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sábado, 11 de julho de 2015

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — ESTUDO 004 - OS PERGAMINHOS



Codex Vaticanus - Manuscrito em forma de livro feito de pergaminho - páginas de couro

Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato queremos incentivar que todos possam ler esses artigos compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

CONTINUAÇÃO...

II OS PERGAMINHOS

A história dos pergaminhos – material feito do couro de animais diversos — é, provavelmente, a mais complicada de todos os materiais usados para se escrever. A explicação histórica, tanto acerca do material em si, como também do próprio nome procedem da História Natural de Plínio[1] que cita outro autor da antiguidade — Marco Terêncio Varrão — o qual conta uma história acerca de um rei do Egito — provavelmente Ptolomeu V — que embargou toda exportação de papiro para a cidade de Pérgamo na Ásia Menor — provavelmente durante o reinado de Eumenes III —, com o objetivo de impedir que a biblioteca daquela cidade pudesse rivalizar com a grande biblioteca em Alexandria. Os cidadãos de Pérgamo, desenvolveram então o pergaminho como material de escrita. O nome pergaminho, provavelmente é derivado da própria cidade de Pérgamo.

A dificuldade com essa história é que, de fato, materiais de escrita feitos de couro de animais já existiam muito antes de Pérgamo vir a existir como cidade.

O pergaminho deve, realmente, ser considerado como o resultado de um longo e gradual processo de desenvolvimento. O couro tem sido usado como material de escrita por, pelo menos, quatro mil anos. Do próprio Egisto nós temos um fragmento em couro de um rolo manuscrito que data da sexta dinastia – c. de 2300 a.C., que indica em seu texto o uso do couro como material de escrita datando de vários séculos antes desse próprio documento. Temos ainda um importante rolo de couro dos dias de Ramsés II, e um terceiro rolo ainda, que apesar de não podermos precisar sua data, é possível que o mesmo seja do tempo da invasão do Egito pelos Hicsos, que antecederam Ramsés por vários séculos.

Mas o couro em si, não é, tecnicamente, um pergaminho. O couro era preparado deixando o mesmo secar ao sol, mas o resultado final não era material muito apropriado para a escrita. Era pouco flexível, não aceitava bem as tintas e muito exemplares continuavam com pelos e suas raízes.

Já o pergaminho era um material bastante distinto, que exigia uma preparação laboriosa para torná-lo macio, e bastante flexível. Do modo ideal era necessário começar com a pele de um animal recém nascido, ou até mesmo, não nascido. Primeiro o couro era lavado e limpo, tanto quanto possível, de todos os pelos. Em seguida o mesmo era imergido numa solução de cal, estendido numa estrutura apropriada e raspado ainda outra vez. Essa raspagem era uma parte vital do processo. Se algum pedaço de carne ficasse grudado na pele, o mesmo apodreceria e faria com que a pele tivesse um mau cheiro insuportável. Depois o pedaço de couro era vergastado, coberto com giz, em seguida o mesmo era alisado com o uso de pedras pome e deixado para secar, enquanto ainda estava preso à estrutura que o esticava. Todos esses processos exigiam um grande esforço e o uso de materiais especiais, do que os utilizados na simples produção de couro curtido. Mas o resultado final de toda essa trabalheira era um material de escrita que continua a ser bastante valorizado até os nossos dias.

Certamente o papiro era o melhor material de escrita conhecido na Antiguidade. Era mais macio que o couro curtido e até mesmo que o papiro. Além disso, aceitava a escrita em suas duas faces. Sua maciez permitia escrever com grande rapidez e precisão sobre sua superfície. Não havia no uso do papiro nenhuma preocupação com as que existiam com relação ao uso do papiro. Além disso o mesmo era durável, e sua coloração clara servia para um excelente contraste entre o background e a tinta.

Com tudo isso, não estamos querendo dizer que o papiro era o material perfeito para a escrita. O mesmo era bem mais denso que o papiro, fazendo com que o volume escrito fosse sempre bem mais pesado. Além disso, suas páginas tinham a tendência de criar “orelhas”. Em cima de tudo isso o mesmo era extremamente caro quando comparado com outros materiais.

