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quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A COBERTURA MANIPULADA DO ENEM PELA MÍDIA


Resultado de imagem para enem 2017

O artigo abaixo é do professor Wilson Roberto Vieira Ferreira.


A cobertura midiática do Enem: muito além do "fact-checking"
Wilson Roberto Vieira Ferreira

Até 2015, o Enem era noticiado pela grande mídia como “eleiçoeiro” e “populista”, uma “fogueira” (a “fogueira do Enem”) na qual os alunos viviam assustados e lesados com sucessivas denúncias de fraude e desorganização. A partir do ano passado, tudo mudou como num passe de mágica: agora é o “Enem nota 1.000” para aqueles alunos mais “focados e determinados” no qual fraudes são problemas pontuais tecnicamente resolvidas, sem mais o protagonismo do Judiciário. Depois de anos do jornalismo de guerra no esgoto, a grande mídia tenta recuperar o seu produto tão vilipendiado: a notícia. Enquanto joga ao mar antigos líderes como o jornalista William Waack para recuperar uma suposta isenção, apoia agências de “fact-checking” para se prevenir das “fake news” que ela própria inventou. Mas pela sua missão de salvar as aparências, o “fact-checking” ignora as mudanças do viés atribuídos aos fatos ao longo do tempo, de acordo com a mudança do contexto. A mudança da cobertura midiática dada ao Enem de 2009 a 2017 é um caso exemplar: a mentira não está apenas no ocultamento ou na invenção – está na angulação, seleção e edição.

O episódio em que William Waack, fiel soldado dos tempo do jornalismo de guerra, foi jogado prontamente ao mar pela Globo depois do vazamento de um vídeo no qual o jornalista fazia galhofas racistas é apenas mais um capítulo do refluxo na grande mídia, depois de anos de jornalismo de esgoto e promoção do ódio como matéria prima do mercado de opiniões.

Nesse momento a mídia corporativa quer jogar fora os anéis para permanecer os dedos – foi por muito tempo um partido de oposição política e esqueceu que, afinal, vende uma mercadoria chamada notícia. Um produto seriamente violentado durante a cavalgada que culminou no impeachment de 2016.

Agora em parcerias com a grande mídia como Folha e Globo surgem agências especializadas em fact-checking, checagem das notícias para a prevenção contra as “fake news”. Mais uma vez a mídia corporativa tenta se isentar dos seus pecados jogando a bucha das notícias falsas nas costas dos blogs, redes sociais e na campanha eleitoral de Donald Trump – e ocasionalmente em hackers russos e na própria figura de Putin.

Se essas agências estão assim tão comprometidas com a “verificação sistemática do grau de veracidade das informações que circulam no País”, como orgulhosamente declara a Lupa, então deveriam acrescentar mais uma “ferramenta” a sua “plataforma”: o Jornalismo Comparado.

Não confunda com a clássica disciplina do currículo básico dos cursos superiores de Jornalismo – a comparação das diferentes tendências e condições de produção, circulação e consumo de notícias no mundo. Aqui temos uma abordagem sincrônica do Jornalismo – diferentes sistemas comparados  num momento específico.

Com outro tipo de Jornalismo Comparado, diacrônico, teríamos um estudo da cobertura jornalística através do tempo: perceber os diferentes vieses (angulação, seleção, edição) na cobertura de um mesmo evento em diferentes contextos políticos e econômicos.

“Checadores” e o Jornalismo Comparado

Certamente os “checadores” (nova e surpreendente especialidade dentro do Jornalismo cujo exercício da “checagem” deveria ser a rotina primária da profissão) ficariam surpresos: a notícia não se resume apenas à informação (a transitividade entre notícia e realidade). É também Comunicação – as diferentes interpretações que a grande mídia faz de um mesmo evento em contextos diferentes.

Um bom ponto de partida para os neófitos “checadores” seria fazer uma comparação entre a cobertura dada ao Enem no período do jornalismo de guerra entre 2009-2016 e a cobertura dada desde o ano passado, contexto no qual a mídia corporativa retorna às sua funções em tempos “de paz” após a missão cumprida do impeachment: comercial (prestação de serviço) e ideológica (conectar educação e meritocracia).

Enem e a cobertura monofásica da grande mídia

O Exame Nacional de Ensino Médio, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inesp), foi criado em 1998 com o objetivo de avaliar a qualidade do ensino médio. Mas a partir de 2009 foi universalizado por meio da unificação dos vestibulares federais – mudou a face dos vestibulares do País ao democratizar o acesso de estudantes à melhores universidades.

Desde então, o Enem transformou-se numa instituição que mudou o ensino superior, junto com a expansão das universidades privadas e públicas.

Porém, o viés da grande mídia desde então foi monofásico: a bateção na tecla de que o Enem era “eleiçoeiro” e “populista” (transformar um conceito substantivo como “democratização” em uma sequência metonímica de adjetivos), frustrante para os estudantes com a sucessiva cadeia de vazamentos de provas e fraudes (uma delas envolvendo uma gráfica que tinha a Folha como sócia... hummm!!!...) e desorganizando os vestibulares já estabelecidos pela ausência de qualquer racionalidade administrativa.


Mesmo dando apenas uma olhada superficial nas primeiras páginas dos jornais desse período, dá para perceber: o Enem era reprovado por Juízes, os estudantes frustrados pela má gestão do processo e um sistema essencialmente criminógeno com as sucessivas denúncias de fraudes e desorganização.

Nos telejornais o foco eram nas reclamações de “muitos estudantes” por não poderem usar relógio, lápis e borracha. “Novas regras que deixam estudantes tensos”, dizia uma edição do JN da Globo em 2010.

