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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Gênesis — Estudo 051 — A TORRE DE BABEL — PARTE 003 — A TORRE DE BABEL E A HISTÓRIA


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Este estudo é parte de uma Análise do Livro do Gênesis. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da História Primeva da Humanidade. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo. 

O Livro do Gênesis

O Princípio de Todas as Coisas

בְּרֵאשִׁית בָּרָא אֱלֹהִים אֵת הַשָּׁמַיִם וְאֵת הָאָרֶץ        
            Eretz   ha  ve-et  Hashamaim     et      Elohim        Bará        Bereshit
            Terra  a      e        céus       os        Deus         criou   princípio No
                                                                                     Gênesis 1:1

CONTINUAÇÃO

XII — Gênesis 11 — “Deram com uma Planície na Terra de Sinear”.

E. Arqueologia: O Que Sabemos Acerca da Chamada Torre de Babel — CONTINUAÇÃO.

8. O Primeiro Estágio da Torre.

Bem no centro desse complexo de edifícios encontrava-se a grande torre, composta de estágios ou plataformas elevadas e que era chamada pelos babilônios de “Torre de Babel” ou “Ziqqurat Bâbîli”. À medida que a torre se elevava a dimensão dos estágios diminuía. Aparentemente os estágios eram quadrados em seu formato, apesar da base da torre ser retangular. O primeiro estágio media 100 metros de comprimento por 100 metros de largura e tinha a altura de 36 metros. Este estágio estava decorado de acordo com as técnicas características da arquitetura Assírio-Babilônica.
 
9. Os Estágios Seguintes.

O segundo estágio media 86 metros de comprimento por 86 metros de largura e tinha uma altura de cerca de 20 metros. Do terceiro estágio até o quinto foi mantida uma mesma altura fixada em 7 metros aproximadamente. As plataformas por sua vez tinham as seguintes medidas:

O Terceiro estágio media 67 metros de comprimento por 67 metros de largura.

O Quarto estágio media 57 metros de comprimento por 57 metros de largura.

O Quinto estágio media 47 metros de comprimento por 47 metros de largura.

O Sexto estágio está omitido, mas assume-se que tivesse aproximadamente 37 de comprimento por 37 metros de largura.

10. A Capela no Topo da Torre.

NesSa plataforma encontrava-se aquilo que foi chamado de sétimo estágio por Smith e que consistia do “templo superior ou o santuário de deus Bel-Merodaque”.  O templo media cerca de 27 metros de comprimento, por 20 metros de largura e 17 metros de altura. Smith não menciona nenhuma estátua, mas é de se supor que a mesma existisse entronizada na parte mais alta do templo. Somando-se todas as alturas mencionadas nós podemos concluir que a altura total da torre era de 100 metros, o que corresponde à mesma medida do comprimento da sua base.

Por essa descrição que acabamos de fazer é impossível dizer se a torre era uma construção bela aos olhos. Mas certamente podemos deduzir que havia certos simbolismos em suas medidas.

11. A Descrição Feita por Heródoto.

A descrição de Heródoto concorda com a descrição feita pelos babilônios. Segundo o historiador grego a estrutura externa do templo media 403 metros de cada lado e no centro desta estrutura estava uma torre quadrada que media 102 metros de cada lado. Para Heródoto a torre era composta de oito estágios, mas isto se deve ao fato de que ele considerava a base e o templo no topo como dois estágios distintos dos outros seis. De acordo com essa descrição o topo era alcançado mediante o galgar de escadas que circundavam a torre. A linguagem não nos permite afirmar categoricamente que existia uma escadaria em forma de espiral, mas esta possibilidade existe. No meio do caminho o peregrino encontrava um conjunto de assentos onde podia descansar e recobrar o fôlego.

No topo da última plataforma havia uma construção onde se encontravam um grande divã bem revestido — de acordo com George Smith esse divã media 5 metros de comprimento por 2 metros de largura — e uma mesa de ouro. Não havia nenhuma imagem e nem era permitido nenhum ser humano passar a noite ali. A única exceção era feita para uma mulher local escolhida pelo próprio deus. De acordo com os sacerdotes locais esta divindade costumava visitar o local pessoalmente com certa frequência quando aproveitava e descansava no divã. Heródoto deixa claro que não acreditava nestas tolices. Ele menciona duas outras situações similares a essa. A primeira refere-se à cidade de Tebas no Egito e a outra à cidade de Pátara.

