Este estudo é parte de uma breve introdução ao
Antigo Testamento. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a
rica herança que temos nas páginas da Antiga Aliança. No final de cada estudo o
leitor encontrará direções para outras partes desse estudo
Capítulo 4 – Introdução ao Pentateuco – Parte 4
O Nascimento do Povo de Deus
שְׁמַע יִשְׂרָאֵל יְהוָה אֱלֹהֵינוּ יְהוָה אֶחָד
Ehad Adonai Eloheinu Adonai Israel Shemá
Um é O SENHOR Nosso Deus O SENHOR Israel Ouve
Deuteronômio 6:4
IV. Quem escreveu o
Pentateuco?
A. Autoria e consenso
tradicional.
Os Dez Mandamentos e Moisés
O
Pentateuco contém várias citações sobre a composição de algumas de suas partes.
Há duas referências claras a Moisés como sendo o autor de Êxodo 20—23, que é
conhecido como “Livro da Aliança –
ver Êxodo 24:4 e 7. O texto também afirma que Moisés escreveu os Dez
Mandamentos sob a orientação do Senhor – ver Êxodo 34:27—28. Existem também,
pelo menos dois outros incidentes, que de acordo com o texto foram diretamente
preservados pela escrita de Moisés – ver Êxodo 17:14 e Números 33:2 e versos
seguintes. Há também referências claras de que Moisés é o autor de partes do
livro de Deuteronômio – ver Deuteronômio 31: 9,19,22,24.
Além
da atividade literária de Moisés, as palavras de Deus são frequentemente
introduzidas por meio de frases como: “Disse mais o Senhor a Moisés” – ver
Levítico 4:1. Aliás, a maior parte do conteúdo de Êxodo a Deuteronômio está
relacionada, de alguma forma, à vida e ao ministério de Moisés. Ele foi a
figura histórica central durante o período descrito entre os livros do Êxodo e
Deuteronômio. Esse fato, associado a todas as evidências internas, leva à tradição
quase incontestada da autoria mosaica do Pentateuco.
Flávio Josefo
Moisés.
O Novo testamento refere-se ao Pentateuco usando expressões do tipo: “Moisés”
ou “Lei de Moisés” – ver Lucas 24:27, 44.Tanto o historiador judeu Flavio
Josefo
quanto o Mishná
aceitavam a autoria mosaica do Pentateuco. O Talmude
refere-se aos cinco primeiros livros da Bíblia como “os Livros de Moisés”.
B. Abordagens críticas
modernas.
A teoria da Evolução de Charles Darwin afetou,
inclusive, os estudos teológicos.
Apesar
da tradição mais antiga sobre a autoria mosaica de o Pentateuco ser bastante
difundida, desde o início ela teve seus críticos. Mas foi só no começo do
século XIX, sob a forte influência do Iluminismo
Filosófico, que o consenso tradicional foi violentamente agredido, quando um
grupo de estudiosos do Antigo Testamento, especialmente alemães, desafiou
frontal e abertamente a idéia da autoria mosaica do Pentateuco. A combinação do
pensamento iluminista dos séculos XVII e XVIII com a teoria da evolução do
século XIX resultou em uma onda, quase inacreditável, de especulação sobre as
origens do Pentateuco.
1. A Ciência Bíblica chamada de “Crítica da
Bíblia.”
Immanuel Kant
Um
dos ramos mais importantes da Teologia é chamado de a ciência do Criticismo Bíblico.
A expressão “criticismo” soa mal aos nossos ouvidos e por este motivo devemos
envidar todos os esforços possíveis para impedir que nossos preconceitos acerca
da mesma não nos atrapalhem na hora de analisarmos as questões levantadas pelo
Criticismo Bíblico. Para nos ajudar vamos usar a definição que o Dicionário
Aurélio Século XXI oferece para o verbete “Criticismo”: Do alemão “Kritizismus”
diz respeito à posição metodológica própria do kantismo, filosofia criada pelo
filósofo alemão Immanuel Kant, caracterizada por considerar que a análise
crítica da possibilidade, da origem, do valor, das leis e dos limites do
conhecimento racional, deve ser o ponto de partida da reflexão filosófica.
