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quinta-feira, 14 de maio de 2015

TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 002



Esse é um estudo especial que irá abordar temas de grande interesse, tais como: 1. Deus 2. Os seres humanos e o mundo criado 3. Jesus e Sua missão como o CRISTO. 4. O Espírito Santo. 5. A vida cristã. 6. A Igreja. 7. O futuro e etc. Esperamos que a mesma possa ajudar todos os nossos leitores a conhecerem melhor o que o Novo Testamento ensina acerca de tudo o que nos é importante.

INTRODUÇÃO GERAL

CONTINUAÇÃO:

Durante todo o período que sucedeu, imediatamente, a reforma e até o raiar da doutrina filosófica chamada de Iluminismo, a teologia protestante ainda não havia chegado ao entendimento de que a Revelação de Deus era progressiva e, com isso, a Bíblia era usada apenas como um profundo poço contendo textos de prova que serviam para sustentar as posições doutrinárias mais diversas. Todas as confissões de fé produzidas depois da Reforma, inclusive as massivas decisões do Concílio de Trento da Igreja Católica Romana, se apegaram às Escrituras para provarem que seus sistemas doutrinários estavam certos.

A ideia de uma teologia do Novo Testamento era naqueles dias algo completamente impensável. Isso acontecia porque os estudiosos daqueles dias estavam acostumados a enxergarem Cristo de uma mesma maneira, independente de qual dos Testamentos — Antigo ou Novo — estivessem usando. A unidade das Bíblia como entendida por eles impedia o desenvolvimento de uma teologia focada exclusivamente no Novo Testamento. Mas a questão mais grave desse período dizia respeito ao fato de que não existia nenhuma consideração pelo background histórico sobre o qual a Teologia Cristã — não judaico cristã[1] — podia ser desenvolvida. Naqueles dias o contexto das afirmações encontradas nas Escrituras Sagradas era menos importante do que o conteúdo da Escrituras em si mesmas. Com isso, a exegese ou interpretação das Escrituras Sagradas estava sempre subordinada a considerações dogmáticas.

UM POUCO DE HISTÓRIA

Durante a Dieta de Worms, realizada em1521, Martinho Lutero fez a seguinte afirmação: “Minha fé não se fundamenta nem no Papa, nem nos concílios, mas somente nas Sagradas Escrituras e em argumentos inequívocos”. De modo semelhante, muitos outros reformadores fizeram afirmações parecidas proclamando as Escrituras Sagradas como a única autoridade em contraposição às doutrinas esposadas pela Igreja Católica Apostólica Romana — doravante sempre denominada pelo acrônimo ICAR. Foi assim que a Bíblia foi colocada no centro da vida das pessoas, bem como das igrejas, pelo menos da perspectiva hipotética, como a única regra de fé e prática. Não demoraria muito para que as confissões de fé viessem a ocupar um lugar — mano a mano — ao lado das Sagradas Escrituras. Tais confissões, quase todas verdadeiras abominações em nossa opinião, eram consideradas como a única interpretação 100% correta das Escrituras Sagradas. Daí não é difícil entendermos, porque cada denominação logo procurou desenvolver sua própria confissão a qual, em muitos casos e com o passar dos anos tornou-se mais importante que a própria Bíblia.

Todavia, é importante frisarmos que tanto para os reformadores originais como para a teologia protestante posterior, a chamada “Doutrina da Bíblia” estava plenamente de acordo com os ensinamentos da fé e das confissões da Igreja Antiga.