12. Os Construtores da Torre.     

Nós já tivemos a oportunidade de mencionar que a Bíblia não nos informa exatamente quem eram as pessoas que compunham o grupo que chegou à planície de Sinear e que decidiu construir a torre e sua cidade. Como os registros mais antigos que dispomos acerca desta torre foram produzidos por indivíduos que falavam o idioma sumério-acadiano, podemos apenas supor que os construtores tenham sido os ancestrais destes povos. Por outro lado, fica bem evidente que eles não acreditavam no que seus ancestrais lhes ensinaram acerca da fidelidade e cuidados do Deus único e verdadeiro —

Deuteronômio 7:9

Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e cumprem os seus mandamentos.

13. As Tradições Referentes à Destruição da Torre de Babel.

O texto bíblico do livro do Gênesis não apresenta nenhuma informação específica acerca do exato motivo porque a construção tanto da cidade quanto da torre foram paralisadas. Existe, entretanto, uma antiga tradição judaica que diz que a torre foi rachada no meio, do seu topo até seus alicerces, por um fogo enviado dos céus. Esta opinião existe porque refere-se ao atual estado da torre de “Birs-Nimroud” localizada em Borsippa e apontada por alguns como a verdadeira “Torre de Babel”, mas como já vimos esta torre não se encontra no sítio arqueológico da Babilônia da Antiguidade. Outra tradição fala acerca de um vento impetuoso que teria derrubado a torre sobre aqueles que labutavam para edificá-la.

14. O Significado de “Babel”.    

Existem dois significados bastante distintos para o termo Babel. Um diz respeito ao significado hebraico que encontramos na Bíblia e outro é o significado to termo no idioma original. Assim temos:
1. Em hebraico o termo בָּבֶל — Babel — tem sua etimologia derivada da expressão “balal” que quer dizer “confundir ou misturar”, daí o significado encontrado em Gênesis 11:9 onde lemos: “Chamou-se-lhe, por isso, o nome de Babel, porque ali confundiu o SENHOR a linguagem de toda a terra...”

2. O significado na língua sumério-akadiana é, todavia, bastante diferente. A expressão original naquele idioma era “bâb-îli” que significa “portão de deus ou portão dos deuses”. Descobertas arqueológicas recentes indicam que, eventualmente, o nome original da torre, antes da ação de Deus que causou a paralisação das obras e a dispersão dos construtores, teria sido “Babalam” que significava “lugar de ajuntamento”.

