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domingo, 3 de agosto de 2014

ESCUDOS HUMANOS NA FAIXA DE GAZA



O material abaixo foi publicado pelo site da Revista Carta Capital

Internacional

Opinião

O Hamas e seus 2 milhões de escudos humanos

Diante de um adversário impiedoso, o Hamas utiliza uma tática que coloca em risco toda a população da Faixa de Gaza

por José Antonio Lima 

Crianças palestinas em Gaza
Crianças palestinas voltam para casa em Shejaiya, distrito de Gaza obliterado pelas Forças Armadas israelenses. Segundo Israel, o local era usado pelo Hamas para fabricar e estocar foguetes

O elevado número de civis palestinos mortos na Operação Protective Edge (Borda Protetora) tem feito Israel, e seus defensores, baterem repetidas vezes na tecla de que o Hamas utiliza escudos humanos. O assunto é bastante controverso, mas a realidade é que, a despeito de Israel estar realizando ataques desproporcionais, a tática do Hamas de fato coloca toda a população da Faixa de Gaza em perigo.

Na quinta-feira 31, as Forças Armadas israelenses divulgaram dois vídeos importantes. O primeiro, mostra imagens aparentemente captadas por drones do que seriam 12 lançamentos de foguetes a partir de áreas civis na Faixa de Gaza.

O segundo mostra a vistoria feita por soldados em uma mesquita destruída em combate. É possível ver armas pesadas que, segundo os israelenses, estariam escondidas no templo, também usado para acobertar entradas da rede de túneis utilizada pelo Hamas.

Desde o início da operação, a Unrwa, a agência da ONU para os refugiados palestinos, encontrou foguetes em três de suas escolas, que estavam vazias. Em 29 de julho, outro vídeo divulgado pelos militares israelenses mostrou o que seriam os lançamentos de três foguetes a partir de uma escola em Gaza.

Em 25 de julho, em análise sobre possíveis crimes de guerra cometidos por Israel e Hamas, a Anistia Internacional lembrou que, em conflitos anteriores, a ONG documentou o uso de instalações civis como depósito de armas e local de lançamento de foguetes por parte de facções palestinas contra alvos civis israelenses, o que é ilegal. Desta vez, sobre a questão do possível uso de escudos humanos, há relatos, afirma a Anistia, de que o Hamas tem pedido para a população permanecer em suas casas mesmo com os avisos de Israel, feitos por telefonemas e por panfletos, sobre ataques iminentes em áreas civis. Para a Anistia, isso não configura crime de guerra oficialmente, uma nomenclatura que exigiria ordens diretas a civis para proteger instalações e equipamentos militares. Com base nisso, repórteres da BBC e do jornal The New York Times disseram não ter visto evidências de uso de escudos humanos.

Israel não tem dúvidas sobre a tática do Hamas. Para o governo israelense, o grupo palestino usa este artifício com o objetivo de aumentar o número de vítimas civis e fazer o Hamas ganhar a “guerra da propaganda”. “Nós pedimos para a população: ‘saiam’. Nós pedimos a eles de novo e de novo. Nós ligamos para eles, mandamos mensagens de texto, damos panfletos. Nós pedimos que eles saiam, e alguns saem. O Hamas diz: ‘não saiam, nós proibimos vocês’. Então o Hamas está usando essas pessoas, esses civis, como escudos humanos”, disse Benjamin Netanyahu, o premier israelense, em entrevista à BBC em 20 de julho.

