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sábado, 13 de agosto de 2016

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — ESTUDO 012

Concepção artística dos vinte quatro anciãos ao redor do Trono de Deus 

Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato, queremos incentivar que todos possam ler esses artigos e compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

ESTUDO 012 — ESCRIBAS E OS MANUSCRITOS QUE PRODUZIRAM — PARTE 004

CONTINUAÇÃO...

Com o objetivo de garantir o mais alto grau de eficiência e acuidade na produção de manuscritos, certas regras pertinentes ao trabalho dos escribas foram adotadas nos scriptoria monásticos. As seguintes regras, que servem de exemplo, foram desenvolvidas pelo monastério Estudium, em Constantinopla. Por volta do ano 800 o abade chefe do monastério, um homem chamado Teodoro, o Estudita e que era, ele mesmo, capaz de escrever em grego utilizando um belo e elevado estilo, incluiu nas regras do monastério diversas punições que deveriam ser aplicadas a todos os escribas que não fossem cuidadosos o suficiente em suas cópias manuscritas.

1. Uma dieta de pão e água deveria ser aplicada a todo escriba que demonstrasse interesse maior no assunto que estava copiando do que no próprio ato de copiar.

2. Os monges deveriam manter suas folhas de pergaminho em bom estado e desamassadas sob a pena de terem que pagar 130 atos de penitência.

3. Para qualquer monge que tomasse o material de escrita pertencente a outro monge teria que pagar 50 anos de penitência.

4. A mesma pena era aplicada para qualquer um que produzisse mais cola do que iria utilizar causando a perda da mesma por meio do endurecimento natural.

5. O escriba que quebrava sua pena era penalizado com 30 penitências.

II. AUXÍLIOS PRA OS LEITORES DO NOVO TESTAMENTO

Muitos manuscritos do Novo Testamento contêm uma variedade do que podemos chamar de “Auxílios para os leitores”. Esse material adicional visava auxiliar o leitor tanto em suas devoções pessoais quanto nas leituras públicas do material do Novo Testamento. Esses auxílios surgiram em diversos lugares e das formas mais diversas. Os mesmo foram sendo passados de geração em geração e, como não poderia deixar de acontecer, os mesmos foram se avolumando com o passar do tempo. A seguir apresentamos uma lista dos auxílios mais comuns que encontramos no Novo Testamento:

A. A Divisão por Capítulos


Codex Vaticanus

O sistema mais antigo de separação por capítulos que conhecemos encontra-se em certas notas feitas nas margens do Codex B — Vaticanus — datado dos primórdios do século IV — anos 300. De acordo com essas anotações temos:

1. Mateus está dividido em 170 seções.

2. Marcos está dividido em 62 seções.

3. Lucas está dividido em 152 seções.

4. João está dividido em 50 seções.


Codex Alexandrinus

Outro método pode ser encontrado no Codex A — Alexandrinus — datado do V século. Uma grande quantidade de outros manuscritos — a maior parte deles — do Novo Testamento adotam esse sistema também. De acordo com esse sistema, temos:

1. Mateus está dividido em 68 seções.

2. Marcos está dividido em 48 seções.

3. Lucas está dividido em 83 seções.

4. João está dividido em 18 seções.

Normalmente, a seção de número 1 não estava colocada ao lado do início do texto, porque os escribas consideravam o início dos livros como uma espécie de prefácio da Antiguidade. Dessa forma, a seção ou capítulo 1 de Marcos está posicionado ao lado de Marcos 1:23.

Já para o livro de Atos existem várias divisões adotadas. Assim, o Codex Vaticanus adota uma medida contendo 36 capítulos e outra, contendo 69 capítulos. De acordo com os estudiosos a primeira divisão que acabamos de mencionar foi produzida por um copista mais antigo ou por alguém responsável pela revisão. Já a segunda divisão teria sido acrescentada depois por outro indivíduo. No Codex Sinaiticus do século IV um sistema de 69 divisões foi adicionado à primeira parte de Atos — capítulos 1 até 15 em nossas traduções modernas. Por motivos que desconhecemos essa divisão não foi levada adiante até ao final do livro.


Facsímile do Codex Sinaiticus

A maioria das cópias do Livro dos Atos possui uma divisão de 49 capítulos ou seções. Em algumas cópias o texto foi subdividido em subpartes ou subcapítulos. Dessa forma o Livro de Atos tem, em alguns casos, 88 seções ou capítulos. Para evitar confusões entre capítulos e subcapítulos, em alguns manuscritos, decidiu-se adotar um sistema de numeração único.
Tanto as Epístolas paulinas como as Epístolas gerais foram divididas em capítulos e subdivididas em porções menores. O Codex Vaticanus apresenta duas divisões em capítulos: uma mais antiga e outra mais recente. Nas Epístolas paulinas o sistema mais antigo enumera todas elas de modo sequencial, como se fossem um único livro.

