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domingo, 2 de agosto de 2015

UM ESTUDO SOBRE O PECADO — PARTE 014 — PECADO PARA A MORTE — PARTE B — INTERPRETAÇÕES CENTRADAS NOS DIFERENTES TIPOS DE PENAS E CASTIGOS PARA O PECADO IMPERDOÁVEL


Essa é uma série cujo propósito é estudar, com profundidade, os ensinamentos da Bíblia acerca do pecado, com uma ênfase especial na questão do chamado “pecado para a morte”. Os demais estudos dessa série poderão ser acessados por meio dos links alistados no final desse estudo.  

14B. Pecado Para a Morte — PARTE B

1 – Interpretações Centradas em Diferentes Tipos de Penas ou Castigos.

Este grupo concentra todas as interpretações que enfatizam a presença ou ausência da pena de morte ou da morte em si como uma consequência inevitável do pecado cometido. O “pecado para a morte” pode levar à morte natural do indivíduo seja ela imposta pela comunidade ou por visitação divina. Em

Números 18:22

E nunca mais os filhos de Israel se chegarão à tenda da congregação, para que não levem sobre si o pecado e morram. 

Deus proíbe que os Israelitas se aproximem da tenda da congregação para que não cometam um pecado “para a morte” ou pecado que conduziria à morte do transgressor.

Deuteronômio 22:25—26

25 Porém, se algum homem no campo achar moça desposada, e a forçar, e se deitar com ela, então, morrerá só o homem que se deitou com ela;

26 à moça não farás nada; ela não tem culpa de morte, porque, como o homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida, assim também é este caso.

faz uma distinção entre o estuprador e sua vítima. Ele deveria ser morto, mas ela “não tem culpa de morte”. 

Dentre as pessoas que defendem as interpretações centradas em diferentes tipos de pecados, existe um grupo de estudiosos que entendem a idéia do pecado para morte referida por João, como sendo o pecado descrito em

Levítico 20:11

O homem que se deitar com a mulher de seu pai terá descoberto a nudez de seu pai; ambos serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles.

Nesse versículo Deus condena o homem que se deitar com a mulher de seu pai à morte. Tanto o homem como a mulher deveriam pagar com a própria vida por essa transgressão. Se a mulher descrita neste versículo é a mãe do homem em questão, ou outra mulher, isto é, sua madrasta; ou se esse fato aconteceu estando seu pai ainda vivo ou depois que o pai já havia morrido; ou se após a morte do pai, estando a mulher noiva ou novamente casada, pouco importa. De acordo com a tradição judaica esse ato, fosse qual fosse a condição da mulher, constituía-se em uma evidente violação da lei de Deus conforme o que estava estabelecido em —

Levítico 18:18

Não descobrirás a nudez da mulher de teu pai; é nudez de teu pai.

Todavia devemos sempre enfatizar que tradições judaicas não são norma para nada que diga respeito aos cristãos. 

Essa interpretação como vista acima está amparada por duas situações que podemos caracterizar como interessantes, porém não normativas. A primeira é uma citação que encontramos no assim chamado “Livro dos Jubileus”. Esse livro foi escrito por um fariseu durante o pontificado de João Hircano como sumo sacerdote, entre os anos de 135 a.C. e 105 a.C. O livro pertence a uma coleção de escritos conhecidos como “pseudoeipigráficos” — escrito que contém título falso, ou nome falso de autor. O livro pertence a essa coleção porque o autor atribui a autoria a Deus mesmo como parte da revelação que Deus deu a Moisés no Sinai. Nesse livro existe uma passagem que elabora de forma significativa sobre aquilo que lemos em Levítico 20:11. O texto diz:

E novamente está escrito: Maldito seja aquele que se deitar com a mulher de seu pai porque ele terá descoberto a nudez de seu pai; e todos os santos do Senhor disseram ‘que assim seja, que assim seja’. E você Moisés, ordene aos filhos de Israel que obedeçam a estas palavras, pois as mesmas permitem a pena capital; este ato é impuro e não existe substituto — morte no lugar de — para substituir aquele que cometeu tal pecado, mas o mesmo deve ser morto por apedrejamento e desarraigado do meio do povo do nosso Deus.