15. A Destruição Definitiva da Torre e da Cidade de Babilônia.

De acordo com a narrativa bíblica é apenas natural que a construção da torre e da cidade tivessem cessado quando a confusão de línguas se estabeleceu. Com a partida dos construtores a paralisação da construção tornou-se irreversível. Todavia, de acordo com alguns historiadores, o grupo que permaneceu naquele lugar, reiniciou as obras tão logo a população voltou a crescer. Esse esforço acabou por transformar a cidade da Babilônia na cidade mais importante de todos os tempos. Babilônia se tornou uma cidade arquétipo — modelo ou padrão — de tudo o que as cidades sempre representaram em termos da rebeldia humana contra Deus, bem como em termos da arrogância humana em querer povoar a terra em seus próprios termos em vez de fazê-lo nos termos de Deus. Mesmo no último livro da Bíblia encontramos reflexos desta cidade arquétipo e somos informados da sua queda final e definitiva — ver Apocalipse 18.
A História registra que Felipe da Macedônia, bem como seu filho Alexandros, o grande, se dedicaram a limpar todo o entulho encontrado no local da antiga cidade da Babilônia e se empenharam em reconstruir o grande templo de Bel-Merodaque que era parte do enorme complexo onde se encontrava também a “Torre de Babel”. A morte prematura de Alexandros e a incapacidade mental de Felipe de administrar um império de tamanha magnitude acabaram por paralisar as obras iniciadas na cidade de Babilônia.
De acordo com o Rabi Yehanan, citado pelo Talmude Babilônico[1], a “Torre de Babel” ficou sem ser reparada desde o evento narrado na Bíblia em Gênesis 11. Em suas palavras “a torre era muito alta. Seu terço mais alto foi destruído e precipitado para o solo, outro terço foi completamente queimado e o último terço ainda estava em pé quando da destruição da cidade de Babilônia por Ciro[2].
Outros artigos acerca dO LIVRO DE GÊNESIS
001 — Introdução e Esboço
002 — Introdução ao Gênesis — Parte 2 — Teorias Acerca da Criação
003 — Introdução ao Gênesis — Parte 3 — A História Primeva e Sua Natureza
004 — Introdução ao Gênesis — Parte 4 — A Preparação para a Vida Na Terra
005 — Introdução ao Gênesis — Parte 5 — A Criação da Vida
006 — Introdução ao Gênesis — Parte 6 — O DEUS CRIADOR
007 — Introdução ao Gênesis — Parte 7 — OS NOMES DO DEUS CRIADOR, OS CÉUS E A TERRA
008 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 1 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 1
009 – Gênesis — A Criação de Deus - Parte 8A – A Criação de Deus Dia a Dia – O Primeiro Dia — Parte 2
010 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus - Parte 9 – A Criação de Deus Dia a Dia – O Segundo e o Terceiro Dia
011 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 10 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quarto Dia
012 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 11 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Quinto Dia
013 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12 — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 1
013A — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 12A — A Criação de Deus Dia a Dia — O Sexto Dia — Parte 2
014 — Estudo de Gênesis — A Criação de Deus — Parte 13 — Teorias Evolutivas
015 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 14 — GÊNESIS 2A
016 — Estudo de Gênesis — Gênesis 2 — Parte 15 — GÊNESIS 2B
017 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 16 — GÊNESIS 3A
018 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 17 — GÊNESIS 3B
019 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — Parte 18 — GÊNESIS 3C
020 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Livre Arbítrio — Parte 19
021 — Estudo de Gênesis — Gênesis 3 — O Dois Adãos — Parte 20
022 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Era Pré-Patriarcal e a Mulher de Caim — Parte 21
023 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, O Primeiro Construtor de Uma Cidade — Parte 22
024 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Assassino e Fugitivo da Presença de Deus — Parte 23
025 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — Caim, Como Primeiro Construtor de uma Cidade e Pseudo-Salvador da Humanidade — Parte 24
026 — Estudo de Gênesis — Gênesis 4 — A Conclusão Acerca de Caim — Parte 25
027 — Estudo de Gênesis — Gênesis 5 — Sete e outros Patriarcas Antediluvianos — Parte 26
028 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Perversidade Humana, Os Filhos de Deus e as Filhas dos Homens— Parte 27A
029 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — OS Nefilim e os Guiborim — Os Gigantes e os Valentes — Parte 27B
030 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Maldade do Coração Humano— Parte 27C.
031 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — A Corrupção Humana Sobre a Face da Terra e Deus Pode se Arrepender? — Parte 27D.
032 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28A.
033 — Estudo de Gênesis — Gênesis 6 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 28B.
034 — Estudo de Gênesis — Gênesis 7 — Noé e a arca que ele construiu orientado por Deus — Parte 29 — O Dilúvio Foi Global Ou Local?
035 — Estudo de Gênesis — Gênesis 8 — A promessa que Deus Fez a Noé e seus descendentes — Parte 30 — Nunca Mais Destruirei a Terra Pela Água
036 — Estudo de Gênesis —  O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 001
037 — Estudo de Gênesis — O Valor Perene do Dilúvio para todas as Gerações — PARTE 002
038 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 001
039 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 002
040 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 003
041 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 004 — A NATUREZA DA ALIANÇA ENTRE DEUS E NOÉ
042 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 005 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 001

043 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 006 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 002 — OS NEGROS SÃO AMALDIÇOADOS?
044 — Estudo de Gênesis — A Aliança de Deus com Noé — PARTE 007 — OS FILHOS DE NOÉ — PARTE 003 — A CONTRIBUIÇÃO DOS FILHOS DE NOÉ PARA A HUMANIDADE
045 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 001 — OS DESCENDENTES DE JAFÉ
046 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 002 — OS DESCENDENTES DE CAM: NEGROS, AMARELOS E VERMELHOS
047 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 003 — OS DESCENDENTES DE SEM E A ORIGEM DOS HEBREUS
048 — Estudo de Gênesis — A TÁBUA DAS NAÇÕES — PARTE 004 — A TÁBUA DAS NAÇÕES É UM DOCUMENTO ÚNICO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE
049 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 001
050 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 002
051 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 003
052 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 004
053 — Estudo de Gênesis — A TORRE DE BABEL — PARTE 005
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/08/genesis-estudo-053-torre-de-babel-parte.html
054 — Estudo de Gênesis — A GENEALOGIA DOS SEMITAS
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/11/genesis-estudo-054-genealogia-dos.html

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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[1] Talmud — Consiste de vastas anotações e comentários feitos ao Mishná. Os estudiosos que produziram esses materiais são chamados de “amoraim”. Existem duas tradições: 1) A primeira produziu o que ficou conhecido como o Talmude Palestino — Talmud Yerushalami — por volta do ano 400 d. C.; 2) A segunda produziu o massivo Talmude Babilônico — Talmud Bavli — por volta do ano 500 d. C. As tradições são completamente independentes e por ter demorado mais para ser escrito e por ser bem mais extenso, o Talmude Babilônico é mais estimado que o Talmude Palestino.

