Mostrando postagens com marcador Povo de Israel. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Povo de Israel. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de agosto de 2016

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS E O DEBATE COM OS JUDEUS — PARTE 002 — O SERVO SOFREDOR É O PRÓPRIO DEUS



CONTINUAÇÃO...

Propomos agora uma exegese em cada uma dessas estrofes.

52:13—15: A exaltação do Servo
Esta estrofe descreve a fala de Deus:

52:13 Eis que o meu Servo prosperará;11
será exaltado e elevado e será mui sublime.

14 Como pasmaram muitos à vista dele,12 pois uma desfiguração13  humana era o seu aspecto, e a sua forma, daquela dos filhos da humanidade,

15 assim espantará14  muitas nações,
por causa dele os reis fecharão a sua boca;
porque aquilo que não lhes foi anunciado verão,
e aquilo que não ouviram entenderão.

No v.13a, o verbo “prosperará” é a tradução de sakal hifil imperfeito “olhar para discernir”, “dar atenção a”, “ponderar”, “considerar”, “ser prudente”; “prosperar”, “ter sucesso”. Há uma questão que precisa ser respondida: este verbo, aqui, apresenta o sentido de “ser prudente” ou de “ter sucesso”? A forma verbal sakal nos textos sapienciais significa “agir com prudência”, mas, nos textos que não pertencem à literatura sapiencial — como Isaías 52—13 — 53:12 —, normalmente a raiz skl refere-se a uma pessoa de “sucesso”.15  No caso de Isaías 52:13, sakal refere-se à “prudência”, mas o enfoque do texto está no sucesso resultante da obediência a ETERNO. Esse mesmo sentido de sakal também é apresentado em Josué 1:7—8.

O v.13b apresenta três ações verbais: 1) “será exaltado”, qal imperfeito rum “ser elevado”, “ser exaltado”. Trata-se de uma exaltação depois da humilhação. 2) “elevado” é a tradução de nasa’ nifal waw consecutivo perfeito “ser levantado”, “ser exaltado”. Refere-se a uma exaltação contínua. 3) “e será mui sublime” provém da raiz verbal gabah qal waw consecutivo perfeito “ser sublime”, “ser alto”, seguido pelo particípio adverbial me’od “extremamente”, “muito”.  Essa expressão destaca a posição de honra, adquirida pelo Servo do ETERNO.

Em outros textos de Isaías, essas três formas verbais (rum, nasa’ e gabah) descrevem a glória de Deus:16

Isaías 5:16

Mas o Senhor dos Exércitos é sublime (gabah) em juízo; e Deus, o Santo, é santificado em justiça.

Isaías 6:1

....eu vi o Senhor assentado sobre um alto (rum) e sublime (nasa’ ) trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo.

Isaías 33:10

Agora, me levantarei, diz o Senhor; levantar-me-ei (nasa’) a mim mesmo; agora, serei exaltado (ramam )”.17

Isaías 57:15

Porque assim diz o Alto (rum), o Sublime (nasa’), que habita a eternidade (...).

A conclusão é óbvia: o Servo é equiparado ao ETERNO. Trata-se de um personagem divino. Portanto, não pode ser identificado com Isaías ou com outro profeta do AT. Ele não é somente homem. É Deus, também. Valhamos do comentário de Ridderbos, sobre Isaías 52:13: “Com boas razões, alguns intérpretes fazem com que estas palavras lembrem a ressurreição, ascensão, entronização de Cristo à mão direita do Pai”.18  Assim, o texto isaiano é uma antecipação de

Filipenses 2.5—11

5 Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,

6 pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;

7 antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,

8 a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.

9 Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,

10 para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,

11 e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.


No v.14, o profeta começa a descrever a humilhação do Servo. O verbo “pasmaram” é a tradução de shamem qal perfeito “estar desolado”, “estar aterrorizado”, “atordoar”, “estupefazer”. A raiz aponta para uma “desolação resultante de uma catástrofe, mas também pode significar “horror” e “estarrecimento”, que são “reações provocadas pela visão da desolação”19 (cf. Deuteronômio 28:37; 2 Reis 22:19. O pasmo é provocado nas pessoas que veem as atrocidades cometidas contra o Servo do ETERNO. “desfiguração (da face)” é uma “esfiguração humana” (hebraico mixhat me’ix). O Servo estava totalmente desfigurado. Não parecia mais homem. Isso causa espanto e pasmo naquelas pessoas que olham para Ele.

O v.15 descreve a atitude das “nações” e dos “reis” diante do Servo. O verbo “espantará” é o hebraico nazah hifil imperfeito “fazer saltar”, “assustar”, e poderia ser traduzido como “causará admiração”. De acordo com Oswalt, trata-se de nazah II “espanto”.20  Há duas interpretações possíveis para esse verbo. Primeira: as nações e os reis estão espantados por causa da exaltação do Servo. Não entendem como alguém que apresenta uma face inumana (“desfiguração humana”, v.14), agora é exaltado à categoria de monarca. Por isso, as nações estão surpresas e admiram o Servo. Os reis fecham a boca, em sinal de temor — Jó 29:9—10, 21—23 —, pois “aquilo que lhes foi anunciado verão”; “isto é, o que agora eles veem com seus olhos ultrapassa qualquer coisa que já ouviram”.21 Uma segunda interpretação defende que o v.15 está totalmente voltado para a humilhação do Servo. É justamente essa humilhação que causa espanto nas nações e nos reis. “As perseguições que o Servo sofrerá com grande paciência (53:7) são um escândalo para os espectadores (52:14—15; 53:2—3, 7—9)...”.22  “Nesta redação, os gentios acharão chocante a humilhação do Libertador, visto que jamais ouviram antes que é por meio da perda de todas as coisas que o Salvador conquistará todas as coisas.”23

