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domingo, 15 de novembro de 2015

EVANGÉLICOS JÁ NÃO IMPRESSIONAM TANTO QUANTO NO PASSADO

 
O artigo abaixo foi publicado pelo site da revista Cristianismo Hoje e foi escrito pelo pessoal da redação do mesmo.

Já não cresce tanto

Declínio nas estatísticas de avanço numérico do segmento evangélico sinaliza crise da Igreja.

Escrito por: Da Redação

Há coisa de cinco anos, evangélicos de todo o Brasil entraram em festa. Pela primeira vez, desde que o país foi achado pelos portugueses, a fé católica perderia sua hegemonia. Esta, pelo menos, era a previsão de pastores, líderes e pesquisadores diante dos números promissores sobre o avanço da Igreja Evangélica no país. “O Brasil é do Senhor”, frase bradada dos púlpitos e nos programas evangélicos na TV, sintetizava a virada de mesa que aconteceria em breve. Quem cresse e vivesse, veria – e a base para tanto ufanismo eram as estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, que a cada década realiza o Censo da população nacional. No levantamento do ano 2010, chegou-se à cifra de 42,3 milhões de crentes, ou 22,2% do povo brasileiro. O processo fora mais avassalador ainda nas comparações anteriores, que mostravam um avanço de seis vezes do segmento em duas décadas. Em seu estudo A dinâmica das filiações religiosas no Brasil entre 2000 e 2010, o pesquisador José Eustáquio Diniz, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, chegou a dizer que o Brasil poderia ser um país de maioria evangélica já por volta de 2030: “Apenas pelo efeito da inércia demográfica, haverá crescimento da população evangélica.”

Na mesma onda foram muitos pastores e institutos de pesquisa evangélicos. O Departamento de Pesquisas do ministério Servindo Pastores e Líderes (Sepal) divulgou uma estimativa, em 2011, segundo a qual os evangélicos representariam mais da metade da população brasileira já em 2020. “Eles serão aproximadamente 109,3 milhões, para uma população de 209,3 milhões,” previu o teólogo e pesquisador Luis André Bruneto. O entusiasmo era corroborado por grandes manifestações, como a Marcha para Jesus (que, em 2009, levou às ruas de São Paulo quase 2 milhões de pessoas), pela maciça presença midiática dos pastores e pela crescente influência evangélica em setores como a política partidária, entre outros. “O Instituto Superior de Estudos da Religião fez, na década de 90, uma extensa pesquisa sobre a abertura de templos. Eram cinco por semana, só no Rio de Janeiro”, observa o pastor presbiteriano André Mello, na época integrante da equipe do Iser.

Acontece que, se a matemática é uma ciência exata, a dinâmica demográfica, muitas vezes, caminha na direção oposta, e aí não há fé capaz de fechar a equação. Os números relativos à religiosidade do povo brasileiro do Censo 2010 só foram fechados e divulgados mais de dois anos depois, e o festejado crescimento dos evangélicos, que se acelerou de maneira sem paralelo no mundo contemporâneo entre os anos 1980 e 2000, caiu bastante. Os números ainda são ascendentes, mas tendem à estabilização – e até ao encolhimento, como especulam alguns pesquisadores –, o que contraria frontalmente as previsões mais ufanistas. “Entre 1991 e 2000, o aumento médio foi de 120%”, lembra o bispo emérito da Igreja Metodista Paulo Ayres Mattos. Dali em diante, o avanço caiu pela metade. “Isso não pode ser ignorado de forma alguma para quem trabalha com rigor e seriedade as mutações no campo religioso brasileiro”.  Doutor em Teologia e professor da Universidade Metodista de São Paulo, Ayres é estudioso do movimento pentecostal brasileiro e avalia que o fato mais importante dos dados religiosos do último Censo é a diminuição comparativa do crescimento evangélico.

DESCONCENTRAÇÃO

Há diversas razões para essa perda do ímpeto de crescimento, que pôde ser sentida no dia 4 de junho, quando apenas cerca de 200 mil pessoas, na avaliação da Polícia Militar, prestigiaram a mesma Marcha para Jesus nas ruas da capital paulista. “As pesquisas atuais falam em fechamento de templos e dissolução de associações evangélicas por divergências ou luta por poder”, acrescenta André Mello. Tal fragmentação das igrejas, e seu consequente enfraquecimento, é apenas um dos motivos do quadro atual. Ela se verifica tanto na igrejinha da esquina, da qual o pastor assistente saiu para abrir seu próprio empreendimento religioso, até grandes grupos, como a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Nadando de braçada na explosão evangélica dos anos oitenta e noventa (ver quadro), a denominação de Edir Macedo começou a sofrer a concorrência – é, o termo usado pelos estudiosos é este mesmo, que remete à ideia de disputa por mercado – de grupos saídos de suas entranhas, como a Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada e liderada por Valdemiro Santiago, ex-pastor da Universal e atual desafeto do antigo chefe. O estrago é um dos motivos do encolhimento da Iurd, de 2,1 milhões de fiéis, há quinze anos, para os cerca de 1,8 milhão encontrados em 2010. De maneira análoga, diversas denominações têm sofrido fraturas e cizânias que, no médio prazo, acabam dificultando as coisas tanto para a igreja que fica como para aquela que se forma.

“As pessoas, hoje, têm mais liberdade para escolher e combinar diversas opções em seu próprio cardápio religioso, como num balcão de comida a quilo”, continua Paulo Ayres. Para ele, o quadro sinaliza as transformações sociais que melhoraram a situação econômica de boa parte da população nos últimos anos, como as classes C e D. “Isso possibilitou às pessoas resolverem seus problemas mediante meios mais racionais, sem buscar o recurso de soluções milagrosas”. Além disso, o bispo metodista aponta outros fatores, como o aparecimento mais visível dos evangélicos sem igreja e o aumento percentual de pessoas sem religião, ateus e agnósticos no cenário nacional. De fato, o IBGE encontrou 9.218.000 brasileiros que se enquadram na difusa categoria “evangélica não determinada”, que inclui os chamados desigrejados – gente que, apesar da origem evangélica, em determinado momento da vida assumiram uma fé “não institucional”, para usar o termo moderninho. “Tudo isso confirma um dado já identificado anteriormente, trabalhado com bastante competência por sociólogos da religião como Paul Freston”, cita.

Autor de um artigo polêmico, publicado na revista Ultimato em 2011 e no qual questionava as previsões entusiasmadas que anunciavam a quebra da antiga hegemonia religiosa do catolicismo, Freston cunha uma expressão para se referir ao esvaziamento da ideia de pertencimento religioso, antes tão cara aos evangélicos que era comum se ver, nos bancos das igrejas, sucessivas gerações de crentes. “Vários fatores podem estar por trás dessa ‘desdenominacionalização’. São aspectos negativos – como o individualismo e a falta de compromisso – e outros positivos, como a melhora econômica e a consequente diminuição da necessidade de uma relação clientelista numa igreja com liderança forte”. Inglês naturalizado brasileiro e colaborador nos programas de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos, Freston, que atualmente leciona no Canadá, chama a atenção para os subgrupos do universo evangélico brasileiro, lembrando que o fenômeno os atinge em diferentes graus. “As análises se complicam com as mudanças internas do segmento. Segundo o Censo, 60% dos evangélicos são pentecostais; 18% são de missão (ou seja, integrantes de igrejas históricas ou tradicionais); e 22% estão entre os ‘evangélicos não determinados’.”

Ele considera que o espantoso o aumento desta última categoria atrapalha as comparações com os Censos anteriores. Quem seriam eles? “Será que são neopentecostais decepcionados com as suas igrejas, mas que ainda se consideram evangélicos? Ou pentecostais clássicos, de terceira ou quarta geração, em processo de ‘despentecostalização’? Ou crentes de igrejas históricas que perderam a sua identidade denominacional? Ou uma soma de tudo isso e muito mais? De qualquer forma, diminui a porcentagem do mundo evangélico que se diz pentecostal ou que declara adesão a uma denominação categorizada como tal”, descreve o professor. Por outro lado, o Censo anuncia mudanças demográficas no Brasil que não favorecem o movimento, como o acelerado envelhecimento da população e a redução da taxa de fecundidade. Numa coisa, porém, Freston é categórico: “Os dados desmentem claramente as previsões absurdas que circularam de que haveria uma maioria evangélica até 2020. Estas previsões fazem um grande desserviço à comunidade evangélica.”