[2] Ciro – Nascido entre os anos de 590 — 580 a. C na Média ou Pérsis — atual Irã — faleceu no ano de 529 a. C. e ficou conhecido pelo epíteto de “o grande”. Foi um grande conquistador e o fundador do Império Acaemeniano, centrado na Pérsia e que se estendia desde o Mar Egeu até o rio Indu. Suas glórias foram cantadas pelo soldado e poeta grego Xenofontes em sua obra “Ciropaedia”. Nessa obra Ciro é descrito como sendo o monarca ideal. Os persas o consideravam o “pai do seu povo”. Na história bíblica, Ciro aparece como o libertador dos judeus do cativeiro babilônico.      

quinta-feira, 2 de março de 2017

O FIM DO MUNDO E A SEGUNDA VINDA DE JESUS


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O fim do mundo é um tema recorrente nas pregações de todas as religiões. A fé cristã também declara que o mundo, como o conhecemos, terá um fim surpreendente quando do segundo adventos do Senhor Jesus Cristo, o Deus da Glória. O apóstolo Pedro usou as seguintes palavras para se referir a esse evento cataclísmico:

2 Pedro 3:10

Virá, entretanto, como ladrão, o Dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela existem serão atingidas.

Dentro desse contexto, hoje queremos repercutir um artigo da autoria do Prof. Dr. Wilson Roberto Ferreira Costa com o propósito de enriquecer o debate sobre o tema.


Por que o mundo tem que acabar?
Por Wilson Roberto Vieira Ferreira

Diariamente o mundo acaba diante dos nossos olhos, seja no cinema na atual safra de filmes-catástrofe, em séries de TV sobre Nostradamus, previsões “científicas” de algum tipo de futura catástrofe ambiental ou em algum “hoax” descrevendo cometas, asteroides ou planetas errantes que cairão sobre a Terra. A última foi sobre um pedaço do Planeta X que supostamente cairia no último dia 16. Por que o mundo tem que ser destruído? No passado, todas religiões possuíam uma Escatologia: alguma narrativa sobre o fim dos tempos onde os maus seriam punidos e os bons salvos. Mas essas religiões se tornaram “líquidas”: sob os escombros das antigas religiões salvacionistas viraram pastiches que se rendem ao utilitarismo das necessidades do presente: “teologia da prosperidade”, “cabala do dinheiro” ou o islamismo dos homens-bomba. Esqueceram-se do futuro. Por isso, essa nova religião “líquida” e ecumênica precisa criar uma nova Escatologia, uma narrativa midiática sobre o “fim dos tempos” que junte convicções eco-ambientais, geofísica e astrofísica. A “Neoapocalíptica” como estratégia de marketing.

Se o leitor estiver lendo as mal traçadas linhas desse humilde blogueiro é porque, mais uma vez, o mundo não acabou. Segundo um autoproclamado astrônomo russo, Dr. Dyomin Zakharovich, um pedaço do Planeta X (ou “Nibiru”) atingiria a Terra o último dia 16/2. Repercutido pela mídia, com toques conspiratórios sobre um suposto acobertamento dos dados pela NASA, o dia chegou e nada aconteceu.

Mas agora um respeitado astrônomo britânico, Lord Martin Rees, fala em “asteroide do Juízo Final” e alerta para a necessidade da criação de um sistema de defesa global.

Sem falar no Planeta Nibiru (ou “Planeta X”, “Hercólubus”, “Nêmesis” etc.), planeta com a massa de Júpiter, que passaria pelo Sistema Solar perturbando todas ar órbitas planetárias e jogando a Terra numa catástrofe cósmica. Turbinado pela profecia Maia em 2012, previam que o planeta gigante passaria perto de nós naquele ano.

Agora, a sua passagem é prevista para outubro desse ano, como afirma David Mead no livro Planeta X: A Chegada de 2017. Como previsto, com mais acusações conspiratórias de que a NASA sabe de tudo, mas esconde do público para que apenas a elite mundial se salve em bunkers subterrâneos construídos nesse momento.

Previsões apocalípticas não estão apenas na Deep Web ou sites, revistas e tabloides sensacionalistas, aquelas publicações que faziam a alegria do agente Kevin (MIB: Homens de Preto) que acreditava que esses veículos eram a melhor fonte de informações da agência governamental.

São também repercutidas em portais de notícias da grande mídia, como “fatos diversos” ou “matérias frias”.


1999: o ano divisor de águas

E nos canais fechados como History Channel, National Geographic ou Discovery há uma profusão de séries com uma gama de variações sobre o tema: hipótese para a extinção dos dinossauros, o que aconteceria com as cidades vazias se a humanidade desaparecesse, asteroides, efeito estufa, tsunamis, derretimento das calotas polares, aquecimento global, pandemias e... as indefectíveis profecias de Nostradamus, sempre com novas interpretações.

