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domingo, 26 de abril de 2015

EFÉSIOS - SERMÃO 015 – NOSSA PRECÁRIA CONDIÇÃO ANTES DA MANIFESTAÇÃO DE CRISTO - EFÉSIOS 2:11—12


 NÃO VOLTE A EDIFICAR O MURO QUE O PRÓPRIO JESUS DERRUBOU!

Esse esboço de sermão é parte da série "Exposição da Epístola aos Efésios" e é muito recomendável que o leitor procure conhecer todos os aspectos das verdades contidas nessa exposição, com aplicações para os nossos dias. No final do artigo você encontrará um link para outros estudos dessa série.

EXPOSIÇÃO DA EPÍSTOLA DE PAULO AOS EFÉSIOS


Introdução.

A. Em Efésios 2:1—10 Paulo descreveu a terrível condição da raça humana como um todo:

1. Mortos em seus delitos e pecados.

2. Escravos do curso deste mundo, do diabo e de suas próprias naturezas pecaminosas.

3. Sob o severo juízo de Deus, pois estão sob a ira de Deus.

B. Mas ele também descreveu a transformação que a raça humana pode experimentar pela graça de Deus:

1.Deus nos deu vida.

2.Deus nos ressuscitou.

3. Deus nos salvou exclusivamente pela Sua graça mediante a fé que Ele mesmo nos concede.

4. Deus nos fez assentar nas regiões celestiais juntamente com Cristo.

5. Enquanto estamos vivendo nesta vida devemos viver na prática de boas obras as quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas.

C. Visando dar um destaque maior ainda à salvação que Deus nos oferece gratuitamente em Cristo Paulo vai agora fazer uma comparação entre os judeus e os gentios mostrando como era:

NOSSA PRECÁRIA CONDIÇÃO ANTES DE CRISTO VIR AO MUNDO

Introdução.

A. Se existe uma palavra boa para descrever nossa precária condição antes de conhecer a Cristo, essa palavra é: alienados.

B. A expressão “alienado” foi cunhada pelo Filósofo alemão Ludwig Andreas Feuerbach no século XIX.

C. As ideias de Feuerbach deram asas à imaginação de Karl Heinrich Marx que popularizou o termo em seus escritos.

D. Para Feuerbach e Marx a expressão “alienado” tinha um significado duplo:

1. Em parte representava uma profunda insatisfação com a situação em que um indivíduo se encontra.

2. Por outro lado representava o sentimento de impotência diante da necessidade de mudar aquela mesma situação.

E, Mas, muito antes de Feuerbach e Marx, a Bíblia já falava acerca da alienação humana. O termo grego usado por Paulo é o verbo ἀπαλλοτριο­ω apallotrioo — que quer dizer: alienar-se, distanciar-se e ser excluído da companhia e da intimidade de alguém.

F. Paulo usa esta expressão duas vezes na Epístola de Efésios:

1. Em Efésios 2:12 onde a versão de Almeida Revista e Atualizada diz: “separados da comunidade de Israel”.

2. Em Efésios 4:18 onde a versão de Almeida Revista e Atualizada diz: “alheios à vida de Deus”.

G. Em Efésios 2:1—3, nós tivemos a oportunidade de perceber a terrível situação em que toda a raça humana, sem nenhuma exceção, se encontrava: completamente alienada de Deus.

H. Nesta segunda parte de Efésios 2, Paulo está falando da profunda alienação que existia entre os judeus e os gentios.

I. Entendendo os Termos: Judeus e Gentios.

A. Fato 1 — Deus criou somente uma raça humana, pois todos nós descendemos de um e mesmo primeiro casal: Adão e Eva.

B. Fato 2 — Após a queda e a degeneração da raça humana, Deus decidiu começar tudo novamente através de Noé, sua esposa, seus filhos e as esposas de seus filhos. Todos os seres humanos são, portanto, descendentes dos filhos de Noé.

C. Fato 3 — Todavia, nos Seus planos soberanos —

Isaías 45:9

Ai daquele que contende com o seu Criador! E não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso, dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? Ou: A tua obra não tem alça.

Deus decidiu escolher um homem, Abraão, para dele fazer uma nação através da qual viria o salvador, não somente daquela nação, mas de todas as nações —

Gênesis 12:1— 3

1 Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei;

2 de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção!