“Matérias que assustam os alunos”, “um exame longo e cansativo para todo mundo”, “dificuldades para fazer a redação” era o viés do JN de 27/10/2014.

“MEC elimina candidata errada por foto postada em sala do Enem – ela ficou em estado de choque”; “Hacker tenta invadir site com notas do Enem”, “Grupo critica a correção da redação” eram tipos de manchetes corriqueiras em sites como G1 e Uol em 2012.

Mas é nos slides-show desses sites que o viés se cristaliza na cobertura fotográfica: estudantes correndo diante do portão que fecha, rostos preocupados e tensos, um estudante se arrasta por baixo de uma porta que está baixando, e as onipresentes grades e ferros como fundo dos closes em alunos criando uma atmosfera de tensão e prisão.


Poucos sorrisos, estudantes cabisbaixos e sentados no meio fio ou pelos cantos de muros. Há uma atmosfera de dispersão e desordem, com estudantes figurados isolados e com olhares perdidos para um ponto qualquer.

Em linhas gerais, simplesmente a grande mídia ignorou a principal notícia que deveria ser “checada” e investigada – Enem democratiza o acesso ao ensino superior? Ficou apenas nas angulação sobre o estudante (estressado e angustiado) e o sistema (precário, mal gerido, vulnerável e criminógeno).

No lugar preferiu apresentar o ranking da melhores e piores escolas (e no caso da Folha, reforçando a ideia de fosso entre o desempenho do Sudeste e Nordeste) ou mostrar estudantes tentando escalar portões fechados e gritando “Eu odeio o Enem!” – aliás, muitos deles eram universitários que se faziam passar por secundaristas para “aparecer na mídia” e viralizar nas redes sociais, na falta de coisa melhor para fazer – veja matéria por  meio desse link aqui:

Enem nota 1.000”

A partir de 2016 (com a missão cumprida do impeachment reconduzindo o País à “normalidade”) a mídia corporativa percebeu que o Enem já estava consolidado e que deveria ser inserido em uma outra narrativa: a da meritocracia num contexto de crise econômica e desemprego no qual apenas os melhores sobreviverão.

A “retranca” da cobertura muda: vira o “Enem nota 1.000” para a Folha, concentrado em relatos de estudantes bem sucedidos com metodologias de estudos exemplares.


A angulação da cobertura deixa de ser monofásica para se transformar num tripé: o estudante (autoconfiante, a autoestima etc.), o sistema (os problemas de fraudes agora são pontuais, em geral restritos a cidades interioranas) e o propósito do Enem, com um maroto deslocamento: do objetivo da democratização do acesso ao ensino superior (populista para a grande mídia), para a narrativa da meritocracia – o Enem como mais um processo seletivo no qual somente os melhores (os mais focados e determinados) passarão.

Se no passado a pauta era negativa (“rachar de estudar”, “aluno estressado”, “fogueira do Enem” etc.), a partir do ano passado tudo mudou: “estudante desafia a fogueira do Enem”, “Com bom humor estudante vai ao Enem”, “véspera de Enem é dia de descanso e relaxamento”.

Dessa vez notícias de que mais ônibus serão colocados nas ruas em dias de provas para evitar que alunos encontrem portões fechados nos locais das provas são destacadas e as tradicionais imagens de alunos chorando e escalando grades sumiram ou, no mínimo, ficaram restritas a eventos pitorescos.

Telejornais e portais na Internet deixaram de priorizar denúncias, fraudes e protagonismo de juízes e procuradores para se concentrar no serviço aos alunos: técnicas de estudos, revisões de conteúdos, dicas de relaxamento.


UOL: 05/11/2017

E a cobertura fotográfica mudou radicalmente o enfoque: agora vemos multidões de alunos organizados entrando nos locais de provas (contrastando com alunos caminhando dispersos e isolados do passado) e estudantes posando sorridentes sem mais ter as onipresentes grades e portões de ferro como fundo.

O curioso é que, mesmo quando mostra os tradicionais alunos retardatários correndo para passar pela fresta do portão que fecha, eles estão sorridentes.

Mas o principal viés é a substituição da função democratizadora do Enem pelo ideário meritocrático das provas como mais um processo seletivo como tantos outros pelos quais o jovem passará na vida.

Dessa vez a grande mídia encaixa o Enem no contexto das atuais reformas e flexibilizações que reciclam os milhões de desempregados em empreendedores que aguardam o momento em que a força de trabalho vai se converter em capital, virando o ex-assalariado em capitalista de si mesmo.

Agora o Enem cumpre uma estrita função ideológica: narrativa individualista do sucesso – diante do fracasso, a culpa sempre será do indivíduo que não teve vontade, foco etc. suficientes.

Para os neófitos “checadores”, um pequeno quadro de resumo desse nosso rápido exercício comparativo:

Jornalismo de guerra (grande mídia como principal partido de oposição


Enem /
Viés:
O Estudante
O Sistema
Objetivo
Contexto
2009-2015

Estressado, desmotivado, assustado, lesado

Criminogeno com protagonismo de juízes e promotores

Ranking das melhores escolas ao invés da democratização do ensino superior


Jornalismo de guerra (grande mídia como principal partido de oposição

2016-2017

Relaxado, autoconfiante, autoestima

Fraudes pontuais e tecnicamente resolvidas sem protagonismo do Judiciário


Meritocracia, empreendedorismo individualismo

Pós-impeachment: notícia como produto (prestação de serviço e função ideológica)


É claro que isso é um exercício comparativo ainda preliminar, carecendo de uma quantificação textual (manchetes e espaço ocupado pelas matérias) e icônica (conotação das fotografias e Gestalt do espaço dessas matérias na mancha gráfica de uma publicação ou site.
 Bom, isso seria o trabalho do desenvolvimento de uma nova ferramenta diacrônica (Jornalismo Comparado), ao lado do trabalho sincrônico do fact-cheking.

