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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

REFORMA PROTESTANTE: 499 ANOS. APRENDEMOS ALGUMA COISA?


Lutero diante da Dieta de Worms - Concepção artística

O artigo abaixo é de autoria do irmão presbiteriano Lucas Freitas e tem a intenção de nos ajudar a refletir o quanto aprendemos com a Reforma Protestante que completa 499 anos em 31 de outubro de 2016. Por meio de comparações precisas, Lucas nos mostra o quão distante dos princípios e ideais da Reforma Protestante se encontram os chamados evangélicos nessa segunda década do século XXI.

Reforma Protestante e o movimento evangélico brasileiro
Lucas Freitas 

O movimento evangélico brasileiro, ao menos no discurso, afirma seu vínculo histórico com a Reforma Protestante do século XVI, contudo, seus desdobramentos práticos em nosso país, infelizmente, têm estado bem distantes de tal realidade e promovido inúmeros ensinos distorcidos que desembocam em atitudes equivocadas, que corrompem a verdade da Escritura, a saúde da igreja e a vida dos que estão e se aproximam desta de um modo geral.

Foi o saudoso Bispo Robinson Cavalcanti quem disse:

“Qual o jovem cristão hoje que pode minimamente discorrer sobre Lutero, Calvino, Melanchton ou Beza? Qual é o fiel de hoje que conhece os catecismos ou as confissões de fé como as de Westminster, de Augsburgo ou XXXIV Artigos da Religião? Em relação à Reforma o nosso protestantismo é como um computador primitivo, não possui memória, apenas uma vaga lembrança.”

Infelizmente nos dias atuais promovemos muito mais a experiência, os resultados e os relacionamentos, enquanto que a fé, a confessionalidade, o ensino robusto e o amor à Escritura como palavra pela qual Cristo governa Sua igreja são deixados de lado, rotulados como “chatos e dispensáveis” ou enquadrados dentre as atividades que “não empolgam ninguém”. Não é difícil presenciar, eu mesmo já o fiz, pessoas dentro das igrejas evangélicas brasileiras que não têm a menor ideia das suas origens como cristãos, que ao ouvirem o termo “Reforma” confundem o movimento do século XVI com uma possível reforma aqui ou ali na construção do templo. Claro que não estou falando de irmãos novos na fé que ainda carecem de conhecimento básico, estou falando de moços, moças, homens, mulheres, gente adulta inteligente, que frequenta igreja por 2, 3, 5, até 10 anos. É claro também, que não estou generalizando, existe um sem número de igrejas sérias em nosso país e o movimento de retorno às Escrituras e à ortodoxia tem crescido consideravelmente, porém, a quantidade de cristãos protestantes brasileiros que tem pouca ou nenhuma informação a respeito de quem são, de onde vêm suas raízes e porque recebem o nome de ‘cristãos protestantes’ ainda assim é alarmante.

E você, sabe do que se trata a Reforma Protestante?

A Reforma Protestante foi o movimento que lutou contra o clericalismo e o hierarquismo que dominavam a Igreja Católica Romana no final do século XV, início do século XVI, e, por conseguinte, grande parte da estrutura social da época, hasteando com toda força a bandeira da doutrina bíblica do sacerdócio universal dos crentes e da suprema autoridade das Escrituras Sagradas sobre a vida do cristão. Numa época onde apenas clérigos, nobre e reis podiam ler e escrever, os reformadores espalharam escolas e universidades pela Europa balizados na ideia de que todo ser humano fora criado a imagem e semelhança de Deus e tem o direito a alfabetização e ao aprendizado, e que toda atividade é santa perante Deus e pode ser feita de forma excelente para Sua glória. No anseio de formar gente para servir a Deus e aos homens em todas as áreas da vida, contrapondo em absoluto a prática católica romana da época, algumas das instituições fundadas pelos reformadores na área da educação foram as Universidades de Genebra, Zurique, Utrech, Amsterdã, Harvard, Yale, Princeton, Brown, Dartmouth e Rutgers. Os Puritanos restauraram Oxford e Cambridge. A Reforma foi muito mais que um movimento religioso, os reformadores lançaram as bases para uma nova sociedade, empoderando cristãos a se especializarem nos dons que tinham para servir a quem quer seja, onde quer que fosse para a glória de Deus. Estavam abertos os portões para uma grande revolução na história da humanidade.

Michael Horton em seu livro “O cristão e a cultura” mostra com veemência o quanto nossos pais criam que Deus é Senhor de toda a nossa vida! Horton descreve esta imensa mudança que o mundo experimentou com a Reforma Protestante nas figuras de Lutero e Calvino:

Martinho Lutero persuadiu o governo a proclamar a educação universal compulsória tanto para meninas como para meninos, pela primeira vez na história ocidental. Com seus associados ele criou um sistema de educação pública na Alemanha. O cristianismo era religião da Palavra, e aqueles que dependiam de imagens religiosas e só “ouviram falar” eram, a princípio espiritualmente empobrecidos. Mas eram também culturalmente empobrecidos e esse era um ponto igualmente importante. Com esse propósito o colega de Lutero, Melanchthon, declarou: “A finalidade última que confrontamos não é apenas a virtude particular, mas o interesse do bem público.”

Calvino argumentava na seguinte linha: Visto que é necessário preparar as gerações futuras a fim de não deixar a igreja num deserto para os nossos filhos, é imperativo que se estabeleça um colégio para se instruir os filhos e prepará-los tanto para o ministério quanto para o governo civil.” (Ordenanças de 1541)

Os reformadores acreditavam que todo homem tem direito de ser respeitado, valorizado e ensinado. Não é o fato se ser Rei, governante, nobre, professor, enfermeiro, gari ou um pastor que confere maior santidade e um lugar mais importante a alguém junto de Deus, afinal, é muito possível encontrar um pastor relapso, preguiçoso e desonesto para com os estudos da Escritura Sagrada e suas atividades pastorais, que traz desonra e vergonha para Deus, e, uma dona de casa caprichosa e amorosa que faz seu trabalho com afinco e orgulho, que traz glória para Deus. Não é o que fazemos que traz mais ou menos glória para Deus, e sim como fazemos. Somos cristãos em todos os momentos, em todos os lugares, fazendo todas as coisas, não apenas quando estamos de batina ou de terno e gravata encaixotados dentro de um “templo” religioso. Ideias como essas revolucionaram nações inteiras na Europa e serviram como grandes fogueiras que deixaram o velho continente em chamas e o corpo de inúmeros mártires cristãos em cinzas neste período da história.

