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terça-feira, 21 de junho de 2016

CULTURA DO ESTUPRO: LEITORA DÁ SUA OPINIÃO



Recebemos de uma leitora o seguinte comentário que decidimos publicar para o benefício de todos.

Pastor,

Obviamente, fui uma das muitas pessoas que ficou estarrecida com o triste acontecido na minha cidade natal e fui pesquisar mais sobre o assunto. Li vários textos, assisti vídeos e só posso dizer que o que veio à tona com o caso da "menina do Rio" é só mais uma faceta deste mundo desumanizado, de uma sociedade sem moral, de um mundo sem o temor de Deus!

Poderia ser simplista em dizer que: "se ela tivesse ficado em casa, nada disso teria acontecido". Contudo, estupros podem acontecer em qualquer lugar, inclusive em casa. Lembrei-me do caso "Bianca Consoli" que foi estuprada pelo próprio cunhado que invadiu a casa dos sogros e violentou e matou a moça há 5 anos atrás. E por que não lembrar da "lenda do boto" nas regiões amazônicas? Dizem que esta história das jovens que aparecem grávidas do boto que se transforma num belo jovem sedutor em noites de lua cheia é para ocultar uma cultura muito perversa de pais que violentam suas filhas e por vezes as engravidam.

No submundo das favelas e do tráfico de drogas, os chefes da bandidagem mandam e "obedece quem tem juízo". Logo, os poderosos podem escolher qualquer mulher da comunidade como sua e a família deve aceitar de bom grado. Simples assim.

A questão se torna mais trágica pelo fato das moças das favelas almejarem serem "as mulheres dos chefões" porque isto é sinônimo de poder dentro daquele microcosmo. Respeito, reverência, dinheiro e ostentação, ou seja, o que é vendido como imagem de sucesso nos meios de comunicação de massa é obtido nestas uniões.

No texto de Wilson Ferreira replicado no blog: "O Grande Diálogo" há várias questões abordadas sobre a prolatada cultura do estupro. O autor recorreu aos ensinamentos de Freud, escreve sobre falo e como o homem enxerga a mulher desde a primeira infância e etc. Sei que Freud é referência para muitos estudiosos, mas confesso que sempre quando leio: "segundo Freud..." fico cansada só de ler. Não sou estudiosa no assunto, mas sou mulher, por isso posso dizer algo não baseada no pai da psicanálise, mas na realidade que vivo: - o machismo sempre existiu. As mulheres apoiam a perpetuação do sistema, porque o machismo (e também o feminismo) é, nada mais que, a eterna luta do forte contra o fraco, baseado na maldade que há dentro de cada um. Porque ninguém é bom. Ponto final.

As propagandas usam as mulheres para vender tudo! Corpos nus para vender um par de sapatos, por exemplo. E nos é ensinado que: "o que é bonito é para ser mostrado". Empodere-se. Seja a "gostosona" do bairro. Rebola e desce até o chão! Já o feminismo diz que o homem deve ser tratado como o opressor, que deve ser combatido. Então, se por um lado, a mulher deve andar por aí mostrando tudo, o homem tem que ver e se comportar como um ser destituído de testosterona.

E a menina do Rio? Ela só seguiu os ensinamentos da mídia. Saiu do seu mundinho classe média, no qual era apenas mais uma e foi ser "rainha da favela". Fez amizade com os traficantes e pagou o preço para entrar na turma: com muito sexo. Sim, muito trágico, mas é a realidade. Creio eu que a jovem só saiu do transe em que vivia quando a podridão sem limites foi veiculada nas redes sociais e ela foi forçada a ver que foi violada várias vezes e aquela não era a primeira vez. Violada no corpo e na alma. Consciente do erro, mas inconsciente pelos entorpecentes. E não pensemos nós que achamos que vivemos no mundo normal, que aqui é diferente. Boa parte das mulheres busca o combo: homem bem sucedido e com muito dinheiro. Pode ser até velho, mas se tiver dinheiro, melhor ainda. Porque estas mulheres bombardeadas pela mídia querem ter uma Louis Vuitton para chamar de sua, viagens pelo mundo e para espantar o tédio de uma tarde sem fazer nada, que tal uma massagem? Uma visita ao cabeleireiro? Porque mulher poderosa jamais será recatada e do lar, ou dona de casa e estragar a unha postiça lavando louça! O bom mesmo é ostentar aquele carrão, as joias, o marido (de pedigree e bem treinado) e os filhos educados pela babá e fazer inveja as "amigas".

E os homens? Nunca vi os homens sendo tão machos e tão menos homens com H maiúsculo. O homem verdadeiramente homem é líder, não ditador, governa a família com amor, dá a vida pela amada. Utopia? Talvez seja e por isso está escrito na Bíblia, livro que recebe a alcunha de manual de fanáticos, primitivos e semi analfabetos.

