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sábado, 25 de novembro de 2017

GÊNESIS — ESTUDO 056 — O PERÍODO PATRIARCAL — O CHAMADO DE ABRAÃO


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               וַיֵּרָא יְהוָה אֶל־אַבְרָם וַיֹּאמֶר אֵלָיו אֲנִי־אֵל שַׁדַּי הִתְהַלֵּךְ לְפָנַי וֶהְיֵה תָמִים׃
    perfeito sê e presença  minha    na anda Poderoso-Todo   Deus  o sou Eu disse-lhe e  Abrão a  Deus  SENHOR o apareceu
Gênesis 17:1b

I. A Transição Entre os Capítulos 11 e 12 do Livro do Gênesis.

Ao lermos os onze primeiros capítulos do Livro do Gênesis não podemos evitar a triste constatação de que, à medida que o tempo passa, duas coisas sempre se repetem. Elas são:

1. Que os homens vão sempre e de forma contínua derivando para práticas pecaminosas que os levam a se afastar cada vez mais de Deus. Ver Gênesis 6:5, especialmente as palavras que dizem: “era continuamente mau todo o desígnio do seu coração”.

2. Que Deus sempre intervém visando manter vivas as informações necessárias acerca da salvação. Todos aqueles que aqui e ali fazem a pergunta: “Onde está ou estava Deus?”, encontram nesses primeiros capítulos de Gênesis resposta mais que suficiente para suas indagações. Certamente, se Deus não tivesse interferido neste nosso mundo por muitas e repetidas vezes, as coisas estariam bem piores do que estão.

Dos três filhos de Terá, Abrão foi o escolhido por Deus para fundar uma nova nação na qual a luz da salvação pudesse ser preservada até os últimos dias, de acordo com o plano estabelecido por Deus desde antes da fundação do mundo. É através da família de Abrão e de seus descendentes que a promessa do evangelho feita em Gênesis 3:15 irá encontrar pleno cumprimento.

II. O Aparecimento de Abrão – Gênesis 12:1—20.

Quando consideramos a vida de Abrão – ela se estende de Gênesis 11:27 a 25:11 — não podemos deixar de notar que tanto as primeiras como as últimas palavras que Deus lhe dirigiu, são muito parecidas. Vejamos:

1. A primeira palavra de Deus dirigida diretamente a Abrão está em —

Gênesis 12:1

Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei.

2. A última palavra de Deus dirigida a Abrão encontra-se em —

Gênesis 22:2

Acrescentou Deus: Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holocausto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei.

Estas duas palavras possuem mais elementos coincidentes do que podemos imaginar. Nas duas Teofanias — manifestações onde Deus se faz visível aos olhos humanos — mencionadas acima, nós temos um verbo no modo imperativo seguido de um triplo objetivo:

Gênesis 12:1 possui um verbo inicial no modo imperativo: לֶךְ  leqe —que quer dizer: sai. Este verbo é seguido pelos seguintes objetivos:

1. Sai da tua terra.

2. Sai da tua parentela.

3. Sai... e vai para a terra que te mostrarei.

Nesse versículo nós podemos notar um movimento que vai do geral para o particular. De uma condição onde existe menos intimidade com Deus para outra, onde existe mais intimidade. À medida que Deus fala, a proximidade entre Deus e Abrão aumenta de tal maneira, que Deus substitui e supre tudo aquilo que Abrão estava abrindo mão ou perdendo.

Gênesis 22:2, por sua vez, possui um verbo inicial no modo imperativo: קַח — qach – que quer dizer: toma. E esse verbo é seguido pelos seguintes objetivos:

1. Toma teu filho.

2. Toma... teu único filho.

3. Toma... e vai-te.

Note que nas duas referências Deus não diz a Abrão, onde exatamente Ele pretendia levá-lo. Tudo o que Deus faz é apontar a direção que Abrão precisa seguir. É necessário exercitar fé para seguir para um lugar que a gente nem sabe onde fica. Em Gênesis 12:1 Deus lhe diz apenas: vai para a terra que te mostrarei. Já em Gênesis 22:2 Deus lhe diz: vai-te à terra de Moriá... um dos montes, que eu te mostrarei. E foi exatamente isso que Abrão fez —

Hebreus 11:8

Pela fé, Abraão, quando chamado, obedeceu, a fim de ir para um lugar que devia receber por herança; e partiu sem saber aonde ia.