Foram os reformadores que tiveram a coragem de tomar a autoridade da igreja das mãos da tradição e do clero e entregá-la de volta às Sagradas Escrituras, foram eles que nos lembraram novamente que somos salvos apenas pela graça, mediante a fé, e que a obra da salvação e qualquer movimento de avivamento nunca foi e nunca será protagonizado e provocado por algum homem, e que todo aquele que crê, só crê porque o Espírito Santo o convenceu do pecado da justiça e do juízo. Os reformadores nos lembraram que glorificamos a Deus não apenas nos monastérios e nos templos, e que não precisamos demonizar o mundo, a criação e tudo que neles há. Foi a cidade de Genebra, pelas mãos de um reformador, a primeira cidade na Europa a ter saneamento básico, polícia, água encanada, hospitais e o parto de infantes regulamentado e assistido por profissionais da área. Boa parte da noção ocidental de democracia, república, arte, justiça, liberdade de imprensa, direitos humanos, defesa de minorias e educação vem do movimento reformista. Foram os reformadores que traduziram a Escritura para diversas línguas. Se a Bíblia Sagrada hoje pode ser lida em português e tantos outros idiomas, é porque homens e mulheres sofreram muito, a ponto de derramarem o próprio sangue por esta causa. A fundamentação e o aperfeiçoamento de línguas como o alemão e o francês estão ligados profundamente a obras do período da reforma como a tradução da Bíblia Sagrada para o alemão e As Institutas da Religião Cristã, respectivamente.

O escritor Alister McGrath em seu livro “Origens Intelectuais da Reforma” faz um questionamento interessante, ele pergunta: a Reforma Protestante alcançou seu objetivo? O motivo principal que era reformar o que já estava criado foi alcançado? Creio que uma resposta sensata diante desta questão seria não. Não era intenção de Martinho Lutero dividir a igreja, antes, sua proposta era reformá-la! No entanto isso não aconteceu, a Igreja Católica Romana se fechou, excomungou-o como herege, veio a contrarreforma e o protestantismo começou a se expandir, tomar forma e ganhar contornos cada vez mais robustos. É importante não atribuir status canônico aos reformadores e suas obras, são homens como todos nós, que tiveram suas falhas como quaisquer outros, contudo, foram escolhidos por Deus para uma missão grandiosa que marcaria o planeta para todo sempre. A reforma da igreja como pensavam os primeiros reformadores, em certo sentido, foi um fracasso, mas nos apontou caminhos, trouxe luz a muitas mazelas escondidas do seio de uma instituição religiosa gigantesca e fundamentou filosófica e teologicamente a prática da Igreja de Cristo daquele momento em diante.

A reforma protestante charge

O que Lutero e Cia nunca imaginaram que aconteceria

Numa breve leitura do cenário do protestantismo atual no Brasil é possível perceber um retrocesso preocupante em relação a grande parte do que foi a luta do movimento reformado. Vejamos alguns pontos:

— Grandes denominações centradas na figura de uma única pessoa, prática que faz alusão a uma espécie de papismo e atenta contra o princípio protestante do sacerdócio universal dos crentes.

— Tradicionalismo ou denominacionalismo exacerbado que em diversos momentos toma o lugar das Escrituras Sagradas no governo da igreja.

— Redemonização do mundo, que fere o princípio que a criação é boa e bela e Deus, em sua missão (MissioDei) a está reconciliando consigo mesmo por meio de Seu Filho Jesus, utilizando-se muitas vezes de Seus santos espalhados pelo mundo.

— Isolacionismo, ou seja, a ideia de que para ser santo deve-se evitar o contato com o mundo, que fere o ensino reformado de santidade ativa no mundo.

— Teologia da prosperidade que fere contundentemente a memória e os ensinos dos mártires e com toda certeza seria escorraçada pelos reformadores.

— Teologia dos que são cabeça e não cauda, que dominam ao invés de serem dominados, chamada teologia do domínio, nega o chamado do cristão ao serviço sacrificial.

— Alienação política ou a política feita em causa própria, fere a ideia do exercício político a serviço de toda nação para glória de Deus e não a serviço de uma minoria para glória de um grupo.

— Insensibilidade e afastamento social contrasta com as obras de misericórdia e amor que eram pontos centrais do ensino e da vida dos reformadores.

— Preconceito com o conhecimento científico, principalmente em relação às ciências humanas e com os estudos em geral, completamente antagônico aos títulos de mestres e doutores de inúmeros mestres reformadores que, diga-se de passagem, tinham como meta a educação e a construção de universidades.

Olhar no retrovisor da história nesse momento de comemoração dos 499 anos de Reforma Protestante é extremamente necessário. Para onde estamos indo como povo de Deus espalhados por esse mundo? O que temos acrescentado, qual a nossa contribuição aos de fora da igreja? Que tipo de evangelho tem sido pregado do alto de nossos púlpitos? Temos honrado o sangue de tantos e tantos mártires da causa do evangelho? Os reformadores se sentiriam parte das igrejas evangélicas atuais? É a glória de Deus que estamos buscando acima de todos os outros interesses como igreja de Cristo em solo brasileiro?

É necessário que nesse 31 de Outubro de 2016, deixemos o Halloween Gospel de lado e dediquemos mais tempo para o estudo de onde viemos, do que diziam, escreviam e de como viviam os fundadores do movimento ao qual, pelo menos no discurso, dizemos fazer parte. Conforme disse acima, a reforma protestante nos apontou caminhos, caminhos preciosos desbravados a duras penas, à custa de muito sangue e trabalho. Cabe a nós, em nossa geração, contextualizar todas estas realidades e fundamentados no temor do Senhor, na Bíblia Sagrada e no exemplo destes piedosos e fiéis homens de Deus, glorificarmos o nome de Cristo Jesus em todas as esferas da vida, o tempo todo e em todos os lugares. Sejamos corajosos! Que Deus abençoe a igreja brasileira e que nos lembremos hoje, mais do que nunca, de um dos principais lemas da Reforma que diz: igreja reformada sempre se reformando.

Que Deus nos alcance!

Lucas Freitas é:

Aprendiz da vida e dos caminhos que ela faz, estudante presbiteriano agraciado e um proclamador falho daquele que deve ser proclamado. Alcançado pelo cuidado do Pai.

O artigo original poderá ser acessado por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.    

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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR DOS PURITANOS?


O artigo abaixo foi publicado pelo site da Editora FIEL.

ENTRE OS GIGANTES DE DEUS: UMA VISÃO PURITANA DA VIDA CRISTÃ

“Os grandes puritanos, embora já falecidos, continuam falando conosco por meio de seus escritos, dizendo-nos coisas que, em nossos dias, precisamos ouvir com muita urgência.” – J. I. Packer

“Puritano”, como um nome, era, de fato, lama desde o começo. Cunhada cedo, nos anos 1560, sempre foi um palavra satírica e ofensiva, subentendendo mau humor, censura, presunção e, em certa medida, hipocrisia, acima e além de sua implicação básica de descontentamento, motivado pela religião, em relação àquilo que era visto como a laodicense e comprometedora Igreja da Inglaterra de Elisabeth (também conhecida como Isabel). Mais tarde, a palavra ganhou a conotação política adicional de quem era contrário à monarquia Stuart e favorável a algum tipo de republicanismo; sua primeira referência, contudo, ainda era àquilo que se via como uma forma estranha, furiosa e feia de religião protestante.

