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sábado, 24 de janeiro de 2015

ARTICULISTA SE APROVEITA DO TERROR RELIGIOSO EM PARIS PARA ATACAR A BÍBLIA


 

Uma das questões mais comuns com a qual estamos acostumados a lidar é a mais absoluta falta de entendimento do que as Escrituras Sagradas ensinam acerca de Deus, especialmente o Antigo Testamento.

ALGUNS ANTECEDENTES

A vasta maioria das informações que vemos hoje sendo publicadas não tiveram início em tempos recentes e nem mesmo no século passado. Esses ataques, frutos da ignorância das pessoas, tiveram início nos séculos XVIII e XIX e, de lá prá cá, o que temos visto são apenas repetições e variações sobre os escritos produzidos naqueles séculos. É provável que o agressor de plantão mais vocal em nossos dias, seja o biólogo nigeriano Richard Dawkins que escreveu o patético livro Deus, Um Delírio. Seu material apenas reproduz as idéias dos seguintes escritores do passado:

1. Paul-Henri Dietrich, barão d’Holbach enciclopedista — contribui com nada menos do que 376 artigos para a grande enciclopédia publicada por Diderot — e filósofo alemão naturalizado francês. Holbach nasceu em Dezembro de 1723 em Edesheim, próximo a Landau e faleceu em Paris em 21 de Julho de 1789. Suas duas obras mais importantes com relação à crítica da Cristandade[1] são: 1)”O Sistema da Natureza” publicada em 1770 sob o pseudônimo de J. B. Mirabaud e; 2) “Le Christianisme Dévoilé” de 1761 publicado sob o nome de um amigo já falecido, N. A. Boulanger. Nas duas obras d’Holbach ataca a Cristandade como sendo contrária tanto à natureza quanto à razão. Em tempos mais recentes um inglês chamado M. D. Magee tem publicado um site na Internet com o título “Christianity Revealed”, o que é uma inegável cópia da obra do barão d’Holbach.

2. Andréas Lwdwig Feuerbach, filósofo e humanista alemão que exerceu enorme influência sobre Karl Marx com suas idéias teológicas centradas no homem e não em Deus. Feuerbach abandonou os estudos teológicos e tornou-se discípulo de G. W. F. Hegel durante dois anos em Berlim. Publicou seu primeiro livro acerca da morte e da imortalidade — Gedanken über Tod und Unsterblichkeit em 1832 — de forma anônima. Em 1839 publica “Über Philosophie und Christentum” onde defende a idéia de que a Cristandade já havia desaparecido não somente da razão, mas da própria existência humana e que não passava de uma idéia fixa somente. Sua obra mais importante, todavia, “Das Wesen des Christentums” foi publicada em 1841. Feuerbach, mesmo negando ser ateísta, defendia a idéia de que o “deus” da Cristandade não passava de uma ilusão — Alô? Dr. Dawkins? — risos. Ele exerceu profunda influência sobre o editor anticristão David Friedrich Strauss, que escreveu um dos livros mais controvertidos dos quais se tem notícia “Das Leben Jesu Kritisch Bearbeitet” entre 1835-36, bem como sobre Bruno Bauer, outro severo crítico da Cristandade.

2. EM NOSSOS DIAS

Uma leitura atenta dos parágrafos acima nos mostra com clareza que as tolices escritas por Richard Dawkins ou pelo falecido Christopher Hitchens — Deus não é Grande — Como a Religião Envenena Tudo — estão amplamente amparadas nos escritos do Barão de Holbach, de Lwdwing Feuerbach, Strauss, Renan, Nietzsche e outros autores todos mortos há mais de dois séculos ou algo próximo disso.

Tudo isso para dizer que ficamos deveras surpresos com um artigo publicado pelo site da revista Carta Capital e assinado pelo Sr. Wálter Maierovitch, no qual o mesmo, infelizmente, faz afirmações estapafúrdias e sem fundamento sólido por desconhecer, de forma absoluta, o verdadeiro conteúdo da revelação divina contida na Bíblia. Mesmo não crendo que a Bíblia seja a Palavra verdadeira do Deus Vivo, qualquer pessoa que deseja expressar suas opiniões acerca da mesma tem a obrigação de conhecer bem o texto sagrado e de ser, no mínimo, honesto, intelectualmente falando.