3 Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.

D. Fato 4 - A mesma promessa foi repetida a Jacó, que era neto de Abrão —

Gênesis 28:13—14

13 Perto dele estava o SENHOR e lhe disse: Eu sou o SENHOR, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque. A terra em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendência.

14 A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra.

E. O propósito de Deus era fazer de Israel uma luz para todas as nações. Era fazer com que Israel pudesse discipular as nações. Israel deveria ser um verdadeiro reino de sacerdotes —

Êxodo 19:6

Vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel.

F. Mas os judeus acabaram por mudar a eleição de Deus em um verdadeiro travesti, pois a transformaram em mero favoritismo que visava apenas distinguir os judeus das outras nações. Os judeus passaram a se referir aos outros povos como “gentios”, de forma discriminatória, durante o reinado de Acaz rei de Judá entre 735—715 a.C.

G. A expressão “gentios” traduz o hebraico גּוֹיִם goyim — que por sua vez procede da expressão singular גּוֹי goy — que é traduzida como nação — inclusive em Gênesis 12:1—
3 e Êxodo 19:6 — gentio, povo pagão ou prosélito.

H. Assim os judeus inventaram a aplicação deste termo גּוֹיִם goyim — como uma forma de discriminar aqueles que não eram judeus.

I. Da perspectiva dos judeus existem somente dois tipos de pessoas: os judeus que são “os queridinhos de Deus” e o resto a quem eles se referem, de forma pejorativa, como gentios.

J. O resultado direto desta dicotomia não demorou a se manifestar: os judeus passaram a desprezar os gentios a quem detestavam e a quem se referiam como pagãos e cães. A inimizade se tornou cada vez maior entre judeus e gentios.

II. Ergue-se o Muro da Separação.

A. De acordo com o professor William Barclay em seu comentário nas Epístolas aos Gálatas e aos Efésios:

“Os judeus nutriam um profundo desprezo pelos gentios. Os judeus diziam que os gentios haviam sido criados por Deus apenas para servirem como combustível para as chamas do inferno. Deus, diziam os judeus, ama exclusivamente os judeus entre todos os povos da terra. Não era sequer permitido auxiliar uma mulher gentia na sua hora do parto, porque o judeu que assim procedesse estaria ajudando a trazer mais um gentio para este mundo. Até o advento de Jesus os gentios eram profundamente desprezados pelos judeus. A barreira que existia entre eles era absoluta. Se um moço judeu casasse com uma moça não judia ou vice versa, a família da parte judaica encomendava um funeral para o filho ou a filha, pois tal união com um gentio(a) correspondia à própria morte para a família”.[1]    

B. Como podemos ver os relacionamentos entre judeus e gentios eram bastante tensos. Paulo chama, em Efésios 2:14, esta situação de “inimizade” e faz um paralelo entre esta situação com um muro que causa uma separação.

C. Mas o muro existia também de fato. Concreto! Era um testemunho permanente das hostilidades que existiam entre judeus e gentios.


Modelo do Templo de Herodes

D. O Templo construído por Herodes em Jerusalém era magnífico:

1. O Templo em si estava construído sobre uma plataforma elevada.

2. Em toda área ao redor do Templo, ainda sobre a plataforma elevada, encontrava-se o pátio dos sacerdotes.

3. Ao leste do pátio dos sacerdotes estava o pátio dos Israelitas que não eram sacerdotes.

4. Mais adiante, ainda no sentido leste, estava o pátio das mulheres israelitas.

5. Estes três pátios estavam todos no mesmo nível do Templo.

6. Deste nível mais elevado a pessoa precisava descer 5 degraus para atingir o próximo nível mais baixo. Este nível, por sua vez, era completamente circundado por uma parede.

7. Da parede para fora existia uma segunda escadaria de 14 degraus que circundava toda a plataforma elevada.

8. No pé desta segunda escadaria estava localizado o pátio dos gentios. Aqueles que não eram judeus podiam se aproximar até o início da escadaria de 14 degraus, sendo proibido ir mais adiante sob risco de pena de morte.

9. Ao redor do perímetro da escadaria havia sinais escritos em grego e latim dizendo o seguinte: “Nenhum estrangeiro poderá entrar para além do muro que circunda o Templo. Qualquer um que for pego transgredindo terá somente a si mesmo para se culpar pela sua execução”. 

