quarta-feira, 26 de agosto de 2015

EDUCAÇÃO CRISTÃ - ESTUDO 008 - A Igreja Cristã no Brasil no Século XXI — PARTE 003



Ministérios da Igreja

CONTINUAÇÃO

II – Igrejas — Corporativas e Institucionais 

Em segundo lugar, nossa incapacidade tem a ver com a institucionalização e o corporativismo das nossas igrejas denominacionais. Como nossas “matrizes” estrangeiras nós estamos muito próximos do abismo que confunde respeitabilidade com espiritualidade. Chegamos a um ponto em que já não somos mais cidadãos de segunda classe, quando comparados à igreja Católica Romana. O próprio “mercado” já nos reconhece como um alvo a ser atingido. Mas certamente estamos muito longe de sermos ou de continuarmos a ser dignos descendentes e representantes da verdadeira igreja. Ricardo Gouvêa resumiu de forma brilhante o quadro atual ao dizer: “o protestantismo tornou-se hoje uma tradição religiosa pesada, clericalizada, institucionalizada, sistematizada, e o ensino da palavra de Deus acaba muitas vezes perdido sob o entulho dos anos de reflexão escolástica, do ensino pragmático, do sensorialismo tolo, da pseudo-ortodoxia desespiritualizada e da prática ritualista. Hoje o protestantismo tornou-se tão tradicionalista quanto a igreja católica, e às vezes ouço alguém comentar que é quase como se fosse necessária uma nova reforma protestante.”[1] Sim, é necessário uma nova reforma. 

O leitor não precisa ir muito longe para constatar o que está escrito aqui. Uma leitura, mesmo superficial, de qualquer constituição ou estatuto de qualquer igreja, poderá facilmente constatar o corporativismo ali presente. Todas elas são escritas com o objetivo primário de proteger os interesses da classe dominante. A atitude demonstrada por Jesus ao lavar os pés dos discípulos não tem nenhum valor na cristandade do século XXI. Em vez de seguir o exemplo de Jesus —

João 13:13—15

13 Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu o sou.

14 Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros.

15 Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.

nossos líderes religiosos, se parecem mais com o personagem Sacripante, pessoa de índole  violenta, mau caráter e falsamente piedosa, do poema Orlando Innamorato, de Matteo-Maria Boiardo (1434-1494), e do poema Orlando Furioso, de Luigi Ariosto (1474-1533).

Olhe ao seu redor, não importa a que denominação você pertence e responda: os líderes da sua denominação estão servindo os irmãos — fazendo os serviços mais insignificantes como lavar os pés —, ou estão se servindo dos irmãos? Estão nossos líderes seguindo o ensino de Jesus quando ele disse:

Marcos 10:42 - 44

Sabeis que os que são considerados governadores dos povos têm-nos sob seu domínio, e sobre eles os seus maiorais exercem autoridade. Mas entre vós não é assim; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos .

Não creio que estejamos vendo esta qualidade de serviço. Nossas lideranças se parecem muito mais com aqueles que buscavam os primeiros lugares nos banquetes e nas sinagogas. Note como se congratulam e como sempre convidam seus pares para estarem junto nas plataformas. Como fazem questão dos títulos de “pastor”, “reverendo”, “ancião” etc. Como se veem distintos dos irmãos. Esses pequenos, mas emblemáticos sinais demonstram de maneira clara que não estão seguindo o exemplo de Jesus. A falta da genuína fraternidade é a prova mais contundente do fracasso absoluto da cristandade.


III – Educação Cristã Padronizada — Programas X Pessoas 

Nada ressalta de maneira mais absoluta nossa incapacidade do que nossa abordagem da educação cristã e dos ministérios da igreja. Na maioria das nossas igrejas um planejamento dos ministérios educacionais da igreja é completamente inexistente. Não se pensa nada de novo. Ao se iniciar um trabalho, se importam os formatos já conhecidos —quase tudo que está disponível nos dias de hoje é diretamente importado das terras do tio Sam — e utilizados nas igrejas de origem. Os modelos importados,[2] não entendem que as necessidades dos ribeirinhos da Amazônia são muito diferentes das necessidades dos gaúchos que vivem na fronteira com o Uruguai. De acordo com Eugene Peterson “a espiritualidade e o ministério são sempre locais e específicos, e acontecem sob condições específicas para cada caso”.[3]


Ademais, não existe a formação de pessoas nas igrejas locais para administrarem e ministrarem às mais diversas necessidades. Isto se deve, diretamente, à incapacidade dos nossos pastores, já que é competência dos mesmos o “aperfeiçoamento dos santos visando o desempenho do seu serviço para a edificação do corpo de Cristo — Efésios 4:12”. Mas isto não lhes foi ensinado no seminário, e muito menos lhes foram fornecidas as ferramentas para se atingir tais objetivos. Nossos pastores refletem a imagem dos seus mestres. São vaidosos e se consideram distintos dos irmãos que compõe o rebanho, não apenas no aspecto funcional — reconhecido pelas escrituras pois temos funções diferentes dentro do corpo de Cristo, a igreja — mas também posicional — desconhecido das escrituras já que todos nós, independente da função, estamos posicionados “em Cristo.

Tudo isto nos leva a uma educação cristã padronizada onde os programas são mais importantes que as pessoas, já que são, na maior parte das vezes, impostos de cima para baixo. A vaidade humana tem total supremacia sobre as necessidades das pessoas. Tudo começa com a incapacidade que temos de determinar quais são as necessidades das pessoas às quais pretendemos ministrar. Não conhecendo as necessidades nada podemos fazer para satisfazê-las. Não admira que estejamos perdendo desde crianças até adultos da terceira idade.