Bem, vamos ao texto da Carta Capital e faremos alguns outros comentários no final do mesmo com o objetivo de esclarecer os equívocos do Sr. Wálter Maierovitch.  

Internacional — França

Além do Charlie Hebdo

Não é o Alcorão, mas a Bíblia, o livro sagrado que recomenda a pena de morte aos blasfemos. Está no Levítico (24:16).

Por Wálter Maierovitch - Juiz de Direito Aponsentado

Bíblia
Mark Wilson / AFP — Bíblia - "Quem blasfema o nome do Senhor deve ser morto"

A tragédia no semanário Charlie Hebdo acirrou na Europa o conflito político-ideológico entre a direita radical difusora da islamofobia e a esquerda, com a sua bandeira de integração centrada na formação de uma igualitária sociedade multiétnica.

À frente dessa direita populista na França está Marine Le Pen, da Frente Nacional, na Itália Matteo Salvini, da Liga Norte. Ambos com posições xenófobas e favoráveis à revogação do Tratado de Schegen, a cidade luxemburguesa onde foi celebrado, em 1985 (seria aperfeiçoado em 1995), ao estabelecer a livre circulação de cidadãos pela União Europeia.

Essa dupla não distingue a presença majoritária de islamitas pacíficos e minorias reunidas em associações terroristas salafistas financiadas, muitas vezes, como foi o caso de Osama bin Laden, por uma elite endinheirada, encastelada nas petromonarquias da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes e do Catar.

Melhor: trata-se de associações terroristas com atuação em rede planetária e adesão a um integralismo de matriz político-religiosa. Essas organizações não aceitam o pluralismo de ideias e de programas, a laicidade do Estado, a liberdade de opinião e de imprensa, a democracia. Abraçam o totalitarismo religioso. Seus integrantes estão sempre prontos a matar aos gritos de Allahu akbar (Alá é grande) ou de invocar, para justificar os bárbaros crimes, o nome do profeta Maomé, em equivocada interpretação do Alcorão. A propósito das charges do semanário, não é o Alcorão, mas a Bíblia, no Levítico (24:16), o único livro sagrado a sancionar a blasfêmia com pena de morte: “Quem blasfema o nome do Senhor deve ser morto”.

Para Marine Le Pen, as mortes no Charlie Hebdo revelaram “não ser a Europa capaz de defender seus cidadãos contra o terrorismo”. Le Pen não atentou a dois fatos significativos que envolvem, no caso da integração étnica, islamitas praticantes. O policial de origem árabe e religião islâmica Ahmed Merabet enfrentou até a morte, na calçada defronte à sede do semanário, os dois irmãos Kouachi. Seus familiares, em entrevista coletiva que Le Pen prefere ignorar, ressaltaram: “Ahmed era de fé islâmica e os seus assassinos uns falsos islamitas, pois o Islã é uma religião de paz”.

Na tragédia do dia seguinte, o malinês Lassana Bathily, funcionário do armazém de produtos kosher onde quatro reféns foram assassinados, salvou mais de uma dezena de hebreus. Bathily escondeu em uma câmara frigorífica, depois de desligar o sistema refrigerador, diversos judeus em compras no mercado. Salvou-os da ira e das balas do fanático Amedy Coulibaly. Na véspera, Coulibaly havia matado uma policial estagiária desarmada em um parque da comuna de Montrouge.

Na seara policial e de inteligência, muitos pontos precisam ser esclarecidos. A Al-Qaeda da Península Arábica, sediada no Iêmen, reivindicou, após autorização de Ayman al-Zawahiri, sucessor de Bin Laden e chefe da Al-Qaeda central, a autoria do atentado no Charlie Hebdo, conforme um vídeo de 11 minutos.

Pelos sinais, tudo pode ter nascido de iniciativa escoteira de uma célula doméstica e autônoma fundada em 2005 pelos irmãos Kouachi, com adesão de Coulibaly e predicações de Djamel Beghal. Essa célula chegou, no parque francês de Buttes Charmont, a atuar na arregimentação de jihadistas para o Iraque e, posteriormente, à Síria.