E. O grande tema de Efésios 2 é exatamente o fato de que Jesus destruiu tanto nossa alienação de Deus como também destruiu nossa alienação do povo das promessas —

Efésios 2:14—16

14 Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos fez um; e, tendo derribado a parede da separação que estava no meio, a inimizade,

15 aboliu, na sua carne, a lei dos mandamentos na forma de ordenanças, para que dos dois criasse, em si mesmo, um novo homem, fazendo a paz,

16 e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade.

F. A obra de Cristo é absoluta em reverter tudo o que a queda de nossos primeiros pais e a cegueira dos judeus haviam criado. Note especialmente:

1. “outrora” — Efésios 2:11.

2. “naquele tempo” — Efésios 2:12.

3. “Mas agora” — Efésios 2:13.

4. “Assim” — Efésios 2:19.

III. Nossa condição como alienados – Efésios 2:11—12.

A. Paulo enumera uma lista razoável para descrever a condição dos gentios:

1. Em primeiro lugar ele menciona que os gentios eram chamados de incircuncisos por aqueles que haviam sido circuncidados apenas na carne. Mas os judeus haviam dado importância demasiada tanto à expressão circuncisão quanto ao ritual em si mesmo. A verdadeira circuncisão é aquela que acontece no coração e é feita por Deus e não por mãos humanas.

2. Ouçam as palavras de Deus através do profeta Jeremias:

Jeremias 9:25 – 26

Eis que vêm dias, diz o SENHOR, em que castigarei a todos os circuncidados juntamente com os incircuncisos: ao Egito, e a Judá, e a Edom, e aos filhos de Amom, e a Moabe, e a todos os que cortam os cabelos nas têmporas e habitam no deserto; porque todas as nações são incircuncisas, e toda a casa de Israel é incircuncisa de coração.

Ver o comentário acerca da verdadeira circuncisão no artigo que será publicado depois desse, por meio desse link aqui:

http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2015/04/a-verdadeira-circuncisao-e-o-verdadeiro.html

3. Por estes motivos nós sabemos que a circuncisão não significa absolutamente nada, nem tão pouco a incircuncisão. O que importa é ser nova criatura, nascida de Deus e com um coração circuncidado.

4. Em segundo lugar Paulo diz que “naquele tempo estáveis sem Cristo”. E este é o coração do problema. Quem não está em Cristo está sob a ira de Deus.

5. Em seguida Paulo diz que nós os gentios estávamos “separados da comunidade de Israel” e éramos “estranhos às alianças da promessa”. O fato de Israel ter transformado a eleição em favoritismo não muda aquilo que Deus fez através das Suas promessas —

Romanos 9:1—5

1 Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência:

2 tenho grande tristeza e incessante dor no coração;

3 porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne.

4 São israelitas. Pertence-lhes a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas;

5 deles são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém!

Estando separados de todos estes benefícios representava tremendo prejuízo a nós todos.

6. Para finalizar Paulo agrega mais duas condições verdadeiramente patéticas: “não tendo esperança” e “sem Deus no mundo”.

Conclusão:

A. No início de Efésios 2:12 Paulo diz “lembrai-vos”. Com isto ele está querendo nos forçar 
a lembrar nossa condição de outrora de tal maneira que possamos apreciar melhor nossa condição de agora.

2. Lembremo-nos sempre de que Jesus nos resgata da dupla alienação:

a. Da alienação que tínhamos para com o Deus verdadeiro, andando atrás das tolices inventadas pelos homens. Estávamos sem Deus e sem nenhuma esperança.

b. E da alienação que a cegueira dos judeus havia imposto sobre todos os que não eram judeus.

B. O mundo hoje está completamente divido:

a. Existe a divisão Norte — Sul que é na realidade um eufemismo para expressar a profunda divisão que existe entre os países ricos e os países pobres.

b. Existem profundas divisões raciais com as nações brancas pouco interessadas em salvar a África negra que está sendo devorada pela fome e pelas doenças. Os números são imorais demais para serem mencionados, mas fala-se em 100 milhões de crianças e adultos mortos nas últimas décadas.

c. Existem também enormes divisões causadas pelas religiões. Países como a Índia e o Paquistão estão armados até os dentes, com armas nucleares inclusive, e divididos por questões tanto religiosas quanto políticas.

