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quarta-feira, 6 de julho de 2016

TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 011 — A HISTÓRIA — A BUSCA PELO JESUS HISTÓRICO — PARTE 001



Esse é um estudo especial que irá abordar temas de grande interesse, tais como: 1. Deus 2. Os seres humanos e o mundo criado 3. Jesus e Sua missão como o CRISTO. 4. O Espírito Santo. 5. A vida cristã. 6. A Igreja. 7. O futuro e etc. Esperamos que a mesma possa ajudar todos os nossos leitores a conhecerem melhor o que o Novo Testamento ensina acerca de tudo o que nos é importante.

INTRODUÇÃO GERAL

TEOLOGIA DO NOVO TESTAMENTO E A HISTÓRIA

A BUSCA PELO JESUS HISTÓRICO — PARTE 001

Os problemas que existem entre a História e a Teologia são da maior importância no contexto dos estudos relativos à Teologia do Novo Testamento. Uma das maiores acusações que são feitas contra a nossa fé cristã tem a ver com a alegação que a mesma não está fundamentada em fatos históricos. Como iremos demonstrar, tal acusação não passa duma grande bobagem, pois os argumentos usados para defender tal ponto de vista são muito mais frágeis do que os argumentos usados para defender a verdade e a historicidade da Bíblia.

Como acontece na grande maioria dos casos, os maiores ataque feitos contra a fé cristã não se originam do lado de fora da Igreja, mas do lado de dentro. Eles partem de pessoas, geralmente incrédulas — o joio — que se encontram dentro da própria Igreja. Não é diferente quando o assunto é a historicidade dos Evangelhos e, principalmente, a historicidade da pessoa e da obra do Senhor Jesus Cristo. O debate é antigo e iremos ver, de modo geral, como através dos séculos a Igreja combateu os erros ensinados por inúmeros hereges. Todavia, foi apenas a partir do século XVIII com Hermann Samuel Reimarus que a discussão moderna teve início. Essa discussão se estende até os nossos dias. Velhos argumentos dos séculos XVIII e XIX são, periodicamente, reciclados e apresentados como novos fazendo a alegria de autores, editores e leitores que entendem pouco, ou até mesmo, quase nada acerca da verdade como revelada nas Escrituras Sagradas.

A. ANTECEDENTES HISTÓRICOS DA BUSCA MODERNA PELO JESUS HISTÓRICO

Com o surgimento do Racionalismo, a capacidade de raciocínio humano foi entronizada como o elemento mais importante para a descoberta e o entendimento do mundo ao nosso redor. Um dos desdobramentos naturais do Racionalismo foi o Iluminismo cuja pretensão era explicar, nos mínimos detalhes, a “verdade” sobre todas as áreas do conhecimento humano. É óbvio que, sendo a religião cristã uma área importante desse conhecimento, a mesma tenha sido analisada por essa ótica defeituosa do raciocínio humano. A premissa básica do Iluminismo era secularizar — remover tudo o que era sobrenatural — de todas as áreas do pensamento e da vida humana. Tudo precisava ser explicado de forma natural sem nenhuma interferência sobrenatural. As consequências de tal abordagem sobre a revelação bíblica e a fé cristã devem ser claras.

Os pressupostos filosóficos adotados pelo Iluminismo podem ser facilmente encontrados no Racionalismo de descartes, Espinosa e Leibniz e também no Empirismo de Locke, Berkeley, Hume e outros. Essa duas escolas filosófica que eram opostas entre si foram como que, miraculosamente, unidas pelo filósofo Alemão Immanuel Kant, o maior expoente do Iluminismo. Foi Kant — viveu entre 1724 e 1804 — quem criou a distinção entre o que ele chamou de universo não fenomenal e universo fenomenal. Em outros termos podemos dizer que essa distinção era entre o que é metafísico daquilo que é físico. Ele também estabeleceu uma distinção entre a razão prática — a fé — e a razão pura. Essas distinções formuladas por Kant são a base de todo o pensamento moderno e são fundamentais para a nossa compreensão da fé e da história em nossos dias. Apesar de rejeitar as distinções de Kant, não deixamos de reconhecer sua importância para o entendimento da Teologia em nossos dias e, especialmente, para o entendimento das questões relacionadas à busca do Jesus histórico.

Para Kant o universo metafísico é o de Deus, da liberdade e da imortalidade. Apenas a razão prática ou a fé tem acesso a esse universo. O universo físico, por sua vez, está acessível aos sentidos humanos e pode ser controlado pelo exercício da razão pura. Todas as ciências humanas se ocupam, exclusivamente, do mundo físico, daquilo que pode ser percebido pelos sentidos. De fato, todas as ciências, a partir de Kant, adotaram essa forma de pensamento e aceitaram a distinção de Kant entre o universo não fenomenal do universo fenomenal. Foi exatamente essa forma de raciocínio que permitiu o surgimento de uma distinção fundamental no campo da Teologia. Estamos falando da distinção dicotômica ente Historie e Geschichte. Essa dicotomia por sua vez, nos remete para a filosofia dos gigantes gregos: Sócrates, Platão e Aristóteles.

