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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

GOTTHARD BASE TUNEL E A CULTURA DO NARCISISMO



Conforme mencionamos no artigo anterior, estamos publicando um segundo artigo acerca da bizarra cerimônia de inauguração do Gothard Base Tunnel, que é o mais longo túnel ferroviário do mundo, ligando a Suíça à Alemanha. O artigo é da autoria de Wilton Cardoso e foi publicado no site do Professor Dr. Wilson Roberto Vieira Ferreira.

O bizarro show da abertura do túnel suíço: sintoma da cultura do narcisismo
 Wilson Roberto Vieira Ferreira

A bizarra e polêmica cerimônia de inauguração do Gothard Base Tunnel (o maior túnel ferroviário do mundo ligando Suíça à Alemanha) está rendendo comentários aqui no blog. O “Cinegnose” interpretou o evento pelo viés do “Sincromisticismo” e do “ecumenismo pós-moderno”. Nosso leitor Wilton Cardoso propôs mais uma interpretação, dessa vez associando a um sintoma psíquico da atual sociedade de consumo: a chamada “Cultura do Narcisismo”, tese do norte-americano Christopher Lasch – haveria uma linha de continuidade entre o pastiche religioso-mítico-ocultista da cerimônia do túnel suíço e o pastiche de produtos como “Harry Potter”, “Senhor dos Anéis” etc.

Mais uma vez o nosso leitor Wilton Cardoso oferece ao Cinegnose uma interessante contribuição ao propor uma terceira interpretação para a bizarra cerimônia de inauguração do maior túnel ferroviário do mundo, através da base dos Alpes, ligando Suíça à Alemanha: o Gothard Base Tunnel.

Na postagem anterior descrevemos a estranha cerimônia transmitida ao vivo para todo o continente (show teatral multimídia inspirado em uma antiga lenda da cultura alpina suíça que envolve o demônio) e as reações entre críticos e espectadores nas redes sociais - “satanismo”, “ritual illuminati” foram as interpretações conspiracionistas mais lembradas — ver artigo anterior por meio do link abaixo:


Tentando escapar deste conspiracionismo simplista o Cinegnose propôs duas interpretações: evento sincromístico e sintoma de uma espécie de ecumenismo pós-moderno que vem sendo construído midiaticamente desde o início da globalização político-econômica nos anos 1990.

Nosso leitor baseou sua interpretação nas teses de um velho conhecido deste blog: o historiador e crítico social norte-americano Christopher Lasch. Principalmente as teses sobre a cultura do narcisismo, o mínimo eu e o “minimalismo”, sintomas culturais de um mal estar bem diferente da época de Freud. Se na era vitoriana tínhamos a neurose, hoje com o consumismo do capitalismo tardio temos o narcisismo e o chamado “mínimo eu”.

Wilton Cardoso faz uma interessante conexão entre as teses de Lasch, consumismo e o “ecumenismo pós-moderno”. Leia abaixo:

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Creio que a peça expressa um dos aspectos do consumismo do indivíduo contemporâneo. Consumismo que, por sua vez é parte da personalidade narcisista deste indivíduo.

Em Cultura do Narcisismo, Christopher Lasch (Editora Imago, 1983) mostra que a "patologia" dominante do homem contemporâneo não é mais a neurose, como na época de Freud, mas sim o narcisismo. A neurose resulta da repressão da libido nas sociedades puritanas. O narcisismo, por outro lado, se exprime com desejo por aplauso (fama) e culto ao prazer como alívio imediato às frustrações da sociedade capitalista.

Um dos prazeres mais cultuados pelo narcisista é o consumo, que proporciona a ilusão de poder e status aos que podem ter/comprar. Não é preciso dizer que o narcisista-consumista é o indivíduo ideal na sociedade da mercadoria, afinal, sua compulsão pelo consumo faz o capital cumprir sua única função: se mover e multiplicar. O narcisista vive para o capital, embora pense que se sirva dele para engrandecer seu ego.