O avanço da Igreja Evangélica brasileira, alavancado pela explosão pentecostal e neopentecostal de vinte anos atrás, estará perto de bater no teto? “No momento, parecem precoces e arriscadas quaisquer conjecturas desse tipo”, comenta Ricardo Mariano, doutor em Sociologia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Em seu trabalho Mudanças no campo religioso brasileiro no Censo 2010, ele menciona que os sem religião, demograficamente insignificantes até 1970, já chegam a 15,3 milhões de brasileiros. “Eles quintuplicaram de tamanho entre 1980 e 2010, formando o terceiro maior ‘grupo religioso’ do país”, diz no estudo. Ao mesmo tempo, a expansão dos pentecostais na última década pesquisada, de 44%, não chega nem à metade das médias de crescimento obtidas nos dois decênios anteriores, como em 1991 (aumento de 111%) e em 2000, da ordem de 115,4%. O que parece certo, ainda conforme Mariano, é a perda de musculatura de grandes igrejas. “Em 2000, cinco denominações concentravam 85% dos pentecostais. Uma década depois, essa cifra declinou para 75,4%. Tal desconcentração denominacional é decorrente tanto da queda numérica de igrejas como Congregação Cristã no Brasil e Universal quanto do aumento da diversificação institucional do pentecostalismo.”

“QUANTO MAIS CRESCE, MENOS CRESCE”

No caso da Assembleia de Deus, a desaceleração é evidente. Embora fragmentada em diversas convenções e usada até como nome de fantasia para empreendimentos religiosos individuais, as Assembleias de Deus constituem a maior confissão religiosa do país depois do catolicismo – nada menos que 12,3 milhões de brasileiros disseram aos pesquisadores do IBGE que pertencem a uma igreja com essa placa na entrada. “Elas cresceram 245% na década de 1990 a 2000, mas avançaram ‘apenas’ 46% depois disso”, frisa Gedeon Freire de Alencar, membro da Rede Latinoamericana de Estudos do Pentecostalismo (Relep). Em sua tese de doutorado em Ciências da Religião, ele usou como objeto de estudo a denominação fundada há pouco mais de cem anos por missionários suecos. “Uma constatação óbvia se apresenta aos estudiosos: a de que, quanto mais cresce, menos cresce”, prossegue Alencar.

Luis Bruneto, diretor de Pesquisas do Projeto Brasil 21 da Sepal, admite que a previsão de alguns anos, feita ainda com base nos dados do período entre 1991 e 2000, continha erros e precisa de uma releitura. “O crescimento anual dos evangélicos mostrou-se aquém do previsto. O aumento perdeu força”. Segundo ele, o avanço do secularismo na sociedade brasileira, o utilitarismo do discurso evangélico, os escândalos envolvendo pastores e líderes e a falta de higidez teológica e doutrinária ajudam a explicar o atual momento histórico. “Durante anos, a liderança evangélica nacional tem afirmado, categoricamente, que o país experimenta um avivamento espiritual, dados os números tão expressivos. Mas, será mesmo?”, indaga. Bruneto invoca a falta de influência bíblica e profética da Igreja em diversas áreas da vida brasileira, como a política, a segurança pública, o desenvolvimento social e a ética, para exemplificar o paradoxo.

De menos de um por cento da população no início do século passado (ver quadro), o grupo religioso que mais cresceu na história do Brasil está representado em todas as mais de 5,6 mil cidades do país e ainda apresenta índices de expansão bem maiores do que os da população em geral. Mas as oscilações em seu crescimento precisam, ao menos, ser interpretadas como sinal de alerta. “Resta saber o que isso tem representado, na prática, em termos de transformação pessoal e coletiva”, insiste Bruneto. Para Paul Freston, em um futuro próximo, esse enfoque será cada vez mais necessário. “Se não recuperarmos a capacidade de interagir com o texto bíblico, de deixá-lo falar a nós e, a partir disso, tirar as implicações individuais, eclesiásticas e nacionais necessárias, nos mostraremos irrelevantes”, alerta. “A Igreja Evangélica brasileira de 2030 ou 2040 precisará de líderes mais diversos nos seus dons, profundos no seu conhecimento e sabedoria e transparentes nas suas vidas”. Quanto aos fiéis, a recomendação é simples, mas não necessariamente fácil de cumprir: “Precisamos redescobrir o verdadeiro sentido de ser evangélico, que é a vontade de sermos profundamente bíblicos em toda a nossa existência.”

“IMAGEM DESOLADORA”

Pesquisa realizada em junho pelo instituto Gallup mostrou que a maior nação evangélica do mundo já não é mais a mesma. Hoje, os americanos têm menos confiança na religião organizada do que nunca antes, e isso é sinal inquietante de que a Igreja pode deixar de ser um pilar da liderança moral na cultura dos Estados Unidos. Nos anos 1980, a Igreja e a religião organizada compunham a instituição que gozava de maior confiança na América. Agora, no geral, são os militares, as empresas de pequeno porte e a polícia que atraem mais credibilidade do cidadão americano. A Igreja desceu para a quarta posição. “Quase todas as organizações estão em baixa nesse quesito, mas a imagem formada da religião é particularmente desoladora”, avalia a autora do relatório do Gallup, Lydia Saad.

O dado de maior influência no resultado, segundo a pesquisadora, é a crescente quantidade de americanos que se desligam do que se chama de organização religiosa. Outra pesquisa, esta do Instituto Pew, especializado em levantamentos de natureza religiosa, apontou que 23% dos americanos não se identificam com nenhuma religião. Há, também, um declínio crescente de credibilidade nas igrejas Católica e Protestante. O descrédito em ambas cresceu, em pouco mais de trinta anos, na ordem de 50%. Escândalos sexuais e financeiros envolvendo pastores famosos, assim como a denúncia de casos de pedofilia entre o clero católico, colaboraram para essa rejeição. 

O PERIGO DA IRRELEVÂNCIA: ENTREVISTA COM PAUL FRESTON

Doutor em Sociologia e professor catedrático de Religião e Política na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, no Canadá, Paul Freston é um dos mais respeitados estudiosos do movimento evangélico brasileiro. Ele conversou com CRISTIANISMO HOJE.

CRISTIANISMO HOJE - O senhor já provocou polêmica ao contrariar previsões mais otimistas de que o Brasil teria maioria evangélica em sua população. Hoje, ainda pensa assim?

PAUL FRESTON – Não mudei de previsão. Continuo achando que, dentro de duas a três décadas, o crescimento do segmento evangélico irá, basicamente, parar.

CRISTIANISMO HOJE - Uma de suas preocupações é em relação ao que chama de irrelevância da Igreja devido à ausência de implicações individuais, eclesiásticas e nacionais do texto bíblico. Já chegamos a este ponto?

PAUL FRESTON – Não, mas estamos a caminho. Se não houver essa capacidade até o momento do fim do crescimento, aí sim, seremos irrelevantes. O crescimento numérico que ainda se observa nos dá uma relevância, por assim dizer, inercial. Mas depois, precisaremos mostrá-la de outras formas.
CRISTIANISMO HOJE - Qual o perfil eclesiástico que terá, então, maior sucesso?

PAUL FRESTON – Acredito que as igrejas que tiverem maior solidez teológica e oferecerem ensino mais aprofundado da Palavra de Deus, além de visões atraentes de discipulado, terão mais espaço. Igrejas que não estiverem preocupadas apenas com sucesso numérico, mas que adotarem perfis mais variados dentro da sua liderança, tanto clerical como leiga. Quanto a quais denominações se adequarão a esse perfil, isso vai depender da situação de cada igreja até lá.

MAIORIA FEMININA E MAIS IDOSA

A frequência a cultos religiosos no Brasil é maior para mulheres (57%) do que para homens (43%). Em relação à faixa etária, 58% dos frequentadores habituais têm mais de 50 anos
(Fonte: Novo Panorama das Religiões, estudo da Fundação Getúlio Vargas)

O avassalador crescimento dos evangélicos verificado a partir de 1980 é demonstrado na comparação com a série histórica. Desde o primeiro estudo que os contabilizou, um ano após a instauração da República, os números da população evangélica brasileira são estes:

1890 – 143.000

1940 – 1.075.000

1950 – 1.740.000

1960 – 2.825.000

1970 – 4.800.000

1980 – 7.900.000

1991 – 13.200.000

2000 – 26.200.000

2010 – 42.275.000

Fonte: IBGE

O artigo original poderá ser visto por meio do link abaixo:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.   

terça-feira, 25 de agosto de 2015

EVANGÉLICOS JÁ NÃO CRESCEM TANTO QUANTO ANTES



O artigo abaixo foi publicado pela Revista Cristianismo Hoje e assinado pela Redação da revista.

