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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Gênesis Estudo 015 — Gênesis 2


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Este estudo é parte de uma Análise do Livro do Gênesis. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da História Primeva da Humanidade. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo 

O Livro do Gênesis
O Princípio de Todas as Coisas

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ 
            Eretz   ha  ve-et  Hashamaim  et      Elohim        Bará     Bereshit
            Terra   a      e        céus       os        Deus         criou   princípio No
Gênesis 1:1
VI. Gênesis 2.

O Capítulo 2 do livro do Gênesis — na verdade os versículos 4—25 — apresenta um retrato da criação que complementa aquele que vimos no capítulo 1. Naquele capítulo nós encontramos uma descrição bastante geral da criação dos céus e da terra e de tudo o que há no universo. No capítulo 2 nós vamos encontrar certos aspectos da criação desenvolvidos com mais vagar. Nele encontramos uma descrição da localização geográfica do Jardim do Éden onde dois rios, que existem até os dias de hoje, são mencionados — os rios Eufrates e Tigre — ver Gênesis 2:14.

Mesopotâmia

O segundo capítulo do livro do Gênesis começa — verso 4 — com a expressão hebraica תוֹלְדוֹת toledot — gênese dos céus e da terra. Esta expressão hebraica descreve realmente o início do curso da história dos céus e da terra. Em outras passagens esta expressão descreve a história de uma pessoa — ver Gênesis 5:1 e 6:9 como exemplos.


Macho e Fêmea

A criação do homem — macho e fêmea — é o clímax do capítulo 1, mas neste capítulo esta mesma criação ocupa o centro das atenções. O amor e cuidado de Deus para com suas criaturas especiais é manifesto na forma como Deus plantou o Jardim do Éden. Deus preparou todo o resto da criação para ser o habitat natural do homem. Foi o próprio fôlego de Deus que trouxe vida ao homem que havia sido moldado do pó da terra אדָמָה adamah — ver Gênesis 2:7. A expressão hebraica אָדָם adam — significa literalmente “vermelho” e, como pode ser facilmente constatado, a mesma é derivada da palavra terra. No sentido mais amplo a palavra אָדָם adam significa homem como criado por Deus — macho e fêmea. O relacionamento entre Deus e o primeiro homem — macho e fêmea — era de grande intimidade. Nossos primeiros pais estavam completamente cercados pelo amor de Deus. Nada havia, como já vimos que pudesse desviar suas mentes para o que não fosse puro, santo e elevado.

Ainda assim, até nessa ocasião a ordem divina é clara: “não comerás — verso 17”. Aqui podemos notar a sutil possibilidade de desobediência e quebra de relacionamento.

Em resumo, os dois primeiros capítulos do livro do Gênesis apresentam os personagens principais do drama da redenção que encontramos na Bíblia: Deus e o homem ou a humanidade representada no primeiro homem criado como macho e fêmea. Gênesis 1 e 2 servem, então, como uma verdadeira introdução ao relacionamento entre Deus e a humanidade. Eles também nos revelam muito do caráter de Deus e da natureza do universo. Os primeiros capítulos de Gênesis partem da premissa esposada pelo monoteísmo — vamos falar um pouco mais acerca disto em seguida — e da natureza soberana e onipotente de Deus. Outro fato que precisamos destacar aqui é que toda a criação feita por Deus recebeu Seu selo de aprovação e foi estampada como algo sendo טוֹב tob — bom. De fato a última avaliação de Deus acerca de tudo o que foi criado foi de que era tudo טוֹב מְאֹד tob meod — muito bom! — ver Gênesis 1:31. Estes dois primeiros capítulos da Bíblia acabam também por nos preparar para o que vai acontecer em seguida. O primeiro homem — Adão e Eva — não tinha pecado e seu caráter bem assim o seu corpo, não estava contaminado pelas manchas da doença e da morte. Ele estava completamente livre de toda e qualquer dor e sofrimento. Gozava também de livre e ilimitado acesso à maravilhosa presença de Deus. Mas tudo isto iria mudar em breve.

