tempo, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. Que apesar de tudo, precisamos uns dos outros, precisamos da pregação da Palavra, da disciplina e dos sacramentos, da comunhão de irmãos e dos cultos regulares.

Cristianismo sem igreja é uma outra religião, a religião individualista dos livre-pensadores, eternamente em dúvida, incapazes de levar cativos seus pensamentos à obediência de Cristo

O artigo original poderá ser visto aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.


[1] Podemos mencionar entre eles: George Barna, Revolution (Revolução), 2005; William P. Young, The Shack: a novel (A Cabana: uma novela), 2007; Brian Sanders, Life After Church(Vida após a igreja), 2007; Jim Palmer, Divine Nobodies: shedding religion to find God(Joões-ninguém divinos: deixando a religião para encontrar a Deus), 2006; Martin Zener,How to Quit Church without Quitting God (Como deixar a Igreja sem deixar a Deus), 2002; Julia Duin, Quitting Church: why the faithful are fleeing and what to do about it (Deixando a Igreja: por que os fiéis estão saindo e o que fazer a respeito disto), 2008; Frank Viola,Pagan Christianity? Exploring the roots of our church practices (Cristianismo pagão? Explorando as raízes das nossas práticas na Igreja), 2007; Paulo Brabo, Bacia das Almas: Confissões de um ex-dependente de igreja (2009).