Na verdade as duas interpretações podem ser relacionadas. De acordo com o v.13, o Servo é equiparado a ETERNO. É exaltado. Mas no v.14, ele está desfigurado por causa do seu sofrimento. Então, o que causa espanto nas nações e nos reis é o fato do Servo exaltado ser humilhado. Trata-se de um monarca humilhado. Qualquer rei, diante dessa cena, ficaria estupefato. Pois o Servo, que é Deus, apresenta a face desfigurada por causa do sofrimento. Isto é inconcebível aos olhos humanos, principalmente aos olhos dos reis. Por isso, o profeta levanta uma questão em 53:1: “Quem creu naquilo que ouvimos?”. O personagem apresentado aqui se encaixa perfeitamente na figura do Cristo crucificado. A mensagem da cruz foi rejeitada pelos judaizantes do primeiro século, que esperavam um Messias que se apresentaria como Rei poderoso, um guerreiro herói, que libertaria Israel do jugo do império romano. A mensagem do Evangelho, que apresentava o Messias crucificado e humilhado, era inaceitável para eles (Is 53:1; veja Romanos 10:16; João 12:38;). A mensagem da cruz é loucura para os que se perdem —

1 Coríntios 1:18

Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.

CONTINUA...

OUTROS ARTIGOS DESSA SÉRIE

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 001

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 002 — O SERVO SOFREDOR É O PRÓPRIO DEUS

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 003 — O SERVO SOFREDOR É HOMEM DE DORES QUE SABE O QUE PADECER

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 004 — O CASTIGO QUE NOS TRAZ A PAZ

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 005 —  O SERVO DE DEUS MORREU POR CAUSA DAS NOSSAS TRANSGRESSÕES

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 006 —  O SERVO DE DEUS, O JUSTO, JUSTIFICARÁ A MUITOS


O texto original poderá ser acessado por meio desse link aqui:


Luciano R. Peterlevitz

Bacharel em Teologia (FTBC e FATEO/UMESP); Mestre e Doutor em Ciências da Religião, na área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico, pela Universidade Metodista de São Paulo. Coordenador Acadêmico da Faculdade Teológica Batista de Campinas, onde também leciona Hebraico, Antigo Testamento e Hermenêutica Bíblica nos cursos de Bacharelado em Teologia e Pós-graduação em Exposição Bíblica. 

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos. 

NOTAS:

11 sakal hifil imperfeito “olhar para discernir”, “dar atenção a”, “ponderar”, “considerar”, “ser prudente”; “prosperar”, “ter sucesso”.

12 Peshita e Targum: ‘alayw “diante dele”. TM (Texto Massorético) e alguns manuscritos (inclusive 1QIs1ª e 1QIsb): ‘aleyk “diante de ti”. 

13 TM: mixhat “desconfiguramento da face”. 1QIsa: mxhty. Tradição babilônica: muxhat. Peshitta: mhbl. Targum: maxhat “arruinado”.  Veja a Vulgata.

14 nazah II hifil imperfeito “causar um espanto”. John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, vol. 02, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2011, p. 456. TM: yazzeh “aspergirá”, hifil imperfeito de nazah I “borrifar”, “salpicar”. LXX: “causará admiração”. BHS: provavelmente qal imperfeito yizzeh ou yizzu; outros propõem yirggezu qal imperfeito de ragaz “tremer”,  ou yibzuhu qal imperfeito de bazah “desprezar” . Siríaca: “purificará”.

15 Gary V. Smith, Isaiah 40-66, Nashville, Broadman & Holman Publishers, 2009, p. 435 (The New American Commentary).

16 Gary V. Smith, Isaiah 40-66, p. 436.

17 ramam I é uma variação de rum.

18 J. Ridderbos, Isaías: introdução e comentário, São Paulo, Vida Nova, p. 424 (Série cultura bíblica).

19 R. Laird Harris; Gleason L. Archer Jr.; Bruce K. Waltke (organizadores), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1998, p. 1583.

20 Veja John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 456.

21 J. Ridderbos, Isaías, p. 425.

22 A Bíblia de Jerusalém – Nova Edição, revista e ampliada, 5a edição, São Paulo, Sociedade Bíblica Internacional/Edições Paulus, 2002, p.1449.

23 John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 463.

Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.

sábado, 20 de agosto de 2016

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS E O DEBATE COM OS JUDEUS — PARTE 001


jesus em isaias

Aos poucos temos notado o aparecimento de inúmeros sites, artigos e, especialmente vídeos, na Internet defendendo a ideia canhestra que a compreensão dos evangélicos acerca do texto de Isaías 52:13 — 53:12 é fruto da ignorância do texto hebraico e também duma exegese superficial.

Entre os motivos alegados recebe destaque o perene argumento que nossas traduções, bem como toda e qualquer tradução, não refletem com precisão o texto original em hebraico. Mas isso é apenas mais uma grande tolice. Prova disso, é que queremos iniciar esse debate aqui no Blog O Grande Diálogo apresentando um artigo de autoria do Professor Doutor Luciano R. Peterlevitz que é, inclusive, professor do idioma hebraico.

Vamos ao texto do professor Peterlevitz.

O servo sofredor em Isaías 52:13 — 53:12

O servo sofredor em Isaías 52:13 — 53:12

Introdução

Um estudioso alemão chamado Bernhard Duhm, em seu comentário do livro de Isaías publicado em 18921 identificou quatro cânticos em Isaías 40—55, que similarmente apresentam um personagem conhecido como “o Servo do Senhor”:

1º cântico: 42:1—7

2º cântico: 49:1—9

3º cântico: 50:4—9

4º cântico: 52:13 — 53:12.