É óbvio que nosso autor fariseu tirou de seu legalismo exagerado, conclusões precipitadas quando afirma que não existe substituto para esse pecado. Sabemos que esse pecado não é o pecado imperdoável mencionado por Jesus, mas ele ainda pode ser nosso pecado para a morte. O Novo Testamento tem um exemplo de uma situação exatamente como a mencionada em Levítico 18:8. Vamos ver como o apóstolo Paulo e a igreja em Corinto resolveram esta questão. Paulo escreve:

1 Coríntios 5:1 – 13

Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou? Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus. Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade. Já em carta vos escrevi que não vos associásseis com os impuros; refiro-me, com isto, não propriamente aos impuros deste mundo, ou aos avarentos, ou roubadores, ou idólatras; pois, neste caso, teríeis de sair do mundo. Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora, porém, Deus os julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor.


A igreja em Corinto, incentivada e admoestada pelo apóstolo Paulo tomou certas providências, não sabemos exatamente quais, que levaram esse homem a se arrepender de seu pecado e, na sua segunda epístola aos Coríntios, Paulo os exorta a que recebam de volta o homem arrependido. Paulo escreve:

2 Coríntios 2:5—11

Ora, se alguém causou tristeza, não o fez apenas a mim, mas, para que eu não seja demasiadamente áspero, digo que em parte a todos vós; basta-lhe a punição pela maioria. De modo que deveis, pelo contrário, perdoar-lhe e confortá-lo, para que não seja o mesmo consumido por excessiva tristeza. Pelo que vos rogo que confirmeis para com ele o vosso amor. E foi por isso também que vos escrevi, para ter prova de que, em tudo, sois obedientes. A quem perdoais alguma coisa, também eu perdôo; porque, de fato, o que tenho perdoado (se alguma coisa tenho perdoado), por causa de vós o fiz na presença de Cristo; para que Satanás não alcance vantagem sobre nós, pois não lhe ignoramos os desígnios. 

Como podemos ver que, em um primeiro instante parecia não haver saída para o homem transgressor a não ser ter seu corpo físico destruído — morto — de tal maneira que sua alma pudesse ainda ser salva. É evidente que da perspectiva de Paulo esse era um pecado que conduziria o transgressor à morte. Por outro lado nós vemos que existe perdão para esse pecado, quando o pecador é confrontado e se arrepende. Nesse caso o mesmo deve ser acolhido, amparado e fortalecido pela igreja. 

Agora vamos assumir, por um momento, que o pecado para a morte fosse o ato de um homem deitar com a mulher de seu pai em quaisquer condições, estaria João pensando nas palavras de Paulo quando disse “mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro” ao recomendar que não se fizessem orações a favor de tal pessoa, pois ela havia cometido um pecado que, certamente, conduziria à morte do corpo físico. É possível, mas muito pouco provável! 

Ainda na sua primeira epístola à igreja em Corinto, Paulo menciona o fato de que a participação na assim chamada ceia do Senhor — ver 1 Coríntios 11:20 — de modo indigno, é a responsável pelo fato de muitos cristãos estarem já dormindo, que é um eufemismo para a morte —

1 Coríntios 11:27—30

27 Por isso, aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor, indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor.

28 Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e, assim, coma do pão, e beba do cálice;

29 pois quem come e bebe sem discernir o corpo, come e bebe juízo para si.

30 Eis a razão por que há entre vós muitos fracos e doentes e não poucos que dormem. 

Assim temos que participar de modo indigno da ceia do Senhor era também um pecado que conduzia à morte física. Estaria esse ato no pensamento de João quando ele usou a expressão “há pecado para morte”? 

Temos ainda no Novo Testamento o caso de Ananias e Safira que perderam a vida por mentirem ao Espírito Santo ou em outras palavras, por haverem pretendido fazer o que não estavam fazendo de fato —

Atos 5:1—11

1 Entretanto, certo homem, chamado Ananias, com sua mulher Safira, vendeu uma propriedade,

2 mas, em acordo com sua mulher, reteve parte do preço e, levando o restante, depositou-o aos pés dos apóstolos.

3 Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo?

4 Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus.