A distinção ensinada por Kant dissociou Deus e Sua revelação de todos os aspectos do pensamento humano e, claro, não deixou de afetar a própria Teologia. As pressuposições da história foram mudadas para rejeitar e excluir qualquer elemento considerado sobrenatural. E esse fato está na raiz do que estamos chamando da busca moderna pelo Jesus histórico. A partir de Kant a ênfase dos estudos da história foi completamente colocada sobre a base que todos os fenômenos históricos precisavam ser avaliados, puramente, a partir de elementos naturais, numa relação direta de causa e efeito. Todos os elementos relacionados com a revelação e as ações divinas na história são excluídas como ponto de partida. De posse das ferramentas modernas supridas pelo Iluminismo o historiador precisa fazer duas perguntas: O que realmente aconteceu?  O que realmente aconteceu? Começando com essas perguntas esperava-se que o historiador pudesse respondê-las de modo objetivo deixando de lado todas as pressuposições. A ideia era simples: vamos retirar todos os dogmas antigos da Igreja cristã. Vamos excluir todas as afirmações previamente feitas pela Igreja e pela Teologia. Vamos examinar as escrituras como sendo apenas um livro humano. Colocando de lado toda e qualquer pressuposição o historiador tem a responsabilidade de descobrir quem, na realidade, foi esse tal de Jesus. Desse modo, alegava-se que o historiador objetivo poderia nos dizer, exatamente, como as coisas aconteceram. Mas logo alguém afirmou o seguinte: a ideia de que é possível entramos na história sem nenhum pressuposto é tão ingênua que se parece mais com a ideia que um historiador pode ser neutro em sua abordagem. Mas, à medida que avançarmos em nossa análise ficará claro que tais pressuposições mostraram-se completamente falsas.

Quando o Iluminismo começou a influenciar as áreas do conhecimento humano não demorou muito para que tal influência atingisse a Teologia e os teólogos em cheio. No século XIX teólogos como Friedrich Schleiermacher e Albrecht Ritschl abandonaram os estudos teológicos para mergulhar de cabeça na história com a intenção de tornar a teologia aceitável no meio científico à luz da filosofia kantiana. Todavia, ainda nos dias de Kant, o filósofo Gotthold Lessing — viveu entre 1729 e 1891 — levantou a seguinte questão: É possível que um fato acidental da história humana tenha significado eterno? Essa pergunta é extremamente importante, especialmente para nós os cristãos. Não podemos negligenciar a mesma nem aceitar os pífios argumentos desenvolvidos para ofuscá-la. E não existe nenhum modo de respondermos a essa pergunta, senão por meio de afirmações relacionadas com a fé. Por exemplo, a cruz de Cristo é um exemplo típico do que estamos falando. O mesmo foi um evento tremendamente importante. Nossa salvação eterna depende desse fato glorioso acerca de Cristo —

Romanos 4:25

O qual foi entregue por causa das nossas transgressões e ressuscitou por causa da nossa justificação.

De fato, todos os eventos relacionados à pessoa de Jesus foram tremendos — sua encarnação, sua crucificação e sua ressurreição. E tudo isso aconteceu na história da Palestina duma vez por todas e, como diz Karl Barth, o que Deus fez não pode ser modificado por ninguém. Está feito e ponto. Dessa forma, todos os que se propõem abordar a história a partir de pressuposições iluministas — isto é, pressuposições meramente humanas — precisam responder à seguinte pergunta: de que maneira um avento acontecido na história passada na longínqua Palestina pode ter importância eterna? Não é difícil perceber que ao fazermos tal pergunta, nós estamos dirigindo nossa atenção para o coração da fé cristã. A pergunta de Lessing é, de fato, a pergunta que os proponentes originais da busca histórica pelo verdadeiro Jesus se propuseram a responder.

CONTINUA...

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Alexandros Meimaridis

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domingo, 28 de dezembro de 2014

LUIZ FELIPE PONDÉ FALA DA RELIGIOSIDADE DOS BRASILEIROS


O filósofo Luiz Pondé

O material abaixo foi publicado pela revista Cristianismo hoje

Entrevista com o professor e escritor Luiz Felipe Pondé

O filósofo e cientista da religião analisa a religiosidade no Brasil e identifica qualidades na postura evangélica de combater o relativismo.

Escrito por  Carlos Fernandes

Um dos maiores críticos da moda do politicamente correto, o filósofo e escritor Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé é daqueles intelectuais que parecem não se preocupar muito com as repercussões do que diz. Critica o PT no governo com a mesma acidez com que debocha do sujeito que passa horas no Facebook procurando causas nobres para defender e posar de bom moço. “Para os defensores do politicamente correto, tudo é justificado dizendo que você é pobre, gay, negro ou índio”, ironiza. Pernambucano de 55 anos, graduou-se em Medicina na juventude, mas foi com a Filosofia – na qual chegou ao pós-doutorado – que Pondé se tornou conhecido e respeitado no meio acadêmico. Pela densidade de suas obras, como Conhecimento na desgraça: Ensaio da epistemologia pascaliana ou Crítica e profecia: Filosofia da religião em Dostoiévski, pode parecer à primeira vista um eremita de biblioteca, escrevendo coisas que um simples mortal não compreende. Mas, não – em sua coluna semanal na Folha de São Paulo, Pondé trata de temas da vida cotidiana e analisa relacionamentos humanos como num papo de mesa de escritório. O intelectual fala até mesmo de futebol, como em Amarelou, texto escrito pouco depois do indescritível vexame brasileiro na Copa do Mundo.