Há duas ponderações importantes sobre as acusações. A primeira é que a Faixa de Gaza é um território minúsculo, de 11 quilômetros por 40 quilômetros, onde moram 1,8 milhão de pessoas. Quase todas as áreas são densamente povoadas, o que dificultaria a separação entre áreas militares e civis mesmo que o Hamas desejasse fazer essa distinção. As considerações sobre o tamanho da Faixa de Gaza costumam irritar os israelenses, mas até a ex-secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, falou sobre isso em entrevista recente. A segunda ponderação é mais importante. Como afirmou à CNN na semana passada Hanan Ashrawi, da Organização para a Libertação da Palestina, o Hamas não é só uma guerrilha, mas também um movimento islâmico responsável por escolas, creches e hospitais. O Hamas é ainda um partido político, e também o governo da Faixa de Gaza. Inúmeras instituições civis, assim, pertencem ao grupo. Se Israel tem o Hamas como um todo como alvo, tem sob sua mira todas essas instalações.

Mesmo diante dessas observações e, da constatação de que o Hamas não está cometendo um crime de guerra no rigor da lei, é óbvio que os atos do grupo militante colocam em risco a população palestina.

Em 17 de julho, reportagem do jornal The Washington Post revelou que o subterrâneo do hospital Al-Shifa, o mais importante da cidade de Gaza, se tornou o “quartel general dos líderes do Hamas, que podem ser vistos nos corredores e escritórios”. O pouco destaque dado a essa informação na imprensa internacional indignou publicações pró-Israel, como a revista judaica Tablet, que fez uma longa reportagem detalhando como os jornalistas estrangeiros são ameaçados pelo Hamas.

Há evidências para corroborar a crítica. Na semana passada, o jornal francês Libération tirou do ar uma reportagem no qual seu colaborador Radjaa Abou Dagga descrevia como fora ameaçado por integrantes do Hamas. A alteração se deu a pedido do jornalista, que tem familiares em Gaza. O jornal Algemeiner, judaico como a Tablet, teve acesso ao relato de Dagga e conta que o jornalista foi interrogado dentro do hospital Al-Shifa. Na terça-feira 29, o repórter italiano Gabriele Barbati afirmou que os jornalistas estrangeiros em Gaza são mesmo ameaçados pelo Hamas. Pelo Twitter, Barbati confirmou que um ataque na segunda-feira 28 contra o campo de refugiados de Shati, na cidade de Gaza, que matou nove crianças, foi fruto de um erro do Hamas, e não das forças israelenses.

O fato de apenas publicações judaicas, como a Tablet e o Algemeiner, darem destaque para as ameaças feitas pelo Hamas a jornalistas fortalece a tese, vigente em círculos pró-Israel, de que o país é perseguido, e também a vitimização utilizada pelo governo israelense para ganhar apoio interno. Lamentavelmente, dá argumentos para quem busca deslegitimar o jornalismo que é feito na Faixa de Gaza e, assim, defender as ações israelenses. O ápice desta prática foi o post de David Bernstein no blog The Volokh Conspiracy, do Washington Post, com “40 perguntas para a mídia internacional“. Há pontos válidos, mas as perguntas acabam por tentar tirar a credibilidade de todo o jornalismo feito na Faixa de Gaza.

Como já dito, as hostilidades atuais só tiveram início por conta de uma atuação deliberada do governo Netanyahu. Uma vez iniciado o conflito, no entanto, sua dinâmica deixa claro que Israel e o Hamas compartilham um abominável desprezo pelas vidas de civis palestinos. O uso de tanques de guerra e artilharia naval e aérea em áreas residenciais é crime de guerra, pois viola o ponto da Convenção de Genebra que proíbe ataques intencionais contra populações civis. Isso não absolve o Hamas, entretanto. O grupo diz lutar pela liberação da Palestina e dos palestinos, mas suas ações são imorais e eticamente condenáveis, pois nada mais fazem do que colocar os habitantes da Faixa de Gaza sob risco. Essas quase 2 milhões de pessoas podem não ser escudos humanos na letra fria da lei, mas o são de fato.

O artigo original do site da Carta Capital poderá ser visto por meio desse link aqui:


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Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 29 de julho de 2014

ISRAEL ESTÁ COLHENDO O QUE PLANTOU EM GAZA


Palestinos em fuga por suas vidas.