Restrita à checagem (a existência de transitividade entre informação e fato), o fact-checking perde a dimensão histórica: as diversas “transitividades” (vieses, interpretações etc.) que um mesmo fato teve ao longo do tempo em diversos veículos.

O artigo original pode ser acessado por meio do link abaixo:

http://cinegnose.blogspot.com.br/2017/11/a-cobertura-midiatica-do-enem-muito.html

Que Deus tenha misericórdia de todos nós e nos ajude a entender as múltiplas manipulações que sofremos a cada dia.

Alexandros Meimaridis.

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quarta-feira, 12 de julho de 2017

SÉRIE “3%” DO NETFLIX E A ILUSÃO DA MERITOCRACIA



Uma mentira muito em voga em nossos dias tem a ver com a chamada meritocracia. Nessa ideologia se defende que qualquer indivíduo pode prosperar em sua vida, em todos os aspectos, se tiver mérito para isso. De fato, tal prosperidade é automática para os que têm o mérito necessário. Todavia, tal ensinamento afronta o que é ensinado pelas escrituras sagradas. Se é por mérito, então não pode ser pela graça de Deus. Refletindo sobre isso, o apóstolo Paulo nos diz o seguinte:

Romanos 11:6

E, se é pela graça, já não é pelas obras; do contrário, a graça já não é graça.

O artigo a seguir é de autoria do Professor e Doutor Wilson Roberto Vieira Ferreira e analisa a nova série brasileira do NETFLIX, chamada “3%”, que retrata o Brasil atual de maneira surpreendente. A temática da meritocracia é a base para série, que inclui também ideias de golpes, corrupção e ambição. Todas essas coisas são apenas humanas e chamam nossa atenção para o vazio e a apatia experimentada pela maioria das pessoas. Como diria o Eclesiastes: Tudo é vaidade e correr atrás do vento.

Série brasileira "3%" é o "Black Mirror" do Brasil atual
Wilson Roberto Vieira Ferreira


Enquanto a crítica especializada estrangeira é só elogios à série brasileira “3%” (2016-), no Brasil a crítica torce o nariz. Complexo de vira-latas? Mais do que isso. A aposta da Netflix em uma produção sci-fi em língua portuguesa reafirma o interesse estratégico da plataforma de streaming no mercado brasileiro, ameaçando o mainstream da Globo e do negócio da TV aberta. Mas há algo além: enquanto a crítica brasileira tenta enquadrar a série no cânone das distopias “teens” como “Jogos Vorazes” e “Divergente”, “3%” fez mais do que isso, confundindo a todos – ao invés das tradicionais distopias hollywoodianas, a série apresenta uma desconcertante “hipo-utopia”: um espelho sombrio do Brasil atual apontado para o futuro. Uma alegoria política na qual a meritocracia transforma-se em religião, única esperança em um País transformado em um deserto rochoso com centros urbanos dominados pela desigualdade, miséria e violência. E um processo seletivo criado pela elite é a miragem de ascensão social na direção de uma terra supostamente utópica e longe do deserto brasileiro, na qual apenas 3% chegarão.

Com segunda temporada já em produção, a primeira série brasileira produzida para a plataforma de streaming Netflix gerou um fenômeno que muitos chamam de “complexo de vira-latas”.

Enquanto a série 3% (2016-) é elogiada pela crítica especializada estrangeira (aprovação de 7,8 no IMDB, elogios do indieWIRE, um dos sites de cinema mais respeitados do mundo, além de elogios rasgados de Henry Jenkins, um dos maiores pesquisadores em mídia), aqui no Brasil é descartada como produto abaixo da qualidade das outras séries Netflix. Uma espécie de "Jogos Vorazes piorado", série com “ideia atrasada”, “série nacional que constrange” e assim por diante. 

Uma flagrante má vontade que não percebe que o argumento da produção surgiu em uma websérie com três episódios lançada em 2011 criada por Pedro Aguillera, Jotagá Crema e Dani Libardi – portanto, antes dos primeiros Jogos Vorazes.

Enquanto a crítica estrangeira vê a série 3% como bem vinda e considera um "novo olhar sul americano para a ficção científica", gênero que sempre teve o monopólio norte-americano, aqui no Brasil os críticos limitam-se a dizer que a série “não entrega o que promete”.


Por que essas reações tão desiguais? Esse humilde blogueiro acredita que a questão vai além do “complexo de vira-latas”. Os críticos nacionais parecem se prender aos cânones hollywoodianos do gênero (reality shows ou games mortais em sociedades distópicas com muitos efeitos especiais e altíssima tecnologia) e passam a acreditar que uma série como 3% tenta imitar os congêneres da Netflix – por isso acham que a série não entregou o que prometeu.

A aposta da Netflix

Mas esse argumento “vira-lata” é apenas um álibi: a motivação está em outra cena. A série 3% dá um importante passo para a produção audiovisual nacional. A opção da Netflix em apostar em uma produção inteira em língua portuguesa, com atores e produção nacionais fora do circuito da Globo e Globo Filmes reafirma o interesse estratégico da plataforma de streaming no Brasil.

Não é à toa que as críticas mais ácidas partiram do portal G1 da Globo – o grupo sabe que os dias da TV aberta (pelo menos no modelo atual de venda de espaço publicitário) está com seus dias contados diante dos interesses de gigantes como Google, Facebook e a própria Netflix no mercado brasileiro.

Mas há algo mais incômodo para uma parte dos críticos brasileiros: o fato da série 3% ser estranha e difícil de ser enquadrada no gênero “distopia”, como Jogos Vorazes ou Divergente. Ela está mais próxima da estranheza da série inglesa Black Mirror.