5 Ouvindo estas palavras, Ananias caiu e expirou, sobrevindo grande temor a todos os ouvintes.

6 Levantando-se os moços, cobriram-lhe o corpo e, levando-o, o sepultaram.

7 Quase três horas depois, entrou a mulher de Ananias, não sabendo o que ocorrera.

8 Então, Pedro, dirigindo-se a ela, perguntou-lhe: Dize-me, vendestes por tanto aquela terra? Ela respondeu: Sim, por tanto.

9 Tornou-lhe Pedro: Por que entrastes em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram o teu marido, e eles também te levarão. 

10 No mesmo instante, caiu ela aos pés de Pedro e expirou. Entrando os moços, acharam-na morta e, levando-a, sepultaram-na junto do
marido.

11 E sobreveio grande temor a toda a igreja e a todos quantos ouviram a notícia destes acontecimentos. 

Seria a pretensão ou o mentir ao Espírito Santo ao que João estava se referindo quando mencionou o “pecado para a morte”? 

Todas as passagens que vimos tratam de forma específica de morte física. Mas precisamos definir se João estaria se referindo à morte física ou morte espiritual? Deixemos que o apóstolo mesmo nos ajude. O próprio João usou a expressão “para morte” em João 11:4 para se referir de modo preciso à morte física:

Ao receber a notícia, disse Jesus: Esta enfermidade não é para morte, e sim para a glória de Deus, a fim de que o Filho de Deus seja por ela glorificado.

Se João estava se referindo à morte física na sua primeira epístola, então o que ele estaria querendo dizer seria uma palavra desencorajando a oração por qualquer pecado que conduza o pecador à morte física — seja ele o deitar com a mulher de seu pai, o participar indignamente da ceia do Senhor, ou mentir ao Espírito Santo ou pretender ser aquilo que não se é. Temos que nos lembrar que Jesus mesmo prometeu que:

João 8:51

Em verdade, em verdade vos digo: se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte, eternamente.

João 11:26

Todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente. 

E não podemos nos esquecer que João diz literalmente que:

Se alguém vir a seu irmão cometer pecado não para a morte.

Todos estamos sujeitos à morte física, mais cedo ou mais tarde. Isto é válido tanto para os santos — os crentes — bem como para os ímpios — os pecadores. Mas como vimos, os santos não morrerão eternamente, os ímpios sim, irão morrer eternamente.

Assim, temos que entender que a primeira parte de 1 João 5:16 está tratando de crentes genuínos que podem ser alcançados pela oração de outro crente, enquanto o mesmo não é verdade para aqueles que cometem o “pecado para a morte”.