Na Inglaterra, o sentimento antipuritano disparou no tempo da Restauração e, desde então, tem fluído livremente; na América do Norte, edificou-se lentamente após os dias de Jonathan Edwards para atingir seu zênite cem anos atrás, na Nova Inglaterra pós-puritana.

No último meio século, porém, alguns estudiosos têm removido, meticulosamente, essa lama. E, da mesma forma que os afrescos de Michelangelo na Capela Sistina têm cores pouco familiares depois que os restauradores removeram o verniz escuro, assim também a imagem convencional dos puritanos foi radicalmente recuperada, ao menos para os informados. (Aliás, o conhecimento hoje viaja lentamente em certas regiões.) Ensinados por Perry Miller, William Haller, Marshall Knappen, Percy Scholes, Edmund Morgan e uma série de pesquisadores mais recentes, pessoas bem informadas agora reconhecem que os puritanos típicos não eram homens selvagens ou ferozes, monstruosos fanáticos religiosos ou extremistas sociais, mas pessoas sóbrias e conscienciosas, além de cidadãos cultos, pessoas de princípio, decididas e disciplinadas, excepcionais nas virtudes domésticas e desprovidas de grandes defeitos, exceto a tendência de usar muitas palavras ao dizer qualquer coisa importante, a Deus ou ao homem. Enfim, está sendo consertado o engano.

Mas, mesmo assim, a sugestão de que necessitamos dos puritanos – nós, ocidentais do final do século XX, com toda a nossa sofisticação e maestria de técnica tanto no campo secular quanto no sagrado – poderá erguer algumas sobrancelhas. Permanece a crença de que os puritanos, mesmo que fossem, de fato, cidadãos responsáveis, eram ao mesmo tempo cômicos e patéticos, sendo ingênuos e supersticiosos, superescrupulosos, mestres nos pequenos detalhes e incapazes ou relutantes em relaxar. Pergunta-se: O que, então, esses zelotes nos poderiam dar do que precisamos ter?

A resposta é, em uma palavra, maturidade. A maturidade é uma composição de sabedoria, boa vontade, maleabilidade e criatividade. Os puritanos exemplificavam a maturidade; nós, não. Um líder bem viajado, um americano nativo, declarou que o protestantismo norte-americano, centrado no homem, manipulador, orientado pelo sucesso, autoindulgente e sentimental como é, patentemente, mede cinco mil quilômetros de largura e um centímetro de profundidade. Somos anões espirituais. Os puritanos, em contraste, como um corpo, eram gigantes. Eram grandes almas servindo a um grande Deus. Neles, a paixão sóbria e a terna compaixão se combinavam. Visionários e práticos, idealistas e também realistas, dirigidos por objetivos e metódicos, eram grandes crentes, grandes esperançosos, grandes realizadores e grandes sofredores.

Mas seus sofrimentos, de ambos os lados do oceano (na velha Inglaterra, pelas autoridades, e, na Nova Inglaterra, pelo clima), os temperaram e amadureceram até que ganharam uma estatura nada menos do que heroica. Conforto e luxo, QUE nossa afluência hoje nos traz, não conduzem à maturidade; privação e luta, sim, e as batalhas dos puritanos contra os desertos evangélico e climático, onde Deus os colocou, produziram virilidade de caráter, inviolável e inquebrantável, erguendo-se acima de desânimo e temores, para os quais os verdadeiros precedentes e modelos são homens como Moisés e Neemias, e Pedro depois do Pentecoste, e o apóstolo Paulo.

A guerra espiritual fez dos puritanos o que eles foram. Eles aceitaram o antagonismo como seu chamado, vendo a si mesmos como os soldados peregrinos de seu Senhor, exatamente como na alegoria de Bunyan, sem esperarem poder avançar um só passo sem a oposição de uma espécie ou de outra. John Geree, em seu folheto “O caráter de um velho puritano inglês ou inconformista” (1646), afirma: “Toda a sua vida, ele a tinha como uma guerra em que Cristo era seu capitão; suas armas eram as orações e as lágrimas. A cruz, seu estandarte; e sua palavra [lema], Vincit qui patitur [aquele que sofre conquista]”.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


James Ian Packer (Gloucester, 22 de julho de 1926) é um teólogo anglicano e professor de teologia no Regent College, em Vancouver, Canadá. Seus livros já venderam mais de três milhões de exemplares. Entre os seus livros publicados em português estão O Conhecimento de Deus, Esperança, Na Dinâmica do Espírito, Entre os Gigantes de Deus e Os Vocábulos de Deus. Foi editor da revista Christianity Today (Cristianismo Hoje) e membro do comitê de novas traduções da Bíblia.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

JOSÉ MANOEL DA CONCEIÇÃO: UM CRENTE VERDADEIRO

José Manoel da Conceição - o "Padre Protestante".

O artigo abaixo foi publicado no site da escola Charles Spurgeon e é de autoria de Franklin Ferreira.

José Manoel da Conceição

Nos séculos XVI e XVII, houve duas tentativas para estabelecer colônias protestantes no Brasil, mas o protestantismo brasileiro se originou de um duplo avanço: a imigração estrangeira, de anglicanos ingleses, luteranos alemães e reformados suíços, e a vinda de missionários ingleses e americanos. O protestantismo começou a ser implantado de fato no Brasil com a chegada de um missionário congregacional, o escocês Robert Reid Kalley, ao Rio de Janeiro, em 1855. E o primeiro missionário presbiteriano a chegar ao Brasil foi Ashbel Green Simonton, em 1859. Seu cunhado, Alexander Blackford, chegou em 1860, e Francis Schneider em 1861. Todos eles foram enviados pelas igrejas presbiterianas do norte dos Estados Unidos (PCUSA). Em pouco tempo, já havia igrejas presbiterianas no Rio de Janeiro e em São Paulo, e em 1870 foi fundada o que hoje é uma das mais importantes universidades brasileiras, a Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo.

Mais tarde, chegaram missionários metodistas (em 1867) e batistas (em 1881) ao Brasil. Em 1865, foi ordenado o primeiro ministro evangélico brasileiro, José Manoel da Conceição.

O padre protestante

José Manoel da Conceição nasceu em São Paulo, em 15 de março de 1822, filho de Manoel da Costa Santos e de Cândida Flora de Oliveira Mascarenhas. Logo depois, a família mudou-se para Sorocaba, onde Conceição foi educado por seu tio-avô, o padre José Francisco de Mendonça. Ele escreveu mais tarde:

Fui muito devoto até os 16 anos. Depois que a religião começou a influir no meu coração, comecei a sofrer de melancolia pelo retrospecto que fazia sobre a minha vida passada. [...] Aos 18 anos, comecei a ler a Bíblia. Apenas tinha lido os três primeiros capítulos do Gênesis, quando notei que a prática e a doutrina da igreja romana faziam oposição direta e irreconciliável com aquilo que [eu] amava ou tinha por verdadeiro.

