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segunda-feira, 2 de maio de 2016

EDUCAÇÃO CRISTÃ - ESTUDO 013 - O QUE O NOVO TESTAMENTO ENSINA ACERCA DA VERDADEIRA IGREJA - PARTE 001



O propósito dessa série é introduzir o leitor na vasta gama de materiais relacionados à Educação Cristã. Nosso foco central estará sempre localizado nos chamados “Ministérios da Igreja” que refletem a vida prática ou o dia a dia do que deve estar acontecendo em todas as igrejas locais.

V. O Ensinamento do Novo Testamento Acerca da Igreja

A Igreja

I. A Igreja — ἡ ἐκκλησία ekklissía Igreja.  

A. Introdução – “... à igreja, a qual é o seu corpo”- Efésios 1:22—23.

1. Nosso conceito mental da igreja: prédio, edifício, local de reuniões, instituição, denominação etc...

2. Problemas causados pelas traduções.

a. Nossa Bíblia não foi escrita em português.

b. O Antigo Testamento foi escrito em hebraico com umas pequenas porções escritas em aramaico.

c. O Novo Testamento foi inteiramente escrito em grego e contém citações do Antigo Testamento retiradas da Septuaginta — LXX[1].

d. A palavra grega usada pelos autores do Novo Testamento para se referir à igreja foi ἐκκλησία ekklissía — lê-se eclissía.

e. Nossa tradução de Almeida Revista e Atualizada em português traduz a expressão grega ἐκκλησίαekklissía da seguinte maneira: a palavra ocorre 114 vezes no texto grego editado por Westcott e Hort, Tischendorf e os revisores ingleses.

i. Igreja

ii. Igrejas

iii. Assembleia

iv. Congregação

3. Por causa da tradução e dos conceitos mentais dominantes a grande maioria das pessoas em nossos dias têm a tendência de pensar que a palavra igreja se refere a um prédio na rua tal ou a uma instituição decadente e à beira da morte.

B. Definições do Termo

1. O Dicionário Aurélio 2000 define a palavra igreja da seguinte maneira:

a. Do grego ekklesía, 'assembleia de cidadãos', 'assembleia de fiéis', pelo latim ecclesia.

b. Substantivo feminino.

i. Templo cristão.

ii. Autoridade eclesiástica.

iii. A comunidade dos cristãos.

iv. O conjunto dos fiéis ligados pela mesma fé e sujeitos a uma mesma liderança.

2. O Dicionário de grego clássico de Liddell-Scott define assim:

a. Assembleia devidamente convocada, menos geral que — súllogos — pronuncia-se sílogos.

b. Na Septuaginta a definição corresponde a: congregação dos filhos de Israel e traduz o termo hebraico קְהַל  —  qehal.

c. No Novo Testamento: igreja como corpo de cristãos.

3. Os dicionários do Novo Testamento, geralmente, definem como:

a. Igreja como comunidade universal.

b. Congregação como comunidade particular, i.e., de um determinado local, bem como uma comunidade familiar.

Conclusão: a palavra que usamos irá, inevitavelmente, afetar a maneira como pensamos e nosso conceito de igreja será influenciado de forma concomitante.

C. O Significado da palavra grega ἐκκλησία ekklissía.

A expressão grega ἐκκλησία ekklissía — é comumente traduzida pelo termo “igreja” no Novo Testamento em português.

1. A expressão grega ἐκκλησίαν τοῦ θεοῦ ekklissían toû Theoû — Igreja de Deus, foi usada pelos primeiros cristãos para identificar a “sociedade” a que pertenciam como uma associação que era comum — familiar — a todas as pessoas. Não havia nada de extraordinário no uso deste termo. A reunião dos cristãos era apenas mais uma, no meio de uma multidão de associações não oficiais.

2. O que diferenciava a associação dos cristãos das outras associações tão comuns dos seus dias era o fato de que essa associação ou assembleia havia sido convocada pelo próprio Deus! Foi Deus quem os convocou. Da mesma maneira é Deus quem nos convoca nos dias de hoje.

3. A relação que existe entre ἐκκλησία ekklissía — Igreja, e o chamado a viver a vida cristã acaba se perdendo completamente quando traduzimos a palavra grega ἐκκλησία pela expressão igreja. Vejamos como Paulo relacionou estes dois conceitos em Efésios 3:21 e 4:1:

A ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre.A ele — Deus — seja a glória, na igreja — ἐκκλησία ekklissía é derivada do verbo καλέω kaléo — chamar — e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!

Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados. Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da κλήσεως klésseosvocação a que fostes ἐκλήθητε  ekléthetechamados.

4. Assim temos que Deus deve ser glorificado na vida da igreja. Como? Pelos cristãos andando de um modo que seja digno do chamado que receberam.

5. O chamado que recebemos de Deus implica no seguinte:

a. Somos chamados para fora do mundo e para dentro da igreja de Deus = libertação.

b. Somos chamados para manter um relacionamento com Deus através do estabelecimento de uma aliança com Ele —

1 Coríntios 1:9

Fiel é Deus, pelo qual fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor.

b. Somos chamados para herdarmos uma herança futura. O que para Israel era a terra de Canaã, para nós será o céu —

Filipenses 3:14

Prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.

1 Timóteo 6:12
Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual também foste chamado e de que fizeste a boa confissão perante muitas testemunhas.

Hebreus 3:1

Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial, considerai atentamente o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, Jesus.

c. Somos chamados para formar um povo especial que pertence ao único e verdadeiro Deus —

Deuteronômio 7:6

Porque tu és povo santo ao SENHOR, teu Deus; o SENHOR, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo próprio, de todos os povos que há sobre a terra.

1 Pedro 2:9—10

9 Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz;

10 vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia.


D. Uma Definição mais abrangente da palavra grega ἐκκλησία ekklissía — Igreja.

1. O termo grego ἐκκλησία ekklissía — Igreja, como usado no Novo Testamento, representa a totalidade — universalidade ou catolicidade — daqueles que pertencem à comunidade dos redimidos. Nessa condição a comunidade dos redimidos forma a igreja como “corpo de Cristo”.  Como redimidos que formam o corpo de Cristo, os indivíduos dessa comunidade estão íntima e completamente ligados e dependentes uns aos outros e todos, sem exceção, estão ligados, de modo absoluto, ao Senhor Jesus Cristo. Esses redimidos estão ainda em íntima ligação com a comunidade representada por todo o povo de Israel do Antigo Testamento, já que o mesmo é também designado ἐκκλησίαekklissía — Igreja ou Congregação na Septuaginta — LXX. No Novo Testamento o termo é também usado para fazer referências a uma comunidade local de redimidos — igreja local. O termo nunca é usado para referir-se a uma construção nem a uma instituição. Tais conceitos não existiam nos dias da igreja primitiva — até o ano 100 d.C. — nem nos dias dos Pais da Igreja — até o ano 200 d.C. Mas, acima de tudo somos um povo chamado por Deus. Ver tabela abaixo com as referências bíblicas:


Igreja como corpo de Cristo e Cristo como cabeça da igreja
Efésios 1:22—23
Colossenses 1:18, 24; 2:18—19
Os redimidos como membros Corpo de Cristo.
1 Coríntios 12:27 Efésios 4:4; 5:30 e Colossenses 3:15
Os redimidos como membros uns dos outros.
Romanos 12:5 1 Coríntios 12:13; 24—26

Pergunta para reflexão:

Porque os tradutores da Septuaginta — não inspirados — e os autores do Novo Testamento — inspirados — não utilizaram outro termo cultural qualquer, para referirem-se à comunidade dos redimidos, em vez de utilizarem um termo inteiramente profano como ἐκκλησία ekklissía — igreja?

Assim temos que:

2. O verdadeiro caráter da Igreja é determinado pelo fato de ser Deus mesmo aquele que a convoca para se reunir. A igreja não é um prédio ou uma construção de qualquer tipo, e sim um ajuntamento de crentes convocados por Deus mesmo.

3. No Novo Testamento encontramos poucas evidências de que existisse algum tipo de organização que fosse muito além da igreja local — comunidade de cristãos localizada em uma determinada cidade ou em um lar, etc.

4. De acordo com o irmão Edwin Hatch[2]: “Apesar de ser indisputável que o Senhor fundou a Igreja ἐκκλησίαekklissía — assumimos de forma improvável que a igreja seja uma agregação de sociedades organizadas. Cada comunidade cristã era uma comunidade completa em si mesma”. Com o passar do tempo esse formato foi alterado. Tal alteração não pode ser definida, a priori, como algo bom ou mau para a Igreja.