Chérif Kouachi e Coulibaly foram condenados, com penas de 3 e 5 anos, por tentativa de tirar da penitenciária o terrorista Ali Belkacem, autor de um atentado no metrô em 1995. Chérif ficou sete meses preso e recebeu livramento condicional, enquanto Coulibaly deixou a cadeia em julho de 2014. Até então, a célula atuava com autonomia, por sua conta e risco. A Al-Qaeda central, desde Bin Laden, pregava, via ciberterror, a ordem do “faça você mesmo a sua parte sem precisar consultar, salvo em questões religiosas”.

Interessa à Al-Qaeda colocar no currículo um segundo 11 de Setembro, desta vez na França. Ainda mais por estar em conflito com o Estado Islâmico, que logrou ocupar um território, enquanto seu líder, Abu Bakr al-Baghdadi, proclamou-se califa Ibrahim, o que deve ter levado Bin Laden a se remexer de inveja no fundo do mar. O sonho não realizado de Bin Laden era ter um califado. Registre-se: os irmãos Kouachi avisaram pertencer à Al-Qaeda. Não esclareceram, no entanto, se estavam sob ordens alqaedistas.

Pergunta: a versão oficial a ser apresentada vai ou não coincidir com a verdade real?

O artigo original da Revista Carta Capital poderá ser lido por meio desse link aqui:


NOSSO COMENTÁRIO ACERCA DA AFIRMAÇÃO DO AUTOR ENVOLVENDO A CITAÇÃO DE LEVÍTICO 24:16

1. Um dos grandes equívocos cometidos pelas pessoas em geral quando o assunto é aquilo que está escrito na Bíblia é não entender que a mesma é uma revelação progressiva e que é necessário entender cada tipo de literatura contido na Bíblia à luz de sua própria história, geografia, sociologia, economia e etc.

2. Quanto ao versículo de Levítico 24:16 devemos sempre nos lembrar que muitas coisas escritas, especialmente no Antigo Testamento, estão culturalmente condicionadas a diversos fatores. Por exemplo, o mandamento contido em Levítico 24:16 estava culturalmente condicionado e só poderia ser aplicado dentro do contexto do povo hebreu — os hebreus não podiam, por exemplo irem para outros países matarem pessoas que blasfemassem contra o seu Deus. E mesmo isso, só poderia ser feito enquanto durasse a Antiga Aliança que foi totalmente abolida com a vinda de Jesus Cristo.

3. Além do mais a blasfêmia envolvida em Levítico 24:16 diz respeito à blasfêmia contra o nome inefável de Deus — יהוה  — YHWH — traduzido com SENHOR nesse e em todos os outros contextos em que o mesmo aparece no original hebraico. O contexto de Levítico 24 nos fala de um jovem, filho de uma israelita com um egípcio, que teria então cometido essa blasfêmia específica, mas o texto não nos diz exatamente o que ele disse. Diz apenas que foi entendido dessa maneira. A sentença proferida pelo próprio Deus foi de que o mesmo deveria ser apedrejado, o que aconteceu na sequência da narrativa. Todavia, os judeus desde muito tempo passaram a evitar o uso do nome inefável יהוה — YHWH — traduzido com SENHOR preferindo os termos אדני `Adony — Meu Senhor ou  השׁם hashem — O Nome. Dessa forma os judeus passaram a evitar tanto pronunciar o nome inefável de Deus em vão — conforme a proibição de Êxodo 20:7 — como evitar blasfemar o nome de Deus, conforme o verso que estamos discutindo aqui.

4. De acordo com a narrativa Bíblica existem apenas dois outros momentos em que tal mandamento foi colocado em prática — ou seja, o ofensor pagou com a própria vida pela blasfêmia proferida —, mas nos dois casos é transparente a ma fé com que os casos foram conduzidos motivados por outros interesses.

a. O primeiro caso está registrado em 1 Reis 21:13 onde lemos:

1 Reis 21:13

Então, vieram dois homens malignos, sentaram-se defronte dele e testemunharam contra ele, contra Nabote, perante o povo, dizendo: Nabote blasfemou contra Deus e contra o rei. E o levaram para fora da cidade e o apedrejaram, e morreu.