Como acontecia também com o papiro, também existiam diferenças nas faces duma folha de pergaminho. O lado da carne era sempre mais escuro que o lado dos pelos, mas aceitava melhor a tinta. A diferença de tonalidade fazia com que os escribas organizassem seus cadernos de tal maneira que duas folhas provindas dos pelos ficassem sempre uma de frente para a outra. O mesmo acontecia com o lado das folhas que procediam do lado da carne. Estudiosos acreditam que os gregos preferiam ter a página oriunda do lado da carne como a página esquerda, enquanto que os manuscritos romanos preferiam a página do lado dos pelos no lado esquerdo do caderno.

Outra desvantagem dos pergaminhos, da nossa própria perspectiva, é que os mesmo podiam ser apagados e utilizados novamente. Alguns consideram isso uma vantagem. A maciez e solidez do pergaminho permitiam que tinta, especialmente fresca, fosse facilmente removida. Tinta seca dava mais trabalho, mas também podia ser removida. Junte essa característica com o preço de um pergaminho novo e você terá ampla s razões para justificar o surgimento dos palimpsestos[2]. São muitos os preciosos volumes que fora destruídos por meio desse recurso, deixando a escrita original quase ilegível, ou até mesmo completamente ilegível. Por outro lado se tais pergaminhos não tivessem sido apagados e reescritos talvez não teríamos o material contido nos mesmos. Que pode dizer?

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COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 002 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 003 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO — FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 004 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — OS PERGAMINHOS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 005 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — PAPEL E BARRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 006 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 007 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 008 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 – FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 009 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 010 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 011 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 003

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 012 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 004

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 013 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 005

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 014 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 006

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.


[1] Pliny, the old – Gaius Plinius Secundus. Natural History: A Selection — in Penguin Classics. Penguin Books, London, Reprint Edition 1993.
.   
[2] Palimpsesto — Manuscrito em pergaminho que, após ser raspado e polido, era novamente aproveitado para a escrita de outros textos — prática comum na Idade Média. Modernamente, a técnica tem permitido restaurar os caracteres primitivos. 

domingo, 7 de junho de 2015

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — MATERIAIS DE ESCRITA - ESTUDO 003 - OS PAPIROS - FINAL



Papiro P86

Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato queremos incentivar que todos possam ler esses artigos compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

CONTINUAÇÃO...

O que se fazia com as folhas de papiro depois que estavam prontas, dependia do propósito para o qual as mesmas tinham sido produzidas. Folhas soltas de papiro eram, geralmente, vendidas para serem usadas para registros diversos, memorandos, treinamento de escrita e etc. Alguns argumentam que papiros de qualidade muito baixa eram usados apenas como “papeis” de embrulho. Mas nosso interesse está centrado em seu uso para produzir livros. Quando se trabalhava com papiro, o rolo era, sem sombra de dúvida, a melhor forma de usar tal material. As folhas individuais eram unidas pelas suas bordas. Plínio afirma que as melhores folhas eram geralmente colocadas no início do rolo. Não sabemos se o motivo de tal procedimento era porque as mesmas eram mais resistentes ou porque deixavam o rolo mais bonito e mais valioso na hora de comercializá-lo. Ainda de acordo com Plínio, o rolo padrão era composto de 20 folhas o que somadas se estendiam por cerca de 5 metros. Mas existiam papiros mais longos com certeza. Um desses casos é o papiro Harris I que está no Museu Britânico catalogado sob o número EA9999.61. Esse rolo tem quase 40 metros de comprimento.

Papyrus; Hieratic text. Published by Peet, Great Tomb Robberies (1930).
Papiro Harris I

Os rolos também permitiam uma série de curvas contínuas o que evitava colocar estresse em qualquer ponto do papiro. Um codex — montagem em forma de livro — precisava ter dobras firmes e bem definidas com relação a um conjunto de folhas simples ou no máximo duas. A dobra definida tornava-se num ponto de extrema fragilidade como é fácil deduzir. Até mesmo o papiro P66 que está quase intacto, apresenta muitos pontos quebrados em sua espinha. Até onde esse autor sabe, somente o papiro P5 possui porções escritas tanto da parte da frente quanto de verso de suas folhas dobradas. Mas a impressão que temos é que essas folhas não estavam unidas ou que as mesmas pertenciam a algum conjunto central de páginas.

