Uma das maiores mistificações literárias do meio
evangélico tem a ver com a invenção da expressão, no mínimo curiosa, que é
representada pelo nome “Jeová” e seus vários clones, tais como: Javé, Iavé, Iaweh, Iahveh etc.
Como surgiu esse nome que serve até para designar toda uma denominação
pseudocristã chamada de “Testemunhas de Jeová”?
I. יהוה — YHVH — O Eterno — SENHOR
Na literatura do antigo Oriente Próximo existem 19
registros catalogados entre os séculos IX e V a.C., da expressão hebraica יהוה e todas elas fazem referência
ao Deus de Israel.
No Antigo Testamento a forma abreviada יה — YH — aparece 50 vezes, a
grande maioria em passagens poéticas. O nome יהוה — YHVH — O Eterno — SENHOR,
aparece cerca de 6.800 vezes em todos os livros do Antigo Testamento, com
exceção dos livros de Ester, Eclesiástico e Cantares de Salomão. A palavra
aparece a primeira vez em Gênesis 2:4 e esse nome é invocado pela primeira vez
em Gênesis 4:26. É chamado algumas vezes de “o tetragrama (tetra=quatro e
grama=letra)” o que é uma referência às 4 consoantes hebraicas que o compõe יהוה. Apesar do nome יהוה — YHVH — O Eterno — SENHOR ser usado amplamente no livro do Gênesis existem
duas passagens específicas no livro de Êxodos — ver Êxodo 3:13—15 e 6:2—3 - que
trazem uma revelação especial acerca deste nome.
Êxodo 3:13—15 – O verso 14 de Êxodos
3 é um dos mais intrigantes de toda a Bíblia. O nome fornecido por Deus
atendendo a um pedido de Moisés é: אֶהְיֶה
אֲשֶׁר אֶהְיֶה — Esse
nome é traduzido na versão Revista e Atualizada de Almeida por “EU SOU O QUE
SOU”. Esse nome consiste da repetição de uma forma do verbo “ser” em hebraico —
היה.
A forma é a primeira pessoa do singular doo verbo ser — SOU — acrescida do
pronome pessoal — EU. Alguns estudiosos têm sugerido que a resposta de Deus é
na verdade uma recusa em fornecer o nome verdadeiro de Deus. Isto se deve ao
fato que naqueles tempos acreditava-se que a pessoa que conhecia o verdadeiro
nome de uma divindade tinha poder sobre essa mesma divindade. Para esses
estudiosos a resposta de Deus a Moisés teria sido “EU SOU O QUE SOU e não é assunto
seu saber qual é Meu nome”. Todavia uma análise mais abrangente do Antigo
Testamento nos mostra, claramente, que essa posição está errada. Todas as vezes
que o Deus verdadeiro se manifesta no Antigo Testamento Ele faz questão de
dizer Seu nome – ver, por exemplo, Gênesis 35:11; Êxodos 3:6. Ademais, o fato
que יהוה — YHVH — O Eterno — SENHOR é usado em associação com a expressão “o Deus de
vossos pais” — Êxodo 3:15 — sugere que Ele era um Deus conhecido. É muito
difícil aceitarmos que a repetição desse nome por quase 6.800 vezes no Antigo
Testamento, seja apenas uma confirmação da recusa de Deus querer fornecer Seu
verdadeiro nome.
Historicamente falando, teólogos cristãos têm
defendido a ideia que o que Deus realmente queria expressar ao utilizar esse
nome era o conceito de “Eu serei Deus para vocês”. A força do nome não está no
fato que Deus é ou que Deus está presente, e sim, no fato que Ele será um Deus
fiel a eles na história subsequente —ver Êxodo 3:16—17. O uso da mesma forma
verbal em Êxodos 3:12; 4:12—15 sugere essa mesma verdade. Ver também Êxodos 6:7
e 29:45.