Certamente o quarto cântico — Isaías 52:13 — 53:12 é o mais conhecido para os cristãos. Isso porque este texto isaiano descreve o sofrimento, a morte e a exaltação do Servo do ETERNO, e o NT reconhecidamente identifica esse Servo com o Messias prometido pelos profetas do Antigo Testamento —

Atos 8:32—33

32 Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca.

33 Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porque da terra a sua vida é tirada.

Mateus 8:17

Para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.

Lucas 22:37

Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido.

1 Pedro 2:24

Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.

Não é sem razão, pois, que o personagem apresentado no quarto cântico é comumente chamado de “Servo Sofredor”.

Porém, a questão da identificação do Servo de ETERNO tem sido bastante disputada entre os comentaristas de Isaías. Por essa razão, o presente artigo primeiramente apresentará as várias opiniões sobre a identidade do Servo, para depois analisar exegeticamente o quarto cântico do Servo. O objetivo deste artigo é mostrar que a leitura cristã não é fruto de uma exegese descuidada do texto isaiano. Na verdade, uma análise das palavras hebraicas desse quarto cântico revela que o texto de Isaías realmente apontava para o Gólgota e para o túmulo vazio.

Interpretações

A identificação do Servo do Senhor tem sido objeto de muito debate na pesquisa bíblica. Três interpretações podem ser destacadas2:

1ª — A interpretação coletiva. O servo seria Israel, como povo ou comunidade que sofrera o exílio babilônico — cf. 41:8—9; 49:3. Muitos intérpretes que aderem a essa perspectiva creem que, nesse quarto cântico, o sofrimento do Servo-Israel é vigário; Israel teria se oferecido como sacrifício de expiação pelos pecados das nações. A identificação do Servo com Israel fundamenta-se principalmente em Isaías 49:3: “Tu és meu servo, és Israel.” O problema para esta interpretação é muito simples: em 49:5, o Servo nitidamente distinguiu-se de Israel. Por isso, 49:3 não alude ao “Israel nacional, posto que no versículo 5 o Servo tem uma missão destinada a Israel. O Servo Messiânico é o Israel ideal através de quem o Senhor será glorificado3.”  Além disto, de acordo com teologia dos profetas clássicos, os exílios sofridos por Israel — tribos do Norte — e Judá — Sul — foram resultado dos seus pecados contra a palavra de ETERNO — ver Oséias 8:13—14; Isaías 1:21—31; etc. Dificilmente algum profeta diria que “Israel” apresentava a perfeição necessária e requerida à vítima do sacrifício expiatório. “Israel” não tinha condições para expiar a culpa das nações, porque ele mesmo era culpado e o seu pecado precisa ser expiado.

2ª — A interpretação individual. Essa interpretação subdivide-se em pelo menos três ramificações: a) O servo seria um personagem escatológico-messiânico; b) O servo representaria algum personagem importante — Moisés, Joaquim, Jeremias ou Zorobabel; c) o servo seria o próprio profeta, o “Deutero-Isaías” — cf. 43:10; 44:26; 50:10; 59:21).

3ª — A interpretação complexiva que une a interpretação coletiva e a individual. Segundo essa interpretação, houve uma evolução conceitual no Deutero-Isaías: teria passado da interpretação do Servo como Israel para a transferência do sofrimento e da morte vigária de um indivíduo (H. H. Rowley). Para outros intérpretes, o profeta teria associado as dores do Servo aos sofrimentos dos exilados na Babilônia. Entretanto, mesmo fazendo essa associação, o quarto cântico anuncia que um personagem futuro reviveria a história trágica dos exilados; tratar-se-ia de uma figura escatológica a ser revelada no futuro do profeta4.

Atualmente a interpretação individual é a mais aceita entre os estudiosos. Citemos algumas evidências que apoiam-na:

1ª — No segundo e no terceiro cânticos o discurso está na primeira pessoa do singular. O Servo fala de suas dúvidas e crises interiores, tal qual Jeremias — Isaías 49:1-6; 50:4-9.

2ª — Em Isaías 42:1—7, o Servo refere-se a sua responsabilidade de pregador, e expõe a sua autocompreensão de profeta. Nessa linha de pensamento, muitos intérpretes identificam o Servo com o profeta Isaías5.  Richard E. Averbeck admite que, em dois dos cânticos, o profeta Isaías se identifica com o Servo — Isaías 49:1—6; 50:4—6 —, no entanto, no quarto cântico, o Servo distingue-se do profeta, e, no contexto de Isaías 40-66 — texto que o profeta Isaías, no século 8 a.C., visionariamente propõe restauração para os judeus exilados na Babilônia no século 6 a.C. —, ele apresenta-se como Aquele que trará Israel à terra prometida6.

Para muitos estudiosos, o Servo seria uma alusão a Ciro, um tipo do Messias escatológico — cf. Isaías 42:5—7; 44:28; 45:1—7, 12—13. Em Isaías 44:28, Ciro é chamado de “ungido”, literalmente “messias”. No entanto, uma observação de Isaltino Gomes parece-nos pertinente: “A função do Servo extrapolaria a de recondução dos exilados. Teria uma dimensão soteriológica, isto é, com um significado de salvação. Ver o cumprimento desta dimensão em Ciro é, sem dúvida, fora de sentido. É restringir o texto no tempo, no espaço e na pessoa7.”