CONTINUA

OUTROS ESTUDOS SOBRE O PECADO

O PECADO — ESTUDO —001 — TERMOS GREGOS E HEBRAICOS E PALAVRAS INTRODUTÓRIAS

O PECADO — ESTUDO —002 — A QUEDA — UMA INTERPRETAÇÃO DE GÊNESIS 3 — PARTE 1

O PECADO — ESTUDO —003 — A QUEDA — UMA INTERPRETAÇÃO DE GÊNESIS 3 — PARTE 2

O PECADO — ESTUDO —004 — A QUEDA PROPRIAMENTE DITA — UMA INTERPRETAÇÃO DE GÊNESIS 3 — PARTE 3 — FINAL

O PECADO — ESTUDO 005 — A VERDADEIRA LIBERDADE

O PECADO — ESTUDO 006 — PECADO E LIVRE ARBÍTRIO

O PECADO — ESTUDO 007 — A BÍBLIA E O PELAGIANISMO

O PECADO — ESTUDO 008 — O PECADO E A SOBERANIA DE DEUS

O PECADO — ESTUDO 009 — HISTÓRIA E QUEDA

O PECADO — ESTUDOS 010 E 011 — O PECADO ORGINAL E A DEPRAVAÇÃO TOTAL

O PECADO — ESTUDOS 012 — PECADO E A GRAÇA DE DEUS

O PECADO — ESTUDOS 013ª — PECADO E  O CASTIGO PARTE A

O PECADO — ESTUDOS 013B — PECADO E O CASTIGO PARTE B — JESUS NO GETSÊMANI — PARTE 001

O PECADO — ESTUDOS 013C — PECADO E O CASTIGO PARTE C — JESUS NO GETSÊMANI — PARTE 002

O PECADO — ESTUDOS 013D — PECADO E O CASTIGO PARTE D — JESUS NO GETSÊMANI — PARTE 003

O PECADO — ESTUDOS 013E — PECADO E O CASTIGO PARTE E — JESUS NO GETSÊMANI — PARTE 004

O PECADO — ESTUDOS 013F — PECADO E O CASTIGO PARTE F — JESUS NO GETSÊMANI — PARTE 005

O PECADO — ESTUDOS 014A — O PECADO PARA A MORTE — PARTE A — INTRODUÇÃO — QUESTÕES HERMENÊUTICAS

O PECADO — ESTUDOS 014B — O PECADO PARA A MORTE — PARTE B —DIFERENTES TIPOS DE PENAS E CASTIGOS PARA O PECADO IMPERDOÁVEL

O PECADO — ESTUDOS 014C — O PECADO PARA A MORTE — PARTE C —DIFERENTES TIPOS DE PESSOAS QUE PODEM COMETER O  PECADO IMPERDOÁVEL
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2015/08/um-estudo-sobre-o-pecado-parte-014_13.html

Grande Abraço e que Deus possa abençoar a todos.

Alexandros Meimaridis

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quarta-feira, 3 de julho de 2013

ENCONTROS DE PODER - 010 - DEMÔNIO — δαιμονίον — daimoníon, etc.



Atenção esse artigo é parte de uma série onde pretendemos tratar dos alegados encontros de poder e de curas maravilhosas que nos são apresentadas todos os dias pelos pastores midiáticos. No final de cada estudo você encontrará links para outros estudos.

II. OS PODERES — PARTE 9

δαιμονίον daimoníon — demônio.

πνεῦμα τὸ πονηρὸν pneûma tò poniròn — espírito maligno.

ἀγγέλους τε τοὺς μὴ τηρήσαντας τὴν ἑαυτῶν ἀρχὴνangélous te toùs me terèsantas tèn eautôn archèn — anjos, os que não guardaram o seu estado original ou anjos caídos.

G. W. Leibniz (1646-1716) criador do conceito filosófico da Teodiceia

O problema da teodiceia[1] tornou-se uma gigantesca obsessão entre os judeus, começando nos dias do exílio babilônico e se estendendo até os dias de hoje. Para os judeus, as desgraças que caíram sobre seu povo são grandes demais para serem atribuídas apenas ao pecado. Adão e Eva não podem suportar a responsabilidade do peso por todas as tragédias humanas. Dessa maneira, os rabinos judaicos passaram a mencionar a narrativa antiga da queda dos chamados “filhos de Deus” de Gênesis 6:1—4 para tentar explicar a existência do mal que não emana apenas da própria humanidade, mas também de outros elementos mais elevados. Para eles, esses elementos não são divinos, mas são transcendentes e sobre-humanos, os quais persistem através dos séculos como opositores de Deus e da fidelidade humana e que buscam nossa destruição e perdição, doença e morte. A queda, a ofensa e o julgamento dos anjos caídos é uma das maiores preocupações da literatura produzida pelo judaísmo no período entre os dois testamentos e a mais duradora contribuição feita para o conceito da Teodiceia. Os rabinos judeus acabaram por transformar a narrativa bíblica numa serie de mitos, distantes da realidade da Palavra de Deus.

Todavia, estudiosos desse material, como William Carr, insistem que os termos relativos a poder usados na literatura judaica, não se referem a espíritos maus, demônios ou Satanás, mas apenas a poderes angélicos obedientes, que confirmam a condição do DEUS ETERNO e que, o mundo para o qual o Evangelho veio não era um mundo que ansiava por libertação desses poderes malignos e que a mensagem cristã não trata de nenhuma batalha cósmica por meio da qual Cristo resgata a humanidade do domínio de tais forças. De fato, Carr afirma, que não existe nenhuma evidência para a crença em forças demoníacas de nenhuma estatura, exceto o próprio Satanás, até perto do fim do segundo século d.C., e não existe nada na literatura paulina que se refira a alguma batalha entre Cristo e poderes hostis.