No texto de Hebreus, note como a fé é caracterizada por uma série de decisões de acreditar em Deus e Sua palavra. A nossa fé cristã é assim mesmo. Ela não é um sentimento, nem algo irracional que não pode ser comunicado ou explicado. A fé cristã é uma fé, acima de tudo, racional e que se justifica por tomadas de decisão bem características. Para resumir podemos dizer que A FÉ É UMA DECISÃO. É a decisão de acreditar em Deus e em Sua palavra independentemente das circunstâncias. Este é o tipo de fé que Abrão demonstra. Que nos sirva de lição.

Este autor é da opinião que os diálogos mencionados no livro de Gênesis entre Deus e Abrão tiveram ocasião por sucessivas teofanias. Mas devemos registrar que outros autores pensam que Deus se comunicava com Abrão através de sonhos. Independente da forma, nós podemos afirmar que em todas essas ocasiões, Abrão reconheceu que estava ouvindo a voz do próprio Deus e que o mais sensato era obedecer. O mesmo deve ser verdadeiro para nós. Quando tomamos a Bíblia em nossas mãos, nós devemos nos lembrar que trata-se de um registro escrito das palavras que foram proferidas pelo próprio Deus, e isso deve nos encher de espanto e de reverente temor. A Bíblia é a palavra de Deus para nós como as teofanias trouxeram a presença e a palavra de Deus para Abrão. Faremos bem em ouvir o que Deus tem a dizer, mas não podemos nos enganar a nós mesmos e nem deixar que nos enganem. Nossos corações não possuem, naturalmente, o desejo de crer em Deus e Sua Palavra. Muito pelo contrário. O profeta Jeremias diz:

Jeremias 17:9

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?

Nossa inclinação para o mal é tão marcante e característica que o próprio Deus insiste, através de Moisés, com as seguintes palavras:

Deuteronômio 30:15—20

Vê que proponho, hoje, a vida e o bem, a morte e o mal; se guardares o mandamento que hoje te ordeno, que ames o SENHOR, teu Deus, andes nos seus caminhos, e guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, então, viverás e te multiplicarás, e o SENHOR, teu Deus, te abençoará na terra à qual passas para possuí-la. Porém, se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores seduzido, e te inclinares a outros deuses, e os servires, então, hoje, te declaro que, certamente, perecerás; não permanecerás longo tempo na terra à qual vais, passando o Jordão, para a possuíres. Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência  amando o SENHOR, teu Deus, dando ouvidos à sua voz e apegando-te a ele

III. O Chamado de Abrão — Gênesis 12:1—4.

Abrão ouve a voz de Deus e decide, pela fé, seguir a orientação recomendada. Acerca do seu chamamento nos podemos dizer o seguinte:

1. Foi um chamado distinto e seletivo como é tão comum da parte de Deus através de toda a Bíblia. As escolhas de Deus não são baseadas em nenhum tipo de mérito existente no objeto da Sua escolha. A eleição ou escolha de Deus está baseada exclusivamente em Sua graça — ver, por exemplo,

Deuteronômio 7:7—8

7 Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos,

8 mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, o SENHOR vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito.

Note que o chamado de Abrão é dirigido a ele somente, dentre todos os teraítas — descendentes de Terá. É a ele somente que a palavra de Deus é dirigida dentre todos os descendentes de Sem; dentre todos os habitantes do planeta; dentre todos os descendentes de Adão. O mesmo é verdadeiro para com o convite feito pelo Evangelho ou Boas Novas. Ouvir e aceitar a oferta feita não depende do ouvinte e sim de usar Deus a sua misericórdia —

Romanos 9:16

Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.