É preciso reconhecer que, no livro de Isaías, o termo hebraico ‘ebed, “servo”, é aplicado a vários personagens8: aos “servos do rei” (Is 37:5, 24); àqueles que adoram o ETERNO (Is 22:20; 56:6; 63:17); aos profetas como porta-vozes de Deus (44:26); a Isaías (20:3); a Davi (37:35). Além disto, Israel também é apresentado como um servo através do qual o plano redentor do ETERNO é executado (Is 41:8—9; 43:10; 44:1, 2, 21; 45:4). Nos quatro cânticos do Servo (especialmente no quarto, que é objeto de análise do presente artigo), por sua vez, o termo ‘ebed não pode ser aplicado nem para algum personagem do Antigo Testamento nem para Israel9.  Na verdade, como o presente artigo demonstrará nas páginas subsequentes, o quarto cântico (Is 52:13 — 53:12) descreve o “Servo do Senhor” realizando uma obra que nenhum outro personagem do Antigo Testamento realizou.

É oportuno notar que a comunidade de Qumram relacionava o Servo a um personagem que futuramente seria levantado pelo ETERNO. Os qumranitas aguardavam um Messias que não somente sofreria e seria humilhado, mas também seria exaltado e glorificado. É o que se lê em um hino que está entre os rolos descobertos no Mar Morto:

[Quem] foi desprezado como [eu? E quem] foi rejeitado [pelos homens] como eu? Quem, como eu, suportou todas as aflições? Quem se compara a mim na resistência do mal? [...] Quem foi considerado desprezível como eu e, no entanto, quem é igual a mim em minha glória10?

Ao que parece, quando os autores do Novo Testamento aplicaram o texto isaiano a Cristo, eles demonstraram que as expectativas que os qumranitas alimentavam em relação ao Messias começaram a se cumprir na Pessoa de Jesus de Nazaré.

Mas será que Isaías 52:13 — 53:12 realmente apresenta a expectativa de que o Servo do ETERNO seria um personagem messiânico, que futuramente seria levantado pelo ETERNO para resgatar o seu povo dos seus pecados? Será que os autores do Novo Testamento, ao aplicarem o quarto cântico a Cristo, não estariam promovendo uma reinterpretação cristã desconectada do sentido original do texto de Isaías? Propomos então uma análise do texto isaiano para averiguar essas questões.

Análise exegética

Os capítulos de Isaías 40—55 apresentam uma palavra de consolo e esperança para o povo de Deus. Essa parte do livro de Isaías pode ser resumida em

Isaías 40:1

Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus.

Do ponto de vista teológico, Deus apresenta-se como Salvador e Resgatador de Israel — Isaías 43:1, 14; 52:3,9. Em Isaías 51:1 a 52:12, texto que precede o quarto cântico (52:13 — 53:12), lemos palavras de consolo para a Sião que foi assolada por nações ímpias. Contudo, em 52:13 — 53:12, Deus não esmaga essas nações que destruíram Judá, mas esmaga o seu próprio Servo, para através Dele propor salvação para todos os transgressores. Portanto, Isaías 52:13 — 53:12 descreve como Deus iria efetuar a salvação prometida não somente em Isaías 51:1 a 52:12, mas em todos os capítulos de Isaías 40—55. 

Quanto à estrutura, Isaías 52:13 — 53:12 é composto por três estrofes, cada qual enfocando um tema relacionado ao Servo:

1ª — 52:13—15: a exaltação do Servo

2ª — 53:1—3: a rejeição do Servo

3ª — 53:4—6: a morte vigária do Servo

4ª — 53:7—9: a submissão do Servo

5ª — 53:10—12: o triunfo do Servo

CONTINUA...


OUTROS ARTIGOS DESSA SÉRIE

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 001

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 002 — O SERVO SOFREDOR É O PRÓPRIO DEUS

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 003 — O SERVO SOFREDOR É HOMEM DE DORES QUE SABE O QUE PADECER

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 004 — O CASTIGO QUE NOS TRAZ A PAZ

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 005 —  O SERVO DE DEUS MORREU POR CAUSA DAS NOSSAS TRANSGRESSÕES

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 006 —  O SERVO DE DEUS, O JUSTO, JUSTIFICARÁ A MUITOS


O texto original poderá ser acessado por meio desse link aqui:


Luciano R. Peterlevitz

Bacharel em Teologia (FTBC e FATEO/UMESP); Mestre e Doutor em Ciências da Religião, na área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico, pela Universidade Metodista de São Paulo. Coordenador Acadêmico da Faculdade Teológica Batista de Campinas, onde também leciona Hebraico, Antigo Testamento e Hermenêutica Bíblica nos cursos de Bacharelado em Teologia e Pós-graduação em Exposição Bíblica.


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.

______________________________________________________

1 Bernhard Duhm, Das Buch Jesaja, Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1892, 458 p.

2 Richard E. Averbeck, “Christian Interpretations of Isaiah 53”. In: Darrell L. Bock; Mitch Glaser, The Gospel According to Isaiah 53: Encountering the Suffering Servant in Jewish and Christian Theology, Grand Rapids, Kregel Publications, 2012, p. 41-45; Werner H. Schmidt, Introdução ao Antigo Testamento, São Leopoldo, Sinodal, 1994. p. 252-254; E. Sellin; G. Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Editora Academia Cristã/Paulus, 2012, p. 534-538.

3 Nota de rodapé da New Internacional Version. 

4 J. Steinmann, O livro da consolação de Israel e os profetas da volta do exílio, São Paulo, Edições Paulinas, p. 193-194.

5 E. Sellin; G. Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, p. 536; Hans-Jürgen Hermisson, “The Fourth Servant Song in the Contexto of Second Isaiah”. In: Bernd Janowski; Peter Stuhlmacher (ed.), The Suffering Servant: Isaiah 53 in Jewish and Christian Sources, Grand Rapids, Eerdmans Publishing, 2004, p. 45-47. 

