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terça-feira, 27 de outubro de 2015

PRIMEIRO MINISTRO DE ISRAEL ISENTA HITLER DE PARTE DA CULPA PELO GENOCÍDIO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

Merkel-e-Bibi
Ao lado de Bibi, Angela Merkel põe os pingos nos is — AFP

O artigo abaixo foi publicado pelo site da revista Carta Capital.

Netanyahu, o romancista

Enquanto a 3ª Intifada dá seus primeiros passos, Bibi inventa um enredo impossível a respeito do Holocausto
por Gianni Carta —

O premier israelense Benjamin Netanyahu porta-se, aparentemente, como um vencedor: reescreve a história a seu favor. No entanto, usa a retórica distorcida de um líder desesperado diante de mais um conflito nascente: a terceira Intifada, a ameaçar a própria existência de Israel. Até quarta-feira 21, dez israelenses haviam sido mortos por palestinos, a maioria deles esfaqueada.

Por sua vez, 46 palestinos foram abatidos por armas de vigilantes israelenses e de soldados das Forças da Defesa Israelense (IDF). Vinte e cinco dos palestinos tombados teriam atacado um israelense, o resto morreu em conflitos contra o Exército, segundo a versão israelense.

Nunca o comércio de armas esteve tão próspero em Israel, informa a rede de televisão France 24. Por sua vez, em entrevista telefônica a CartaCapital, o professor de Ciências Políticas Magid Shihade, da Universidade da Califórnia, diz: “Essa é a primeira Intifada espontânea, isto é, não ligada a partidos ou a movimentos políticos”.

Mais: “Todos os palestinos estão, pela primeira vez, unidos: aqueles da Cisjordânia, de Gaza, de Jerusalém Leste e da Galileia (palestinos com passaporte israelense desde a formação de Israel, em 1948)”. Em suma, por não ser liderado por uma legenda, o protesto palestino, espontâneo, representa uma ameaça maior: os jovens não querem negociar. “Estão cansados de agressões e expansões territoriais” por parte de Israel em território palestino. As duas anteriores Intifadas aconteceram entre 1987-1993 e 2000-2005.

Na quinta-feira 22, John Kerry, o secretário de Estado americano, voava para Berlim, onde conversaria com Netanyahu sobre como “acabar com a recente onda de violência”. Mais: os EUA ofereceriam apoio “para restaurar a calma o mais rapidamente possível”. Kerry certamente bem representa os EUA e Obama, eleito com a ajuda do lobby judeu, e, antes ainda de viajar para Berlim, deu um puxão de orelhas no presidente palestino Mahmoud Abbas.


Hitler
Hitler
Até apologistas do Holocausto têm dificuldade em aderir à tese de Bibi / Tobias Schwarz/AFPW

Em conversa telefônica, aconselhou Abbas a evitar o uso de “retórica inflamatória”. Só poderia incitar ainda mais violência. De fato, no dia anterior, em encontro na capital alemã com Angela Merkel, Bibi, como é conhecido Netanyahu, havia repetido: Abbas incita a violência de jovens palestinos armados com facas.

O quadro é mais complexo do que aquele pintado pelo premier israelense. A começar pela reconstrução da história do Holocausto. Dias antes do encontro com Merkel, na terça-feira 20, Netanyahu defendeu a seguinte tese no Congresso Mundial Sionista, em Jerusalém: Adolf Hitler foi convencido a respeito da “Solução Final” pelo mufti de Jerusalém, o haj Mohamad Amin al-Husseini. Hitler e Al-Husseini se encontraram, de fato, em novembro de 1941.

Conforme versão romanesca de Bibi, “Hitler não queria exterminar os judeus, queria expeli-los”. Al-Husseini teria então dito a Hitler: “Mas, se você os expelir, eles virão para a Palestina”. A vocação de Bibi é mesmo a ficção e seu talento imaginário alcança o clímax quando conta que o ditador nazista pergunta ao mufti: “O que devo fazer?” Al-Husseini: “Queime-os”. O defensor da raça ariana deu ouvidos ao árabe, Bibi garante, impassível.

