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sábado, 18 de outubro de 2014

FALTA DE ÁGUA: PARA ENTENDER O QUE PODE ACONTECER


CADÊ A ABUNDÂNCIA? Reservatório do Sistema Cantareira em Bragança Paulista. A crise mostra como o país precisa mudar  a forma como  lida com a água (Foto: Luis Moura/Estadão Conteúdo)

CADÊ A ABUNDÂNCIA? Reservatório do Sistema Cantareira em Bragança Paulista. A crise mostra como o país precisa mudar  a forma como  lida com a água (Foto: Luis Moura/Estadão Conteúdo)

O artigo abaixo é de autoria de Bruno Calixto e Aline Imercio e foi publicado pela revista ÉPOCA.

Crise da água em São Paulo: Quanto falta para o desastre?

O que acontecerá com as torneiras de São Paulo – e o que ensina a pior crise de água da maior metrópole do país

BRUNO CALIXTO E ALINE IMERCIO

Verão de 2015. As filas para pegar água se espalham por vários bairros. Famílias carregam baldes e aguardam a chegada dos caminhões-pipa. Nos canos e nas torneiras, nem uma gota. O rodízio no abastecimento força lugares com grandes aglomerações, como shopping centers e faculdades, a fechar. As chuvas abundantes da estação não vieram, as obras em andamento tardarão a ter efeito e o desperdício continuou alto. Por isso, São Paulo e várias cidades vizinhas, que formam a maior região metropolitana do país, entram na mais grave crise de falta d’água da história.

A cena não é um pesadelo distante. Trata-se de um cenário pessimista, mas possível, para o que ocorrerá a partir de novembro. Moradores de São Paulo sentem, hoje, o que já sofreram em anos anteriores cidadãos castigados pela seca em Estados tão distantes quanto Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco. A mistura de falta de planejamento, administração ruim, eventos climáticos extremos e consumo excessivo ameaça o fornecimento de água em cidades pelo Brasil todo. O episódio ensina lições aos governos. E exige respostas para perguntas que todo cidadão deve fazer a si mesmo e aos candidatos nas próximas eleições.

COMO A CRISE SURGIU?

A crise em São Paulo é, em parte, consequência da falta de água nas cabeceiras de rios que abastecem o Sistema Cantareira. Trata-se de um conjunto de represas responsável por abastecer 9 milhões de habitantes na Grande São Paulo. Todo esse sistema depende das chuvas do verão. Em anos normais, nos meses secos e frios, de junho a agosto, a precipitação é de menos de 150 milímetros. Isso é, normalmente, compensado no primeiro trimestre, que soma cerca de 600 milímetros. Desde o ano passado, as chuvas não vêm no volume esperado. “A maioria dos meses de 2013 já havia registrado níveis de pluviosidade abaixo da média dos últimos 30 anos”, diz o meteorologista Marcelo Shneider, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). “A situação ficou pior a partir de outubro e novembro. Foi um clima anômalo em todo o Sudeste, não apenas na Cantareira.” Nos três primeiros meses de 2014, em vez dos esperados 600 milímetros, caíram menos de 300 milímetros.

O governo estadual põe a culpa na falta de chuva, mas ela não explica a história sozinha. A estiagem deste ano apenas tornou evidente quanto o sistema é frágil e quão escassa a água é, mesmo num país tropical. O Sistema Cantareira existe desde a década de 1970. Ele retira água das bacias dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Em 2004, a Sabesp (empresa de abastecimento da capital e de outras cidades) fez obras, aumentou o volume do Sistema Cantareira e renovou sua autorização para administrá-lo. O governo estadual permitiu a retirada de 36.000 litros de água por segundo, a maior parte destinada à Grande São Paulo. Esse volume de extração, segundo Antonio Carlos Zuffo, hidrólogo da Unicamp, supera o recomendável para a capacidade das represas. “Quando a outorga foi renovada, o governo subiu o volume de litros que poderia ser retirado com a condição de que fossem feitas mais obras para aumentar a capacidade de armazenamento das represas. E elas não ocorreram no ritmo previsto”, afirma.

A renovação da outorga previa a revisão de estudos hidrológicos, a criação de um plano de contingência para situações emergenciais e ações para reduzir a dependência que São Paulo tem do Sistema Cantareira. Nem todas as ações planejadas foram colocadas em prática. O problema chamou a atenção do Ministério Público. A promotora Alexandra Martins acredita que o poder público não deu a devida atenção ao caso. “Detectamos uma série de problemas no cálculo da destinação de água a cada área. A população cresceu muito e o volume não foi ampliado nos últimos 30 anos”, diz. Questionada por ÉPOCA, a Sabesp respondeu que fez as obras necessárias.

LIÇÃO: não permitir que as obras parem. Para financiá-las, muitos países definem multas para quem polui ou consome em excesso. A Sabesp defende a isenção de impostos para empresas que invistam na manutenção e expansão do sistema de abastecimento. Parcerias público-privadas podem ser usadas para obras de esgoto e fornecimento de água.

COMO A CRISE PODERIA SER EVITADA?

São Paulo já passou por momentos climáticos extremos antes. Em 2004, o nível do reservatório do Sistema Cantareira ficou abaixo dos 30%. A Sabesp iniciou então um racionamento de água por rodízio de bairros. Fez obras para acessar o que era, até aquele momento, uma reserva de emergência. Trata-se da água que fica abaixo do ponto de captação nos reservatórios, conhecido pelo termo “volume morto”. Nos anos seguintes, por sorte, os reservatórios voltaram a encher.

Em 2011, experimentamos o extremo oposto. Fortes chuvas atingiram a região. As comportas dos reservatórios precisaram ser abertas para liberar o excesso de água. “Havia um nível superior a 100% no sistema, algo nunca antes registrado”, diz Francisco Lahóz, secretário executivo do consórcio PCJ (Consórcio Intermunicipal das Bacias dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí).

LIÇÃO: não podemos mais desperdiçar chuvas como em 2011. As represas devem ser capazes de armazenar mais água nos anos de abundância. Os sistemas devem prever alternâncias mais extremas de chuvas e secas. Construtoras, fábricas e grandes edifícios têm de adotar coleta da água da chuva.

COMO ENFRENTAMOS A ESCASSEZ?

O consórcio de águas PCJ escreveu os “25 mandamentos da estiagem”, em fevereiro. O documento vem inspirando medidas de reação à seca. Duas cidades, Valinhos e Vinhedos, decretaram racionamento. As regiões de Campinas e Americana adotaram multas para os gastadores. Prefeituras têm cadastrado os caminhões-pipa.  “São Paulo ainda tem outras opções de reservatórios, caso o volume morto do Cantareira seque. A região do PCJ não tem”, diz Lahóz.

Em São Paulo, a Sabesp tomou quatro medidas emergenciais para evitar o racionamento: redução de tarifa para quem reduzir em 20% o consumo; obras que trazem águas de outras represas (do Sistema Alto Tietê e de Guarapiranga); a instalação de 17 bombas flutuantes, que extraem água do volume morto; e uma campanha nas rádios e TVs, para convencer a população a economizar água. A quantidade de água retirada dos reservatórios do Sistema Cantareira caiu de 31.000 litros de água por segundo, antes da crise, para 23.000 litros por segundo, em maio. De acordo com Ivanildo Hespanhol, diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso da Água, as medidas emergenciais são boas, mas insuficientes para lidar com o problema no longo prazo.

LIÇÃO: crises de abastecimento de água envolvem várias cidades. Elas ocorrerão. Os comitês de gestão de bacias têm de funcionar de verdade. O “empréstimo” de água entre Estados, como o solicitado por São Paulo ao Rio em abril, tem de ser regulamentado. O Estado doador deve ser compensado.

Marcas da seca pelo Brasil (Foto: Reprodução)
O QUE ACONTECERÁ?

Os modelos de meteorologia não conseguem mostrar, com precisão, como será o próximo verão nas nascentes do Sistema Cantareira. O mais provável, pelos dados atuais, é que chova algo abaixo da média. Nesse cenário, o volume de água das represas se recupera um pouco, mas não passa dos 40%. Isso evitará a situação de emergência no próximo verão, mas não afastará o problema para os anos seguintes. A Sabesp precisará, portanto, manter os bônus para quem economizar água e talvez aplicar multas a quem desperdiçar. Há também cenários otimistas. A formação de um El Niño – um aquecimento cíclico das águas do Oceano Pacífico com efeitos no mundo todo – poderia trazer mais chuvas para a região. Isso já aconteceu no El Niño de 1982-1983. Mas é pequena a chance de isso se repetir. Segundo Zuffo, da Unicamp, o Sistema Cantareira tem condições de se recuperar da seca prolongada se o regime de chuvas normalizar nos próximos cinco a dez anos. “Se chover, e se o consumo não for maior do que o sistema aguenta, os reservatórios conseguem se recuperar a uma taxa de 10% a 20% ao ano”, diz. “Se não chover, o abastecimento será comprometido. Enfrentamos um risco grande.” E mais: no ritmo atual, em 30 anos São Paulo precisará de mais 25.000 litros de água por segundo – praticamente um novo Sistema Cantareira.