A. O Monoteísmo.

Quando a literatura cuneiforme, originária da mesopotâmia e a literatura hieroglífica, originária do Egito começaram a ser traduzidas as mesmas revelaram a existência de um enorme número de deuses e deusas, demônios e outros tipos de seres espirituais que pareciam estar em uma guerra permanente uns com os outros, e eram extremamente poderosos, destrutivos e malvados. Mas à medida que tabletes e mais tabletes, cada vez mais antigos foram sendo escavados, este quadro mudou completamente. O quadro que havia surgido no início e que indicava um politeísmo grosso e canhestro começou a ser substituído por outro que indicava uma corte celestial organizada em uma rígida hierarquia com um ser supremo reinando sobre tudo e todos! Um dos primeiros estudiosos dos escritos cuneiformes a reconhecer este fato foi o Professor Stephen Langdon[1] da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Quando o Dr. Langdon expôs suas idéias, em 1931, ele o fez com a profunda convicção de que muito poucos iriam acreditar nele. Ele diz:


É possível que eu falhe na convicção da minha conclusão de que tanto as religiões dos Sumérios quanto as dos semitas tiveram fases politeístas precedidas por fases monoteístas. A evidência e as razões para esta minha conclusão, tão contrárias à crença generalizada destes dias, foi cuidadosamente elaborada e apresentada exatamente em função do grande criticismo a mim dirigido. Mesmo assim, é minha esperança que minhas conclusões sejam fruto de verdadeiro conhecimento e não de algum tipo de percepção audaciosa.[2]

Como o professor Langdon assumia de que a Civilização Suméria representava a mais antiga civilização da história, ele escreve:

É minha opinião que a história da civilização mais antiga da humanidade, os Sumérios, sofreu um rápido declínio, saindo dum monoteísmo para um politeísmo extremado e uma crença em uma multiplicidade de espíritos malignos que se disseminou grandemente[3]”.

Cinco anos mais tarde, em 1936, em artigo publicado no jornal “The Scotsman”, o Dr. Langdon escreveu:

A história da religião dos Sumérios, que teve a mais poderosa influência entre todos os povos da antiguidade, pode ser reconstruída, através de inscrições pictográficas, praticamente aos primórdios dos conceitos religiosos desenvolvidos pelos seres humanos. A evidência aponta, de maneira inescapável, para um monoteísmo original. Da mesma maneira, todas as inscrições bem como toda a literatura antiga existente dos povos semíticos mais antigos, também apontam para um monoteísmo primitivo. Todas as interpretações de que a religião monoteísta dos semitas hebreus teria surgido de derivações politeístas encontra-se, atualmente, completamente desacreditada[4].” Isto em 1936.

Hoje, em pleno século 21, temos mais informações acerca destes fatos do que aquelas que estavam disponíveis ao professor Langdon. Sabemos, por exemplo, que nos tempos mais remotos, nos escritos mais antigos dos Sumérios, c. 3500 a.C, existia a crença em apenas duas divindades: o deus céu chamado de An e a deusa mãe chamada de Innina. Quinhentos anos mais tarde, c. 3000 a.C, já existia a crença em 3 divindades: o deus céu chamado de Enlil, a deusa terra chamada de Enki e o deus sol chamado de Babbar. Mil anos depois, c. 2500 a.C. as divindades já haviam evoluído para cerca de 750! Pouco antes dos Sumérios serem engolfados pelos Babilônios, c. 1850 a.C. as divindades adoradas já alcançavam o estonteante número de 5.000 — haja divindades! Desta maneira podemos notar que a premissa básica do Dr. Langdon, apesar de não estar 100% correta apontava, de maneira apropriada, na direção certa. Baseados nos registros disponíveis hoje começamos com duas divindades, c. 3500 a.C. e atingimos 5.000 divindades em c. 1850 a.C. Prova mais contundente da decadência humana não pode existir.

CONTINUA...