Até apologistas do Holocausto têm dificuldade em aderir à tese de Bibi. De saída, a chamada “Solução Final” já havia começado na Lituânia, em julho de 1941. Dois meses mais tarde, 33 mil judeus foram mortos, em 48 horas, pelos nazistas. A carnificina na Ucrânia deu-se nos subúrbios de Kiev. O encontro entre Hitler e Al-Husseini não teve impacto algum no Holocausto. Sim, o mufti era antissemita e não queria perder seu território. Mas a “Solução Final” foi uma estratégia pensada e implementada por Hitler.

A ficção de Netanyahu não convenceu sequer importantes figuras de Israel. O presidente Reuven Rivlin foi categórico: “Foi Hitler quem causou um sofrimento infinito em nossa nação”. Já o líder da oposição, Isaac Herzog, escreveu na sua página do Facebook: “Esta é uma distorção histórica perigosa, e exijo de Netanyahu que a corrija imediatamente, pois minimiza o Holocausto, o nazismo, e o papel de Hitler no terrível desastre de nosso povo”.

Ademais, acrescentou, Netanyahu, filho de historiador, não pode derrapar de tal forma. Mas Herzog não explicitou os dois objetivos de Bibi. Primeiro: criar novos amigos, os alemães, aliviados, nos sonhos do premier, por não terem sido os únicos responsáveis pelo Holocausto. Segundo objetivo: fomentar a islamofobia na Europa.

Netanyahu perde sua destreza política. Em uma coletiva à imprensa ao lado de Bibi, Merkel disse em Berlim, na terça: “Somos responsáveis pelo Holocausto”. O porta-voz de Merkel havia dito antes, em outra coletiva: “Falo em nome do governo alemão, e posso dizer que todos nós, alemães, conhecemos precisamente a história do fanatismo racista e assassino dos nacional-socialistas, que levou à ruptura com a civilização e à Shoah”.

Seria o caso de especular se os israelenses não estariam em busca de uma narrativa islamofóbica, como aquela antijudaica na Segunda Guerra Mundial. Faria sentido após os ataques de 11 de setembro de 2001.

Reuven-Rivlin
O próprio presidente de Israel diz: o vilão monstruoso é mesmo Hitler / Michal Cizek/AFP

A guerra entre Israel e a Palestina desenrola-se também nas redes sociais. O ministério israelense do Exterior postou um vídeo de 24 segundos intitulado: “O que o Terror Palestino e o Estado Islâmico têm em comum?” No vídeo, exibem-se somente as atrocidades cometidas pelos palestinos.
Magid Shihade retruca: “A propaganda israelense quer enquadrar a questão palestina em um conflito religioso, e não como o resultado de um regime baseado em um colonialismo político que não permite a coexistência igualitária entre árabes e israelenses”. 
Em uma coluna do diário israelense Haaretz, Amira Hass concorda com Shihade. A mídia e as redes sociais criaram, em Israel, um inimigo: o “terrorista árabe”. Todos terroristas. A repórter da France 24 diz: “Israelenses não confiam em árabes, e vice-versa”.
Vigilantes israelenses armados com armas de fogo contra palestinos com facas. Os palestinos precisam ser “neutralizados”. Mas quais são as provas de que o palestino morto era um terrorista? E como comparar um “terrorista palestino” a um 
jihadista do Estado Islâmico?
O professor Shihade explica: “Na verdade, quem apoia o EI é Israel”. O motivo? Entre outros, o EI luta contra o Hezbollah, o movimento libanês xiita a apoiar o presidente sírio Bashar el-Assad (com o apoio do Irã).
Sem contar outros movimentos radicais perigosos para Tel-Aviv. Viva a hipocrisia, diz Shihade: “O título do vídeo do ministério israelence deveria ser: ‘O que o EI e Israel têm em comum?” Shihade conclui: “A terceira Intifada já começou”. 

O artigo original poderá ser lido por meio desse link aqui:

http://www.cartacapital.com.br/revista/873/netanyahu-o-romancista-1840.html

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Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 29 de julho de 2014

ISRAEL ESTÁ COLHENDO O QUE PLANTOU EM GAZA


Palestinos em fuga por suas vidas.