5. Nós precisamos começar a entender que cada comunidade local possui certa primazia real entre os vários tipos de unidade que poderiam existir.

6. Infelizmente, nos dias de hoje, a igreja institucional tem se tornado tão desfigurada e as pessoas, de um modo geral, estão muito desencantadas com ela. Hoje em dia as igrejas, independentemente da denominação a que pertençam, são algo muito difícil de reconhecermos como uma comunidade, na qual exista qualquer relação entre o que aí está e o ensino das Sagradas Escrituras —

Efésios 2:19—22

19 Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus,

20 edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular;

21 no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor,

22 no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.

Efésios 5:25—27

25 Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela,

26 para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra,

27 para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.

7. A igreja não é uma denominação, nem uma convenção, nem uma associação e sim um corpo espiritual.

8. A igreja não é uma organização e sim uma comunhão, ou como diz o Novo Testamento, uma κοινωνίᾳ koinonía — Comunhão.


OUTROS ESTUDOS ACERCA DE EDUCAÇÃO CRISTÃ

001 — A EXCELÊNCIA DA VIDA PESSOAL DAQUELES QUE DESEJAM ENSINAR — PARTE 001

002 — A EXCELÊNCIA DA VIDA PESSOAL DAQUELES QUE DESEJAM ENSINAR — PARTE 002

003 —A EXCELÊNCIA DA VIDA PESSOAL DAQUELES QUE DESEJAM ENSINAR — PARTE 003

004 — A IMPORTÂNCIA DA ALIANÇA COM DEUS

005 — OS ALVOS DA EDUCAÇÃO CRISTÃ

006 — A IGREJA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XXI – PARTE 001 — INTRODUÇÃO — OS COLONIZADORES VÊM EM NOME DE DEUS

007 — A IGREJA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XXI – PARTE 002 — NOSSAS ESCOLAS TEOLÓGICAS

008 — A IGREJA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XXI – PARTE 003 — IGREJAS CORPORATIVISTAS E INSTITUCIONALIZADAS E EDUCAÇÃO CRISTÃ PADRONIZADA

009 — A IGREJA NO PRINCÍPIO DO SÉCULO XXI – PARTE 004 — CONSUMISMO E CELEBRITISMO

010 — O PROPÓSITO SINGULAR DE DEUS PARA OS NOSSOS DIAS

011 — A PALAVRA IGREJA NO NOVO TESTAMENTO

012 — A EXPRESSÃO GREGA “EM CRISTO” — ἐν Χριστῷ

013 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA

014 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 002

015 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 003
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/09/educacao-crista-estudo-015-o-que-o-novo.html
016 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 004 — A IGREJA COMO PLENITUDE
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/12/educacao-crista-estudo-016-o-que-o-novo.html
017 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 005 — A UNIDADE DA IGREJA CRISTÃ
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/01/educacao-crista-estudo-017-o-que-o-novo.html
018 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 006 — HUMILDADE E AMOR EM MEIO À DIVERSIDADE DE DONS
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/01/educacao-crista-estudo-018-o-que-o-novo.html
019 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 007 — A IGREJA COMO MISTÉRIO DE DEUS
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/educacao-crista-estudo-019-o-que-o-novo.html
020 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — Parte 008 — COMO A IGREJA É FORMADA OU CRIADA?
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/03/educacao-crista-estudo-020-o-que-o-novo.html


021 — O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO ACERCA DA IGREJA — PARTE 009 — QUANDO A IGREJA COMEÇOU?
Que deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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[1] Septuaginta, comumente identificada pelo símbolo LXX, é a tradução das escrituras hebraicas para o grego realizada no Egito sob o patrocínio de Ptolomeu II Filadelfo - 285–246 a.C.
[2] Hatch, Edwin. The Organization of the Early Christian Churches: Eight Lectures Delivered Before the University of Oxford, in the Year 1880. Wipf & Stock Pub, Eugene, 1999.

terça-feira, 26 de abril de 2016

OS PROTESTANTES E A ALEMANHA SOB O NAZISMO



Um seminário teológico REFORMADO na Alemanha nazista

Stephen Nichols

Quando a igreja luterana alemã apoiou os nazistas em 1933, um seleto grupo de líderes dentro da igreja formou um movimento de resistência eclesiástica, o qual veio a se chamar de Igreja Confessante. Eles logo fundaram cinco novos seminários para treinar a próxima geração de ministros. Aproveitaram um jovem professor de teologia da Universidade de Berlim para dirigir o seminário recém criado em Zingst e posteriormente em Finkenwalde.