Mas o próprio Lutero já havia se dado conta, ao traduzir o Novo Testamento para o idioma alemão em Wartburg, entre os anos de 1521—1522 — de que existiam “contradições” nos textos sagrados — contradições essas que serão devidamente explicadas tanto nessa série como na série de INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO, bem como na série COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — entre os manuscritos que estavam disponíveis para ele naqueles dias. A grande maioria desses manuscritos era relativamente recente, e haviam sido produzidos de forma massiva nos mosteiros bizantinos. Por outro lado, a própria falta de entendimento de Lutero, o fazia pensar que havia contradições entre as epístolas de Tiago e Hebreus por um lado e as epístolas paulinas por outro lado. Lutero escreveu sobre suas “descobertas” no prefácio da sua tradução finalizada em 1522. Mas as supostas descobertas de Lutero não tiveram nenhum impacto, porque a convicção de que Escrituras Sagradas eram em si mesmas a autoridade exclusiva para a vida tanto do crente quanto da igreja transformava-se, automaticamente, num gigantesco obstáculo para a aceitação das chamadas “contradições” de Lutero, por parte das igrejas protestantes. Essa também foi a razão preponderante, porque no âmbito da teologia protestante, mais de dois séculos se passaram após a morte de Lutero, até que surgisse uma exposição dos ensinamentos da Bíblia que fosse, totalmente, independente de qualquer tradição eclesiástica, mas que respeitasse a peculiaridade das Escrituras Sagradas. É fato que já no século XVII muitos já tinham produzido escritos bíblicos que receberam o nome de “Teologia da Bíblia”, mas todos esses livros não passavam de meras compilações de passagens bíblicas, com a finalidade de fundamentarem a dogmática considerada ortodoxa.          

CONTINUA...

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Alexandros Meimaridis

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[1] Esse autor considera uma grande bobagem o uso, cada vez mais comum, da expressão judaico-cristã e outras semelhantes pelo seguinte fato: A fé cristã tem tudo a ver com a firmação de que Jesus é Deus. O judaísmo tem tudo a ver com a negação absoluta de que Jesus é Deus. Portanto, quanto antes aprendermos a separar a fé cristã do judaísmo, melhor será para todos nós. 

domingo, 14 de setembro de 2014

A IMPORTÂNCIA DA VERDADE


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O artigo abaixo foi publicado no site da editora FIEL e é da autoria de Morton Smith.

O que é a Verdade?

Morton H. Smith

Integridade Doutrinária

Nesta era de lassidão geral e afastamento da fé cristã ortodoxa, uma das maiores necessidades é o retorno à integridade doutrinária. Em especial, os homens responsáveis pela pregação sagrada deveriam ser homens que ensinam a verdade, e nada mais do que a verdade da Palavra de Deus. Uma das urgentes necessidades deste mundo de trevas, repleto de falsidade, é a proclamação clara da verdade da Palavra de Deus.

A tentação de Satanás para Eva ocorreu na área da integridade doutrinária. Ele ousou acusar a Deus de falta de integridade. A queda do homem resultou em que a tentação permanente do mundo, da carne e do Diabo é sermos menos do que verdadeiros em nosso viver diário. Como Jesus disse, Ele mesmo é a verdade e a vida; por isso, o evangelho envolve uma proclamação da verdade em um mundo de mentiras. Todos os cristãos devem, mediante o seu testemunho por Cristo, declarar toda a verdade do evangelho.

Todo o conhecimento que podemos encontrar neste mundo foi colocado aqui por Deus, o Criador. Em última análise, toda a verdade está em Deus. Ele é a fonte de toda a verdade que encontramos no mundo que ele criou. Portanto, quando Deus falou a Adão as palavras da aliança de obras, proibindo-o de comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, ele afirmou a verdade para Adão. Na tentação dirigida a Eva, Satanás declarou abertamente que isso era falso. Quando Jesus falou com os judeus incrédulos, ele lhes disse que Satanás é o pai da mentira: Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira (Jo 8.44). A incredulidade deles se alicerçava no fato de que tinham um coração pecaminoso e não-regenerado.

Em outra ocasião, Jesus falou sobre si mesmo nestes termos: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim (Jo 14.6). Ele estava afirmando que, desde o momento em que Satanás introduziu a mentira, ou a falta de integridade no mundo, e que Adão a abraçou em sua queda, uma das necessidades básicas do mundo é a reintrodução da verdade. E foi exatamente isso que Jesus declarou estava fazendo no mundo. Também disse que só existe um meio de salvação: vir a ele, que é a própria verdade. Jesus testemunho isto a Pilatos: Tu dizes que sou rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18.37). Pilatos respondeu cinicamente: "Que é a verdade?", mostrando assim sua natureza não-regenerada.