O ano de 1999 foi uma espécie de divisor de águas nas profecias sobre o fim do mundo. Naquele ano a chegada do novo milênio foi marcada pela confluência das profecias de Nostradamus e do “bug do milênio” – a contagem anual em dois dígitos criaria um caos informático nas redes de computadores na virada para o ano 2000, gerando desordem econômica e social semelhante ao final da primeira temporada da série Mr. Robot – ver mais por meio desse link aqui:


Por que um divisor de águas? Se olharmos em perspectiva os diversos apocalipses previstos para a humanidade, antes de 1999 a grande maioria girava em torno de interpretações de textos bíblico como a chegada de Jesus para os adventistas em 1843 ou para os mórmons em 1891.

Ou ainda por pastores televisivos como Pat Robertson nos EUA que previu para 1982 um “julgamento no mundo” pelo próprio Deus.

Em outras palavras, o fim do mundo tinha uma natureza escatológica.

Pat Robertson: o modelo escatológico de apocalipse

O estudo sobre o fim

A Escatologia é uma parte da Teologia e da Filosofia. Significa “último” mais o sufixo “logia”, podendo ser definido como “estudo sobre o fim”. Pretende tratar sobre os últimos eventos da história do mundo ou do destino final do gênero humano.

Conceito criado no século XVII pelo teólogo A. Calov, o conceito “Escatologia” vai expressar os pontos centrais de muitos sistemas religiosos do passado (fim dos séculos, ressurreição, juízo final etc.) e tensões não resolvidas dentro da Filosofia como a tensão entre o destino individual e o coletivo ou o destino do humano e o do universo como um todo.

As religiões monoteístas são salvacionistas, isto é, colocam como condição para a salvação diante do fim dos tempos a vida ortodoxa em conformidade com os ensinamentos do salvador.

Se a Teogonia é o componente das religiões sobre as narrativas da Criação, a Escatologia será narrativa do destino final do gênero humano.

Para o judaísmo teremos o “fim dos dias” e posterior “era messiânica”. Os cristãos esperam o Apocalipse e o Juízo Final fundamentado nas profecias do Apóstolo João. E o Islamismo está à espera do chamado “décimo segundo Imam”. Para essas religiões salvacionistas é necessário um evento apocalíptico, o juízo final, que puna os maus e salve os bons que seguirem os preceitos para a salvação.



As religiões “líquidas”

É precisamente esse componente moral da escatologia que entra em crise com a perda da legitimidade simbólica dessas grandes religiões monoteístas, seja pelo materialismo da sociedade de consumo, seja por escândalos diários repercutidos na mídia: o cristianismo sempre associado aos escândalos da Igreja Católica repercutidos pela mídia (pedofilia, corrupção etc.); o islamismo associado ao radicalismo, terrorismo e intolerância; e o judaísmo associado aos crimes de guerra de Israel no confronto com a causa palestina que repercute diariamente na mídia internacional.

Desde o pós-guerra, sob os escombros das teogonias e escatologias das grandes religiões monoteístas, há o surgimento do misticismo de massas com a Astrologia e o que se convencionou chamar de New Age – movimento espiritual buscando a fusão Oriente e Ocidente ao mesclar autoajuda, psicologia motivacional, parapsicologia, esoterismo com física quântica.

Parafraseando Zygmunt Bauman, as religiões tornaram-se “líquidas”: mescla de fundamentalismo nostálgico com uma colcha de retalhos que vai além do sincretismo religioso – rende-se ao utilitarismo. Como, por exemplo, no católico que participa da missa dominical em busca de paz e no meio da semana frequenta uma “mesa branca” em busca de conselhos cotidianos.

Ou como as religiões evangélicas se converteram em teologias da prosperidade, mais preocupadas com o sucesso no presente do que com a vinda de Jesus no fim dos tempos.

Ou ainda como igrejas neopentecostais juntam sessões de “descarrego” com a própria figura de Jesus para a expiação do Mal ou dos “trabalhos feitos” que emperrariam a vida pessoal do crente.

Essa liquefação dos grandes sistemas religiosos do passado corresponde à própria liquidez da infraestrutura econômico-financeira da ordem global – a liquidez ou a financeirização das praças financeiras conectadas em tempo real.



A Neoapocalíptica

A Globalização necessita agora de uma nova religião ecumênica que dê legitimidade às novas bases materiais. Uma nova religião igualmente sem pátria, global, feita a partir do pastiche dos escombros dos grandes sistemas religiosos.