Nessa época, conheceu algumas famílias de protestantes ingleses e alemães que o impressionaram por sua devoção e estudo da Bíblia. Depois de se destacar no estudo da teologia, tendo sido influenciado pelos ensinos jansenistas, José Manoel da Conceição foi ordenado padre, em 1845:

Eu estava destinado ao sacerdócio, mas a leitura da Bíblia e os meus contatos com os protestantes tornaram-me um mau candidato e, depois, um pobre, muito pobre padre católico romano. Todos os outros padres, exceto o bispo, chamavam-me de padre protestante.

A hierarquia católica não confiava nele, de forma que Conceição veio a ser transferido ao gosto das autoridades. Ele foi enviado para Limeira e depois passou a ser transferido de uma paróquia a outra; durante quinze anos serviu em Monte Mor, Piracicaba, Taubaté, Ubatuba, Santa Bárbara e, finalmente, em 1860, em Brotas. Como observou Boanerges Ribeiro, sem que percebesse, o bispado traçava o percurso da Reforma na sua diocese. Em cada uma dessas igrejas, ele se dedicava a reavivar a espiritualidade cristã, centralizando-a na pregação e leitura da Bíblia. Em meados de 1863, Conceição passou por uma profunda crise espiritual, centrada na questão da salvação pela graça e no lugar das obras na vida cristã. Como Martinho Lutero, séculos antes, Conceição condenava as indulgências que proporcionavam uma falsa paz, que “implica e explica a negação da graça de Jesus”. Não sendo possível permanecer no exercício do ministério, foi dispensado de suas funções, indo viver numa casa perto de São João do Rio Claro. “Estudaria primeiro as doutrinas reformadas no sossego da chácara; depois, publicamente professaria a fé em Cristo e enfrentaria a controvérsia subsequente e inevitável.” Alexander Blackford, que ouvira falar do padre protestante, encontrou-o aí. Ele foi batizado na Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, em 23 de outubro de 1864:

Ao som do harmônio e de vozes humanas que cantavam hinos, eu fui conduzido a uma fonte de águas puras. Imaginem dois anjos... [...]. Tais eram os dois ministros de Deus [Blackford e Simonton] que velavam em meu favor. Levaram-me e me cobriram de bênçãos. Este foi para mim um momento solene.

Por entender que não era suficiente ter abandonado a Igreja Católica, a que ele serviu por tantos anos, uma nova crise começou, por causa da advertência bíblica de não zombar de Deus. Durante algum tempo, Conceição evitou os missionários, fugindo de suas visitas, até que ele ouviu estas palavras:

“O sangue de Jesus Cristo purifica de todo pecado.” Dia a dia, essas palavras tornaram-se mais claras e tiveram mais atração sobre mim. Como despertado de um longo sono, eu sentia que se firmavam em meu espírito essas incríveis palavras e, ao mesmo tempo, operou-se o meu restabelecimento.

A reforma evangélica em Brotas

Brotas foi a última paróquia onde Conceição serviu como padre. Muitos de seus paroquianos haviam conhecido suas lutas espirituais e alguns partilhavam delas. Por isso, depois de ser batizado na Igreja Presbiteriana, Conceição mudou-se para Brotas, a fim de pregar de casa em casa. Como resultado desses esforços, onze adultos e dezessete crianças foram batizados. A Igreja Presbiteriana de Brotas, a terceira fundada no país, desenvolveu-se de maneira extraordinária. Em 1867 possuía sessenta e um membros; cento e dezesseis membros, em 1871, e cento e quarenta membros, em 1874. Esses cristãos pertenciam a diversas famílias da região, sendo que alguns eram ex-escravos. A Igreja de Brotas era, nessa época, uma das maiores igrejas protestantes do Brasil, ao lado da Igreja do Rio de Janeiro. Essa igreja plantou duas outras igrejas presbiterianas, entre elas a da Borda da Mata, fundada em 1869, com o batismo de quinze adultos e vinte crianças, e a de Dois Córregos, constituída de dezenove membros adultos e quinze crianças. O missionário Francis Schneider relatou que dava gosto ver o desejo do povo de Brotas de ouvir e aprender o evangelho. Poucas daquelas pessoas sabiam ler; contudo, muitas faziam um rápido progresso na vida espiritual, e com muito zelo propagavam o conhecimento do evangelho entre os parentes e conhecidos. Era admirável ver gente que não sabia ler falar com tanto acerto e animação sobre a graça de Deus e a salvação que Jesus nos adquiriu. “Foi para mim uma prova evidente de que o evangelho de Jesus Cristo é uma virtude de Deus para tornar sábios os simples, capaz de encher duma sabedoria divina os mais ignorantes que o recebem em seu coração.” Em 16 de dezembro de 1865, Simonton, Blackford e Schneider organizaram, em São Paulo, o Presbitério do Rio de Janeiro, constituído de três igrejas, Rio de Janeiro, São Paulo e Brotas, e ligado ao Sínodo de Baltimore, nos Estados Unidos. No dia seguinte, 17 de dezembro de 1865, Conceição foi ordenado ao ministério pastoral. Ashbel Simonton escreveu:

José Manoel da Conceição, que se achava presente, participou seu desejo de ordenar-se ministro do evangelho de Jesus Cristo. Resolveu o presbitério, respondendo à consulta do moderador, proceder aos exames indispensáveis, interrogando o candidato sobre os motivos que o levaram a desejar o Ministério da Palavra. Feitas várias perguntas sobre as provas que possuía de sua vocação, bem como sobre se adotava cordialmente a confissão de fé presbiteriana, a todas Conceição respondeu [de modo satisfatório], professando-se levado unicamente pelo sentimento de dever e pelo desejo de contribuir para a salvação das almas e a glória de Jesus Cristo.

O evangelista itinerante

Brotas, entretanto, não havia sido a única paróquia em que Conceição serviu. Logo que uma igreja se tivesse constituído, ele passava a visitar outras cidades nas quais havia servido como padre, pregando para auditórios de cem a duzentas pessoas, sem oposição. Em nova viagem, dirigiu-se a Sorocaba, onde ocorreu impressionante resposta ao evangelho — ele enviou a Blackford uma lista com os nomes de noventa pessoas que deveriam ser visitadas como resultado de sua pregação ali. Depois, Conceição regressou a Brotas, começando nova viagem, pregando em Limeira, Campinas, Bragança e Atibaia. Iniciou nova viagem, após chegar a São Paulo, no começo de junho. Ele pregou em São José dos Campos, Caçapava, Taubaté, Pindamonhangaba, Aparecida, Guaratinguetá, Queluz, Rezende, Barra Mansa e Piraí. Daí, foi ao Rio de Janeiro, onde participou da ordenação pastoral de George Chamberlain, mas em meados de julho retomou em sentido inverso sua viagem pelo Vale do Paraíba, chegando a São Paulo no começo de outubro.