Christopher Lasch e as edições brasileiras de "Cultura do Narcisismo" e "O Mínimo Eu"

Um aspecto pouco observado da cultura do consumismo é o consumo simbólico (o ecumenismo pós-moderno), que avança avidamente sobre todas as tradições dos povos anteriores ao capitalismo. O consumo simbólico retira mitos, lendas, costumes, modas, comidas, crenças e valores de seus significados originais, fundamentais para a reprodução social de suas culturas, e os transforma em mercadorias etéreas, cuja função, como qualquer mercadoria, é movimentar e expandir o capital.

Realizamos diariamente um verdadeiro turismo espiritual por tradições mortas-revividas (será por isto que o homem contemporâneo tem a sensação de ser um morto-vivo, zumbi?). Um exemplo disso são a enormidade de filmes hollywoodianos sobre mitos, lendas, (super) heróis e magia.

Mas, no final das contas, o consumo simbólico vem de encontro a necessidades reais do homem contemporâneo, pois a psique necessita de conferir sentido simbólico à vida. E o capitalismo é incapaz de fornecer este sentido, de produzir, a partir de seu próprio solo, conteúdos que deem sentido à vida humana. O capital é uma abstração, real, mas vazia, cujo único sentido é se transformar em mais capital e cujas leis ignoram totalmente as necessidades materiais e simbólicas da vida humana.

Então, resta apelar às criações simbólicas de outras culturas, cujos sentidos são deturpados, ao serem retiradas de seu contexto inicial e convertidas em mercadorias. Estas versões distorcidas dos mitos apenas aliviam momentaneamente as frustrações do indivíduo narcisista, pois são mercadorias e, como tais, não servem à vida humana, mas apenas à reprodução do capital. O efeito, para além do alívio imediato, é aumentar as frustrações e o sem sentido da vida na sociedade capitalista.

O fato de todos estes mitos convertidos em mercadorias parecerem extremamente infantis e imaturos (pensemos no fenômeno cosplay, no Harry Potter, Senhor dos Anéis, parques temáticos, múmias, vampiros etc.) está ligada à patologia do narcisismo, que fixa o homem na primeira infância, cuja frágil psique está presa ao desejo de satisfação imediata dos prazeres e à necessidade da aprovação incondicional (do aplauso) dos pais.

O narcisista, o homem do capitalismo tardio, é o indivíduo inseguro e fragmentado que quer compensar sua fragilidade com prazer e aplauso, a todo custo.

O artigo original poderá ser visto por meio do seguinte link:


NOSSO COMENTÁRIO

O narcisismo como citado acima é o elemento chave para entendermos o cruel processo por meio do qual as coisas são personificadas e as pessoas são coisificadas.

Que Deus tenha misericórdia de todos.

Alexandros Meimaridis

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quarta-feira, 15 de junho de 2016

A CULTURA DO ESTUPRO


Diante de mais uma afirmação despropositada afirmação de sua excelência o deputado Federal e dublê de pastor Marco Feliciano de que não existe cultura do estupro no Brasil, achamos por bem publicar o artigo abaixo de autoria do professor Wilson Roberto Vieira Ferreira.

Cultura do Estupro revela "machismo 2.0"
Wilson Roberto Vieira Ferreira

A grande mídia escandaliza-se com o estupro coletivo de uma menina no Rio de Janeiro e clama por um país menos machista e sexista. Mas por anos deu espaço para frotas e gentilis, enquanto sua programação sempre foi patrocinada por anúncios onde a mulher-objeto-fetiche é a isca principal para produtos e serviços. A chamada cultura do estupro deve ser contextualizada no surgimento do “machismo 2.0”: uma nova forma de sexismo cujas bases estão lá na velha ordem patriarcal, mas que agora é repaginado e turbinado pelo complexo sociedade de consumo/indústria publicitária/grande mídia, capazes de criar uma nova cadeia de produção imaginária: voyeurismo-exibicionismo-sadismo. Imaginária, mas com sérias repercussões no mundo real.