 Papiro P66

Papiro P5

Todos os rolos eram produzidos de acordo com certos padrões desenvolvidos ao longo do tempo. Por exemplo: todas as tiras horizontais de uma determinada folha eram colocadas no mesmo lado do rolo, pois somente um dos lados apenas deveria receber a escrita, e era mais fácil escrever numa única direção. Abaixo temos uma reprodução do Papiro Rhind no qual podemos perceber, com certa clareza, as linhas entre as tiras retiradas da casca da planta. O Papiro Rhind que foi adquirido em 1858 por A. Henry Rhind, e é um papiro fragmentado de um documento egípcio que apresenta esboços de operações matemáticas. O mesmo foi escrito por um escriba de nome Ahmose e data, provavelmente, do período em que o país estava dominado pelos Hicsos. Com isso a idade provável do mesmo é de 3.700 anos. Alguns acreditam que o mesmo é uma cópia de algum documento ainda mais antigo que pertencia, originalmente, à XII Dinastia — de 1991 a 1782 a. C. Isso faz desse papiro um dos documentos matemáticos mais antigos em existência.


O consenso entre aqueles que escrevem acerca de papiros é que — com exceção dos papiros opistografos, ou seja, papiros escritos na frente e no verso da folha — o normal era escrever nos rolos apenas no lado da folha onde as tiras estavam colocadas na horizontal. Isso é verdadeiro para os papiros gregos, mas nos papiros egípcios era comum escrever-se dos dois lados. Outros papiros têm sido encontrados onde o resumo do conteúdo está escrito do lado de fora do rolo, enquanto o conteúdo está escrito na parte de dentro dos mesmos.

A maioria dos rolos eram montados de tal maneira que, as linhas de escrita eram paralelas ao maior comprimento do papiro. Com isso queremos dizer que: se ==== representa uma linha de texto, então um rolo típico teria a aparência que mostramos abaixo:

+---------------------------------------------+
| ===  ===  ===  ===  ===  ===  ===  ===  === |
| ===  ===  ===  ===  ===  ===  ===  ===  === |
| ===  ===  ===  ===  ===  ===  ===  ===  === |
| ===  ===  ===  ===  ===  ===  ===  ===  === | 
+---------------------------------------------+      

O historiador romano Suetónio, no entanto, alega que na Roma pré-imperial os documentos oficiais eram escritos conforme o formato a seguir.

+----------+
| ===  === |
| ===  === |
| ===  === |
| ===  === |
| ===  === |
| ===  === |
| ===  === |
| ===  === |
+----------+


Mas tal afirmação é difícil de ser confirmada porque não existem documentos disponíveis nesse formato. Pelo menos que sejam conhecidos.

Alguns são da opinião que no princípio da produção de papiros, os mesmos costumavam ter suas folhas costuradas umas nas outras. Mas isso causava mais prejuízos que benefícios. Os fabricantes de rolos e livros logo perceberam as vantagens de colar as folhas. Partindo de descrições antigas e de ilustrações disponíveis, parece que desde cedo se tornou prática comum enrolar os papiros em pedaços de madeiras. Figuras da Torá judaica sugerem que a mesma estava enrolada em dois pedaços de madeira. Infelizmente temos pouquíssimos exemplos dessas madeiras disponíveis para análise. Os títulos dos materiais contido no papiro eram, geralmente, escritos na própria madeira onde o rolo era colocado.

Papiro Oxy 208
Papiro altamente fragmentado

O maior problema com os papiros era sua fragilidade. A umidade era suficiente para destruí-los por completo. Esse é o motivo porque os papiros sobreviveram apenas no Egito ou em outras regiões desérticas, como o deserto próximo ao Mar Morto na Palestina. Mas se no tempo seco os mesmos estão protegidos da umidade, eles tendem a ficar quebradiços com o passar do tempo. Por isso, seria praticamente impossível fabricar um volume de papiro que se torna-se referência. Infelizmente o mesmo não duraria tanto tempo assim. Por outro lado, temos poucos, se de fato existirem, papiros que podem ser considerados palimpsestos — papiros ou qualquer outro material que foram apagados e depois reescritos por cima.