D. Jesus veio para liquidar com todas as divisões, todas as separações e todo tipo de alienação. Jesus veio transformar você e eu em novas criaturas e com isto ele veio estabelecer uma nova sociedade e isto será o assunto da nossa próxima mensagem.

OUTRAS MENSAGENS DA SÉRIE NA EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

ALGUNS ASPECTOS DAS INSONDÁVEIS RIQUEZAS DE CRISTO COMO APRESENTADAS EM EFÉSIOS

EFÉSIOS 1:1—2 — SERMÃO 001 — INTRODUÇÃO À EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

EFÉSIOS 1:3—14 — SERMÃO 002 — TODA SORTE DE BÊNÇÃO ESPIRITUAL

EFÉSIOS 1:4—6 — SERMÃO 003 —A BÊNÇÃO DA NOSSA ELEIÇÃO POR DEUS

EFÉSIOS 1:7—8 — SERMÃO 004 —A BÊNÇÃO DA NOSSA REDENÇÃO

EFÉSIOS 1:9—10 — SERMÃO 005 —A BÊNÇÃO DA UNIFICAÇÃO DE TODAS AS COISAS EM CRISTO

EFÉSIOS 1:11—14 — SERMÃO 006 — A BÊNÇÃO DE DEUS EM PERSPECTIVA

EFÉSIOS 1:15—16— SERMÃO OO7 — A IMPORTÂNCIA DA FÉ E DO AMOR

EFÉSIOS 1:16—17 — SERMÃO OO8 — A IMPORTÂNCIA DO ESPÍRITO SANTO EM NOSSAS VIDAS

EFÉSIOS 1:18—21 — SERMÃO OO9 — A ESPERANÇA DO SEU CHAMAMENTO EM NOSSAS VIDAS

EFÉSIOS 1:18—21 — SERMÃO O10 — A RIQUEZA DA GLÓRIA DA SUA HERANÇA NOS SANTOS

EFÉSIOS 1:18—21 — SERMÃO O11 — A SUPREMA RIQUEZA DO SEU PODER

EFÉSIOS 1:22—23 — SERMÃO O12 — A IGREJA E CRISTO COMO PLENITUDE

EFÉSIOS 2:1—3 — SERMÃO O13 — A CONDIÇÃO DO SER HUMANO SEM DEUS

EFÉSIOS 2:4—10 — SERMÃO 014 — A CONDIÇÃO HUMANA  PELA GRAÇA DE DEUS

O QUE DEUS FEZ POR NÓS — SALVAÇÃO

PARA O QUE DEUS NOS SALVOU?

EFÉSIOS 2:11—12 — SERMÃO 015 — NOSSA PRECÁRIA CONDIÇÃO ANTES DE CRISTO VIR AO MUNDO

A VERDADEIRA CIRCUNCISÃO E O VERDADEIRO BATISMO

EFÉSIOS 2:13—18 — SERMÃO 016 — NOSSA NOVA CONDIÇÃO “EM CRISTO”

EFÉSIOS 2:19—22 — SERMÃO 017 — A IGREJA COMO CIDADÃOS, FAMÍLIA E TEMPLO

EFÉSIOS 3:1—7 — SERMÃO 018 — A REVELAÇÃO DO MISTÉRIO DE DEUS

EFÉSIOS 3:8—13 — SERMÃO 019 — PAULO COMO INSTRUMENTO DE DEUS

EFÉSIOS 3:1—13 — SERMÃO 020 — A RELEVÂNCIA DA IGREJA

EFÉSIOS 3:14—21 — SERMÃO 021 — A PATERNIDADE DE DEUS AO QUAL ORAMOS

EFÉSIOS 3:14—21 — SERMÃO 022 — A ORAÇÃO DE PAULO A FAVOR DOS EFÉSIOS

EFÉSIOS 3:14—21 — SERMÃO 023 — A GLÓRIA DEVIDA A DEUS

EFÉSIOS 4:1—3 — SERMÃO 024 — A UNIDADE DA IGREJA

EFÉSIOS 4:4—6 — SERMÃO 025 — A IGREJA É UNA PORQUE DEUS É UM

EFÉSIOS 4:7—10 — SERMÃO 026 — UNIDADE EM MEIO A DIVERSIDADE



EFÉSIOS 4:11 — SERMÃO 027 — OS DONS DE EDIFICAÇÃO DA IGREJA

Que Deus abençoe a todos

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos. 