LIÇÃO: as autoridades podem tornar o consumo mais racional por meio de campanhas. É recomendável dar bônus e descontos que compensem a compra de equipamentos que economizem água. A conta d’água pode também mostrar aos perdulários que eles gastam mais que a média das famílias da mesma área ou do mesmo tamanho.


O artigo original de ÉPOCA poderá ser visto por meio do seguinte link:


Que Deus abençoe e tenha misericórdia de todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

O VOTO DOS EVANGÉLICOS



A reportagem abaixo foi publicada na edição número 849 de Revista ÉPOCA.

O material é assinado por: ALINE RIBEIRO, RUAN DE SOUSA GABRIEL E TIAGO MALI COM FLÁVIA TAVARES E LEOPOLDO MATEUS

A força dos evangélicos


Como a identificação de Marina Silva com o influente eleitorado evangélico poderá ser o fator de desequilíbrio numa disputa acirrada

Vários sinais contundentes mostraram, na semana passada, como as questões morais, de cunho religioso, passaram a guiar os políticos brasileiros – com uma força que só encontra paralelo, entre as grandes democracias ocidentais, com o que ocorre hoje nas campanhas políticas nos Estados Unidos. Um dia depois de lançar seu programa de governo, a candidata Marina Silva (PSB), hoje favorita a conquistar o Palácio do Planalto, depois de pressionada nas redes sociais pelo pastor Silas Malafaia, um dos líderes da Assembleia de Deus, voltou atrás numa série de compromissos. O primeiro dizia respeito à união civil homossexual. Marina é a favor – e reafirmou isso em vários programas de televisão ao longo da semana. Mas não queria que a união civil constasse, em seu programa de governo, com o nome de "casamento", um sacramento religioso. O segundo ponto dizia respeito à lei que torna a homofobia um crime, defendida na primeira versão de seu programa. Essa lei já foi rejeitada no Senado. Religiosos alegaram na ocasião que ela não dizia com clareza se dogmas pregados nos templos, sem intenção ofensiva, poderiam ser classificados como "homofobia".

Com a atitude, Marina ganhou o aplauso dos religiosos. "Ela teve coerência. Tem coisa que o candidato promete e não dá para fugir", diz Malafaia. "Tínhamos dificuldades para falar com ela, porque ela dava respostas para agradar a gregos e troianos", afirma o pastor Marco Feliciano, deputado federal pelo PSC de São Paulo. Feliciano é execrado pelo movimento LGBT, por ter defendido, na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, o projeto da "cura gay". "No momento em que Marina teve de se decidir de fato, ela se colocou como uma cristã de verdade", diz ele. Marina atribuiu o vaivém a um "erro no processo de editoração" de seu programa. Percebendo um flanco para atacar contradições da rival, a presidente Dilma abraçou a defesa da lei contra a homofobia – embora ela tenha recuado na decisão de distribuir material didático a favor da tolerância sexual, tachado como "kit gay" pelas lideranças evangélicas.

O recuo de Marina choca os marinheiros "sonháticos", mas, de um ponto de vista estritamente eleitoral, faz sentido. Embora conserve o título de país com o maior número de católicos do mundo, o Brasil avança com rapidez para se tornar uma nação mais evangélica. Em dez anos, os evangélicos passaram de 15,4% da população para 22,2%, um total de 42,3 milhões. Com 22% do eleitorado, somam hoje quase 27 milhões de votos. Embora Marina Silva não seja da bancada evangélica e, em sua carreira política, tenha sempre defendido valores laicos, a maioria dos evangélicos vota nela – 43%, contra 32% de Dilma, segundo a pesquisa do Ibope divulgada na semana passada. Outro dado da mesma pesquisa, que passou despercebido, explica ainda melhor por que é tão importante para um candidato à Presidência não se indispor contra os valores religiosos. De forma geral, os candidatos evangélicos se opõem – com diferentes nuances de tolerância – ao casamento gay, a mudanças na lei da interrupção da gravidez e à liberação das drogas. A pesquisa do Ibope mostrou que a maior parte dos brasileiros, independentemente de religião, pensa como os evangélicos: 79% são contra o aborto; 79%, contra a liberação da maconha; e 53%, contra o casamento gay. A mesma pesquisa revela que 75% dos brasileiros são a favor do Bolsa Família. Isso significa que, se é majoritariamente a favor de políticas sociais, a sociedade brasileira é conservadora em temas ligados a família e comportamento.

A influência crescente dos evangélicos deverá ser ainda mais decisiva nas eleições deste ano por causa da chegada de Marina, missionária da Assembleia de Deus, à condição de protagonista da disputa. Com sua religiosidade, seus trajes comportados, seu cabelo comprido disfarçado com um coque e seus discursos em tom de pregação, seduz os evangélicos e seus pastores, que sonham com um irmão de fé na Presidência. "Existe um projeto de poder dos pastores pentecostais: aumentar a bancada dos evangélicos e chegar à Presidência", afirma o cientista político César Romero Jacob, da PUC do Rio de Janeiro, estudioso das eleições presidenciais. Se eleita, Marina será a primeira presidente do país filiada a uma denominação pentecostal, o ramo mais numeroso dos evangélicos (o Brasil teve antes dois presidentes protestantes de outras denominações: o presbiteriano Café Filho e o luterano Ernesto Geisel).

A identidade religiosa de Marina a ajuda a obter votos entre os evangélicos. Pesquisa do Ibope mostra que, em duas semanas, Marina foi quem mais cresceu no segmento: de 37% para 43% do eleitorado evangélico. Dilma foi de 27% para 32% e Aécio caiu de 17% para 10%. Segundo o Ibope, se o segundo turno fosse agora, Marina seria eleita presidente graças, sobretudo, ao voto dos eleitores evangélicos. Na média, 53% dos eleitores de denominações evangélicas declaram voto em Marina, ante apenas 33% que dizem preferir Dilma. Entre os católicos, Marina e Dilma aparecem empatadas com 43% na simulação de segundo turno.
A despeito de os católicos serem o maior contingente do eleitorado (63%), seu impacto no resultado da eleição é mínimo como grupo religioso. Não é o caso dos evangélicos. Sua força eleitoral se deve à maior uniformidade do voto. Não é regra, mas, em geral, "crente vota em crente". "Os evangélicos não querem saber da independência do Banco Central ou não. Eles votam no irmão", diz Jacob, da PUC-Rio. Os evangélicos não votam como os católicos, espíritas, judeus, umbandistas. Demonstram com maior ênfase sua preocupação com os valores dos candidatos e as questões morais. "Os evangélicos obedecem mais às indicações de suas igrejas de votar nos pastores", afirma o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (leia mais na reportagem da página 46).

A maior demonstração de que esse tipo de orientação é seguida se deu na eleição de 2002. No primeiro turno, Luiz Inácio Lula da Silva e José Serra foram os candidatos à Presidência mais votados, com 46,5% e 23,2% dos votos, respectivamente. O evangélico Anthony Garotinho, da Igreja Presbiteriana, ficou em terceiro, com 17,9%. Ao estudar o voto dos evangélicos para seu pós-doutorado na Universidade de São Paulo, a pesquisadora Simone Bohn encontrou um cenário bem diferente. "A maioria dos evangélicos (51,3%) afirmou ter votado em Garotinho", diz Bohn em sua tese. Na disputa de 2010, o mesmo ocorreu com Marina, na ocasião no Partido Verde (PV). A unidade dos evangélicos no Brasil se reflete também na composição do Congresso. A bancada evangélica tem hoje 74 parlamentares, o ápice na história. Estivessem todos num partido, os evangélicos formariam a terceira maior legenda no Parlamento, atrás apenas de PT e PMDB. Nestas eleições, eles acreditam que poderão crescer ainda mais. "Esperamos eleger, no mínimo, 80 candidatos. Mas podemos chegar até a 120", diz Malafaia.