2. Foi também um chamado para viver uma vida separada. Abrão foi chamado para romper seu relacionamento com seus parentes mais próximos — eles certamente eram idólatras como era tão comum naqueles dias. O afastamento era necessário porque a proximidade da vida praticada pelos idólatras constituía um grande perigo para a salvação do próprio Abrão. Da mesma maneira, a voz de Jesus nos convida a abandonar a velha vida — como quem tira uma roupa velha — com suas corrupções e iniquidades e a nos revestirmos do novo homem, que é criado segundo Deus —

Efésios 4:17—24

17 Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos,

18 obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração,

19 os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza.

20 Mas não foi assim que aprendestes a Cristo,

21 se é que, de fato, o tendes ouvido e nele fostes instruídos, segundo é a verdade em Jesus,

22 no sentido de que, quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano,

23 e vos renoveis no espírito do vosso entendimento,

24 e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade.

Se queremos ser verdadeiros seguidores de Jesus precisamos amar e dar mais importância à Sua voz do que, até mesmo, à voz dos parentes mais próximos —

Lucas 14:25—27

25 Grandes multidões o acompanhavam, e ele, voltando-se, lhes disse:

26 Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.

27 E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo.

3. O chamado de Abrão implicava em uma longa peregrinação onde ele certamente teria de passar por várias e muito grandes dificuldades, com não pouco sofrimento e muitas privações. Todas estas circunstâncias iriam exigir de Abrão uma atitude de permanente prontidão e uma paciência persistente. Para ser bem sucedido nesta empreitada seria necessário seguir a orientação da Palavra de Deus em seus mínimos detalhes, pois qualquer desvio poderia trazer consequências bastante desagradáveis. Cada passo precisava ser dado em plena confiança e fé no Deus que o estava chamando. Nosso chamado cristão não é muito diferente. O autor sabe bem que esse discurso está muito fora de moda no meio evangélico dos nossos dias. Hoje se ensina a vitória permanente, a saúde inabalável e a prosperidade à toda prova. Dificuldades e problemas são vistos como resultados da ação direta de Satanás e suas hostes de demônios. O besteirol chega a ser tão grande que nos sentimos nauseados. O engano é sutil, mas é também muito extenso. Temos sempre que nos lembrar que estamos aqui somente de passagem.  

O Novo Testamento nos ensina o seguinte:

Marcos 10:28—30

Então, Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós tudo deixamos e te seguimos. Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna.

Atos 14:21—22

E, tendo anunciado o evangelho naquela cidade e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio, e Antioquia, fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus.

2 Coríntios 5:6—7

Temos, portanto, sempre bom ânimo, sabendo que, enquanto no corpo, estamos ausentes do Senhor; visto que andamos por fé e não pelo que vemos.

2 Timóteo 3:12

Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.

Apocalipse 7:13—17

Um dos anciãos tomou a palavra, dizendo: Estes, que se vestem de vestiduras brancas, quem são e donde vieram? Respondi-lhe: meu Senhor, tu o sabes. Ele, então, me disse: São estes os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima.

4. Mas o chamado de Deus também possuía outras implicações. Era um chamado cheio de palavras de ânimo e encorajamento. Ele estava repleto de várias promessas, como podemos ver a seguir: ver especialmente os versos 2 e 3 de Gênesis 12.

De ti farei uma grande nação.

Te abençoarei.

Te engrandecerei o nome.

Sê tu uma bênção.

Abençoarei os que te abençoarem.

Amaldiçoarei os que te amaldiçoarem.

Em ti serão benditas todas as famílias da terra.

Fica bem evidente que o que o Senhor estava prometendo não era pouca coisa. São estas promessas que colocam em perspectiva apropriada as palavras de Paulo em —

Efésios 3:20—21

20 Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós,

21 a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!

São essas promessas que servem como uma compensação mais do que abundante para os sacrifícios e as privações que teriam que ser enfrentadas por Abrão como resultado direto de decidir, pela fé, obedecer ao chamado de Deus. O apóstolo Pedro nos diz que —

2 Pedro 1:2—9

...pelo seu divino poder, nos têm sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes promessas....

O mesmo é verdadeiro com respeito ao Senhor Jesus para quem somos exortados a olhar firmemente, pois Ele é tanto o autor como o consumador da nossa fé —

Hebreus 12:1—3

1  Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta,

2  olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus.

3  Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma.

