Mostrando postagens com marcador Exaltação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Exaltação. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Gênesis — Estudo 043 — A ALIANÇA DE DEUS COM NOÉ — PARTE 006 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 002 — OS NEGROS SÃO AMALDIÇOADOS?




Este estudo é parte de uma Análise do Livro do Gênesis. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da História Primeva da Humanidade. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo. 

O Livro do Gênesis

O Princípio de Todas as Coisas

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ        
            Eretz   ha  ve-et  Hashamaim  et      Elohim        Bará     Bereshit
            Terra  a      e        céus       os        Deus         criou   princípio No
                                                                                     Gênesis 1:1

X. Os Filhos de Noé – Gênesis 9:18—29 — CONTINUAÇÃO.

A. Noé Desperta e é Informado Acerca do que Acontecera – Gênesis 9:24.

Como foi que Noé ficou sabendo o que havia acontecido? Não sabemos. Caso ele tenha sido informado pelo próprio transgressor isto constituiria uma ofensa até maior do que a anterior o que, certamente, teria provocado a ira de Sem e de Jafé com consequências imprevisíveis. Nunca é demais nos lembrar de como Caim resolveu sua desavença com seu irmão Abel. Talvez seja mais provável que Noé tenha sido informado por sua mulher em algum momento em que a família estivesse reunida de maneira formal, participando de uma refeição ou algum outro momento em comum. O fato é que Noé ficou sabendo o que aconteceu e não ficou nem um pouco satisfeito com o que ouviu.

B. Noé Amaldiçoa a Canaã, seu neto, em vez de Amaldiçoar a Cam, seu filho – Gênesis 9:25.

Já tivemos a oportunidade de nos fazer esta pergunta anteriormente: porque teria Noé amaldiçoado seu neto, Canaã, em vez de amaldiçoar seu filho, Cam? Aqui podemos acrescentar uma segunda pergunta: Qual é o significado da expressão hebraica traduzida por “maldito” neste contexto?

Vamos começar respondendo à segunda pergunta primeiro. A palavra “maldito” que aparece na versão de Almeida Revista e Atualizada — ARA — traduz a expressão hebraica אָרוּר arur. Neste instante precisamos notar que: apesar de Noé ter sido mencionado a primeira vez em Gênesis 5:29 e apesar de ter vivido uma vida justa; de ter construído a arca; de ter arregimentado sua própria família como tripulação da arca; de ter enfrentado as águas do dilúvio; de ter desembarcado da arca; de ter oferecido os primeiros holocaustos mencionados na Bíblia e de ter plantado uma vinha e se embriagado com o vinho que produziu da uvas dessa mesma vinha; a Bíblia não registra nenhuma palavra proferida por Noé até esse momento. Suas primeiras palavras registradas nas páginas inspiradas das Sagradas Escrituras são: אָרוּר כְּנָעַן arur kenaan — maldito Canaã.

No Antigo Testamento nós encontramos exemplos de seres humanos proferindo “maldições” — ver, por exemplo, Josué 6:26; 9:23; Jeremias 20:14—17. Como devemos entender esses tipos de afirmações? Seriam as mesmas decretos efetivos ou algo meramente optativo, como um desejo apenas? No exato momento em que Noé profere essas palavras, ele está fazendo uma oração e desejando que Canaã seja amaldiçoado ou Canaã já se encontra debaixo de uma maldição efetiva baseada nas palavras proferidas por Noé? Como devemos entender a expressão אָרוּר כְּנָעַן arur kenaan, que é uma sentença nominal? Temos diante de nós duas possibilidades. A expressão pode significar:

Maldito seja Canaã.

Ou

Maldito é Canaã.

Entre os judeus da Antiguidade as maldições ou bênçãos proferidas por pai ou mãe eram levadas muito à sério e em geral as pessoas tinham a expectativa de que as mesmas se cumprissem. Para um homem era primordial receber a bênção de seu próprio Pai, sobretudo quando este estivesse em seu leito de morte. Um exemplo dramático disto é o caso de Esaú como registrado em Gênesis 27:32—38. Se para aqueles homens receber a bênção era fundamental, também não era menos importante tentar evitar receber uma maldição. Naqueles dias os pais funcionavam como sacerdotes familiares e acreditava-se que os mesmos tinham o poder de colocar em movimento coisas boas e más que afetariam não somente os filhos diretos, mas também os seus descendentes.

Antes de tentar um pensamento conclusivo acerca do dilema que temos acima, vamos fazer mais uma consideração. De acordo com o Antigo Testamento, quando Deus profere uma maldição a mesma é sempre um decreto efetivo e não algo optativo, como um desejo — ver, por exemplo, Gênesis 3:14, 17—19 e 4:11. Diante desses fatos temos que nos perguntar: Teria a expressão אָרוּר arurmaldito, um significado quando proferida por Deus e um outro significado quando proferida por seres humanos? A gramática hebraica é bastante complexa aqui em Gênesis 9:25 e parece indicar que devemos aceitar, como a melhor tradução, a hipótese de que a maldição proferida por Noé seja algo optativo. A inclusão do nome de Deus — אֱלֹהִים Elohim — em Gênesis 9:27 também sinaliza que as palavras proferidas estão sujeitas a ação de Deus e que não possuem força em si mesmas, como se fossem palavras mágicas. Mais adiante veremos como foi que a maldição concentrada na expressão que encontramos no verso 25 foi concretizada, e nossa descoberta poderá ser surpreendente para a maioria dos leitores desse trabalho.