O papiro foi utilizado como material de escrita durante um período que se estendeu por 3.000 anos. Podemos afirma com toda certeza, que as primeiras produções cristãs escritas foram produzidas sobre esse tipo de material. Mas à medida que a igreja cresceu e passou a ter maior disponibilidade financeira a tendência foi passar a produzir os escritos cristãos em materiais mais duráveis como os pergaminhos, por exemplo. Nossas Bíblias grafadas em papiros e que continuam preservadas até hoje datam do século VIII d.C. Acredita-se que a produção de papiro para uso comercial teve seu fim por volta do século X d.C. Mesmo assim, a igreja romana continuou a usar papiros para seus registros e para as bulas papais até o século XI d.C. O último documento dessa natureza que tem sua data preservada foi produzido e assinado pelo papa Vitório II em 1057.[1]    

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[1] Deuel, Leo. Testaments of Time: The Serach for Lost Manuscripsts and Records. Alfred A. Knopf, New York, 1965.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

HISTÓRIA DO ANTIGO TESTAMENTO – PARTE 1 — OS PATRIARCAS DA NAÇÃO DE ISRAEL.



Este estudo é parte de uma breve introdução ao Antigo Testamento. Nosso interesse é ajudar todos os leitores a apreciarem a rica herança que temos nas páginas da Antiga Aliança. No final de cada estudo o leitor encontrará direções para outras partes desse estudo 

INTRODUÇÃO AO ANTIGO TESTAMENTO

Capítulo 3 – Quando Ocorreram os Eventos Narrados do A. T.?

I. Quais são os Acontecimentos descritos pelo Antigo Testamento? — ver no final dessa série a tabela contendo os: Períodos Arqueológicos da História do Antigo Oriente Próximo.

Todos os eventos narrados no Novo Testamento ocorrem em um século apenas. O mesmo não aconteceu com a história narrada no Antigo Testamento. A história bíblica do Antigo Testamento, desde que se torne possível identificar um período histórico, mesmo que seja de maneira aproximada, estende-se durante quase dois milênios. Durante este longo período de tempo, a nação israelita manteve contato com inúmeros povos e com muitas nações diferentes. Entre estes povos, o Antigo Testamento menciona com freqüência: os assírios, os babilônios, os egípcios, os arameus e muitos outros povos importantes. É nosso interesse nesse capítulo situarmos, historicamente falando, quando ocorreram os eventos narrados no Antigo Testamento em relação ao todo da História da Humanidade.

Conforme mencionamos acima, a primeira data aproximada que pode ser estabelecida, com relativa certeza, acerca das narrativas contidas no Antigo testamento diz respeito aos patriarcas da nação de Israel. E será exatamente com eles que iremos iniciar. Os primeiros 11 capítulos do Livro do Gênesis serão analisados mais adiante em outra série de estudos.

A. Os Patriarcas da Nação de Israel.

As datas que iremos mencionar doravante são todas aproximadas, pois os historiadores não possuem provas suficientes, até o momento, que permitam determinar as datas exatas dos acontecimentos que iremos discutir aqui. Devido às grandes dificuldades enfrentadas pelos historiadores e arqueólogos que tornam impossível traçar uma cronologia mais definida, eles acabaram por dividir os milênios, antes da era cristã, em períodos, baseados na “tecnologia” disponível em cada época. A divisão consolidada hoje em dia segue o seguinte cronograma:

·       Idades da pedra: 

Ø  Paleolítico: Período pré-histórico que principia no final do plistoceno[1], com o aparecimento dos mais antigos fósseis humanos, e se caracteriza pela presença de artefatos de osso e/ou de pedra fragmentada ou lascada, datando do final deste período notáveis desenhos e pinturas rupestres; divide-se esse período em 3 fases: inferior, médio e superior, conforme os graus de complexidade dos artefatos. Este período é também chamado de período da pedra lascada ou idade da pedra lascada. 

Ø  Mesolítico: Período pré-histórico intermediário, com características culturais próprias do paleolítico e do neolítico, ocorrido no final do plistoceno, após as últimas glaciações. 

Ø  Neolítico: Período do holoceno[2] em que os vestígios culturais do homem pré-histórico se caracterizam pela presença de artefatos de pedra polida - ainda não era utilizado o bronze - e pelo aparecimento da agricultura; período da pedra polida; idade da pedra polida. 

Ø  Calcolítico: período de transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze.


·       Idade do Bronze. 

·       Idade do Ferro. 