O modelo predominante para a educação teológica na Alemanha era amplamente acadêmico e as universidades dominaram a educação ministerial. Desde o Iluminismo (Aufklarung em alemão) os pastores alemães tinham digladiado pela respeitabilidade ao lado de médicos e advogados – profissionais das disciplinas mais “respeitáveis”. Eruditos no estudo bíblico e teólogos tinham de fazer o mesmo em contraposição aos seus colegas na academia. Após um punhado de palestras para futuros ministros e teólogos na Friedrich Wilhelm University, em Berlin, Dietrich Bonhoeffer sentiu que este tipo de ethos educacional estava errado – e era, por fim, danoso – para a igreja em geral.

Então, o novo seminário em Finkenwalde deu a Bonhoeffer uma oportunidade para traçar um curso diferente para a educação ministerial. Ele focaria sua escola na Escritura, oração e confissão teológica, e como Herr Direktor, Bonhoeffer poderia sustentar estes três pilares como achasse por bem. Mas nem todos concordaram. O altaneiro Karl Barth, por exemplo, protestou, dentre outros líderes na Igreja Confessante. Muitos estudantes seguiram o exemplo, contrariando as inovações de Bonhoeffer. Formidável demais para ser demitido, ele se manteve firme, e acabou ganhando tanto seus alunos como seus críticos.

Infelizmente, a história de Finkenwalde não acaba com sucesso – pelo menos não como a palavra “sucesso” é frequentemente definida, com os requisitos métricos de números e proezas. A maioria dos alunos de Bonhoeffer nunca chegou ao ministério pastoral. Vinte e sete foram presos. O seminário, como um todo, teve uma vida curta, fechado pela Gestapo após dois anos apenas.

Dito isto, o que foi realizado ali durante aqueles dois anos merece nota. Então, vamos considerar os três pilares de Bonhoeffer para a educação no seminário: Escritura, oração e confissão teológica.

Construa sobre a Palavra

Depois de alguns meses em operação, Bonhoeffer escreveu uma carta para as igrejas mantenedoras explicando a missão do seminário:
O caráter especial de um seminário da Igreja Confessante deriva da difícil situação na qual temos sido colocados devido ao conflito na igreja. A Bíblia constitui o ponto focal de nosso trabalho. Ela tem se tornado para nós uma vez mais o ponto de partida e o centro de nosso labor teológico e de toda a nossa ação cristã.1

Que esse foco bíblico era “especial” mostra porque a igreja luterana alemã murchou sob o governo nazista. A igreja como um todo há muito havia se afastado de suas amarras bíblicas. Sem um sólido fundamento bíblico, a igreja simplesmente não possuía os recursos necessários para se envolver nas questões éticas da década de 1930, a qual, em seguida, levou tragicamente às atrocidades na década de 1940 e da Segunda Guerra Mundial.

As palavras de Bonhoeffer também revelam sua convicção de que a Bíblia deve permanecer como o ponto central na educação ministerial e na igreja. A Escritura como o ponto focal em Finkenwalde implicava que os estudantes seriam treinados em hebraico e grego. Eles receberiam instrução no conteúdo bíblico. “A congregação”, Bonhoeffer disse uma vez, “é construída unicamente sobre a Palavra de Deus”2. Bonhoeffer exigia que os alunos praticassem a lectio divina, lendo um Salmo e capítulos do Antigo e do Novo Testamento a cada dia. Os alunos também tinham de meditar numa passagem selecionada a cada semana. Ele tinha a intenção de ajudá-los a formar os hábitos corretos.