Isso porque, como veremos, 3% enquadra-se numa tendência chamada pelos estudiosos de cinema e audiovisual de “ficção científica do Sul” – filmes latino-americanos, de países periféricos à Zona do Euro ou originados nos BRICs cujas produções mostram um futuro que não é figurado nem pelo olhar distópico e muito menos pelo utópico: o futuro é mostrado pelo desconcertante ponto de vista da hipo-utopia. Alta tecnologia convivendo com favelas, deterioração urbana, precarização do trabalho e muito lixo que acaba se confundindo com os próprios seres humanos – sobre o conceito de “hipo-utopia” e “ficção científica do Sul” clique aqui:


A série nacional 3% incomoda porque projeta no futuro de forma hiperbólica e expressionista as mazelas que já estão no presente, no Brasil atual – o momento em que a meritocracia se transforma em religião em contextos de extrema desigualdade, miséria e injustiças. E como pessoas que não têm qualquer outra alternativa se submetem à humilhação e resignação tentando acreditar em um sistema supostamente justo, no qual “você faz o seu próprio mérito”.

A Série

No primeiro episódio é apresentada toda a mitologia que domina aquele mundo futuro. Nos créditos de abertura vemos um mapa brasileiro com o recorte do litoral do Pará. Uma seta sai da região amazônica até chegar a um ponto distante no alto mar brasileiro – uma localidade chamada Maralto.

A região da Amazônia (e pressupõe-se que todo o País) se transformou em um gigantesco deserto rochoso, com grandes áreas urbanas deterioradas, miseráveis e violentas. As ruas não passam de perigosas vielas nas quais vemos homens, mulheres e crianças maltrapilhas se arrastando em lugar escasso de recursos.

Aos 20 anos de idade, todo cidadão recebe a chance de se inscrever no chamado Processo: um rigoroso processo seletivo que consiste principalmente de provas cognitivas, morais e psicológicas que oferece somente a 3% dos aprovados a oportunidade de ascender ao Maralto, região onde as oportunidades de vida são supostamente justas e abundantes.


A mitologia que envolve o Processo diz que um “Casal Fundador” criou Maralto, uma sociedade utópica que se perpetua através da meritocracia na qual uma elite desfruta de uma ordem onde todos os problemas ambientais e sociais foram resolvidos por meio de altíssima tecnologia.

Mas entre os 97% condenados à miséria no Continente, cresce um movimento denominado “A Causa”, grupo revolucionário que denuncia a injustiça de todo o sistema. Seu objetivo é infiltrar militantes da Causa no Processo para sabotá-lo.

Ainda nessa primeira temporada não fica claro o plano da causa – se a sabotagem é apenas uma vingança pelas mortes e injustiças cometidas nas várias edições do Processo ou há um projeto político maior.

Muito além das distopias “teens”

O interessante (e inovador) na série 3% é que o Processo vai muito mais além das distopias teens como Jogos Vorazes ou Divergente. Tem muito mais a ver com os processos seletivos corporativos atuais – por isso, todo gestor de RH deveria assistir a essa série.

Pressões psicológicas, salas e corredores claustrofóbicos, dilemas ou escolhas impossíveis marcam os testes em ambientes cleans, de simplicidade asséptica em branco, cinza e azul, lembrando bastante outro filme brasileiro hipo-utópico: 1,99 – Um Supermercado que Vende Palavras (2001) de Marcelo Mazagão (sobre o filme, clique aqui:


Que a má vontade da crítica brasileira qualificou, como “produção pobre” fora do padrão Netflix.

O chefe do Processo, Ezequiel (João Miguel), observa a todos através de dezenas de câmeras como uma espécie de reality show, avaliando, ao lado de psicólogos, reações, atitudes e comportamentos – principalmente a capacidade de resignação, resiliência e a fé cega no ideário meritocrático que legitima todas as provas.


A chave crítica de 3% em relação à injustiça de todo o Processo está na observação de uma das protagonistas, Michele (Bianca Comparato), ao ver como candidatos tentam ludibriar testes, enganar concorrentes ou corromper as provas. Para Michele, as pessoas não são más. Na verdade o propósito do Processo é criar situações absurdas (humilhação, dilemas impossíveis, medo etc.) para extrair de cada um o pior da natureza humana.

Na verdade, os 3% que restam não são os “melhores” – são aqueles que conseguiram esconder melhor o pior que habita dentro de todos nós.

Se o papel da sociedade é criar dispositivos éticos e morais que “sublimem” essa “sombra” psíquica, ao contrário o Processo atiça o pior da nossa natureza para premiar aqueles que melhor disfarçaram o Mal.

Essa visão acerca da natureza do Mal coincide com a própria filosofia gnóstica: o Mal não está na natureza humana, mas no Demiurgo que cria um cosmos que se alimenta dessa sombra psíquica humana ao criar os absurdos dilemas impostos ao homem. Na literatura, O Processo de Franz Kafka é um dos exemplos descritivos do absurdo que aprisiona o homem no interior de armadilhas propositalmente criada por um Demiurgo que não nos ama.

O Mal não está no homem mas na criação (do Demiurgo)


Um espelho do presente

O incômodo da série brasileira, que parece ter calado fundo nos críticos da mídia corporativa, é que o mundo de 3%  parece estar muito mais no presente do que no futuro.

Enquanto os candidatos acreditam cegamente nos mantras da meritocracia (que Ezequiel recita a cada discurso de parabéns aos candidatos sobreviventes), na cúpula que envolve o comando do Processo e o Conselho do Maralto há uma trama envolvendo golpes, corrupção e ambição – o inimigo político de Ezequiel, Matheus (Sérgio Mamberti) trama um golpe para retirá-lo do comando através da sua espiã Aline (Viviane Porto) que a todo custo procura deficiências comprometedoras na gestão de Ezequiel.

