segunda-feira, 9 de maio de 2016

OS EVANGÉLICOS E O FUTURO GOVERNO TEMER


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Culto na Câmara dos Deputados com a presença de Eduardo Cunha

O artigo abaixo foi publicado no site do DCM — Diário do Centro do Mundo — por seu editor adjunto, Kiko Nogueira. O artigo é da autoria do bispo da tradição episcopal Hermes Fernandes, que expôs a mentira e as falácias de Marco Feliciano acerca do continente africano.

O que esperar de um governo fruto de um golpe, sustentado por porta vozes de Deus?

Kiko Nogueira

Hermes Carvalho Fernandes é teólogo com doutorado em Ciências da Religião, presidente da REINA (Rede Internacional de Amigos) e bispo sagrado na tradição episcopal. Recentemente, ficou conhecido com um vídeo em que expõe a ignorância de Marco Feliciano sobre a África, ignorância admitida pelo próprio Marco Feliciano.

O vídeo poderá ser visto por meio desse link aqui:


Ele escreveu esse texto para o DCM, explicando a alegria da bancada evangélica com um eventual governo Temer.

É vergonhosa, para não dizer desconcertante, a maneira como os membros da chamada bancada evangélica têm se aproximado do protagonista de uma das mais escandalosas tentativas de golpe da história da república. Jornais noticiaram que Michel Temer abriu espaço em sua disputadíssima agenda para receber no Palácio do Jaburu alguns dos mais proeminentes líderes evangélicos para abençoá-lo como faziam os profetas aos reis no Antigo Testamento.

Dentre eles, o controverso pastor Silas Malafaia e o deputado e também pastor Marco Feliciano. Apesar de gozarem de uma ampla exposição por parte da mídia, ambos estão longe de serem unanimidades entre os evangélicos, não tanto por sua postura reacionária, que, diga-se de passagem, coincide com a da maioria dos evangélicos e católicos no país, mas, sobretudo, por sua conduta agressiva e antiética na comercialização da fé. Vale ressaltar que boa parte da bancada evangélica é formada por adeptos da famigerada teologia da prosperidade. O discurso moralista serve tão somente para angariar votos.

Sem embargo, a bancada evangélica representa o que há de mais retrógrado no cenário político atual. Seus componentes (com raríssimas exceções) foram eleitos para defender exclusivamente os interesses de suas respectivas agremiações religiosas. São bravos em lutar por concessões de rádio e TV, por privilégios para seus líderes, isenções tributárias para as igrejas e captação de verbas para realização de eventos. Entre estes, não há preocupação com os desassistidos, com as minorias, com a justiça social. Então, como poderiam captar votos sem oferecer ao povo alguma promessa concreta?

A resposta é relativamente simples. Descobriram na moralidade cristã a melhor artimanha para enredar os incautos e se elegerem sem muito esforço.  Elaboraram um discurso que coloca a família tradicional sob um ataque acirrado de quem supostamente pretende aniquilá-la. Quem seria o Golias da vez contra o qual o pequeno Davi teria que lutar? A ditadura gayzista! Soa cômico, não fosse trágico. Como alguém em sã consciência poderia dar ouvidos a um discurso tão raso e odioso!

A partir daí, começaram a criar factoides, mentiras deslavadas. Espalharam que havia um projeto de lei que obrigaria pastores a casarem homossexuais, e os que se negassem a fazê-lo sairiam algemados de seus cultos. Depois de derrubada a PL 122, trataram de procurar outro inimigo para continuar sua luta hercúlea pela moral e pelos bons costumes, e assim, garantir seu capital político. A bola da vez é o que eles apelidaram de “ideologia de gênero”, política engendrada no inferno e disseminada pelos comunistas do Partido das Trevas em conluio com o Foro de São Paulo. A partir daí, passaram a assustar aos fiéis afirmando que seus filhos seriam iniciados sexualmente nas escolas. Que o estado incentivaria a prática da pedofilia e a operação de mudança de sexo entre crianças. Que no afã de se instaurar um processo de engenharia social visando coibir o crescimento populacional, as escolas se transformariam em verdadeiras fábricas de homossexuais.

Risível, não? Mas preocupante. Muita gente simples que compõe a maior parte da comunidade evangélica no país comprou a ideia. Seguindo a cartilha de Joseph Goebbels, ministro de propaganda de Hitler, líderes obstinados pelo poder lançaram suas fichas na máxima de que uma mentira contada muitas vezes acabe se tornando verdade. Quão distantes se tornaram d’Aquele carpinteiro cuja voz ecoava pelas ruas da Galileia: Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará!

Seu Messias é Bolsonaro, seu profeta é Malafaia, seu mestre é Olavo de Carvalho e ainda por cima, considera Cunha um gênio. O que mais esperar do mais proeminente representante da bancada evangélica? Refiro-me a Marco Feliciano. Enquanto o Messias reacionário é preparado para 2018, Feliciano, Malafaia e cia. ungem Michel Temer como seu predecessor, uma espécie de João Batista.

O que podemos esperar de um governo fruto de uma conspiração golpista apoiado por gente que se apresenta como porta-voz de Deus, mas arrota enxofre?