Com os fiéis transformados em clientela eleitoral cativa, não é à toa que todos os candidatos assediam as igrejas evangélicas em busca de apoio. Dilma articula sua aproximação desde antes da chegada de Marina ao pleito. Em julho, uma reunião no Palácio da Alvorada* definiu que ela teria uma agenda de encontros dela com lideranças evangélicas. Menos de uma semana depois, Dilma estava ao lado de Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, inaugurando o monumental Templo de Salomão, em São Paulo. Passaram-se mais dez dias e lá estava Dilma na Assembleia de Deus do Brás, novamente em São Paulo, num encontro de mulheres, pedindo orações. "Acredito naqueles que creem. Acredito no poder da oração. Não se esqueçam de orar por mim. Todos os dirigentes deste país dependem do voto do povo e da graça de Deus. Eu também", disse.

No começo de julho, o candidato do PSDB, Aécio Neves, também visitou a Assembleia de Deus. O pastor José Wellington, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus, não declarou apoio a ele, ao contrário do que fez com José Serra em 2010. Apenas o levou a uma reunião com outros integrantes da igreja. No final de julho, Aécio compareceu à Celebração de Inverno do Ministério Sara Nossa Terra. Foi recebido pelo bispo Robson Rodovalho. Na semana passada, Rodovalho oficializou apoio a Marina. Ciente das dificuldades de capturar o voto evangélico, por causa de Marina e do candidato do PSC, o Pastor Everaldo, Aécio aposta mesmo no eleitorado católico.

Para seduzir os evangélicos, quanto mais conservador nos costumes o candidato se mostrar, maior é a chance de conquistar votos. "Nossa principal exigência é que o candidato esteja afinado com a defesa da família tradicional, a proibição do aborto e do casamento de pessoas do mesmo sexo", afirma o pastor Lélis Washington Marinho, presidente do Conselho Político da Convenção Geral das Assembleias de Deus. É o maior e mais antigo ramo das Assembleias de Deus no Brasil, de que Marina faz parte (esse ramo diz ainda não ter escolhido candidato). No caso do aborto, Marina diz ser contra e defende um plebiscito para decidir a questão. Com essa posição, evita se indispor com eleitores de diferentes posições, ao mesmo tempo que aposta que o conservadorismo da maioria derrubará nas urnas a legalização. Parece ambíguo, mas é uma opção inteligente. Numa eleição disputadíssima, nenhum candidato poderá errar na conquista dos evangélicos. Com Flávia Tavares e Leopoldo Mateus

Vamos orar, gente?

ÉPOCA acompanhou dois pastores em campanha - e mostra o jeito evangélico de pedir votos e fazer política

O breu e o silêncio da noite dominavam a ampla sala. Jovens sonolentos, de boné, calça jeans, camiseta e casaco de capuz formavam um círculo. Esperavam em pé, rodeados de cadeiras de plástico e uma mesa de som. Eram 5h20 de uma quarta-feira fria de julho, e o sol ainda não se erguera no Setor de Mansões de Sobradinho - apesar do nome, uma área pobre de Brasília. Ainda na penumbra, o pastor Rodrigo Delmasso pôs fim à espera. Vestia calça e blusa de moletom. Subiu ao diminuto palco e se embrulhou numa bandeira do Brasil. "Vamos orar, gente?" disse Delmasso. Apertou bem os olhos, baixou a cabeça e abraçou o pastor titular daquela pequena igreja. Delmasso descarregou, com a voz forte e num só fôlego, a ladainha que induziria aqueles 25 jovens a um aparente transe. "Meu Deus, estamos vivendo neste país um momento de decisão. Nós pedimos, em nome de Jesus, que o Senhor possa, Pai amado e Pai querido, conduzir essas eleições. Que levante homens justos, homens para ocupar a posição de poder que estejam ligados ao Pai, comprometidos em estar trabalhando pelo bem das pessoas!" "Aleluia", respondiam incessantemente, mãos ao alto, os fiéis. "Que o Senhor possa levantar, meu Deus, homens e mulheres que combatam a desigualdade social, que combatam a violência, que possam combater, em nome de Jesus, todas as mazelas existentes em nossa sociedade. Que o senhor possa levantar homens e mulheres de Deus que possam assumir a gestão do nosso país. "Amém! Aleluia!" A oração durou três intensos minutos. Acenderam-se as luzes.

Delmasso, de 34 anos, é um jovem pastor da igreja evangélica Sara Nossa Terra. É também candidato a deputado distrital - em Brasília, o equivalente a deputado estadual. Numa cruzada político-religiosa, ele tem madrugado para visitar igrejas, falar sobre "a sociedade que queremos" e pedir orações. A panfletagem tradicional fica do lado de fora dos templos. Por lei, ele não pode pedir voto no culto. Pode, no entanto, suplicar que rezem por ele. Até outubro, esse tipo de cena se multiplicará nos milhares de igrejas do país. Candidatos evangélicos de diversas denominações (só pastores são 270) tentarão chegar ao Congresso.

Delmasso é um dos 345 postulantes a um mandato que usam na urna títulos como "pastor", "bispo" ou "missionário" segundo um levantamento feito por ÉPOCA. É um crescimento de 47% em relação a 2010 e mais que o triplo de 1998. Num Brasil cada vez mais evangélico, que pode eleger um deles para o Planalto, ÉPOCA acompanhou de perto o jeito evangélico de fazer política - e campanha. Seguimos dois pastores-candidatos. Um foi o próprio Delmasso, do PTN, pastor de uma igreja fundada em 1992, com mais de 1.000 templos e 1,3 milhão de fiéis. O outro foi o deputado federal Ronaldo Fonseca, candidato à reeleição pelo Pros do Distrito Federal. Fonseca é pastor da Assembleia de Deus, maior e mais tradicional denominação evangélica do país, fundada em 1910, com mais de 12 milhões de seguidores.

Naquela manhãzinha gelada de julho, depois da reza pelo futuro do país e pela qualidade de seus líderes, preferencialmente "homens de Deus", Delmasso conversou com os jovens. Estava descontraído. Muitos deles admitiram ser ex-dependentes químicos. O culto acontece tão cedo porque os moradores de periferia madrugam para trabalhar - e o caminho é longo. Os ônibus já circulavam lotados na avenida em frente ao templo antes das 6 horas. Delmasso não falou explicitamente que era candidato. Não precisava. Os presentes foram avisados na semana anterior de que ele estaria ali naquele dia. "Quem não quiser me ouvir falar não vem", diz Delmasso, enquanto dirige seu carro pelas ruas vazias de Brasília. Seu raciocínio é simples: não é pecado usar o púlpito para falar de um país melhor, para incentivar o fiel a exercer seu papel de cidadão. Desde que não se peça voto. Delmasso não é exatamente carismático. Mas sabe falar com os jovens - e ouvi-los. Ele perora por dez minutos sobre os perigos de uma sociedade onde crianças têm acesso a livros em que se ensinam posições sexuais. Sobre as ameaças de uma legislação que visa baixar a idade de consentimento sexual dos 14 para os 12 anos - ou, como ele define, "a legalização da pedofilia". Ambas as questões passam longe da Câmara Legislativa do Distrito Federal. Ele prossegue. Fala da proteção de suas filhas contra as drogas, tema sob medida para aquele público. Roga que os fiéis pensem no futuro que querem para si. A conferência é encerrada pelo pastor daquela unidade. Ele pede bênçãos "para a caminhada do Rodrigo".

Assim que atravessam a porta de ferro rumo à calçada, os jovens recebem um jornalzinho do partido de Delmasso, o anódino PTN, cujo diretório em Brasília é presidido por ele. Delmasso está espalhado pelas quatro páginas do folheto. Em seu currículo, antes da formação em gestão pública e da pós-graduação em serviço social, vem o título de pastor. "O eleitor não é alienado. Nenhum ser humano admite ser manipulado por outro", diz Delmasso. Nem em nome de Deus? "Não aceita, não aceita, não aceita. A pessoa pode escolher, dentro de seus conceitos e valores internos. Mas isso é o estado democrático de direito, o direito de livre escolha. Não temos de julgar se é certo ou errado." Já acomodado no sofá da sala de sua casa, Delmasso justifica a legitimidade de sua campanha comparando seu direito de defender os interesses de seu grupo ao de outros segmentos. Recorre aos sindicalistas. "Qual a diferença para um candidato que vai para a frente de uma fábrica, falar para os eleitores de seu setor? Muitos ainda usam o nome de Deus em segmentos que não têm nada a ver... É a pluralidade da democracia. A igreja é uma entidade social que representa um estrato da sociedade. Um bancário se elege para defender seus pares. Um taxista também. Se as categorias têm esse direito, por que a igreja, uma expressão da sociedade, não teria?"