JÁ NÃO CRESCE TANTO

Declínio nas estatísticas de avanço numérico do segmento evangélico sinaliza crise da Igreja.
Escrito por Da Redação

Há coisa de cinco anos, evangélicos de todo o Brasil entraram em festa. Pela primeira vez, desde que o país foi achado pelos portugueses, a fé católica perderia sua hegemonia. Esta, pelo menos, era a previsão de pastores, líderes e pesquisadores diante dos números promissores sobre o avanço da Igreja Evangélica no país. “O Brasil é do Senhor”, frase bradada dos púlpitos e nos programas evangélicos na TV, sintetizava a virada de mesa que aconteceria em breve. Quem cresse e vivesse, veria – e a base para tanto ufanismo eram as estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, que a cada década realiza o Censo da população nacional. No levantamento do ano 2010, chegou-se à cifra de 42,3 milhões de crentes, ou 22,2% do povo brasileiro. O processo fora mais avassalador ainda nas comparações anteriores, que mostravam um avanço de seis vezes do segmento em duas décadas. Em seu estudo A dinâmica das filiações religiosas no Brasil entre 2000 e 2010, o pesquisador José Eustáquio Diniz, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, chegou a dizer que o Brasil poderia ser um país de maioria evangélica já por volta de 2030: “Apenas pelo efeito da inércia demográfica, haverá crescimento da população evangélica.”

Na mesma onda foram muitos pastores e institutos de pesquisa evangélicos. O Departamento de Pesquisas do ministério Servindo Pastores e Líderes (Sepal) divulgou uma estimativa, em 2011, segundo a qual os evangélicos representariam mais da metade da população brasileira já em 2020. “Eles serão aproximadamente 109,3 milhões, para uma população de 209,3 milhões,” previu o teólogo e pesquisador Luis André Bruneto. O entusiasmo era corroborado por grandes manifestações, como a Marcha para Jesus (que, em 2009, levou às ruas de São Paulo quase 2 milhões de pessoas), pela maciça presença midiática dos pastores e pela crescente influência evangélica em setores como a política partidária, entre outros. “O Instituto Superior de Estudos da Religião fez, na década de 90, uma extensa pesquisa sobre a abertura de templos. Eram cinco por semana, só no Rio de Janeiro”, observa o pastor presbiteriano André Mello, na época integrante da equipe do Iser.

Acontece que, se a matemática é uma ciência exata, a dinâmica demográfica, muitas vezes, caminha na direção oposta, e aí não há fé capaz de fechar a equação. Os números relativos à religiosidade do povo brasileiro do Censo 2010 só foram fechados e divulgados mais de dois anos depois, e o festejado crescimento dos evangélicos, que se acelerou de maneira sem paralelo no mundo contemporâneo entre os anos 1980 e 2000, caiu bastante. Os números ainda são ascendentes, mas tendem à estabilização – e até ao encolhimento, como especulam alguns pesquisadores –, o que contraria frontalmente as previsões mais ufanistas. “Entre 1991 e 2000, o aumento médio foi de 120%”, lembra o bispo emérito da Igreja Metodista Paulo Ayres Mattos. Dali em diante, o avanço caiu pela metade. “Isso não pode ser ignorado de forma alguma para quem trabalha com rigor e seriedade as mutações no campo religioso brasileiro”.  Doutor em Teologia e professor da Universidade Metodista de São Paulo, Ayres é estudioso do movimento pentecostal brasileiro e avalia que o fato mais importante dos dados religiosos do último Censo é a diminuição comparativa do crescimento evangélico.

DESCONCENTRAÇÃO

Há diversas razões para essa perda do ímpeto de crescimento, que pôde ser sentida no dia 4 de junho, quando apenas cerca de 200 mil pessoas, na avaliação da Polícia Militar, prestigiaram a mesma Marcha para Jesus nas ruas da capital paulista. “As pesquisas atuais falam em fechamento de templos e dissolução de associações evangélicas por divergências ou luta por poder”, acrescenta André Mello. Tal fragmentação das igrejas, e seu consequente enfraquecimento, é apenas um dos motivos do quadro atual. Ela se verifica tanto na igrejinha da esquina, da qual o pastor assistente saiu para abrir seu próprio empreendimento religioso, até grandes grupos, como a Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Nadando de braçada na explosão evangélica dos anos oitenta e noventa (ver quadro), a denominação de Edir Macedo começou a sofrer a concorrência – é, o termo usado pelos estudiosos é este mesmo, que remete à ideia de disputa por mercado – de grupos saídos de suas entranhas, como a Igreja Mundial do Poder de Deus, fundada e liderada por Valdemiro Santiago, ex-pastor da Universal e atual desafeto do antigo chefe. O estrago é um dos motivos do encolhimento da Iurd, de 2,1 milhões de fiéis, há quinze anos, para os cerca de 1,8 milhão encontrados em 2010. De maneira análoga, diversas denominações têm sofrido fraturas e cizânias que, no médio prazo, acabam dificultando as coisas tanto para a igreja que fica como para aquela que se forma.

“As pessoas, hoje, têm mais liberdade para escolher e combinar diversas opções em seu próprio cardápio religioso, como num balcão de comida a quilo”, continua Paulo Ayres. Para ele, o quadro sinaliza as transformações sociais que melhoraram a situação econômica de boa parte da população nos últimos anos, como as classes C e D. “Isso possibilitou às pessoas resolverem seus problemas mediante meios mais racionais, sem buscar o recurso de soluções milagrosas”. Além disso, o bispo metodista aponta outros fatores, como o aparecimento mais visível dos evangélicos sem igreja e o aumento percentual de pessoas sem religião, ateus e agnósticos no cenário nacional. De fato, o IBGE encontrou 9.218.000 brasileiros que se enquadram na difusa categoria “evangélica não determinada”, que inclui os chamados desigrejados – gente que, apesar da origem evangélica, em determinado momento da vida assumiram uma fé “não institucional”, para usar o termo moderninho. “Tudo isso confirma um dado já identificado anteriormente, trabalhado com bastante competência por sociólogos da religião como Paul Freston”, cita.

Autor de um artigo polêmico, publicado na revista Ultimato em 2011 e no qual questionava as previsões entusiasmadas que anunciavam a quebra da antiga hegemonia religiosa do catolicismo, Freston cunha uma expressão para se referir ao esvaziamento da ideia de pertencimento religioso, antes tão cara aos evangélicos que era comum se ver, nos bancos das igrejas, sucessivas gerações de crentes. “Vários fatores podem estar por trás dessa ‘desdenominacionalização’. São aspectos negativos – como o individualismo e a falta de compromisso – e outros positivos, como a melhora econômica e a consequente diminuição da necessidade de uma relação clientelista numa igreja com liderança forte”. Inglês naturalizado brasileiro e colaborador nos programas de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos, Freston, que atualmente leciona no Canadá, chama a atenção para os subgrupos do universo evangélico brasileiro, lembrando que o fenômeno os atinge em diferentes graus. “As análises se complicam com as mudanças internas do segmento. Segundo o Censo, 60% dos evangélicos são pentecostais; 18% são de missão (ou seja, integrantes de igrejas históricas ou tradicionais); e 22% estão entre os ‘evangélicos não determinados’.”

Ele considera que o espantoso o aumento desta última categoria atrapalha as comparações com os Censos anteriores. Quem seriam eles? “Será que são neopentecostais decepcionados com as suas igrejas, mas que ainda se consideram evangélicos? Ou pentecostais clássicos, de terceira ou quarta geração, em processo de ‘despentecostalização’? Ou crentes de igrejas históricas que perderam a sua identidade denominacional? Ou uma soma de tudo isso e muito mais? De qualquer forma, diminui a porcentagem do mundo evangélico que se diz pentecostal ou que declara adesão a uma denominação categorizada como tal”, descreve o professor. Por outro lado, o Censo anuncia mudanças demográficas no Brasil que não favorecem o movimento, como o acelerado envelhecimento da população e a redução da taxa de fecundidade. Numa coisa, porém, Freston é categórico: “Os dados desmentem claramente as previsões absurdas que circularam de que haveria uma maioria evangélica até 2020. Estas previsões fazem um grande desserviço à comunidade evangélica.”