Bem fez Napoleão Bonaparte ao se recusar ser coroado pelo Papa. Todavia, a história nos ensina que o poder sempre busca legitimação na religião. Napoleão sabia disso, e chegou a afirmar que a religião seria um ótimo tranquilizante para pessoas comuns. O livro de Apocalipse nos apresenta a figura de duas bestas, uma representando o poder político, e a outra o religioso, que numa relação incestuosa ameaça a civilização. A besta que representa o poder religioso se apresenta como tendo a aparência de cordeiro, mas cuja voz é de dragão (Apocalipse 13:11).

O mesmo Silas que hoje faz campanha ostensiva para derrubar um governo democraticamente eleito, não faz muito tempo, surpreendeu seus telespectadores ao agradecer à presidente Dilma pela sanção da Medida Provisória (MP) 668 que, não só ampliou a isenção tributária de igrejas, incluindo as comissões pagas a pastores como ajuda de custo, como também livrou muitas denominações de multas milionárias.
Silas Malafaia e o missionário R. R. Soares foram dois dos principais beneficiários da MP, graças à atuação de ninguém menos que Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Silas se livrou de uma multa de R$ 1,5 milhão, enquanto o presidente da Igreja Internacional da Graça se livrou de uma multa de R$ 220 milhões. Dentre os beneficiários, estariam Robson Rodovalho, bispo da Sara Nossa Terra e Mário de Oliveira, presidente da Igreja do Evangelho Quadrangular.

Se estivesse isolada, talvez a bancada evangélica não fizesse tanto estrago. Mas ao unir-se com as bancadas rural e armamentista, tornaram-se num poderoso bloco conhecido como BBB (boi, bala e bíblia) capaz de impor sua agenda à nação.

Como seguidor de Cristo, devo salientar que o Nazareno passa longe de tudo isso. Duvido muito que Ele compactue com qualquer tentativa de golpe, e muito menos com uma agenda comprometida com a manutenção do status quo. O Cristo que vejo emergir das páginas do Novo Testamento é afeito à causa do excluído, do marginalizado, do penalizado por políticas públicas cruéis, do condenado pelo moralismo cego e hipócrita. Da primeira vez que aqui esteve, Ele frustrou a expectativa de quem apostava de que Ele protagonizasse um golpe que destituísse Herodes, substituindo-o por um legítimo descendente de Davi.

Aos gritos de “Hosanas!”, a multidão que o recebeu à porta da cidade esperava que marchasse em direção ao palácio, porém, Seus planos eram outros. Em vez de ceder à pressão popular, a Sua decisão naquele dia era de que não teria golpe. Herodes podia respirar tranquilo. Quem tinha o que temer eram os mercadores do templo, os exploradores da fé. Munido de chicote, Jesus invadiu o recinto sagrado e os expulsou sem dó, nem piedade.

Engana-se quem pensa que o reino de Deus pregado por Jesus possa ser confundido com agendas políticas. “Meu reino não é deste mundo”, teria dito a Pilatos. Portanto, mantenhamos cada coisa em seu devido lugar. Que o Estado siga laico. E a religião assuma seu papel de inspirar os homens em sua luta pelo bom, belo e justo. Que os líderes religiosos se espelhem em Jesus. Que preguem o amor em vez de destilar o ódio. Que desistam de sua fome pelo poder. Que apontem menos o dedo e estendam mais as mãos. Que sejam pelos oprimidos, denunciando os poderosos e suas astúcias.

E quanto à sua aproximação dos que conspiram pela queda do atual governo, sugiro que leiam o Salmo de número 84, do verso 2 ao verso 4: “Até quando defendereis os injustos, e tomareis partido ao lado dos ímpios? Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Libertai o fraco e o necessitado; tirai-o das garras dos perversos.”

Hermes Fernandes

O artigo original poder ser visto por meio desse link aqui:


Que Deus tenha misericórdia do Brasil.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.,  

2 comentários:

  1. JOEL CARVALHO - DF10 de maio de 2016 05:44

    Irmão Alex,

    Concordo ipsis litteris com o que está escrito no texto sobre os lideres evangélicos citados. E ainda está dito pouco sobre a canalhice desses inescrupulosos senhores.

    Agora, dizer que esse processo promovido contra um governo que tornou a prática de crimes diversos, como a tônica para implementar seu projeto de poder de "golpe", aí é um despautério só.
    Despautério, mas não incompreensível. Pois, só acredita em "golpe", alguém que continua a apoiar um governo com o histórico de crimes já comprovados desde 2005 com o mensalão, e mais recentemente com o "petrolão", cujos efeitos nefastos já estão claros com a inequívoca destruição de um dos maiores orgulhos da nação brasileira, a PETROBRAS.
    Além do mais, os principais atores desse processo nominados de "golpistas" fizeram parte desse mesmo governo até poucos meses. Ficando claro que se trata de mera baldeação de governo, não obstante a comprovação de crimes que comprovam a licitude do processo de impeachment em curso.

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    1. JOEL CARVALHO - DF10 de maio de 2016 08:17

      Em tempo:
      Estou ciente de que o texto é de Hermes Carvalho Fernandes.

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