O contexto deixa claro que tudo não passou de uma armação e não da aplicação justa do mandamento divino.

b. O segundo caso é mais gritante ainda, porque envolve a própria pessoa do Senhor Jesus Cristo, vítima de um julgamento imoral no meio da madrugada que culminou com sua condenação à morte pelas autoridades judaicas com base no verso que estamos discutindo. A passagem da condenação do Senhor Jesus é esta:

Mateus 26:65—66

65 Então, o sumo sacerdote rasgou as suas vestes, dizendo: Blasfemou! Que necessidade mais temos de testemunhas? Eis que ouvistes agora a blasfêmia!

66 Que vos parece? Responderam eles: É réu de morte.

5. Portanto de acordo com a narrativa Bíblica não temos a aplicação de tal lei, nem de forma comum, nem desproporcional — aliás, como vimos temos apenas 3 casos em toda a Bíblia, Antigo e Novo Testamento, sendo que em dois deles, a lei foi aplicada de forma injusta e parcial para atender a outros interesses.

6. Agora, a forma como o autor do artigo cita o verso de Levítico 24:16 dá a nítida impressão para o leitor mal informado ou pouco instruído nas Escrituras Sagradas cristãs que tal mandamento é válido até os dias de hoje e vai lá saber quantos não foram executados em obediência ao mesmo, o que é uma evidente prova tanto do desconhecimento das Escrituras Sagradas bíblicas,  como uma falta absoluta de honestidade intelectual por parte do autor do artigo.

Independentemente de tudo isso, continuamos admirando o equilibrio demonstrado pela Revista Carta Capital e seu editor, o Sr. Mino Carta, admiração essa que nos acompanha desde a nossa adolescência quando o mesmo lançou a revista VEJA da Editora Abril, curiosamente, no dia 11 de setembro de 1968.

Que Deus abençoe a todos

Alexandros Meimaridis

PS. Pedimos a todos os nossos leitores que puderem que “curtam” nossa página no Facebook através do seguinte link:


Desde já agradecemos a todos.




[1] O autor chamará de “Cristandade” esta religião falsa, espalhada pelo mundo, que se auto-intitula de cristã. Mesmo não gostando do termo “Cristianismo”, pelo reducionismo ideológico que ele causa, o mesmo será usado para se referir à verdadeira igreja cristã espalhada pelo mundo.

domingo, 18 de janeiro de 2015

EU SOU CHARLIE E A HIPOCRISIA OCIDENTAL


Paris
Por enquanto, grandes emoções prevalecem

Que ninguém pense, nem por um segundo, que o Blog o Grande Diálogo concorda com o assassinato de qualquer pessoa, seja ela quem for. Condenamos com toda veemência os acontecimentos ocorridos na França nos últimos dias.

Por outro lado, ficamos estarrecidos de ver as manifestações hipócritas expressadas nos discursos, nas vigílias, nas velas acesas, nas flores colocadas em memoriais improvisados, apenas, e somente apenas, porque as vítimas nesses casos eram cidadãos de nacionalidade francesa. Tudo isso nos lembrou a gigantesca mentira e hipocrisia que foi encenada no 11 de Setembro de 2001.

Num primeiro momento pensamos em escrever um artigo todo nosso, mas como o tempo andou meio escasso para coletarmos todos o material necessários preferimos optar por reproduzir uma análise de alguém que escreveu o muito que nós mesmos gostaríamos de ter escrito.

O material abaixo foi publicado no site da Revista Carta Capital e é de autoria de Giani Carta.

Chore por mim, França

Há muitas razões para justificar as lágrimas

por Gianni Carta 


Um Profeta chora na charge na capa da edição de quarta-feira 14 de Charlie Hebdo. Exibe um cartaz, “Je suis Charlie”. Mais: “Tudo está perdoado”. Luz, 43 anos, autor da caricatura, diz à imprensa  ter chorado ao desenhar Maomé. Chorou a morte de cinco companheiros cartunistas, entre os melhores chargistas do país, e de mais cinco pessoas e dois policiais. Aconteceu na quarta-feira 7, na redação do Charlie Hebdo. Armados de Kalashnikovs e um lança-granadas, os irmãos parisienses Chérif e Said Kouachi, de 32 e 34 anos, convertidos ao Islã radical e treinados no Iêmen, concluíram a chacina em dez minutos.