Resultado de imagem para Concepção artística da Lenda dos Guardiões
Concepção artística da Lenda dos Guardiões

Mas as evidências escritas disponíveis apontam, quase sempre, para o lado oposto das afirmações de Carr. No livro apócrifo do “Eclesiástico 16:7” — que Carr dispensa como sendo “um livro quase sem nenhuma referência a anjos ou demônios — encontrramos uma das primeiras indicações do interesse em “Guardiões e Gigantes”. O texto em português da Bíblia de Jerusalém diz: “Deus não perdoou os gigantes de outrora que se rebelaram, prevalecendo-se de suas forças”. O original hebraico diz: “Ele não perdoou os príncipes — nasik — da antiguidade que se revoltaram usando a própria força”. A LXX substitiu “príncipes” por “gigantes”. No livro apócrifo de “Sabedoria de Salomão”, que Carr dispensa com o mesmo argumento do anterior, em 14:6 nós lemos: “Pois quando, nas origens, pereciam os gigantes orgulhosos, a esperança do mundo se refugiou numa jangada que pilotada por tua mão, aos séculos transmitiu a semente da vida”. Mas, sem nenhuma dúvida, a vasta maioria das referências mitológicas a anjos caídos está concentrada nas porções mais antigas do livro pseudoepigráfico de “1 Enoque”. Somes-se a essas as evidências do livro pseudoepigráfico dos “Jubileus”, do livro bíblico de Daniel e da literatura produzida em Qumran e temos uma ampla base para rejeitar a afirmação de Carr, de que os anjos na literatura judaica são sempre “anjos bons”.

Concepção Artística de Demônio Mastema

Esses anjos maus que não guardaram o estado original em que foram criados e que são chamados de gigantes, morreram durante o dilúvio e seus espíritos continuaram vivos, como demônios, espíritos maus e “os poderes de Mastema[2]”. O líder desses seres recebe vários nomes entre os quais podemos citar: Semjaza, Azazel, Matema, Satanás e Belial — agora o leitor pode entender melhor de onde procede, praticamente tudo, que é produzido em por Hollywood em termos cinematográficos, de filme de demônios, tais como: Constatine, Anjos Caídos, Possuídos e etc. De acordo com os livros pseudoepigráficos de Enoque e Jubileus os incrédulos e pagãos idólatras adoram esses poderes demoníacos que se escondem por trás dos belos ídolos, e a linguagem de poder faz referência, quase com certeza absoluta, a esses seres. Todas essas informações tornam, praticamente, incompreensíveis as afirmações de Carr. De fato, quando lemos a literatura judaica produzida entre 200 a.C e 200 d.C., nós podemos perceber que anjos caídos e demônios recebem, praticamente, a mesma atenção que os anjos bons.

Concepção Artística de Uma Cena do Livro de 1 Enoque

De acordo com 1 Enoque 20:1—8 os sete arcanjos têm os seguintes nomes:Uriel, Rafael, Raguel, Miguel, Seraqâel, Gabriel, e Remiel. Já em 1 Enoque 9:1 apenas quatro são nominados: Miguel, Uriel, Gabriel e Rafael. Em 1 Enoque 6:7—8 dezenove “chefes de dez” anjos caídos são citados: Samiazâz, Arâkiba, Râmêêl, Kôkabiêl, Tamiêl, Râmiêl, Dânêl, Êzêquêél, Barâquîjâl, Asâêl, Armârôs, Batârêl, Anânêl, Zaqîêl, Samsâpêêl, Satarél, Tûrêl, Jômjâél e Sariél. Já em 1 Enoque 69:1—14 vinte e um chefes de anjos caídos são mencionados, o que prova que o interesse por essa especulações persistiu até o final do segundo século d.C. Esses nomes são como seguem: Samjâzâ, Artâqîfâ, Armêm, Kôkabêl, Tûrâêl, Rûmjâl, Dânjâl, Nêqâêt, Barâqêl, Azâzêl, Armârôs, Batarjâl, Busasêjal, Hanânêl, Tûrêl, Simâpêsiêl, Jetrêl, Tûmâêl, Tûrêl, Rûmâêl e Azâzêl. 