Nesse mesmo evangelho, lemos que Jesus confiou aos seus discípulos o ministério que recebera do Pai: Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E a favor deles eu me santifico a mim mesmo, para que eles também sejam santificados na verdade (Jo 17.17-19). Jesus estava rogando que o Pai santificasse os discípulos "na verdade", para que pudessem proclamar a verdade de seu evangelho neste mundo de falsidade e trevas.

A grande comissão de Jesus, registrada em Mateus 28, define a missão da igreja em dois empreendimentos. Primeiramente, ela deve evangelizar o perdido e, assim, unir os eleitos na igreja. Em segundo, a igreja deve ensinar aos seus membros todas as coisas reveladas nas Escrituras. Qualquer outra coisa que a igreja faça tem de ser subsidiária a essa comissão. Tanto a evangelização como o ensino dos membros exigem que a igreja mantenha integridade doutrinária. Qualquer falha em cumprir isso é desobediência à ordem de Cristo para a igreja.

Se isso é verdade, é óbvio que Deus colocou sobre os ministros da Palavra a absoluta necessidade de serem leais e fiéis à Palavra em sua pregação e ensino. Tornar-se verdadeiro intérprete da Palavra é o dever sublime e celestial de cada homem que prega as Escrituras. Visto que a Palavra foi dada tanto no hebraico como no grego, os pregadores têm de ser capazes de abordar essas línguas de modo tão suficiente, que entendam apropriadamente o texto que desejam proclamar às suas congregações. Em outras palavras, a exigência de integridade no ministério da Palavra exige dos pregadores o compromisso de estudarem a Palavra em suas línguas originais.

Uma parte da verdadeira interpretação da Bíblia inclui o entendimento de como textos específicos se enquadram em todo o sistema de verdade apresentado nas Escrituras. Portanto, o ministro da Palavra precisa estar ciente de todo o sistema de teologia apresentado na Bíblia. O estudo da história da igreja revela que a igreja medieval perdera amplamente a verdade bíblica, visto que substituíra o ensino da Palavra de Deus pela tradição dos homens.

A Reforma produziu um novo compromisso com o princípio de Sola Scriptura. O resultado foi a redescoberta do evangelho pela igreja, à medida que procurava ser reformada pela Palavra de Deus. Um dos benefícios da Reforma foi a destilação dos dogmas da igreja em vários credos ou confissões reformados. Foram produzidas cerca de 39 confissões; e um dos fatos notáveis é que elas mantinham um unidade básica.

A fim de preservar a integridade da pregação nessas igrejas, exigiu-se dos ministros que subscrevessem a confissão das igrejas em que serviam. Uma forma histórica de subscrição exigida até hoje por algumas denominações é esta: "Você recebe a Confissão de Fé e o Catecismo desta igreja como documentos que contém o sistema de doutrina ensinado nas Escrituras Sagradas?" Em outras palavras, o ministro a ser ordenado está dizendo que a Confissão de Fé e o Catecismo de Westminster afirmam o que ele acredita ser o ensino da Bíblia. Cumpre àqueles que assumem essa subscrição serem fiéis em sua pregação e ensino e proclamarem todo o desígnio de Deus expresso nas Escrituras e interpretado nas confissões da igreja. Deixar de fazer isso significa corromper a integridade doutrinária que o Senhor espera de seus servos.

Em nossa evangelização, tendemos frequentemente que insistir em uma resposta emocional ao evangelho, sem antes transmitir apropriadamente as grandes doutrinas da fé cristã à pessoa. Precisamos reconhecer que uma resposta correta do coração ou da consciência só pode ser manifestada depois que a verdade do evangelho é comunicada ao pecador. Uma resposta bíblica genuína acontece somente quando a verdade do evangelho é compreendida. Percebemos, assim, a necessidade de integridade doutrinária por parte de todos os cristãos, que devem ser testemunhas do evangelho para o mundo que nos rodeia.