O avanço da Igreja Evangélica brasileira, alavancado pela explosão pentecostal e neopentecostal de vinte anos atrás, estará perto de bater no teto? “No momento, parecem precoces e arriscadas quaisquer conjecturas desse tipo”, comenta Ricardo Mariano, doutor em Sociologia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Em seu trabalho Mudanças no campo religioso brasileiro no Censo 2010, ele menciona que os sem religião, demograficamente insignificantes até 1970, já chegam a 15,3 milhões de brasileiros. “Eles quintuplicaram de tamanho entre 1980 e 2010, formando o terceiro maior ‘grupo religioso’ do país”, diz no estudo. Ao mesmo tempo, a expansão dos pentecostais na última década pesquisada, de 44%, não chega nem à metade das médias de crescimento obtidas nos dois decênios anteriores, como em 1991 (aumento de 111%) e em 2000, da ordem de 115,4%. O que parece certo, ainda conforme Mariano, é a perda de musculatura de grandes igrejas. “Em 2000, cinco denominações concentravam 85% dos pentecostais. Uma década depois, essa cifra declinou para 75,4%. Tal desconcentração denominacional é decorrente tanto da queda numérica de igrejas como Congregação Cristã no Brasil e Universal quanto do aumento da diversificação institucional do pentecostalismo.”

“QUANTO MAIS CRESCE, MENOS CRESCE”

No caso da Assembleia de Deus, a desaceleração é evidente. Embora fragmentada em diversas convenções e usada até como nome de fantasia para empreendimentos religiosos individuais, as Assembleias de Deus constituem a maior confissão religiosa do país depois do catolicismo – nada menos que 12,3 milhões de brasileiros disseram aos pesquisadores do IBGE que pertencem a uma igreja com essa placa na entrada. “Elas cresceram 245% na década de 1990 a 2000, mas avançaram ‘apenas’ 46% depois disso”, frisa Gedeon Freire de Alencar, membro da Rede Latinoamericana de Estudos do Pentecostalismo (Relep). Em sua tese de doutorado em Ciências da Religião, ele usou como objeto de estudo a denominação fundada há pouco mais de cem anos por missionários suecos. “Uma constatação óbvia se apresenta aos estudiosos: a de que, quanto mais cresce, menos cresce”, prossegue Alencar.

Luis Bruneto, diretor de Pesquisas do Projeto Brasil 21 da Sepal, admite que a previsão de alguns anos, feita ainda com base nos dados do período entre 1991 e 2000, continha erros e precisa de uma releitura. “O crescimento anual dos evangélicos mostrou-se aquém do previsto. O aumento perdeu força”. Segundo ele, o avanço do secularismo na sociedade brasileira, o utilitarismo do discurso evangélico, os escândalos envolvendo pastores e líderes e a falta de higidez teológica e doutrinária ajudam a explicar o atual momento histórico. “Durante anos, a liderança evangélica nacional tem afirmado, categoricamente, que o país experimenta um avivamento espiritual, dados os números tão expressivos. Mas, será mesmo?”, indaga. Bruneto invoca a falta de influência bíblica e profética da Igreja em diversas áreas da vida brasileira, como a política, a segurança pública, o desenvolvimento social e a ética, para exemplificar o paradoxo.

De menos de um por cento da população no início do século passado (ver quadro), o grupo religioso que mais cresceu na história do Brasil está representado em todas as mais de 5,6 mil cidades do país e ainda apresenta índices de expansão bem maiores do que os da população em geral. Mas as oscilações em seu crescimento precisam, ao menos, ser interpretadas como sinal de alerta. “Resta saber o que isso tem representado, na prática, em termos de transformação pessoal e coletiva”, insiste Bruneto. Para Paul Freston, em um futuro próximo, esse enfoque será cada vez mais necessário. “Se não recuperarmos a capacidade de interagir com o texto bíblico, de deixá-lo falar a nós e, a partir disso, tirar as implicações individuais, eclesiásticas e nacionais necessárias, nos mostraremos irrelevantes”, alerta. “A Igreja Evangélica brasileira de 2030 ou 2040 precisará de líderes mais diversos nos seus dons, profundos no seu conhecimento e sabedoria e transparentes nas suas vidas”. Quanto aos fiéis, a recomendação é simples, mas não necessariamente fácil de cumprir: “Precisamos redescobrir o verdadeiro sentido de ser evangélico, que é a vontade de sermos profundamente bíblicos em toda a nossa existência.”

“IMAGEM DESOLADORA”

Pesquisa realizada em junho pelo instituto Gallup mostrou que a maior nação evangélica do mundo já não é mais a mesma. Hoje, os americanos têm menos confiança na religião organizada do que nunca antes, e isso é sinal inquietante de que a Igreja pode deixar de ser um pilar da liderança moral na cultura dos Estados Unidos. Nos anos 1980, a Igreja e a religião organizada compunham a instituição que gozava de maior confiança na América. Agora, no geral, são os militares, as empresas de pequeno porte e a polícia que atraem mais credibilidade do cidadão americano. A Igreja desceu para a quarta posição. “Quase todas as organizações estão em baixa nesse quesito, mas a imagem formada da religião é particularmente desoladora”, avalia a autora do relatório do Gallup, Lydia Saad.

O dado de maior influência no resultado, segundo a pesquisadora, é a crescente quantidade de americanos que se desligam do que se chama de organização religiosa. Outra pesquisa, esta do Instituto Pew, especializado em levantamentos de natureza religiosa, apontou que 23% dos americanos não se identificam com nenhuma religião. Há, também, um declínio crescente de credibilidade nas igrejas Católica e Protestante. O descrédito em ambas cresceu, em pouco mais de trinta anos, na ordem de 50%. Escândalos sexuais e financeiros envolvendo pastores famosos, assim como a denúncia de casos de pedofilia entre o clero católico, colaboraram para essa rejeição.  

O PERIGO DA IRRELEVÂNCIA: ENTREVISTA COM PAUL FRESTON

Doutor em Sociologia e professor catedrático de Religião e Política na Balsillie School of International Affairs e na Wilfrid Laurier University, no Canadá, Paul Freston é um dos mais respeitados estudiosos do movimento evangélico brasileiro. Ele conversou com CRISTIANISMO HOJE.

CRISTIANISMO HOJE - O senhor já provocou polêmica ao contrariar previsões mais otimistas de que o Brasil teria maioria evangélica em sua população. Hoje, ainda pensa assim?

PAUL FRESTON – Não mudei de previsão. Continuo achando que, dentro de duas a três décadas, o crescimento do segmento evangélico irá, basicamente, parar.
Uma de suas preocupações é em relação ao que chama de irrelevância da Igreja devido à ausência de implicações individuais, eclesiásticas e nacionais do texto bíblico. Já chegamos a este ponto?
Não, mas estamos a caminho. Se não houver essa capacidade até o momento do fim do crescimento, aí sim, seremos irrelevantes. O crescimento numérico que ainda se observa nos dá uma relevância, por assim dizer, inercial. Mas depois, precisaremos mostrar mostrá-la de outras formas.

Qual o perfil eclesiástico que terá, então, maior sucesso?

Acredito que as igrejas que tiverem maior solidez teológica e oferecerem ensino mais aprofundado da Palavra de Deus, além de visões atraentes de discipulado, terão mais espaço. Igrejas que não estiverem preocupadas apenas com sucesso numérico, mas que adotarem perfis mais variados dentro da sua liderança, tanto clerical como leiga. Quanto a quais denominações se adequarão a esse perfil, isso vai depender da situação de cada igreja até lá.

MAIORIA FEMININA E MAIS IDOSA

A frequência a cultos religiosos no Brasil é maior para mulheres (57%) do que para homens (43%). Em relação à faixa etária, 58% dos frequentadores habituais têm mais de 50 anos
(Fonte: Novo Panorama das Religiões, estudo da Fundação Getúlio Vargas)

O avassalador crescimento dos evangélicos verificado a partir de 1980 é demonstrado na comparação com a série histórica. Desde o primeiro estudo que os contabilizou, um ano após a instauração da República, os números da população evangélica brasileira são estes:

1890 – 143.000

1940 – 1.075.000

1950 – 1.740.000

1960 – 2.825.000

1970 – 4.800.000

1980 – 7.900.000

1991 – 13.200.000

2000 – 26.200.000

2010 – 42.275.000

Fonte: IBGE

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Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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domingo, 9 de novembro de 2014

FARÃO COMÉRCIO DE VÓS POR AVAREZA — 2 PEDRO 2:3



A entrevista abaixo foi publicada pela Revista História.