A segunda questão que temos diante de nós, tem a ver com o fato de Noé não ter amaldiçoado a seu filho Cam e sim ao seu neto Canaã. Porque ele teria feito isto?

Em primeiro lugar temos aqueles que acreditam e ensinam que o nome de Cam foi substituído pelo de Canaã por um bando de escribas judeus que tinham sentimentos muito negativos contra aquele ramo da família de camitas representados por Canaã — ver Gênesis 10:15—19. Existe certa evidência documental para esta hipótese em alguns manuscritos da Septuaginta — LXX — e de algumas versões das escrituras hebraicas para o arábico que trazem a seguinte expressão: “Cam, pai de Canaã” no lugar da expressão “Canaã”, sozinha. Outras hipóteses que estão baseadas em disputas ao redor do texto original são:

1. Existiam duas versões desta história onde, em uma, os filhos de Noé são mencionados como sendo Sem, Cam e Jafé e outra onde os filhos são Sem, Canaã e Jafé. Em algum tempo, um escriba desavisado, teria “misturado” estas duas tradições criando esta confusão.

2. Outros acreditam que Canaã foi o verdadeiro transgressor ou que, no mínimo, teria funcionado como cúmplice dos atos de seu pai Cam.

3. Outros ainda, acreditam que neste texto estamos diante de um perfeito caso de justiça baseada na “Lex talion”, onde Deus promete visitar a iniquidade dos pais nos filhos.

Existem ainda outras sugestões, mas as mesma são por demais exóticas para ocupar nosso tempo com elas.

Outra explicação que parece ser a mais provável e que, se for mesmo verdadeira, significará que Noé estava realmente amaldiçoando a Cam. Esta hipótese tem a ver com o fato de que era costumeiro entre os povos da Antiguidade atribuir-se a grandeza de um filho ao seu pai, o qual era honrado por haver educado de maneira tão brilhante aquele filho. Este aspecto cultural da Antiguidade pode ser visto nas páginas da Bíblia, por exemplo, em 1 Samuel 17:55—58, onde Saul busca honrar ao pai de Davi procurando saber de quem Davi era filho. Saul conhecia muito bem a Davi naqueles dias, mas é bem evidente que ele não sabia quem havia educado aquele moço. Sua insistente procura visando descobrir quem era o pai de Davi indica seu desejo de honrar a Jessé segundo os costumes sociais da época. Por semelhante modo uma mulher poderia bendizer os seios que amamentaram uma determinada criança contribuindo com isto para que ela atingisse a honra com a qual estava sendo reconhecida — ver Lucas 11:27.

Quando um homem abençoava, na Antiguidade, a um de seus filhos estava, em realidade, abençoando a si mesmo. Isto é verdadeiro, no caso de Noé, no que diz respeito à bênção proferida sobre seus filhos Sem e Jafé. Por este mesmo critério, se Noé tivesse proferido uma maldição sobre seu filho Cam, isto seria equivalente a proferir uma maldição sobre si mesmo. Desta maneira, a melhor forma de amaldiçoar a Cam, era realmente amaldiçoando o filho deste, Canaã, que foi exatamente o que Noé fez. Quando no futuro alguém perguntasse quem era o pai deste tal de Canaã, todos os dedos apontariam para Cam.

Conforme mencionamos acima, precisamos tentar entender as implicações das palavras de Noé quando disse: “Maldito seja Canaã; seja servo dos servos a seus irmãos — Gênesis 9:25”. A primeira coisa que devemos notar é que existe uma tendência, muitas vezes doentia, de se atribuir um castigo bastante desproporcional para aquilo que pode ser considerado como uma ofensa não tão grave. É claro que as palavras de Noé não deixam nenhuma dúvida acerca da condição de humilhação e de humildade que deveria acompanhar os descendentes de Canaã — Gênesis 9:25—27. Mas não podemos esquecer que nos dias da Nova Aliança a exaltação é proporcional à humilhação — ver Marcos 10:42—45. E mais, somos recomendados a nos humilhar e nunca nos exaltar — ver Tiago 4:5 e 10.