Os termos acima, especialmente “Idade do Bronze” e “Idade do Ferro”, são utilizados pelos arqueólogos de forma bastante ampla. A utilização destes termos e, especialmente, a fixação de datas, não indicam que as mudanças de pedra para bronze e do bronze para ferro foram súbitas, ou que apenas o bronze era usado na Idade do Bronze e que só o ferro era usado na Idade do Ferro. De qualquer maneira e, em termos gerais, as datas são fixadas como seguem:

·       3300 a.C. é a data fixada pelos arqueólogos para o período aproximado em que o conhecimento do uso do bronze espalhou-se pelo antigo Oriente Próximo. 

Resultado de imagem para artefato de bronze
         Artefato de bronze

·       1200 a.C. corresponde à data aproximada em que os povos do antigo Oriente Próximo descobriram os maiores benefícios do uso do ferro. 




 Os períodos acima são, por sua vez, divididos da seguinte maneira:

1. O período que vai entre 3300 a 2000 a.C. é conhecido como Antiga Idade do Bronze. Durante este período temos a invenção da escrita com o consequente início dos registros da História da Humanidade. Os sumérios, os inventores da escrita, começaram a usar extensivamente a escrita cuneiforme na mesopotâmia. Conforme vimos na série anterior sobre a “GEOGRAFIA DA BÍBLIA”, os egípcios já utilizavam os hieróglifos – escrita sagrada – desde aos dias do período que cobre o Antigo Império.

Politicamente falando, na região da Síria-Palestina, as cidades-estado começaram a crescer e, com elas, as necessidades de comunicação, viagens e comércio tornaram-se cada vez maiores. Na Mesopotâmia, durante este período, uma série de cidades-estado mais fortes ganharam dominância durante os períodos das antigas dinastias sumerianas. Mais para o final da Antiga Idade do Bronze, o primeiro império semítico assumiu o pleno controle de toda a região sul da Mesopotâmia, tendo como base a cidade de Acade – datas aproximadas estão fixadas entre 2334—2193 a.C. No Egito, além da utilização da escrita, o período que estamos chamando de Antiga Idade do Bronze, viu o florescimento do período do Antigo Império egípcio, que foi a era das grandes pirâmides e marcou o apogeu da cultura egípcia. De forma marcante, ao nos aproximarmos do encerramento da Antiga Idade do Bronze, todas as principais características da civilização e da cultura humanas estavam presentes tanto no Egito quanto na Mesopotâmia.

2. É impossível determinar com precisão as datas entre as quais viveram os patriarcas da nação de Israel - Abraão, Isaque e Jacó. Todavia existe um consenso entre os historiadores de que as mesmas podem ser localizadas, de maneira mais ampla, durante a Média Idade do Bronze – entre 2000—1500 a.C. De acordo com o professor John Bright, em sua obra “História de Israel”, estes quinhentos anos foram um período da história do antigo Oriente Próximo que foi marcado pelo movimento de grupos étnicos e novos impérios tomando o lugar de antigos poderes do início da Idade do Bronze. Na Mesopotâmia, por exemplo, depois de uma breve renascença da cultura sumeriana – durante a Dinastia de Ur III — entre 2112—2004 a.C. — a nação passou a ser controlada por um novo grupo semítico, os amoritas. Este povo dominou a Mesopotâmia logo no começo da Média Idade do Bronze, a partir de várias cidades-estado fortes em um delicado equilíbrio de poder. De repente, um único individuo da cidade da Babilônia, conseguiu consolidar sua força e estabelecer um império por toda a Mesopotâmia. Este indivíduo chamava-se Hamurabi e ele chegou ao poder em 1792 a.C. Hamurabi estabeleceu o antigo império da babilônia, que durou quase 200 anos, até 1595 a.C. Hamurabi gravou seu nome na história através de um código de leis — Código de Hamurabi. Existem certas semelhanças entre algumas leis do Código de Hamurabi e aquelas que encontramos no conjunto de leis registradas no Pentateuco.

Hamurabi e seu código 

Enquanto isto, na outra extremidade do Crescente Fértil, no Egito, depois de um período de escuridão e confusão chamado de primeiro período intermediário — entre 2200—2000 a.C., o país voltou a florescer durante o período do chamado Médio Império — entre 2000—1700 a.C.