O que mais chama a atenção no debate atual sobre a chamada “cultura do estupro”, principalmente com o impacto das notícias sobre o episódio do estupro coletivo ocorrido em uma comunidade no Rio de Janeiro, é que em todas as falas aponta-se unicamente para uma cultura “machista e sexista” arcaica e retrógrada que seria a responsável pelas 50 mil notificações anuais de crimes sexuais no País.

Mas são poucos aqueles que lembram de fatores mais contemporâneos: a sociedade de consumo e a cultura midiática. Aproxima-se a cultura do estupro de uma “cultura da superioridade” resultante de uma educação onde para os meninos é mostrada a sua suposta superioridade natural em relação às meninas. Porém, essa cultura machista é restrita à crítica a uma ordem patriarcal e masculina. Uma reação da cultura machista ao crescente protagonismo feminino na sociedade.

Como sempre, a grande mídia põe à mostra sua natureza esquizofrênica ao repercutir o episódio:

(a) Escandaliza-se, mas por outro lado nos últimos anos deu espaço midiático a frotas, gentilis, felicianos, a chamada bancada da Bala, da Bíblia e do Boi no Congresso e toda sorte de personagens mais retrógrados, retirados do fundo da caixa de Pandora para afrontar, desestabilizar e finalmente derrubar o governo Dilma;

(b) Tem sua grade de programação diária patrocinada por filmes publicitários que promovem produtos e serviços onde a mulher é exposta como isca, objeto sexual ou colocada em plots onde é apresentada como naturalmente submissa ao poder físico ou financeiro masculino. O telejornal mostra âncoras e entrevistados indignados para pouco tempo depois mostrar o anúncio do “vai verão, vem verão” de uma conhecida marca de cerveja com uma mulher segurando uma bandeja em trajes sumários.


Produção imaginária

Acredito que é a partir dessa natureza esquizoide da grande mídia que a questão da cultura do estupro deve ser discutida. Mais precisamente, a partir da ordem sociedade de consumo/indústria publicitária/grande mídia. Uma ordem mais poderosa e que se sobrepôs à ordem patriarcal, a origem de todo o machismo, por assim dizer, tradicional que estaria por trás do revoltante episódio do estupro coletivo.

Esse machismo da velha ordem patriarcal deu lugar a um, digamos, machismo 2.0, dessa vez repaginado e turbinado pela sociedade de consumo e indústria publicitária para ser veiculado pela grande mídia.

Estupro não é uma questão de prazer ou tesão, mas de poder: poder de dominar o corpo do outro (sadismo), para mostrá-lo como uma conquista em vídeos ou fotos em redes sociais (exibicionismo) para o prazer anônimo de onanistas (voyeurismo).

Essa cadeia de produção imaginária é análoga a da promoção do consumo, mudando apenas a ordem dos elementos da cadeia: pessoas que veem imagens distantes do objeto do desejo nos anúncios (voyeurismo) sonhando possuí-los e ostentá-los (exibicionismo) como moeda social para se impor sobre o outro (sadismo).

 

Freud explica?

Esse machismo 2.0 se fundamenta nas mesmas origens da ordem patriarcal, em torno da chamada matriz fálica descrita pela psicanálise freudiana – o primeiro simbolismo introjetado pela criança, o simbolismo universal de poder sobre o qual o papel sexual masculino será estruturado. O Falo como a “premissa universal do pênis”, a louca crença infantil que não existe diferença entre os sexos, todos têm um pênis. Existe apenas um órgão genital, e tal órgão é masculino.

Essa fantasia de origem narcísica primária é diluída com a descoberta do outro: algumas crianças não têm pênis o que para o homem corresponderá à fantasia da “perda do pênis” ou aquilo que Freud descreveu como “complexo de castração”, o ponto frágil da afirmação sexual masculina.

Esta imagem da perda permanecerá para sempre associada ao psiquismo masculino de forma traumática e o medo da castração continuará perseguindo a realização sexual como um fantasma. No adulto, o medo da castração não se manifestará dessa forma tão literal: a castração se manifestará no medo da impotência (seja sexual, financeira ou social). Por isso, o homem estará condenado a ter que provar continuamente que jamais será castrado, será empurrado para situações onde terá de, continuamente, provar a masculinidade e a potência fálica: no desempenho sexual atlético, nos ganhos financeiros, na habilidade em manipular símbolos de status e prestígio, etc.