Quando entendemos a distribuição dos povos sobre a face da terra, também podemos entender melhor o papel representado pelos descendentes de Cam, que são as pessoas que possuem cor em suas peles — negros, amarelos e vermelhos — concentrados em dois grupos — negróides e mongolóides. A contribuição dos descendentes de Cam, no que diz respeito ao desenvolvimento de tecnologias é insuperável, como esperamos demonstrar mai adiante. Através deste “serviço”, de desenvolvimento tecnológico, os descendentes de Cam fizeram uma contribuição única para o desenvolvimento da civilização humana. Todas as civilizações mais representativas da Antiguidade foram fundadas e desenvolvidas, do ponto de vista técnico, por povos Camitas. Existem milhares de livros que atestam que não existe, praticamente, nenhum desenvolvimento tecnológico digno de nota, que não tenha surgido primeiro entre os descendentes de Cam. Apesar da inacreditável impressão que temos em nossos dias, não existem registros históricos que indiquem que os descendentes de Sem e de Jafé, tenha feito qualquer contribuição significativa ao desenvolvimento tecnológico fundamental da nossa civilização humana.

Existe, como dissemos acima, uma interpretação realmente doentia atribuída à frase que diz que Canaã deve “ser servo dos servos a seus irmãos”. Seja por ignorância ou por puro preconceito muitos procuram ver nestas palavras que as pessoas que possuem cor em suas peles são inferiores e devem “servir como escravos” aos outros descendentes de Noé. O autor acredita que a ignorância é o problema básico nessa questão, mas não descarta o preconceito com parte do mesmo. Quando Noé disse que Canaã deveria ser “servo dos servos” ele não queria dizer “escravo dos escravos” e sim, que Canaã deveria ser um “servo por excelência”. O sentido é o mesmo quando dizemos: “Senhor dos Senhores, Cântico dos Cânticos ou Santo dos Santos”. Mesmo incorporada no contexto de uma “maldição” o sentido não é de degradação e sim de excelência. A história nos mostra que os descendentes de Cam acabaram por aproveitar muito pouco das grandes descobertas que fizeram para beneficiar a humanidade e, esta parece ser a verdadeira consequência da maldição proferida sobre eles.

A bênção proferida sobre Sem estava atrelada à relação de aliança — entre Deus e um ramo dos descendentes de Sem — como podemos perceber pelo uso da expressãoיְהוָֹה אֱלֹהֵי ETERNO Elohim — SENHOR Deus, que é o título típico de Deus no que diz respeito às alianças que encontramos no Antigo Testamento. É importante notarmos, entretanto, que mediante a inspiração divina, Noé foi capaz de predizer que esta relação de aliança seria interrompida um dia e que Jafé iria assumir as responsabilidades atribuídas à Sem — ver Gênesis 9:26—27 e comparar com Mateus 21:32—46.

CONTINUA...

OUTROS ARTIGOS ACERCA DO LIVRO DE GÊNESIS

001 — Introdução e Esboço

002 — Introdução ao Gênesis — Parte 2 — Teorias Acerca da Criação

003 — Introdução ao Gênesis — Parte 3 — A História Primeva e Sua Natureza

004 — Introdução ao Gênesis — Parte 4 — A Preparação para a Vida Na Terra

005 — Introdução ao Gênesis — Parte 5 — A Criação da Vida

006 — Introdução ao Gênesis — Parte 6 — O DEUS CRIADOR

007 — Introdução ao Gênesis — Parte 7 — OS NOMES DO DEUS CRIADOR, OS CÉUS E A TERRA

008 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 1 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 1

009 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 8A – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 2

010 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus - Parte 9 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Segundo e o Terceiro Dia

011 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 10 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quarto Dia

012 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 11 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quinto Dia

013 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 1

013A — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12A — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 2

014 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 13 — Teorias Evolutivas

015 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 14 — GÊNESIS 2A

016 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 15 — GÊNESIS 2B

017 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 16 — GÊNESIS 3A

018 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 17 — GÊNESIS 3B

019 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 18 — GÊNESIS 3C

020 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Livre Arbítrio — Parte 19

021 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Dois Adãos — Parte 20

022 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Era Pré-Patriarcal e a Mulher de Caim — Parte 21

023 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, O Primeiro Construtor de Uma Cidade — Parte 22

024 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Assassino e Fugitivo da Presença de Deus — Parte 23

025 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Primeiro Construtor de uma Cidade e Pseudo-Salvador da Humanidade — Parte 24

026 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Conclusão Acerca de Caim — Parte 25

027 — Estudo de Gênesis — Gênesis 5 — Sete e outros Patriarcas Antediluvianos — Parte 26

028 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Perversidade Humana, Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens— Parte 27A

029 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — OS Nefilim e os Guiborim — Os Gigantes e os Valentes — Parte 27B

030 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Maldade do Coração Humano— Parte 27C.

031 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Corrupção Humana Sobre a Face da Terra e Deus Pode se Arrepender? — Parte 27D.

032 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28A.

033 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28B.

034 — Estudo de Gênesis — Gênesis 7 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 29 — O Dilúvio Foi Global Ou Local?

035 — Estudo de Gênesis — Gênesis 8 — A promessa que Deus Fez a Noé e seus descendentes — Parte 30 — Nunca Mais Destruirei a Terra Pela Água

036 — Estudo de Gênesis —  O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 001

037 — Estudo de Gênesis — O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 002

038 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 001

039 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 002

040 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 003

041 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 004 — A NATUREZA DA ALIANÇA ENTRE DEUS E NOÉ

042 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 005 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 001

043 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 006 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 002 — OS NEGROS SÃO AMALDIÇOADOS?