O livro do Apocalipse foi suprido com um sistema muito artificial de divisão por capítulos. No final do século VI, André, arcebispo de Cesareia na Capadócia, escreveu um comentário no apocalipse onde procura apresentar uma exegese espiritual do mesmo. Em vez de se perguntar acerca do material apresentado no livro, nosso arcebispo dividiu o Apocalipse em 24 seções ou discursos, de acordo com o número dos anciãos que se encontrava sentados ao redor do trono de Deus conforme —

Apocalipse 4:4

Ao redor do trono, há também vinte e quatro tronos, e assentados neles, vinte e quatro anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão coroas de ouro.

A seguir ele concluiu que: como cada ancião era composto de corpo, alma e espírito, então ele dividiu cada discurso em três, chegando, finalmente, a um número total de 72 capítulos.

OUTROS ARTIGOS DE COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 001 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 002 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 003 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO — FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 004 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — OS PERGAMINHOS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 005 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — PAPEL E BARRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 006 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 001
COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 007 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 008 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 – FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 009 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 010 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 011 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 003

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 012 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 004

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 013 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 005

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 014 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 006
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/como-o-novo-testamento-chegou-ate-nos.htmll



COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 015 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 007

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

AS 95 TESES DE LUTERO — PARA AJUDAR A ENTENDER A REFORMA PROTESTANTE


O ato simples de afixar 95 Teses na porta da catedral do castelo de Wittenberg, convidando as pessoas para um debate público acerca das mesmas, pelo então monge agostiniano Martinho Lutero marcaram o início do que seria a Reforma Protestante. A data foi 31 de Outubro de 1517 e, portanto, está completando hoje, 497 anos.

Os antecedentes

Cobrança de indulgências

No início do século XVI, a Igreja Católica adotava certas ações muito abusivas e que tinham como único intuito satisfazer o interesse de alguns clérigos, e principalmente do papa, interessado em levantar fundos para a obra monumental representada pela construção da basílica dedicada a Pedro. Uma dessas práticas impróprias realizadas por tais católicos era a venda de indulgências. As indulgências são uma invenção da Igreja Católica Romana que possibilita que os fieis paguem por seus próprios pecados através de penitências, mas o que estava acontecendo era a pura e simples venda de bênçãos, algo que continua até os dias de hoje e que também está largamente adotado pelas igrejas chamadas evangélicas. Desse modo, as pessoas são levadas a fazer contribuições financeiras, seja para obter o perdão dos pecados, seja para alcançar alguma bênção desejada.

Martinho Lutero

Entre os anos de 1516 e 1517, Marinho Lutero pregou três sermões atacando a prática da venda das indulgências. Mas, sua reação contrário a tal prática, culminou com seu singelo gesto de afixar noventa e cinco teses contrárias a tal prática e convocar todos para um debate público acerca das mesmas. Isso foi feito no dia 31 de Outubro de 1517 nas portas catedral que era parte do complexo do castelo de Wittenberg, na Alemanha. Além das indulgências as teses tratavam também de outras questões relacionadas ao papado, às penitências bem como à salvação eterna das almas.


Para Lutero a cobrança pelas indulgências era uma prática comparada com práticas pagãs e que expunham a ganância de certas autoridades da Igreja Romana.  

Em apenas duas semanas as teses já estavam traduzidas para outras línguas e cópias das mesmas alcançaram grande circulação. Bastaram dois meses para que as mesmas já estivessem em circulação por toda a Europa. A reação da Igreja Romana, como já se esperava foi dura e arrogante. Lutero foi acusado de ser apenas um monge beberão e que não tinha noção do que escrevia. A batalha entre Lutero e a Igreja Romana culminou com sua excomunhão em 1521. Como Roma fazia parte do Sacro Império Romano Germânico, o Imperado Carlos I também passou a considerar Lutero como alguém fora da lei.

Esse simples gesto, de pregar 95 teses na porta da igreja e ver as mesmas atingirem toda a Europa em apenas dois meses, foi o elemento chave usado pelo próprio Deus para dar início a um profundo movimento de  reforma no seio da Igreja Romana que ficou conhecido como a REFORMA PROTESTANTE DO SÉCULO XVII

Resultado de imagem para REFORMA PROTESTANTE

Abaixo apresentamos uma cópia em português das 95 teses de Lutero, muito faladas, mas pouco lidas tanto pelos reformados quanto por outros grupos chamados cristãos.