As características marcantes do Médio Império egípcio foram um abundante tempo de paz e muita estabilidade. Durante esta época o Egito manteve um intenso intercâmbio com a região do Levante - a região costeira da Palestina - resultando na aquisição de considerável riqueza. Como havia acontecido antes com a Mesopotâmia, mais próximo ao fim da Média Idade de Bronze, o Egito também sucumbiu ao domínio de grupos semitas. Os egípcios acabaram perdendo o controle de sua nação quando os hicsos[3], povo semita provavelmente vindo da Síria-Palestina, assumiu o controle do Delta ao norte do país. Não se sabe se os hicsos invadiram a região e tomaram o poder ou se eles já vinham aumentando sua força gradualmente. Os Hicsos governaram o Egito por aproximadamente 150 anos durante o que foi chamado de segundo período intermediário — entre 1700—1540 a.C. Esta foi a primeira vez na história do Egito em que o país foi conquistado e dominado por estrangeiros.

Os hicsos

Abrão viveu, provavelmente, durante este tempo de grandes deslocamentos. Ele mesmo foi um indivíduo que saiu de Ur dos Caldeus para Harã, e de lá, para a terra de Canaã. Abrão não foi o único a tentar se estabelecer em Canaã. Vários outros grupos e tribos de origem semita estavam também tentando o mesmo. Existem registros arqueológicos de que durante o terceiro milênio — entre 3000—2000 a.C. — os chamados cananeus já estivessem fundando cidades-estado nas planícies costeiras e nos vales da terra de Canaã. É bastante possível que a maioria destes povos tivessem a mesma origem amorita que aqueles que haviam se estabelecido na Mesopotâmia.

A família de Abrão saiu de Ur dos caldeus, ao sul da Mesopotâmia, ainda liderados pelo pai deste e que se chamava Terá. A princípio a família se estabeleceu em uma localidade próxima do rio Eufrates, chamada Harã, que ficava na região noroeste da Mesopotâmia. O pai de Abrão faleceu em Harã e Abrão - cujo nome foi mais tarde mudado para Abraão — foi chamado por Deus a viajar, pela fé, para terras desconhecidas – ver Hebreus 11:8.

Já em Canaã, Deus apareceu várias vezes a Abraão. Nessas teofanias, Deus fez uma aliança com ele e prometeu dar-lhe um grande número de descendentes bem como a terra de Canaã por herança. Para um amorita migrante entre tantos outros, estas promessas tinham um caráter único. De fato Deus prometeu abençoar a todas as famílias da terra através da descendência de Abrão. De acordo com a promessa de Deus e, depois de muitos anos e de maneira miraculosa, Abraão e sua esposa Sara tiveram um filho deles mesmos, independente do fato dela já ter noventa anos de idade e Abraão estava com cem anos. A promessa acerca desse filho foi até ao detalhe do nome, com o qual o mesmo deveria ser chamado: Isaque – ver Gênesis 17:19 e 18:14.

Viagens de Abraão

Isaque casou com uma de suas primas, Rebeca, e com ela teve filhos gêmeos – Esaú e Jacó. Esaú era o primogênito, mas coube a Jacó tornar-se o filho das promessas patriarcais. Jacó teve o nome mudado para Israel. Ele teve doze filhos de quatro mulheres diferentes – duas esposas e duas concubinas. O filho favorito de Jacó era José que era o filho primogênito de Raquel a quem Jacó amava profundamente. José, por causa da inveja e dos ciúmes que levantava nos irmãos, foi traído por estes e vendido como escravo para uma caravana de midianitas ou ismaelitas que se dirigia ao Egito. Uma vez no Egito, José foi abençoado por Deus e, de forma miraculosa, chegou a um alto cargo político naquela terra estrangeira. José assumiu uma autoridade tão grande no Egito, que somente o Faraó, quando estivesse sentado no seu trono, seria superior a ele – ver Gênesis 41:40. Durante diversos períodos de seca, os filhos de Israel viajaram para o Egito à procura de comida para a família que haviam deixado em Canaã. Em uma destas viagens foram amorosamente confrontados pelo irmão que haviam traído. Eles estavam realmente com medo, mas José tinha somente palavra de paz para eles – ver Gênesis 44:1—5. José providenciou comida para eles e os salvou. Atendendo ao chamado de José, Israel e todos os seus filhos se mudaram de Canaã para Gósen, na região nordeste do Delta do Egito.