044 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 007 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 003 — A CONTRIBUIÇÃO DOS FILHOS DE NOÉ PARA A HUMANIDADE

045 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 001 — OS DESCENDENTES DE JAFÉ
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/genesis-estudo-045-tabua-das-nacoes.html

046 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 002 — OS DESCENDENTES DE CAM: NEGROS, AMARELOS E VERMELHOS

047 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 003 — OS DESCENDENTES DE SEM E A ORIGEM DOS HEBREUS

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.

Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.

domingo, 21 de agosto de 2016

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS E O DEBATE COM OS JUDEUS — PARTE 002 — O SERVO SOFREDOR É O PRÓPRIO DEUS



CONTINUAÇÃO...

Propomos agora uma exegese em cada uma dessas estrofes.

52:13—15: A exaltação do Servo
Esta estrofe descreve a fala de Deus:

52:13 Eis que o meu Servo prosperará;11
será exaltado e elevado e será mui sublime.

14 Como pasmaram muitos à vista dele,12 pois uma desfiguração13  humana era o seu aspecto, e a sua forma, daquela dos filhos da humanidade,

15 assim espantará14  muitas nações,
por causa dele os reis fecharão a sua boca;
porque aquilo que não lhes foi anunciado verão,
e aquilo que não ouviram entenderão.

No v.13a, o verbo “prosperará” é a tradução de sakal hifil imperfeito “olhar para discernir”, “dar atenção a”, “ponderar”, “considerar”, “ser prudente”; “prosperar”, “ter sucesso”. Há uma questão que precisa ser respondida: este verbo, aqui, apresenta o sentido de “ser prudente” ou de “ter sucesso”? A forma verbal sakal nos textos sapienciais significa “agir com prudência”, mas, nos textos que não pertencem à literatura sapiencial — como Isaías 52—13 — 53:12 —, normalmente a raiz skl refere-se a uma pessoa de “sucesso”.15  No caso de Isaías 52:13, sakal refere-se à “prudência”, mas o enfoque do texto está no sucesso resultante da obediência a ETERNO. Esse mesmo sentido de sakal também é apresentado em Josué 1:7—8.

O v.13b apresenta três ações verbais: 1) “será exaltado”, qal imperfeito rum “ser elevado”, “ser exaltado”. Trata-se de uma exaltação depois da humilhação. 2) “elevado” é a tradução de nasa’ nifal waw consecutivo perfeito “ser levantado”, “ser exaltado”. Refere-se a uma exaltação contínua. 3) “e será mui sublime” provém da raiz verbal gabah qal waw consecutivo perfeito “ser sublime”, “ser alto”, seguido pelo particípio adverbial me’od “extremamente”, “muito”.  Essa expressão destaca a posição de honra, adquirida pelo Servo do ETERNO.

Em outros textos de Isaías, essas três formas verbais (rum, nasa’ e gabah) descrevem a glória de Deus:16

Isaías 5:16

Mas o Senhor dos Exércitos é sublime (gabah) em juízo; e Deus, o Santo, é santificado em justiça.

Isaías 6:1

....eu vi o Senhor assentado sobre um alto (rum) e sublime (nasa’ ) trono, e as abas de suas vestes enchiam o templo.

Isaías 33:10

Agora, me levantarei, diz o Senhor; levantar-me-ei (nasa’) a mim mesmo; agora, serei exaltado (ramam )”.17

Isaías 57:15

Porque assim diz o Alto (rum), o Sublime (nasa’), que habita a eternidade (...).

A conclusão é óbvia: o Servo é equiparado ao ETERNO. Trata-se de um personagem divino. Portanto, não pode ser identificado com Isaías ou com outro profeta do AT. Ele não é somente homem. É Deus, também. Valhamos do comentário de Ridderbos, sobre Isaías 52:13: “Com boas razões, alguns intérpretes fazem com que estas palavras lembrem a ressurreição, ascensão, entronização de Cristo à mão direita do Pai”.18  Assim, o texto isaiano é uma antecipação de

Filipenses 2.5—11

5 Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,

6 pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus;

7 antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,

8 a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz.

9 Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome,

10 para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra,

11 e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.


No v.14, o profeta começa a descrever a humilhação do Servo. O verbo “pasmaram” é a tradução de shamem qal perfeito “estar desolado”, “estar aterrorizado”, “atordoar”, “estupefazer”. A raiz aponta para uma “desolação resultante de uma catástrofe, mas também pode significar “horror” e “estarrecimento”, que são “reações provocadas pela visão da desolação”19 (cf. Deuteronômio 28:37; 2 Reis 22:19. O pasmo é provocado nas pessoas que veem as atrocidades cometidas contra o Servo do ETERNO. “desfiguração (da face)” é uma “esfiguração humana” (hebraico mixhat me’ix). O Servo estava totalmente desfigurado. Não parecia mais homem. Isso causa espanto e pasmo naquelas pessoas que olham para Ele.