Durante a fuga dos Kouachi, entrou em ação Amedy Coulibaly, outro francês convertido ao radicalismo, de 32 anos, e o provável líder da célula. Segundo o diário Le Figaro, os irmãos haviam recebido 20 mil dólares no Iêmen para agir com Coulibaly. Esperaram, portanto, a saída dele da prisão, onde cumpria pena por roubo. Coulibaly assassinou uma policial ao sul de Paris e mais quatro homens em um supermercado kosher. Quando a polícia ainda procurava a mulher de Coulibaly, Hayat Boumediene, ela já estava na Síria. Com Hayat foi identificado um rapaz, aparentemente envolvido na operação, Mehdi Sabry Belhoucine, cidadão francês de 23 anos. No meio-tempo, Nasser ben Ali al-Anassi, líder do Al-Qaeda na Península Arábica (Aqpa), reivindicou os atentados para “vingar” o Profeta.

Luz, o decano a substituir outros caricaturistas talentosos como Cabu e Wolinski, chorou como tantos franceses sob estado de choque. A França viveu o seu 11 de Setembro. Um ataque à República, não contra a imprensa livre, como insiste a vasta maioria. Segundo o Alcorão, Alá e o Profeta não podem ser retratados. Isso fica claro no capítulo 42, versículo 11: “(Alá) é o criador dos céus e da terra ... não há nada que se assemelhe a ele”. E eis o capítulo 21, versículos 52 a 54: “(Abraão) disse ao pai e ao povo: ‘Por que a adoração por essas imagens que vos unem? ‘Eles disseram: Vemos nossos pais a adorá-las. Ele disse: Certamente vocês têm cometido, juntamente com vossos pais, em erro manifesto”. Para resumir, na religião muçulmana imagens não podem ser idolatradas, e sim o divino. É preciso respeitar as religiões. Vale lembrar que a velha redação de Charlie Hebdo já tinha sido destruída em um atentado em novembro de 2011. Seu editor, Charb, de 47 anos, estava sob proteção policial. Idem a redação, que havia sido transferida para um pequeno prédio nas proximidades da Praça da Bastilha. Charb aceitou o risco.

No momento, gestos guiados pelas grandes emoções prevalecem sobre aqueles ancorados na razão. Por essas e outras, representantes da mídia e o governo deram ajuda financeira ao Charlie Hebdo. Disse o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve: “Denfendemos a imprensa livre”. Na quarta-feira 14, 3 milhões de exemplares, em vez dos costumeiros 60 mil, estavam esgotados às 10 da manhã. Uma hora antes fui a cinco bancas, algumas delas com cartazes nos quais se lia: “Charlie Hebdo esgotado”. Indaguei  uma mulher, a empunhar um exemplar, onde ela tinha conseguido o dela: “Fiquei em uma fila desde as 6 da manhã”. Mais 2 milhões de exemplares, com charges inéditas dos cartunistas mortos, seriam impressos nos próximos dias. O diário italianoIl Fatto Quotidiano teve direito a reproduzir um suplemento com as 16 páginas do Charlie Hebdo. Disponíveis mais de 10 mil cópias do semanário satírico na Alemanha em francês e alemão. No mundo árabe, o quadro é diferente: proibidas as vendas no Egito, na Argélia etc. Quase 2 mil manifestantes gritaram em uníssono nas Filipinas: “Je ne suis pas Charlie”.

Um contraste com o povo a gritar “Je suis Charlie. Nous sommes touts Charlie”,  na marcha pela liberdade no domingo 11. Mais de 1,5 milhão de parisienses de um total de 3,7 milhões de cidadãos França afora foram às ruas para protestar contra o terrorismo e pela liberdade de imprensa, inclusive aquela de retratar agressivamente, no país da liberté, o Profeta. Não escassearam velas, buquês de flores nos lugares onde houve atentados. Desfilaram importantes símbolos da República: a tricolor, Joana D’Arc, e Marianne, a simbólica mãe da nação a encarnar os valores Égalité, Liberté et Fraternité. Cidadãos de todas as inclinações ideológicas e crenças mostraram aos radicais islamitas que não se dobram diante do terrorismo.  O presidente François Hollande exprimiu-se com dignidade e no tom apropriado. Naqueles momentos de emoção à flor da pele reinava o patriotismo. Perigoso a curto prazo, quando a sobriedade pouco a pouco volta à tona.