Traduzido por: Wellington Ferreira

Do original em inglês: What is truth? Doctrinal Integrity, Morton Smith. Revista Tabletalk, vol. 31, nº 9.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

OS DESIGREJADOS


O artigo abaixo foi publicado pelo irmão Augustus Lopes. Como o mesmo trata dum tema muito corrente resolvemos reproduzir o mesmo para o benefício de todos os nossos leitores. Nossa intenção é que a leitura do mesmo nos ajude a refletir sobre esse tema tão importante e também ajude alguns que se encontram nessa situação a repensarem suas escolhas.

Boa leitura.

Os Desigrejados

Postado por Augustus Nicodemus Lopes

Para mim resta pouca dúvida de que a igreja institucional e organizada está hoje no centro de acirradas discussões em praticamente todos os quartéis da cristandade, e mesmo fora dela. O surgimento de milhares de denominações evangélicas, o poderio apostólico de igrejas neopentecostais, a institucionalização e secularização das denominações históricas, a profissionalização do ministério pastoral, a busca de diplomas teológicos reconhecidos pelo estado, a variedade infindável de métodos de crescimento de igrejas, de sucesso pastoral, os escândalos ocorridos nas igrejas, a falta de crescimento das igrejas tradicionais, o fracasso das igrejas emergentes – tudo isto tem levado muitos a se desencantarem com a igreja institucional e organizada. Alguns simplesmente abandonaram a igreja e a fé. Mas, outros, querem abandonar apenas a igreja e manter a fé. Querem ser cristãos, mas sem a igreja.

Muitos destes estão apenas decepcionados com a igreja institucional e tentam continuar a ser cristãos sem pertencer ou frequentar nenhuma. Todavia, existem aqueles que, além de não mais frequentarem a igreja, tomaram esta bandeira e passaram a defender abertamente o fracasso total da igreja organizada, a necessidade de um cristianismo sem igreja e a necessidade de sairmos da igreja para podermos encontrar Deus. Estas idéias vêm sendo veiculadas através de livros, palestras e da mídia. Viraram um movimento que cresce a cada dia. São os desigrejados.

Muitos livros recentes têm defendido a desigrejação do cristianismo[1].

Em linhas gerais, os desigrejados defendem os seguintes pontos.

1) Cristo não deixou qualquer forma de igreja organizada e institucional.

2) Já nos primeiros séculos os cristãos se afastaram dos ensinos de Jesus, organizando-se como uma instituição, a Igreja, criando estruturas, inventando ofícios para substituir os carismas, elaborando hierarquias para proteger e defender a própria instituição, e de tal maneira se organizaram que acabaram deixando Deus de fora. Com a influência da filosofia grega na teologia e a oficialização do cristianismo por Constantino, a igreja corrompeu-se completamente.

3) Apesar da Reforma ter se levantado contra esta corrupção, os protestantes e evangélicos acabaram caindo nos mesmíssimos erros, ao criarem denominações organizadas, sistemas interligados de hierarquia e processos de manutenção do sistema, como a disciplina e a exclusão dos dissidentes, e ao elaborarem confissões de fé, catecismos e declarações de fé, que engessaram a mensagem de Jesus e impediram o livre pensamento teológico.

4) A igreja verdadeira não tem templos, cultos regulares aos domingos, tesouraria, hierarquia, ofícios, ofertas, dízimos, clero oficial, confissões de fé, rol de membros, propriedades, escolas, seminários.

5) De acordo com Jesus, onde estiverem dois ou três que crêem nele, ali está a igreja, pois Cristo está com eles, conforme prometeu em Mateus 18. Assim, se dois ou três amigos cristãos se encontrarem no Frans Café numa sexta a noite para falar sobre as lições espirituais do filme O Livro de Eli, por exemplo, ali é a igreja, não sendo necessário absolutamente mais nada do tipo ir à igreja no domingo ou pertencer a uma igreja organizada.