O v.15 descreve a atitude das “nações” e dos “reis” diante do Servo. O verbo “espantará” é o hebraico nazah hifil imperfeito “fazer saltar”, “assustar”, e poderia ser traduzido como “causará admiração”. De acordo com Oswalt, trata-se de nazah II “espanto”.20  Há duas interpretações possíveis para esse verbo. Primeira: as nações e os reis estão espantados por causa da exaltação do Servo. Não entendem como alguém que apresenta uma face inumana (“desfiguração humana”, v.14), agora é exaltado à categoria de monarca. Por isso, as nações estão surpresas e admiram o Servo. Os reis fecham a boca, em sinal de temor — Jó 29:9—10, 21—23 —, pois “aquilo que lhes foi anunciado verão”; “isto é, o que agora eles veem com seus olhos ultrapassa qualquer coisa que já ouviram”.21 Uma segunda interpretação defende que o v.15 está totalmente voltado para a humilhação do Servo. É justamente essa humilhação que causa espanto nas nações e nos reis. “As perseguições que o Servo sofrerá com grande paciência (53:7) são um escândalo para os espectadores (52:14—15; 53:2—3, 7—9)...”.22  “Nesta redação, os gentios acharão chocante a humilhação do Libertador, visto que jamais ouviram antes que é por meio da perda de todas as coisas que o Salvador conquistará todas as coisas.”23

Na verdade as duas interpretações podem ser relacionadas. De acordo com o v.13, o Servo é equiparado a ETERNO. É exaltado. Mas no v.14, ele está desfigurado por causa do seu sofrimento. Então, o que causa espanto nas nações e nos reis é o fato do Servo exaltado ser humilhado. Trata-se de um monarca humilhado. Qualquer rei, diante dessa cena, ficaria estupefato. Pois o Servo, que é Deus, apresenta a face desfigurada por causa do sofrimento. Isto é inconcebível aos olhos humanos, principalmente aos olhos dos reis. Por isso, o profeta levanta uma questão em 53:1: “Quem creu naquilo que ouvimos?”. O personagem apresentado aqui se encaixa perfeitamente na figura do Cristo crucificado. A mensagem da cruz foi rejeitada pelos judaizantes do primeiro século, que esperavam um Messias que se apresentaria como Rei poderoso, um guerreiro herói, que libertaria Israel do jugo do império romano. A mensagem do Evangelho, que apresentava o Messias crucificado e humilhado, era inaceitável para eles (Is 53:1; veja Romanos 10:16; João 12:38;). A mensagem da cruz é loucura para os que se perdem —

1 Coríntios 1:18

Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus.

CONTINUA...

OUTROS ARTIGOS DESSA SÉRIE

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 001

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 002 — O SERVO SOFREDOR É O PRÓPRIO DEUS

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 003 — O SERVO SOFREDOR É HOMEM DE DORES QUE SABE O QUE PADECER

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 004 — O CASTIGO QUE NOS TRAZ A PAZ

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 005 —  O SERVO DE DEUS MORREU POR CAUSA DAS NOSSAS TRANSGRESSÕES

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 006 —  O SERVO DE DEUS, O JUSTO, JUSTIFICARÁ A MUITOS


O texto original poderá ser acessado por meio desse link aqui:


Luciano R. Peterlevitz

Bacharel em Teologia (FTBC e FATEO/UMESP); Mestre e Doutor em Ciências da Religião, na área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico, pela Universidade Metodista de São Paulo. Coordenador Acadêmico da Faculdade Teológica Batista de Campinas, onde também leciona Hebraico, Antigo Testamento e Hermenêutica Bíblica nos cursos de Bacharelado em Teologia e Pós-graduação em Exposição Bíblica. 

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos. 

NOTAS:

11 sakal hifil imperfeito “olhar para discernir”, “dar atenção a”, “ponderar”, “considerar”, “ser prudente”; “prosperar”, “ter sucesso”.

12 Peshita e Targum: ‘alayw “diante dele”. TM (Texto Massorético) e alguns manuscritos (inclusive 1QIs1ª e 1QIsb): ‘aleyk “diante de ti”. 

13 TM: mixhat “desconfiguramento da face”. 1QIsa: mxhty. Tradição babilônica: muxhat. Peshitta: mhbl. Targum: maxhat “arruinado”.  Veja a Vulgata.

14 nazah II hifil imperfeito “causar um espanto”. John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, vol. 02, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2011, p. 456. TM: yazzeh “aspergirá”, hifil imperfeito de nazah I “borrifar”, “salpicar”. LXX: “causará admiração”. BHS: provavelmente qal imperfeito yizzeh ou yizzu; outros propõem yirggezu qal imperfeito de ragaz “tremer”,  ou yibzuhu qal imperfeito de bazah “desprezar” . Siríaca: “purificará”.