Então, neste mundo onde a fêmea anda quase nua para se sentir empoderada e o macho não pode nem assobiar "fiu, fiu". Onde sexo é moeda de troca (e aqui não falo da prostituição como profissão), onde o fraco sempre sofrerá na mão do mais forte (pode ser homem, mulher, jovem ou velho, criança, branco ou negro), onde as pessoas não mais pensam porque gastam toda a vida em redes sociais, tv ou qualquer inutilidade do tipo, a cultura do estupro sempre estará à sombra e pronta para mostrar o mais perverso de nós.

Simone dos Santos

Que Deus abençoe a todos,

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.     

quarta-feira, 15 de junho de 2016

A CULTURA DO ESTUPRO


Diante de mais uma afirmação despropositada afirmação de sua excelência o deputado Federal e dublê de pastor Marco Feliciano de que não existe cultura do estupro no Brasil, achamos por bem publicar o artigo abaixo de autoria do professor Wilson Roberto Vieira Ferreira.

Cultura do Estupro revela "machismo 2.0"
Wilson Roberto Vieira Ferreira

A grande mídia escandaliza-se com o estupro coletivo de uma menina no Rio de Janeiro e clama por um país menos machista e sexista. Mas por anos deu espaço para frotas e gentilis, enquanto sua programação sempre foi patrocinada por anúncios onde a mulher-objeto-fetiche é a isca principal para produtos e serviços. A chamada cultura do estupro deve ser contextualizada no surgimento do “machismo 2.0”: uma nova forma de sexismo cujas bases estão lá na velha ordem patriarcal, mas que agora é repaginado e turbinado pelo complexo sociedade de consumo/indústria publicitária/grande mídia, capazes de criar uma nova cadeia de produção imaginária: voyeurismo-exibicionismo-sadismo. Imaginária, mas com sérias repercussões no mundo real.

O que mais chama a atenção no debate atual sobre a chamada “cultura do estupro”, principalmente com o impacto das notícias sobre o episódio do estupro coletivo ocorrido em uma comunidade no Rio de Janeiro, é que em todas as falas aponta-se unicamente para uma cultura “machista e sexista” arcaica e retrógrada que seria a responsável pelas 50 mil notificações anuais de crimes sexuais no País.

Mas são poucos aqueles que lembram de fatores mais contemporâneos: a sociedade de consumo e a cultura midiática. Aproxima-se a cultura do estupro de uma “cultura da superioridade” resultante de uma educação onde para os meninos é mostrada a sua suposta superioridade natural em relação às meninas. Porém, essa cultura machista é restrita à crítica a uma ordem patriarcal e masculina. Uma reação da cultura machista ao crescente protagonismo feminino na sociedade.

Como sempre, a grande mídia põe à mostra sua natureza esquizofrênica ao repercutir o episódio:

(a) Escandaliza-se, mas por outro lado nos últimos anos deu espaço midiático a frotas, gentilis, felicianos, a chamada bancada da Bala, da Bíblia e do Boi no Congresso e toda sorte de personagens mais retrógrados, retirados do fundo da caixa de Pandora para afrontar, desestabilizar e finalmente derrubar o governo Dilma;

(b) Tem sua grade de programação diária patrocinada por filmes publicitários que promovem produtos e serviços onde a mulher é exposta como isca, objeto sexual ou colocada em plots onde é apresentada como naturalmente submissa ao poder físico ou financeiro masculino. O telejornal mostra âncoras e entrevistados indignados para pouco tempo depois mostrar o anúncio do “vai verão, vem verão” de uma conhecida marca de cerveja com uma mulher segurando uma bandeja em trajes sumários.


Produção imaginária

Acredito que é a partir dessa natureza esquizoide da grande mídia que a questão da cultura do estupro deve ser discutida. Mais precisamente, a partir da ordem sociedade de consumo/indústria publicitária/grande mídia. Uma ordem mais poderosa e que se sobrepôs à ordem patriarcal, a origem de todo o machismo, por assim dizer, tradicional que estaria por trás do revoltante episódio do estupro coletivo.

Esse machismo da velha ordem patriarcal deu lugar a um, digamos, machismo 2.0, dessa vez repaginado e turbinado pela sociedade de consumo e indústria publicitária para ser veiculado pela grande mídia.

Estupro não é uma questão de prazer ou tesão, mas de poder: poder de dominar o corpo do outro (sadismo), para mostrá-lo como uma conquista em vídeos ou fotos em redes sociais (exibicionismo) para o prazer anônimo de onanistas (voyeurismo).

Essa cadeia de produção imaginária é análoga a da promoção do consumo, mudando apenas a ordem dos elementos da cadeia: pessoas que veem imagens distantes do objeto do desejo nos anúncios (voyeurismo) sonhando possuí-los e ostentá-los (exibicionismo) como moeda social para se impor sobre o outro (sadismo).

 

Freud explica?

Esse machismo 2.0 se fundamenta nas mesmas origens da ordem patriarcal, em torno da chamada matriz fálica descrita pela psicanálise freudiana – o primeiro simbolismo introjetado pela criança, o simbolismo universal de poder sobre o qual o papel sexual masculino será estruturado. O Falo como a “premissa universal do pênis”, a louca crença infantil que não existe diferença entre os sexos, todos têm um pênis. Existe apenas um órgão genital, e tal órgão é masculino.