[1] Hendriksen, William. Galatians and Ephesians. The Banner Of Truth Trust, Edinburgh, 1964.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

NÃO PENSO, LOGO RELINCHO

burro do Shrek
Burro do Shrek

A crônica abaixo foi escrita pelo jornalista Marcelo Pichonelli para a revista Carta Capital. A mesma reflete, em boa medida, a atitude mental que tem tomado conta de grande parte do povo que gosta de se chamar evangélico no Brasil. E é esse o principal motivo que nos leva a reproduzir a mesma a seguir:

Crônica / Matheus Pichonelli

Não penso, logo relincho

Um glossário com a lista dos principais clichês repetidos pelas redes sociais para justificar, no discurso, um mundo de violência e exclusão.

Dizem que uma mentira repetida à exaustão se transforma em verdade. Pura mentira. Uma mentira repetida à exaustão é só uma mentira, que descamba para o clichê, que descamba para o discurso. E o discurso, quando mal calibrado, é o terreno para legitimar ofensas, preconceitos, perseguições e exclusões ao longo da História. Nem sempre é resultado da má-fé. Por estranho que pareça, é na maioria das vezes fruto da indigência mental – uma indigência mental que assola as escolas, a imprensa, as tribunas, as mesas de bares, as redes sociais. Com os anos, a liberdade dos leitores para se manifestar sobre qualquer assunto e o exercício de moderação de comentários nos levam a reconhecer um clichê pelo cheiro. Listamos alguns deles abaixo com um apelo humanitário: ao replicar, você não está sendo original; está apenas repetindo uma fórmula pronta sem precisar pensar sobre tema algum. E um clichê repetido à exaustão, vale lembrar, não é debate. É apenas relincho*.

“Negros têm preconceitos contra eles mesmos”

Tentativa clássica de terceirizar o próprio racismo, é a frase mais falada das redes sociais durante o Dia da Consciência Negra. É propagada justamente por quem mais precisa colocar a mão na consciência em datas como esta: pessoas que nunca tomaram enquadro na rua nem foram preteridas em entrevistas de emprego sem motivos aparentes. O discurso é recorrente na boca de quem jamais se questionou por que a maioria da população brasileira não circula em ambientes frequentados pela elite financeira e intelectual do País, como universidades, centros culturais, restaurantes, shows e centros de compra. Tem a sua variação homofóbica aplicada durante a Parada Gay. O sujeito tende a imaginar que Dia Branco e Dia Hétero são equivalentes porque ignora os processos históricos de dominação e exclusão de seu próprio país.

“Não precisamos de consciência preta, parda ou branca. Precisamos de consciência humana”

Eis uma verdade fatiada que deixa algumas perguntas no contrapé: o manifestante a exigir direitos iguais não é gente? O que mais se busca, nessas datas, se não a consciência humana? Ou ela seria necessária, com ou sem feriado, caso a cor da pele (ou o gênero ou a sexualidade) não fosse, ainda hoje, fatores de exclusão e agressão?

“Héteros morrem mais do que homossexuais. Portanto, somos mais vulneráveis”

É o mesmo que medir o volume de um açude com uma régua escolar. Crimes como homicídio, latrocínio, roubo ou furto têm causas diversas: rouba-se ou mata-se por uma carteira, por ciúmes, por fome, por motivo fútil, por futebol, mas não necessariamente por causa da orientação sexual da vítima. O argumento é utilizado por quem nunca se perguntou por que ninguém acorda em um belo dia e decide estourar uma barra de ferro na cabeça de alguém só porque este alguém gosta e andar de mãos dadas com alguém do sexo oposto. O crime motivado por ódio contra heterossexuais é tão plausível quanto ser engolido por uma jaguatirica em plena Avenida Paulista.