Os alunos de Finkenwalde e o futuro biógrafo de Bonhoeffer, Eberhard Bethge, entenderam a mensagem. Anos depois, Bethge testificou: “Porque eu sou um pregador da Palavra, não posso expor as Escrituras a menos que as deixe falar para mim todos os dias. Usarei indevidamente a Palavra no meu serviço se não me mantiver meditando sobre ela em oração”.3

A oração faz um pastor

Os cursos de Bonhoeffer sobre oração usavam a Oração do Senhor [o Pai Nosso] e o Catecismo de Lutero para instrução. Ele também exigia que os estudantes orassem, como um tipo de dever de casa. Os críticos o acusaram de que estava sendo legalista; alguém até mesmo chegou a dizer a ele que o tempo era muito urgente para oração e meditação. Bonhoeffer respondeu a estas críticas vigorosamente: “Isso ou mostra uma total falta de compreensão por parte dos jovens teólogos de hoje, ou uma ignorância blasfema de como a pregação e o ensino vêm à existência”.4  Como Bonhoeffer disse uma vez à sua congregação em Londres: “Uma congregação que não ora pelo ministério do seu pastor, não é mais uma congregação. Um pastor que não ora diariamente por sua congregação, não é mais um pastor”.5

Confissão como currículo

Por fim, há o terceiro pilar: a confissão teológica. Como um luterano alemão, o padrão confessional de Bonhoeffer era a Confissão de Augsburg (1530), contida no Livro de Concórdia (1580). Da mesma maneira que a Escritura e a oração foram eclipsadas na igreja luterana, assim também acontecia com a confissão. Como tantas outras denominações no século 20, a igreja luterana alemã professava sua confissão teológica da boca para fora, e não mais do que isso.

Não era assim no seminário de Bonhoeffer. Bethge comenta sobre como a cópia do Livro de Concórdia de Bonhoeffer estava sublinhada, marcada com notas nas laterais, pontos de exclamação e interrogações. É evidente que Bonhoeffer lutou com sua confissão e a levou a sério6. De fato, para Bonhoeffer, a confissão era o currículo da teologia.

Mas ele não estava apenas interessado em que seus alunos conhecessem e lutassem com a teologia, pois também queria que eles a vivessem. A confissão moldaria suas vidas, sua ética, sua pregação e suas igrejas. “Teologia é a submissão ao conhecimento coerente e bem ordenado da palavra de Deus”, ele escreveu. “Ela serve à pura proclamação da palavra na congregação e à edificação da congregação de acordo com a palavra de Deus”.7

Seminários são para a igreja

Então, os seminários existem pra quê? Assim como a teologia que ensinam, eles existem para a igreja. E acerca do que eles deveriam tratar? Assim como a igreja para quem eles existem, eles deveriam tratar sobre a Escritura, a oração e a confissão teológica. Além do mais, estas são as marcas de todos os cristãos em todos os tempos, pois são os hábitos da vida cristã.

Se você deseja conhecer mais sobre a vida de Dietrich Bonhoeffer recomendamos os dois links abaixo:

http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/04/voce-sabe-quem-foi-dietrich-bonhoeffer.html

http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/04/voce-sabe-quem-foi-dietrich-bonhoeffer_10.html

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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* Texto original disponível em: http://thegospelcoalition.org/blogs/tgc/2013/08/08/seminary-in-nazi-germany/. Tradução de Nelson Ávila, bacharelando em teologia pela Escola Teológica Charles Spurgeon, em Fortaleza-CE.

1  Dietrich Bonhoeffer, "A Greeting from the Finkenwalde Seminary," Oct. 1935, The Way to Freedom (New York: Harper & Row, 1966), 35.

2  Dietrich Bonhoeffer, "Theology and the Congregation," Dietrich Bonhoeffer Works, Vol 16: 1940-1945 (Minneapolis: Fortress Press, 2006), 494.

3  Ibid., 57.

4  Cited in Eberhard Bethge, Dietrich Bonhoeffer: A Biography (Minneapolis: Fortress Press, 2000), 465.

5  Dietrich Bonhoeffer, Oct. 22, 1933, in Dietrich Bonhoeffer Works, Vol 13: London, 1933-1935 (Minneapolis: Fortress Press, 2007), 325.

6  Bethge, Dietrich Bonhoeffer, 449.

7  Bonhoffer, DBW, Vol. 16, 494.         

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

PECADOS QUE PODEM NOS DESTRUIR POR COMPLETO – PARTE 007 — A IMPACIÊNCIA — PARTE 003

Essa é uma série na qual pretendemos, dentro do possível, discutir alguns dos mais insidiosos pecados que ameaçam nossas almas. Trata-se de ações ou reações que caracterizam um coração perverso diante de Deus, algo com o que muitos personagens bíblicos tiveram que lutar, mas que pela graça de Deus conseguiram vencer. Nós também, como seres humanos iguais a eles estamos sujeitos a enfrentar esses mesmos pecados e temos que entender como essas situações funcionam, para poder lançar mão da graça de Deus e vencer as mesmas. A SÉTIMA questão que devemos analisar é: 