Após um mês de pregação em São Paulo, Conceição inicia, no fim de outubro, a evangelização do norte do estado: Cotia, Ibiúna, Piedade, São Roque, Piracicaba, Porto Feliz, Itu e Brotas, onde permaneceu durante algumas semanas, para voltar por Itaquari, Rio Claro, Limeira, Piracicaba, Capivari, Campinas, Bragança, Atibaia, Nazaré, Santa Isabel, chegando em dezembro a São Paulo.

Em fins de janeiro de 1867, começou nova viagem para Jacareí, Taubaté, Pindamonhangaba, voltando por Caçapava, São José, Jacareí, Taubaté e São Paulo. Permaneceu em São Paulo durante uma semana, dirigindo-se, em fevereiro, para o sul de Minas, pregando em Santa Isabel, Nazaré, Santo Antônio da Cachoeira, Bragança, Amparo, Mogi Mirim, Ouro Fino, chegando a Borda da Mata e, depois, a Santa Ana. Em 2 de abril, Conceição recebeu sua sentença de excomunhão, em São Paulo, para onde havia regressado. Ele escreveu uma resposta a essa sentença, dizendo:

A Reforma veio, mas veio de Deus, de Quem só podia vir. Os instrumentos, porém, de que Deus se quis servir, foram os seus servos eleitos, que conhecem, professam e ensinam as puras doutrinas de sua santa Palavra. [...] Quando a Bíblia correr pelas mãos de todos os povos, então se hão de realizar as promessas do Salvador, que a religião dele prevalecerá em toda a terra. Manifestarse-á, então, a universalidade de sua igreja. Gozar-se-ão a paz, a felicidade e prosperidade, prometidas por Deus ao mundo, e aneladas agora pelas nações. Não há reforma possível que não comece por reafirmar: que Cristo crucificado uma só vez no Calvário é a única e suficiente expiação pelo pecado, e já não há mais oferenda pelo pecador; que os méritos de Cristo estão ao alcance de toda a alma contrita e crente; que a essência de uma vida cristã está na reabilitação do homem interior, e não há força capaz de efetuar tal transformação, exceto o Espírito de Deus, com quem estamos em contato imediato. Pedindo, receberemos; buscando, acharemos; batendo, abrir-se-nos-á.

Em maio, partiu novamente em viagem pelos arredores de São Paulo. Depois, dirigiu-se ao Rio de Janeiro, pregando e evangelizando em Copacabana, São Cristóvão e Cascadura. Apresentou, numa reunião do presbitério que se realizava no Rio de Janeiro, no Campo de Santana, um relatório detalhado, no qual seu entusiasmo é evidente:

Nós, porém, que temos visto (com os nossos próprios olhos e ouvido, com os nossos próprios ouvidos) o poder da Palavra de Deus na conversão das almas, quer em sua letra, quer em seu espírito; nós que temos visto as crianças irem, cantando e saltando, quebrar os ídolos de seus pais, e outras, pregando com a Bíblia nas mãos a seus pais e vigários; nós sabemos, e com júbilo vos anunciamos que a evangelização em nosso país é a realidade mais benéfica em todos os resultados; e temos confiança, e ansiosamente desejamos vê-la progredir, concorrendo com quanto houver em nossas poucas forças para que mais e mais Jesus Cristo ganhe almas para sua glória.

Conceição fez várias viagens no decurso de um ano. Mas seu estado de saúde começou a declinar. Os membros do presbitério, que acabavam de ouvir seu relatório, entenderam ser necessário que ele descansasse e o enviaram para os Estados Unidos, para que expusesse lá o trabalho realizado no Brasil. Conceição partiu em agosto de 1867. Nos Estados Unidos, ele esteve pregando durante oito meses nas igrejas portuguesas de Jacksonville e Springfield, em Illinois. Ele também se dedicou a preparar traduções de livros e a revisão de uma versão em português do Novo Testamento, para a Sociedade Bíblica Americana.

Francisco de Assis do Brasil

Em 1868, Conceição regressou ao Brasil, participando da reunião do presbitério realizada em São Paulo. Mas ele retomou as viagens e, no fim de outubro, foi ao Rio de Janeiro, passando por Angra dos Reis e Parati. Depois, pregou em Cunha e Lorena, onde houve perseguição. Em janeiro de 1869, partiu para Atibaia, Bragança, Amparo, Socorro e São José dos Campos. Em julho, voltou a São Paulo, onde participou de mais uma reunião do presbitério. Mas, como disse Alderi Matos, “o trabalho havia mudado durante a estada de Conceição no exterior. A ênfase era outra: não mais o febril desbravamento, mas a consolidação em torno de alguns centros. Seu relatório foi considerado demasiado longo e recebido com certo desinteresse”. Assim, daí por diante, Conceição fazia sozinho suas viagens de pregação, como havia feito no começo. Ainda de acordo com Alderi Matos, “nunca mais ele teve companheiros de estrada; nunca mais compareceu ao presbitério nem lhe prestou relatório”. Não ocorreu um rompimento entre ele e seus companheiros, mas Conceição agora se dedicava integralmente à evangelização itinerante. Em 1870, Conceição esteve em São Paulo e, em 1872, no Rio de Janeiro, Queluz, Caldas e outras cidades de Minas Gerais. Depois, esteve no litoral de São Paulo, em Areias e Mambucaba. Em 1873, esteve novamente em Queluz, São Paulo, Rio de Janeiro, Piraí, Campo Belo e Caraguatatuba, sempre enfrentando perseguições e ataques pessoais. Certa vez, escreveu Boanerges Ribeiro:

Aproximava-se a hora do destino em que a jovem igreja nacional criaria seu próprio método de desbravamento e propagação evangélica: a luta árdua e exaustiva das estradas, de fazenda em fazenda; o contato pessoal e direto com a pessoa evangelizada; a oração de joelhos na salinha de chão batido e, sobretudo, o poder de um homem possuído do Espírito Santo e disposto a matar-se, pregando a cada família, de casa em casa, de indivíduo a indivíduo, de alma a alma.