Não temos dúvida que o mundo que produziu livros como Jubileus e 1 Enoque acreditava, e muito, em poderes malignos. E mais, era um mundo que buscava libertação desses Poderes: “Liberta-me das mãos dos espíritos malignos que têm domínio sobre os pensamentos dos corações dos homens. E não permitas que eles me conduzam para longe de ti, meu Deus — Livro dos Jubileus 12:20. Esse é segundo o Livro dos Jubileus o clamor do próprio Abraão e de todos seus filhos verdadeiros. É bem possível que foi dentro desse clima espiritual que João foi inspirado pelo Espírito Santo para escrever as seguintes palavras:

1 João 3:8

Aquele que pratica o pecado procede do diabo, porque o diabo vive pecando desde o princípio. Para isto se manifestou o Filho de Deus: para destruir as obras do diabo.

Todavia, 1 Enoque e o Livro dos Jubileus não são os únicos a deter a linguagem dos anjos caídos e dos poderes do mal. Uma das mais antigas alusões, provavelmente, à narrativa de Gênesis 6 é a que encontramos em

Salmos 82:6—7

6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.

7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.

Narrativas mitológicas de Gênesis 6 são frequentes na literatura judaica do período entre os testamentos. Na literatura do Novo Testamento é possível que os versos a seguir façam alguma referência à narrativa de Gênesis:

Romanos 8:38

Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes.

1 Coríntios 6:3

Não sabeis que havemos de julgar os próprios anjos? Quanto mais as coisas desta vida!

1 Coríntios 11:10

Portanto, deve a mulher, por causa dos anjos, trazer véu na cabeça, como sinal de autoridade.

2 Pedro 2:4

Ora, se Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo.

Judas 6

E a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia.

Dos versos acima nós podemos concluir:

1. Que o julgamento dos anjos mencionado em 1 Coríntios 6:3 indica que alguns deles pecaram e, portanto, caíram.

2. Romanos 8:38 também pode ser uma referência a esses anjos malignos que procuram nos separar do amor de Deus.

3. 1 Coríntios 11:10 é melhor explicado como uma referência ao livro pseudoepigráfico “Testamento de Rúben 5:5-6”, que também associa a cabeça da mulher com a cobiça dos Guardiões ou anjos caídos.

Na igreja cristã primitiva, os cristãos eram instruídos na arte do discernimento entre bons e maus espíritos:

1 Coríntios 12:1—3, 10

1 A respeito dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes.

2 Sabeis que, outrora, quando éreis gentios, deixáveis conduzir-vos aos ídolos mudos, segundo éreis guiados.

3 Por isso, vos faço compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus afirma: Anátema, Jesus! Por outro lado, ninguém pode dizer: Senhor Jesus!, senão pelo Espírito Santo.

10 a outro, operações de milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a um, variedade de línguas; e a outro, capacidade para interpretá-las.

1 Coríntios 14:12

12 Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja.

1 João 4:1

Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora.

Os cristãos devem ser capazes de distinguir entre o Espírito Santo e os espíritos malignos. O uso de “demônios” e “espíritos malignos” é bastante extenso para ser tratado aqui e agora. Mas podemos, pelo menos, apresentar um breve resumo do mesmo:

1. A expressão daimonion ocorre 63x no Novo Testamento. Nos Evangelhos ela se refere a possessão demoníaca; já no Livro dos Atos, em Paulo e no Apocalipse se refere à adoração de demônios como se fossem algum deuses. Daimôn é usada apenas uma vez no mesmo sentido de daimonion. O verbo daimonizomai ocorre 13 vezes, todas nos Evangelhos. “Espíritos malignos”, “Espíritos imundos” e “Espíritos demoníacos” ocorrem 51 vezes todas nos evangelhos Sinóticos.

Por agora é suficiente dizer que Jesus considerava seus atos de exorcismo e libertação dos cativos do Diabo, como um verdadeiro ataque contra o reino de Satanás e uma indicação que o Reino de Deus estava raiando. O Evangelho é em muitos sentidos uma batalha cósmica na qual Jesus vem para resgatar os seres humanos do domínio dos poderes do mal.

No próximo estudo vamos falar dos “Anjos das Nações”. Até lá.