Luiz Felipe Pondé também se destaca no estudo e crítica da religião. Professor de Ciências da Religião na respeitada Pontifícia Universidade Católica, ele tem origem judaica, já foi ateu e hoje flerta filosoficamente com o divino. “Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia”, admite. Mesmo assim, enxerga no mundo uma beleza e uma misericórdia no mundo que não consegue explicar pelas vias racionais: “Acho Deus a hipótese mais elegante que existe acerca do universo e da vida”. Nesta conversa com CRITIANISMO HOJE – a segunda consecutiva da revista com grandes autores nacionais –, Pondé fala sobre o momento religioso no Brasil, desde as consequências do crescimento evangélico até ao significado da inauguração recente do chamado Templo de Salomão, em São Paulo. “Com ele, a Igreja Universal quer se reposicionar no mercado da fé”, sintetiza, sem rodeios. “Os evangélicos mais éticos sofrem com o efeito de massificação do neopentecostalismo”. Com o perdão do lugar-comum, a entrevista é imperdível.

CRISTIANISMO HOJE – Que tipo de contribuição a fé evangélica, que a cada dia cresce mais no Brasil, pode trazer a um país onde, até poucas décadas, o catolicismo era praticamente absoluto?

LUIZ FELIPE PONDÉ – Antes de tudo, esse crescimento traz contribuições para o mercado religioso: mais opções e mais competição dentro do espectro cristão. Os evangélicos têm uma história combativa distante da chave marxista, coisa que a Igreja católica perdeu há muito tempo. Eles valorizam a iniciativa pessoal, já que o protestantismo é marcado pela capacidade de produzir riqueza, isso é muito bom para o país. Há um maior aprofundamento da ética cristã clássica, no caso do protestantismo não avivado. Do ponto de vista dos chamados hábitos morais, esse crescimento pode implicar numa guinada conservadora.  No geral, eu diria que o enfrentamento do relativismo comum de nossa época, algo típico dos evangélicos, é bom para o debate público.

O que o senhor chama de “guinada conservadora” é, necessariamente, ruim?

O problema é que guinadas conservadoras em moral podem complicar a tolerância entre diferentes, e isso pode ser uma desvantagem. Mas, por outro lado, elas tornam a vivência do Cristianismo no Brasil mais intensa.

Observa-se, nas igrejas e instituições religiosas, de modo geral, um contínuo processo de esvaziamento. Já se fala, hoje, em “evangélicos nominais”, assim como, durante muito tempo, consagrou-se a figura do “católico não-praticante”.

O processo de secularização ocidental, por si só, explica o fenômeno?
Acho que o secularismo é, sim, uma das causas. E, também, a distância, muitas vezes observada, entre a religião e as demandas cotidianas da vida contemporânea. Por outro lado, a institucionalização das religiões é mal recebida pela população de maior formação cultural e acadêmica, e isso também é um fato. Por isso, vemos espiritualidades que mesclam elementos de várias crenças, misturando, por exemplo, o Budismo com um “jeito Jesus de ser”, amoroso, tolerante – isso ajuda a aceitar a fé fora ditames institucionais. Há outros fatores que explicam esse esvaziamento. O mundo contemporâneo é pautado por projetos centrados em soluções rápidas e com baixo comprometimento cotidiano. Cria-se uma fé no estilo Facebook, e aí, a tendência é mesmo à diminuição. O Facebook gera pessoas com muitas bravatas e pouco comprometimento.

O senhor fala muito de seu desconforto com a moda do politicamente correto, que inclusive é tema de um de seus livros. A pregação cristã sobre pecado, juízo divino e inferno pode ser considerada o contrário disso. Essa moda não pode acarretar, no médio prazo, uma pressão irresistível sobre a religião?

Já acarretou. O politicamente correto é um fenômeno de mercado. A sociedade de mercado produz forte ressentimento devido à produtividade de uns em comparação com a baixa produção de outros; logo, a noção do politicamente correto ajuda a acalmá-lo. O Cristianismo clássico combate o politicamente correto, porque ajuda a aprofundar a critica à condição humana. Na filosofia, ele continua tendo peso; mas, na pastoral, temo que caia sob a tutela da teologia da prosperidade, associada à sensibilidade mau-caráter do politicamente correto.

O pensamento único, hegemônico, gera o que o senhor já chamou de “dominância burra” e parece ser a tônica, hoje, no Brasil. Quais são os maiores danos desse tipo de ideologia em um país como o nosso, com baixos níveis de instrução e pensamento crítico?

O cultivo do ressentimento, da repressão da iniciativa privada e individual, o ódio de classe e o populismo. Acho que, no caso de uma nova vitória eleitoral do PT, coisa que pode acontecer, inclusive, graças ao voto evangélico, será uma devastação na economia, na liberdade de imprensa e na manutenção de esquemas de corrupção, sustentada no embuste ideológico [N.da Redação: A entrevista foi concedida antes das eleições de outubro].

A passagem do pastor e deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP) pela presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, entre março e dezembro do ano passado, provocou uma grita generalizada, sobretudo por conta de grupos de afirmação homossexual. Figuras evangélicas públicas enfrentam feroz resistência toda vez em que se pronunciam contra a homossexualidade, ainda que o façam por convicção pessoal ou de fé. A quem interessa isso?

Para a Igreja Católica, uma instituição cuja base do clero é socialista, os evangélicos são um risco, porque competem pelo mercado cristão. Mas, de outro ponto de vista, na medida em que os evangélicos formam a base do PT, católicos socialistas e evangélicos oportunistas se dão as mãos institucionalmente. Mesmo levando-se em conta a posição intolerante de muitos pastores que representam parte da opinião pública, os gays perderam a batalha, mesmo porque eles também formam, em grande parte, a base o governo. Portanto, acho que conflitos como esses ainda são perfumaria em política. No plano moral, onde há, de fato, o conflito, acho que os evangélicos têm ainda uma forte chance de resistir à chamada cultura gay, mas isso implica em rupturas políticas com partidos como o PT.