Nessa época, nas poucas vezes em que encontrou os missionários, Conceição se mostrou afetuoso, mas com saúde cada vez mais frágil. No fim de 1873, Blackford convenceu-o a repousar no Rio de Janeiro, numa casa que foi alugada para esse fim, em Santa Teresa. Dessa vez, Conceição tomou um trem, mas numa baldeação em Piraí, por estar descalço e malvestido, foi preso pela polícia. Passou três dias na prisão e, depois de liberto, não tinha dinheiro para comprar uma nova passagem. Continuou a pé seu caminho, sob o sol, caindo prostrado, na noite de 24 de dezembro, na estrada da Pavuna. Foi levado para a Enfermaria Militar do Campinho, onde o major Augusto Fausto de Souza, chefe da enfermaria — que se converteu ao evangelho depois — conseguiu-lhe um leito e alimentos. Tendo agradecido aos que o haviam socorrido, pediu que o deixassem “só com seu Deus” e morreu, vítima de insolação, privações e fadiga de suas longas viagens, na madrugada de 25 de dezembro de 1873. “Conceição era de uma simplicidade incrível”, escreve Elben Lenz César, “não obstante fosse muito preparado: sabia comunicar-se com os estrangeiros em suas próprias línguas, traduzia livros do inglês, do francês e do alemão, e tinha noções de medicina. Chegava a se vestir mal, roupa surrada demais. A herança que recebeu da família foi toda distribuída com obras de beneficência. Preocupava-se demais com os outros e muito pouco consigo mesmo. Embora desimpedido do voto do celibato por ter se desligado de Roma, o Padre José, como era chamado, nunca se casou, e sua pureza de vida sempre estava fora do alcance de qualquer maledicência. Não era servil aos missionários americanos, não obstante ser o único obreiro nacional no meio deles. Por causa de sua experiência na Igreja Católica, morria de medo de uma igreja excessivamente organizada.

(...) Conceição sonhava com um movimento profundo de reforma nos sentimentos e experiência religiosa do povo, aliado ao esclarecimento bíblico, que tornasse possível a criação de um cristianismo brasileiro puro e evangélico, mas enraizado nas tradições e hábitos populares”. José Manoel da Conceição foi sepultado no cemitério de Irajá, mas três anos depois, em 1877, seu corpo foi transferido para o Cemitério dos Protestantes de São Paulo, sendo sepultado ao lado do túmulo de Ashbel Simonton. Em sua lápide está gravado: “Não me envergonho do evangelho de Cristo”, numa referência a Romanos 1.16. Durante vinte anos Conceição foi sacerdote católico e durante oito anos foi pastor protestante. São suas estas palavras:

O bem-estar de minha pátria, a moralização da sociedade, cuja felicidade só o evangelho pode assegurar, e a salvação eterna dos homens são os fins que tenho em vista. Estou nas mãos de Deus, e à disposição de todos a quem possa servir no evangelho de Jesus Cristo.

Autor: Franklin Ferreira

Franklin Ferreira é bacharel em Teologia pela Universidade Mackenzie e mestre em Teologia pelo Seminário Batista do Sul (RJ).

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis


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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A ORAÇÃO DO PAI NOSSO - SERMÃO 004 - Uma Exposição Bíblica, Literária e Teológica de Mateus 6:9—13



Essa série tem por objetivo expor de maneira ampla, bíblica, literária, histórica e teologicamente, a oração que chamamos de “Oração do Pai Nosso”. Nosso desejo é enriquecer a vida de todos por meio desses esboços de mensagens que também estão disponíveis em áudio. Na parte final desse artigo o leitor encontrará os links para os outros esboços e para os áudios à medida que forem sendo publicados 



SERMÃO 004 — Deus Como Pai e Mãe — Mateus 6:9

Introdução:

A. Hoje pretendemos derrubar um monte de tabus acerca de Deus, especialmente o tabu de que Deus é do sexo masculino. Foi esse tabu que criou e ajuda a manter as estruturas de todo tipo de religião como dominadas por seres humanos do sexo masculino. Desde o Hinduísmo, passando pelo Islamismo e pelo maior aspecto da cristandade — a Igreja Católica Romana — essa verdade se mantêm: Deus é do sexo masculino e, por isso, os machos devem ter prerrogativas maiores que as mulheres, no que diz respeito à religião. 

B. E nós, os verdadeiros cristãos, como ficamos diante dessa situação? Uma das acusações mais comuns que ouvimos contra a fé cristã é que a mesma é uma religião machista, que privilegia os homens em detrimentos das mulheres.  

C. Existe alguma verdade nessas acusações, mas na maior parte, tais afirmações são apenas uma manifestação da ignorância dos nossos detratores e uma forma fácil de evitar se deixar confrontar por aquilo que Jesus, o Filho de Deus, representa: o Salvador da humanidade.

D. Se precisarmos de um salvador é porque estamos perdidos. Então uma boa tática para evitar esse confronto é inventar desculpas, coisas típicas de mentes pequenas e covardes.

E. Mas como dissemos, existe algo de verdadeiro nessas acusações e a culpa é nossa mesmo e não da Bíblia e muito menos de Deus.

F. Somos nós os homens que criamos religiões moldadas conforme a nossa imagem e semelhança e, sendo o homem, mais forte, do ponto de vista físico, temos nos aproveitado para impor regimes religiosos onde as mulheres são tratadas como cidadãs de segunda classe: isso é verdadeiro na cristandade, no islã, no hinduísmo, no budismo etc. 


1. Mas o fato é que a fé cristã não é uma religião e, por isso, não precisa lançar mão desses subterfúgios imorais, para dizer o mínimo. Tudo não passa de uma leitura equivocada e tendenciosa das Escrituras Sagradas.  A maioria das denominações chamadas cristãs ainda não entendeu que a fé cristã trata de relacionamentos e não de práticas religiosas. E são essas práticas religiosas que são usadas pelos machos para submeterem e humilharem as mulheres em, praticamente todas as igrejas instituídas.

2. Todos vocês sabem do que estamos falando: desde a proibição de falar em público, até a obrigatoriedade de adotar códigos de vestimentas e comportamentos que apenas degradam as mulheres, a cristandade está cheia de exemplos disso. Por esse motivo as críticas são muitas vezes válidas.

G. No entanto como dissemos a fé cristã trata de relacionamentos e nessa questão de relacionamentos ocupamos todos — homens e mulheres — rigorosamente a mesma posição diante de Deus, pois estamos TODOS EM CRISTO.

H. Sendo assim, devemos procurar entender o ensinamento bíblico que descreve Deus ora em termos de Pai, ora em termos de Mãe.

DEUS COMO PAI E MÃE

I. Deus é Espírito e Precisamos Manter Essa Posição Como Verdade Fundamental.

A. Foi o próprio Senhor Jesus quem nos ensinou a seguinte verdade:

João 4:24

Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.

B. Se Deus é Espírito ele não pode ser classificado nem com pertencendo ao gênero masculino e nem ao gênero feminino. DEUS É ESPÍRITO.