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053 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 005
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054 — Estudo de Gênesis — A GENEALOGIA DOS SEMITAS
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Alexandros Meimaridis

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sábado, 6 de agosto de 2016

A TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR JESUS - UMA EXEGESE DE MARCOS 9:1—8



MARCOS 9:1—8

1  Dizia-lhes ainda: Em verdade vos afirmo que, dos que aqui se encontram, alguns há que, de maneira nenhuma, passarão pela morte até que vejam ter chegado com poder o reino de Deus.

2  Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro, Tiago e João e levou-os sós, à parte, a um alto monte. Foi transfigurado diante deles;

3  as suas vestes tornaram-se resplandecentes e sobremodo brancas, como nenhum lavandeiro na terra as poderia alvejar.

4  Apareceu-lhes Elias com Moisés, e estavam falando com Jesus.

5  Então, Pedro, tomando a palavra, disse: Mestre, bom é estarmos aqui e que façamos três tendas: uma será tua, outra, para Moisés, e outra, para Elias.

6  Pois não sabia o que dizer, por estarem eles aterrados.

7  A seguir, veio uma nuvem que os envolveu; e dela uma voz dizia: Este é o meu Filho amado; a ele ouvi.

8  E, de relance, olhando ao redor, a ninguém mais viram com eles, senão Jesus.

Introdução

A. O versículo de Marcos 9:1 inicia com estas palavras: Dizia-lhes ainda. Tais palavras indicam que o material que vem a seguir é considerado pelo próprio Jesus como parte duma afirmação solene dentro dum discurso mais amplo, do qual apenas os pontos mais importantes foram preservados.

B. O conteúdo de Marcos 9:1 executa uma função importante na passagem que se inicia em Marcos 8:34 e termina, exatamente, aqui.

C. A passagem de Marcos 8:34—38 pode ser resumida da seguinte maneira:

1. O chamado para uma vida de consagração consciente e responsável diante de Deus — verso 34 — é imediatamente seguido pelo contraste apresentado entre o indivíduo que preserva sua vida à custa de negar o Senhor Jesus, e aquela outra pessoa que perde sua vida — por meio duma morte violenta, inclusive — por sua firmeza em confessar tanto a Jesus como o verdadeiro Evangelho da graça de Deus — verso 35.

2. Os próximos três versículos — Marcos 8:36—38 — explicam as consequências de negar a Cristo e o Evangelho. Negar a Cristo e o Evangelho equivale a perder a própria vida. Todavia, tal explicação, vem apenas por meio de implicações indiretas.

3. Jesus não espera nada menos que um compromisso absoluto da parte dos seus seguidores, diante das exigências que Ele faz. Isso fica bem claro em Marcos 9:1.

4. Por outro lado, a fantástica profecia anunciada por Cristo em Marcos 9:1 serve de conforto para aqueles que atendem ao chamado de Cristo, e que se importam com o custo de seguir o Mestre. Os que pretendem seguir a Jesus, fielmente, devem estar prontos para serem perseguidos e até mortos, por causa de sua lealdade.

2 Timóteo 3:12

Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos.

5. Mas, tal situação será algo passageiro e alguns dentre eles terão a oportunidade de ver o Reino de Deus se manifestar em glória e poder.

C. Quando Cristo diz: Em verdade vos afirmo, Ele garante a veracidade de suas palavras. A promessa que será feita em seguida está profundamente arraigada na mais absoluta certeza.

D. No Evangelho de Marcos existe uma notável proximidade entre a Pessoa e Obra do Senhor Jesus e o Reino de Deus. O Reino de Deus foi aproximado dos seres humanos pela manifestação de Jesus, Sua autoridade e poder em confrontar os poderes que são hostis a Deus. Tudo isso marca a presença real, ainda que profética, do Reino de Deus entre nós.

E. Assim temos que o reino de Deus vindo em poder é equivalente à vida do Filho do Homem vindo em glória.

F. Tudo isso aponta para resolver, definitivamente a ambiguidade representada pelo sofrimento e humilhação pelos quais o Filho de Deus precisa passar e o desprezo e a perseguição que o povo de Deus precisa experimentar. Tal ambiguidade será resolvida quando o Reino de Deus se manifestar com poder e o Filho do Homem se manifestar em glória.