6 Richard E. Averbeck, “Christian Interpretations of Isaiah 53”, p. 33-60.

7 Isaltino Gomes Coelho Filho, Isaías: o Evangelho do Antigo Testamento, Rio de Janeiro, JUERP, 2001, p. 151.

8 Gerard van Groningen, Revelação messiânica no Antigo Testamento: a origem divina do conceito messiânico e o seu desdobramento progressivo, 2ª edição, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003, p. 556-557. 

9 Gerard van Groningen, Revelação messiânica no Antigo Testamento, p. 557-589.


10 Israel Knohl, O Messias antes de Jesus, Rio de Janeiro, Ed. Imago, 2001, p. 28, 31.

Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Gênesis Estudo 028 — Gênesis 6 — A PERVERSIDADE HUMANA, OS FILHOS DE DEUS E AS FILHAS DOS HOMENS


Este estudo é parte de uma Análise do Livro do Gênesis. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da História Primeva da Humanidade. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo. 
O Livro do Gênesis
O Princípio de Todas as Coisas

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ        
       Eretz ha  ve-et  Hashamaim et   Elohim     Bará     Bereshit
       Terra   a  e    céus     os    Deus     criou   princípio No
                                                                                     Gênesis 1:1
X. Gênesis 6.

Depois da Criação original em si mesma, a informação mais impressionante que temos acerca do mundo antigo é certamente o registro da sua destruição pelo dilúvio. E a história dessa tremenda catástrofe que se abateu sobre a terra começa a ser escrita no capítulo 6 do livro do Gênesis. O esboço de Gênesis 6 pode ser como segue:

A. A Perversidade Humana se multiplica — Gênesis 6:1—5 e 11—12.

B. O Justo Ressentimento Divino Diante da Perversidade Humana e Sua Resolução de Castigar os Ofensores — Gênesis 6:6 – 7.

C. O Favor Especial de Deus Para com Seu Servo Noé pode Ser Visto:

1. No Caráter Concedido a Noé — Gênesis 6:8—10.

2. Na comunicação do Propósito de Deus para Noé — Gênesis 6:13 e 17.

3. Na Direção que Deus dá a Noé para que Ele Construa a Arca para Sua Própria Salvação — Gênesis 6:18—21.

4. No Espírito de Obediência Demonstrado por Noé — Gênesis 6:22  

Tudo isto foi escrito acerca do mundo antigo para nos servir de admoestação e exemplo. É uma pena realmente que sejamos tão lerdos para aprender. O autor concorda com muitos outros que acreditam que esta nossa geração é tão perversa como as mais perversas gerações que existiram no mundo antigo e que foram destruídas pelo dilúvio. Mas vejamos esta estória parte por parte:

A. Gênesis 6:1—5 e 11—12

1. Para que possamos compreender Gênesis 6 é necessário entendermos algumas asserções básicas que se encontram no texto que temos diante de nós. A primeira destas asserções é que a corrupção aqui descrita atinge a todos os seres humanos como pode ser deduzido pelos itens abaixo:

a. A multiplicação referida em Gênesis 6:1—2 diz respeito à humanidade em geral sem nenhum tipo de restrição.

b. Quando o texto fala da corrupção experimentada pelas pessoas se refere diretamente a toda a humanidade como indicado no item acima.

c. Isto quer dizer que toda a raça humana, com uma única exceção, Noé — ver Gênesis 6:8 — está descrita em Gênesis 6 como corrompida.

d. Neste capítulo nós somos informados que toda a humanidade, com exceção de Noé, estava madura e pronta para ser destruída – ver Gênesis 6:3 e 5—8.

2. A segunda asserção tem a ver com a necessidade de que para compreender a total degeneração da raça humana, torna-se necessário uma correta interpretação — dentro do possível — das expressões בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus e בְּנוֹת הָאָדָם benot haAdam — filhas dos homens. A tabela a seguir nos apresenta as três interpretações mais comuns a estas duas expressões:

Item
Teoria # 1
Teoria # 2
Teoria #3
Filhos de
Deus
Anjos Caídos
Descendentes de Sete
Soberanos
Dinásticos
Filhas dos
Homens
Seres Mortais
Descendentes de Caim
Pessoas não nobres

Pecado
Casamento entre seres
sobrenaturais e  seres mortais
Casamento entre as
sementes benditas e as
sementes amaldiçoadas
Poligamia
Defensores
Philo de Alexandria
Livro Apócrifo de Enoque
Santo Ambrósio
F. Delitzsch
S. R. Driver
Henry M. Morris
Gerhard von Rad
C. Leupold
J. Stigers
F. Schaeffer
Targuns Aramaicos.
A vasta maioria dos
rabinos judeus.
Evidências
1. A expressão “filhos de Deus” é usada em outras passagens para se referir aos anjos – ver Jó 1:6; 2:1 e 38:7; Salmos 29:1 e 89:7.

2. Judas 6 – 7 talvez faça
referência a estes fatos.

3. É a leitura que parece ser a mais natural.

4. Os tradutores da LXX
optaram por traduzir a expressão hebraica בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei
 haElohim – por Anjos de Deus no Livro de Jó.

5. Cristo disse que os Anjos nos céus não se casam nem se dão em casamento, mas não disse
que não podem fazê-lo.
1. O conceito de uma
linhagem abençoada
está firmemente fixada
pela ênfase dada ao
nascimento de Sete.

2. O texto original em
hebraico sugere uma
continuidade na história sem espaços para uma intervenção angelical.

3. Este tipo de pecado
torna-se um tema
comum nas páginas do Antigo Testamento.
1. Magistrados e soberanos são Algumas vezes referidos como tendo a mesma
autoridade de Deus: ver
Êxodo 21:6
Êxodo 22:8 – 9 e 28!
Salmos 82:1 e 6.