Assim sendo a ciência do Criticismo Bíblico tem como seu objeto o estudo da
história e do conteúdo, das origens e do propósito dos vários livros — 66 ao
todo — contidos na Bíblia. A ciência do Criticismo Bíblico foi dividida, em
seus estágios iniciais, em dois ramos: Baixa Crítica e Alta Crítica — estes
termos são rigorosamente acadêmicos.
Um Manuscrito Antigo
·
A Baixa Crítica — Esta expressão foi usada para
designar o estudo do texto das Escrituras Sagradas que inclui uma investigação
e catalogação dos manuscritos antigos, com atenção especial sendo dada às assim
chamadas leituras variantes. Leva também em conta o material contido nas várias
versões e traduções antigas. O objetivo desta ciência é nos fornecer um texto
bíblico que seja o mais próximo possível dos autógrafos originais como foram
inspirados pelo próprio Deus. Isto é necessário porque os autógrafos originais
não existem mais. Por se relacionar diretamente ao texto bíblico, a baixa
Crítica é também chamada de Crítica Textual ou Crítica do Texto. É graças ao
trabalho destes críticos que podemos ter em nossas mãos hoje, cópias impressas
do Antigo Testamento em hebraico, da Septuaginta em grego, do Novo Testamento
em grego e da Vulgata em latim, por exemplo.
Ø
Antigo Testamento em Hebraico
Ø
Novo Testamento em Grego
Ø
Vulgata Latina
· A Alta Crítica — Esta expressão foi usada para
designar o estudo do conteúdo, da autoria, do local onde o material foi
originalmente escrito, da data aproximada da composição, dos destinatários, do
propósito, da aceitação no cânon da Escrituras Sagradas e etc., dos livros
bíblicos. Estes aspectos são geralmente discutidos em compêndios chamados de
“Introdução ao Antigo ou Novo Testamento”. A Alta Crítica como podemos ver
assume várias formas e por este motivo está desmembrada em vários sub-ramos:
Ø Crítica
Linguística — Trata do uso da língua utilizada nas
composições. No caso da Bíblia se ocupa primariamente, mas não exclusivamente,
da análise do hebraico, do aramaico e do grego.
Ø
Crítica
Literária — Busca analisar as composições bíblicas como
obras literárias discutindo os vários “tipos de literatura” que existem na
Bíblia onde encontramos: narrativas históricas, poesias, biografias, parábolas,
relatos de acontecimentos, epístolas e etc.
Ø
Crítica
da Forma — Procura recuperar as unidades da tradição que existiam
em circulação antes que o material fosse fixado na forma escrita.
Ø
Crítica
Histórica — Discute os aspectos históricos envolvidos como a
data da composição, a citação de nomes de pessoas e locais, os usos e costumes
da época e etc.
Ø
Crítica
de Redação — Estuda o estilo utilizado pelo compositor para
produzir o material final. Analisa também a possibilidade da existência de
outros “redatores” na apresentação final do material.
Ø
Crítica
da Fonte — Procura discutir ou descobrir o material
original —fonte — que teria sido utilizado para a composição em discussão.
Como
podemos ver a ciência da Crítica da Bíblia é da maior importância, pois serve
como uma poderosa força auxiliar na interpretação da Palavra de Deus. Através
das pesquisas produzidas pelos críticos uma verdadeira inundação de informações
acerca da Bíblia é produzida de forma constante. Infelizmente nem tudo o que é
produzido, especialmente pelo ramo chamado de Alta Crítica, é valioso. Existem,
em muitos casos, conclusões ou definições que estão mais baseadas na
interpretação subjetiva do crítico do que na evidência crua apresentada pelos
fatos.
Assim
é que sob a pretensão de esclarecer absolutamente tudo com o uso da razão e de
forma empírica, o que muitos destes críticos nos oferecem, na grande maioria
dos casos, não passa de verdadeiros contos da carochinha! Como veremos, no caso
específico do Pentateuco, a grande maioria das conclusões subjetivas foi
baseada em um único elemento: o estilo de escrita usado nos cinco livros de
Moisés. Hoje sabemos que quanto mais poderoso for um autor mais versátil será
seu poder de expressão e isto faz com que conclusões alcançadas e que estejam
baseadas quase que exclusivamente na análise do estilo de um autor sejam muito
inseguras.