Delmasso argumenta ainda que o eleitor evangélico é mais resistente que os demais. Ficou arisco depois de tantos escândalos de corrupção envolvendo políticos que atuam sob o signo da fé. * O mais devastador foi o escândalo dos sanguessugas, que veio à tona em 2006. Tratava-se do desvio de dinheiro público destinado à compra de ambulâncias.

Um dos acusados foi o Bispo Carlos Rodrigues, da Igreja Universal do Reino de Deus, mensaleiro condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Naquelas eleições, a bancada evangélica no Congresso caiu de 61 para 36 parlamentares. O fiel passou a ver com imensa desconfiança o engajamento de seus líderes com a política. Depois veio a público a infame "Oração da Propina" flagrada em vídeo divulgado em 2009 por Durval Barbosa, delator do mensalão do DEM, esquema de distribuição de dinheiro em troca de apoio dos deputados distritais. Nas imagens, o ex-deputado Júnior Brunelli, filho do fundador da igreja evangélica Casa da Bênção, abraça o colega Leonardo Prudente, então presidente da Câmara Legislativa do DF, e Durval Barbosa, então secretário do governador José Roberto Arruda, responsável por repartir a propina. Prudente reza: "Olha, somos gratos pelo amigo Durval, que tem sido um instrumento de benção para as nossas vidas e para essa cidade, que o Senhor contemple as questões do seu coração. (...) A sentença é o Senhor quem determina, o parecer e o despacho é o Senhor que faz acontecer".

À "Oração da Propina" deixou os evangélicos descrentes. Muitos não queriam mais votar em seus pastores. "Quando falo com irmãos da igreja, tenho de convencê-los de que sou diferente. Eles me questionam: Quem garante que você não entrará lá e se corromperá, sujando o nome da igreja?". São mais difíceis do que qualquer outro público" diz Delmasso. Não há mesmo como prova o quanto a crença do fiel se converte em voto aos candidatos oficiais das igrejas ou aos indicados por seus líderes, O próprio Delmasso, que tentou se eleger em 201, teve 6 mil votos, Virou apenas suplente. Somente em Brasília, a Sara tem 70 mil fiéis e 105 templos. Há indicadores, porém, de que escolher candidatos oficiais nas igrejas e "orar" por eles dá resultado. A tese de mestrado da cientista política Isabel Veloso, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, mostra que os evangélicos gastam menos do que qualquer outro candidato para se eleger. Metade dos deputados evangélicos eleitos em 2010 gastou até R$ 5 por eleitor. Entre os demais eleitos, 21% gastaram essa quantia. "O eleitor, de qualquer segmento, quer escolher em quem votar tendo o menor esforço possível. Quando o líder religioso já é ou indica o candidato, essa escolha é facilitada" diz Isabel. "Some a isso o falo de que os evangélicos têm um grau altíssimo de frequência nos cultos. Nas igrejas pentecostais, especialmente a partir de duas semanas antes da eleição, a exposição ao tema político com esse tipo de discurso é muito grande "

Sob o termo "evangélico" cabem dezenas de igrejas. Uma pequena amostra: Delmasso, depois do culto da madrugada, fez um corpo a corpo no Shopping Popular de Ceilândia, outra área pobre de Brasília. Num raio de 2 quilômetros, ÉPOCA identificou 16 templos de igrejas evangélicas distintas. Entre elas, a Igreja Pentecostal Tabernáculo de Cristo, a Igreja Pentecostal Carruagem de Fogo, o Ministério das Nações Soberania Divina, a Igreja Batista El Shadday e a Igreja Evangélica Cristo Reina. Nem todas as denominações são inclinadas ao palanque. A divisão mais comum é entre evangélicos de missão (as igrejas mais antigas, como batista, adventista e presbiteriana); pentecostais (as nascidas no início do século XX nos Estados Unidos e no Brasil, como Assembleia de Deus, Congregação Cristã do Brasil, Quadrangular e Deus é Amor); e as neopentecostais (as igrejas criadas a partir dos anos 1970, como Universal do Reino de Deus e Sara Nossa Terra). As evangélicas de missão têm entre seus dogmas não se envolver diretamente com política. As pentecostais e as neopentecostais adotaram uma postura mais engajada desde o fim da ditadura. Foi quando a Igreja Católica aumentou sua bancada no Congresso. Os evangélicos temiam perder espaço e influência.

Uma pesquisa do sociólogo inglês Paul Freston mostra que o crescimento da bancada evangélica vem desde o início do processo de redemocratização. Uma decisão política, tomada pela cúpula de algumas igrejas ainda na década de 1980, foi fundamental para esse aumento da bancada. Naquele tempo, diz Freston, havia um discurso comum entre várias agremiações protestantes. Elas consideravam a política como a "esfera da corrupção e do pecado". "Isso mudou em 1986. Quem liderou a mudança foi a Assembleia de Deus, que decidiu se organizar internamente e escolher candidaturas para apoiar", afirma Freston. O trabalho dele mostra que, por volta de 1985, a cúpula da igreja decidiu apoiar 18 candidaturas para a Assembleia Constituinte.

Naquele momento, uma revolução foi forjada nas igrejas pentecostais. Aos poucos, a crença de que política era coisa do diabo foi trocada pelo mantra "Irmão vota em irmão", professado num livro com o mesmo título, escrito por Josué Sylvestre, um assembleiano e assessor do Senado. Nele, Sylvestre diz: "Pastores do Brasil, em nome de Jesus Cristo, despertem para a realidade da conjuntura nacional; não deixem seus rebanhos sem uma orientação segura, coerente, oportuna e bíblica". Em 1988, a representação evangélica avançou para 36 parlamentares. Eram 17. Hoje, são 75 deputados e três senadores. A estimativa do ex-presidente da Frente Parlamentar Evangélica, João Campos, é que possa chegar a 90 deputados em outubro. A partir da Constituinte, a sobreposição entre religião e política foi tão intensa quanto questionada. Episódios recentes, como a escolha do pastor Marco Feliciano (PSC) para a presidência da Comissão dos Direitos Humanos na Câmara, uma das frentes mais progressistas do Legislativo, propiciaram o choque entre os "homens de Deus" e os "defensores do Estado laico"

O Censo de 2010 mostra que é falsa a ideia segundo a qual o voto evangélico é iletrado e pobre. Ele mostra que 73,7% dos evangélicos ganham até três salários-mínimos. Entre os católicos, essa percentagem é de 75%. Enquanto 48,5% dos evangélicos não têm estudo ou têm apenas o fundamental incompleto, esse número chega a 51,2% dos católicos. A Sara Nossa Terra atrai boa parte de seus seguidores nas classes A e B. O apelo é outro. No Brasil, os partidos políticos e o Congresso são as instituições com o menor índice de confiança entre a população. A igreja tem o maior. Um líder religioso que se propõe a levar à política os valores da igreja sai na frente do político ordinário, que não usa essa plataforma. "Essa defesa de valores e princípios é legítima", diz Freston. "O problema é que os candidatos das igrejas normalmente não têm trajetória política, formação. Fixam-se em assuntos que não são obviamente políticos, como a família, e não têm preparo para lidar com os temas políticos reais, de que tratarão no Congresso."

Muitas vezes, os pastores-deputados escondem, por trás da luta pelos bons costumes, a intenção de defender os interesses da igreja enquanto corporação. Há alguns anos, a estratégia era principalmente para conquistar concessões de rádio e TV. Com essa rede de comunicação já estabelecida, os evangélicos passaram a ambicionar outros benefícios. Basta fazer um levantamento dos projetos propostos pela bancada evangélica que tramitam na Câmara. Intercalados aos que vedam a discriminação aos religiosos e aos que propõem consulta pública sobre a união civil de pessoas do mesmo sexo, vêm os que excluem as igrejas da obrigação de pagar IPI na compra de automóveis, ou de atender o "Estatuto de Impacto da Vizinhança na construção de um templo, ou ainda de pagar direitos autorais por músicas usadas em cultos. "Os candidatos oficiais das igrejas, depois de eleitos, ficam com uma enorme obrigação de atuar em nome da denominação", diz Freston. A defesa da família acaba sendo só o discurso mais barulhento.

