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quarta-feira, 15 de junho de 2016

A CULTURA DO ESTUPRO


Diante de mais uma afirmação despropositada afirmação de sua excelência o deputado Federal e dublê de pastor Marco Feliciano de que não existe cultura do estupro no Brasil, achamos por bem publicar o artigo abaixo de autoria do professor Wilson Roberto Vieira Ferreira.

Cultura do Estupro revela "machismo 2.0"
Wilson Roberto Vieira Ferreira

A grande mídia escandaliza-se com o estupro coletivo de uma menina no Rio de Janeiro e clama por um país menos machista e sexista. Mas por anos deu espaço para frotas e gentilis, enquanto sua programação sempre foi patrocinada por anúncios onde a mulher-objeto-fetiche é a isca principal para produtos e serviços. A chamada cultura do estupro deve ser contextualizada no surgimento do “machismo 2.0”: uma nova forma de sexismo cujas bases estão lá na velha ordem patriarcal, mas que agora é repaginado e turbinado pelo complexo sociedade de consumo/indústria publicitária/grande mídia, capazes de criar uma nova cadeia de produção imaginária: voyeurismo-exibicionismo-sadismo. Imaginária, mas com sérias repercussões no mundo real.

O que mais chama a atenção no debate atual sobre a chamada “cultura do estupro”, principalmente com o impacto das notícias sobre o episódio do estupro coletivo ocorrido em uma comunidade no Rio de Janeiro, é que em todas as falas aponta-se unicamente para uma cultura “machista e sexista” arcaica e retrógrada que seria a responsável pelas 50 mil notificações anuais de crimes sexuais no País.

Mas são poucos aqueles que lembram de fatores mais contemporâneos: a sociedade de consumo e a cultura midiática. Aproxima-se a cultura do estupro de uma “cultura da superioridade” resultante de uma educação onde para os meninos é mostrada a sua suposta superioridade natural em relação às meninas. Porém, essa cultura machista é restrita à crítica a uma ordem patriarcal e masculina. Uma reação da cultura machista ao crescente protagonismo feminino na sociedade.

Como sempre, a grande mídia põe à mostra sua natureza esquizofrênica ao repercutir o episódio:

(a) Escandaliza-se, mas por outro lado nos últimos anos deu espaço midiático a frotas, gentilis, felicianos, a chamada bancada da Bala, da Bíblia e do Boi no Congresso e toda sorte de personagens mais retrógrados, retirados do fundo da caixa de Pandora para afrontar, desestabilizar e finalmente derrubar o governo Dilma;

(b) Tem sua grade de programação diária patrocinada por filmes publicitários que promovem produtos e serviços onde a mulher é exposta como isca, objeto sexual ou colocada em plots onde é apresentada como naturalmente submissa ao poder físico ou financeiro masculino. O telejornal mostra âncoras e entrevistados indignados para pouco tempo depois mostrar o anúncio do “vai verão, vem verão” de uma conhecida marca de cerveja com uma mulher segurando uma bandeja em trajes sumários.


Produção imaginária

Acredito que é a partir dessa natureza esquizoide da grande mídia que a questão da cultura do estupro deve ser discutida. Mais precisamente, a partir da ordem sociedade de consumo/indústria publicitária/grande mídia. Uma ordem mais poderosa e que se sobrepôs à ordem patriarcal, a origem de todo o machismo, por assim dizer, tradicional que estaria por trás do revoltante episódio do estupro coletivo.

Esse machismo da velha ordem patriarcal deu lugar a um, digamos, machismo 2.0, dessa vez repaginado e turbinado pela sociedade de consumo e indústria publicitária para ser veiculado pela grande mídia.

Estupro não é uma questão de prazer ou tesão, mas de poder: poder de dominar o corpo do outro (sadismo), para mostrá-lo como uma conquista em vídeos ou fotos em redes sociais (exibicionismo) para o prazer anônimo de onanistas (voyeurismo).

Essa cadeia de produção imaginária é análoga a da promoção do consumo, mudando apenas a ordem dos elementos da cadeia: pessoas que veem imagens distantes do objeto do desejo nos anúncios (voyeurismo) sonhando possuí-los e ostentá-los (exibicionismo) como moeda social para se impor sobre o outro (sadismo).

 

Freud explica?

Esse machismo 2.0 se fundamenta nas mesmas origens da ordem patriarcal, em torno da chamada matriz fálica descrita pela psicanálise freudiana – o primeiro simbolismo introjetado pela criança, o simbolismo universal de poder sobre o qual o papel sexual masculino será estruturado. O Falo como a “premissa universal do pênis”, a louca crença infantil que não existe diferença entre os sexos, todos têm um pênis. Existe apenas um órgão genital, e tal órgão é masculino.