O recentemente inaugurado Templo de Salomão, megaconstrução da Igreja Universal do Reino de deus (Iurd) em São Paulo, gerou fortes críticas por promover a mistura de elementos do Judaísmo com a prática cristã, embora se possa criticar o Cristianismo pregado por Edir Macedo. Quais são, em sua opinião, as verdadeiras intenções da Universal com essa mudança de postura?

O Templo de Salomão está reposicionando a marca da Igreja Universal diante da perda competitividade da Iurd no mercado evangélico, que está muito aquecido. Esse reposicionamento se caracteriza pelo imaginário mágico que o Antigo Testamento carrega e pela ideia equivocada de que povo eleito é retribuído com prosperidade. A Universal quer criar seu novo povo eleito, sob a tutela do sumo sacerdote que é muito íntimo de Deus. Ora, ele recriou o templo judeu, e com isso também atrai sobre si mesmo a ideia de que ele está muito próximo do Messias Jesus. Repare que o afastamento do Judaísmo, pregado por Paulo nos primórdios do Cristianismo, também foi um posicionamento de uma “marca” jovem na época – a então recente seita herética judaica do galileu – em uma disputa no mercado de crenças no Império Romano. Mas não creio que certa “judaização” da Igreja Universal a faça perder consistência teológica, uma vez que só se perde o que se tinha um dia...

Isso não pode contaminar as outras correntes evangélicas?

Ainda é cedo para se dizer. Porém, religião é cultura, é promiscuidade simbólica permanente. Um dia, tudo é contaminado por tudo.

A lógica da recompensa divina à obediência, tão presente no Antigo Testamento, está na base da chamada teologia da prosperidade. Ela prega que, se o crente for fiel – através de contribuições financeiras –, necessariamente será abençoado por Deus. Não é uma apropriação desonesta?

A ideia de recompensa, tão inerente à teologia da prosperidade, erra ao entender que a eleição implica em uma dinâmica de retribuição. No Tanach (a Bíblia hebraica), todos os eleitos de Deus sofrem, inclusive Cristo no Novo Testamento. Deus é livre para fazer o que quer e nada nos deve. A Aliança, que nós quebramos, persiste por sua misericórdia, apenas. Acho que o ressentimento típico da herança adâmica se manifesta em toda teologia da retribuição, que é o caso da teologia da prosperidade. Porém, a interpretação na chave retributiva da eleição – a ideia de que Israel é rico e poderoso graças à “magica” do Antigo Testamento – erra porque a história do povo hebreu, apreendida no dia a dia, é de dor e sofrimento. Viver cobrando de Deus a promessa de sucesso e de felicidade é viver em idolatria. Ser eleito pelo Deus de Israel faz de você um sacerdote e de sua vida, um holocausto. A alegria nunca deve ser fruto da lógica retributiva do temor a Deus.

Em um de seus artigos para a Folha de São Paulo, no qual analisou o conflito entre forças israelenses e o grupo islâmico Hamas, o senhor disse que a questão da eleição de Israel por Deus, conforme descrita no Antigo Testamento – e que é a base do sentimento evangélico pró-Israel –, tem sido muito mal interpretada e apropriada, indevidamente, pelo discurso neopentecostal. Pode explicar melhor isso?

Em primeiro lugar, acredito que o apoio dos evangélicos a Israel é corajoso. Ele mostra, independentemente da concordância com suas posições, como o mundo evangélico tem sido uma das últimas resistências ao pensamento único e ao antissemitismo travestido de antissionismo que assola o mundo da mídia e da academia. Quanto à interpretação da eleição de Israel, o Cristianismo, em geral, entende-a mal. A intimidade do povo de Israel com Deus implica menor livre arbítrio do que o dos outros povos. Israel é menos livre. Deus faz uso dele quando quer. Os judeus veem a incompreensão da condição do Estado de Israel hoje como mais uma amostra da solidão de quem tem a mão de Deus sobre sua cabeça.

Figuras midiáticas do segmento neopentecostal, como Edir Macedo, Silas Malafaia e Valdemiro Santiago, entre outros, são vistos, pela sociedade em geral e amplos setores da imprensa, como representantes do movimento evangélico nacional, embora sejam refutados e até condenados por grande número de crentes. Numa sociedade de consumo, em que os veículos de informação, com os mais variados interesses, moldam a opinião pública, como os evangélicos mais preocupados com a ética cristã serão reconhecidos e diferenciados em relação àqueles que fazem da fé um simples instrumento de proveito próprio?

Os evangélicos mais éticos sofrem com o efeito de massificação do neopentecostalismo. Eles têm menos força no mercado de consumo de bens religiosos cristãos. Seu futuro é o futuro de todo mundo que não tem acesso à massificação. As redes sociais podem ajudar um pouco. Creio que um possível caminho é o da produção intelectual e a entrada no debate público de modo erudito, consistente e com elementos da cultura secular. Mais difícil é o preconceito contra evangélicos em geral. Os escândalos envolvendo líderes e políticos evangélicos têm um efeito explosivo como todo efeito de massa associado ao preconceito.

Então, aquela figura do crente como um sujeito correto, confiável e respeitável está definitivamente superada?

Acho que esta imagem está superada. Um misto do crente como o “certinho” reprimido permanece, mas tende a capitular diante dessa outra a outra, ou ficar apenas associada às “igrejas pobres”.

E como fazer para superar esse preconceito social?