Nossos programas padronizados não levam em conta que cada grupo — crianças, adolescentes, jovens, adultos solteiros, adultos casados sem filhos, adultos casados com filhos, pessoas de meia e da terceira idade e isto para não falar nas mães solteiras, viúvas, órfãos, pessoas separadas ou divorciadas e etc., têm suas próprias características e necessidades e anseiam por ter suas necessidades individuais satisfeitas. Sem conhecer as necessidades não conseguimos estabelecer os alvos certos. Ou seja, estamos atirando a esmo, sem chances reais de acertar os alvos corretos. Sem os alvos apropriados, não importa os programas e pouco importam os métodos e os materiais utilizados e são totalmente irrelevantes, os métodos de organização e administração, que possamos ter. Os mesmos não atingirão o alvo certo e jamais satisfarão as necessidades reais das pessoas. A apatia enfrentada pelas denominações tradicionais tem um diagnóstico preciso: não estamos satisfazendo as necessidades das pessoas. 

No outro lado da moeda isso também explica o porque do grande sucesso das novas igrejas, como as que mencionamos em outro artigo da série. Em um país miserável e de miseráveis, em um país de desempregados, em um país onde a insegurança é palpável, em um país onde o sistema de medicina do estado e o sistema previdenciário encontram-se em completa falência faz muito sentido oferecer soluções mágicas para a falta de dinheiro ou bens, a falta de emprego, de saúde e de segurança. As técnicas de embromação se multiplicam tão ou mais velozmente do que a multiplicação do desespero das pessoas. Desta maneira, essas formas de religiões pseudocristãs, apesar de condenarem de maneira veemente as religiões afro-brasileiras, o espiritismo e a idolatria patrocinada pela igreja Romana, acabam por oferecer soluções mágicas e imediatas iguais àquelas das formas religiosas que condenam. A confusão é imensa. Mas será que está tudo perdido? Não, se pensasse assim não estaria aqui escrevendo estas linhas e desejando compartilhar uma forma de retornarmos ao ponto onde as pessoas voltem a ser nossa prioridade número um. Somente quando entendermos qual é o propósito distinto e singular de Deus para nossos dias, e que este propósito de Deus tem tudo a ver com pessoas, poderemos então iniciar uma caminhada no sentido de reconstruir a igreja, ou como já foi mencionado anteriormente efetuarmos uma nova reforma.

CONTINUA...

OUTROS ESTUDOS ACERCA DE EDUCAÇÃO CRISTÃ

001 — A EXCELÊNCIA DA VIDA PESSOAL DAQUELES QUE DESEJAM ENSINAR — PARTE 001

002 — A EXCELÊNCIA DA VIDA PESSOAL DAQUELES QUE DESEJAM ENSINAR — PARTE 002

003 —A EXCELÊNCIA DA VIDA PESSOAL DAQUELES QUE DESEJAM ENSINAR — PARTE 003

004 — A IMPORTÂNCIA DA ALIANÇA COM DEUS

005 — OS ALVOS DA EDUCAÇÃO CRISTÃ

006 — A IGREJA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XXI – PARTE 001 — INTRODUÇÃO — OS COLONIZADORES VÊM EM NOME DE DEUS

007 — A IGREJA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XXI – PARTE 002 — NOSSAS ESCOLAS TEOLÓGICAS

008 — A IGREJA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XXI – PARTE 003 — IGREJAS CORPORATIVISTAS E INSTITUCIONALIZADAS E EDUCAÇÃO CRISTÃ PADRONIZADA

009 — A IGREJA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XXI – PARTE 004 — CONSUMISMO E CELEBRITISMO

010 — O PROPÓSITO SINGULAR DE DEUS PARA OS NOSSOS DIAS

011 — A PALAVRA IGREJA NO NOVO TESTAMENTO

012 — A EXPRESSÃO GREGA “EM CRISTO” — ἐν Χριστῷ

013 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA

014 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 002

015 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 003

016 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 004 — A IGREJA COMO PLENITUDE

017 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 005 — A UNIDADE DA IGREJA CRISTÃ

018 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 006 — HUMILDADE E AMOR EM MEIO À DIVERSIDADE DE DONS
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/01/educacao-crista-estudo-018-o-que-o-novo.html
Que Deus abençoe a todos. 

Alexandros Meimaridis 
PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link: 
Desde já agradecemos a todos. 


[1] Ricardo Quadros Gouvêa na introdução do livro de Emil Brunner O Equívoco sobre a Igreja, São Paulo, Editora Novo Século Ltda, 2000.
[2] Talvez os casos mais clamorosos sejam os representados por Rick Warren e seu livro “Uma Igreja com Propósitos” — recomendado pelo já falecido Pastor Ary Velloso como sendo “o melhor, mais prático e o mais rico ensino sobre o crescimento da igreja depois do livro de Atos dos Apóstolos — e por Cezar Castellanos e seu livro “Sonha e Ganharás o Mundo” — recomendado pela pastora e missionária Valnice Milhomens. Estes dois livros representam modelos de evangelização que disputam os corações dos pastores brasileiros. Um é originário da Califórnia nos Estados Unidos e o outro nos chega diretamente de Bogotá na Colômbia.
[3] Peterson, Eugene, O Pastor Desnecessário, Rio de Janeiro, Editora Textus, 2001.

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