15 Gary V. Smith, Isaiah 40-66, Nashville, Broadman & Holman Publishers, 2009, p. 435 (The New American Commentary).

16 Gary V. Smith, Isaiah 40-66, p. 436.

17 ramam I é uma variação de rum.

18 J. Ridderbos, Isaías: introdução e comentário, São Paulo, Vida Nova, p. 424 (Série cultura bíblica).

19 R. Laird Harris; Gleason L. Archer Jr.; Bruce K. Waltke (organizadores), Dicionário internacional de teologia do Antigo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1998, p. 1583.

20 Veja John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 456.

21 J. Ridderbos, Isaías, p. 425.

22 A Bíblia de Jerusalém – Nova Edição, revista e ampliada, 5a edição, São Paulo, Sociedade Bíblica Internacional/Edições Paulus, 2002, p.1449.

23 John N. Oswalt, Comentário do Antigo Testamento: Isaías, p. 463.

Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.

sábado, 20 de agosto de 2016

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS E O DEBATE COM OS JUDEUS — PARTE 001


jesus em isaias

Aos poucos temos notado o aparecimento de inúmeros sites, artigos e, especialmente vídeos, na Internet defendendo a ideia canhestra que a compreensão dos evangélicos acerca do texto de Isaías 52:13 — 53:12 é fruto da ignorância do texto hebraico e também duma exegese superficial.

Entre os motivos alegados recebe destaque o perene argumento que nossas traduções, bem como toda e qualquer tradução, não refletem com precisão o texto original em hebraico. Mas isso é apenas mais uma grande tolice. Prova disso, é que queremos iniciar esse debate aqui no Blog O Grande Diálogo apresentando um artigo de autoria do Professor Doutor Luciano R. Peterlevitz que é, inclusive, professor do idioma hebraico.

Vamos ao texto do professor Peterlevitz.

O servo sofredor em Isaías 52:13 — 53:12

O servo sofredor em Isaías 52:13 — 53:12

Introdução

Um estudioso alemão chamado Bernhard Duhm, em seu comentário do livro de Isaías publicado em 18921 identificou quatro cânticos em Isaías 40—55, que similarmente apresentam um personagem conhecido como “o Servo do Senhor”:

1º cântico: 42:1—7

2º cântico: 49:1—9

3º cântico: 50:4—9

4º cântico: 52:13 — 53:12.

Certamente o quarto cântico — Isaías 52:13 — 53:12 é o mais conhecido para os cristãos. Isso porque este texto isaiano descreve o sofrimento, a morte e a exaltação do Servo do ETERNO, e o NT reconhecidamente identifica esse Servo com o Messias prometido pelos profetas do Antigo Testamento —

Atos 8:32—33

32 Ora, a passagem da Escritura que estava lendo era esta: Foi levado como ovelha ao matadouro; e, como um cordeiro mudo perante o seu tosquiador, assim ele não abriu a boca.

33 Na sua humilhação, lhe negaram justiça; quem lhe poderá descrever a geração? Porque da terra a sua vida é tirada.

Mateus 8:17

Para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Ele mesmo tomou as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças.

Lucas 22:37

Pois vos digo que importa que se cumpra em mim o que está escrito: Ele foi contado com os malfeitores. Porque o que a mim se refere está sendo cumprido.

1 Pedro 2:24

Carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados.

Não é sem razão, pois, que o personagem apresentado no quarto cântico é comumente chamado de “Servo Sofredor”.

Porém, a questão da identificação do Servo de ETERNO tem sido bastante disputada entre os comentaristas de Isaías. Por essa razão, o presente artigo primeiramente apresentará as várias opiniões sobre a identidade do Servo, para depois analisar exegeticamente o quarto cântico do Servo. O objetivo deste artigo é mostrar que a leitura cristã não é fruto de uma exegese descuidada do texto isaiano. Na verdade, uma análise das palavras hebraicas desse quarto cântico revela que o texto de Isaías realmente apontava para o Gólgota e para o túmulo vazio.

Interpretações

A identificação do Servo do Senhor tem sido objeto de muito debate na pesquisa bíblica. Três interpretações podem ser destacadas2:

1ª — A interpretação coletiva. O servo seria Israel, como povo ou comunidade que sofrera o exílio babilônico — cf. 41:8—9; 49:3. Muitos intérpretes que aderem a essa perspectiva creem que, nesse quarto cântico, o sofrimento do Servo-Israel é vigário; Israel teria se oferecido como sacrifício de expiação pelos pecados das nações. A identificação do Servo com Israel fundamenta-se principalmente em Isaías 49:3: “Tu és meu servo, és Israel.” O problema para esta interpretação é muito simples: em 49:5, o Servo nitidamente distinguiu-se de Israel. Por isso, 49:3 não alude ao “Israel nacional, posto que no versículo 5 o Servo tem uma missão destinada a Israel. O Servo Messiânico é o Israel ideal através de quem o Senhor será glorificado3.”  Além disto, de acordo com teologia dos profetas clássicos, os exílios sofridos por Israel — tribos do Norte — e Judá — Sul — foram resultado dos seus pecados contra a palavra de ETERNO — ver Oséias 8:13—14; Isaías 1:21—31; etc. Dificilmente algum profeta diria que “Israel” apresentava a perfeição necessária e requerida à vítima do sacrifício expiatório. “Israel” não tinha condições para expiar a culpa das nações, porque ele mesmo era culpado e o seu pecado precisa ser expiado.