7. A IMPACIÊNCIA — PARTE 003 

A segunda cláusula — sobem com asas como águias — também é bastante apropriada. A expressão indica que tal força é semelhante à força de uma águia. As águias são animais únicos na natureza. O porte das mesmas pode variar de 2,5 até 12 quilos e sua envergadura — de uma ponta até a outra ponta de suas asas abertas pode alcançar uma distância que vai de 1,5 até 2,5 metros. As águias são as aves que voam nas maiores altitudes e podem atingir velocidades de até 100 quilômetros por hora em voo e até 240 quilômetros em “mergulho”, em direção à terra. São capazes de transportar até 30 quilos em voo. São animais admirados em todo o mundo e por todas as culturas.

Sem nenhum esforço aparente a água levanta voo e sobe as maiores alturas. Do mesmo modo, Deus promete que seu povo ira se levantar das maiores profundezas das suas tristezas e dificuldades. Eles não tropeçarão, nem cairão por terra. Pelo contrário, com a mesma facilidade de uma águia eles levantarão um alto voo.

Existem ainda duas figuras, usadas pelo profeta Isaías, que completam a descrição do que está sendo falado. Aqueles que esperam pelo Senhor não irão apenas voar, mas também correrão e andarão. Desse modo, o todo das suas vidas será marcado por um constante prevalecer e eles se mudarão de força em força. Note que pela terceira vez, nesses pouco versículos — Isaías 40:28—31 — o profeta menciona dois mesmos verbos: cansar e fatigar. No verso 28 o profeta aplicou esses termos a Deus no sentido de que o Senhor nem se cansa e nem se fatiga, ou seja, Ele é sempre capaz de resolver todos os nossos problemas e dificuldades. Já no verso 30, o profeta aplica esses termos aos jovens, porque temos essa ideia que os jovens não se cansam e nem se fatigam, mas isso não é verdade. Eles não apenas se cansam e se fatigam como, de exaustos, acabam desabando. Por fim, o profeta aplica esses verbos àqueles que esperam no SENHOR. Das duas figuras que mencionamos acima, parece que uma é emprestada das corridas e a outra do andar diário de uma pessoa. As figuras são duas, mas o ensinamento é um só: o ato de correr não produz nem cansaço nem estafa e o caminhar pode se estender por longos períodos sem que seus efeitos sejam sequer percebidos. Portanto, se você está impaciente com alguma coisa, procure olhar para o SENHOR e esperar por ele.

Mas ainda temos mais algumas passagens que podemos usar para nosso benefício nessa nossa luta diária contra a impaciência. Em Números 9:15—23, nós encontramos uma narrativa que nos fala da forma especial como Deus guiou o povo de Israel em sua travessia pelo deserto, e dessa narrativa nós podemos aprender muitas coisas acerca de como superar a impaciência e esperar a boa vontade de Deus em nossas vidas. Bem vamos a passagem de Números —

Números 9:15—23

15 No dia em que foi erigido o tabernáculo, a nuvem o cobriu, a saber, a tenda do Testemunho; e, à tarde, estava sobre o tabernáculo uma aparência de fogo até à manhã.

16 Assim era de contínuo: a nuvem o cobria, e, de noite, havia aparência de fogo.

17 Quando a nuvem se erguia de sobre a tenda, os filhos de Israel se punham em marcha; e, no lugar onde a nuvem parava, aí os filhos de Israel se acampavam.

18 Segundo o mandado do SENHOR, os filhos de Israel partiam e, segundo o mandado do SENHOR, se acampavam; por todo o tempo em que a nuvem pairava sobre o tabernáculo, permaneciam acampados.

19 Quando a nuvem se detinha muitos dias sobre o tabernáculo, então, os filhos de Israel cumpriam a ordem do SENHOR e não partiam.

20 Às vezes, a nuvem ficava poucos dias sobre o tabernáculo; então, segundo o mandado do SENHOR, permaneciam e, segundo a ordem do SENHOR, partiam.

21 Às vezes, a nuvem ficava desde a tarde até à manhã; quando, pela manhã, a nuvem se erguia, punham-se em marcha; quer de dia, quer de noite, erguendo-se a nuvem, partiam.

