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sábado, 12 de novembro de 2016

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — ESTUDO 013


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Tabelas de Eusébio para Harmonia das Passagens dos Evangelhos

Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato, queremos incentivar que todos possam ler esses artigos e compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

ESTUDO 013 — ESCRIBAS E OS MANUSCRITOS QUE PRODUZIRAM — PARTE 005

CONTINUAÇÃO...

II. AUXÍLIOS PRA OS LEITORES DO NOVO TESTAMENTO

B. Os Títulos dos Capítulos

Os títulos dos capítulos foram primeiro chamados de kefálaia — cabeçalhos — e foram registrados pela primeira vez no Código Alexandrino. Em manuscritos posteriores passaram a ser chamados de títlos — títulos. Tais cabeçalhos ou títulos eram, na realidade, breves anotações colocadas na margem do texto principal — geralmente acima do texto — e descreviam o conteúdo do capítulo. Tais títulos geralmente começavam com expressões tais como: acerca de ou a respeito de e eram, frequentemente, escritos com tinta vermelha. Desse modo, o cabeçalho do Evangelho de João que está registrado antes de João 2:1 tem o seguinte texto: A respeito do casamento em Caná. Todos os títulos de um determinado livro encontram-se agrupados numa lista colocada antes do livro e servem como índice e também como um resumo da obra inteira.

C. Os Cânones de Eusébio

Um sistema bastante criativo para se localizar passagens paralelas nos evangelhos foi desenvolvido por Eusébio de Cesareia — 263 a 339. Aparentemente o mesmo era bastante útil uma vez que o mesmo encontra-se reproduzido em muitos manuscritos em grego e também em muitos manuscritos traduzidos para outros idiomas como o lati, o siríaco, o copta, o gótico, o armênio e etc.

A sinopse ou harmonia dos evangelhos foi preparada por Eusébio da seguinte maneira: cada um dos evangelhos foi dividido em seções curtas ou longas, de acordo com seções paralelas encontradas nos outros evangelhos. Em seguida as seções foram numeradas de forma contínua referente a cada um dos evangelhos. Assim, Mateus tinha 355 seções, Marcos 233, Lucas 342 e João 232. Em seguida Eusébio preparou dez listas ou kánones — cânones.

1. A primeira tabela continha uma lista numerada com passagens paralelas encontradas em todos os quatro evangelhos. 

2. A segunda tinha uma lista com as passagens paralelas encontradas em Mateus, Marcos e Lucas.

3. A terceira com passagens em Mateus, Lucas e João.

4—9. E assim em diante, até que todas as possibilidades estivessem, praticamente, esgotadas.

10. Uma última tabela apresentava uma lista do material exclusivo a cada um dos quatro evangelhos.

As tabelas de Eusébio eram reproduzidas em colunas paralelas e ocupavam as primeiras páginas dos manuscritos dos evangelhos. Em seguida, na margem manuscrita do texto do evangelho ou logo abaixo duma seção sequencial escrevia-se o numeral da tabela dos cânones onde tal seção podia ser encontrada. Uma vez acessada a tabela apropriada o leitor tinha acesso às referências paralelas nos outros evangelhos.

Em alguns casos, quando as folhas eram numeradas, uma determinada referência apresentava o exato número da página onde passagens paralelas poderiam ser encontradas sem necessidade de consultar nenhuma tabela.

Eusébio explicou suas criativas tabelas numa carta dirigida para outro cristão chamado Carpiano. Uma cópia dessa carta junto com as tabelas é comum nas primeiras páginas de muitos manuscritos na língua grega. Algumas edições modernas do Novo Testamento grego trazem copias da carta e das tabelas de Eusébio. Desse modo, sua criação continua servindo os cristãos até o dia de hoje.

CONTINUA...