Para vencê-lo, massificação neopentecostal não ajuda, porque reforça a imagem de intolerância e abuso da ingenuidade dos fiéis. Acho que os evangélicos mais éticos, como você fala, devem invadir as universidades e ler Nietzsche sem medo.
O senhor diz que deixou de ser ateu, apesar da sua formação em filosofia e toda uma trajetória humanista. Quem é Deus, hoje, para Luiz Felipe Pondé?

Acho Deus a hipótese mais elegante que existe acerca do universo e da vida. Toda vez que vejo a generosidade e a beleza no mundo, sinto que estou diante do milagre. Permaneço filosoficamente ateu, mas, as experiências com a doçura e beleza no mundo me fazem pressentir alguma misericórdia que não sei de onde vem. O que me interessa em teologia é a mística.

A ideia de um Deus criador e sustentador do universo ainda é viável no mundo pós-moderno?

Sim, ela é viável, como mais uma no supermercado de bens invisíveis de sentido para a vida.

O artigo original da Cristianismo Hoje, poderá ser visto por meio do seguinte link:


NOSSOS COMENTÁRIOS

1. As respostas de Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé não representam em nenhuma hipótese as opiniões do blog o Grande Diálogo. Todavia achamos que o mesmo tem uma contribuição a fazer para o debate envolvendo os evangélicos hoje em dia no Brasil. Essa é nossa motivação em publicar sua entrevista.

2. Por outro lado como ele mesmo se define como um “ateu” e “Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia”, não temos mesmo que esperar nenhuma resposta que reflita uma perspectiva cristã e muito menos reformada, vinda de sua parte.
3. Luiz Felipe de Cerqueira e Silva Pondé parece que ao fazer seus cursos de filosofia ficou estanque entre Marx e Nietzsche. Quem tem medo de ler Nietzszche?

4. Também achamos logicamente questionável fazer uma leitura dos dias presentes e depois inseri-la nos dias dos cristãos do primeiro século a.D.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 3 de junho de 2014

EUROPA REGISTRA 241 CASOS DE PERSEGUÇÃO A CRISTÃOS EM 2013


Intolerância e perseguição religiosa contra cristãos cresce na Europa, dizem pesquisadores

O material abaixo foi publicado pelo site da ANAJURE:

OBSERVATÓRIO EUROPEU APRESENTA RELATÓRIO COM 241 CASOS DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA CONTRA CRISTÃOS OCORRIDOS EM 2013 NO CONTINENTE.

Por ANAJURE.

O Observatório de Intolerância e Discriminação contra Cristãos na Europa divulgou no dia 15 de maio o Relatório 2013, com 53 páginas onde são relatados 241 casos de intolerância contra cristãos na Europa. Os casos apresentados são documentados individualmente. O relatório original poderá ser visto por meio desse link aqui:


O Observatório é uma entidade não governamental sediada na Áustria, que monitora e cataloga os casos de intolerância na Europa. O foco do órgão é monitorar toda a União Europeia, países candidatos à adesão e outros territórios ligados à Europa. A entidade observa tanto os casos que são veiculados na mídia, quanto os casos reportados pessoalmente a eles. O objetivo deles é levar pessoas discriminadas a contarem abertamente os seus casos.

Os dados que o Relatório 2013 apresenta sugerem que os incidentes relacionados com o ódio contra os cristãos na Europa estão aumentando, e que um canal para isto tem sido as mídias sociais, pois em 15 casos registrados em seis países ocorreram postagens reconhecidas como preconceituosas, intolerantes, ou até antissociais. Considerando esta preocupante realidade, o documento traz orientações aos governos, instituições internacionais e aos próprios indivíduos em suas diferentes profissões para que estas violações sejam evitadas.

De acordo com a diretora do Observatório, a Dra. Gudrun Kugler, a secularização da sociedade europeia, tem contribuído cada vez mais para um menor espaço para o cristianismo e a fé. "Alguns governos e líderes da sociedade civil buscam excluir em vez de acomodar o cristianismo, e inúmeros casos de intolerância contra os cristãos nos são relatados. Ao pesquisar, documentar e publicar estes casos, esperamos que haja conscientização, que é o primeiro passo para uma solução”, afirma Kugler.

A intolerância apresentada no relatório está organizada por categorias, como: intolerância no direito e na política, e intolerância nas artes e na mídia. Casos de depredações também são relatados, e o Observatório já documentou 133 casos de vandalismo contra locais de culto cristãos em 11 países, o que é uma quantidade alarmante.

A Intolerância contra os cristãos no direito e na política ocorre principalmente no que diz respeito às limitações de objeção de consciência, a contenção da liberdade de expressão pela legislação, discurso de ódio, políticas de igualdade discriminatórias e a limitação dos direitos dos pais na área da educação sexual, bem como na área da liberdade de reunião. O relatório do ano passado publicou 41 leis em 14 países europeus que impedem o livre exercício da fé para os cristãos.