Esta ansiedade vai marcar negativamente a qualidade das relações com o sexo oposto. A forma de o homem perceber a mulher será prejudicada ao ver nela nada mais do que um campo de provas da potência fálica. A ansiedade da comprovação fálica empurrará o psiquismo masculino a procurar não a mulher, mas mulheres, num sentido genérico e abstrato. O investimento afetivo tomase difícil e transitório.

A simples presença da mulher tornase uma ameaça à segurança fálica masculina. Ela significa, per si, a cobrança de uma tomada de posição ou a castração em potencial: a possibilidade do fracasso. Por isso ela deve ser dominada, neutralizada. O corpo feminino deve ser reduzido a fragmentos, a objetos, para ser melhor dominado. É o surgimento do fetichismo sexual. O corpo real feminino é neutralizado pelo fascínio por fragmentos: pés, olhos, cabelos, ou acessórios associados a alguma destas partes como sapatos, luvas, etc.


Machismo 2.0 e a cultura do estupro

O que era fragilidade e ansiedade originada no medo da castração, com o complexo sociedade de consumo/publicidade/mídia tudo isso é amplificado com o pânico da castração.

A presença constante da mulher como objeto promotor de mercadorias de luxo ou de marcas corresponde ao desafio da potência masculina: “quer uma mulher como essa? Pois então compre um carro como esse. Prove que jamais será castrado!”. Para Freud a ansiedade da castração jamais é resolvida no psiquismo masculino, tornando-se uma inesgotável ferramenta de promoção de consumo de bens com alto valor agregado.

A cada anúncio de cerveja com mulheres que servem aos homens com uma bandeja, a cada filme com uma mulher fascinada olhando para um carro dirigido por um homem vitorioso e a cada feira ou exposição com atraentes modelos se oferecendo como isca ou miragem, a mulher torna-se na atualidade num suporte/meio/condutor da promessa de realização da potencia fálica.

Se na antiga ordem patriarcal, a mulher sempre foi uma ameaça que tinha de ser neutralizada como um objeto (seja como dona de casa sem direitos, seja como prostituta reduzida à condição de objeto-fetiche), hoje com a ordem globalizada de consumo a mulher foi promovida a uma moeda genérica de troca.

Neutralizar a ameaça feminina

Essa generalização da mulher na publicidade como estratégia para explorar o pânico da castração é visível com a regressão das fantasias fálicas às fantasias orais. Se no imaginário masculino isso esteve sempre latente (em expressões “comer a mulher”, “mulher gostosa” etc.) hoje é ampliado ao associar essa experiência ao próprio produto: a cerveja é a mulher que você bebe, o sundae com fritas do Mac Donald’s é a experiência da primeira namorada, a compra impulsiva com o cartão de crédito que a modelo tem próximo à boca etc.

O medo da castração cresce exponencialmente com a promoção da mulher a isca generalizada de produtos e serviços. A mulher submetida a uma nova cadeia de produção imaginária na seguinte sequência: voyeurismo-exibicionismo-sadismo.

As formas de perversão sexual e de objetos-fetiche sempre foram estratégias do psiquismo para neutralizar a ameaça que a mulher representa à segurança fálica masculina. Mas hoje, quando a mulher tornou-se onipresente através de voz, corpos e olhares, a cobrança à fragilidade do medo da castração tornou-se muito maior.

A crescente violência masculina é a revanche contra a ameaça da impotência que a sociedade de consumo o ameaça ao tornar todo produto ou serviço numa promessa fálica nunca realizada. Impotentes e castrados, homens veem mulheres e produtos inalcançáveis, restritos apenas a uma elite de vencedores.


O medo da castração global transforma-se em revanche masculina local: o estupro, o assédio, a violência - encoxar uma mulher no metro lotado, espancar a namorada por ciúmes, o estupro oportunista de uma mulher alcoolizada, a separação hipócrita das mulheres em tipo “para casar” e daquelas que são “para comer” e assim por diante.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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