Sob escolta policial e a viver com a família em endereços desconhecidos desde a publicação  de um texto seu criticando o Profeta publicado pelo diário Le Figaro em 2006, o filósofo Robert Redeker enviou, a meu pedido, um texto sobre os eventos. Nele se compara ao filósofo comunista Georges Politzer, fuzilado em maio de 1944, durante a Resistência, a entoar a Marselhesa. Mais: “Eles (os caricaturistas) morreram pela França”. São heróis. O artigo de Redeker, entrevistado em diversas ocasiões por CartaCapital, contrasta com a entrevista telefônica com Magid Shihade, professor visitante de ciências políticas da Universidade da Califórnia. Diz Shihade: “Assassinatos perpetrados por militantes treinados pelos EUA contra cidadãos inocentes no Afeganistão são acidentes colaterais e não têm repercussão alguma para americanos, europeus e as autoridades israelenses”. Por outro lado, observa Shihade, “essa violência simbólica, como desenhos animados ou queimar o Alcorão, são mais importantes do que matar milhões no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbano e Palestina. Por quê?

Embora tenha ganhado popularidade com os atentados, Hollande tem pela frente uma dura luta contra a legenda de extrema-direita Frente Nacional, de Marine Le Pen. Do seu canto, ela tem inflamado o povo com o costumeiro desdém pelo muçulmano. De qualquer modo, as gafes dos líderes moderados já começaram. Após a inflamada frase “A França é capital do mundo”, que parece conferir demasiado mérito à capital francesa, críticos perceberam o óbvio: várias autoridades convidadas às pressas eram líderes em cujos países o termo “liberdade” é palavrão. Com a exceção de alguns premiers, como o italiano Matteo Renzi e o britânico David Cameron, o israelense Benjamin Netanyahu, sem contar alguns líderes árabes, causou constrangimento. Às vésperas das eleições em Israel, Netanyahu foi, cercado de cem agentes do Mossad, ao supermercado kosher, onde morreram quatro  judeus. Anunciou: “Venham viver em Israel, terra dos judeus”. Irritado, rebateu o premier francês Manuel Valls: “Eles são franceses e judeus, esta é a terra deles”. Vários judeus franceses são antissionistas. Ou ateus e agnósticos. Como se isso não bastasse, Netanyahu entrou em outra polêmica: comparou os terroristas franceses com os integrantes da legenda com braço armado Hamas, em Gaza, e com o Hezbollah, a legenda xiita libanesa também com braço armado. E aproveitou para fundir todos os grupos terroristas no Hamas. Detalhe: este foi tirado da lista de grupos terroristas pela União Europeia. Observa Shihade: “Naturalmente, as autoridades israelenses estão felizes com o atual contexto, porque podem utilizar os atentados na sua manipulação cínica de tentar unir o mundo inteiro contra os palestinos”. Ao mesmo tempo, negam a violência de Israel e o “choque de civilização”, tese do sionista Samuel Huntington. “Nesse meio-tempo, os palestinos continuam subjugados à repressão e assassinatos, assim como milhões de árabes e muçulmanos.”

Luz substituiu Cabu e Wolinski para desenhar a charge da edição pós-massacre e vender 3 milhões de exemplares até 10h da manhã.

Luz
Luz substituiu Cabu e Wolinski para desenhar a charge da edição pós-massacre e vender 3 milhões de exemplares até 10h da manhã

Por outro lado, a França não é tão liberal, no sentido político, quanto parece. Em 20 de julho de 2014, Valls proibiu os protestos pró-Palestina, então sofrendo baixas de civis por conta de ataques israelenses, e da violência de alguns manifestantes. Outro motivo: o crescente antissemitismo nas redes sociais. Os manifestantes foram adiante. Ao norte de Paris, no bairro de Barbès, houve um confronto com a polícia: pedras e garrafas contra bombas de gás lacrimogêneo. Cenário de guerrilha urbana. Sob pressão de organizações muçulmanas, o governo cedeu. Fui a dois protestos, em agosto. Não houve nenhum conflito com a polícia.