OUTROS ARTIGOS ACERCA DA INTRODUÇÃO AO ANTIGO TESTAMENTO

A. O Texto do Antigo Testamento

001 – O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO

002 – A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA

003 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 1 = Os Escribas e O Texto Massorético — TM

004 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 2 = O Texto Protomassorético e o Pentateuco Samaritano

005 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 3 = Os Manuscritos do Mar Morto e os Fragmentos da Guenizá do Cairo

006 - A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 4 = A Septuaginta ou LXX

007 - A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 5 = Os Targuns e Como Interpretar a Bíblia

B. A Geografia do Antigo Testamento

001 – INTRODUÇÃO E MESOPOTÂMIA

002 – O EGITO

003 – A SÍRIA—PALESTINA

C. A História do Antigo Testamento

001 — OS PATRIARCAS DA NAÇÃO DE ISRAEL

002 — NASCE A NAÇÃO DE ISRAEL

003 — A NAÇÃO DE ISRAEL: O REINO UNIDO

004 — O REINO DIVIDIDO E O CATIVEIRO BABILÔNICO

D. A Introdução ao Pentateuco

001 — O PENTATEUCO — PARTE 1 — O QUE É E DO QUE TRATA O PENTATEUCO

002 — O PENTATEUCO — PARTE 2 — OS TEMAS PRINCIPAIS DO PENTATEUCO — PARTE 1

003 — O PENTATEUCO — PARTE 2 — OS TEMAS PRINCIPAIS DO PENTATEUCO — PARTE 2

004 — O PENTATEUCO — PARTE 2 — QUEM ESCREVEU O PENTATEUCO — PARTE 1

005 — O PENTATEUCO — PARTE 3 — QUEM ESCREVEU O PENTATEUCO — PARTE 2

006 — O PENTATEUCO — PARTE 3 — QUEM ESCREVEU O PENTATEUCO — PARTE 3

OUTROS ARTIGOS ACERCA DO LIVRO DE GÊNESIS

001 — Introdução e Esboço

002 — Introdução ao Gênesis — Parte 2 — Teorias Acerca da Criação

003 — Introdução ao Gênesis — Parte 3 — A História Primeva e Sua Natureza

004 — Introdução ao Gênesis — Parte 4 — A Preparação para a Vida Na Terra

005 — Introdução ao Gênesis — Parte 5 — A Criação da Vida

006 — Introdução ao Gênesis — Parte 6 — O DEUS CRIADOR

007 — Introdução ao Gênesis — Parte 7 — OS NOMES DO DEUS CRIADOR, OS CÉUS E A TERRA

008 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 1 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 1

009 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 8A – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 2

010 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus - Parte 9 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Segundo e o Terceiro Dia

011 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 10 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quarto Dia

012 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 11 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quinto Dia

013 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 1

013A — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12A — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 2

014 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 13 — Teorias Evolutivas

015 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 14 — GÊNESIS 2A

016 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 15 — GÊNESIS 2B

017 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 16 — GÊNESIS 3A

018 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 17 — GÊNESIS 3B

019 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 18 — GÊNESIS 3C

020 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Livre Arbítrio — Parte 19

021 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Dois Adãos — Parte 20

022 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Era Pré-Patriarcal e a Mulher de Caim — Parte 21

023 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, O Primeiro Construtor de Uma Cidade — Parte 22

024 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Assassino e Fugitivo da Presença de Deus — Parte 23

025 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Primeiro Construtor de uma Cidade e Pseudo-Salvador da Humanidade — Parte 24

026 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Conclusão Acerca de Caim — Parte 25

027 — Estudo de Gênesis — Gênesis 5 — Sete e outros Patriarcas Antediluvianos — Parte 26

028 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Perversidade Humana, Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens— Parte 27A

029 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — OS Nefilim e os Guiborim — Os Gigantes e os Valentes — Parte 27B

030 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Maldade do Coração Humano— Parte 27C.

031 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Corrupção Humana Sobre a Face da Terra e Deus Pode se Arrepender? — Parte 27D.

032 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28A.

033 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28B.

034 — Estudo de Gênesis — Gênesis 7 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 29 — O Dilúvio Foi Global Ou Local?

035 — Estudo de Gênesis — Gênesis 8 — A promessa que Deus Fez a Noé e seus descendentes — Parte 30 — Nunca Mais Destruirei a Terra Pela Água

036 — Estudo de Gênesis —  O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 001

037 — Estudo de Gênesis — O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 002

038 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 001

039 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 002

040 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 003

041 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 004 — A NATUREZA DA ALIANÇA ENTRE DEUS E NOÉ

042 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 005 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 001

043 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 006 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 002 — OS NEGROS SÃO AMALDIÇOADOS?