Porém, há um problema: é necessário construir uma nova Escatologia, a descrição de algum evento apocalíptico futuro que tenha a mesma função moral das escatologias do passado: redimir os bons e punir os maus. Para, no final, justificar a ordem existente (seja política, econômica ou social) como condição necessária para alcançarmos a salvação. A elaboração de uma “Neoapocalíptica”.

Uma nova Escatologia, agora elaborada pelas narrativas de apocalipses sem a presença de Deus, Jesus ou juízos finais: agora será um asteroide, um cometa, o aquecimento global, ou alguma espécie de catástrofe cósmica.  Por assim dizer, uma “neoapocalíptica secularizada”.

Um bom exemplo desse imaginário pode ser acompanhado no filme 50/50 (2011), uma comédia dramática no qual um jovem descobre que está com câncer. Ao receber o diagnóstico, ele não se conforma: “Por que? Não fumo, não bebo e reciclo o lixo todos os dias...”. Um bom exemplo de como boas condutas ambientais têm na atualidade um componente muito mais moral do que racional – no futuro, o aquecimento global (ou o câncer) poderá destruir o planeta, mas a culpa não será minha...Estarei salvo com a minha consciência.

Essa é a motivação por trás da safra atual de filmes-catástrofes e na profusão se séries pseudocientíficas na TV sobre futuras catástrofes ambientais, astronômicas ou releituras das profecias de Nostradamus – agora o “Rei do Terror” descrito nas Centúrias é o Planeta X...


Essa nova religião ecumênica da Globalização já possui uma Teogonia: o Big Bang da Cosmologia. Falta agora uma Escatologia plausível, uma neoapocalíptica que tente juntar convicções eco-ambientais com geofísica e astrofísica.

E a Nova Jerusalém depois do fim dos tempos, a “Era Messiânica” do judaísmo, não será mais a cidade celestial, mas a imortalidade no ciberespaço cujo hardware foi construído pelas mesmas corporações que vendem o discurso do fim do mundo.

A Neoapocalíptica seria, afinal, uma estratégia de marketing? A necessidade da destruição do mundo seria mais uma estratégia de obsolescência planejada? Estratégia de venda de uma “Terra 2.0” unificada em torno das grandes corporações sem pátria, religião ou ideologias?

O artigo original poderá ser visto por meio do link abaixo:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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sábado, 28 de janeiro de 2017

KIERKEGAARD, HOLLYWOOD E O SALTO NO ABISMO



Hoje estamos publicando um artigo da autoria do Prof. Dr. Wilson Roberto Vieira Ferreira que nos apresenta sua avaliação do filme Passengers — Passageiros. O filme procura recontar a história de Adão e Eva da perspectiva gnóstica e lida com temas queridos pelos cristãos, tais como: liberdade, ansiedade, angústia autoconhecimento, questões morais de todas as ordens e etc. Apesar das posições do prof. Wilson não representarem as opiniões do Blog O Grande Diálogo, ainda assim a leitura do seu artigo é recomendada como parte da oportunidade para discussão que propicia.  

O filósofo KierkegAard vai a Hollywood no filme "Passageiros"
 Wilson Roberto Vieira Ferreira

Por que diante do precipício ao mesmo tempo em que temos medo, também sentimos o impulso de saltar para o fundo do abismo? Em 1844 o filósofo Søren Kierkegaard disse que isso deriva da ansiedade da descoberta de sermos livres para saltar ou não saltar. E sempre temos medo daquilo que mais desejamos. “Passageiros” (Passengers, 2016) retoma essas ideias do filósofo dinamarquês, inclusive com a referencia do abismo: só, no espaço sideral, diante do vazio do Universo, o homem teme por descobrir que é livre, como se retornasse ao mito do Paraíso, antes de Adão e Eva terem descoberto a árvore do conhecimento. “Passageiros” é mais uma amostra da recente guinada metafísica de Hollywood sob camadas de entretenimento e efeitos digitais. Assim como a animação “WALL-E” (2008), também faz uma releitura gnóstica do Gênesis bíblico: como o homem, prisioneiro numa gigantesca espaçonave-resort que ruma para a destruição, pode conquistar a liberdade e autoconhecimento.

Passageiros (2016) é um ótimo exemplo sobre a guinada metafísica dos filmes hollywoodianos: o mix de mitologias e simbolismos filosóficos. Mais precisamente, sobre como, sob a superfície de entretenimento com muito efeitos digitais, os filmes comerciais desfiam sérios conceitos filosóficos tendo com fio condutor a mitologia gnóstica.