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COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 001 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO

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COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 009 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 010 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 011 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 003

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 012 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 004

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 013 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 005

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 014 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 006
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/como-o-novo-testamento-chegou-ate-nos.html

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 015 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 007
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sábado, 13 de agosto de 2016

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — ESTUDO 012

Concepção artística dos vinte quatro anciãos ao redor do Trono de Deus 

Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato, queremos incentivar que todos possam ler esses artigos e compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

ESTUDO 012 — ESCRIBAS E OS MANUSCRITOS QUE PRODUZIRAM — PARTE 004

CONTINUAÇÃO...

Com o objetivo de garantir o mais alto grau de eficiência e acuidade na produção de manuscritos, certas regras pertinentes ao trabalho dos escribas foram adotadas nos scriptoria monásticos. As seguintes regras, que servem de exemplo, foram desenvolvidas pelo monastério Estudium, em Constantinopla. Por volta do ano 800 o abade chefe do monastério, um homem chamado Teodoro, o Estudita e que era, ele mesmo, capaz de escrever em grego utilizando um belo e elevado estilo, incluiu nas regras do monastério diversas punições que deveriam ser aplicadas a todos os escribas que não fossem cuidadosos o suficiente em suas cópias manuscritas.

1. Uma dieta de pão e água deveria ser aplicada a todo escriba que demonstrasse interesse maior no assunto que estava copiando do que no próprio ato de copiar.

2. Os monges deveriam manter suas folhas de pergaminho em bom estado e desamassadas sob a pena de terem que pagar 130 atos de penitência.

3. Para qualquer monge que tomasse o material de escrita pertencente a outro monge teria que pagar 50 anos de penitência.

4. A mesma pena era aplicada para qualquer um que produzisse mais cola do que iria utilizar causando a perda da mesma por meio do endurecimento natural.

5. O escriba que quebrava sua pena era penalizado com 30 penitências.

II. AUXÍLIOS PRA OS LEITORES DO NOVO TESTAMENTO

Muitos manuscritos do Novo Testamento contêm uma variedade do que podemos chamar de “Auxílios para os leitores”. Esse material adicional visava auxiliar o leitor tanto em suas devoções pessoais quanto nas leituras públicas do material do Novo Testamento. Esses auxílios surgiram em diversos lugares e das formas mais diversas. Os mesmo foram sendo passados de geração em geração e, como não poderia deixar de acontecer, os mesmos foram se avolumando com o passar do tempo. A seguir apresentamos uma lista dos auxílios mais comuns que encontramos no Novo Testamento:

A. A Divisão por Capítulos


Codex Vaticanus

O sistema mais antigo de separação por capítulos que conhecemos encontra-se em certas notas feitas nas margens do Codex B — Vaticanus — datado dos primórdios do século IV — anos 300. De acordo com essas anotações temos:

1. Mateus está dividido em 170 seções.

2. Marcos está dividido em 62 seções.

3. Lucas está dividido em 152 seções.

4. João está dividido em 50 seções.


Codex Alexandrinus

Outro método pode ser encontrado no Codex A — Alexandrinus — datado do V século. Uma grande quantidade de outros manuscritos — a maior parte deles — do Novo Testamento adotam esse sistema também. De acordo com esse sistema, temos:

1. Mateus está dividido em 68 seções.

2. Marcos está dividido em 48 seções.

3. Lucas está dividido em 83 seções.

4. João está dividido em 18 seções.

Normalmente, a seção de número 1 não estava colocada ao lado do início do texto, porque os escribas consideravam o início dos livros como uma espécie de prefácio da Antiguidade. Dessa forma, a seção ou capítulo 1 de Marcos está posicionado ao lado de Marcos 1:23.

Já para o livro de Atos existem várias divisões adotadas. Assim, o Codex Vaticanus adota uma medida contendo 36 capítulos e outra, contendo 69 capítulos. De acordo com os estudiosos a primeira divisão que acabamos de mencionar foi produzida por um copista mais antigo ou por alguém responsável pela revisão. Já a segunda divisão teria sido acrescentada depois por outro indivíduo. No Codex Sinaiticus do século IV um sistema de 69 divisões foi adicionado à primeira parte de Atos — capítulos 1 até 15 em nossas traduções modernas. Por motivos que desconhecemos essa divisão não foi levada adiante até ao final do livro.