Mercados da fé

Ao analisar a trajetória das religiões evangélicas no Brasil, a historiadora Karina Bellotti, da UFPR, afirma que o crescimento do mercado gospel influencia também o consumo atrelado a outras religiões, como a católica

Alice Melo

Neste mês, a Revista de História aborda, em profundidade, a trajetória dos evangélicos no Brasil. Autora de texto que explica a ‘Imagem da capa’ desta edição e fonte da reportagem ‘No ritmo de Jesus’, a historiadora Karina Kosicki Bellotti, professora da UFPR e autora de “Delas é o reino dos céus: mídia evangélica infantil na cultura pós-moderna do Brasil (1950-2000)”, explica o crescimento das religiões evangélicas nas últimas décadas. Em entrevista, a pesquisadora destrincha o surgimento da cultura gospel e indica de que maneira ela está sendo assimilada pela cultura brasileira, em suas múltiplas formas e códigos.

Revista de História da Biblioteca Nacional: Diante do crescimento das igrejas evangélicas nas últimas décadas, poderia explicar as semelhanças e singularidades entre as religiões que vemos hoje?

Karina Bellotti

Karina Bellotti: Observamos um crescimento evangélico, predominantemente pentecostal, desde os anos 1980, mais acentuadamente a partir dos anos 1990.  Uma das principais razões é o empenho de algumas igrejas e de fiéis na evangelização por diferentes maneiras – seja entre seus pares, seja pelos meios de comunicação (uso de rádio, TV, mídia impressa), seja pela estratégia de atração de fiéis em cultos, shows, celebrações, campanhas.

Os chamados protestantes históricos são os luteranos, presbiterianos, metodistas, anglicanos, episcopais, congregacionais – igrejas criadas no século XVI, herdeiras diretas e indiretas da Reforma, e que vieram para o Brasil no século XIX, com imigrantes europeus e missionários norte-americanos. Ao final do século XIX, esse grupo teve algum crescimento na trilha do café e em algumas cidades com núcleos republicanos liberais, que viam nos protestantes uma forma de trazer o progresso – e o embranquecimento – ao Brasil. Foram os primeiros a investir em meios de comunicação para evangelização.

Já os pentecostais surgem de um ramo evangélico americano do início do século XX nos EUA, em cultos que reproduziam o Pentecostes, a passagem bíblica de Atos dos Apóstolos em que o Espírito Santo manifesta-se em forma de glossolalia, dons de cura e profecia, no movimento de avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles, em 1906. A partir de 1910 já havia pentecostais no Brasil – primeiro com Luigi Fancescon, fundador da Congregação Cristã no Brasil, e depois em 1911 com Gunnar Vingren e Daniel Berg, fundadores da Assembleia de Deus. Esse pentecostalismo se diversifica principalmente a partir dos anos 1950 e 1960, com o maior uso dos meios de comunicação, até chegarmos ao tal famoso neopentecostalismo, caracterizado pela Teologia da Prosperidade, pela liberalização dos usos e costumes e pela guerra ao diabo, presentes em maior ou menor grau em igrejas como a Universal do Reino de Deus, Renascer em Cristo, Igreja Mundial do Poder de Deus, dentre outras.

E ainda há uma diversidade de igrejas independentes, comunidades cristãs, casas de oração, devido ao caráter fragmentário do protestantismo. As ideias de livre interpretação das Escrituras e do sacerdócio universal dos santos, trazidas por Lutero, retiraram a autoridade da Igreja Católica na devoção e no controle dos rituais, da “comunicação” entre o fiel e a divindade, permitindo que qualquer pessoa pudesse sentir o chamado para servir a Deus – e abrir sua igreja. Esses elementos também são responsáveis pela atuação dos evangélicos – muitos que se convertem querem testemunhar a transformação que Deus fez em suas vidas, fazendo uma “evangelização informal”, no dia a dia – usando inclusive produtos do chamado “mercado evangélico”, camisetas, folhetos, cartões, marca páginas e presentes com mensagens evangelísticas, músicas, dentre várias opções de produtos que existem atualmente.

RHBN: É possível afirmar que há uma identidade evangélica brasileira?

KB: Acho arriscado afirmar que existe uma identidade evangélica brasileira – os historiadores devem procurar as diferenças dentro da diferença, parafraseando Joan Scott. Da mesma forma que não é possível falar de uma identidade católica brasileira, pois há vários catolicismos dentro do catolicismo. O que ocorre é que vivemos desde os anos 1950/1960 um período de competição religiosa, que tem acentuado determinadas tendências, como o carismatismo, além do próprio crescimento do mercado evangélico, que cria determinadas padronizações de produtos para o público evangélico – livros de autoajuda e de vida cristã, música “gospel”, vestuário, e até material escolar – que tem sido consumido por evangélicos das mais diferentes tendências. Porém, há diferenças profundas que precisam ser consideradas.

RHBN: O que diferencia as manifestações culturais evangélicas no Brasil do resto do mundo?

KB:De maneira geral, o protestantismo e o pentecostalismo brasileiro possuem uma forte ligação cultural com matrizes norte-americanas, mesmo que muitas igrejas atuais sejam nacionalizadas há gerações. A cultura evangélica norte-americana, que nunca foi homogênea, transita pelo mercado editorial, pelo mercado fonográfico, pelo circuito de palestras de pastores e pregadores no Brasil, e pela circulação de pastores e lideranças brasileiras por universidades e igrejas americanas. Vejo semelhanças, como o crescente investimento em estratégias empresariais de gestão de igrejas e de formação de lideranças; mas também vejo diferenças, como o maior crescimento pentecostal no Brasil – algo que nunca ocorreu de forma significativa dos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, a chamada “Igreja Eletrônica” era uma entidade autônoma – existem ministérios de comunicação em que uma liderança vive de seu trabalho na mídia, em diversos meios. Já no Brasil, a comunicação é tanto usada para atrair pessoas para as igrejas, como também é a missão, o ministério de alguns evangélicos. Porém, é marcante o fato de o protestantismo sempre ter sido uma religião “de minoria”, vista por boa parte da sociedade brasileira como culturalmente estranha ao cenário afro-católico-espírita; é com essa realidade que os protestantes no Brasil sempre dialogaram, enquanto que nos Estados Unidos o protestantismo é a religião eleita como parte integrante da identidade nacional.

Carla Ribas, apresentadora de programa de TV da Assembleia de Deus / Acervo: Centro de Estudos do Movimento Pentecostal

RHBN: Com a fragmentação de identidades na sociedade atual, o que entendemos por cultura brasileira está mudando. Neste movimento, o que ela estaria incorporando destas religiões que tradicionalmente não fazem parte da 'matriz religiosa' brasileira? E o contrário?

KB:Não acredito que exista uma só cultura brasileira – existem práticas e crenças mais identificáveis com a nossa história, mas não há como falar em algo genuíno deste ou daquele lugar, como se não houvesse um mínimo de hibridismo. Porém, para dar um exemplo bem conhecido, o caso das sessões de descarrego da Igreja Universal são uma forma de hibridismo de uma prática não muito comum do cristianismo – o exorcismo, a expulsão de demônios – e o descarrego feito na umbanda, mas com um outro sentido. Na Universal, espíritos conhecidos na umbanda e no candomblé são demonizados - coisa que não ocorre nas religiões afro – e são exorcizados como forma de limpeza e libertação espiritual.

Sobre a via contrária: a questão da influência do protestantismo na cultura brasileira é uma preocupação de lideranças e até de intelectuais do meio. A atuação das igrejas chamadas “neopentecostais” têm mudado a dinâmica religiosa no Brasil, imprimindo uma competitividade que mobilizou a Igreja Católica a investir mais ostensivamente na evangelização e nos meios de comunicação, além da maior presença do carismatismo tanto no pentecostalismo como na Renovação Carismática Católica. Em algumas emissoras católicas, por exemplo, vemos a venda de produtos abençoados, livros, vídeos e CDs e DVDs, tal como em alguns programas evangélicos. O crescimento evangélico tem diminuído o número de terreiros em alguns lugares do Brasil, pela conversão de muitas mães e pais de santo. E também vemos uma pentecostalização do campo evangélico, com a incorporação de dons de cura e profecia, e até descarrego e cultos de libertação e ideias de prosperidade em igrejas que historicamente não o faziam, como algumas Assembleias de Deus. Agora, se isso trará uma mudança em termos de “ética protestante” – se é que podemos pensar dessa forma -, não vejo como medir em termos nacionais.