Enquanto isso, entre as vielas miseráveis do Continente, a Meritocracia virou uma religião e o Casal Fundador de Maralto ganhou status de Messias que virá um dia salvá-los – vemos espécies de Pastores fazendo pregações para pessoas desesperançadas ao melhor estilo das atuais igrejas evangélicas.

Assim como Distrito 9 (metáfora em ficção científica do apartheid racial da África do Sul), 3% partilha da mesma hipo-utopia: Continente e Maralto são projeções em hipérbole do Brasil atual. Enquanto a elite política-judicial-midiática se engalfinha numa guerra fratricida, no andar de baixo a massa de desempregados e pobres crê na ascensão social pelo mérito e na justiça dos processos seletivos corporativos.

Acredito que a maior perplexidade dos críticos de cinema desses tristes trópicos foi perceber que 3% contrariou aquilo que esperavam: ao invés de algum tipo de “Jogos Vorazes” tupiniquim, viram um “Black Mirror” do Brasil atual.

O trailer oficial da série poderá ser visto por meio do link abaixo:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

SNOWDEN: O FILME



O artigo abaixo é de autoria de Roberto Jorge Regensteiner e foi publicado no site do GGN — O Jornal de Todos os Brasis

Snowden. Imperdível: o filme e os fatos
por Roberto Jorge Regensteiner

O filme é uma dramatização da história, pois os fatos são narrados por atores. A montagem é digna de um thriller. As interpretações vão de boas a ótimas. Excelentes atores a reencarnar a história. O roteiro escrito e dirigido por Oliver Stone com base em diversos livros, no documentário Citizenfour e, presumo, com a consultoria e assentimento dos personagens reais, inclusive de Snowden que é mostrado ao final.

Quem acompanha este épico contemporâneo de uma certa distância, poderá conhecer muitas novas informações graças ao recheio de fatos, detalhes e footage de mídia da época editados com arte, bom-humor e suspense.

A cena inicial abre naquele famoso junho de 2013 quando as denúncias vieram a público. A cineasta estadounidense Laura Poitras e o jornalista Glenn Greenwald aguardam a chegada de Snowden no hall de um hotel em Hong-Kong. Após uma espera carregada, ansiosa e cuidadosamente planejada os três se encontram e vão ao quarto dele. Lá se inicia a etapa seguinte da operação: dar a conhecer ao mundo inteiro que o governo dos Estados Unidos invade maciça e sistematicamente a privacidade de governos, empresas e cidadãos. Em nome da luta antiterror e de objetivos nacionais, a máquina estatal estadounidense se constituiu num ente autônomo em busca do controle e do poder total. Para eles a guerra cibernética já começou.

Toda a narrativa vai e volta a partir desta cena inicial. Os envolvidos discutem a melhor maneira de organizar e distribuir as informações que provam e comprovam graves acusações que, quem sabe um dia, ajudarão a colocar altos funcionários no banco dos réus. A gravação com que Laura Poitras inicia o relato dos fatos feito por Snowden, se desenvolve numa sequência mostrando o início de sua trajetória. Como tanta gente boa em TI (tecnologia de Informação) ele é um autodidata que não concluiu o ensino formal. O filme apenas arranha a superfície das questões técnicas. Mesmo assim há situações deliciosas e bem sacadas que não conto aqui para não spoilar.

Apreciadores da História de TI gostarão de um maravilhoso diálogo, em que Nicolas Cage personifica um expert que tentou se rebelar contra os abusos do sistema e foi encostado na "geladeira" de uma escola em que recrutas da CIA, como Snowden, então com menos de 20 anos de idade, eram treinados nos conceitos, nas artes e nas técnicas da guerra cibernética. No desenvolvimento deste dialogo há um vislumbre dos mitológicos Enigma, do SIGABA, do ENIAC e do supercomputador Cray, marcos históricos de uma caminhada em que os supercomputadores de outrora tornaram-se insignificantes quando comparados com os atuais smartfones.  

As cenas que expõem a etapa inicial do treinamento do futuro agente da CIA mostram, através das aulas e dos relacionamentos com os colegas, como vão se expressando as contradições que opõem o técnico talentoso, cuja carreira profissional a meritocracia corporativa premia e promove, ao cidadão desejoso de fazer o bem e de respeitar a lei.

O drama interior se acentua à medida que Snowden se dá conta do até então insuspeitado grau de intromissão e manipulação que o Estado e o Governo dos EUA promovem na vida das pessoas, abusando da confiança que a população neles deposita, ultrapassando todos os limites imagináveis, destruindo a vida de inocentes e invadindo a sua própria privacidade e a de sua relação amorosa, levando a ambos ao limite da desconfiança e do rompimento. Este é o pano de fundo do qual ele, inicialmente, tentará se afastar trabalhando para empresas privadas e sendo enviado ao Japão em tarefas aparentemente menos invasivas. Posteriormente, constatará que mesmo assim permanece no radar e na teia da CIA e sucumbirá a uma oferta na qual desafios técnicos lhe serão oferecidos sob a nobre roupagem da defesa nacional num posto de trabalho localizado no Havaí.

O desfecho da epopeia se dá quando planejam como realizar a denúncia que - rompendo com o cerco imposto pelo governo -  irá desaguar nas publicações no The Guardian, no Washington Post e, depois, na grande imprensa do resto do mundo. O filme pouco revela da linha de pensamento e ação que o fez vencer uma batalha na qual muitos sucumbiram antes dele. Quando as denúncias começaram a chegar ao grande público, o governo dos EUA moveu mundos e fundos para repatriá-lo e julgá-lo exemplarmente como traidor. Não pouparam a si próprios do vexame de forçar o pouso do avião do presidente da Bolívia na Austria, na suposição de que ele estaria clandestinamente a bordo rumo ao Equador. Mostraram assim até que ponto são capazes de desrespeitar as leis quando consideram seu interesse ameaçado.