O artigo abaixo foi escrito pela jornalista israelense Amira Haas e publicado no jornal israelense Haaretz. Hoje os mortos na faixa de Gaza passam de MIL e os feridos de 6000! Mas Israel insiste em dizer que é a vítima e que tem o direito de se defender.

COLHENDO O QUE NÓS PLANTAMOS EM GAZA

Aqueles que transformaram Gaza num campo de concentração para 1.8 milhão de pessoas, não deveriam se surpreender que seus habitantes estejam cavando túneis por baixo da terra.

Por Amira Hass

July 22, 2014 - "Haaretz"

Eu já levantei a bandeira branca. Já me cansei de procurar no dicionário pela palavra que descreve um menino ao qual falta metade da cabeça, enquanto seu pai grita: “Acorda, acorda, eu comprei um brinquedo novo para você” Como foi mesmo que Angela Merkel, a primeira ministra da grande Alemanha, disse? “Israel tem o direito de se defender”.

Eu continuo lutando com a necessidade de compartilhar detalhes do sem número de conversas que tive com amigos em Gaza, com o objetivo de documentar como é aguardar sua vez de ir para o matadouro. Por exemplo, a conversa que tive sábado pela manhã com J., do campo de refugiados de al-Bureij, enquanto seguia para Dir-alBalah, com sua esposa. Os dois têm cerca de 60 anos. Naquela manhã, sua velha mãe recebeu uma chamada telefônica e ouviu a gravação instruindo os residentes do campo de refugiados a irem para Dir-al-Balah.

Um livro escrito acerca da psicologia do exército israelense deveria ter um capítulo inteiro dedicado a esse sadismo, que está disfarçado sob a ideia de misericórdia: uma mensagem gravada exigindo que centenas de milhares de pessoas deixem seus lares que já são alvos, para outro local, igualmente perigoso cerca de 10 quilômetros de distância. Por que, eu perguntei a J., vocês estão indo embora. “O quê, por que”? Ele disse: “Nós temos uma pequena casa próxima da praia, com um pedaço de terra e alguns gatos. Nós vamos lá para alimentar os gatos. Depois que dermos comida para os gatos retornaremos. Nós vamos juntos. Se nosso carro for explodido, morreremos juntos”.

Se eu estivesse usando o chapéu de um analista, eu escreveria: Em contraste com o israelense “diplomático”, o Hamas não está forçando nenhum habitante de Gaza a permanecer em suas casas, nem a deixá-las. A decisão é deixada nas mãos dos próprios cidadãos. Para onde eles podem ir? “Já que temos mesmo que morrer, é algo mais digno morrer dentro de nossas próprias casas, em vez de morrermos enquanto estamos tentando fugir” me diz de modo direto o secular J.

Eu continuo convencida que uma frase como essa vale mais do que mil análises. Mas quando se trata de palestinos a maioria das pessoas prefere os resumos.

Eu estou farta de mentir para mim mesma — como se eu fosse capaz de, remotamente, reunir as informações necessárias para narrar aquilo que os jornalistas que estão lá dentro da Faixa de Gaza estão narrando. De qualquer forma, essas informações são importantes para um pequeno grupo da população que fala hebraico em Israel. Na maioria dos casos essas pessoas estão buscando notícias nos canais estrangeiros ou na internet. Eles não dependem, daquilo que é escrito em Israel para serem informados, por exemplo, acerca das curtas vidas de Jihad (11 anos), Wassim (8 anos) Shuhaibar ou seu primo Afnan (de 8 anos) que habitavam em Sabra, na Faixa de Gaza. Como eu eles também podem ler as notícias escritas pelo jornalista Jesse Rosenfeld no The Daily Beast.   