Facsímile do Codex Sinaiticus

A maioria das cópias do Livro dos Atos possui uma divisão de 49 capítulos ou seções. Em algumas cópias o texto foi subdividido em subpartes ou subcapítulos. Dessa forma o Livro de Atos tem, em alguns casos, 88 seções ou capítulos. Para evitar confusões entre capítulos e subcapítulos, em alguns manuscritos, decidiu-se adotar um sistema de numeração único.
Tanto as Epístolas paulinas como as Epístolas gerais foram divididas em capítulos e subdivididas em porções menores. O Codex Vaticanus apresenta duas divisões em capítulos: uma mais antiga e outra mais recente. Nas Epístolas paulinas o sistema mais antigo enumera todas elas de modo sequencial, como se fossem um único livro.

O livro do Apocalipse foi suprido com um sistema muito artificial de divisão por capítulos. No final do século VI, André, arcebispo de Cesareia na Capadócia, escreveu um comentário no apocalipse onde procura apresentar uma exegese espiritual do mesmo. Em vez de se perguntar acerca do material apresentado no livro, nosso arcebispo dividiu o Apocalipse em 24 seções ou discursos, de acordo com o número dos anciãos que se encontrava sentados ao redor do trono de Deus conforme —

Apocalipse 4:4

Ao redor do trono, há também vinte e quatro tronos, e assentados neles, vinte e quatro anciãos vestidos de branco, em cujas cabeças estão coroas de ouro.

A seguir ele concluiu que: como cada ancião era composto de corpo, alma e espírito, então ele dividiu cada discurso em três, chegando, finalmente, a um número total de 72 capítulos.

OUTROS ARTIGOS DE COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 001 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 002 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 003 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO — FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 004 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — OS PERGAMINHOS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 005 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — PAPEL E BARRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 006 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 001
COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 007 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 008 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 – FINAL

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COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 014 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 006
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COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 015 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 007

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sábado, 2 de janeiro de 2016

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — ESTUDO 008



Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato queremos incentivar que todos possam ler esses artigos compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

ESTUDO 008 — ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 — FINAL

CONTINUAÇÃO...

Uma complicação adicional é que o arquétipo de um documento do Novo Testamento específico pode divergir, quando comparado, ao seu autógrafo. A melhor ilustração que temos para isso pode ser encontrada nas epístolas paulinas. Podemos afirmar, quase com certeza absoluta que, muito cedo — certamente antes do tempo do surgimento dos papiros mais antigos — a maioria das cartas de Paulo já estavam agregadas em algum tipo de coleção — com Hebreus e as Pastorais sendo exceções possíveis. Mas a maioria das epístolas já estavam agregadas em coleções, no máximo, durante a metade do século II d.C. — por esse motivo é, perfeitamente possível — talvez até mesmo provável — que essa coleção seja o arquétipo e que a próprias epístolas individuais  não são sequer a fonte da qual corre o rio textual.

Desse modo temos a afirmação de Gunther Zuntz[1], onde ele afirma que tanto Inácio quanto Policarpo aparentemente estavam familiarizados com o corpus paulino, mas o autor de 1 Clemente não. Isso o leva a concluir o seguinte: Assim temos que, mais ou menos, o ano 100 d.C, é a data provável em que o corpus paulino foi reunido e publicado, com tal, pela primeira vez. Isto é, de quarenta a cinquenta anos depois que as epistolas foram originalmente escritas. Nesse caso, como acontece de forma tão comum na tradição que envolve autores da antiguidade, ‘Arquétipo’ e ‘Original’ não são documentos idênticos.