2ª — A interpretação individual. Essa interpretação subdivide-se em pelo menos três ramificações: a) O servo seria um personagem escatológico-messiânico; b) O servo representaria algum personagem importante — Moisés, Joaquim, Jeremias ou Zorobabel; c) o servo seria o próprio profeta, o “Deutero-Isaías” — cf. 43:10; 44:26; 50:10; 59:21).

3ª — A interpretação complexiva que une a interpretação coletiva e a individual. Segundo essa interpretação, houve uma evolução conceitual no Deutero-Isaías: teria passado da interpretação do Servo como Israel para a transferência do sofrimento e da morte vigária de um indivíduo (H. H. Rowley). Para outros intérpretes, o profeta teria associado as dores do Servo aos sofrimentos dos exilados na Babilônia. Entretanto, mesmo fazendo essa associação, o quarto cântico anuncia que um personagem futuro reviveria a história trágica dos exilados; tratar-se-ia de uma figura escatológica a ser revelada no futuro do profeta4.

Atualmente a interpretação individual é a mais aceita entre os estudiosos. Citemos algumas evidências que apoiam-na:

1ª — No segundo e no terceiro cânticos o discurso está na primeira pessoa do singular. O Servo fala de suas dúvidas e crises interiores, tal qual Jeremias — Isaías 49:1-6; 50:4-9.

2ª — Em Isaías 42:1—7, o Servo refere-se a sua responsabilidade de pregador, e expõe a sua autocompreensão de profeta. Nessa linha de pensamento, muitos intérpretes identificam o Servo com o profeta Isaías5.  Richard E. Averbeck admite que, em dois dos cânticos, o profeta Isaías se identifica com o Servo — Isaías 49:1—6; 50:4—6 —, no entanto, no quarto cântico, o Servo distingue-se do profeta, e, no contexto de Isaías 40-66 — texto que o profeta Isaías, no século 8 a.C., visionariamente propõe restauração para os judeus exilados na Babilônia no século 6 a.C. —, ele apresenta-se como Aquele que trará Israel à terra prometida6.

Para muitos estudiosos, o Servo seria uma alusão a Ciro, um tipo do Messias escatológico — cf. Isaías 42:5—7; 44:28; 45:1—7, 12—13. Em Isaías 44:28, Ciro é chamado de “ungido”, literalmente “messias”. No entanto, uma observação de Isaltino Gomes parece-nos pertinente: “A função do Servo extrapolaria a de recondução dos exilados. Teria uma dimensão soteriológica, isto é, com um significado de salvação. Ver o cumprimento desta dimensão em Ciro é, sem dúvida, fora de sentido. É restringir o texto no tempo, no espaço e na pessoa7.”

É preciso reconhecer que, no livro de Isaías, o termo hebraico ‘ebed, “servo”, é aplicado a vários personagens8: aos “servos do rei” (Is 37:5, 24); àqueles que adoram o ETERNO (Is 22:20; 56:6; 63:17); aos profetas como porta-vozes de Deus (44:26); a Isaías (20:3); a Davi (37:35). Além disto, Israel também é apresentado como um servo através do qual o plano redentor do ETERNO é executado (Is 41:8—9; 43:10; 44:1, 2, 21; 45:4). Nos quatro cânticos do Servo (especialmente no quarto, que é objeto de análise do presente artigo), por sua vez, o termo ‘ebed não pode ser aplicado nem para algum personagem do Antigo Testamento nem para Israel9.  Na verdade, como o presente artigo demonstrará nas páginas subsequentes, o quarto cântico (Is 52:13 — 53:12) descreve o “Servo do Senhor” realizando uma obra que nenhum outro personagem do Antigo Testamento realizou.

É oportuno notar que a comunidade de Qumram relacionava o Servo a um personagem que futuramente seria levantado pelo ETERNO. Os qumranitas aguardavam um Messias que não somente sofreria e seria humilhado, mas também seria exaltado e glorificado. É o que se lê em um hino que está entre os rolos descobertos no Mar Morto:

[Quem] foi desprezado como [eu? E quem] foi rejeitado [pelos homens] como eu? Quem, como eu, suportou todas as aflições? Quem se compara a mim na resistência do mal? [...] Quem foi considerado desprezível como eu e, no entanto, quem é igual a mim em minha glória10?

Ao que parece, quando os autores do Novo Testamento aplicaram o texto isaiano a Cristo, eles demonstraram que as expectativas que os qumranitas alimentavam em relação ao Messias começaram a se cumprir na Pessoa de Jesus de Nazaré.