Outros 1.300 casos documentados podem ser encontrados aqui:


O artigo original da ANAJURE pode ser visto por meio desse link aqui:

NOSSO COMENTÁRIO


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Alexandros Meimaridis

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domingo, 13 de outubro de 2013

A DANÇA DAS CADEIRAS NA RELIGIOSIDADE BRASILEIRA


O novo retrato da fé no Brasil

Hoje estamos publicando uma reportagem da Revista ISTOÉ — edição 2180 — que trata do Novo Retrato da Fé no Brasil. Esse novo retrato revela uma gigantesca dança das cadeiras com pessoas trocando não apenas de denominações, dentro dum mesmo grupo, mas trocando, efetivamente de religiões. Algumas dessas trocas são bastante reveladoras, diga-se de passagem. Convidamos todos a ler o artigo abaixo:

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Silvio garcia era pastor evangélico e agora é pai de santo

O novo retrato da fé no Brasil

Pesquisas indicam o aumento da migração religiosa entre os brasileiros, o surgimento dos evangélicos não praticantes e o crescimento dos adeptos ao islã

Rodrigo Cardoso

Acaba de nascer no País uma nova categoria religiosa, a dos evangélicos não praticantes. São os fiéis que creem, mas não pertencem a nenhuma denominação. O surgimento dela já era aguardado, uma vez que os católicos, ainda maioria, perdem espaço a cada ano para o conglomerado formado por protestantes históricos, pentecostais e neopentecostais. Sendo assim, é cada vez maior o número de brasileiros que nascem em berço evangélico – e, como muitos católicos, não praticam sua fé. Dados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelaram, na semana passada, que evangélicos de origem que não mantêm vínculos com a crença saltaram, em seis anos, de insignificantes 0,7% para 2,9%. Em números absolutos, são quatro milhões de brasileiros a mais nessa condição. Essa é uma das constatações que estatísticos e pesquisadores estão produzindo recentemente, às quais ISTOÉ teve acesso, formando um novo panorama religioso no País.

Isso só é possível porque o universo espiritual está tomado por gente que constrói a sua fé sem seguir a cartilha de uma denominação. Se outrora o padre ou o pastor produziam sentido à vida das pessoas de muitas comunidades, atualmente celebridades, empresários e esportistas, só para citar três exemplos, dividem esse espaço com essas lideranças. Assim, muitas vezes, os fiéis interpretam a sua trajetória e o mundo que os cerca de uma maneira pessoal, sem se valer da orientação religiosa. Esse fenômeno, conhecido como secularização, revelou o enfraquecimento da transmissão das tradições, implicou a proliferação de igrejas e fez nascer a migração religiosa, uma prática presente até mesmo entre os que se dizem sem religião (ateus, agnósticos e os que creem em algo, mas não participam de nenhum grupo religioso). É muito provável, portanto, que os evangélicos pesquisados pelo IBGE que se disseram desvinculados da sua instituição estejam, como muitos brasileiros, experimentando outras crenças.

É cada vez maior a circulação de um fiel por diferentes denominações — ao mesmo tempo que decresce a lealdade a uma única instituição religiosa. Em 2006, um levantamento feito pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris) e organizado pela especialista em sociologia da religião Sílvia Fernandes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), verificou que cerca de um quarto dos 2.870 entrevistados já havia trocado de crença. Outro estudo, do ano passado, produzido pela professora Sandra Duarte de Souza, de ciências sociais e religião da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), para seu trabalho de pós-doutorado na Universidade de Campinas (Unicamp), revelou que 53% das pessoas (o universo pesquisado foi de 433 evangélicos) já haviam participado de outros grupos religiosos.

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ALÁ
Nogueira, muçulmano há um ano: no Rio, os convertidos e saltaram de 15% da comunidade para 85% em 12 anos.

“Os indivíduos estão numa fase de experimentação do religioso, seja ele institucionalizado ou não, e, nesse sentido, o desafio das igrejas estabelecidas é maior porque a pessoa pode escolher uma religião hoje e outra amanhã”, afirma Sílvia, da UFRRJ. “Os vínculos são mais frouxos, o que exige das instituições maior oferta de sentido para o fiel aderir a elas e permanecer. É tempo de mobilidade religiosa e pouca permanência.” Transitar por diferentes crenças é algo que já ocorre há algum tempo. A intensificação dessa prática, porém, tem produzido novos retratos. Denominadores comuns do mapa da circulação da fé pregam que católicos se tornam evangélicos ou espíritas, assim como pentecostais e neopentecostais recebem fiéis de religiões afro-brasileiras e do protestantismo histórico. Estudos recentes revelam também que o caminho contrário a essas peregrinações já é uma realidade.

Em sua dissertação de mestrado sobre as motivações de gênero para o trânsito de pentecostais para igrejas metodistas, defendida na Umesp, a psicóloga Patrícia Cristina da Silva Souza Alves verificou, depois de entrevistar 193 protestantes históricos, que 16,5% eram oriundos de igrejas pentecostais. Essa proporção era de 0,6% (27 vezes menor) em 1998, como consta no artigo “Trânsito religioso no Brasil”, produzido pelos pesquisadores Paula Montero e Ronaldo de Almeida, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Para Patrícia, o momento econômico do Brasil, que registra baixos índices de desemprego e ascensão socioeconômica da população, reduz a necessidade da bênção material, um dos principais chamarizes de uma parcela do pentecostalismo. “Por outro lado, desperta o olhar para valores inerentes ao cristianismo, como a ética e a moral cristã, bastante difundidas entre os protestantes históricos”, afirma.
Em busca desses valores, o serralheiro paraibano Marcos Aurélio Barbosa, 37 anos, passou a frequentar a Igreja Metodista há um ano e meio. Segundo ele, nela o culto é ofertado a Deus e não aos fiéis, como acontecia na pentecostal Assembleia de Deus, a instituição da qual Barbosa foi devoto por 16 anos, sendo sete como presbítero. O serralheiro cumpria à risca os rígidos usos e costumes impostos pela denominação. “Eu não vestia bermuda nem dormia sem camisa, não tinha tevê em casa, não bebia vinho, não ia ao cinema nem à praia porque era pecado”, conta. Com o tempo, o paraibano passou a questionar essas proibições e acabou migrando. “Na Metodista encontrei um Deus que perdoa, não um justiceiro.”