2. Algumas vezes
os reis eram
chamados de
filhos dos deuses.
Dificuldades
1. Soa meio mitológico e distante da realidade.

2. Não há nenhuma menção a anjos feita antes.

3. Por que deveria a nossa raça ser punida pela perversidade dos anjos?

4. O apoio do NT a esta teoria é, no mínimo, questionável.
1. A expressão “filhos
de Deus” não possui
este significado em
nenhuma outra
passagem.

2.Não existe nenhuma
referência clara de que
as genealogias tenham
se mantido separadas
de modo estrito.

3. Deus não havia
ainda iniciado a tratar
com uma linhagem
específica.

4. O termo usado para “homens”  אָדָם adam – é genérico e não distingue qualidade.

5. Nos dias de Noé,
ele era o único justo.
1. Não existe
nenhuma
referência a
“nobreza”
neste texto.

2. As Escrituras não
consideram reis
como sendo filhos
de deuses –
uma única exceção
talvez seja –
Salmos 2
versos 6 e 7.

3. Esta hipótese não
explica o surgimento
dos gigantes הַנְּפִלִים — — hanefiliym


 Adaptado de Chronological Charts of The Old Testament[1].

3. Como podemos ver pela tabela acima a terceira posição, geralmente aceita como a posição judaico—rabínica ortodoxa e tradicional pode ser dispensada de cara, pois a mesma está baseada em palavras que não estão no texto como “soberanos dinásticos e nobres”, e depende de interpretações que fogem completamente do contexto bíblico. A primeira posição, diferentemente da terceira, pode ser defendida de forma plausível pelos seguintes fatores:

a. Não existe nenhum questionamento quanto ao fato de que a expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus em Jó 1:6; 2:1 e 38:7 seja uma referência aos anjos. O mesmo é verdade com relação as referências de Salmos 29:1 e Salmos 89:7.

b. A própria antítese representada pelas expressões “filhos de Deus” e “filhas dos homens”.

4. Deixando de lado quaisquer outras considerações, as duas que acabamos de mencionar acima, são suficientes para nos fazer pender para o lado de que a expressão “בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus” diz respeito aos anjos e a expressão בְּנוֹת הָאָדָם benot haAdam — se refere às filhas dos homens. Mas as boas normas da hermenêutica — interpretação de textos sagrados — nos advertem de que só podemos aceitar uma interpretação como definitiva se não existir nenhuma outra alternativa que seja também viável. Infelizmente não é esse o caso aqui, porque existem passagens onde a expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus não diz respeito exclusivamente aos anjos. Entre estas passagens podemos citar:

Salmos 73:15 onde a referência aos filhos de Deus diz respeito ao povo de Israel e não a anjos.

Se eu pensara em falar tais palavras, já aí teria traído a geração de teus filhos.

Deuteronômio 32:5 onde o povo de Israel é referido como “não sendo mais filhos” de Deus.

Procederam corruptamente contra ele, já não são seus filhos, e sim suas manchas; é geração perversa e deformada.

Oséias 1:10 onde a expressão “filhos de Deus” é uma referência aos filhos de Israel.

Todavia, o número dos filhos de Israel será como a areia do mar, que se não pode medir, nem contar; e acontecerá que, no lugar onde se lhes dizia: Vós não sois meu povo, se lhes dirá: Vós sois filhos do Deus vivo.

5. Essas passagens onde a expressão “filhos de Deus” aparece como uma referência aos filhos do povo de Israel não nos permitem chegar a uma interpretação filológica da mesma, já que ela possui dois sentidos completamente opostos — filhos do povo de Israel X seres angelicais. Dessa maneira o que nos resta fazer é tratar a solução desse problema utilizando apenas o método de interpretação teológica.

6. Tudo o que vimos até agora, é agravado pela seguinte consideração: qual era a intenção do autor ao usar a expressão “filhos de Deus”? Estaria ele utilizando a mesma para se referir a seres no sentido físico ou estaria utilizando a mesma para se referir a seres no sentido ético do termo? A noção de que o autor do Gênesis teria usado a expressão “filhos de Deus” no sentido físico do termo, como se estivesse se referindo a filhos “literalmente gerados por Deus”, precisa ser rejeitada, por se constituir em um grosseiro erro gnóstico. Foram os gnósticos que inventaram, a partir do segundo século d.C., a idéia de que os espíritos celestiais são fruto da essência divina ou que foram gerados sexualmente por Deus, quando o ensinamento bíblico é claro no sentido de que, todos os seres angelicais são criaturas de Deus, como de resto tudo o que existe em todo universo. Nada emana de Deus para o universo, estes são conceitos panteístas ou panteteístas e são completamente estranhos ao ensino das Escrituras. Em função de serem seres criados por Deus, quando a Bíblia usa termos variados para descrever os anjos, sempre o faz em termos éticos ou descritivos do caráter dos mesmos.

7. Com base no que acabamos de dizer, nós podemos afirmar de maneira categórica, que a expressão “filhos de Deus” no Antigo Testamento não pode ser utilizada para descrever exclusivamente seres angelicais, mas pode, como de fato é, ser aplicada também aos seres humanos, criados à imagem e semelhança de Deus — não é Adão chamado de “filho de Deus” em Lucas 3:38? Apesar de essa última idéia estar no Novo Testamento, é opinião do autor, que a base para usar a expressão “filhos de Deus” com referência a seres humanos, está amparada exatamente no fato de ter sido o ser humano criado à imagem e semelhança de Deus.