6) A igreja, como organização humana, tem falhado e caído em muitos erros, pecados e escândalos, e prestado um desserviço ao Evangelho. Precisamos sair dela para podermos encontrar a Deus.
Eu concordo com vários dos pontos defendidos pelos desigrejados. Infelizmente, eles estão certos quanto ao fato de que muitos evangélicos confundem a igreja organizada com a igreja de Cristo e têm lutado com unhas e dentes para defender sua denominação e sua igreja, mesmo quando estas não representam genuinamente os valores da Igreja de Cristo. Concordo também que a igreja de Cristo não precisa de templos construídos e nem de todo o aparato necessário para sua manutenção. Ela, na verdade, subsistiu de forma vigorosa nos quatro primeiros séculos se reunindo em casas, cavernas, vales, campos, e até cemitérios. Os templos cristãos só foram erigidos após a oficialização do Cristianismo por Constantino, no séc. IV.

Os desigrejados estão certos ao criticar os sistemas de defesa criados para perpetuar as estruturas e a hierarquia das igrejas organizadas, esquecendo-se das pessoas e dando prioridade à organização. Concordo com eles que não podemos identificar a igreja com cultos organizados, programações sem fim durante a semana, cargos e funções como superintendente de Escola Dominical, organizações internas como uniões de moços, adolescentes, senhoras e homens, e métodos como células, encontros de casais e de jovens, e por ai vai. E também estou de acordo com a constatação de que a igreja institucional tem cometido muitos erros no decorrer de sua longa história.

Dito isto, pergunto se ainda assim está correto abandonarmos a igreja institucional e seguirmos um cristianismo em vôo solo. Pergunto ainda se os desigrejados não estão jogando fora o bebê junto com a água suja da banheira. Ao final, parece que a revolta deles não é somente contra a institucionalização da igreja, mas contra qualquer coisa que imponha limites ou restrições à sua maneira de pensar e de agir. Fico com a impressão que eles querem se livrar da igreja para poderem ser cristãos do jeito que entendem, acreditarem no que quiserem — sendo livres pensadores sem conclusões ou convicções definidas — fazerem o que quiserem, para poderem experimentar de tudo na vida sem receio de penalizações e correções. Esse tipo de atitude anti-instituição, antidisciplina, antirregras, anti-autoridade, antilimites de todo tipo se encaixa perfeitamente na mentalidade secular e revolucionária de nosso tempo, que entra nas igrejas travestida de cristianismo.

É verdade que Jesus não deixou uma igreja institucionalizada aqui neste mundo. Todavia, ele disse algumas coisas sobre a igreja que levaram seus discípulos a se organizarem em comunidades ainda no período apostólico e muito antes de Constantino.

1) Jesus disse aos discípulos que sua igreja seria edificada sobre a declaração de Pedro, que ele era o Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16.15-19). A igreja foi fundada sobre esta pedra, que é a verdade sobre a pessoa de Jesus (cf. 1Pd 2.4-8). O que se desviar desta verdade — a divindade e exclusividade da pessoa de Cristo — não é igreja cristã. Não admira que os apóstolos estivessem prontos a rejeitar os livre-pensadores de sua época, que queriam dar uma outra interpretação à pessoa e obra de Cristo diferente daquela que eles receberam do próprio Cristo. As igrejas foram instruídas pelos apóstolos a rejeitar os livre-pensadores como os gnósticos e judaizantes, e libertinos desobedientes, como os seguidores de Balaão e os nicolaítas (cf. 2Jo 10; Rm 16.17; 1Co 5.11; 2Ts 3.6; 3.14; Tt 3.10; Jd 4; Ap 2.14; 2.6,15). Fica praticamente impossível nos mantermos sobre a rocha, Cristo, e sobre a tradição dos apóstolos registrada nas Escrituras, sem sermos igreja, onde somos ensinados, corrigidos, admoestados, advertidos, confirmados, e onde os que se desviam da verdade apostólica são rejeitados.