C. Críticas da origem -
fonte - e da redação.
Baruque Espinosa
A
primeira pedra do fantasioso castelo que iremos estudar em seguida foi colocada
pelo filósofo judeu holandês Bento ou Baruque Spinosa.
Entre suas muitas posições pouco ortodoxas encontrava-se sua sugestão de que
era bem possível que a maior parte do Pentateuco — תּוֹרָה — toráh — instrução,
lei ou ensino — teria sido composto séculos após Moisés. Sua idéia não foi
levada a sério até que o Empirismo Filosófico, precursor do Iluminismo,
produziu uma série de atitudes mais favoráveis com relação ao ceticismo
histórico e à rejeição do sobrenatural. Em seu tratado intitulado “Tratado
Teológico Político” publicado em 1670, Spinosa expressou a opinião — temos
sempre que nos lembrar que opinião é como o nariz: todo mundo tem o direito de
ter um! — de que o Pentateuco dificilmente poderia ter sido escrito por Moisés.
Para justificar esta opinião ele forneceu dois argumentos:
·
O autor do Pentateuco se refere a Moisés na
terceira pessoa do singular “ele” em vez de usar a primeira pessoa do singular
“eu”.
·
Moisés não poderia ter escrito acerca da sua
própria morte como está apresentado em Deuteronômio 34.
Quarto Livro de Esdras
Spinosa,
completamente enfatuado pelas idéias acima, sugeria então que Esdras, que viveu
mil anos depois de Moisés, era o verdadeiro autor do Pentateuco. Spinosa não declara a origem de
suas idéias, mas sabemos que esse conceito, acerca de o Pentateuco ter sido
escrito por Esdras, advém de um livro pseudoepigáfico
chamado de “4 Livro de Esdras”. Este livro que existe em várias versões, foi
provavelmente, escrito originalmente em Hebraico. Todavia não existe nenhuma
cópia conhecida deste livro em hebraico atualmente. As cópias existentes estão
escritas em latim, siríaco — língua falada pelos antigos sírios antes da
dominação árabe — etiópico, arábico — duas versões diferentes — e armênio.
Imperador
Adriano
Estudiosos acreditam que estas
traduções foram feitas de uma cópia escrita em grego e que também não existe
mais. A cópia mais antiga existente atualmente está em latim e foi grafada por
volta do ano 120 d.C., por um copista ou redator, durante o império de Adriano.
Neste livro de 4 Esdras encontramos no capítulo 14, que trata da sétima visão
de Esdras, especialmente nos versos 18—48, uma descrição de como Deus apareceu
a Esdras, já no fim da sua vida, e lhe ordenou que colocasse por escrito toda a
revelação do A. T., inclusive aquela dada a Moisés. Segundo esse relato, Esdras
acompanhado de cinco escribas — Seraia, Dabria, Selemia, Elkana e Osiel —
embrenhou-se no campo onde permaneceu por quarenta dias recebendo e ditando
revelações da parte de Deus. Durante este período, ainda de acordo com a
narrativa do 4 Livro de Esdras, cerca de 94 livros foram ditados e grafados.
Destes, vinte e quatro — estes são os livros que constituem o cânon hebraico do
A. T. — deveriam ser revelados ao povo em geral enquanto que os outros setenta
deveriam ser revelados somente para os sábios! Ai está, como diria Abelardo
Barbosa, na teologia como na “televisão, nada se cria, tudo se copia”.
Independente destes fatos, a idéia “sugerida” por Spinosa, serviria de base para
a formulação daquilo que foi chamado de “Hipótese Documentária” feita pelos
estudiosos alemães Graf Kuenen e Julius Wellhausen aproximadamente duzentos
anos depois de Spinosa — chamada de teoria de Graf—Wellhaussen.
Antes
de entrarmos na análise da história da Hipótese Documentária temos que dizer,
com relação às colocações feitas por Spinoza acima, o seguinte:
Xenofontes
·
Quanto a Moisés ter escrito na terceira pessoa –
ele – em vez de na primeira pessoa – eu – constitui-se argumento fraquíssimo
pelo que segue: muitos autores da Antiguidade, alguns extremamente famosos,
como o poeta grego Xenofontes
e o general romano Júlio César
se referiram a si mesmos, em suas narrativas históricas, exclusivamente na
terceira pessoa – ele.