RHBN: Num tempo em que a felicidade é vendida como objeto de consumo, por que uma 'mercantilização da fé' é tão mal vista pela parte não-crente da sociedade?

KB: Porque no Brasil a religião sempre teve uma relação mais dissimulada com o dinheiro. Durante a Colônia e o Império, o catolicismo era a religião oficial, não necessitando do sustento direto dos fiéis, pois também contavam com recursos externos. Já as igrejas protestantes sempre foram autônomas e dependeram dos seus próprios recursos, incluindo o dízimo – que também faz parte das práticas católicas. Isso é um ponto – a ideia de que religião e dinheiro não se misturariam, um macularia o outro.

Quem de fato introduz um mercado de produtos cristãos são os evangélicos, inspirados no modelo americano, a partir dos anos 1980. Antes disso, a mídia impressa foi a maior produtora de bens culturais religiosos consumidos. Além disso, um incipiente mercado fonográfico surge a partir dos anos 1960 e 1970, desenvolvendo-se em gigantes como a MK, a Line Records, e até selos cristãos em gravadoras seculares, como a Som Livre e a Sony Music.

Outro elemento que surge e circula pelos meios de comunicação é a chamada “Nova Era”, um conjunto de práticas e crenças que alia tradições orientais e ocidentais, esoterismo e misticismo, e que se difunde por livrarias, oficinas, cursos, programas de TV e rádio, vídeos, apontando para uma religiosidade mais fluida e individualizada. Mas, quando os produtos em questão são vistos de alguma forma como “portadores de cultura”, parecem não carregar uma aparência de “mercadoria”. Agora, o outro lado do conceito de “mercantilização da fé” estaria na venda de bens religiosos, de promessas de salvação ou de libertação de males físicos, emocionais, ou de carências materiais, disponíveis pela lógica da Teologia da Prosperidade, em que o fiel deve dar uma oferta em dinheiro em troca deste bem. Pois bem, isso também ocorre nas religiões afro – vemos aqui a ideia da troca do fiel com a divindade, para receber um benefício na terra.

Por isso, é importante que os historiadores que estudam religiões no tempo presente possam problematizar esses preconceitos e sensos comuns sobre as religiões no geral, pois há uma grande diversidade de práticas e crenças, atendendo a diferentes necessidades, sentimentos e vontades, e que se transformam ao longo do tempo e no contato diário entre crentes, e não-crentes. Saber olhar para o que é dinâmico é tão importante quanto reconhecer as permanências dentro dos fenômenos religiosos.

O artigo original da revista História poderá ser visto por meio desse link aqui:


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sábado, 8 de novembro de 2014

OS EVANGÉLICOS E A CULTURA BRASILEIRA


O Congresso Mundial Pentecostal, realizado em São Paulo pela Assembléia de Deus. A igreja tornou-se bastante conhecida, inclusive em outras religiões, pela grandiosidade de seus templos e eventos. 
O Congresso Mundial Pentecostal, realizado em São Paulo pela Assembleia de Deus. A igreja tornou-se bastante conhecida, inclusive em outras religiões, pela grandiosidade de seus templos e eventos.

O artigo abaixo foi escrito por Alice Melo e publicado na Revista História

No ritmo de Jesus

Donos de uma expressiva indústria gospel, os evangélicos vêm tentando se firmar como produtores de cultura brasileira

Alice Melo

Diante da multidão, sob os holofotes coloridos, ela canta, pula e dança no ritmo do calipso paraense – gênero conhecido em alguns estados do Brasil como brega. Ao contrário do que acontece no espetáculo que ficou famoso na voz de Joelma e nos acordes estridentes da guitarra de Chimbinha, a performance de Mylla Karvalho dispensa o excesso de purpurinas e lantejoulas, shorts curtos e tops que mostram a barriga. Em suas apresentações atuais, a hoje pastora de uma igreja neopentecostal em Palmas (TO) canta apenas músicas de adoração ao Senhor. Nem sempre foi assim: antes de encontrar Jesus, ela fazia parte da banda secular Companhia do Calypso, sucesso no circuito de entretenimento do Norte. Em 2007, após a decisão de se converter ao Evangelho, tornou-se a primeira pessoa a adaptar a batida regional à música gospel, e rapidamente conquistou uma legião de fãs.

“Deus habita em meio a louvores. As pessoas podem até não gostar de religião, mas quem não gosta de música ou mensagens de amor?”, comenta a loura, que em 2013 vai lançar um DVD com seus mais recentes hits, como “Se joga, minha vida” e “Eu acredito em Deus”. Segundo ela, a maior estrela de seus shows é Cristo, e por isso se apresenta de forma mais comedida, sem o remelexo sensual característico de suas antigas aparições nos palcos. “Através da nossa música, muita gente tem sido liberta. Sempre ouço testemunhos de pessoas que achavam gospel careta, que não sabiam que tinham esses ritmos e que, por meio dos encontros, se sentiram tocadas e foram levadas para a igreja. A Bíblia diz que os ritmos são de Deus, o diabo é quem copia, que transforma, perverte”. Afinal, “na casa do Senhor não existe Satanás”, como alertava o famoso bordão baiano.

A ideia passada por Mylla Karvalho está cada vez mais presente no discurso de uma nova geração de evangélicos que vem se adaptando às necessidades específicas de algumas localidades e contribui para que dogmas, antes rigorosos, sejam modificados. Nessa esteira de transformação e assimilação cultural, bailes funk, rodas de samba e pagodes de Jesus começam a pipocar e a atrair multidões no Sudeste; festas de forró animam arrasta-pés de Cristo no Nordeste; e canções sertanejas em ode ao Senhor, tocadas no Centro-Oeste, se tornam cada vez mais comuns, principalmente em zonas pobres das cidades. Sucesso que dá lucro: o mercado gospel movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano, sendo 10% apenas com a indústria musical.

As cerimônias organizadas pelas igrejas descendentes do protestantismo se tornam sinônimo de uma diversão inocente – sem bebida alcoólica, drogas e sexo – e vêm atraindo centenas de milhares de jovens não religiosos para perto dos ensinamentos cristãos. A meta é a mesma de outrora: a conversão e a pregação da palavra sagrada. A pesquisadora Magali do Nascimento Cunha, professora da Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, classifica o fenômeno como uma modernização conservadora e reforça a existência de uma “cultura do não”, baseada na negação do prazer pelo corpo.  “A igreja é o espaço sagrado, mas recebe o divertimento. Se é um show gospel, o fiel pode ir; se é um culto profano, não”. Mas a abertura existe, e ao mesmo tempo que as igrejas evangélicas se transformam com o balanço da sociedade brasileira, a sociedade vai mudando seu jeitinho com as vozes destas religiões, que, historicamente, não eram sua principal matriz.

Ubirajara Calmon Carvalho, teólogo e professor da UnB, associa o crescimento das igrejas evangélicas à criação de redes acolhedoras em um ambiente social hostil. Isto aconteceria por causa da adoção de um discurso popular, voltado para as necessidades locais: “Ao entrar numa igreja evangélica, a pessoa é recebida na porta, como se estivesse sendo recebido na própria casa. É conhecida pelo nome, e é prometida a ela a bênção divina”. Ora, isso não acontece muito na Igreja Católica, por exemplo, que mantém uma distância de seus crentes, demonstrada pelo anonimato dos fiéis.

Mas esta rigidez aparente da Igreja de Roma também vem sendo influenciada pela malemolência do neopentecostalismo: sua produção cultural tem bebido na fonte do mercado evangélico. A historiadora Karina Bellotti, professora da Universidade Federal do Paraná, lembra que “a atuação das igrejas neopentecostais tem mudado a dinâmica religiosa no Brasil, imprimindo uma competitividade que mobilizou a Igreja Católica para investir mais na evangelização e nos meios de comunicação, além da maior presença do carismatismo”. Ela ainda chama atenção para a disseminação de práticas pentecostais entre antigos adeptos de outras religiões e outras confissões evangélicas: “Esse crescimento tem diminuído o número de terreiros em alguns lugares do Brasil pela conversão de muitas mães e pais de santo, assim como também vemos a incorporação de dons de cura e profecia, e até descarrego e cultos de libertação e ideias de prosperidade em igrejas evangélicas que historicamente não o faziam”.