G. O caráter humilde da manifestação terrena do Senhor Jesus é contrastado com sua manifestação gloriosa — Marcos 8:38 e Marcos 9:1. E aqueles que agora compartilham das humilhações do Senhor Jesus, certamente, compartilharão da sua glória.

H. Analisemos então, essa maravilhosa promessa de Jesus e sua fulgurante transfiguração...
A TRANSFIGURAÇÃO DE JESUS E SEU SIGNIFICADO PERENE

I. A FANTÁSTICA PROFECIA FEITA POR JESUS EM MARCOS 9:1

A. Em Marcos 9:1 Jesus afirma que alguns dentre os discípulos que estavam com Jesus, naquele momento, jamais passariam pela morte, sem que antes tivessem a oportunidade de experimentar a presença do Reino de Deus em todo seu poder.

B. Essa promessa profética de Jesus tem sido motivo de muita discussão e de muitas falsas e pesadas acusações contra a veracidade de Jesus e da própria Bíblia. Mas tudo isso acontece por um simples motivo: as pessoas não prestam atenção naquilo que estão lendo, e assim, é fácil pular para as conclusões mais estapafúrdias possíveis.

C. A promessa profética feita por Jesus tem seu cumprimento, poucos dias depois, no texto a seguir — Marcos 9:2—8 — na transfiguração de Jesus. Que o caso é, exatamente esse, é confirmado pelas palavras do apóstolo Pedro em:

2 Pedro 1:16—18

16 Porque não vos demos a conhecer o poder e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosamente inventadas, mas nós mesmos fomos testemunhas oculares da sua majestade,

17 pois ele recebeu, da parte de Deus Pai, honra e glória, quando pela Glória Excelsa lhe foi enviada a seguinte voz: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo.

18 Ora, esta voz, vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo.

D. Devemos notar o claro paralelo que existe ente os termos foi transfigurado — μετεμορφώθη metemorfóthe — em Marcos e vindaπαρουσίανparousían — em 2 Pedro 1:16.

E. A transfiguração de Cristo, apesar de ser algo momentâneo, apontava para algo definitivo: isto é, sua vinda com poder e grande glória[1]. E essa verdade deve servir de consolo para os crentes de todas as épocas. Sim, a vinda do Senhor Jesus é algo absolutamente certo. A vinda do Senhor Jesus também serve de advertência para todos aqueles que amam mais suas vidas e não desejam sacrificá-las por amor a Cristo. Em Sua vinda Jesus irá trazer consolo para os seus e será juiz de todos os que não são seus.

II. A Transfiguração: A Glória Manifesta do Filho de Deus — Marcos 9:2—8
Introdução

A. No Evangelho de Marcos, a transfiguração representa uma manifestação dramática da glória resplandecente que pertence, exclusivamente, a Jesus como o Filho Unigênito de Deus.

B. A transfiguração de Jesus aponta para o grande dia quando o Senhor se manifestará como o Juiz escatológico que virá julgar todos os vivos e os mortos. Aponta também para os seguidores de Jesus, o seguinte: Aquele a quem eles seguem em meio a muitas humilhações e sofrimento é, de fato, o Filho do Homem, que está destinado a voltar na glória de seu Pai com os santos anjos.

C. A gloriosa transfiguração de Jesus serve como confirmação para as Palavras de Pedro, proferidas dias antes, quando disse —

Marcos 8:29

Então, lhes perguntou: Mas vós, quem dizeis que eu sou? Respondendo, Pedro lhe disse: Tu é o Cristo.

E também como confirmação para as Palavras do próprio Jesus quando falou acerca de seus sofrimentos e sua vindicação em:

Marcos 8:31

Então, começou ele a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem sofresse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e que, depois de três dias, ressuscitasse.

D. Mas, acima de tudo, a cena da transfiguração, como iremos demonstrar, se identifica mais com as teofanias — manifestações do próprio Deus — realizadas no monte Sinai ou Horebe, envolvendo Moisés e Elias, que, não por acaso, também estão presentes na transfiguração.