Júlio César
·
Quanto à nota mortuária encontrada em Deuteronômio
34 não existe nenhuma indicação no texto bíblico de que a mesma tenha sido
escrita por Moisés, tendo provavelmente sido acrescentada por Josué ou outro
contemporâneo. Mas este detalhe não põe em dúvida a autoria Mosaica de todo o
resto do livro de Deuteronômio que está coberto de reivindicações de ser obra
da lavra de Moisés.
Outros
artigos acerca da Introdução ao Antigo Testamento
A. O Texto do Antigo Testamento
001
– O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO
002
– A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA
003
– A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 1 = Os Escribas e O Texto Massorético
— TM
004
– A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 2 = O Texto Protomassorético e o
Pentateuco Samaritano
005
– A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 3 = Os Manuscritos do Mar Morto e os
Fragmentos da Guenizá do Cairo
006
- A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 4 = A Septuaginta ou LXX
007
- A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 5 = Os Targuns e Como Interpretar a
Bíblia
B. A Geografia do Antigo Testamento
001
– INTRODUÇÃO E MESOPOTÂMIA
002
– O EGITO
003
– A SÍRIA—PALESTINA
C. A História do Antigo Testamento
001
— OS PATRIARCAS DA NAÇÃO DE ISRAEL
002
— NASCE A NAÇÃO DE ISRAEL
003
— A NAÇÃO DE ISRAEL: O REINO UNIDO
004
— O REINO DIVIDIDO E O CATIVEIRO BABILÔNICO
D. A Introdução ao Pentateuco
001
— O PENTATEUCO — O QUE É E DO QUE TRATA O PENTATEUCO
002
— O PENTATEUCO — PARTE 2 — OS TEMAS PRINCIPAIS DO PENTATEUCO — PARTE 1
003
— O PENTATEUCO — PARTE 2 — OS TEMAS PRINCIPAIS DO PENTATEUCO — PARTE 2
Que
Deus abençoe a todos.
Alexandros
Meimaridis
PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem
que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:
Desde já agradecemos a todos.
O
material contido neste estudo foi, em parte, adaptado e editado das seguintes
obras, que o autor recomenda para todos os interessados em aprofundar os
conhecimentos acerca do Antigo Testamento:
Bibliografia
Arnold,
Bill T. e Beyer, Bryan E. Descobrindo o
Antigo Testamento. Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2001.
Archer,
Gleason L. Jr. A Survey of the Old
Testament. The Zondervan Corporation, Grand Rapids, 1980.
Champlin,
Russel Norman. Enciclopédia de Bíblia,
Teologia, e Filosofia. Editora Hagnos, São Paulo, 6ª Edição, 2002.
Francisco,
Edson de Faria. Manual da Bíblia Hebraica
– Introdução ao Texto Massorético. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova,
São Paulo, 1ª Edição, 2003.
Harrison,
Roland Kenneth. Introduction to the Old
Testament. William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, 1979.
The Fundamentals. Edição Eletrônica
disponível na Internet, 2006.
Walton,
John H. Chronological Charts of The Old
Testament. The Zondervan Corporation, Grand Rapids, 1978.
Würthwein,
Ernst. The Text of the Old Testament.
William B. Eerdmans Publishing Company, Grand Rapids, Reprinted, 1992.
Enciclopédias e Softwares
__________Biblioteca Digital da Bíblia. Sociedade
Bíblica do Brasil, Barueri, 2006.
__________The Lion Handbook to the Bible. Lion
Publishing, Herts, 1978.
__________The New Encyclopaedia Brtannica.
Encyclopaedia Britannica Inc., Chicago, 15th Edition, 1995.
Moisés,
Os Dez Mandamento, O Livro da Aliança, Deuteronômio, Autoria do Pentateuco,
Alta Crítica, Baixa Crítica, Criticismo Bíblico, Hipótese Documentária, Baruque
Espinosa, 4 Livro de Esdras,