Essa fantasia de origem narcísica primária é diluída com a descoberta do outro: algumas crianças não têm pênis o que para o homem corresponderá à fantasia da “perda do pênis” ou aquilo que Freud descreveu como “complexo de castração”, o ponto frágil da afirmação sexual masculina.

Esta imagem da perda permanecerá para sempre associada ao psiquismo masculino de forma traumática e o medo da castração continuará perseguindo a realização sexual como um fantasma. No adulto, o medo da castração não se manifestará dessa forma tão literal: a castração se manifestará no medo da impotência (seja sexual, financeira ou social). Por isso, o homem estará condenado a ter que provar continuamente que jamais será castrado, será empurrado para situações onde terá de, continuamente, provar a masculinidade e a potência fálica: no desempenho sexual atlético, nos ganhos financeiros, na habilidade em manipular símbolos de status e prestígio, etc.

Esta ansiedade vai marcar negativamente a qualidade das relações com o sexo oposto. A forma de o homem perceber a mulher será prejudicada ao ver nela nada mais do que um campo de provas da potência fálica. A ansiedade da comprovação fálica empurrará o psiquismo masculino a procurar não a mulher, mas mulheres, num sentido genérico e abstrato. O investimento afetivo tomase difícil e transitório.

A simples presença da mulher tornase uma ameaça à segurança fálica masculina. Ela significa, per si, a cobrança de uma tomada de posição ou a castração em potencial: a possibilidade do fracasso. Por isso ela deve ser dominada, neutralizada. O corpo feminino deve ser reduzido a fragmentos, a objetos, para ser melhor dominado. É o surgimento do fetichismo sexual. O corpo real feminino é neutralizado pelo fascínio por fragmentos: pés, olhos, cabelos, ou acessórios associados a alguma destas partes como sapatos, luvas, etc.


Machismo 2.0 e a cultura do estupro

O que era fragilidade e ansiedade originada no medo da castração, com o complexo sociedade de consumo/publicidade/mídia tudo isso é amplificado com o pânico da castração.

A presença constante da mulher como objeto promotor de mercadorias de luxo ou de marcas corresponde ao desafio da potência masculina: “quer uma mulher como essa? Pois então compre um carro como esse. Prove que jamais será castrado!”. Para Freud a ansiedade da castração jamais é resolvida no psiquismo masculino, tornando-se uma inesgotável ferramenta de promoção de consumo de bens com alto valor agregado.

A cada anúncio de cerveja com mulheres que servem aos homens com uma bandeja, a cada filme com uma mulher fascinada olhando para um carro dirigido por um homem vitorioso e a cada feira ou exposição com atraentes modelos se oferecendo como isca ou miragem, a mulher torna-se na atualidade num suporte/meio/condutor da promessa de realização da potencia fálica.

Se na antiga ordem patriarcal, a mulher sempre foi uma ameaça que tinha de ser neutralizada como um objeto (seja como dona de casa sem direitos, seja como prostituta reduzida à condição de objeto-fetiche), hoje com a ordem globalizada de consumo a mulher foi promovida a uma moeda genérica de troca.

Neutralizar a ameaça feminina

Essa generalização da mulher na publicidade como estratégia para explorar o pânico da castração é visível com a regressão das fantasias fálicas às fantasias orais. Se no imaginário masculino isso esteve sempre latente (em expressões “comer a mulher”, “mulher gostosa” etc.) hoje é ampliado ao associar essa experiência ao próprio produto: a cerveja é a mulher que você bebe, o sundae com fritas do Mac Donald’s é a experiência da primeira namorada, a compra impulsiva com o cartão de crédito que a modelo tem próximo à boca etc.

O medo da castração cresce exponencialmente com a promoção da mulher a isca generalizada de produtos e serviços. A mulher submetida a uma nova cadeia de produção imaginária na seguinte sequência: voyeurismo-exibicionismo-sadismo.

As formas de perversão sexual e de objetos-fetiche sempre foram estratégias do psiquismo para neutralizar a ameaça que a mulher representa à segurança fálica masculina. Mas hoje, quando a mulher tornou-se onipresente através de voz, corpos e olhares, a cobrança à fragilidade do medo da castração tornou-se muito maior.

A crescente violência masculina é a revanche contra a ameaça da impotência que a sociedade de consumo o ameaça ao tornar todo produto ou serviço numa promessa fálica nunca realizada. Impotentes e castrados, homens veem mulheres e produtos inalcançáveis, restritos apenas a uma elite de vencedores.