044 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 007 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 003 — A CONTRIBUIÇÃO DOS FILHOS DE NOÉ PARA A HUMANIDADE

045 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 001 — OS DESCENDENTES DE JAFÉ
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/genesis-estudo-045-tabua-das-nacoes.html

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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[1] Não nos passou despercebido o fato do autor do romance “O Código DaVinci”, Dan Brown, chamar seu personagem principal de Robert Langdon, professor na universidade de Harvard. Isto certamente foi proposital e deve ter visado criar uma zombaria em cima do verdadeiro Langdon, o inglês, que foi ferrenho defensor da idéia de que o ser humano migrou de um monoteísmo original para um politeísmo tardio em completa oposição ao Langdon de Dan Brown, que propugna a adoração da “mãe natureza”, o que não passa de uma forma de panteísmo — doutrina segundo a qual só o mundo é real, sendo Deus a soma de tudo quanto existe.  
[2] Langdon, Stephen H. Semitic Mythology, Mythology of All Races, Volume V. Archeological Institute, Oxford, 1931.
[3] Idem.
[4] Langdon, Stephen H. The Scotsman. Edinburgh, November 18, 1936.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

GEOGRAFIA DO ANTIGO TESTAMENTO – PARTE 2 - O EGITO


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Este estudo é parte de uma breve introdução ao Antigo Testamento. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da Antiga Aliança. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo 

INTRODUÇÃO AO ANTIGO TESTAMENTO

Capítulo 2 – Onde Ocorreram os Eventos Narrados do A. T.?

2. O Egito.

Na região do Egito antigo não existiam cadeias de montanhas, mas a presença de desertos e de um rio, o rio Nilo[1], acabaram por reproduzir muitas das características geográficas que tornaram possível a civilização Mesopotâmica.

 
Foto de Satélite do Rio Nilo com seu magnificente delta.

Todavia existe uma diferença muito importante concernente ao desenvolvimento destas duas civilizações. Enquanto a Mesopotâmia encontramos um desenvolvimento lento e gradual desde a Idade da Pedra até o começo da história humana, o Egito parece ter, da noite para o dia, pulado do Período Neolítico — teve seu fim por volta do ano 4200 a.C. — para uma cultura urbana. Mas existem muitos historiadores que acreditam que tal desenvolvimento, mesmo súbito, pode ser atribuído a prováveis influências da Mesopotâmia no Vale do Nilo. Especula-se inclusive, que o desenvolvimento de hieróglifos - do latim hiroglyphicos que quer dizer escrita sagrada — pode ter sido influenciado pela escrita cuneiforme da Mesopotâmia.


Hieróglifos do Egito  


Heródoto

Heródoto de Halicarnassus, que é considerado o primeiro historiador da Antiguidade, descreveu o Egito de um modo muito apropriado dizendo que ele era “uma dádiva do Nilo”[2]. O Nilo é sem dúvida, a característica geográfica de maior relevância do Egito. Como tal ele teve um papel importante tanto na história quanto na perspectiva cultural do povo que habitou às suas generosas margens. No seu último trecho o rio Nilo se estende por 960 kilometros no deserto do norte da África até ao Mar Mediterrâneo. Desta maneira o rio proporciona um grande contraste entre os campos férteis às suas margens e os desertos que existe de ambos os lados[3]. O contraste causado pelas margens negras do rio Nilo emolduradas pelas areias vermelhas e escaldantes dos desertos eram uma permanente lembrança do contraste que existia entre a vida abundante em energia provida pelo rio Nilo, e a morte representada pela esterilidade das areias dos desertos. Os egípcios chamavam o solo rico do vale do Nilo de “terra preta” e os areias do deserto mais adiante de “terra vermelha”[4]. Estas expressões denotavam a grande consideração que os egípcios nutriam pelas águas do Nilo e o temor pavoroso que nutriam pelos desertos.