Mesmo que esse não seja o caso aqui, e cada uma dessas cartas possua um arquétipo individual, isso não quer dizer que o arquétipo seja um descendente puro do original. Diversos documentos são considerados, pelo menos por alguns críticos de forma, como sendo documentos compostos. Esse é, aparentemente, o caso de 2 Coríntios, acerca da qual, muitas autoridades acreditam que duas cartas distintas foram utilizadas para produzir o documento que temos diante de nós conhecido como 2 Coríntios. Dessa forma, se isso for mesmo verdade, a cópia mais antiga que temos e chamamos de 2 Coríntios não se trata de um autógrafo e sim de algo que é chamado de fusão ou mistura. Falando francamente, mesmo que conseguíssemos recuperar os textos completos que foram usados para criar 2 Coríntios, estaríamos diante da inusitada situação que, as passagens de 2 Coríntios, que não fossem encontradas nos textos originais, dificilmente poderiam ser consideradas canônicas. Aqui teríamos muito material para longos debates. Mas, no momento tudo não passa de suposição.

Todavia devemos notar que não é responsabilidade, nem parte da missão do crítico textual desembaraçar as partes de 2 Coríntios ou de qualquer outro documento antigo que se encontre na mesma situação. A missão do crítico textual é procurar reconstruir o arquétipo. Se formos afortunados nosso trabalho acabará por produzir um documento que é idêntico ao autógrafo original — ou então tão próximo que realmente não faz nenhuma diferença. Mas não faz mesmo nenhuma diferença se o autógrafo e o arquétipo são muito próximos ou muito distantes um do outro? Nossa missão é reconstruir o texto mais antigo que esteja disponível. O crítico textual precisa estar consciente que o arquétipo pode não ser o autógrafo original. Além disso, ele deve considerar como é possível, por exemplo, que a existência de um corpus paulino, possa afetar a leitura de qualquer uma das epistolas contidas no mesmo. É muito possível que certas cartas tenham sido ajustadas para se encaixarem numa antologia, assim como certas passagens foram adaptadas para se encaixar em certos lecionários.  

Existem muitas possibilidades que em todo o Novo Testamento, mas apenas o corpo paulino sofre com esse problema. O livro dos Atos dos Apóstolos e o Apocalipse são livros isolados e únicos, que nunca foram incorporados a nenhum tipo de corpus. As chamadas epístolas católica ou gerais, não foram agregadas em um corpus até bem mais tarde. Chegamos a essa conclusão pelo fato de 1 Pedro e 1 João serem universalmente aceitas logo, mas as outras 5 demoraram bastante para receberem o reconhecimento devido — 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Tiago. Um exemplo típico disso pode ser encontrado, por exemplo, no chamado Papiro 72 que tem as cartas de 1 e 2 Pedro e Judas, junto com materiais não canônicos. Mas esse mesmo documento não tem 1 João, apesar dessa epístola já ser considerada canônica quando o documento P72 foi compilado, e Judas ainda se encontrava entre as epistolas questionadas. Os evangelhos foram agrupados, muito provavelmente, bem antes das epístolas católicas ou gerais. Eles foram aceitos como uma coleção canônica produzida lá pelo final do século III d.C., quando o documento Papiro 45 foi escrito. Mas todos os quatro evangelhos circulavam amplamente antes dessa data final. Assim temos que: enquanto é possível que a coleção final dos quatro evangelhos tivesse certa influência em tempos posteriores, a mesma não pode ser considerada como um arquétipo.

Por outro lado, cada documento do Novo Testamento pode ter sofrido do problema que chamamos de “qual cópia”. Isso é mais óbvio no corpus paulino. Pelo que sabemos Paulo ditou a maioria, senão todas as suas cartas. Note bem o que é possível de acontecer numa situação como essa, pois a mesma é muito semelhante ao que vimos na primeira parte dessa série acerca de autógrafos e arquétipos. Paulo ditava um primeiro manuscrito. Aqui estamos diante de duas possibilidades:

1. Paulo usava dois escribas para escreverem o que ditava, apesar dele fazer referência constante a apenas um, chamado Tércio.