Mas será que Isaías 52:13 — 53:12 realmente apresenta a expectativa de que o Servo do ETERNO seria um personagem messiânico, que futuramente seria levantado pelo ETERNO para resgatar o seu povo dos seus pecados? Será que os autores do Novo Testamento, ao aplicarem o quarto cântico a Cristo, não estariam promovendo uma reinterpretação cristã desconectada do sentido original do texto de Isaías? Propomos então uma análise do texto isaiano para averiguar essas questões.

Análise exegética

Os capítulos de Isaías 40—55 apresentam uma palavra de consolo e esperança para o povo de Deus. Essa parte do livro de Isaías pode ser resumida em

Isaías 40:1

Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus.

Do ponto de vista teológico, Deus apresenta-se como Salvador e Resgatador de Israel — Isaías 43:1, 14; 52:3,9. Em Isaías 51:1 a 52:12, texto que precede o quarto cântico (52:13 — 53:12), lemos palavras de consolo para a Sião que foi assolada por nações ímpias. Contudo, em 52:13 — 53:12, Deus não esmaga essas nações que destruíram Judá, mas esmaga o seu próprio Servo, para através Dele propor salvação para todos os transgressores. Portanto, Isaías 52:13 — 53:12 descreve como Deus iria efetuar a salvação prometida não somente em Isaías 51:1 a 52:12, mas em todos os capítulos de Isaías 40—55. 

Quanto à estrutura, Isaías 52:13 — 53:12 é composto por três estrofes, cada qual enfocando um tema relacionado ao Servo:

1ª — 52:13—15: a exaltação do Servo

2ª — 53:1—3: a rejeição do Servo

3ª — 53:4—6: a morte vigária do Servo

4ª — 53:7—9: a submissão do Servo

5ª — 53:10—12: o triunfo do Servo

CONTINUA...


OUTROS ARTIGOS DESSA SÉRIE

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 001

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 002 — O SERVO SOFREDOR É O PRÓPRIO DEUS

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 003 — O SERVO SOFREDOR É HOMEM DE DORES QUE SABE O QUE PADECER

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 004 — O CASTIGO QUE NOS TRAZ A PAZ

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 005 —  O SERVO DE DEUS MORREU POR CAUSA DAS NOSSAS TRANSGRESSÕES

O SERVO SOFREDOR DE ISAÍAS 52:13 — 53:12 — PARTE 006 —  O SERVO DE DEUS, O JUSTO, JUSTIFICARÁ A MUITOS


O texto original poderá ser acessado por meio desse link aqui:


Luciano R. Peterlevitz

Bacharel em Teologia (FTBC e FATEO/UMESP); Mestre e Doutor em Ciências da Religião, na área de Literatura e Religião no Mundo Bíblico, pela Universidade Metodista de São Paulo. Coordenador Acadêmico da Faculdade Teológica Batista de Campinas, onde também leciona Hebraico, Antigo Testamento e Hermenêutica Bíblica nos cursos de Bacharelado em Teologia e Pós-graduação em Exposição Bíblica.


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.

______________________________________________________

1 Bernhard Duhm, Das Buch Jesaja, Göttingen, Vandenhoeck & Ruprecht, 1892, 458 p.

2 Richard E. Averbeck, “Christian Interpretations of Isaiah 53”. In: Darrell L. Bock; Mitch Glaser, The Gospel According to Isaiah 53: Encountering the Suffering Servant in Jewish and Christian Theology, Grand Rapids, Kregel Publications, 2012, p. 41-45; Werner H. Schmidt, Introdução ao Antigo Testamento, São Leopoldo, Sinodal, 1994. p. 252-254; E. Sellin; G. Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, São Paulo, Editora Academia Cristã/Paulus, 2012, p. 534-538.

3 Nota de rodapé da New Internacional Version. 

4 J. Steinmann, O livro da consolação de Israel e os profetas da volta do exílio, São Paulo, Edições Paulinas, p. 193-194.

5 E. Sellin; G. Fohrer, Introdução ao Antigo Testamento, p. 536; Hans-Jürgen Hermisson, “The Fourth Servant Song in the Contexto of Second Isaiah”. In: Bernd Janowski; Peter Stuhlmacher (ed.), The Suffering Servant: Isaiah 53 in Jewish and Christian Sources, Grand Rapids, Eerdmans Publishing, 2004, p. 45-47. 

6 Richard E. Averbeck, “Christian Interpretations of Isaiah 53”, p. 33-60.

7 Isaltino Gomes Coelho Filho, Isaías: o Evangelho do Antigo Testamento, Rio de Janeiro, JUERP, 2001, p. 151.

8 Gerard van Groningen, Revelação messiânica no Antigo Testamento: a origem divina do conceito messiânico e o seu desdobramento progressivo, 2ª edição, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2003, p. 556-557. 

9 Gerard van Groningen, Revelação messiânica no Antigo Testamento, p. 557-589.


10 Israel Knohl, O Messias antes de Jesus, Rio de Janeiro, Ed. Imago, 2001, p. 28, 31.

Os comentários não representam a opinião do Blog O Grande Diálogo; a responsabilidade é do autor da mensagem, sujeito à legislação brasileira.