Isaque e Abraão

Jacó lutando com o anjo

Não é possível datar esses acontecimentos com precisão, mas de modo geral podemos dizer que ocorreram em alguma época durante a Média Idade do Bronze – entre 2000 - 1550 a.C. É possível que parte da história dos patriarcas seja coincidente com o período do domínio dos hicsos sobre o Egito – entre 1700 - 1550 a.C. Alguns especulam que o faraó dos dias de José era realmente um soberano hicso. Assim, o “novo rei” mencionado em Êxodo 1:8 seria um soberano egípcio que teria subido ao trono após a expulsão dos hicsos. É bastante provável que expressão “novo rei” refere-se a um rei de outra dinastia. Se os judeus estivesse mesmo associados aos hicsos isto ajudaria a explicar a maneira brutal com que foram tratados durante os vários séculos seguintes. Os egípcios usaram e abusaram dos judeus durante este tempo. Eles foram obrigados a construir cidades para o faraó e a sustentar a economia com o trabalho escravo.

Escravidão no Egito

Que Deus abençoe a todos.

Outros artigos acerca da Introdução ao Antigo Testamento

A. O Texto do Antigo Testamento

001 – O CÂNON DO ANTIGO TESTAMENTO

002 – A INSPIRAÇÃO DA BÍBLIA

003 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 1 = Os Escribas e O Texto Massorético — TM

004 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 2 = O Texto Protomassorético e o Pentateuco Samaritano

005 – A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 3 = Os Manuscritos do Mar Morto e os Fragmentos da Guenizá do Cairo

006 - A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 4 = A Septuaginta ou LXX

007 - A TRANSMISSÃO TEXTUAL DA BÍBLIA — Parte 5 = Os Targuns e Como Interpretar a Bíblia

B. A Geografia do Antigo Testamento

001 – INTRODUÇÃO E MESOPOTÂMIA

002 – O EGITO

003 – A SÍRIA—PALESTINA

B. A História do Antigo Testamento

001 – OS PATRIARCAS DA NAÇÃO DE ISRAEL

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.


O material contido neste estudo foi, em parte, adaptado e editado das seguintes obras, que o autor recomenda para todos os interessados em aprofundar os conhecimentos acerca do Antigo Testamento:


Bibliografia

Aharoni, Yahanan; Avi-Yonah, Michael; Rainey, Anson F. e Safrai, Ze’ev. Atlas Bíblico. Casa Publicadora das Assembléias de Deus – CPAD, Rio de Janeiro, 1998,

Arnold, Bill T. e Beyer, Bryan E. Descobrindo o Antigo Testamento. Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2001.

Bright, John. História de Israel. Paulus, São Paulo, 6ª Edição, 1980.  

Durant, Will. The History of Civilization Volume 1 – Our Oriental Herritage. Simon and Schuster, New York, 1963.
Heródoto de Halicarnassus. The Histories. Penguin Books Ldt, Middlisex, reprinted, 1986.

Hallo, William W. e Simpson, William Kelly. The Ancient Near East: A History. Nova York, Harcourt Brace Jovanovich, 1971.

Howard, Jr. David M. “Philistines” em People of the Old Testament World, org. Alfred Hoerth, Gerald L. Mattingly e Edwin M. Yamauchi. Baker Book House, Grand Rapids, 1994.

King, Philip J. American Archaeology in the Mideast: A History of the American Schools of Oriental Research. ASOR, Philadelphia, 1983.

Millard, Alan; Stanley, Brian e Wrigth, David. Atlas Vida Nova da Bíblia e História do Cristianismo. Sociedade Religiosa Edições Vida Nova, São Paulo, reimpressão, 1998.

Schoville, Keith N. Biblical Arcaheology in Focus. Baker Book House, Grand Rapids, 1978.

Wilson, John A. The Culture of Ancient Egypt. Chicago University Press, Chicago, 1951.


__________Britannica Atlas. Encyclopaedia Britannica Inc., Chicago, 1996.

Enciclopédias

__________The New Encyclopaedia Brtannica. Encyclopaedia Britannica Inc., Chicago, 15th Edition, 1995.


Softwares

Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Século XXI. Edição Eletrônica, São Paulo, 2004. 



[1] Adjetivo geológico que faz referência aos terrenos que formam o sistema inferior da era quaternária.

[2]  Diz-se da época geológica mais recente do período quaternário, que se inicia após o período glacial

[3]  Hicsos: povo da Antiguidade, originário da Síria, que se estabeleceu na metade oriental do delta do Nilo, no séc. XVIII a.C.