O material abaixo foi publicado pelo Igreja Evangélica da Confissão Luterana no Brasil

Debate para o Esclarecimento do Valor das Indulgências pelo Doutor

Martinho Lutero

31 de outubro de 1517

Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em
Wittenberg, sob a presidência do Reverendo Padre Martinho Lutero, mestre de
Artes e de Santa Teologia e professor catedrático desta última, naquela
localidade. Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e
debater conosco oralmente o façam por escrito.

Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus
Cristo quis que toda a vida dos fiéis fosse penitência.

2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental, isto é,
da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes.

3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a
penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de
mortificação da carne.

4. Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto
é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus.

5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que
impôs por decisão própria ou dos cânones.

6. O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela
foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si;
se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro.

7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitá-la,
em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário.

8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos
cânones, nada deve ser imposto aos moribundos.

9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus
decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade.

10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam
aos moribundos penitências canônicas para o purgatório.

11. Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório
parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam.

12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da
absolvição, como verificação da verdadeira contrição.

13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis
canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas.

14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo
grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor.

15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas)
para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do
desespero.

16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o
semidesespero e a segurança.

17. Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na
medida em que cresce o amor.

18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da
Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no
amor.

19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam
certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa
parte, tenhamos plena certeza.

20. Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende
simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs.

21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é
absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa.

22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que,
segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida.

23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele,
certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos.

24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por
essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena.

25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer
bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular.

26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves
(que ele não tem), mas por meio de intercessão.

27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada
na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu].

28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a
cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas?
Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal.

30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver
conseguido plena remissão.

31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente
as indulgências, ou seja, é raríssimo.

32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles
que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência.

33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do
papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada
com Deus.

34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de
satisfação sacramental, determinadas por seres humanos.

35. Não pregam de forma cristã os que ensinam não ser necessária a contrição
àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais.

36. Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de
pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência.

37. Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos
os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de
indulgência.

38. Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser
desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino.

39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo
ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição.

40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância
das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto.

41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para
que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras
do amor.

42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra
de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de
misericórdia.

43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao
necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências.

44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna
melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas
mais livre da pena.

45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para
gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de
Deus.

46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância,
devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma
desperdiçar dinheiro com indulgência.

47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não
constitui obrigação.

48. Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim
como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu
favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar.

49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não
depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o
temor de Deus por causa delas.

50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos
pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a
edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto - como é seu dever
- a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de
indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse
necessário vender a Basílica de S. Pedro.

52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que
o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas
mesmas.

53. São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de
indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas.

54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto
ou mais tempo às indulgências do que a ela.

55. A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o
menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma
cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma
centena de sinos, procissões e cerimônias.

56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são
suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.

57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que
muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam.

58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre
operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno
do ser humano exterior.

59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma,
empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época.

60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram
proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro.

61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa
por si só é suficiente.

62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça
de Deus.

63. Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que
os primeiros sejam os últimos.

64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com
razão, pois faz dos últimos os primeiros.

65. Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se
pescavam homens possuidores de riquezas.

66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se
pesca a riqueza dos homens.

67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças
realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.

68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com
a graça de Deus e a piedade na cruz.

69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os
comissários de indulgências apostólicas.

70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar
com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios
sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa.

71. Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências
apostólicas.

72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade
das palavras de um pregador de indulgências.

73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma,
procuram defraudar o comércio de indulgências,

74. Muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências,
procuram defraudar a santa caridade e verdade.

75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem
absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso
fosse possível, é loucura.

76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular
sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.

77. A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente,
poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa.

78. Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem
graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc.,
como está escrito em 1 Co 12.

79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida,
equivale à cruz de Cristo.

80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que
semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo.

81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para
os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas,
sem dúvida argutas, dos leigos.

82. Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do
santíssimo amor e da extrema necessidade das almas - o que seria a mais justa
de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do
funestíssimo dinheiro para a construção da basílica - que é uma causa tão
insignificante?

83. Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos
falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as
doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos?

84. Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do
dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de
Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e
dileta, por amor gratuito?

85. Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais - de fato e por desuso já
há muito revogados e mortos - ainda assim são redimidos com dinheiro, pela
concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor?

86. Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos
mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma
basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis?

87. Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela
contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária?

88. Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do
que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse
essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis?

89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do o
dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são
igualmente eficazes?

90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força,
sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria
dos inimigos e desgraçar os cristãos.

91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o
espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente
respondidas e nem mesmo teriam surgido.

92. Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: "Paz, paz!"
sem que haja paz!

93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "Cruz! Cruz!"
sem que haja cruz!

94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu
cabeça, através das penas, da morte e do inferno;

95. E, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas
tribulações do que pela segurança da paz

Que Deus Abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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