Trecho do rio Nilo e das terras ao seu redor

A vasta maioria da população do Egito antigo vivia nas terras férteis do vale do rio, que se estendiam por não mais do que quinze kilometros da margem do rio. O rio Nilo não possui afluentes e o tempo absolutamente seco dos desertos impedem a formação de nuvens de chuva sobre o Egito. Assim, não chove sobre todo o país, com uma única exceção que é a costa às margens do mar Mediterrâneo. Desde os primeiros registros escritos nós podemos observar que os egípcios sabiam o quanto dependiam do rio Nilo para manter a fertilidade da chamada “terra preta” da qual dependia a subsistência da nação. Os egípcios acreditavam que o seu rei—deus — o faraó — era o verdadeiro responsável pelas cheias anuais do Nilo. Esta cheia anual era de importância vital para a prosperidade no Egito, pois as águas traziam camadas ricas em sedimentos que renovavam o solo, tornando a “terra preta” do Egito em um dos solos mais férteis do mundo. Mas os egípcios não entendiam que a estação das chuvas intensas no hemisfério sul era a verdadeira causa responsável pelas inundações que, de forma previsível, aconteciam todo mês de junho, e que alcançavam seu auge em setembro. A partir daí um decréscimo constante era notado até que as águas voltassem ao seu nível normal no mês de novembro.

O rio Nilo é como o nosso rio São Francisco com respeito à direção com que se desloca. Como o nosso “velho Chico”, o rio Nilo corre do sul para o norte. Este fato somente é suficiente para causar fortes contrastes entre o norte e o sul do Egito antigo. O sul que era chamado de Alto Egito tinha como sua principal distinção o comprimento do Nilo. Já o norte, chamado de Baixo Egito, era distinguido pelo delta criado e através do qual o Nilo se abre e desemborca no Mar Mediterrâneo. Esse contraste resultou em diferenças significativas de linguagem, de cultura e da maneira de ver a vida. O Alto Egito era provinciano e conservador e dependia da criação de gado e das plantações às margens do Nilo. O Baixo Egito, por sua vez, interessava-se pelo comércio devido ao seu acesso aos portos da Europa e Ásia. Por este motivo o Baixo Egito era constituído por pessoas que possuíam uma compreensão do mundo que era, de forma predominante, internacional e cosmopolita. Unir estes dois grupos tão distintos foi a primeira grande tarefa dos faraós. Não é à toa que os primeiro faraós a estabelecerem um firme controle sobre os dois reinos – do norte e do sul — se preocuparam em fundar e manter a cidade de Mênfis. Esta cidade tinha uma localização estratégica, a meio caminho, por assim dizer, entre os dois reinos e se localizava próxima de onde se inicia o delta do rio Nilo, ou seja, mais ou menos onde o Alto Egito terminava e onde começava o Baixo Egito. A cidade de Mênfis teve papel primordial na unificação do Egito.

Mênfis - A capital do Antigo Impérios

Por estar cercado por deserto ao leste e ao oeste e por contar com a proteção do mar Mediterrâneo ao norte o Egito, ao contrário da Mesopotâmia, gozava de certa reclusão do mundo exterior. O mar e os desertos serviam como barreiras geográficas. Isto representou para o Egito certos privilégios não desfrutados pelos mesopotâmicos. Ameaças ocasionais, todavia, surgiam aqui e ali. A Líbia ao oeste era um incômodo bem como algumas invasões procedentes do mar Mediterrâneo. Mas a preocupação mais comum quanto à segurança dos egípcios eram os invasores da Ásia, do outro lado da extensão de água que hoje chamamos de Canal de Suez. Com raras exceções, entretanto, os egípcios foram capazes de conter tais ameaças simplesmente com ações políticas. Comparado à Mesopotâmia, o Egito estava relativamente livre de invasões. Como resultado não encontrou um grande número de infiltrações étnicas e culturais como as que pontilharam a história da Mesopotâmia.