Ex-ministro do Interior, Valls, como Nicolas Sarkozy, diz: “A França está em estado de guerra”. Slogans, inclusive Je suis Charlie. “São importantes porque definem as causas pelas quais lutamos.” Talvez Valls precise aprender um pouco sobre o tema. Como a direita reacionária, o conservador Valls certamente deve ser favorável a um Patriot Act francês. Em suma, uma legislação de exceção provisória, em princípio. Nos EUA, qualquer suspeito pode acabar em Guantánamo. Treze anos após ter sido aprovado, o Patriot Act continua em vigor. Na França haverá um “estado de urgência” com “centros de detenção”. Resta saber o quão o “estado de urgência” se assemelha ao Patriot Act. Em entrevista ao diário italiano La Repubblica, o filósofo Giorgio Agamben explica que se entende por “guerra” conflitos entre potências e, portanto, a palavra não se aplica ao caso do terrorismo. Agamben emenda que foi esse “equívoco” o motivo a ter levado George W. Bush, a invadir o Iraque em 2003. Matou “dezenas de milhares de pessoas”, cujas mortes provavelmente provocaram os assassinatos “pelos quais hoje chora Paris”.

Outra questão espinhosa: a França não tem uma lei contra a blasfêmia, como a Irlanda e a Grécia. No entanto, o racismo e a incitação racial são proibidos. Difícil distinguir entre as duas definições. Joelle Fiss, especialista em Direitos do Homem, explica em uma coluna no Libération: ao contrário da incitação racial e religiosa, o insulto não gera consequências. No entanto, Fiss parece não acreditar que a blasfêmia pode ser tida como incitação religiosa.

Encontro uma professora de nível colegial para entender como ela explica os atentados radicais para seus alunos. “Mostro para eles as caricaturas, digo que a França é um país livre. Os cartunistas não mereciam ser assassinados, mas exageraram.” A professora diz que, quando mostra as caricaturas de Maomé, alguns alunos ficam chocados, especialmente, é claro, os de origem árabe. “Eles até certa idade compreendem melhor a imagem, e muito menos a abstração.” O problema – continua a professora – é que seus alunos em uma escola dos subúrbios, especialmente os de origem árabe, sentem-se marginalizados. Acrescenta: “Do meu subúrbio, verdadeiro gueto, não há metrô direto para Paris”. Um jovem tem de tomar dois, três ônibus para vir paquerar em Paris. “Lembro de um deles, anos atrás, menino bonito, perdido, mais tarde sem emprego. Disse que encontrou na religião muçulmana um norte. Será que ele não poderia ter se radicalizado e ser hoje um jihadista?”

Quinta 15. O estado de alerta máximo continua. Mais de 10 mil policiais e soldados armados de metralhadoras em Paris testemunham o temor de uma nova onda de atentados. Em entrevista ao diário Libération, a brigada criminal de Paris fala em “um, dois, 12 cúmplices”. A polícia estaria atrás de um quarto terrorista, provável responsável pelo ataque com uma arma de fogo contra um homem que praticava jogging em um parque. Ele se locomoveria por Paris com um Mini Cooper, cuja dona seria Hayat, a mulher de Coulibaly. Antes de entrar em estado de coma, o atingido teria feito um retrato para a polícia que não corresponde a nenhum dos três terroristas mortos pela polícia.

O artigo original de Carta Capital pode ser visto por meio desse link aqui:



NOSSO COMENTÁRIO:

A PSEUDOLIBERDADE HUMANA E A VERDADEIRA LIBERDADE CRISTÃ

A liberdade pretendida pelos seres humanos, especialmente no ocidente é uma liberdade onde vale tudo, desde que tenha origem no próprio oriente. Ela não é uma liberdade aceitável se tiver origem em outros lugares.

A grande verdade que nós como crente devemos usar para pautar o uso da liberdade está bem caracterizado pelo que disse o apóstolo Paulo quando escreveu:

1 Coríntios 8:13

E, por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo.

Ou seja, o cristão tem a obrigação de evitar fazer qualquer coisa que ele sabe ira escandalizar seu irmão e, certamente, isso pode ser estendido ainda mais para os incrédulos a quem queremos ganhar para Cristo e não escandalizá-los.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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