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AMÉM
É cada vez mais comum ex-pentecostais, como o atual metodista Barbosa,
que foi pastor da Assembleia de Deus (acima), aderirem às protestantes históricas

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A teóloga Lídia Maria de Lima irá defender até o final do ano uma dissertação de mestrado sobre o trânsito de evangélicos para religiões afro-brasileiras. A pesquisadora já entrevistou 60 umbandistas e candomblecistas e verificou que 35% deles eram evangélicos antes de entrar para os cultos afros. Preterir as denominações cristãs por religiões de origem africana é outro tipo de migração até então pouco comum. Não é, porém, uma movimentação tão traumática, uma vez que o currículo religioso dos ex-evangélicos convertidos à umbanda ou ao candomblé revela, quase sempre, passagens por grupos de matriz africana em algum momento de suas vidas. Pai de santo há dois anos, o contador Silvio Garcia, 52 anos, tem a ficha religiosa marcada por cinco denominações distintas – e a umbanda é uma delas. Foi aos 14 anos, frequentando reuniões na casa de uma vizinha, que Garcia, batizado na Igreja Católica, aprendeu as magias da umbanda. Nessa época, também era assíduo frequentador de centros espíritas. Aos 30, ele passou a cursar uma faculdade de teologia cristã e, com o diploma a tiracolo, tornou-se presbítero de uma igreja protestante. Um ano depois, migrou para uma pentecostal, onde pastoreou fiéis por seis anos. “Mas essas igrejas comercializam a figura de Cristo e eu não me sentia feliz com a minha fé”, diz.

A teóloga Lídia sugere que os sistemas simbólicos das religiões evangélica e afro-brasileira têm favorecido a circulação de fiéis da primeira para a segunda. “Há uma singularidade de ritos, como o fenômeno do transe. Um dos entrevistados me disse que muito do que presenciava na Igreja Universal (do Reino de Deus) ele encontrou na umbanda”, diz. Em suas pesquisas, fiéis do sexo feminino foram as que mais cometeram infidelidade religiosa (67%). Os motivos que levam homens e mulheres a migrar de religião foram investigados pela professora Sandra, da Umesp. Em outubro, suas conclusões serão publicadas em “Filosofia do Gênero em Face da Teologia: Espelho do Passado e do Presente em Perspectiva do Amanhã” (Editora Champanhat).


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SALVAÇÃO
Homens pensam em si quando buscam uma nova crença: Higuti, pastor da Bola de Neve, queria se livrar das drogas

Uma diferença básica entre os sexos é que as mulheres mudam de religião em busca de graça para quem está a sua volta (a cura para filhos e maridos doentes ou a recuperação do casamento, por exemplo). Já os homens são motivados por problemas de fundo individual. Assim ocorreu com o empresário paulista Roberto Higuti, 45 anos, que se tornou evangélico para afastar o consumo e o tráfico de drogas de sua vida. Católico na infância, budista e adepto da Igreja Messiânica e da Seicho-No-Ie na adolescência, Higuti saiu de casa aos 15 anos e se tornou um fiel seguidor do mundo do crime. Sua relação com as drogas foi pontuada por internação em hospital psiquiátrico, prisão e duas tentativas de suicídio. Certo dia, cansado da falta de perspectivas, viu uma marca de cruz na parede, ajoelhou-se e disse: “Jesus, se tu existes mesmo, me tira dessa vida maldita.” Há cinco anos, o empresário é pastor da neopentecostal Igreja Bola de Neve, onde ministra dois cultos por semana. “Quero, agora, ganhar almas para o Senhor”, diz.

Antes de se fixar na Bola de Neve, Higuti experimentou outras quatro denominações evangélicas. Mobilidades intraevangélicas como as dele ocorrem com aproximadamente 40% dos adeptos de igrejas pentecostais e neopentecostais, segundo a especialista em sociologia da religião Sílvia, da UFRRJ. Os neopentecostais, porém, possuem uma particularidade. Seus fiéis trocam de igreja como quem descarta uma roupa velha: porque ela não serve mais. São a homogeneização da oferta religiosa e a maior visibilidade de algumas denominações que produzem esse efeito. “Esse grupo, antigamente, era o tal receptor universal de fiéis, para onde iam todas as religiões. Hoje, a singularidade dele é o fato de receber membros de outras neopentecostais”, diz Sandra, da Umesp. “Quanto mais acirrada a concorrência, maior a migração.” A exposição na mídia, fundamentalmente na tevê, é a principal estratégia dos neopentecostais para roubar adeptos da concorrente direta. E cada vez mais as pessoas estabelecem uma relação utilitária com a religião. De acordo com a pesquisadora Sandra, se não há o retorno (material, na maioria das vezes), o fiel procura outra prestadora de serviço religioso. Estima-se, por exemplo, que 70% dos atuais adeptos da Igreja Mundial – uma dissidente da Universal – tenham migrado para lá vindos da denominação de Edir Macedo. “Entre os neopentecostais não se busca mais um líder religioso, mas um mago que resolva tudo num estalar de dedos”, diz Sandra. “Essa magia faz sucesso, mas tem vida curta, uma vez que o fiel se afasta, caso não encontre logo o que quer.”