Norte da África


Canal de Suez

O Egito não experimentou as dramáticas mudanças de poder registradas pela Mesopotâmia. O que observamos na história do Egito é a ascensão e queda das dinastias naturais do próprio país. Algumas dessas dinastias viram o Egito desenvolver grandes impérios de relevância internacional para toda a história do antigo Oriente Próximo. Os períodos de força imperial egípcia podem ser divididos da seguinte maneira:

  • Antigo Império - dinastias 3 a 6 - que se estende de 2700 até 2200 a.C.


  • Médio Império - dinastias 11 a 13 - que se estende de 2000 até 1700 a.C.


  • Novo Império - dinastias 18 a 20 - que se estende de 1550 até 1100 a.C.

É bastante possível que o Egito do tempo dos patriarcas estivesse, provavelmente, no período do Médio Império. Por sua vez o Egito em que Moises viveu e do Êxodo, deve ter sido aquele representado pelo Novo Império. Quando Davi consolidou a monarquia em Israel, o Egito já havia perdido sua posição de superpotência internacional, apesar de continuar a ser de grande influência cultural.

Outros artigos acerca da Introdução ao Antigo Testamento:

A. O Texto do Antigo Testamento
001 – O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO

002 – A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA

003 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 1 = Os Escribas e O Texto Massorético — TM

004 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 2 = O Texto Protomassorético e o Pentateuco Samaritano

005 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 3 = Os Manuscritos do Mar Morto e os Fragmentos da Guenizá do Cairo

006 - A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 4 = A Septuaginta ou LXX

007 - A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 5 = Os Targuns e Como Interpretar a Bíblia

B. A Geografia do Antigo Testamento

001 – INTRODUÇÃO E MESOPOTÂMIA

Que Deus Abençoe a Todos.

Alexandros Meimaridis

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O material contido nesses estudos foi, em parte, adaptado e editado das seguintes obras, que o autor recomenda para todos os interessados em aprofundar os conhecimentos acerca do Antigo Testamento:
 
Bibliografia

Aharoni, Yahanan; Avi-Yonah, Michael; Rainey, Anson F. e Safrai, Ze’ev. Atlas Bíblico. Casa Publicadora das Assembléias de Deus – CPAD, Rio de Janeiro, 1998,

Arnold, Bill T. e Beyer, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2001.

Durant, Will. The History of Civilization Volume 1 – Our Oriental Herritage. Simon and Schuster, New York, 1963.

Heródoto de Halicarnassus. The Histories. Penguin Books Ldt, Middlisex, reprinted, 1986.

Hallo, William W. e Simpson, William Kelly. The Ancient Near East: A History. Nova York, Harcourt Brace Jovanovich, 1971.

King, Philip J. American Archaeology in the Mideast: A History of the American Schools of Oriental Research. ASOR, Philadelphia, 1983.

Millard, Alan; Stanley, Brian e Wrigth, David. Atlas Vida Nova da Bíblia e História do Cristianismo. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo, reimpressão, 1998.

Schoville, Keith N. Biblical Arcaheology in Focus. Baker Book House, Grand Rapids, 1978.

Wilson, John A. The Culture of Ancient Egypt. Chicago University Press, Chicago, 1951.

__________Britannica Atlas. Encyclopaedia Britannica Inc., Chicago, 1996.


Enciclopédias

__________The New Encyclopaedia Brtannica. Encyclopaedia Britannica Inc., Chicago, 15th Edition, 1995.


[1] O Rio Nilo – Bahr An-nil ou Nahr An-nil – é o mais extenso rio da África — 6650 km — e corre do sul para o norte. O rio se inicia no lago Vitória no Quênia e tem seu estuário no mar Mediterrâneo através de um magnificente delta. Sua bacia ocupa incríveis 3.349.000 Km2. O Nilo deságua cerca de 3100 metros cúbicos de água por segundo no mar Mediterrâneo. 

[2] Heródoto de Halicarnassus. The Histories. Penguin Books Ldt, Middlisex, (reprinted), 1986.

[3] Os desertos são: a oeste o AS-SARAH AL GHARBIYAH – Deserto do Saara – e no leste AS-SARAH ASH SHARQUIYAH – Deserto da Arábia.

[4] Hallo, William W. e Simpson, William Kelly. The Ancient Near East: A History. Nova York, Harcourt Brace Jovanovich, 1971.