C. Quando o próprio Jesus nos ensina a orar dizendo para usarmos a expressão אַבָּא `abba — Pai, Ele está apenas usando uma metáfora, como já vimos, cujo propósito é nos ensinar duas coisas:

1. Intimidade de filhos com seu pai.

2. Completa dependência e confiança em Deus.

D. Por motivos que devem nos parecer óbvios, Jesus escolheu chamar Deus de אַבָּא `abba — Pai, para evitar qualquer má compreensão e confusão com Maria, caso tivesse usado a expressão “mãe”.

E. Mas para entendermos melhor o que estamos dizendo, vamos considerar os seguintes pontos:

II. Deus é Apresentado nas Escrituras Através de Metáforas Tanto Masculinas Quanto Femininas.

A. Deus é tratado como “PAI”, mas ao mesmo tempo a Bíblia declara o seguinte:

1 João 2:29

Se sabeis que ele é justo, reconhecei também que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele.

1 João 3:9

Todo aquele que é nascido de Deus não vive na prática de pecado; pois o que permanece nele é a divina semente; ora, esse não pode viver pecando, porque é nascido de Deus.

1 João 4:7

Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus.

B. É fato que costumamos dizer, em linguagem coloquial, que fulano gerou cicrano. Mas isso não quer dizer que fulano deu à luz a cicrano. E esse é, exatamente, um dos significados do verbo grego γεννάω gennáo — traduzido por “nascido de Deus” nos versos acima = que Deus nos deu à luz.

C. Se recusarmos a imagem metafórica de Deus como Pai, por causa das conotações machistas, então também temos que recusar a metáfora que fala de Deus como mãe e que está implícita em todos os versos que falam da “nova vida que recebemos de Deus”, ato esse, exclusivo de uma mãe.

D. E curioso, no meio dessa discussão toda notar como o próprio Jesus se qualificou em

Mateus 23:37

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!

E. Nas três parábolas que encontramos em Lucas quinze, Jesus se descreve:

1. Como um pastor na Parábola da Ovelha Perdida — Lucas 15:3—7.

2. Como uma mulher na Parábola da Dracma Perdida — Lucas 15:8—10.

3. Como um Pai — que age de forma muito parecida com uma mãe — na Parábola dos Filhos Perdidos — Lucas 15:11—32.

III. Devemos Sempre nos Lembrar que a Imagem de Deus nos Seres Humanos se Refletiu em: Macho e Fêmea.

A. Não é exatamente isso que nos ensina

Gênesis 1:26—27

26 Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.

27 Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.

B. Nesses versos três palavras devem chamar nossa atenção:

C. A primeira é אָדָם adam — homem no sentido de humanidade. Designação de espécie.

D. A segunda é זָכָר zacar — macho. Pode ser usado para seres humanos ou animais.

E. A terceira é נְקֵבָה n^eqebac — fêmea. Mulher, menina ou animal fêmea.

Conclusão

1. Jesus diz em Mateus 6:9: “Vós orareis assim”. Quem deve orar do modo como ele ensinou? Apenas os crentes em Jesus podem orar assim e isso distingue a oração dos cristãos de todas as outras orações e práticas de oração existentes no mundo!

2. Em vez de nos sentirmos injuriados — como machos — diante das palavras de hoje, nós devemos nos alegrar pelo fato que Deus é Espírito e, portanto, não é nem macho nem fêmea. Essa realidade vem apenas enriquecer nossa leitura das Escrituras onde podemos ver metáforas tanto de Pai como de Mãe serem aplicadas ao nosso Deus.

3. Quando chamamos Deus de אַבָּא `abba — Pai, devemos fazê-lo no contexto mais abrangente possível. Devemos olhar para nossos irmãos e irmãs aqui na nossa congregação e depois estender nossa visão para alcançar todos os filhos gerados por Deus que existem ao redor do mundo!

4. A expressão אַבָּא `abba — Pai só tem validade se manifestar a verdadeira unidade que deve existir no seio da família cristã. É um termo familiar e é assim que ele precisa ser utilizado.

5. Só podemos dizer “Pai Nosso”, se estivermos conscientes da realidade que somos parte de uma família e que dependemos uns dos outros.

Que Deus abençoe a todos

OUTRAS MENSAGENS DA SÉRIE DO PAI NOSSO

001 — INTRODUÇÃO A MATEUS 6:9—15

002 — O PAI NOSSO — PARTE 001 — MATEUS 6:9

003 — O PAI NOSSO — PARTE 002 — MATEUS 6:9

004 — O PAI NOSSO — PARTE 003 — MATEUS 6:9

005 — O PAI NOSSO — PARTE 004 — MATEUS 6:9a — PAI NOSSO QUE ESTÁS NOS CÉUS

006 — O PAI NOSSO — PARTE 005 — INTRODUÇÃO À ESTRUTURA DO PAI NOSSO — Mateus 6:9—13

007 — O PAI NOSSO — PARTE 006 — SANTIFICADO SEJA TEU NOME — Mateus 6:9

008 — O PAI NOSSO — PARTE 007 — A RELAÇÃO DA SANTIDADE DE DEUS COM A JUSTIÇA E O AMOR — Mateus 6:9

009 — O PAI NOSSO — PARTE 008 — O REINO DE DEUS — PARTE 001 — Mateus 6:10

010 — O PAI NOSSO — PARTE 009 — O REINO DE DEUS — PARTE 002 — Mateus 6:10
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/01/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-010-o.html


011 — O PAI NOSSO — PARTE 010 — A VONTADE DE DEUS

Que Deus abençoe a todos 
Alexandros Meimaridis 

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

DESAGRAVO CONTRA BÍBLIAS QUE ESPALHAM HERESIAS




Petição Pública Brasil Logotipo
Desagravo contra as "bíblias" do Thalles Roberto e "apostólica" do Ap. Estevam Hernandes e outras publicações disseminadoras de heresias com o selo da SBB

Para: Orgãos Diretivos da Sociedade Bíblica do Brasil - SBB


Prezados dirigentes, conselheiros e membros da Assembleia Administrativa, da Diretoria e do Conselho Consultivo da Sociedade Bíblica do Brasil.

Nós, cristãos evangélicos abaixo-assinados, recebemos com extrema preocupação notícias referentes a publicações inadequadas produzidas em parceria com a Sociedade Bíblica Brasileira e, por esta conta, levamos às instancias dirigentes desta nobre instituição nossas preocupações a fim de que sejam tomadas as medidas cabíveis a fim de corrigir os erros introduzidos a seguir.

Reconhecemos a excelência dos serviços prestados pela SBB na promoção e difusão da Bíblia e sua mensagem no território nacional e louvamos a Deus por sua missão que reconhece o texto sagrado como instrumento de transformação e desenvolvimento integral do ser humano.

Como cristãos evangélicos, temos esta instituição na mais alta conta e reconhecemos que o selo da SBB em qualquer publicação representa uma chancela de qualidade e excelência, digna de recomendação, sem qualquer restrição.