8. Mas o que podemos dizer acerca da antítese representada pelas expressões “filhos de Deus” e “filhas dos homens”? Que a antítese existe, isso é verdade! Mas afirmar que essa antítese, pela sua simples existência, “prova” que os mencionados “filhos de Deus” são seres angelicais vai uma grande distância.

10. Talvez a melhor maneira para definirmos se a expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim — filhos de Deus — se refere a seres angelicais ou a seres humanos seja analisarmos o contexto imediato em que ela aparece, i.e., Gênesis 6. Talvez consigamos divisar no texto diante de nós, elementos suficientes para caracterizar estes בְּנֵי הָאֱלֹהִים benei haElohim. Quando olhamos o texto de Gênesis 6, somos imediatamente lembrados que o mesmo é a sequência dos fatos ocorridos em Gênesis 4. Esse fato, por si só, nos leva a concluir que, descendentes de Caim certamente mantiveram relações com descendentes de Sete. Ou seja, houve casamentos entres os descendentes de Caim e os de Sete nos anos que antecederam o dilúvio —

Mateus 24:38

Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio comiam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca,

Lucas 17:27.

Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e destruiu a todos.

Por outro lado, a proibição que diz que o povo de Deus não deveria se casar com pessoas estrangeiras, dada mais tarde, também corrobora, de maneira indireta esta mesma verdade —

Êxodo 34:12—16

12 Falou Josué aos rubenitas, e aos gaditas, e à meia tribo de Manassés, dizendo:

13 Lembrai-vos do que vos ordenou Moisés, servo do SENHOR, dizendo: O SENHOR, vosso Deus, vos concede descanso e vos dá esta terra.

14 Vossas mulheres, vossos meninos e vosso gado fiquem na terra que Moisés vos deu deste lado do Jordão; porém vós, todos os valentes, passareis armados na frente de vossos irmãos e os ajudareis,

15 até que o SENHOR conceda descanso a vossos irmãos, como a vós outros, e eles também tomem posse da terra que o SENHOR, vosso Deus, lhes dá; então, tornareis à terra da vossa herança e possuireis a que vos deu Moisés, servo do SENHOR, deste lado do Jordão, para o nascente do sol.

16 Então, responderam a Josué, dizendo: Tudo quanto nos ordenaste faremos e aonde quer que nos enviares iremos.

11. Em Gênesis 6:2, nós lemos que: vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram. Se Gênesis 6:3, na sequência, representar uma conclusão ao que está descrito no verso 2, então, nosso problema parece encontrar uma solução lógica e natural, nas palavras do próprio Deus quando diz: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos. A consequência da união referida em Gênesis 6:2 é mencionada diretamente em Gênesis 6:4: filhos nasceram!

12. Ainda em Gênesis 6:2, temos que notar que a expressão hebraica לָהֶם נָשִׁים lahem nashiim — tomaram para si mulheres — é usada em todo o Antigo Testamento para se referir à união estabelecida por Deus na criação — entre um homem e uma mulher, portanto. Este fato, por si só, deve ser suficiente para banir de vez a possibilidade de o texto estar se referindo a anjos.

13. Como mencionamos antes, a hipótese de que a expressão בְּנֵי הָאֱלֹהִיםbenei haElohim, se refira a anjos, soa completamente mitológica. Como cristãos e crentes na Bíblia somos incapazes de aceitar que sejam realmente históricos, os mitos dos povos, que nos falam acerca de como divindades mantiveram relações sexuais com seres humanos gerando filhos que eram “verdadeiros semideuses”. A Bíblia não trata de questões mitológicas! A Bíblia nos revela a história humana e nos oferece a interpretação divina para os eventos descritos em suas páginas. A Bíblia é história e não mitologia!

14. O mesmo é verdadeiro acerca de um livro pseudoepigráfico — livro de autoria desconhecida, mas atribuída a algum personagem notório do passado — conhecido como: “Primeiro Livro de Enoque”. Esse livro detém a honrosa distinção de ser o mais importante livro pseudoepigráfico dos dois primeiros séculos depois de Cristo. De acordo com os especialistas o mesmo foi composto por inúmeros autores durante um longo período de tempo. A data da composição não pode ser determinada com precisão, mas existem evidências internas no texto, que apontam para o fato que certas partes foram produzidas antes da época dos Macabeus — 200 anos a.C. A partir do capítulo 6 do Primeiro Livro de Enoque, nós podemos encontrar uma detalhada descrição acerca de como, mais ou menos 200 anjos, acompanhados pelos seus líderes, cobiçaram as belas mulheres que habitavam na terra e desceram dos céus para possuí-las. Desses encontros, entre seres angelicais e mulheres humanas, teriam nascido gigantes, alguns medindo cerca de 150 metros de altura — 300 cúbitos — de acordo com o texto do Livro de Enoque. Que o leitor possa tomar, ele mesmo, a decisão se deseja acreditar nesta estória.

15. Como mencionamos acima, o conteúdo de Gênesis 6:3 que diz: “Então, disse o SENHOR: O meu Espírito não agirá para sempre no homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos”, só faz sentido se os בְּנֵי הָאֱלֹהִיםbenei haElohim mencionados em Gênesis 6:1 forem seres humanos. A expressão רוּחִי ruqui — meu espírito, expressa a manifesta oposição que existe entre o espírito do ser humano caído e o Espírito Santo de Deus. A palavra do Senhor é clara: meu espírito não irá יָדוֹן yadon — julgar, contender, pleitear com o homem para sempre. Essa passagem nos ensina que o Espírito de Deus não insiste, em termos morais, com o ser humano para sempre e sim, que essa insistência, se estende por um período, que, naquele caso, foi fixado, por Deus mesmo, em 120 anos. Os cento e vinte anos aqui mencionados, não se referem à extensão da vida humana, e sim ao tempo que Deus estava concedendo àqueles seres humanos para que se arrependessem. Essa é uma frase pequena, mas nela podemos ver toda a extensão da graça de Deus oferecida à raça humana apóstata. Cento e vinte anos, meus irmãos é um longo período de tempo em qualquer padrão!