Essa fantasia de origem narcísica primária é diluída com a descoberta do outro: algumas crianças não têm pênis o que para o homem corresponderá à fantasia da “perda do pênis” ou aquilo que Freud descreveu como “complexo de castração”, o ponto frágil da afirmação sexual masculina.

Esta imagem da perda permanecerá para sempre associada ao psiquismo masculino de forma traumática e o medo da castração continuará perseguindo a realização sexual como um fantasma. No adulto, o medo da castração não se manifestará dessa forma tão literal: a castração se manifestará no medo da impotência (seja sexual, financeira ou social). Por isso, o homem estará condenado a ter que provar continuamente que jamais será castrado, será empurrado para situações onde terá de, continuamente, provar a masculinidade e a potência fálica: no desempenho sexual atlético, nos ganhos financeiros, na habilidade em manipular símbolos de status e prestígio, etc.

Esta ansiedade vai marcar negativamente a qualidade das relações com o sexo oposto. A forma de o homem perceber a mulher será prejudicada ao ver nela nada mais do que um campo de provas da potência fálica. A ansiedade da comprovação fálica empurrará o psiquismo masculino a procurar não a mulher, mas mulheres, num sentido genérico e abstrato. O investimento afetivo tomase difícil e transitório.

A simples presença da mulher tornase uma ameaça à segurança fálica masculina. Ela significa, per si, a cobrança de uma tomada de posição ou a castração em potencial: a possibilidade do fracasso. Por isso ela deve ser dominada, neutralizada. O corpo feminino deve ser reduzido a fragmentos, a objetos, para ser melhor dominado. É o surgimento do fetichismo sexual. O corpo real feminino é neutralizado pelo fascínio por fragmentos: pés, olhos, cabelos, ou acessórios associados a alguma destas partes como sapatos, luvas, etc.


Machismo 2.0 e a cultura do estupro

O que era fragilidade e ansiedade originada no medo da castração, com o complexo sociedade de consumo/publicidade/mídia tudo isso é amplificado com o pânico da castração.

A presença constante da mulher como objeto promotor de mercadorias de luxo ou de marcas corresponde ao desafio da potência masculina: “quer uma mulher como essa? Pois então compre um carro como esse. Prove que jamais será castrado!”. Para Freud a ansiedade da castração jamais é resolvida no psiquismo masculino, tornando-se uma inesgotável ferramenta de promoção de consumo de bens com alto valor agregado.

A cada anúncio de cerveja com mulheres que servem aos homens com uma bandeja, a cada filme com uma mulher fascinada olhando para um carro dirigido por um homem vitorioso e a cada feira ou exposição com atraentes modelos se oferecendo como isca ou miragem, a mulher torna-se na atualidade num suporte/meio/condutor da promessa de realização da potencia fálica.

Se na antiga ordem patriarcal, a mulher sempre foi uma ameaça que tinha de ser neutralizada como um objeto (seja como dona de casa sem direitos, seja como prostituta reduzida à condição de objeto-fetiche), hoje com a ordem globalizada de consumo a mulher foi promovida a uma moeda genérica de troca.

Neutralizar a ameaça feminina

Essa generalização da mulher na publicidade como estratégia para explorar o pânico da castração é visível com a regressão das fantasias fálicas às fantasias orais. Se no imaginário masculino isso esteve sempre latente (em expressões “comer a mulher”, “mulher gostosa” etc.) hoje é ampliado ao associar essa experiência ao próprio produto: a cerveja é a mulher que você bebe, o sundae com fritas do Mac Donald’s é a experiência da primeira namorada, a compra impulsiva com o cartão de crédito que a modelo tem próximo à boca etc.

O medo da castração cresce exponencialmente com a promoção da mulher a isca generalizada de produtos e serviços. A mulher submetida a uma nova cadeia de produção imaginária na seguinte sequência: voyeurismo-exibicionismo-sadismo.

As formas de perversão sexual e de objetos-fetiche sempre foram estratégias do psiquismo para neutralizar a ameaça que a mulher representa à segurança fálica masculina. Mas hoje, quando a mulher tornou-se onipresente através de voz, corpos e olhares, a cobrança à fragilidade do medo da castração tornou-se muito maior.

A crescente violência masculina é a revanche contra a ameaça da impotência que a sociedade de consumo o ameaça ao tornar todo produto ou serviço numa promessa fálica nunca realizada. Impotentes e castrados, homens veem mulheres e produtos inalcançáveis, restritos apenas a uma elite de vencedores.


O medo da castração global transforma-se em revanche masculina local: o estupro, o assédio, a violência - encoxar uma mulher no metro lotado, espancar a namorada por ciúmes, o estupro oportunista de uma mulher alcoolizada, a separação hipócrita das mulheres em tipo “para casar” e daquelas que são “para comer” e assim por diante.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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