E, justamente por pensarmos assim, e tendo contribuído para o reforço desta mesma percepção junto aos nossos irmãos em Cristo, assistimos com extrema preocupação a participação da SBB em projetos que consideramos deletérios para o Reino de Deus.

Acreditamos ser uma temeridade a participação desta instituição na consultoria, na co-edição, na promoção, na impressão oficializada e pública e no oferecimento da chancela do selo SBB a projetos de publicações de Bíblias comentadas, anotadas, temáticas e outras em parceria com instituições já dadas por inidôneas pela maioria dos evangélicos, promotoras de heresias e até tidas como seitas por denominações protestantes históricas.

Entre outras publicações deletérias, citamos publicações, tais como, a Bíblia Apostólica comentada por Estevam Hernandes, a IDE, a Bíblia do Thalles Roberto e outras como exemplos de grande inadequação aos propósitos do Reino de Deus.

Apenas para nos ater a alguns exemplos, nas publicações citadas, temos na Bíblia apostólica, um prefácio de Rene Terra Nova, onde o mesmo escreveu:

“Creio que é chegado um tempo de unidade no Reino, um tempo no qual precisamos nos apegar ainda mais à Verdade, Jesus, para vermos o manto apostólico sendo estabelecido sobre nossa nação [...] esta Bíblia será como uma bússola que fará com que você caminhe sempre e sempre em direção à Verdade Maior, Jesus. E nada melhor do que um apóstolo para conduzi-lo por estas linhas de decisão [...] E você será adestrado para este tempo profético e apostólico que estamos vivendo através desta Bíblia que está em suas mãos“.

Em textos de divulgação, o senhor Terra Nova relativiza a importância dos princípios da Reforma Protestante para esses dias e afirma que o tempo e a visão de Deus para este tempo da Igreja é a tal visão apostólica e celular, inomináveis heresias para a maioria dos evangélicos.

E, no mesmo texto, o autor segue com descarada exaltação humana e idolatria à figura do comentador da referida publicação, uma atitude lamentável que não encontra lugar junto às Sagradas Escrituras:

“Estevam é um líder incansável! Tenho visto isso na sua vida e história, que se tornou uma espécie de GPS apostólico, pois muitos não tinham coragem de romper e adotar a nomenclatura (de apóstolo). Depois que ele abriu o caminho, todos estão logrando êxito em muitas áreas dos seus ministérios. Por trás, porém, existe esse estimulador de valores, um homem que treinou muitos generais de guerra no mundo espiritual.”

Será que a SBB concorda que a direção da Igreja de Cristo é agora o GPS apostólico iniciado por Estevam Hernandes; ou ainda estaria Cristo assentado no trono e no governo de Sua Igreja?

Vale lembrar à diretoria da SBB que tudo acima é apenas uma introdução ao conjunto de anotações de Estevam Hernandes ao texto bíblico, as quais, promovem diversas heresias incluindo: a teologia da prosperidade, a confissão positiva, a existência de unções extraordinárias e a sua transferência a discípulos de apóstolos modernos, a autoridade dos apóstolos modernos para liberar bênçãos, amaldiçoar pessoas e para o estabelecimento de novos dogmas para a Igreja e, por fim, o poder de apóstolos para retificar o texto bíblico. Como se isto não fosse absurdo o bastante, as referidas anotações da autoria de Estevam Hernandes pretendem oferecem subsídios bíblicos para a equiparação (e até a superação) de poder dos tais "apóstolos" modernos, àqueles santos instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo. Segue ainda, na mesma obra, equívocos grotescos relativos a batalha espiritual e a descabida ênfase na obtenção de ofertas monetárias, sendo que a publicação chancelada pela Sociedade Bíblica do Brasil oferece dezenas de esboços de pregação para este fim arrecadador, alguns destes quase infames na sua ênfase mercantilista no culto ao Senhor.

Já na “Bíblia do Thalles Roberto ”, além dos erros acima apontados, já que se trata de publicação derivada, se encontra junto ao texto sagrado diversas letras e musicas, da autoria do referido "ídolo" gospel, cheias de futilidade, carnalidade e com graves equívocos doutrinários, bem como, a promoção de valores mundanos. Ademais, acha-se inacreditável quantidade de fotografias, testemunhos e textos de exaltação da carreira do artista gospel, coisa que não tem lugar no contexto cristão, tanto mais neste excelso invólucro, a nossa Bíblia.

Para além da eventual participação ativa da SBB no projeto e na edição destes materiais, acreditamos que a simples presença do selo da SBB nestas publicações, a acusação de impressão do material em suas gráficas, do uso da versão traduzida do texto bíblico ou, ainda, a mera divulgação de sua co-produção nas peças promocionais destas obras transferem às mesmas e às instituições a estas associadas o prestígio e a confiança que a SBB goza junto a comunidade cristã evangélica. Neste sentido, a Sociedade Bíblica do Brasil termina por qualificar, testificar e aprovar implicitamente as heresias e inadequações diversas constantes nestas obras, transformando tais publicações em poderosos veículos de disseminação de blasfêmias entre o povo cristão.

Compreendemos os desafios impostos pelo mercado e a necessidade de recursos exigidos para manter esta obra. Temos ciência das eventuais tentações de ordem financeira, contudo, a SBB não precisa e não merece esta mácula nos anais de sua história.

A fim de manter a credibilidade desta instituição entre os líderes cristãos que indicam as suas publicações e confirmam a sua seriedade, rogamos que a SBB revise as políticas comerciais que levaram a sua direção executiva a fomentar tais parcerias e a produzir este tipo de material, resguardando esta nobre instituição de associações temerárias.

O mercado editorial está inundado de Bíblias Temáticas, comentadas e anotadas de propósito edificante, mas também com muitas de propósito duvidoso. Neste ritmo que caminha o segmento editorial evangélico, não estamos longe de acharmos nas livrarias a “bíblia da prostituta evangélica", ladeada da "bíblia do gay cristão", da "do bom ladrão" e da "bíblia do cachorro crente". Instituições como a SBB precisam encontrar a boa medida no caso das Bíblias Temáticas e Anotadas e ser a referencia para o segmento, jamais um exemplo de mais imundícia.

Lembramos aos mesmos dirigentes que o propósito da SBB está em conformidade com a diretiva bíblica e que a sua missão de promover a sã doutrina deve estar acompanhada da refutação de heresias, conforme Tito 1:9.

Da mesma forma, cabe a todo o cristão zelar pela sã doutrina herdada, bem como denunciar o pecado da blasfêmia, sob pena de se associar com a iniquidade, conforme Levítico 5:1.

No Amor de Cristo, abaixo assinamos em petição e encaminhamos às instâncias diretivas da Sociedade Bíblica do Brasil.

A petição original poderá ser vista por meio desse link aqui:


E você poderá assinar a petição diretamente por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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