16. É somente mediante a influência do Espírito Santo que a mente carnal dos homens pode ser dominada e completamente vencida. Mas, sempre existirão aqueles que resistem à ação de Deus, de forma voluntariosa, em suas vidas e que acabam por entristecer o Espírito Santo e são abandonados à sua própria dureza e cegueira de seus corações impenitentes. A Bíblia diz que Deus é compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia — 

Salmos 86:15

Mas tu, Senhor, és Deus compassivo e cheio de graça, paciente e grande em misericórdia e em verdade.

17. E aqui, em Gênesis 6, nós podemos ver a realidade dessas palavras. A raça humana estava pronta para ser destruída — ver Gênesis 6:5 e 11—12. Mas, mesmo diante desse quadro, Deus resolve conceder aos homens 120 anos para se arrependerem. Se o fizerem, muito que bem. Caso contrário, perecerão. Enquanto isso, Deus envia Noé, homem justo e íntegro e que andava com Deus, para pregar — ver Gênesis 6:9. Mas, acima de tudo, o testemunho de Noé foi marcado pela construção de uma enorme arca que era muito evidente.     

Mas antes de falarmos de Noé propriamente, uma palavra acerca dos “gigantes” mencionados em Gênesis 6 se faz necessária. De fato, Gênesis 6:4 menciona dois tipos de homens como podemos ver: Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade.

Quem foram estes gigantes e quem foram esses valentes de renome da antiguidade é o que nos interessa saber neste momento. Em primeiro lugar devemos observar que se tratam de duas classes distintas de homens. Os primeiros são chamados de נְּפִלִים nefilim. A LXX — versão para o grego das escrituras hebraicas — chamou os  נְּפִלִים nefilim de γίγαντες gígantes – e foi daí que nós criamos nossa palavra “gigantes” em português. E é desses primeiros — os gigantes — com os quais vamos nos ocupar em seguida:

CONTINUA...

OUTROS ARTIGOS ACERCA DO LIVRO DE GÊNESIS

001 — Introdução e Esboço

002 — Introdução ao Gênesis — Parte 2 — Teorias Acerca da Criação

003 — Introdução ao Gênesis — Parte 3 — A História Primeva e Sua Natureza

004 — Introdução ao Gênesis — Parte 4 — A Preparação para a Vida Na Terra

005 — Introdução ao Gênesis — Parte 5 — A Criação da Vida

006 — Introdução ao Gênesis — Parte 6 — O DEUS CRIADOR

007 — Introdução ao Gênesis — Parte 7 — OS NOMES DO DEUS CRIADOR, OS CÉUS E A TERRA

008 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 1 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 1

009 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 8A – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 2

010 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus - Parte 9 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Segundo e o Terceiro Dia

011 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 10 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quarto Dia

012 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 11 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quinto Dia

013 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 1

013A — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12A — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 2

014 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 13 — Teorias Evolutivas

015 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 14 — GÊNESIS 2A

016 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 15 — GÊNESIS 2B

017 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 16 — GÊNESIS 3A

018 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 17 — GÊNESIS 3B

019 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 18 — GÊNESIS 3C

020 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Livre Arbítrio — Parte 19

021 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Dois Adãos — Parte 20

022 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Era Pré-Patriarcal e a Mulher de Caim — Parte 21

023 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, O Primeiro Construtor de Uma Cidade — Parte 22

024 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Assassino e Fugitivo da Presença de Deus — Parte 23

025 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Primeiro Construtor de uma Cidade e Pseudo-Salvador da Humanidade — Parte 24

026 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Conclusão Acerca de Caim — Parte 25

027 — Estudo de Gênesis — Gênesis 5 — Sete e outros Patriarcas Antediluvianos — Parte 26

028 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Perversidade Humana, Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens— Parte 27A

029 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — OS Nefilim e os Guiborim — Os Gigantes e os Valentes — Parte 27B

030 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Maldade do Coração Humano— Parte 27C.

031 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Corrupção Humana Sobre a Face da Terra e Deus Pode se Arrepender? — Parte 27D.

032 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28A.

033 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28B.

034 — Estudo de Gênesis — Gênesis 7 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 29 — O Dilúvio Foi Global Ou Local?

035 — Estudo de Gênesis — Gênesis 8 — A promessa que Deus Fez a Noé e seus descendentes — Parte 30 — Nunca Mais Destruirei a Terra Pela Água

036 — Estudo de Gênesis —  O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 001

037 — Estudo de Gênesis — O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 002

038 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 001

039 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 002

040 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 003

041 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 004 — A NATUREZA DA ALIANÇA ENTRE DEUS E NOÉ

042 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 005 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 001

043 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 006 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 002 — OS NEGROS SÃO AMALDIÇOADOS?

044 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 007 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 003 — A CONTRIBUIÇÃO DOS FILHOS DE NOÉ PARA A HUMANIDADE

045 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 001 — OS DESCENDENTES DE JAFÉ
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/genesis-estudo-045-tabua-das-nacoes.html
Que Deus abençoe a todos. 
Alexandros Meimaridis 
PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link: 
Desde já agradecemos a todos.


[1] Walton, John H. Chronological Charts of the Old Testament. The Zondervan Corporation, Grand Rapids, 1978.