O deputado federal Ronaldo Fonseca, pastor e advogado de 55 anos, transita entre essas duas zonas da atuação de um pastor-político. Bem cedinho numa quarta-feira de julho, estava ele num galpão de Taguatinga, um dos bairros mais populosos do Distrito Federal. Cerca de 50 pastores da Assembleia de Deus da região se esbaldavam de café com leite, pão com manteiga, laranjas e bolo. Fonseca é baixinho. Quase desaparece diante de um grande cartaz com uma foto sua e a frase "Estarei obstinado a alcançar os sonhos que Deus escolheu para mim". Sua voz preenche o espaço, fruto de 30 anos de pastoreio. Ele fez um balanço de sua atividade parlamentar. Argumentando que não atua só para o segmento, enumerou os recursos que ajudou a trazer para Brasília para construir centros para a juventude, criar clínicas da família, cobertura de quadras. Ato contínuo, perguntou: "Qual o maior patrimônio que temos? A família. Por que o Estado não entende isso? Por que o Estado aposta no desmonte da família?" Fonseca é o coordenador dos 23 parlamentares da Assembleia de Deus no Congresso - eles querem chegar a 30 nesta eleição. Foi também, por dez anos, coordenador político da igreja. Viajava o país para convencer os fiéis a se envolver mais diretamente com o assunto. Na Câmara, é membro titular da Comissão de Cidadania e Justiça e suplente na de Direitos Humanos. "Sou o relator, o relator, do Estatuto da Família", diz, com voz de púlpito.
Em sua van, depois de desfiar todas as ameaças contra a família que tramitam no Parlamento para os pastores e sugerir que eles "peçam ajuda para os amigos e a família na nossa caminhada", Fonseca evoca, assim como fez Delmasso, os sindicalistas como contraponto de legitimidade para a atuação dos evangélicos. Afirma que, em seu ministério, está proibido falar de política nos cultos. ÉPOCA pergunta se é função do Estado regular a família brasileira. Primeiro, ele cita o Artigo 226 da Constituição. O texto diz: "Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento". Ele emenda a seguinte analogia: "Se, na hora do almoço, alguém decide que, em vez de comer pela boca, vai comer pelo nariz, pelo ouvido, isso é normal? Com o tempo, ficará doente.

Quem arcará com isso será o Estado. Então, ele deve interferir, como interfere nos acidentes de moto... Agora, você não pode ter preconceito, não pode discriminar".

Cumprida a etapa da defesa da família pela manhã, naquela noite Fonseca ofereceu mais comes e bebes para pastores da cúpula de uma Assembleia de Deus do Guará. O jantar, oferecido para cerca de 180 pessoas num salão de festas da própria igreja, tinha como convidados especiais o governador Agnelo Queiroz, candidato à reeleição, e Geraldo Magela, secretário de Habitação e candidato ao Senado, ambos do PT. Sem o menor constrangimento, Agnelo e Magela peregrinaram até ali para pedir votos para si e para Fonseca. A recíproca era verdadeira. Agnelo discursou sobre a parceria que o DF tem com as igrejas em trabalhos sociais. "Irmãos e irmãs, o deputado Ronaldo é um grande parceiro. Trouxe as demandas das igrejas para nosso governo, e atendemos." Quando Fonseca tomou a palavra, as demandas ficaram mais claras. Ele fez questão de agradecer ao secretário Magela por ajudar a resolver a disputa de um terreno próximo dali, cobiçado por ele e por uma igreja católica, em 1993. Fonseca levou.

Atestando o valor de seu capital político naquele jantar, Fonseca afirmou que aquele era um ministério sério, que não se vende. Disse que naquelas mesas estavam verdadeiros líderes. "Não como em outras reuniões em que eles pegam um diaconozinho qualquer e botam gravata." Imediatamente, apresentou a fatura. "Voltando para o governo, governador, lembre-se sempre deste dia, do que essas pessoas estão fazendo por você." Fonseca convidou outro pastor a fazer a oração de encerramento daquele jantar político-religioso. "Sabemos que a autoridade constituída está na mão do Senhor. E Lhe pedimos agora, Senhor, bênção em favor do governador, bênção em favor do candidato ao Senado, Senhor, aos candidatos a deputado federal e distrital. É em nome de Jesus que pedimos agora, Senhor, a proteção divina." Ali, às claras e no burburinho da fé, o transe foi político.

Revista Época 07/09/2014 disponível na web-EBC

O material original foi publicado no site a seguir:


NOSSO COMENTÁRIO

O conteúdo dessa reportagem é bastante revelador. Ela mostra o despreparo geral dos 345 pastores e assemelhados candidatos e os verdadeiros e escusos interesses que os mesmos têm por baixo do discurso pró-família e outros bla´, blá, blás.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

RELIGIÕES E OS SERES HUMANOS


O jornalista Lawrence Wright. Depois do fanatismo da al-Qaeda, seu alvo é a cientologia (Foto: Orjan F. Ellingvag/Dagbladet/Corbis)

A primeira vez que entrei em contato com Lawrence Wright foi quando ele veio a New York para o lançamento de seu livro Saints and Sinners – Santos e Pecadores. Desde então tenho acompanhado sua produção literária e foi com grande surpresa que me deparei com essa entrevista que ele concedeu para Rodrigo Turrer da Revista ÉPOCA. O material publicado pela revista segue abaixo:

Lawrence Wright: "A religião muda pessoas para o bem e para o mal"

O premiado jornalista americano mostra, em seu novo livro, como a cientologia se aproveitou da fama de astros de Hollywood para se popularizar entre os americanos

RODRIGO TURRER

QUESTIONADOR

O jornalista Lawrence Wright. Depois do fanatismo da al-Qaeda, seu alvo é a cientologia (Foto: Orjan F. Ellingvag/Dagbladet/Corbis)

O jornalista americano Lawrence Wright sempre se interessou pelo papel da religião na história do mundo. Em seu mais famoso livro, O vulto das torres, de 2006, ganhador do Prêmio Pulitzer, ele fez uma detalhada investigação da rede terrorista al-Qaeda e das raízes do fundamentalismo islâmico pregado pelo saudita Osama bin Laden. Em seu novo livro, A prisão da fé – Cientologia, celebridades e Hollywood (Cia. das Letras, 600 páginas, R$ 54), Wright se dedica a investigar os fundamentalistas da cientologia. “Sempre fui fascinado pelo poder que a religião tem de mudar o comportamento das pessoas e da sociedade”, afirmou Wright, de 66 anos, em entrevista a ÉPOCA.

ÉPOCA – O que levou o senhor a escrever sobre cientologia?

Lawrence Wright – A religião muda pessoas para o bem e para o mal. Sempre fui fascinado pelo poder que a religião tem de mudar o comportamento das pessoas e da sociedade. Um de meus objetivos em meus livros é analisar o processo da crença: o que leva alguém a acreditar numa religião. No caso da cientologia, não é uma conversão, uma iluminação, como ocorre na maioria das religiões. É uma espécie de lavagem cerebral, uma passagem em que pessoas instruídas, inteligentes e céticas se tornam crentes.

ÉPOCA – Foi o que aconteceu com o personagem central de seu livro, o roteirista Paul Haggis?

Wright – Sim. Como muitas pessoas, quando Haggis se envolveu com a cientologia, ele imaginou que aquilo fosse ajudá-lo. Ele estava à beira de um divórcio quando um conhecido lhe entregou um livro e disse: “Você tem uma consciência – esse é o manual de instruções”. Era um livro sobre a Igreja da Cientologia, e Haggis quis ir atrás. Ele achou que aquilo poderia ajudá-lo e começou a frequentar cursos ministrados por líderes cientologistas. Aquilo de fato o ajudou por algum tempo. Ele se mudou para Los Angeles, sua mulher entrou para a igreja, seus filhos se tornaram cientologistas. Muitos de seus amigos eram cientologistas. Ele se tornou parte de uma comunidade, e aquilo era muito significativo para ele. Haggis cresceu na igreja e achou alguns de seus preceitos insanos e sem sentido. Mas, como tudo aquilo era importante, ele insistiu, até chegar a um momento em que percebeu que nada daquilo fazia sentido. Demorou 20 anos para ele largar a igreja.

ÉPOCA – Como a Igreja da Cientologia se tornou um sucesso entre celebridades americanas?

Wright – Isso é obra de L. Ron Hubbard, o fundador da Igreja da Cientologia. Hubbard era um gênio em muitos aspectos. Uma prova de sua genialidade foi entender que, nos Estados Unidos do pós-guerra, celebridades eram adoradas – e o centro mundial das celebridades é Hollywood. Hubbard estabeleceu como meta cortejar e atrair gente famosa para sua igreja. De um ponto de vista publicitário, ele percebeu antes de todos que os famosos vendem produtos. No caso de Hubbard, o produto que ele tinha para vender era a cientologia.

ÉPOCA – A Igreja da Cientologia ainda faz isso quando usa astros como John Travolta ou Tom Cruise para se promover?