O medo da castração global transforma-se em revanche masculina local: o estupro, o assédio, a violência - encoxar uma mulher no metro lotado, espancar a namorada por ciúmes, o estupro oportunista de uma mulher alcoolizada, a separação hipócrita das mulheres em tipo “para casar” e daquelas que são “para comer” e assim por diante.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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terça-feira, 15 de março de 2016

XUXA E O RACISMO DOS RICOS CONTRA OS POBRES

Xuxa
Xuxa: 'Daivison, João e Pedro...meus novos amiguinhos ralando para conseguir um dindin', escreveu Xuxa no Facebook
  
O artigo abaixo foi publicado no site da revista Carta Capital e é de autoria de Djamila Ribeiro

Xuxa e a fetichização da pobreza

Ao dizer que os três meninos negros no sinal estavam “ralando para conseguir um dindin”, Xuxa não percebe a violência e o racismo da situação.

por Djamila Ribeiro —

No dia 5 de março, sábado último, a apresentadora Xuxa postou em sua página do Facebook uma foto de, no mínimo, mau gosto. Na foto, a “rainha dos baixinhos” está dentro de seu carro importado e, do lado de fora, estão três meninos negros, segurando bolas que sugerem o trabalho em algum semáforo, com a seguinte legenda: “Daivison, João e Pedro...meus novos amiguinhos ralando para conseguir um dindin”. De imediato, a foto viralizou (eram mais de 5 mil compartilhamentos até a manhã da segunda) e várias críticas surgiram.

São tantos os erros nessa atitude que fica difícil nomear. Primeiro, trabalho infantil é crime e não deve ser naturalizado. Ao dizer que os meninos estavam “ralando para conseguir um dindin”, Xuxa não percebe a violência no fato de crianças estarem submetidas a este tipo de atividade.

Elas lá estão porque a sociedade é desigual e racista – não à toa os três meninos são negros. É sabido que o Ministério Público incentiva que se denuncie trabalho infantil, em vez de utilizá-lo como forma de se promover em redes sociais.

Não há nada de lindo naquela imagem: é o retrato de uma sociedade racista que nega oportunidades à população negra enquanto privilegia o grupo branco. Essa é a típica mentalidade do branco médio no Brasil. Finge se importar com os problemas sociais de dentro de sua SUV.

Em dezembro, houve uma situação semelhante: um homem fotografou um menino negro que trabalhava no sinal sorrindo para a filha dele, um bebê. Dentro do carro com ar-condicionado. Na legenda, dizia: “A sociedade os separa, mas o sorriso os une”.

É muita fetichização da pobreza.

Quem é essa sociedade que os separa? Por acaso, trata-se de uma entidade? Por que a criança branca está no conforto do carro e a negra trabalhando? Por que uma tem todas as oportunidades e a outra não?

Essas são as questões que precisam ser feitas e não a propaganda de si mesmo como cidadãos de bem, sem se responsabilizar por essa sociedade ser como é.

A branquitude precisa parar de nos tratar como fetiche e assumir a responsabilidade de mudar essa realidade.

Xuxa deveria ter vergonha de expor esses meninos, porque aí eu pergunto: eles são menores de idade, ela por acaso teve a autorização dos pais ou responsáveis para expô-los? Essas crianças têm direitos, não podem servir de zoológico humano para gente privilegiada. Se alguém tirasse uma foto de Sasha sem autorização, Xuxa gostaria?

Tirar fotos com esses meninos não contribui em nada para mudar a situação deles, eles seguirão à margem enquanto Xuxa se promove através da miséria.

Passou da hora das pessoas brancas realmente se posicionarem contra o racismo no Brasil. Estudarem sobre a história desse País, sobre os 354 anos de escravidão, os estupros cometidos pelos senhores romantizados sob a égide da miscigenação, os efeitos da herança escravocrata. Não podem mais se comportar como neo sinhás e senhores que ainda nos querem no lugar determinado para nós.

Não bastasse as quatro gerações de paquitas loiras que causaram danos profundo à autoestima de meninas negras, Xuxa agora quer passar-se por não racista exibindo exploração infantil. Lugar de criança é na escola, brincando e tendo direito à dignidade.

Xuxa não mostrou preocupação alguma com a situação desses meninos, os chamou de amiguinhos, expôs e seguiu para sua vida confortável. Esta é a harmonia das raças que esse país quer, negros do lado de fora do ar condicionado. A verdadeira consciência social é aquela que quer para os outros a mesma dignidade que tem o seu filho. Passou da hora da branquitude ter limites.


Que Deus ajude o povo brasileiro a ponderar na gravidade dessas palavras.

Alexandros Meimaridis

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