Lembrem de filmes como Lucy, Ex-Machina e Transcendence onde o conceito nietzschiano de “vontade de potencia” é introduzido por meio da discussão TecnoGnóstica da Inteligência Artificial; ou os simbolismos freudianos da interpretação dos sonhos aplicados em uma narrativa PsicoGnóstica no filme A Passagem (Stay, 2005).

E não poderia ser de outra forma: um diretor nórdico (Morten Tyldum, O Jogo da Imitação) introduz conceitos filosóficos do filósofo dinamarquês Kierkegaard em uma narrativa que faz uma alusão invertida do mito de Adão e Eva do Gênesis bíblico em uma narrativa da jornada do herói gnóstico — acordar prisioneiro em um cosmos que caminha para a entropia e destruição.

Uma gigantesca espaçonave (simbolicamente de forma helicoidal do DNA humano) atravessa a galáxia em uma viagem de 120 anos para uma colônia em um remoto planeta transportando milhares de pessoas em câmaras de hibernação. Porém, uma má função resulta no despertar prematuro de um passageiro, 90 anos mais cedo da chegada prevista. Ele se vê sozinho numa gigantesca nave automática que mais parece uma mistura de shopping center com hotel-resort.


Sozinho naquele microcosmo, cujas más funções começam lentamente a contaminar toda a nave, e junto com 5.000 almas hibernando, o protagonista será confrontado com sérias questões morais, a angústia e a ansiedade. Mas tudo isso traduzido pela filosofia de Søren Kierkegaard (1813-1855), mais precisamente na sua obra O Conceito de Ansiedade de 1844, muito tempo antes do Existencialismo e da Psicanálise.

O Filme

Jim (Chris Pratt) é um dos 5.000 passageiros, mais a tripulação, mantidos em câmaras de hibernação, na espaçonave automática Avalon. Viajando a metade da velocidade da luz, Avalon ruma em direção da colônia Homestead II em uma jornada de 120 anos. Após 30 anos, a Avalon atravessa uma região do espaço com uma intensa chuva de meteoros o que obriga a nave a concentrar quase a totalidade da energia nos seus escudos. Isso produzirá uma lenta disseminação de pequenas más funções na Avalon.

E Jim é a primeira vítima: sua câmara de hibernação desperta-o prematuramente, como se a espaçonave já estivesse se aproximando de Homestead II. Tudo parece normal (o protocolo de boas vindas é acionado automaticamente pelos sistemas da nave), mas logo Jim cai em si – ele está sozinho em uma gigantesca espaçonave, faltando ainda 89 anos para o destino. Morrerá sozinho antes do restante dos passageiros despertar.

No início temos a clássica jornada do herói: primeiro ele fica confuso e desesperado. Depois, aparentemente aceita o destino e passa a usufruir de todos os serviços daquele autêntico hotel resort espacial – come sushi todas as noites e bebe uísque com a única companhia, o barman robô chamado Arthur (Michael Sheen) programado para bate papos superficiais de balcão de bar com os clientes.


A nave Avalon, o design interior e o balcão com o solicito robô barman são evidentes alusões a 2001 e O Iluminado de Stanley Kubrick. Assim como em O Iluminado, a solidão num lugar distante de qualquer coisa humana na Galáxia começa a enlouquecer o protagonista – por meses caminha nu pela nave, deixa crescer uma espessa barba, embriaga-se em longas conversas com repostas protocolares do barman androide, faz caminhadas espaciais e por horas fica olhando para o vazio e quase tenta suicídio em uma câmara de ar na saída da Avalon.

A partir daí, Jim passa o tempo lendo textos e os registros de vídeo dos passageiros em hibernação. Até ter um interesse peculiar por Aurora (Jennifer Lawrence), jornalista e escritora. Como engenheiro mecânico, Jim leu todos os manuais sobre as câmaras de hibernação o que o coloca em uma sinuca existencial e moral: um ano de solidão lhe deu uma inesperada consciência de liberdade. Jim pode despertá-la para dividir com ele a solidão. Mas por outro lado, isso significava roubar-lhe a vida que Aurora teria no futuro.

Jim convence a si mesmo que poderiam se apaixonar e ele iria construir uma casa para ela – um dos temas ao longo do filme é como a automação impossibilita as pessoas de construírem coisas com suas próprias mãos, roubando a humanidade dos objetos.

Depois de muitos dilemas éticos e existenciais, Jim decide acordá-la fazendo tudo parecer mais uma disfunção da nave Avalon.

De um lado, a solidão e a liberdade; do outro, o sequestro da vida de Aurora por Jim. Que ainda esconde um tema sombrio: o horror feminista pelo abuso emocional numa cultura do estupro que vê as mulheres como objeto de possessão. Jim é bonito, charmoso e sedutor. Mas esconde uma sombria escolha moral.