Wright – Sim. Note como cada um desses atores esteve no topo das bilheterias mundiais mais de uma vez em sua carreira. Eles são figuras centrais, símbolos poderosos da cientologia e do sucesso que a igreja afirma trazer para quem aderir a ela. Cruise se tornou o mais importante, mas Travolta foi um dos pioneiros na promoção da cientologia e, por um longo tempo, foi o mais notável dos cientologistas. Por causa dos dois, uma incalculável quantidade de pessoas se juntou à cientologia, principalmente do entretenimento.

ÉPOCA – Seu livro anterior, O vulto das torres, explora a história da al-Qaeda – movimento também de inspiração religiosa. Nele, o senhor questiona até onde a al-Qaeda teria ido sem Osama bin Laden. Ele foi morto. E agora, até onde a al-Qaeda pode ir?

Wright – Não teríamos de lidar com o terrorismo islâmico no nível em que lidamos se não fosse por Osama bin Laden. Sem Bin Laden, eles ficaram muito enfraquecidos. Ninguém será capaz de substituir Bin Laden. Na verdade, eles já estavam enfraquecidos antes de sua morte. Não há ninguém tão significativo e carismático como ele. Isso não quer dizer que eles não sejam capazes de fazer mal. Enquanto Bin Laden estava vivo, a al-Qaeda era um símbolo da inabilidade do Ocidente em se livrar dele. Agora que morreu, o senso de invulnerabilidade da al-Qaeda se foi. Além disso, a al-Qaeda se tornou uma organização dividida, voltada para questões nacionais.

ÉPOCA – Matar Osama bin Laden era a única opção americana?

Wright – Não. Os Estados Unidos deveriam ter prendido Bin Laden, não tê-lo matado. Os EUA não poderiam levá-lo para Guantánamo, mas poderiam levá-lo para o Quênia, onde, em 1998, um atentado da al-Qaeda na embaixada americana matou 213 pessoas. Os Estados Unidos poderiam fazê-lo ser julgado em Nairóbi. Gostaria de ver Bin Laden dizer diante de 150 quenianos cegados pelo atentado que se tratava de um ataque a um símbolo do poder americano. Ele poderia ser julgado em cada um dos países onde a al-Qaeda cometeu assassinatos (Sudão, Iêmen, Somália), para que se explicasse.

ÉPOCA – A morte de Bin Laden pôs fim à Guerra ao Terrorismo?

Wright – Nem todo grupo terrorista é a al-Qaeda, e é difícil sustentar que tenhamos de jogar as regras da guerra para sempre. O terrorismo nunca acabará. Se sempre teremos uma Guerra ao Terror, é outra história. Não temos de viver num mundo em guerra eterna. Em algum ponto, a al-Qaeda desaparecerá, e a Guerra ao Terror terá de acabar. Mas o exemplo da al-Qaeda será perene: um pequeno grupo, com um profundo comprometimento por uma causa e técnicas sofisticadas de terror. Muitos grupos, com diferentes causas, seguirão esse exemplo. Por isso, é impossível acreditar no fim do terrorismo.

ÉPOCA – O senhor morou no Egito por muitos anos. Como encara o golpe militar no país e a atual perseguição à Irmandade Muçulmana?

Wright – Era inevitável que a Irmandade Muçulmana chegasse ao poder. Eles sempre foram o único grupo político organizado do país. O insucesso da Irmandade no poder também era inevitável, porque eles sempre foram um grupo pouco sofisticado na hora de lidar com problemas reais. A Irmandade sempre teve duas preocupações: cobrir a cabeça das mulheres e impor a sharia (lei islâmica). Mas os problemas do Egito são muito maiores e têm a ver com desemprego, analfabetismo, igualdade de gêneros, inflação. São problemas profundos, e a Irmandade nunca soube lidar com eles.

ÉPOCA – O massacre de apoiadores da Irmandade Muçulmana pelo Exército egípcio, há duas semanas, significa um revés para a democracia?

Wright – Ainda acredito na democracia egípcia, mesmo com toda a violência e o massacre conduzido pelos militares. O risco é que o regime atual se desqualifique completamente para conduzir qualquer processo democrático. Antes, havia a esperança e a promessa de que os militares não estariam interessados em se prolongar no poder. Por isso, eles até formaram um governo com civis, com (Mohamed El) Baradei como vice-presidente. Com o massacre, isso terminou. Não sei o que acontecerá agora, mas o Exército precisa deixar o poder o quanto antes. Há dois elementos que nunca se misturam com democracia: Forças Armadas e religião. Essas são as duas principais forças disputando espaço na política egípcia neste momento.

ÉPOCA – Esse cenário pode levar a uma guerra civil nos moldes da Guerra da Argélia, nos anos 1990?

Wright – Esse é meu maior pesadelo. Não acredito que seja possível, porque os egípcios são mais moderados. Mas estamos falando do Oriente Médio. Não dá para saber até onde isso irá, se a Irmandade responderá à altura. A reação do Exército foi desproporcional, selvagem e sem justificativa – e pode dar margem a uma reação mais extrema dos islamitas. Nesse caso, o pesadelo pode virar realidade.

ÉPOCA – No caso da Síria, o senhor acredita que algum tipo de intervenção ocidental possa pôr fim ao conflito?

Wright – Podemos defender uma intervenção moral na Síria, mas não vejo como o Ocidente possa resolver o conflito. Os americanos não estão preparados para assumir esse compromisso. Os grupos radicais têm um grande papel na luta dos rebeldes, e não vejo como eles possam participar numa futura democracia. Qualquer intervenção é um erro. Os Estados Unidos estão armando rebeldes sunitas ligados à al-Qaeda, é um erro que já cometeram no passado. É muito importante que os Estados Unidos não escolham lados numa guerra como essa, que envolve questões locais, mas também faz parte de uma guerra civil dentro do islã, entre sunitas e xiitas.

A entrevista original concedida à ÉPOCA poderá ser vista por meio desse link aqui:


NOSSO COMENTÁRIO.

Como podemos perceber pelas próprias palavras do escritor Lawrence Wright, religião e política não devem se misturar.

Nossa convicção, exposta e argumentada em diversos dos nossos artigos é que é, exatamente, nesse quesito, RELIGIÃO, que a FÉ CRISTA é algo completamente diferente. A fé cristã não trata de uma série de obrigações que as pessoas envolvidas precisam praticar, mas está concentrada em um RELACIONAMENTO vivo com Deus e com o Senhor Jesus Cristo por meio da ação do Espírito Santo.

É esse RELACIONAMENTO que faz toda diferença do mundo entre as religiões, o fundamentalismo e a verdadeira fé cristã.

Jesus deixou bem claro a situação que se seguiria ao dizer as seguintes palavras:

Mateus 7:13—14

13 Entrai pela porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição, e são muitos os que entram por ela),

14 porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela.

De fato são pouco os que acertam com a porta estreita, mas não devemos temer, pois Jesus também nos prometeu o seguinte:

Lucas 12:32

Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino.

Que Deus abençoe a todos

Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 8 de julho de 2014

SINAL DOS TEMPOS: JUDEUS ADMITEM PRIMEIRA MULHER ESCRIBA




O material abaixo foi publicado pelo site da revista ÉPOCA.

“Ajudei a escrever a primeira 'Torá' das mulheres”

Na tradição judaica, o trabalho de copista do Pentateuco é o ofício mais sagrado. Mulheres não eram consideradas confiáveis para fazê-lo. Fui a primeira mulher do mundo a receber um diploma de escriba

EM DEPOIMENTO A RUAN DE SOUSA GABRIEL

As mulheres da minha família sempre foram um pouco revolucionárias. Nunca se encaixaram no estereótipo da “mulherzinha” que depende do marido. Minha avó, nascida em 1901, na Itália, já trabalhava fora. Era contadora. Minha tia, Dorina Epps, formou-se médica nos anos 1950. Foi professora da Universidade de São Paulo (USP) e, dois anos, atrás ainda trabalhava. Participou da luta pelo direito à cirurgia de mudança de sexo no SUS. Esse protagonismo feminino era normal na minha família e enchia a todos de orgulho. No campo da religião, era mais complicado. Para que mexer nisso? Religião não precisava mudar, todo mundo já estava contente. O desconforto para lidar com o tema é compreensível numa geração que precisou emigrar por causa da perseguição religiosa.