O artigo abaixo foi escrito pela jornalista israelense Amira Haas e publicado no jornal israelense Haaretz. Hoje os mortos na faixa de Gaza passam de MIL e os feridos de 6000! Mas Israel insiste em dizer que é a vítima e que tem o direito de se defender.

COLHENDO O QUE NÓS PLANTAMOS EM GAZA

Aqueles que transformaram Gaza num campo de concentração para 1.8 milhão de pessoas, não deveriam se surpreender que seus habitantes estejam cavando túneis por baixo da terra.

Por Amira Hass

July 22, 2014 - "Haaretz"

Eu já levantei a bandeira branca. Já me cansei de procurar no dicionário pela palavra que descreve um menino ao qual falta metade da cabeça, enquanto seu pai grita: “Acorda, acorda, eu comprei um brinquedo novo para você” Como foi mesmo que Angela Merkel, a primeira ministra da grande Alemanha, disse? “Israel tem o direito de se defender”.

Eu continuo lutando com a necessidade de compartilhar detalhes do sem número de conversas que tive com amigos em Gaza, com o objetivo de documentar como é aguardar sua vez de ir para o matadouro. Por exemplo, a conversa que tive sábado pela manhã com J., do campo de refugiados de al-Bureij, enquanto seguia para Dir-alBalah, com sua esposa. Os dois têm cerca de 60 anos. Naquela manhã, sua velha mãe recebeu uma chamada telefônica e ouviu a gravação instruindo os residentes do campo de refugiados a irem para Dir-al-Balah.

Um livro escrito acerca da psicologia do exército israelense deveria ter um capítulo inteiro dedicado a esse sadismo, que está disfarçado sob a ideia de misericórdia: uma mensagem gravada exigindo que centenas de milhares de pessoas deixem seus lares que já são alvos, para outro local, igualmente perigoso cerca de 10 quilômetros de distância. Por que, eu perguntei a J., vocês estão indo embora. “O quê, por que”? Ele disse: “Nós temos uma pequena casa próxima da praia, com um pedaço de terra e alguns gatos. Nós vamos lá para alimentar os gatos. Depois que dermos comida para os gatos retornaremos. Nós vamos juntos. Se nosso carro for explodido, morreremos juntos”.

Se eu estivesse usando o chapéu de um analista, eu escreveria: Em contraste com o israelense “diplomático”, o Hamas não está forçando nenhum habitante de Gaza a permanecer em suas casas, nem a deixá-las. A decisão é deixada nas mãos dos próprios cidadãos. Para onde eles podem ir? “Já que temos mesmo que morrer, é algo mais digno morrer dentro de nossas próprias casas, em vez de morrermos enquanto estamos tentando fugir” me diz de modo direto o secular J.

Eu continuo convencida que uma frase como essa vale mais do que mil análises. Mas quando se trata de palestinos a maioria das pessoas prefere os resumos.

Eu estou farta de mentir para mim mesma — como se eu fosse capaz de, remotamente, reunir as informações necessárias para narrar aquilo que os jornalistas que estão lá dentro da Faixa de Gaza estão narrando. De qualquer forma, essas informações são importantes para um pequeno grupo da população que fala hebraico em Israel. Na maioria dos casos essas pessoas estão buscando notícias nos canais estrangeiros ou na internet. Eles não dependem, daquilo que é escrito em Israel para serem informados, por exemplo, acerca das curtas vidas de Jihad (11 anos), Wassim (8 anos) Shuhaibar ou seu primo Afnan (de 8 anos) que habitavam em Sabra, na Faixa de Gaza. Como eu eles também podem ler as notícias escritas pelo jornalista Jesse Rosenfeld no The Daily Beast.   