Outro exemplo de adaptação dos evangélicos ao “mundo”: na década de 1960, a guitarra elétrica era considerada um instrumento do Diabo pela moral cristã, assim como a bateria. Hoje, incorporados por bandas que acompanham o coro de algumas igrejas, até mesmo das mais tradicionais, os instrumentos têm uma utilização sacra. Na contramão do jogo de influências culturais, a música erudita das igrejas chamadas de “protestantes históricas” motiva milhares de jovens a continuar estudando notas e partituras e aplicando seu conhecimento fora da esfera religiosa. Na Orquestra Sinfônica Brasileira, um terço dos músicos é de evangélicos, incluindo o maestro Roberto Minczuk. Religioso assumido, ele lembra que aprendeu as primeiras notas na igreja evangélica que frequentava, em São Paulo. Seu pai regia o Coro da Polícia Militar e pegava emprestados alguns instrumentos para incentivar os jovens da vizinhança. “Lá toquei bombardino, trompete, e só quando estava maior comecei a tocar trompa. A música sempre esteve presente nos cultos, e sem essa relação não teríamos o privilégio de ter compositores geniais como Johann Sebastian Bach, por exemplo, que dedicou grande parte de sua obra aos ofícios religiosos”, conta.

As trocas culturais não se restringem à música e tampouco à ordem dos espetáculos, como teatro, cinema, dança, ou mesmo aos esportes. Elas alcançam facilmente a esfera econômica e política. “O movimento é plástico”, observa a socióloga Maria das Dores Campos Machado, professora da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ao comentar que há uma reconfiguração dos grupos religiosos em função das mudanças da sociedade. “Quando um grupo cresce, ele tende a perder a capacidade de controle sobre si mesmo. Diante da mudança social, os religiosos acabam fazendo uma reconfiguração das ideias e valores ou assumindo uma posição contrária à sociedade. O pentecostalismo brasileiro já se liberalizou. Nos anos 1970, por exemplo, viam-se fiéis da Assembleia de Deus com cabelos compridos, saias abaixo do joelho. Hoje, há cultos dentro de salão de beleza”.

O crescimento que motiva a mudança é visível: de acordo com dados do Censo de 2010, coletados pelo IBGE, os evangélicos representam 22,2% da população brasileira, ou seja, 42,3 milhões de pessoas. Um aumento de 6,8% em uma década, diante do recuo do catolicismo, que passou, no mesmo período, de 73,6% para 64,6% da população. Os números são muito comentados pela mídia, como se fizessem parte de uma explosão, mas, na verdade, indicam um crescimento de anos. Para Machado, todo esse alarde se relaciona com o fato de os evangélicos estarem se institucionalizando, principalmente na política. A formação de uma bancada evangélica no Congresso, com interesses morais e econômicos rígidos, que vem conseguindo pôr em prática suas promessas de campanha, chama a atenção.

Na verdade, o que estaria acontecendo agora seria a retomada de uma “agenda moral”, deixada em segundo plano por anos, diante de outras preocupações assumidas pelos religiosos com um pezinho na política – ou mesmo políticos regidos pelas doutrinas cristãs. A socióloga explica: “Em tempos de ditadura, o principal assunto no Brasil era a luta pela democratização e defesa dos Direitos Humanos. A sociedade está cada vez mais secularizada, e as diferentes formas de comportamento são regulamentadas pela esfera jurídica; as decisões passam ao largo das igrejas”. O caminho que os religiosos encontram para voltar a reger a moral pública, portanto, não é o da palavra sagrada, mas o da participação no Poder Legislativo. Por isso passou a ser comum a discussão legal sobre o aborto, o casamento gay, a eutanásia, temas que têm ligação direta com a interpretação do certo e do errado que se faz a partir da leitura da Bíblia.

A cultura gospel também conquista seu espaço na institucionalização da fé com uma mãozinha da política. Em janeiro deste ano, por exemplo, foi sancionada pela Presidência da República a lei que reconhece a música gospel como manifestação cultural, permitindo que este tipo de produto se beneficie da Lei Rouanet, de incentivo fiscal à cultura. Um ano antes, em Belém, as comemorações do centenário da Assembleia de Deus no Brasil renderam bons frutos: a igreja central fundou seu próprio Museu Histórico Nacional, integrado ao circuito cultural municipal, que chegou a ser reconhecido como Patrimônio Cultural do estado do Pará. Instalado em um prédio secular cedido pela prefeitura na cidade antiga, o museu conta não apenas o passado da igreja de missão, mas também o da cidade, por meio de objetos, documentos, livros e fotografias do acervo.

É uma tentativa de fazer parte da história oficial, de se reconhecer como parte de um passado social e de ser reconhecido socialmente como sujeito ativo que constrói diariamente uma cultura dinâmica – como tem sido, há séculos, a cultura brasileira.

Saiba Mais - Bibliografia

BELLOTTI, K. K. Delas é o Reino dos Céus. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2010.

MACHADO, Maria das Dores Campos. Carismáticos e Pentecostais: Adesão Religiosa e seus Efeitos na Esfera Familiar.Campinas: Editora Autores Associados/Anpocs, 1996.

MAFRA, Clara. Os Evangélicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

O artigo original da revista História poderá ser visto por meio desse link aqui:


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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

BREVE HISTÓRIA SOCIAL DO PENTECOSTALISMO — NÓS CONTRA O MUNDO


Culto típico pentecostal.

O material abaixo foi publicado por Marcos Alvito na Revista História.

Pentecostais ajudam na inserção social dos mais pobres, mas criam uma guerra espiritual: fora da igreja só existe o Diabo

Marcos Alvito


Os cultos evangélicos se adaptam às condições mais simples da população. (Acervo Centro de Estudos do Movimento Pentecostal / CPAD - RJ)

Daqui a 20 minutos,quando você terminar de ler este artigo, haverá mais 350 pessoas convertidas à fé evangélica mundo afora. Trata-se de uma “onda evangélica” que avança inclusive nas grandes metrópoles do Ocidente, como Londres e Paris, onde esses religiosos estão cada vez mais presentes nos bairros de imigrantes. E, como sabemos, no Brasil.

Seja onde for, a corrente que puxa essa multiplicação de fiéis é representada pelas igrejas pentecostais. No Brasil, elas se concentram nas áreas pobres dos centros urbanos, onde ainda se encontram altos índices de analfabetismo (cerca de 8,6%, embora esteja decrescendo também entre eles) e onde a renda per capita é de até um salário-mínimo. Quase um terço dos pentecostais vive em situação de pobreza aguda, com renda familiar per capita igual ou inferior a meio salário-mínimo. Multiplicam-se, sobretudo, nessas regiões onde grassam com mais força o desemprego, a violência, o estigma da pobreza cotidianamente realimentado pelos meios de comunicação, o preconceito racial ou étnico, a inexistência ou deficiência dos equipamentos públicos, o sistema escolar deteriorado e a precariedade das moradias.

Estão nas áreas urbanas das grandes metrópoles dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo e no Nordeste, mas também têm forte presença nas regiões Norte e Centro-Oeste. Os fiéis estão entre os mais jovens de todas as religiões (média de 27 anos de idade) e são, na maioria, mulheres: quase 20% mais numerosas que os homens. Quanto à cor declarada pelos próprios fiéis, quase 60% dos pentecostais são negros (8,5%) e pardos (48,9%), o que corresponde a um número 13% acima da média nacional.

A visão de mundo compartilhada pelos pentecostais é bastante peculiar. Há uma oposição binária entre o “mundo” e a “igreja”. O “mundo” é o espaço do pecado, da violência, do vício da bebida ou da droga, do sofrimento cotidiano, do Mal. Quem governa o “mundo” é o Diabo, uma figura central no culto pentecostal, continuamente evocada para explicar as dificuldades, as agruras e as tragédias vividas pelos fiéis. O Diabo estaria sempre à espreita, tentando desviar o fiel do caminho de Deus, criando-lhe problemas para enfraquecer sua fé. Deus governaria a “igreja”, a comunidade de fiéis reunida por um pastor, que os guiaria no caminho reto. Os cultos pentecostais representam uma verdadeira dramatização desta contínua batalha entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo.