2. Se existia apenas uma cópia, então era necessário que alguém, poderia ser o próprio Tércio, fizesse uma segunda cópia, que certamente teria pequenas variações, para ser distribuída ou mesmo para ser arquivada por Paulo.

A segunda cópia, certamente tinha uma aparência melhor, e certamente deveria conter certas correções de erros causados pelo ditado e pela forma como as palavras eram entendidas por Tércio. Então resta perguntar: qual cópia Paulo enviava aos destinatários? A carta ditada originalmente ou a cópia? Não sabemos, mas podemos supor que ele optaria por enviar a cópia que tinha uma aparência melhor. Então surge a questão: qual das duas cópias pode ser considerada como autógrafo original? E qual delas foi usada como base para a edição canônica posterior? Realmente, creio que ninguém sabe a resposta correta quanto a essas questões.

Outros autores do Novo Testamento escreveram cartas, que foram patrocinadas por terceiros. Devemos mesmo acreditar que Lucas teria entregue o Evangelho de Lucas e o Livro de Atos para Teófilo sem guardar um cópia de cada para si mesmo? Isso seria mesmo algo inacreditável. Mas qual dessas duas primeiras cópias tornou-se o Evangelho Canônico? E as diversas cópias do mesmo sofreram algum tipo de contaminação cruzada? A resposta não é óbvia. Mas é, todavia, muito importante.

Devemos notar, incidentalmente, que estudiosos clássicos, criaram um esquema de notas que usam para distinguir o que eles consideram o autógrafo de um arquétipo. O autógrafo é indicado pelo uso de algum tipo de símbolo. Algumas vezes usa-se a letra “o” para distinguir o autógrafo original e o símbolo de aspas simples para indicar um arquétipo. No caso do Novo Testamento a maioria dos estudiosos não se atreve a ir além de reconhecer algum arquétipo. Isso nunca foi tentado com um possível original. O consenso é que os originais estão, definitivamente, perdidos.       

OUTROS ARTIGOS DE COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 001 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 002 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 003 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO — FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 004 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — OS PERGAMINHOS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 005 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — PAPEL E BARRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 006 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 007 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 008 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 – FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 009 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 010 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 011 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 003

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 012 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 004

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 013 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 005

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 014 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 006
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[1] Zuntz, Gunther. Text of the Epistles: Disquisition Upon the Corpus Paulinum (Schweich Lectures on Biblical Archaeology). Oxford University Press, Oxford, 1946.

sábado, 22 de agosto de 2015

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 005 — A MELHOR FORMA DE ABORDAR OS EVANGELHOS DO NOVO TESTAMENTO.



Essa série pretende disponibilizar as informações mais importantes acerca de cada um dos 27 livros que compõem o Novo Testamento. Desde que lançamos nossa série de Introdução ao Antigo Testamento, muitos leitores têm nos questionando acerca de algum material semelhante com respeito ao Novo Testamento. Então, aproveitando que iniciamos uma série de estudos acerca dos manuscritos do Novo Testamento — tecnicamente chamada de “baixa crítica” — estamos usando essa oportunidade para lançar uma série que trate também do texto do Novo Testamento em si, e da interpretação geral do mesmo — “alta crítica”.

I. OS EVANGELHOS

E. A MELHOR FORMA DE ABORDAR OS EVANGELHOS DO NOVO TESTAMENTO

Uma das coisas mais proveitosas que podemos fazer pelos nossos leitores, antes de iniciar o estudo individual dos quatro Evangelhos que temos no Novo Testamento, é compartilhar com todos acerca das vantagens que existem no método que vamos adotar em nosso estudo.