“Issam Shuhaibar, o pai de Jihad e Wassim, curvou-se próximo ao túmulo onde seus filhos foram sepultados, com seus olhos marejados, olhando perdidos para o nada. Seu braço tinha um curativo depois dele ter feito uma doação de sangue na tentativa de tentar salvar sua família. O sangue de seus filhos ainda manchava sua camisa”, escreve Rosenfeld. “Eles estavam alimentando galinhas quando o petardo os atingiu, ele disse. Eu ouvi um grande barulho no telhado e corri para encontrá-los. Eles eram apenas pedaços de carne, ele engasgou antes de desatar a chorar”, continua o artigo de Rosenfeld. Nós assassinamos essas crianças duas horas e meia depois que o cesar fogo terminou na última quinta feira. Dois outros irmãos, Oudeh (16 anos) e Bassel (8 anos) foram feridos. Bassel foi ferido gravemente.

O pai contou para Rosenfeld que houve um míssil de advertência. Antes do ataque eles ouviram o barulho do drone israelense marcando os locais a serem atingidos como se fosse uma “batida no telhado”. Então eu perguntei a Rosenfeld: “Se o míssil era uma míssil de misericórdia, como os que são enviados como tiros de advertência, porque a casa foi bombardeada logo em seguida”? Por pura sorte eu consegui encontrar a resposta para minha pergunta numa reportagem feita pela CNN. Uma câmera do canal estadunidense conseguiu capturar a imagem da explosão que veio logo depois do tiro de advertência: o mesmo derrubou parte da casa, causou um incêndio, muita fumaça e levantou muita poeira. Mas não foi a casa de Shuhaibar que foi atingida e sim outra casa. Isso deu ocasião para o exército israelense afirmar que a bomba que matou as crianças foi um foguete perdido do próprio Hamas. Mas eu chequei com Rosenfeld e outras pessoas e todas elas foram unânimes em afirmar que o míssil que matou as crianças foi o míssil de advertência do exército de Israel. Issam Shuhaibar é um policial palestino que recebe seu salário da Autoridade Palestina localizada em Ramalá.

Também desisti de tentar receber uma explicação das Forças de Ataque de Israel. Será que eles advertiram, por engano, a casa errada, e assim mataram aquelas crianças? (2 entre as 84 crianças mortas na manhã de domingo).

Eu estou cheia com os esforços fracassados de competir com a abundância de comentários orquestrados acerca dos objetivos e das ações do Hamas, vindos de pessoas que pretendem que estiveram sentadas com Mohammed Deif e Ismail Haniyeh, em vez de alguma fonte do Shin Bet — polícia israelense — ou das forças de ataque de Israel. Todos os que rejeitaram a proposta feita pelo Fatah de Yasser Arafat, para a criação de dois Estados, agora precisam lidar com Haniyeh, com o Hamas e com o BDS Movement — Freedom, Justice, Equality. Todos os que ajudaram a transformar Gaza em um campo de prisioneiros para 1.8 milhão de seres humanos não deveriam se surpreender com os túneis que estão sendo cavados. Todos aqueles que semearam o estrangulamento, o cerco e o isolamento, colhem agora os foguetes. Aqueles que têm, nos últimos 47 anos cruzado a linha verde, de forma sistemática, para expropriar as terras dos palestinos, ferindo e machucando a população civil palestina com ataques, tiroteios e o estabelecimento de colônias — possuem algum direito de virar os olhos e falar da prática de terror dos palestinos contra civis israelenses?

O Hamas tem, de forma cruel e assustadora, destruído o duplo padrão mental que Israel é “senhor”. Todas essas cabeças brilhantes da espionagem e do Shin Bet realmente não entendem que fomos nós mesmos – os israelenses – que criamos a receita perfeita para a nossa versão da Somália. Você querem evitar a escalada da violência? Agora é a hora: Libertem a Faixa de Gaza do cerco imposto, deixem as pessoas voltarem para o “mundo”, para a Cisjordânia, para suas famílias em Israel. Deixe-os respirar e eles descobrirão que viver é melhor do que morrer.

© 2014 Haaretz

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui


Todos os comentários, especialmente os que são fruto de ódio, devem ser dirigidos diretamente para o site do jornal israelense Haaretz por meio do seguinte link:


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