RACHEL REICHHARDT
Nasceu em 8 de julho de 1959.  É professora de hebraico desde a juventude e trabalha com educação judaica na Comunidade Shalom, em São Paulo. Em 2004, recebeu o diploma de escriba da Torá"

Sempre gostei de rituais e da vida religiosa. Meu engajamento inicial foi no judaísmo ortodoxo, que eu conhecia. Sempre buscava respostas a meus questionamentos, até que um dia percebi ter ido longe demais. No início dos anos 1980, participava de um grupo de estudos, em Israel, com o rabino Meir Kahane (1932-1990), que chegou a ser eleito para uma cadeira no Parlamento israelense. Ele dizia que, para sermos bons judeus, tínhamos de matar dois árabes por dia. Fiquei assustada: a própria Bíblia não diz que é proibido matar? Ele respondeu que tínhamos de ler tudo com parcimônia. Deus só se revelou a Moisés depois que ele matara um egípcio e fugira para o deserto. Do mesmo modo, dizia Kahane, se quiséssemos que Deus se revelasse a nós para libertar nosso povo, deveríamos seguir o exemplo de Moisés e matar dois árabes por dia. Esse discurso entusiasmou todo mundo. Fiquei apavorada! A Bíblia podia ser lida daquele jeito? Aquilo era muito diferente do que tinha aprendido em casa, com meus pais. Preferia a Bíblia da minha casa.

Meus questionamentos continuaram. Ainda em Israel, trabalhei como babá na casa de um rabino reconstrucionista, uma linha judaica menos conservadora. Ele me indicou várias leituras que respondiam às minhas questões.  Em 1984, fui para o Rio de Janeiro, onde comecei a frequentar a comunidade do rabino Nilton Bonder, cujas propostas eram parecidas com as que encontrara nos livros em Israel. Construímos a primeira sinagoga igualitária do Brasil, onde homens e mulheres participavam dos rituais e sentavam-se lado a lado.

PIONEIRA A escriba Rachel Reichhardt na Comunidade Shalom, em São Paulo. Ela participou da primeira Torá escrita por mulheres (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA)
PIONEIRA: A escriba Rachel Reichhardt na Comunidade Shalom, em São Paulo. Ela participou da primeira Torá escrita por mulheres (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA)

Quando comecei a participar dos rituais, lembrei-me de uma escultura que vira pela primeira vez no Museu do Cairo, em 1983. Era um escriba. A figura do escriba sempre me fascinou. A tradição bíblica, que impacta toda a nossa civilização, foi transmitida por um homenzinho que, nos museus, é representado por uma escultura minúscula. Ninguém se dá conta da existência desse ser, ainda que ele tenha nos transmitido as bases da cultura ocidental. Também queria ser escriba, ou melhor, soferet, como se diz em hebraico, o mais sagrado dos ofícios para a religião judaica. Só havia um problema: na tradição judaica, o trabalho de copista da Torá (o conjunto dos cinco primeiros livros da Bíblia, conhecido como Pentateuco) é restrito a homens. Não judeus, crianças, escravos, imberbes e mulheres são proibidos de escrever os pergaminhos do Pentateuco. Esses grupos não são considerados confiáveis para pôr na forma de letras o nome de Deus neste mundo.

Em 1999, fiz um curso de caligrafia judaica na Universidade Hebraica de Jerusalém, onde pude escrever o rolo de Ester, único livro da Bíblia hebraica que não registra o nome de Deus e, por isso, pôde ser escrito por mulheres ao longo da história. Cinco anos depois, no Seminário Rabínico Latino-Americano, em Buenos Aires, conheci o rabino Abraham Skorka, uma referência no judaísmo na América Latina. Ele concordou em pesquisar comigo os motivos da proibição às mulheres. Depois de estudar toda a Bíblia, todo o Talmude (comentários rabínicos à Torá também considerados sagrados), ver todas as vírgulas, ele concluiu que sim, uma mulher poderia se tornar escriba. Segundo a cultura que escreveu as leis talmúdicas, mulheres e outros grupos tinham responsabilidade para entender o que significava a perpetuação do texto da revelação divina. Concluímos que meu compromisso de décadas com a religião e o compromisso que eu mesma assumira com a perpetuação do texto sagrado me tornavam confiável e apta para esse trabalho. Foi o próprio rabino Skorka quem assinou meu diploma. O primeiro diploma de escriba concedido a uma mulher no mundo.

Diplomada, lembrei que uma amiga me contara sobre uma mulher que sonhava com uma Torá escrita apenas por mulheres. Só me lembrava do sobrenome dela: Guggenheim, como o famoso museu de Nova York. Depois de várias pesquisas, o Google me dirigiu para a página de uma comunidade judaica de Seattle, nos Estados Unidos, que financiava o Women’s Torah Project (Projeto Torá das Mulheres). Mandei um e-mail mencionando que tinha um diploma e gostaria de contribuir com o projeto. No mesmo dia recebi a resposta de Shoshana Guggenheim. Impressionada com uma mulher ter conseguido um diploma de uma instituição rabínica, ela me convidou para participar.

Entre 2004 e 2010, com outras cinco escribas de Israel, Canadá e EUA, participei da confecção da primeira Torá escrita por mulheres. Era a única escriba diplomada no projeto. A parte que me coube do Pentateuco foi o livro do Êxodo, que conta a história da libertação dos judeus da escravidão no Egito.

A Torá consiste em 65 pergaminhos, com 72 linhas de altura cada um. Existem mais de 4 mil leis que ditam como ela deve ser escrita. Todas as letras têm de ser escritas na ordem do texto original. Se, ao final da linha, eu perceber que cometi um erro no começo, tenho de apagar toda a linha, não apenas a letra errada, pois é proibido inverter a ordem da revelação. Ao escrever o nome Deus, primeiro é preciso anunciar em voz alta, em hebraico, que será escrito o nome sagrado, limpar a pena e trocar de tinta. A pena precisa ter um sexto do tamanho da linha. A observância de todas essas regras por escribas de primeira viagem – algo que todas nós éramos – explica a demora em completar o projeto. Apesar de árduo, é um trabalho gratificante. Ao escrever, você se relaciona de uma maneira especial com o texto. O Êxodo tem uma passagem que todo escriba adoraria escrever: a abertura do Mar Vermelho. A diagramação do texto em três colunas permite ao escriba ver o mar se abrir.

Entre 2004 e 2010, com cinco escribas de Israel, Canadá e Estados Unidos, participei da confecção da primeira Torá das mulheres. Eu era a única escriba diplomada no projeto (Foto: arq. pessoal)
Entre 2004 e 2010, com cinco escribas de Israel, Canadá e Estados Unidos, participei da confecção da primeira Torá das mulheres. Eu era a única escriba diplomada no projeto (Foto: arq. pessoal)

A Torá das mulheres foi entregue em 15 de outubro de 2010, em Seattle. Foi lá que nós, as escribas, nos encontramos pela primeira vez e costuramos os rolos da Torá. Levei uma comitiva comigo: meus pais, minha irmã e duas amigas. Foi muito especial ter meus pais a meu lado. Foi naquele momento que caiu a ficha para eles do que aquilo representava para mim. Era um momento histórico no judaísmo.

Meu objetivo não é romper paradigmas. Gosto de pensar que podemos transformar as tradições quando estamos dentro do sistema. Mesmo sistemas tão fechados, como as religiões, podem ser transformados. O que não podemos mais é ouvir que a mulher não pode. A mulher pode.

O artigo original da ÉPOCA poderá ser visto por meio desse link aqui:

http://epoca.globo.com/vida/noticia/2014/07/ajudei-escrever-bprimeira-tora-das-mulheresb.html

OUTROS ARTIGOS SOBRE ISRAEL





















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quinta-feira, 10 de abril de 2014

A CONVENÇÃO BATISTA BRASILEIRA E A ORDENAÇÃO DE MULHERES



 Em longa reportagem que reproduzimos abaixo a Revista ÉPOCA nos fala da decisão marcante tomada pela Convenção Batista Brasileira — a primeira denominação histórica em termos de número de membros — de ordenar para o Ministério Pastoral uma mulher. O assunto é polêmico e é nosso desejo apresentar, depois desse artigo, outros que defendam posições diferentes da adotada pelos batistas e outros ainda que entendem que esse é mesmo o caminho que precisa ser seguido por todas as igrejas que se espelham no Novo Testamento. De todas as formas os leitores terão muito material para avaliar essa questão e tirar suas próprias conclusões finais. Agora queremos dar início a essa discussão reproduzindo o artigo da Revista ÉPOCA.