2) A declaração de Jesus acima, que a sua igreja se ergue sobre a confissão acerca de sua Pessoa, nos mostra a ligação estreita, orgânica e indissolúvel entre ele e sua igreja. Em outro lugar, ele ilustrou esta relação com a figura da videira e seus galhos (João 15). Esta união foi muito bem compreendida pelos seus discípulos, que a compararam à relação entre a cabeça e o corpo (Ef 1.22-23), a relação marido e mulher (Ef 5.22-33) e entre o edifício e a pedra sobre o qual ele se assenta (1Pd 2.4-8). Os desigrejados querem Cristo, mas não querem sua igreja. Querem o noivo, mas rejeitam sua noiva. Mas, aquilo que Deus ajuntou, não o separe o homem. Não podemos ter um sem o outro.

3) Jesus instituiu também o que chamamos de processo disciplinar, quando ensinou aos seus discípulos de que maneira deveriam proceder no caso de um irmão que caiu em pecado (Mt 18.15-20). Após repetidas advertências em particular, o irmão faltoso, porém endurecido, deveria ser excluído da “igreja” — pois é, Jesus usou o termo — e não deveria mais ser tratado como parte dela (Mt 18.17). Os apóstolos entenderam isto muito bem, pois encontramos em suas cartas dezenas de advertências às igrejas que eles organizaram para que se afastassem e excluíssem os que não quisessem se arrepender dos seus pecados e que não andassem de acordo com a verdade apostólica. Um bom exemplo disto é a exclusão do “irmão” imoral da igreja de Corinto (1Co 5). Não entendo como isto pode ser feito numa fraternidade informal e livre que se reúne para bebericar café nas sextas à noite e discutir assuntos culturais, onde não existe a consciência de pertencemos a um corpo que se guia conforme as regras estabelecidas por Cristo.

4) Jesus determinou que seus seguidores fizessem discípulos em todo o mundo, e que os batizassem e ensinassem a eles tudo o que ele havia mandado (Mt 28.19-20). Os discípulos entenderam isto muito bem. Eles organizaram os convertidos em igrejas, os quais eram batizados e instruídos no ensino apostólico. Eles estabeleceram líderes espirituais sobre estas igrejas, que eram responsáveis por instruir os convertidos, advertir os faltosos e cuidar dos necessitados (At 6.1-6; At 14.23). Definiram claramente o perfil destes líderes e suas funções, que iam desde o governo espiritual das comunidades até a oração pelos enfermos (1Tm 31-13; Tt 1.5-9; Tg 5.14).

5) Não demorou também para que os cristãos apostólicos elaborassem as primeiras declarações ou confissões de fé que encontramos (cf. Rm 10.9; 1Jo 4.15; At 8.36-37; Fp 2.5-11; etc.), que serviam de base para a catequese e instrução dos novos convertidos, e para examinarem e rejeitarem os falsos mestres. Veja, por exemplo, João usando uma dessas declarações para repelir livre-pensadores gnósticos das igrejas da Ásia (2Jo 7-10; 1Jo 4.1-3). Ainda no período apostólico já encontramos sinais de que as igrejas haviam se organizado e estruturado, tendo presbíteros, diáconos, mestres e guias, uma ordem de viúvas e ainda presbitérios (1Tm 3.1; 5.17,19; Tt 1.5; Fp 1.1; 1Tm 3.8,12; 1Tm 5.9; 1Tm 4.14). O exemplo mais antigo que temos desta organização é a reunião dos apóstolos e presbíteros em Jerusalém para tratar de um caso de doutrina — a inclusão dos gentios na igreja e as condições para que houvesse comunhão com os judeus convertidos (At 15.1-6). A decisão deste que ficou conhecido como o “concílio de Jerusalém” foi levada para ser obedecida nas demais igrejas (At 16.4), mostrando que havia desde cedo uma rede hierárquica entre as igrejas apostólicas, poucos anos depois de Pentecostes e muitos anos antes de Constantino.

6) Jesus também mandou que seus discípulos se reunissem regularmente para comer o pão e beber o vinho em memória dele (Lc 22.14-20). Os apóstolos seguiram a ordem, e reuniam-se regularmente para celebrar a Ceia (At 2.42; 20.7; 1Co 10.16). Todavia, dada à natureza da Ceia, cedo introduziram normas para a participação nela, como fica evidente no caso da igreja de Corinto (1Co 11.23-34). Não sei direito como os desigrejados celebram a Ceia, mas deve ser difícil fazer isto sem que estejamos na companhia de irmãos que partilham da mesma fé e que crêem a mesma coisa sobre o Senhor.