III. A Transfiguração Propriamente Dita — Marcos 9:2—3

A. A menção de seis dias depois é incomum e deve ser notada como tendo a intenção de chamar nossa atenção para um evento muito especial, como a Transfiguração não poderia deixar de ser. Os seis dias, provavelmente fazem referência a todos os ensinamentos descritos anteriormente, começando com a grande confissão de Pedro.

B. A transfiguração de Jesus diante de três de seus discípulos — Pedro, Tiago e João — é uma teofania que manifesta a vinda do Reino de Deus em poder. Os seis dias e a luminosidade mencionada, certamente, faz referência a algo semelhante acontecido no monte Sinai conforme —

Êxodo 24:16—17

16 E a glória do SENHOR pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; ao sétimo dia, do meio da nuvem chamou o SENHOR a Moisés.

17 O aspecto da glória do SENHOR era como um fogo consumidor no cimo do monte, aos olhos dos filhos de Israel.

C. A escolha de Pedro, Tiago e João como testemunhas da transfiguração reflete a relação especial que mantinham com o Senhor Jesus, conforme outras passagens do próprio Evangelho de Marcos parecem indicar: 5:37; 13:3; 14:33.

D. A expressão um alto monte nos remete às teofanias no Sinai ou Horebe, conforme Êxodo 24 e 1 Reis 19. Foi naquele monte, em ocasiões diferentes que Moisés e Elias receberam revelações vinda diretamente de Deus.

E. Dante dos olhos dos discípulos a aparência de Jesus foi alterada de forma perceptível, de modo que refletia o mundo transfigurado. Por um breve instante o véu da humanidade foi removido e Jesus pode ser visto como o verdadeiro ser de pura luz que é. Tal luminosidade é uma manifestação da glória que é pertinente ao próprio Deus, com exclusividade. Foi acerca dessa visão que João disse o seguinte:

João 1:14

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.

F. A Glória manifestada por Jesus representava uma antecipação da glória futura da eternidade. Naquele instante os discípulos tiveram um vislumbre do grande mistério representado pela vinda do Senhor. A vinda do Senhor Jesus será superior a todo e qualquer tipo de revelação anterior, superior, até mesmo, a grandiosa manifestação de Deus no monte Sinai.

IV. A Presença de Moisés e Elias — Marcos 9:4

A. A presença de Moisés e Elias é bastante apropriada. Os dois tiveram experiências marcantes com Deus no Sinai ou Horebe. E agora estão aqui para testemunhar a favor do caráter e da missão de Jesus.

B. Moisés foi figura fundamental no Êxodo e Jesus é o representante, por excelência do segundo Êxodo, da libertação do povo de Deus da escravidão ao pecado e ao diabo.

João 8:36

Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.

C. Elias ficou conhecido como o restaurador que conduziu o povo de Israel de volta para Deus e Jesus é o restaurador por excelência. Ele irá conduzir o povo de Deus nos caminhos do próprio Deus, pois Ele mesmo, Jesus, é o caminho que conduz ao Pai.

D. Desse modo, a presença de Moisés e Elias se reveste dum significado especialmente escatológico, já que Cristo é aquele que cumpre todas as promessas feitas no Antigo Testamento, conforme afirma o apóstolo Paulo em —

2 Coríntios 1:20

Porque quantas são as promessas de Deus, tantas têm nele o sim; porquanto também por ele é o amém para glória de Deus, por nosso intermédio.

V. A Impulsividade de Pedro — Marcos 9:5—6

A. O texto é bem claro. Toda aquela revelação em andamento, não era motivo de júbilo irracional da parte dos discípulos, mas de verdadeiro pavor. O texto de Marcos diz, literalmente, que eles estavam aterrados. Ou seja, eles estavam diante de algo que lhes provocava verdadeiro terror. Isso certamente se devia ao fato deles reconhecerem que a manifestação em glória do Messias e do Reino de Deus em poder, representava a chegada do justo juízo de Deus.

B. Os apóstolos não sabiam o que dizer. Todavia, Pedro foi capaz de reconhecer a presença de Elias e de Moisés e então, como era mesmo do seu feitio, se atreveu a fazer uma surpreendente proposta.