A capacidade de se preparar para a reação que buscou localizá-lo, prendê-lo e extraditá-lo em Hong-Kong ou onde quer que ele estivesse foi para mim o toque de gênio, o pulo do gato, ainda pouco desvelado deste rapaz que conseguiu expor as entranhas da fera e sair ileso. Nestes tempos de vitórias de Temer e Trump é um estimulante gole de esperança!

O artigo original poderá ser acessado por meio do link abaixo:


Os que desejarem assistir ao documentário Citizenfour poderão fazê-lo por meio desse link aqui:


Os que quiserem assistir ao trailer de Snowden poderão fazê-lo por meio do link abaixo:


Que Deus tenha misericórdia de todos nós.

Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 4 de outubro de 2016

A ELEIÇÃO DE JOÃO DÓRIA E O EGOCENTRISMO HUMANO



O excelente texto abaixo é de autoria do professor Dr. Wilson Roberto Vieira Ferreira. Nele o leitor encontrará uma análise precisa do atual estágio de egotismo experimentado tanto pelo candidato João Dória, como também pelos paulistanos que o elegeram. Hoje estamos assumindo que o coletivo não é o mais importante e sim o indivíduo. Tal mudança de comportamento afaga o ego do indivíduo, colocando-o no centro de tudo. Não é necessário nenhum tipo de brilhantismo para perceber que estamos caminhando para um enorme desastre.

Com Doria Jr. mídia não quer mais intermediários
Wilson Roberto Vieira Ferreira

Desde a chamada “crise hídrica”, o Estado de São Paulo é o laboratório de testes para tudo aquilo que espera o restante do País para o futuro. Lá, foi a engenharia de opinião pública para demonstrar que a água é um bem escasso e que, portanto, deve ser regulado pelo mercado como uma mercadoria qualquer. E o Parque Victor Civita na cidade de São Paulo foi o seu showroom. Agora, o teste bem sucedido do primeiro “gestor-midiático” vitorioso nas eleições municipais de São Paulo. João Doria Jr. representa a impaciência da grande mídia em cumprir sua agenda: chega de intermediários! Políticos tradicionais, com a sua melodramática “mise-en-scène teatral”, não têm timing midiático. Doria Jr. é o novo espécime da transpolítica futura: egresso do mundo da mídia e publicidade, aquele que nega a si mesmo como político. Assim como aquela campanha publicitária de um banco que foi adquirido pelo Itaú: “nem parece banco...”. Enquanto isso, as esquerdas lamentam mais uma “revolução traída”.

Assim como o Deserto de Nevada, nos EUA, foi a área de provas dos testes das bombas nucleares, o Estado de São Paulo é o laboratório de testes de preparação do “brave new world” que espera o restante do País para o futuro. Testes com duas bombas: a da água e, agora, a do “gestor midiático”.

Tudo começou com a chamada “crise hídrica”, teste de vanguarda para, sob o álibi do discurso “verde” (alterações climáticas, aquecimento global etc.), sucatear deliberadamente o sistema público de produção e distribuição de água, tornando escasso um bem universal (assim como educação e saúde) para ser entregue à regulação do mercado como simples mercadoria.

E a Praça Victor Civita, na cidade de São Paulo (entre a decadente editora Abril e o fétido Rio Pinheiros) foi o showroom dessa nova ordem da “sustentabilidade sustentável” com a estética da escassez do lixo reciclado – a convergência do ambientalismo com o hiperliberalismo da mercantilização generalizada sob a chantagem da crise econômica e da catástrofe ecológica – para ler mais sobre isso siga o link abaixo:


Com a vitória acachapante do candidato João Doria Jr. à prefeitura de São Paulo já no primeiro turno, confirma-se a agenda desse vanguardismo paulista, já antecipada por este Cinegnose no ano passado: a vitória eleitoral, para um cargo executivo, de um personagem midiático, egresso do mundo da publicidade, lobby e programas televisivos, cuja imagem é não mais de um “político”, mas de um “gestor” – sobre a sinistra profecia do Cinegnose veja o link abaixo:


A engenharia de opinião pública da "crise hídrica"

Uma eleição onde outros dois candidatos também acumulavam capital midiático-televisivo: Celso Russomano, suposto defensor dos direitos do consumidor em programas como o sensacionalista Aqui e Agora do SBT, e Marta Suplicy cujo start up da carreira política foi em um quadro onde apresentava-se como sexóloga no antigo programa TV Mulher da TV Globo nos anos 1980.

Para quê intermediários?

Depois de um trabalho diário do complexo judiciário-midiático em não só destruir o PT, mas em desconstruir a própria Política e a figura do político, a grande mídia realiza o sonho de mandar às favas os intermediários – para quê ter que levar à reboque os políticos, roteirizando e turbinando suas pautas, se as próprios produtos televisivas podem assumir o protagonismo das ações?

Até aqui a grande mídia tem realizado um trabalho hercúleo de alavancar políticos canastrões com expressões tão confiáveis como a de um vendedor de carros usados. Desajeitados diante de câmeras e teleprompters, excessivamente vaidosos diante da presença de repórteres, boquirrotos, desajeitadamente empolados. E alguns com um português parnasiano e cheio de mesóclises.