Mas para entender uma religião, não se pode levar em conta somente a doutrina. Estudiosos da religiosidade sabem que a fé não nasce da meditação silenciosa, e sim na participação nos cultos coletivos. Eles permitem ao fiel se “reaquecer moralmente”, vivenciando a fé como “calor, vida e o entusiasmo que transportam o indivíduo para além de si mesmo”, como já escreveu Émile Durkheim (1858-1917). Os cultos pentecostais são extremamente “quentes”, com uma estrutura pautada no diálogo constante entre o pastor (ou pastora) e os fiéis, uso frequente de músicas, manifestações corporais intensas e testemunhos dos seguidores. Os líderes religiosos muitas vezes são pessoas da localidade, que vivem a mesma vida e têm os mesmos problemas que seus fiéis, além de falarem a mesma “linguagem”. Os cultos são diários, costumam durar duas horas, e continuamente reafirmam o pertencimento do fiel à igreja.

Ao contrário do dito popular, na religião o que vale não é o “ver para crer”, mas sim o contrário: aquele que crê começa a ver, começa a pensar e a visualizar o mundo segundo seus preceitos. A crença lhe dá uma arma poderosíssima para enquadrar tudo o que ocorre no mundo. Nada fica sem explicação. No caso da pentecostal, isso é facilitado por aquela oposição binária entre Bem e Mal, Deus e o Diabo, a igreja e o mundo. Tudo o que acontece com o fiel ou em torno dele pode ser encaixado neste esquema de pensamento. Em um mundo hostil, complexo, em que a velocidade das mudanças é tremenda, em que tudo parece ser posto em xeque e relativizado, a chave binária pentecostal é eficiente e tranquilizadora.

Além disso, a igreja, formada pela comunidade de fiéis, atua como uma rede de proteção social, fornecendo apoio psicológico e até material a uma população que vive em situação de grande vulnerabilidade social. Funciona como um círculo de solidariedade entre os fiéis, que se tornam amigos, conseguem empregos uns para os outros, envolvem-se em namoros e casamentos, solidificando ainda mais estes laços “internos”. Em áreas degradadas e estigmatizadas, pertencer a uma igreja evangélica eleva o status do fiel perante seus vizinhos e mesmo diante dos empregadores, aumentando a possibilidade de ascensão profissional e relativo sucesso financeiro. 
Afinal, outro traço frequente em boa parte das igrejas pentecostais reside na chamada Teologia da Prosperidade – a ideia de que os fiéis estão destinados à riqueza e à felicidade, desde que demonstrem generosidade em suas ofertas a Deus.

O avanço pentecostal teve consequências dramáticas em outras esferas. Como sua visão de mundo é marcada pela ideia de uma guerra espiritual, seus concorrentes principais no campo religioso são considerados demoníacos. Expressam hostilidade em relação aos católicos, por defenderem que somente os evangélicos merecem ser chamados de “cristãos”. Combatem incessantemente os cultos afro-brasileiros, umbanda e candomblé, abarcados por termos depreciativos, como macumbaria, feitiçaria e magia negra. Este ataque cerrado é mais agudo entre determinadas igrejas da subcorrente neopentecostal, das quais a mais famosa é a Igreja Universal do Reino de Deus, que trata de incorporar práticas mágicas existentes nas religiões afro-brasileiras, mas dando a elas um significado invertido e “positivo”. Se o banho de ervas do lado de lá é “macumbaria”, do lado de cá há o “sabão ungido”. Esta “guerra espiritual” não se restringe aos templos, mas alcança as ruas, as escolas e até mesmo o Congresso Nacional, onde a bancada evangélica (sobretudo pentecostal) cresceu 50% em relação à última legislatura.

Quem não está com você está contra você. A visão dicotômica dos pentecostais não é nada gentil com as religiões afro-brasileiras, parte importante do patrimônio cultural brasileiro. Frente a essa visão de mundo, a invenção de formas de convivência pacífica entre diferentes religiões – em respeito à lei brasileira – será um desafio cada dia mais importante para todos nós.

Marcos Alvitoé professor da Universidade Federal Fluminense e autor de As Cores de Acari (Editora da Fundação Getulio Vargas, 2001).

Saiba Mais - Bibliografia

CAPUTO, Stela Guedes. Educação nos Terreiros – e como a escola se relaciona com crianças de candomblé. Rio de Janeiro: Pallas, 2012.

MAFRA, Clara. Os evangélicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

MARIANO, Ricardo. “Crescimento pentecostal no Brasil: fatores internos”, em Rever, Revista de Estudos da Religião, dezembro de 2008.

PRANDI, Reginaldo. Herdeiras do Axé. São Paulo: Hucitec, 1996.

Saiba Mais -  Internet

Revista USP

MARIANO, Ricardo. “Igreja Universal do Reino de Deus: a magia institucionalizada”.

http://www.usp.br/revistausp/31/11-ricardo.pdf

Saiba Mais - Filme

“Santo Forte”, de Eduardo Coutinho. Rio de Janeiro: Cecip/RioFilme. 

Link:http://eduardocoutinho.blogspot.com.br/2007/09/santo-forte.html

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domingo, 21 de setembro de 2014

OS PENTECOSTAIS E O PAPA FRANCISCO I


Ecumenismo


O material abaixo foi publicado pelo site da Revista ISTOÉ e é de autoria de Paula Rocha.

O papa e os pentecostais

Durante visita a uma igreja evangélica na Itália, Francisco pede perdão pelas perseguições cometidas por católicos aos evangélicos

Paula Rocha (paularocha@istoe.com.br)

Desde o início de seu pontificado, o papa Francisco não tem se esquivado de abordar temas polêmicos, como os casos de pedofilia na Igreja Católica e a corrupção no Vaticano. Agora, em uma visita a um templo evangélico na Itália, na semana passada, o pontífice pediu perdão aos pentecostais por perseguições cometidas pelos católicos, especialmente durante o regime fascista italiano (1922-1943), quando essa denominação religiosa era proibida por lei. “Entre as pessoas que perseguiram os pentecostais houve também católicos: eu sou o pastor dos católicos e peço perdão por aqueles irmãos e irmãs que não compreenderam e que foram tentados pelo diabo”, afirmou Francisco. A declaração foi feita em um encontro com mais de 350 fiéis protestantes na cidade italiana de Caserta, ao norte de Nápoles, onde Francisco também se reuniu com o pastor protestante Giovanni Traettino, seu amigo de longa data.

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IRMÃOS: Francisco chega ao templo protestante na Itália, onde se reuniu com o pastor Giovanni Traettino, seu amigo de longa data

Durante o ato público, que durou cerca de uma hora e meia, o pontífice também rogou a união de todos os cristãos. “O Espírito Santo cria diversidade na Igreja. A diversidade é bela, mas o próprio Espírito Santo também cria unidade, para que a Igreja esteja unida na diversidade: para usar uma palavra bonita, uma diversidade reconciliadora”, disse. A atitude ecumênica do papa Francisco foi bem recebida tanto pela comunidade evangélica, quanto pela católica, e pode sinalizar uma mudança na postura dos fiéis dessas duas religiões, na opinião de Fernando Altemeyer Júnior, doutor em ciência da religião pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo. “A declaração de Francisco é um primeiro passo em busca da conciliação desses fiéis. É um pedido para que eles deixem preconceitos de lado e se unam como irmãos, algo muito positivo”, disse o teólogo. O corajoso pontífice argentino, mais uma vez, está tentando corrigir os rumos de sua Igreja Católica.

Foto: AFP/Observatore Romano.

O artigo original do site da ISTOÉ poderá ser visto por meio desse link aqui:


NOSSO COMENTÁRIO.

1. É sempre salutar reconhecer os erros do passado e pedir perdão pelos mesmos. Nesse quesito o Papa Francisco está absolutamente correto.

2. Todavia quanto a unidade entre os cristãos isso não é algo que compete a nós, os seres humanos. Tal unidade é criada pelo Espírito Santo conforme podemos ler abaixo:

Efésios 4:1—3

1 Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados,

2 com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor,

3 esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz.

Note que não precisamos criar a unidade. Ela é criada pelo Espírito Santo. Nossa missão é nos esforçar diligentemente de modo a preservar essa unidade que o Espírito Santo nos proporcionou.
E temos certeza que a unidade que o Espírito cria está diretamente vinculada com uma obediência incondicional aos ensinamentos da Escrituras Sagradas sem nenhuma intromissão de qualquer tradição humana, venha de onde vier.

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Que Deus abençoe a todos e ajude todos a enxergarem essas simples verdades.
Alexandros Meimaridis

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