quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 014 — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 009


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O chamado de Mateus por Hendrick Terbrugghen .

Essa série pretende disponibilizar as informações mais importantes acerca de cada um dos 27 livros que compõem o Novo Testamento. Desde que lançamos nossa série de Introdução ao Antigo Testamento, muitos leitores têm nos questionando acerca de algum material semelhante com respeito ao Novo Testamento. Então, aproveitando que iniciamos uma série de estudos acerca dos manuscritos do Novo Testamento — tecnicamente chamada de “baixa crítica” — estamos usando essa oportunidade para lançar uma série que trate também do texto do Novo Testamento em si, e da interpretação geral do mesmo — “alta crítica”.

I. O EVANGELHO DE MATEUS

H. O Autor do Evangelho de Mateus

Creio que já afirmamos antes que todos os quatro Evangelhos que temos no Novo Testamento são anônimos, ou seja, não existe uma indicação precisa acerca do seu autor, e o Evangelho de Mateus não é exceção.

Todavia, temos registros de que por volta do ano 125 da Era Cristã esse evangelho já era atribuído a certo Mateus sob o título: DE ACORDO COM MATEUS.

Pelo título acima podemos concluir que algum tipo de autoria foi atribuída ao material, no caso específico, a autoria foi atribuída a certo Mateus. Mas devemos reafirmar que tal título não é, nem nuca foi parte do material original que foi produzido, rigorosamente, por alguém anônimo, mas que desde a mais remota antiguidade foi atribuído a Mateus, o apóstolo de Jesus.

Apesar de tudo o que acabamos de afirmar, é importante destacarmos alguns fatos:

1. Como o nome do autor não aparece no corpo do texto em si, então devemos aceitar, a princípio, que o mesmo foi produzido por um anônimo.

2. A ausência de paralelos em sua forma literária — ver estudos anteriores na lista publicada abaixo — também não nos ajuda a identificar o autor. Nem mesmo o Evangelho de Lucas, que fala em primeira pessoa nos versos iniciais nos permite identificar o médico amado como o autor do Evangelho que leva seu nome.

3. O testemunho mais antigo disponível é uma citação de Papias, um dos chamados Pais da Igreja — viveu entre 70 a 163 — que encontramos na História Eclesiástica de Eusébio[1]. A citação de Papias diz o seguinte: Mateus reuniu, de forma ordenada, na língua hebraica, as sentenças [de Jesus] e cada um as interpretava conforme sua capacidade.

Que Papias estivesse se referindo ao Mateus canônico na citação acima é algo que só foi contestado nos dias do liberal Schleiermacher em pleno século XIX. O argumento usado no século XIX para contestar a autoria de Mateus do Evangelho que lhe é atribuído se baseava no fato de que as cópias mais antigas disponíveis do mesmo estavam escritas em grego e não em língua hebraica como afirma Papias. Além disso, os liberais do século XIX também alegavam estranhar uma dependência gritante do Evangelho de Mateus do chamado Evangelho de Marcos.

Todavia, apesar da citação de Papias mencionar que Mateus reuniu o material de Jesus na língua hebraica não representa, necessariamente, que Papias alguma vez tenha visto qualquer escrito atribuído a Mateus que não fosse escrito na língua grega.

Os liberais do século XIX e continuando até nosso próprio século[2], inventaram e defendem, entre várias teorias, a seguinte, como forma de explicar a afirmação de Papias e a dependência de Mateus do Evangelho de Marcos: pare eles Mateus teria sido o autor duma fonte principal do Evangelho de Mateus, chamada de A Fonte dos Logia ou de Mateus Aramaico. Para esses críticos, sem apontarem evidências sólidas, o título Segundo Mateus não passa duma hipótese sem fundamento.

Diante disso, é importante estabelecermos o que sabemos com exatidão, antes de saltarmos para as conclusões como fazem os liberais. Da mesma tradição de onde Papias recolheu sua tradição podemos derivar apenas a correção do uso do nome Mateus. Disso podemos presumir que trata-se do mesmo Mateus citado em todas as listas dos 12 apóstolos — Mateus 10:3; Marcos 3:18; Lucas 6:15; Atos 1:13 —, mas que é designado como sendo cobrador de impostos ou publicano apenas no Evangelho de Mateus:

Mateus 10:3
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu.  

De acordo com o estudioso Martin Hengel[3], utilizando a análise feita por R. T. France em sua obra Matthew — evanegslist and teacher[4], bem cedo, provavelmente antes do ano 100 d.C., as igrejas só aceitavam que fossem lidos em suas reuniões, materiais cuja autoria não estivesse clara, logo no início do texto. Isso era, particularmente importante, no que diz respeito aos evangelhos já que existiam dois, três e, possivelmente quatro, disponíveis e era importante caracterizá-los pelo nome do seu respectivo autor. Tais nomes, começaram a ser percebidos pelas comunidade cristãs com sendo os “títulos” dessas obras. De acordo com Hengel, chega a ser absurda a ideia de que os evangelhos poderiam ter circulado durante cerca de 60 anos, de forma anônima, e depois, subitamente, já no século II, terem recebido atribuições unânimes a certos autores. De acordo com Hengel, os quatro evangelhos canônicos — Mateus, Marcos, Lucas e João — jamais foram aceitos como sendo anônimos.

Outra distinção importante que precisamos reconhecer é que anonimato não é equivalente a pseudoautoria. Obras com falsas atribuições de autores — chamadas tecnicamente de pseudoepigráficas — tornarem-se um problema para a igreja ainda durante o século I. Isso motivou a mesma a rejeitar, unanimemente, a autoridade de qualquer obra sobre a qual pesasse a suspeita de ser pseudônima.

CONTINUA...

OUTROS ESTUDOS ACERCA DA INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 001 — INTRODUÇÃO GERAL AOS EVANGELHOS — ESTUDO 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 002 — A FORMA LITARÁRIA DOS EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 003 — MOTIVOS PORQUE OS EVANGELHOS FORAM ESCRITOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 004 — O LUGAR OCUPADO PELOS QUATRO EVANGELHOS NO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 005 —  A MELHOR FORMA DE ABORDAR OS QUATRO EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 006 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 007 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 002

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 008 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 003

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 009 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 004

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 010 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 005

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 011 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 006

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 012 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 007

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 013 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 008

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 014 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 009

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 015 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 010 — AUTOR — PARTE 002



INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 016 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 011 — DATA DA COMPOSIÇÃO

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.


[1] Eusébio.  A História da Igreja de Cristo até Constantino. Penguin Books, London, 1989.
[
2] Gundry, Robert, H. Matthew: A Commentary on His Literary and Theological Art. William B. Eerdmans, Grand Rapids, 1982.

[3] Hengel, Martin. Studies in the gospel of Mark. Wipf & Stock Pub., Eugene, March, 2003.

[4] France. R. T. Matthew — evanegslist and teacher. Wipf & Stock Pub., Eugene, October, 2004.

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