Deus vai ser Deus com e para Seu povo em todas as
ocasiões e em todos os lugares. Esta fórmula sugere a fidelidade divina. O povo
de Israel não precisava se preocupar com um Deus caprichoso e arbitrário. Pode
se esperar que Deus sempre será aquilo que Ele é. Os israelitas deveriam
entender sua história
a partir desse nome יהוה — YHVH — O Eterno — SENHOR e
esse nome a partir da sua história.
Mas na prática, qual deveria ser o significado
deste nome יהוה
— YHVH — O Eterno — SENHOR que
fora dado para o povo de Israel? Antes de mais nada devemos deixar bem claro
que existem dois extremos que precisam ser evitados. Em primeiro lugar devemos
evitar o conceito que o nome é uma mera “etiqueta” de identificação. Em segundo
lugar precisamos evitar os conceitos envolvidos na esfera da “mágica”, onde a
simples pronúncia do nome implica em poder sobre a divindade representada.
Talvez este último seja um dos principais motivos porque Deus ordenou que: “Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em
vão, porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão –
Êxodo 20:7”.
O nome que Deus mesmo deu ao Seu povo tem várias
implicações. Em primeiro lugar torna Deus distinto de todas as outras criaturas
que têm nome, incluindo-se aí, todos os falsos deuses! Indo além, todos aqueles
que têm nome tornam-se parte da comunidade das pessoas que possuem nomes. Deus
decidiu, ao fornecer Seu nome, se unir à comunidade histórica de Seu povo. E
mais do que isso, ao associar o nome
יהוה
— YHVH — O Eterno — SENHOR aos
antepassados (Eu Sou o Deus de teus pais), Ele demonstra que é o Deus da
história. A história do povo de Deus se funde com a história de Deus mesmo. E
nesse contexto Deus se compromete a fazer parte da história do povo de Israel.
Mas a doação do nome יהוה — YHVH — O Eterno — SENHOR
implica também um relacionamento. O fato de que Deus se revelou usando este
nome abre a possibilidade, ou melhor, demonstra o desejo de que Deus buscava
manter certa intimidade com Seu povo. Todos os relacionamentos que não envolvem
nomes são distantes. Para se ter intimidade é necessário mencionar o nome. Na
esfera humana o apelido, dado em casa, demonstra claramente esses fatos. É a
menção do nome que torna a comunicação possível. O citar o nome cria a
possibilidade da disponibilidade. Ao dar Seu nome יהוה — YHVH — O Eterno — SENHOR, Deus se torna
acessível. Deus e Seu povo podem agora se encontrar e falar um com o outro. No
entanto, porque o nome não é a uma pessoa, nem um identificador e nem
representativo do caráter — erros por demais cometidos — a distinção entre Deus e Seu povo se mantém.
Ainda existe um mistério envolvendo aquele que se chama por יהוה — YHVH — O Eterno — SENHOR.
Acima de tudo, porém, a doação do nome representa
que Deus se identifica em toda a extensão possível com Seu povo como demonstrado
pelo contexto do encontro entre Deus e Moisés — ver Êxodo 3:7. A manifestação
suprema dessa identificação ocorre em Jesus — ver Hebreus 2:14—18; 4:14—16;
7:25—27; 10:19—25.
II. Como o TETRAGRAMA יהוה — YHVH — O Eterno virou
“JEOVÁ”?
יהוה – YHVH – esse tetragrama representa o nome inefável de
Deus e deve ser traduzido, de forma apropriada, pela expressão “ETERNO”. Nossos
tradutores, todavia, optaram pela expressão SENHOR em versalete — com todos os caracteres
maiúsculos. A primeira edição da tradução da “Bíblia na Linguagem de Hoje”
trazia a expressão ETERNO. Por motivos que este autor desconhece tal prática
foi abandonada na segunda edição da — Nova Tradução na Linguagem de Hoje — o que
pode ser considerado como algo muito lamentável.
Os
judeus modernos preferem chamar o Deus Eterno pela expressão שֵׁם הָ – ha Shem – que significa “o Nome”, em suas verbalizações no
dia a dia.
Que Deus abençoe a todos.
Alexandros Meimaridis
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