O Gênesis gnóstico

Passageiros faz uma interessante analogia com o Gênesis bíblico: o início de uma convivência fundada no pecado original, porém de forma invertida – foi Adão/Jim que conheceu o Mal (a liberdade de escolha) e não Eva/Aurora. O filme faz até uma alusão à árvore cujo fruto Jim não pode comer: a máquina de café automático Spice Extreme Latte, porque não é um passageiro com pulseira “ouro”. Quando Aurora/Eva chega, os dois podem consumir juntos os produtos do nível ouro, enquanto Jim sabe que fez algo muito errado.

O hotel-resort da nave Avalon é o Paraíso que tenta expulsar Jim e Aurora como uma espécie de punição por terem comido o fruto do Conhecimento – Jim, a descoberta da liberdade; e Aurora, permitir a Jim ter acesso “ouro” a serviços.

Mas esse Gênesis parece ter uma releitura bem gnóstica: assim como no Gênesis onde a mulher surge da costela de Adão, é Jim quem desperta uma mulher. Mas Adão e Eva despertam em uma Criação que já está em crise – as más funções anunciam uma destruição próxima de Avalon. Não foi o pecado que fez a Criação incorrer na Queda. A Queda foi a própria criação, que manteve o homem prisioneiro e colocado em condições existenciais extremas que só permitem tirar de dentro do homem o pior de si mesmo.

Aurora descobrirá como um homem aparentemente decente e charmoso foi capaz de roubar-lhe a própria vida. Como é colocado a certa altura em uma linha de diálogo, Jim era alguém que estava se afogando. E toda pessoa que se afoga agarra-se em alguém para levar junto.
Passageiros oferece mais uma releitura gnóstica da mitologia do Paraíso perdido, numa versão um pouco diferente da animação WALL-E (2008) - ver artigo sobre WALLE por meio do link abaixo:

http://cinegnose.blogspot.com.br/2011/02/wall-e-e-eva-disney-faz-releitura-do.html

Tal como na animação, o homem é prisioneiro em uma gigantesca espaçonave-resort que oferece comodismo e conforto. Mas que ao mesmo tempo oferece a oportunidade do autoconhecimento e a descoberta da liberdade.



Kierkegaard vai a Hollywood

Dessa maneira, Passageiros ingressa na ideia principal do livro O Conceito de Ansiedade do filósofo Kierkegaard, que inclusive é visualmente referenciado no filme.

Kierkegaard usa o exemplo de um homem à beira do precipício. Quando o homem olha para baixo ele sente o medo da queda. Mas ao mesmo tempo, sente um grande impulso de se atirar para o fundo do abismo. Esse sentimento paradoxal deriva da nossa ansiedade pela descoberta de que somos livres para escolher saltar ou não saltar. O mero fato de sabermos que temos a liberdade de escolha por sermos seres finitos diante da eternidade do Universo desperta ao mesmo tempo a solidão e a completa liberdade. Isso criaria tanto a possibilidade do autoconhecimento como da ansiedade neurótica – a angústia, que impede a evolução da ansiedade normal em autoconhecimento.

Um dos momentos-chave do filme é quando Jim em um dos seus passeios espaciais vê, solitário, a imensidão do Universo. Isso dá uma inesperada sensação de liberdade – ele pode se atirar no espaço, se matar, ou retornar e despertar Aurora. São atos equânimes moralmente naquelas condições existenciais nas quais Jim é prisioneiro.

Para Kierkegaard o mito de Adão retrata o despertar do indivíduo para a autoconsciência. Uma representação poética do instante em que o indivíduo coloca-se frente a si mesmo.

Tanto Jim quanto Aurora temem a extrema experiência simultânea da solidão e liberdade de poderem construir um novo mundo dentro do microcosmo da espaçonave Avalon. Mas, como Kierkegaard que antecipou muitas ideias freudianas, aquilo que mais desejamos é sempre o que mais tememos.

A ansiedade neurótica à descoberta de que sãos seres livres faz Jim pensar no suicídio e Aurora em tentar retornar à câmara de hibernação.

O filme Passageiros é uma jornada de autoconhecimento para os protagonistas: a transformação do medo da liberdade em atos que ecoarão na posteridade, como acompanhamos na sequência final - quando finalmente a nave Avalon chega ao destino 89 anos depois e os passageiros descobrem o legado deixado por Jim e Aurora.

Assista o trailer legendado em português por meio do link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=yRPECNxkMVA

O artigo original poderá ser acessado por meio do link abaixo:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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