Grande mídia quer se livrar dos seus intermediários canastrões e boquirrotos

O “proto-coxinha”

Que a Política é tributária da cena teatral, não é novidade na Ciência Política. A novidade é que o laboratório dessas eleições municipais revelaram é que a mise-en-scène teatral será substituída pelo timing midiático – um discurso em primeira pessoa, destinado não para o público, mas para VOCÊ! O apelo não mais para um receptor enquanto público (o enfadonho discurso de “políticas públicas”, “ideologias” e “programas”), mas para um receptor pensado como “proto-coxinha”: individualista e sedento por modelos bem sucedidos de self made man.

O sucesso desse primeiro espécime gestor-midiático testado no laboratório paulistano revela o discurso voltado para o indivíduo e não mais para o coletivo. O discurso de Dória desceu para as profundezas da psicologia coletiva, foi além dos chamados “coxinhas” – esses são bem sucedidos e, como ele, dependentes das gordas verbas públicas provenientes da Política que tanto supostamente rejeitam.

O timing midiático de Dória encontrou um tipo-ideal ainda mais insidioso e volátil: o “proto-coxinha”: o ressentido de não ter aquilo que acha que merece, em busca de modelos de sucesso, campeões da meritocracia. Em síntese, o protótipo do Estado “locomotiva da nação”, aquele que acredita no sucesso e não em qualidade de vida – crê que a sua fortuna pessoal viria de si mesmo e não de uma política pública ou qualquer tipo de projeto coletivo ou política pública.

Mas ironicamente para realizar esse projeto de criar o primeiro gestor-midiático na política, a grande mídia teve que primeiro servir-se dos políticos tradicionais para a desconstrução da própria política. Isso foi necessário para criar uma onda despolitizadora perfeita para que o gestor-midiático surfasse em um tsunami anti-política.

Doria Jr. e o “zeitgeist”

Por isso, os números das eleições municipais que apontam votos brancos, nulos e abstenções superior aos votos do primeiro colocado João Dória Jr. (1/3 do eleitorado se recusou a votar) não surpreende.

Por isso o discurso do gestor-midiático Dória Jr. foi perfeito para capturar o zeitgeist do momento: pouco falou em políticas metropolitanas ou práticas modernas das grandes capitais do mundo. Pensando nas funções da linguagem, seu discurso foi apenas fático e conativo – colcha de retalhos de slogans como “acelera São Paulo” (o apelo fático para apenas manter contato, assim como o singelo “alô” telefônico) e o apelo não ao coletivo (nós ou vocês), mas ao individual (VOCÊ!) – VOCÊ! Vítima da “indústria da multa”, dos “petralhas”, do “IPTU”, da “gestão ineficiente” e assim por diante.

Enquanto o político tradicional, imerso no seu papel da mise-en-scène teatral, tenta ser messiânico ou épico (apela para a “Nação”, o “Povo”, a “Pátria”, o “cidadão”), o gestor-midiático fala para o indivíduo, seja pensado como consumidor (Russomano) ou como vítima de gestores ineficientes – Doria Jr.

Com o gestor-midiático finalmente a mídia consegue colocar um “político” em sintonia com a sua própria linguagem apelativa em segunda pessoa (“TU”, “VOCÊ”), essência da linguagem dos meio televisivo. Afinal, o que é o teleprompter? Senão a simulação da intimidade, da conversa olho no olho, escondendo o fato de que o emissor fala para alguém ausente.

Toda revolução será traída

Mas também a bem sucedida experiência com o novo espécime midiático João Dória Jr. revela que todas revoluções foram, desde o início, revoluções traídas: síndrome que historicamente as esquerdas não conseguem superar.

É irônico vermos o indiciamento do ex-ministro das Comunicações Paulo Bernardo e a prisão do ex-ministro Antônio Palocci pela Operação Lava Jato na chamada “Operação Boca de Urna” que turbinou a onda na qual Doria Jr. surfou.

O primeiro, quando teve a oportunidade de promulgar a Lei dos Meios, optou pela continuidade da orientação “técnica” e “republicana”.

Enquanto Palocci se esforçava em agradar os grandes conglomerados de mídia. Talvez achassem que teriam um lugarzinho na Casa Grande também.

 As esquerdas parecem ainda pensar a comunicação na era da impressão tipográfica. Enquanto a Direita é um produto da era eletromagnética do rádio e da televisão. Seu despertar foi a estetização da política através da radiodifusão e do cinema no nazi-fascismo.

Enquanto as esquerdas se orientam pelos aspectos, por assim dizer, “iluministas” ou “conteudistas” da comunicação (reflexão, conscientização, pensamento crítico etc., funções referenciais da comunicação) a Direita compreendeu muito bem a natureza fática e conativa das comunicações do século XX – atmosferas de opinião, o discurso direto em segunda pessoa e todo o repertório da canastrice que faz referencia não mais ao teatro ou ópera bufa (como fazem os políticos tradicionais), mas aos personagens do cinema e TV. Hitler e Mussolini que o digam.

Doria Jr. e o meme do Rei do Camarote

Por isso João Doria Jr. é o resultado dessa bem sucedida estratégia fática de criação de atmosferas de opinião depois dos últimos anos de incansável guerrilha com bombas semióticas: em primeiro lugar na mídia tradicional. E depois, nas redes sociais com as guerrilhas de memes como, por exemplo, o meme do “Gigante” do Luciano Huck e o meme do “Rei do Camarote” – para ler mais sobre isso siga o link abaixo:


Doria Jr. é a concretização desses memes “coxinhas” para eleitores “proto-coxinhas”. Huck e o “rei do camarote” e o empresário Alexander posando ao lado de uma Ferrari para “pegar gatinhas” são modelos do self made man que lentamente criaram um clima de opinião para a experiência pioneira paulistana.