“Estamos criando uma ditadura gay (ou racial) no Brasil. O que essas pessoas querem é privilégio”

Frase utilizada por quem jamais imaginou a seguinte cena: o sujeito acorda, vê na tevê sempre os mesmos apresentadores, sempre as mesmas pautas, sempre as mesmas gracinhas. No caminho do trabalho, ouve ofensas de pedestres, motoristas e para constantemente em uma mesma blitz que em tese serviria para todos. Mostra documento, RG. Ouve risada às suas costas. Precisa o tempo todo provar que trabalha e paga imposto (além, é claro, de trabalhar e pagar imposto). Chega ao trabalho e é recebido com deferência: “oi boneca”; “oi negão”; “veio sem camisa hoje?”. Quando joga futebol, vê a torcida imitando um macaco, jogando bananas ao campo, ou imitando gazelas. E engasga toda vez que vira as costas e se descobre alvo de algum comentário. Um dia diz: “apenas parem”. E ouve como resposta que ele tem preconceito contra a própria condição ou está em busca de privilégio. Resultado: precisamos de um novo glossário sobre privilégios.

“A mulher deve se dar o valor”

Repetida tanto por homens como por mulheres, é a confissão do recalque, em um caso, e da incompetência, no outro: o homem recorre ao mantra para terceirizar a culpa de não controlar seus próprios instintos; a mulher, por pura assimilação dos mandamentos do pai, do marido e dos irmãos. Nos dois casos o interlocutor acredita que, ao não se dar o valor, a menina assume por sua conta e risco toda e qualquer violência contra sua pretensão. Para se vestir como quer, andar como quer, dizer e fazer o que quer com quem bem quiser, ouvirá, na melhor das hipóteses, que não é a moça certa para casar; na pior, que foi ela quem provocou a agressão.

“Os homens também precisam ser protegidos da violência feminina”

Na Lua, é possível que a violência entre gêneros seja equivalente. Na Terra, ainda está para aparecer o homem que apanhou em casa porque foi chamado de gostoso na rua, levou mão na bunda, ouviu assobios ou ruídos com a língua sem pedir a opinião da mulher. Também não há relevância estatística para os homens que tiveram os corpos rasgados e invadidos por grupos de mulheres que dominam as delegacias do País e minimizam os crimes ao perguntar: “Quem mandou tirar a camisa?”.

“Se ela se deixou ser filmada, é porque quis se exibir”.

Verdade. Mas não leva em conta um detalhe: existe alguém do outro lado da tela, ou da câmera. Este alguém tem um colchão de conforto a seu favor. Se um dia o vídeo vazar, será carregado nos braços como comedor. Ela, enquanto isso, vai ser sempre a exibida. A puta. A idiota que deixou ser flagrada. A vergonha da família. A piada na escola. Parece uma relação bastante equilibrada, não?

“O humor politicamente correto é sacal”

É a mais pura verdade em um mundo no qual o politicamente incorreto serve para manter as posições originais: ricos rindo de pobres, paulistas ridicularizando nordestinos, brancos ricos fazendo troça de mulatos pobres, machões buscando graça na vulnerabilidade de gays e mulheres. As provocações são brincadeiras saudáveis à medida que a plateia não se identifica com elas: a graça de uma piada sobre português é proporcional à distância do primeiro português daquele salão. Via de regra, a frase é usada por quem jura se ofender quando chamado de girafa branca tanto quanto um negro ao ser chamado de macaco. Só não vale perguntar se o interlocutor já foi chamado de “elemento suspeito”, com tapas e humilhações, pelo simples fato de ser alto como o artiodátilo.

“Bolsa Família incentiva a vagabundagem. Pegar na enxada e trabalhar ninguém quer”

Há duas origens para a sentença. Uma advém da bronca – manifestada, ironicamente, por quem jamais pegou em enxada – por não se encontrar hoje em dia uma boa empregada doméstica pelo mesmo preço e a mesma facilidade. A outra origem é da turma do “pegar o jornal e ler além do horóscopo ninguém quer”; se quisesse, o autor da frase saberia que o Bolsa Empreiteiro (que também dispensa a enxada) consome muito mais o orçamento público do que programa de transferência de renda. Ou que a maioria dos beneficiários de Bolsa Família não só trabalha como é obrigada a vacinar os filhos, manter a regularidade na escola e atravessar as portas de saída do programa. Mas a ojeriza sobre números e fatos é a mesma que consagrou a enxada como símbolo do nojo ao trabalho.