“Issam Shuhaibar, o pai de Jihad e Wassim, curvou-se próximo ao túmulo onde seus filhos foram sepultados, com seus olhos marejados, olhando perdidos para o nada. Seu braço tinha um curativo depois dele ter feito uma doação de sangue na tentativa de tentar salvar sua família. O sangue de seus filhos ainda manchava sua camisa”, escreve Rosenfeld. “Eles estavam alimentando galinhas quando o petardo os atingiu, ele disse. Eu ouvi um grande barulho no telhado e corri para encontrá-los. Eles eram apenas pedaços de carne, ele engasgou antes de desatar a chorar”, continua o artigo de Rosenfeld. Nós assassinamos essas crianças duas horas e meia depois que o cesar fogo terminou na última quinta feira. Dois outros irmãos, Oudeh (16 anos) e Bassel (8 anos) foram feridos. Bassel foi ferido gravemente.

O pai contou para Rosenfeld que houve um míssil de advertência. Antes do ataque eles ouviram o barulho do drone israelense marcando os locais a serem atingidos como se fosse uma “batida no telhado”. Então eu perguntei a Rosenfeld: “Se o míssil era uma míssil de misericórdia, como os que são enviados como tiros de advertência, porque a casa foi bombardeada logo em seguida”? Por pura sorte eu consegui encontrar a resposta para minha pergunta numa reportagem feita pela CNN. Uma câmera do canal estadunidense conseguiu capturar a imagem da explosão que veio logo depois do tiro de advertência: o mesmo derrubou parte da casa, causou um incêndio, muita fumaça e levantou muita poeira. Mas não foi a casa de Shuhaibar que foi atingida e sim outra casa. Isso deu ocasião para o exército israelense afirmar que a bomba que matou as crianças foi um foguete perdido do próprio Hamas. Mas eu chequei com Rosenfeld e outras pessoas e todas elas foram unânimes em afirmar que o míssil que matou as crianças foi o míssil de advertência do exército de Israel. Issam Shuhaibar é um policial palestino que recebe seu salário da Autoridade Palestina localizada em Ramalá.

Também desisti de tentar receber uma explicação das Forças de Ataque de Israel. Será que eles advertiram, por engano, a casa errada, e assim mataram aquelas crianças? (2 entre as 84 crianças mortas na manhã de domingo).

Eu estou cheia com os esforços fracassados de competir com a abundância de comentários orquestrados acerca dos objetivos e das ações do Hamas, vindos de pessoas que pretendem que estiveram sentadas com Mohammed Deif e Ismail Haniyeh, em vez de alguma fonte do Shin Bet — polícia israelense — ou das forças de ataque de Israel. Todos os que rejeitaram a proposta feita pelo Fatah de Yasser Arafat, para a criação de dois Estados, agora precisam lidar com Haniyeh, com o Hamas e com o BDS Movement — Freedom, Justice, Equality. Todos os que ajudaram a transformar Gaza em um campo de prisioneiros para 1.8 milhão de seres humanos não deveriam se surpreender com os túneis que estão sendo cavados. Todos aqueles que semearam o estrangulamento, o cerco e o isolamento, colhem agora os foguetes. Aqueles que têm, nos últimos 47 anos cruzado a linha verde, de forma sistemática, para expropriar as terras dos palestinos, ferindo e machucando a população civil palestina com ataques, tiroteios e o estabelecimento de colônias — possuem algum direito de virar os olhos e falar da prática de terror dos palestinos contra civis israelenses?

O Hamas tem, de forma cruel e assustadora, destruído o duplo padrão mental que Israel é “senhor”. Todas essas cabeças brilhantes da espionagem e do Shin Bet realmente não entendem que fomos nós mesmos – os israelenses – que criamos a receita perfeita para a nossa versão da Somália. Você querem evitar a escalada da violência? Agora é a hora: Libertem a Faixa de Gaza do cerco imposto, deixem as pessoas voltarem para o “mundo”, para a Cisjordânia, para suas famílias em Israel. Deixe-os respirar e eles descobrirão que viver é melhor do que morrer.

© 2014 Haaretz

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui


Todos os comentários, especialmente os que são fruto de ódio, devem ser dirigidos diretamente para o site do jornal israelense Haaretz por meio do seguinte link:


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