O primeiro espécime gestor-midiático foi a conclusão final desse silogismo memético: com seus canastríssimos sapatos  italianos e cashmeres jogados sobre os ombros, conseguiu a sintonia perfeita com o clima de opinião diligentemente criado pela grande mídia.

Enquanto isso, as esquerdas lamentam mais uma revolução traída.

O artigo original poderá ser visto por meio do link abaixo:


Que Deus nos salve dessa monstruosa condição onde o indivíduo, e não Deus, é a medida de todas as coisas.

Alexandros Meimaridis

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domingo, 2 de novembro de 2014

A TENTATIVA FRUSTRADA DE IMPLANTAR UM “APARTHEID TUPINIQUIM”


Resultado de imagem para cosmopolita

O artigo abaixo foi publicado pela revista Carta Capital e é de autoria de Luiz Gonzaga Belluzzo.

Cosmopolitismo selvagem

As classes “cosmopolitas” têm sido decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica a uma melhor distribuição de renda

por Luiz Gonzaga Belluzzo

Apartheid Social 
Andréa Farias Farias/Flickr —  Apartheid Social
A rejeição do “outro” não só atingiu os níveis mais profundos das almas nativas, mas também conseguiu angariar novos adeptos

Em seu rastro de contundências, as eleições presidenciais deixam no caminho os despojos do processo civilizador. Não falo das objurgatórias trocadas entre os articulistas da chamada grande imprensa, ataques que apenas mimetizam os sacolejos e grosserias perpetradas nos Facebooks da vida.

O apetite voraz de muitos brasileiros ricos e bonitos por preconceitos de todos os matizes chegou ao ponto do regurgitamento. Na onda recente de mastigação de impropérios racistas, homofóbicos e regionalistas, tal voracidade encontrou auxílio nos maxilares que proclamavam as virtudes da “meritocracia”.

A prática de negar a boa-fé dos outros, dando a própria como garantida, é dogmatismo da inteligência e farisaísmo moral. A rejeição do “outro” não só atingiu os níveis mais profundos daquelas almas nativas, mas também conseguiu angariar novos adeptos. A rejeição é mais profunda porque atingiu, de forma devastadora, os sentimentos de pertinência à mesma comunidade de destino, suscitando processos subjetivos de diferenciação e des-identificação em relação aos “outros”, ou seja, à massa de pobres e miseráveis. E essa des-identificação vem assumindo cada vez mais as feições de um individualismo agressivo e antirrepublicano. Uma espécie de caricatura do americanismo.

A rejeição também foi mais ampla porque essas formas de consciência social contaminaram vastas camadas das classes médias: desde os “novos” proprietários, passando pelos quadros técnicos intermediários até chegar aos executivos assalariados e à nova intelectualidade formada em universidades estrangeiras ou mesmo em escolas locais que se esmeram em reproduzir os valores e hábitos forâneos. Isso para não falar do papel avassalador da mídia nacional e estrangeira.

É ocioso dizer que tais expectativas e anseios não são um desvio psicológico, mas enterram suas raízes nas profundezas da desigualdade que há séculos assola o País. Produtos da desigualdade secular e daquela acrescentada no período do desenvolvimentismo a qualquer preço, as classes cosmopolitas têm sido, ao mesmo tempo, decisivas para a reprodução do apartheid social e impiedosas na crítica ao uso da política fiscal para promover uma melhor distribuição de renda. Isso para não falar dos ataques à redução da pobreza absoluta, acoimada de “assistencialismo”.

Examinado à luz de um projeto nacional capaz de integrar os mais pobres, o cosmopolitismo das classes endinheiradas e de seus clientes revela o seu caráter parasitário e antirrepublicano. Parasitário, sim, porque amparado na internacionalização e na financeirização da riqueza e da renda dos estratos superiores, implica uma modernização restrita da economia, com seu séquito de destruição de empregos e exclusão social.

A dimensão individualista dessas formas de consciência, por outro lado, vem produzindo a desconstituição dos poderes e funções do Estado. Isso vai desde sua incumbência essencial, a de garantir a segurança dos cidadãos até o bloqueio sistemático da universalização das políticas de saúde, educação e previdência, marca registrada da “modernidade”, tão proclamada pelos Senhores da Terra.

Nas confrontações que hoje assolam a política brasileira, nada mais velho do que o novo.  Há um empenho edificante na troca de máscaras, enquanto o rosto do poder real permanece esculpido em sua pétrea solidez. O disfarce de maior sucesso no momento foi confeccionado por mãos hábeis. Os artesãos do cosmopolitismo selvagem ensaiam esculpir com novos cinzéis as formas petrificadas do velho arranjo oligárquico.  Os escultores altamente qualificados nos ofícios da mesmice secular encaixam, sem ajustes nem atritos, a persona da mudança nos rostos dos velhos donos do pedaço.

O cosmopolitismo abstrato, e não raro vulgar, mal consegue esconder a ferida que Nietszche desvendou nas profundezas da alma das sociedades massificadas: a diferenciação de atitudes, estilos, modos de ser são tão semelhantes entre si que, afinal de contas, não há nenhuma diferença entre eles. Condenados ao ciclo infernal do “eterno retorno do mesmo”, os “modernosos” da globalização tiveram os seus dias de glória ao proclamar o Fim da História. Hoje, o que vemos são cadáveres boiando na maré vazante da crise financeira global. Quanto mais crédula a adesão às torrentes da mercantilização universal, mais rasa a poça d’água em que terminam por se afogar os profetas do passado. Que São Pedro tenha piedade.

NOSSO COMENTÁRIO

As palavras acima precisam ser lidas com paciência e de forma meditativa, para que se possa aproveitar a profundidade e as ricas nuanças contidas nas mesmas.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis.

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