LISTAS DOS ESTUDOS DE ENCONTROS DE PODER

001 — Introdução =

002 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = Expressões Diversas

003 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἀρχῆ — arché e ἄρχων — árchon.

004 – A linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἐξουσίαις – exousías – potestades, autoridades.

005 – A linguagem de “Poder” no Novo Testamento = δυνάμεις — dunámeis — poderes.

006 – A linguagem de “Poder” no Novo Testamento = Θρόνοι— thrónoi — tronos.

007 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = κυριοτῆς — kuriotês — domínio.

008 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ὀνόματι — onómati — nome.

009 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἄγγελοs — ággelos — anjo.

010 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = δαιμονίον — daimoníon — demônioπνεῦμα τὸ πονηρὸν — pneûma tò poniròn — espírito malignoἀγγέλους τε τοὺς μὴ τηρήσαντας τὴν ἑαυτῶν ἀρχὴν— angélous te toùs me terèsantas tèn eautôn archèn — anjos, os que não guardaram o seu estado original ou anjos caídos.

011 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἀγγέλους  τῶν ἐθνῶν — angélous tôn ethnôn — anjos das nações.

012 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἀγγέλους  τῶν ἐθνῶν — angélous tôn ethnôn — anjos das nações — Parte 2.

013 — A Linguagem de “Poder” no Novo Testamento = ἀγγέλους  τῶν ἐθνῶν — angélous tôn ethnôn — anjos das nações — Parte 3 — Final.

014 — A Evidência do Novo Testamento – Parte 1 — Introdução

015 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 2 — As Passagens Disputadas — 1 Coríntios 2:6—8 — Parte 1

016 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 3 — As Passagens Disputadas — 1 Coríntios 2:6—8 — Parte 2

017 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 3 — As Passagens Disputadas — Romanos 13:1—3

018 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 4 — As Passagens Disputadas — Romanos 8:31—39

019 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 5 — As Passagens Disputadas — 1 Coríntios 15:24—27a — PARTE 1

020 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 6 — As Passagens Disputadas — 1 Coríntios 15:24—27a — PARTE 2

021 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 7 — As Passagens Disputadas — Colossenses 3:13—15 — PARTE 1

022 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 8 — As Passagens Disputadas — Colossenses 3:13—15 — PARTE 2

023 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 9 — As Passagens Disputadas — Efésios 1:20—23 — AS REGIÕES CELESTIAIS — PARTE 1

024 — A Evidência do Novo Testamento — Parte 10 — As Passagens Disputadas — Efésios 1:20—23 — AS REGIÕES CELESTIAIS — PARTE 2

025 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 11 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 3

026 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 12 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 4

027 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 13 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 5

028 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 14 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 6

029 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 15 — As Passagens Disputadas — EFÉSIOS 1:20—23 — PARTE 7 — A DESTRUIÇÃO DA MORTE E DE SEUS ALIADOS

030 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 16 — As Passagens Disputadas — COLOSSENSES 1:16 — A CRIAÇÃO DE TODAS AS COISAS POR MEIO DE E PARA O PRÓPRIO CRISTO

031 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 16 — As Passagens Disputadas — COLOSSENSES 1:16 — TENTANDO DEFINIR OS PODERES

032 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 16 — As Passagens Disputadas — COLOSSENSES 1:16 — TENTANDO DEFINIR OS PODERES —PARTE 002

033 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 17 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 001

034 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 18 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 002

035 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 19 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 003

036 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 20 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 004

037 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 21 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 005

038 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 22 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 006

039 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 23 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 007

040 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 24 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 008

041 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 25 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 009

042 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 26 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 010

043 — A Evidência do Novo Testamento — PARTE 27 — As Passagens Disputadas — OS ELEMENTOS DO UNIVERSO — PARTE 011 — O PRÍNCIPE DA POTESTADE DO AR
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/encontros-de-poder-043-evidencia-do.html

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.



[1]  Doutrina ou argumentação que busca defender a crença na suprema bondade e onipotência divinas contra aqueles que, em vista da presença do mal no mundo, duvidam da existência de Deus.

[2] Um dos demônios principais do folclore judaico.