22 Se a nuvem se detinha sobre o tabernáculo por dois dias, ou um mês, ou por mais tempo, enquanto pairava sobre ele, os filhos de Israel permaneciam acampados e não se punham em marcha; mas, erguendo-se ela, partiam.

23 Segundo o mandado do SENHOR, se acampavam e, segundo o mandado do SENHOR, se punham em marcha; cumpriam o seu dever para com o SENHOR, segundo a ordem do SENHOR por intermédio de Moisés.

A nuvem mencionada na passagem acima, representava a manifestação da gloriosa presença de Deus, algo que, por si mesmo, já serve para preencher todos os nossos vazios, até mesmo os maiores. Mas ainda temos outra passagem para a qual gostaríamos de chamar a atenção de todos:

Êxodo 33:7—11

7 Ora, Moisés costumava tomar a tenda e armá-la para si, fora, bem longe do arraial; e lhe chamava a tenda da congregação. Todo aquele que buscava ao SENHOR saía à tenda da congregação, que estava fora do arraial.

8 Quando Moisés saía para a tenda, fora, todo o povo se erguia, cada um em pé à porta da sua tenda, e olhavam pelas costas, até entrar ele na tenda.

9 Uma vez dentro Moisés da tenda, descia a coluna de nuvem e punha-se à porta da tenda; e o SENHOR falava com Moisés.

10 Todo o povo via a coluna de nuvem que se detinha à porta da tenda; todo o povo se levantava, e cada um, à porta da sua tenda, adorava ao SENHOR.

11 Falava o SENHOR a Moisés face a face, como qualquer fala a seu amigo; então, voltava Moisés para o arraial, porém o moço Josué, seu servidor, filho de Num, não se apartava da tenda.
  
Note a afirmação do verso 7 acima. O que o mesmo está afirmando é que há momentos em nossas vidas, quando manifestamos uma teimosia intolerável a Deus, que o faz decidir que habitar em nosso meio não lhe é mais algo agradável. Essa era a condição que o povo de Israel estava enfrentando agora. O acampamento do povo de Israel foi rejeitado pelo próprio Deus como lugar da presença divina. Mas em sua graça, Deus ainda estabeleceu um novo local onde o povo podia vir procurá-lo — verso 7.
Aqui estamos diante de um princípio espiritual que vale para todo povo de Deus em qualquer época que seja: o local que o próprio Cristo ocupa agora encontra-se fora do arraial e é para lá que nós somos convidados a nos deslocar —

Hebreus 13:13 —

Saiamos, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério. 

Precisamos de uma disposição enorme de sujeição à Palavra de Deus para entendermos exatamente, qual é o significado dessa expressão hebraica מַּחֲנֶה machaneh — traduzida por arraial, e uma força maior ainda para sairmos do mesmo. Além disso, precisamos de uma poderosa combinação de santidade e graça para agir a favor daqueles que se encontram dentro do arraial. O arraial é qualquer sistema religioso, pode ser até mesmo o sistema da nossa própria igreja, onde as pessoas estão aprisionadas a rotinas e regras, pensando que estão agradando a Deus, mas enquanto isso, o próprio Deus está fora de tal lugar e somente os verdadeiros crentes conseguem se encontrar com Ele para adorá-lo em Espírito e em Verdade.

Agora note que o que acabamos de dizer é exatamente o que Moisés fazia. Ele se compadecia do povo que estava dentro do arraial e, por isso, ele ia lá dentro ajudá-los. Moisés, apesar da idade, demonstra uma energia espiritual bem maior que o jovem Josué, que preferia ficar na presença de Deus. Isso não era mal em si mesmo, mas não ajudava a resolver o problema de todos os outros que estavam dentro do arraial.

Mais adiante, nesse mesmo texto nós lemos acerca da importância que o próprio Moisés dava à presença do Senhor acompanhando Seu povo, quando diz:

Êxodo 33:14—15

14 Respondeu-lhe: A minha presença irá contigo, e eu te darei descanso.

15 Então, lhe disse Moisés: Se a tua presença não vai comigo, não nos faças subir deste lugar.

Deus não poderia manter-se para sempre longe do seu povo. Isso significaria a destruição completa do mesmo. O salmista expressa o mesmo sentimento de Moisés ao dizer:

Salmo 26:8

Eu amo, SENHOR, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste.


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Que Deus nos abençoe a todos.       

Alexandros Meimaridis

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