É curioso que a passagem predileta dos desigrejados – “onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20) – foi proferida por Jesus no contexto da igreja organizada. Estes dois ou três que ele menciona são os dois ou três que vão tentar ganhar o irmão faltoso e reconduzi-lo à comunhão da igreja (Mt 18.16). Ou seja, são os dois ou três que estão agindo para preservar a pureza da igreja como corpo, e não dois ou três que se separam dos demais e resolvem fazer sua própria igrejinha informal ou seguir carreira solo como cristãos.

O meu ponto é este: que muito antes do período pós-apostólico, da intrusão da filosofia grega na teologia da Igreja e do decreto de Constantino — os três marcos que segundo os desigrejados são responsáveis pela corrupção da igreja institucional — a igreja de Cristo já estava organizada, com seus ofícios, hierarquia, sistema disciplinar, funcionamento regular, credos e confissões. A ponto de Paulo se referir a ela como “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3.15) e o autor de Hebreus repreender os que deixavam de se congregar com os demais cristãos (Hb 10.25). O livro de Atos faz diversas menções das “igrejas”, referindo-se a elas como corpos definidos e organizados nas cidades (cf. At 15.41; 16.5; veja também Rm 16.4,16; 1Co 7.17; 11.16; 14.33; 16.1; etc. — a relação é muito grande).

No final, fico com a impressão que os desigrejados, na verdade, não são contra a igreja organizada meramente porque desejam uma forma mais pura de Cristianismo, mais próxima da forma original — pois esta forma original já nasceu organizada e estruturada, nos Evangelhos e no restante do Novo Testamento. Acho que eles querem mesmo é liberdade para serem cristãos do jeito deles, acreditar no que quiserem e viver do jeito que acham correto, sem ter que prestar contas a ninguém. Pertencer a uma igreja organizada, especialmente àquelas que historicamente são confessionais e que têm autoridades constituídas, conselhos e concílios, significa submeter nossas idéias e nossa maneira de viver ao crivo do Evangelho, conforme entendido pelo Cristianismo histórico. Para muitos, isto é pedir demais.

Eu não tenho ilusões quanto ao estado atual da igreja. Ela é imperfeita e continuará assim enquanto eu for membro dela. A teologia Reformada não deixa dúvidas quanto ao estado de imperfeição, corrupção, falibilidade e miséria em que a igreja militante se encontra no presente, enquanto aguarda a vinda do Senhor Jesus, ocasião em que se tornará igreja triunfante. Ao mesmo tempo, ensina que não podemos ser cristãos sem ela. Que apesar de tudo, precisamos uns dos outros, precisamos da pregação da Palavra, da disciplina e dos sacramentos, da comunhão de irmãos e dos cultos regulares.

Cristianismo sem igreja é uma outra religião, a religião individualista dos livre-pensadores, eternamente em dúvida, incapazes de levar cativos seus pensamentos à obediência de Cristo

O artigo original poderá ser visto aqui:


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Alexandros Meimaridis

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[1] Podemos mencionar entre eles: George Barna, Revolution (Revolução), 2005; William P. Young, The Shack: a novel (A Cabana: uma novela), 2007; Brian Sanders, Life After Church(Vida após a igreja), 2007; Jim Palmer, Divine Nobodies: shedding religion to find God(Joões-ninguém divinos: deixando a religião para encontrar a Deus), 2006; Martin Zener,How to Quit Church without Quitting God (Como deixar a Igreja sem deixar a Deus), 2002; Julia Duin, Quitting Church: why the faithful are fleeing and what to do about it (Deixando a Igreja: por que os fiéis estão saindo e o que fazer a respeito disto), 2008; Frank Viola,Pagan Christianity? Exploring the roots of our church practices (Cristianismo pagão? Explorando as raízes das nossas práticas na Igreja), 2007; Paulo Brabo, Bacia das Almas: Confissões de um ex-dependente de igreja (2009).