C. Apesar de estar com muito medo, Pedro ainda assim, entendia o valor daquela situação, pelo ângulo da consolação. Ele entendia que estava desfrutando na terra, de preciosos momentos da eternidade. Daí, sua intenção de tentar prolongar, o quanto possível, aqueles instantes.

D. As palavras de Pedro, todavia, refletem sua falha em entender que a transfiguração era apenas uma mera antecipação da glória futura e que essa glória futura estava reservada para todo o povo de Deus e não para algumas pessoas apenas.

E. Além do mais, a concretização da manifestação da glória futura, de forma absoluta, só seria possível por meio da consumação da obra salvadora e sacrificial de Cristo a favor do povo de Deus. A travessia custosa do deserto ainda não tinha terminado, mesmo com a gloriosa transfiguração do Senhor Jesus.

VI. A Nuvem de Glória e Voz Vinda do Céu — Marcos 9:7

A. A Nuvem mencionada nesse verso cumpre os dois seguintes propósitos:

1. Ela revela a glória de Deus de forma que possa ser percebida pelos olhos humanos.

2. Ela oculta a verdadeira manifestação da glória de Deus, de modo que os seres humanos não sejam destruídos.

B. A voz ouvida no meio da nuvem que os envolvia é a voz do próprio Deus que vem, mais uma vez, reafirmar Sua plena aprovação das ações de Seu Filho Unigênito, confirmando com isso, a dignidade transcendente do Filho, apesar dele ter assumido a forma de servo, conforme predito em Isaías 53 e confirmado depois pelo apóstolo Paulo em Filipenses 2:5–11.

C. Jesus é a única pessoa que desfruta da permanente e inquebrantável presença e aprovação de Deus, o Pai.

D. Por causa de Sua condição especial como Filho Unigênito do Pai e da comunhão e aprovação desfrutada por Jesus, os discípulos são exortados, pelo Pai, a ouvirem e obedecerem ao que Jesus falar.

E. Jesus é a própria Palavra de Deus — Ele é o Verbo de Deus — e, por isso, Sua revelação deve ser ouvida com toda atenção e empenho e colocada em prática.

F. O próprio Moisés profetizou acerca de Jesus dizendo:

Deuteronômio 18:15—18

15 O SENHOR, teu Deus, te suscitará um profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim; a ele ouvirás,

16 segundo tudo o que pediste ao SENHOR, teu Deus, em Horebe, quando reunido o povo: Não ouvirei mais a voz do SENHOR, meu Deus, nem mais verei este grande fogo, para que não morra.

17 Então, o SENHOR me disse: Falaram bem aquilo que disseram.

18 Suscitar-lhes-ei um profeta do meio de seus irmãos, semelhante a ti, em cuja boca porei as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar.

G. Jesus foi, nesse sentido, o derradeiro profeta enviado pelo Deus ETERNO.

VII. A Única Resposta Apropriada Diante de Toda Essa Revelação — Marcos 9:8

A. Do mesmo modo súbito como havia aparecido, assim também, de modo repentino, a nuvem, a voz, Moisés, Elias e todo o resplendor desapareceram e os discípulos se viram diante apenas da pessoa de Jesus, como o novo portador da grande revelação a ser manifestada por meio da cruz e da ressurreição.

B. Moisés e Elias eram exemplos dignos do Antigo Testamento, mas agora não tinham nada que eles pudessem fazer para ajudar a Jesus a terminar a travessia pelo deserto dessa vida. A obediência da cruz era uma responsabilidade que o Filho de Deus precisava cumprir sozinho, sem o auxílio de quem quer que fosse.

C. A transfiguração, todavia, trouxe uma revelação adicional: Jesus é o verdadeiro tabernáculo onde habita a glória divina. A revelação trazida por Jesus é superior a todas as outras manifestações anteriores.

D. Essas foram as verdades que confrontaram os discípulos quando se depararam, novamente, sozinhos com Jesus.

E. E essas mesmas verdades devem nos consolar e nos sustentar pelos próximos anos, enquanto comunidade local e Igreja do Senhor Jesus.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.




[1] Ridderbos, H. N. The Coming of The Kingdom. The Presbyterian and Reformed Publishing Company, Philadelphia, 1976.