NOTE BEM: O ARTIGO ABAIXO NÃO REPRESENTA, NECESSARIAMENTE A POSIÇÃO DO BLOG O GRANDE DIÁLOGO E ESTÁ SENDO PUBLICADO DENTRO DO NOSSO INTERESSE DE OFERECER AOS NOSSOS LEITORES A OPORTUNIDADE DE CONHECER AS DIVERSAS POSIÇÕES ACERCA DESSE DELICADO ASSUNTO.
Segue o artigo:

Batistas abrem espaço para que as mulheres sejam pastoras

No terceiro maior grupo religioso do Brasil, elas sobem ao altar – e não é para casar

COM REPORTAGEM DE RUAN DE SOUSA GABRIEL

Aos 22 anos, em 1980, Zenilda Reggiani Cintra concluiu um curso de teologia ligado à Igreja Batista. A jovem sentia-se vocacionada ao serviço religioso, mas se conteve. O ambiente na Convenção Batista Brasileira (CBB), segundo maior grupo evangélico do país, era restrito à participação feminina. Zenilda passou a atuar em sua paróquia anos depois, após casar-se com um pastor. Em 2004, os fiéis lhe concederam o título de pastora. A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil (OPBB), porém, não reconhecia a validade do ministério feminino. Isso restringia a atuação das pastoras a suas comunidades de origem, já que muitas igrejas exigiam que seus líderes fossem filiados à Ordem. De 10.356 pastores filiados, apenas dez são mulheres. Agora, o espaço das pastoras tende a aumentar. Em 22 de janeiro, a OPBB aprovou o ingresso de mulheres na entidade. “A decisão da Ordem facilita o caminho para a ordenação de outras mulheres que atendem ao chamado de Deus”, diz Zenilda.

SACERDOTISA Zenilda, na Igreja Batista Esperança, em Taguatinga, Distrito Federal. Desde 1980,  ela esperava  o reconhecimento do ministério feminino (Foto: Celso Junior/ÉPOCA)
SACERDOTISA Zenilda, na Igreja Batista Esperança, em Taguatinga, Distrito Federal. Desde 1980, ela esperava o reconhecimento do ministério feminino (Foto: Celso Junior/ÉPOCA)

A abertura da CBB às mulheres é importante em si mesma e pelo que representa no cenário religioso do país. Ela é o segundo maior grupo evangélico do Brasil, com 12.400 igrejas filiadas e cerca de 2,3 milhões de fiéis. Além de numerosa, a Igreja Batista exerce influência sobre outros grupos religiosos. A história dos batistas no Brasil remonta às missões americanas do século XIX. Eles exercem influência sobre outras igrejas históricas, como a presbiteriana e a metodista. Algumas práticas, como o batismo de adultos, e a doutrina, que prega que a salvação é alcançada pela fé, e não por uma predestinação divina, aproximam os batistas dos grupos pentecostais e neopentecostais.

O papel da mulher nas igrejas evangélicas (Foto: ÉPOCA)
O papel da mulher nas igrejas evangélicas  (Foto: ÉPOCA)

A Assembleia de Deus, maior denominação evangélica do país, foi fundada por dissidentes da Primeira Igreja Batista do Pará. Antes de fundar a Igreja Internacional da Graça de Deus, o missionário R.R. Soares frequentava uma Igreja Batista. “Hoje, as igrejas estão em permanente diálogo. Decisões como essa têm impacto sobre todos os grupos”, afirma Sandra Duarte de Souza, teóloga e professora da Universidade Metodista de São Paulo. O diretor executivo da CBB, Sócrates Oliveira de Souza, diz que, ainda nos anos 1970, a aceitação na Igreja Batista de divorciados influenciou outras igrejas evangélicas a fazer o mesmo.

Grande parte das religiões monoteístas do Ocidente tem ou já teve restrições ao papel da mulher. As igrejas evangélicas e a Igreja Católica são originárias do cristianismo primitivo. Acreditam que Jesus Cristo é filho de Deus e seguem a Bíblia como livro sagrado. Jesus tinha mulheres entre seus discípulos, mas escolheu 12 homens para serem seus apóstolos. O Evangelho de São Mateus diz: “Jesus reuniu seus 12 discípulos. Conferiu-lhes o poder de expulsar os espíritos imundos e de curar todo mal e toda enfermidade. Eis os nomes dos 12 apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor”. Nenhuma mulher é citada.

O debate mundial sobre a inclusão da mulher na alta hierarquia dos grupos religiosos só ganhou força a partir do século XX. Foi motivado menos por discussões de teólogos, dentro de seminários, e mais pela mobilização da mulher para ocupar espaços iguais aos do homem. Ainda hoje o tema rende polêmicas acesas entre os cristãos de diferentes denominações.

No artigo “Ordenação feminina: o que o Novo Testamento tem a dizer?”, o teólogo presbiteriano Augustus Nicodemus Lopes divide as opiniões sobre a inclusão da mulher entre “diferencialistas” (contra) e “igualitaristas” (a favor). Os diferencialistas afirmam que homens e mulheres foram criados com papéis distintos e que cabe ao homem exercer autoridade em casa e na igreja. Buscam argumento em trechos da Bíblia, como a recomendação de São Paulo a Timóteo, um dos líderes do cristianismo primitivo: “Não permito que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre o marido, mas que esteja em silêncio. Porque primeiro foi formado Adão, depois Eva. E Adão não foi enganado, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão”.

Segundo Lopes, a referência de Paulo à narrativa do Gênesis para justificar a proibição à ordenação das mulheres revela a crença de que a mulher está mais suscetível ao erro religioso. A ordenação feminina, diz Lopes, é uma violação dos princípios que Paulo percebe na narrativa da criação do gênero humano e na queda do homem.

Os igualitaristas são favoráveis à participação mais ativa da mulher nas religiões, por entender que as diferenciações resultantes do pecado original foram apagadas pelo sacrifício de Cristo. O argumento também está embasado nas palavras de São Paulo: “Não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus”, disse aos gálatas. Além de buscar nas escrituras evidências de mulheres que ocupavam posições de destaque na igreja primitiva, como as profetisas citadas na Bíblia ou várias mulheres lembradas por São Paulo em suas cartas às igrejas, os defensores da ordenação de pastoras argumentam que o texto bíblico deve ser contextualizado. Para a teóloga Sandra Duarte de Souza, os argumentos sociológicos atuais são legítimos, mesmo numa discussão religiosa. “Os argumentos contra as sacerdotisas só encontram acolhida hoje porque ainda vivemos numa cultura patriarcal”, diz. “A localização do texto bíblico em seu contexto histórico permite outras possibilidades de interpretação”, diz Breno Martins Campos, professor de pós-graduação em religião da PUC de Campinas, São Paulo.

TÃO PERTO, TÃO LONGE Ordenação em 1994 de 32 mulheres na Igreja Anglicana,  a denominação protestante mais próxima dos católicos.  O Vaticano resiste à abertura (Foto: Matthew Polak/Sygma/Corbis)
TÃO PERTO, TÃO LONGE Ordenação em 1994 de 32 mulheres na Igreja Anglicana, a denominação protestante mais próxima dos católicos. O Vaticano resiste à abertura (Foto: Matthew Polak/Sygma/Corbis)

No século XX, as mulheres conquistaram espaços nas denominações evangélicas. Nas Assembleias de Deus dos Estados Unidos, a presença das mulheres nos púlpitos foi oficializada em 1935. Nas décadas seguintes, elas foram seguidas por metodistas, presbiterianos e luteranos. A experiência internacional inspirou as igrejas Metodista, Evangélica de Confissão Luterana e Presbiteriana Independente, no Brasil, a aceitar mulheres como pastoras. Nas igrejas pentecostais e neopentecostais, foram as cantoras gospel que mais contribuíram para aceitação do ministério feminino. A visibilidade conquistada por cantoras como Ana Paula Valadão e Cassiane abriu espaço para que fossem nomeadas como pastoras por suas igrejas. Depois de Cassiane, todas as mulheres de presidentes da Assembleia de Deus Ministério Madureira passaram a ser ordenadas compulsoriamente. Estudioso das Assembleias de Deus, o sociólogo Gedeon Alencar diz que a prática não representa uma inclusão real, por excluir do sacerdócio as mulheres sem laço familiar com pastores. A teóloga Sandra discorda. Para ela, a ordenação de mulheres de pastores ajuda a mudar as concepções sobre o papel da mulher na igreja.

Na Igreja Católica, a perspectiva da ordenação de mulheres ainda é distante. Quando a Igreja Anglicana – denominação protestante mais próxima dos católicos – passou a ordenar mulheres, em 1994, o papa João Paulo II divulgou uma Carta Apostólica para reafirmar que o ministério é reservado aos homens. O papa Francisco defende mais espaço para as mulheres no catolicismo, mas não no sacerdócio. “Devem ser valorizadas, não clericalizadas”, reafirma o papa, em meio a todas as suas promessas de renovação da Igreja Católica.

O artigo original da ÉPOCA poderá ser visto por meio desse link aqui:


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Alexandros Meimaridis

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