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SEM LAÇOS
Lucina não segue nenhum credo, mas quando quer alcançar uma graça procura algum serviço religioso: 30% fazem o mesmo anualmente

Cansada de pular de uma crença para outra, a artesã paulista Lucina Alves, 57 anos, não sente mais necessidade de pertencer a uma igreja. Há oito anos, ela diz ser do grupo dos sem-religião. No entanto, recorre a ritos de fé, principalmente católicos, espíritas e da Seicho-No-Ie, sempre que sente vontade de zelar pelo bem-estar de alguém. “Há um mês, fui até uma benzedeira ligada ao espiritismo para ajudar meu filho que passava por problemas conjugais”, diz. Dados do artigo “Trânsito religioso no Brasil” revelaram que 30,7% das pessoas que se encontram na categoria dos sem-religião frequentam algum serviço religioso anualmente e 20,3% fazem o mesmo mais de uma vez por mês. “Já participei de reuniões evangélicas de orações em casa de familiares”, conta Lucina.

A artesã não cultua santos, crê em Deus, Jesus Cristo e acende vela para anjos. No campo das ciências da religião, manifestações espirituais como as dela são recentes e vêm sendo tema de novos estudos. A migração de brasileiros para o islã é outro fenômeno que cresce no País. O número de convertidos na comunidade muçulmana do Rio de Janeiro, por exemplo, saltou de 15% em 1997 para 85% em 2009. Ex-umbandista que hoje atende por Ahmad Abdul-Haqq, o policial militar paulista Mario Alves da Silva Filho tem um inventário religioso de dar inveja. Batizado no catolicismo, aos 9 anos estreou na umbanda em uma gira de caboclo e baianos. Um ano depois, juntando moedas que ganhava dos pais, comprou seu primeiro livro, sobre bruxaria. Aos 14, passou a frequentar a Federação Espírita paulista, onde fez cursos para trabalhar com incorporações e psicografia. Aos 17 anos, trabalhou em ordens esotéricas ao mesmo tempo que dava expediente na umbanda. O policial, mestrando em sociologia da religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), decidiu se converter ao islã quando fazia um retiro de padres jesuítas. Em uma noite, sonhou com um árabe que o indicava o islã como resposta para suas dúvidas. Aos 29 anos, ele entrou em uma mesquita e disse que queria ser muçulmano. Saiu dela batizado e, desde então, faz cinco orações e repete frases do “Alcorão” diariamente. “Descobri que sou uma criatura de Deus e voltarei ao seio do Criador.”


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MECA
Migração atípica: o policial Filho, de currículo religioso extenso, trocou  a umbanda pelo islã

Faz dez anos que o número de convertidos ao islã no País aumentou. E não são os atentados às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, que marcam esse novo fluxo, mas a novela “O Clone”, da Globo. Foi ela que “introduziu no imaginário cultural brasileiro imagens bastante positivas dos muçulmanos como pessoas alegres e devotadas à família”, como defende Paulo Hilu da Rocha Pinto em “Islã: Religião e Civilização – Uma Abordagem Antropológica” (Editora Santuário), de 2010. “De lá para cá, a conversão de brasileiros cresceu 25%. Em Salvador, 70% da comunidade é de convertidos”, diz a antropóloga Francirosy Ferreira, pesquisadora de comunidades muçulmanas da Universidade de São Paulo (USP), de Ribeirão Preto.

Assistente financeiro, o paulista Luan Nogueira, 23 anos, tornou-se muçulmano há um ano. Por indicação de um amigo, passou a pesquisar o islã e descobriu que o discurso estigmatizado criado após o 11 de setembro, que relacionava a religião à intolerância e à violência, não era verdadeiro. “Encontrei na mesquita e no “Alcorão” a ética da boa conduta”, diz. “Me sinto mais próximo de Deus no islã.” Para o professor Frank Usarski, do Centro de Estudo de Religiões Alternativas de Origem Oriental, da PUC-SP, o atrativo do islã é o fato de não ter perdido, diferentemente de outras religiões, a competência da interpretação completa da vida. “Ele oferece um guarda-chuva de referências para esferas como economia e ciência”, diz Usarski.


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ORIXÁS
Ex-liderança evangélica, Garcia largou os cultos cristãos (abaixo) para se tornar pai de santo

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Segundo o escritor Pinto, que também é professor de antropologia da religião na Universidade Federal Fluminense, o islã permite aos adeptos uma inserção e compreensão sobre questões atuais, como, por exemplo, a Palestina, a Guerra do Iraque e segurança internacional, para as quais outros sistemas religiosos talvez não deem respostas. “Se a adoção do cristianismo em contextos não europeus do século XIX pôde ser definida com uma conversão à modernidade, a entrada de brasileiros no islã pode ser vista como uma conversão à globalização”, escreve ele, em seu livro.

É cada vez mais comum, no País, fiéis rezando com a cartilha da autonomia religiosa. Esse chega para lá na fé institucionalizada tem conferido características mutantes na relação do brasileiro com o sagrado, defende a professora Sandra, de ciências sociais e religião da Umesp. “Deus é constituído de multiplicidade simbólica, é híbrido, pouco ortodoxo, redesenhado a lápis, cujos contornos podem ser apagados e refeitos de acordo com a novidade da próxima experiência.” Agora é o fiel quem quer empunhar a escrita de sua própria fé.

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O artigo original poderá ser visto por meio do seguinte link:

http://www.istoe.com.br/reportagens/152980_O+NOVO+RETRATO+DA+FE+NO+BRASIL

Para entender mais sobre a atual situação da religiosidade no Brasil recomendamos a leitura de nosso artigo acerca das estatísticas do IBGE do censo de 2010 tabuladas pelo BEPEC. O mesmo poderá ser acessado por meio desse link aqui


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Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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