“Na ditadura as coisas funcionavam”

Frase geralmente acolhida por pacientes com síndrome de Estocolmo. Entre 1964 e 1985, a economia nacional crescia para poucos, às custas de endividamento externo e da subserviência a Washington; universalização do ensino e da saúde era piada pronta, ninguém podia escolher os seus representantes, a imprensa não podia criticar os generais e a sensação de segurança e honestidade era construída à base da omissão porque ninguém investigava ninguém. Em todo caso, qualquer desvio identificado era prontamente ofuscado com receitas de bolo na primeira página (os bolos eram de fato melhores).

“Você defende direito de presos porque ele não agrediu ninguém da sua família”.

É o sofisma usado geralmente contra quem defende o uso das leis para que a lei seja garantida. Para o sujeito, aplicação de penas e encarceramentos são privilégios bancados às custas dele, o contribuinte. Em sua lógica, o Estado só seria efetivo se garantisse a sua segurança e instituísse a vingança como base constitucional. Assim, a eventual agressão contra um integrante de uma família seria compensada com a agressão a um integrante da família do acusado. O acúmulo de experiência, aperfeiçoamento de leis e instituições, para ele, são papo de intelectual: bons eram os tempos dos linchamentos, dos apedrejamentos públicos, da Lei de Talião. Falta perguntar se o defensor do fuzilamento está disposto a dar a cara a tapa, ou a tiro, quando o filho dirigir bêbado, atropelar, agredir e violentar a família de quem, como ele, defende penas mais duras para crimes inafiançáveis.

“A criminalidade só vai diminuir quando tiver pena de morte no Brasil”

Frase repetida por quem admira o modelo prisional e o corredor da morte dos EUA, o país mais rico do mundo e ao mesmo tempo o mais violento entre as nações desenvolvidas. Lá o crime pode não compensar (em algum lugar compensa?), mas está longe de ser varrido junto com seus meliantes.

“Político deveria ser tratado por médico cubano”

Tradução: “não gosto de política nem de cubano”. Pelo raciocínio, todo paciente tratado por cubanos VAI morrer e todo político que precisa de tratamento médico DEVE morrer. Para o autor da frase, bons eram os tempos em que, na falta de médico brasileiro, deixava-se o paciente morrer – ou quando as leis eram criadas não pelo Legislativo, mas pelo humor de quem governa na canetada.

“Deveriam fazer testes de medicamento em presidiários, não em animais”

Também conhecida como “não aprendemos nada com a parábola do filho Pródigo que tantas vezes rezamos na catequese”. É citada por quem não aceita tratamento desumano contra os bichos, mas não liga para o tratamento desumano contra humanos. É repetida também por quem se imagina livre de todo pecado e das grandes ironias da vida, como um certo fiscal da prefeitura de São Paulo que um certo dia criticou o direito ao indulto de presidiários e, no outro, estava preso acusado de participação na máfia do ISS. É como dizem: teste de laboratório na cela dos outros é refresco.

“Por que você não vai para Cuba?”

Também conhecida como “acabou meu estoque de argumentos. Estou andando na banguela”.

A reportagem original poderá ser vista por meio desse link aqui:


O autor gostaria também de dar uma pequena contribuição ao “Não Penso, Logo Relincho”. Trata-se de muitos — centenas — que me escrevem todos os dias para me dizer que minhas crítica são sinal de inveja? Inveja? Hum, vejamos:

1. Normalmente o objeto das minhas críticas estão voltadas para indivíduos tais como: Macedo, Duque, Santiago, Malafaia, Akiva, o deputado e dublê de pastor Feliciano, o pastor cheirador de Bíblia e outros curiosos personagens semelhantes a eles.

2. Não gostaria de me comparar, pessoalmente com nenhum deles, por que creio que as informações que disponibilizo no site são suficientes das diferenças fundamentais que existem entre eu e tais indivíduos. Portanto, não existe nenhuma inveja aí.

3. Agora, se querem falar do tamanho de igrejas ou para quantas pessoas esse ou aquele costuma pregar, quero dizer que já entendi, há muito tempo, que o importante não é o tamanho da congregação e sim a gloriosa presença de Jesus no meio dela. E digo mais, que minha alma está plenamente satisfeita com as palavras de Jesus e de Paulo:

Mateus 7:13—14

13 Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela),

14 porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.

Mateus 18:20  .

Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles.

Lucas 12:32.

Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino.

1 Coríntios 1:26—29

26 Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento;

27 pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes;

28 e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são;

29 a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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