O primeiro ponto é que vamos lidar com o problema das fonte — tradições orais, os manuscritos e etc. — e suas origens partindo duma perspectiva que consideramos correta, como sendo algo subsidiário ao entendimento e apreciação dos evangelhos existentes. Por mais importantes que esses problemas sejam para o nosso estudo, é pura tolice exaltar os mesmos a uma posição de elementos que possuem a maior importância. Não possuem. Nossa metodologia, no entanto, tem suas próprias dificuldades no que diz respeito às fontes ou à formação da diversas tradições. Não será incomum, algumas vezes, nós anteciparmos certas conclusões, enquanto a explicação do que aconteceu, passo a passo, virá somente mais adiante. Nesse caso indicaremos para o leitor em que estudo a primeira informação poderá ser encontrada.
O segundo ponto é que nosso método permite o estudo de cada um dos quatro Evangelhos canônicos de forma independente, o que permite analisar, duma perspectiva apropriada, a forma como cada um deles veio a ser composto. Esse é o principal motivo porque vamos manter a ordem canônica como aparece no Novo Testamento — Mateus, Marcos, Lucas e João. Descobriremos também que vários aspectos envolvendo aspectos individuais dos quatro Evangélicos poderão ser discutidos, independentemente da solução do problema da relação que possa existir entre os mesmos.

Mesmo assim, achamos importante apresentar agora, alguns aspectos das teorias gerais acerca das origens, especialmente dos três primeiros evangelhos — chamados de sinóticos ou escritos de uma mesma perspectiva. A abordagem da crítica das origens ou crítica das fontes sustenta que Marcos foi o primeiro Evangelho a ser escrito e tanto Mateus como Lucas fizeram extenso uso do mesmo. Além disso, Mateus e Lucas usaram uma outra fonte que reunia uma série de ditos do Senhor Jesus Cristo que recebeu o nome de Quelle, fonte em alemão e é, geralmente reconhecida pela letra “Q”. Junte-se a isso uma grande quantidade de tradições especiais — chamadas respectivamente de “M” e “L” — independentemente de serem as mesmas escritas ou orais. O método da Crítica da Forma de explicar a origem dos Evangelhos tem a clara intenção de ir para além das origens em si e assume, como seu princípio básico, que as tradições mais antigas costumavam circular, de forma independente como unidades separadas. E foi desse modo que as mesmas foram incorporadas dentro dos Evangelhos. Tanto a Crítica de Forma como a Crítica das Fontes se4rão amplamente discutidas mais adiante.       

Nossas palavras introdutórias, que podem ser vistas em sua totalidade por meio dos links abaixo, não fazem menção direta ao Evangelho de João, pois o mesmo encontra-se em uma categoria toda sua e distinta dos outros evangelhos. O Evangelho de João será apreciado somente depois que discutirmos a questão chamada de “O Problema Sinótico”.

OUTROS ESTUDOS ACERCA DA INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 001 — INTRODUÇÃO GERAL AOS EVANGELHOS — ESTUDO 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 002 — A FORMA LITARÁRIA DOS EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 003 — MOTIVOS PORQUE OS EVANGELHOS FORAM ESCRITOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 004 — O LUGAR OCUPADO PELOS QUATRO EVANGELHOS NO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 005 —  A MELHOR FORMA DE ABORDAR OS QUATRO EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 006 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 007 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 002

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 008 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 003

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 009 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 004

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 010 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 005

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 011 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 006

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 012 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 007

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 013 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 008

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 014 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 009

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 015 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 010 — AUTOR — PARTE 002



INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 016 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 011 — DATA DA COMPOSIÇÃO

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quinta-feira, 16 de julho de 2015

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 004 – INTRODUÇÃO OS EVANGELHOS — O LUGAR OCUPADO PELOS EVANGELHOS NO NOVO TESTAMENTO.



Essa série pretende disponibilizar as informações mais importantes acerca de cada um dos 27 livros que compõem o Novo Testamento. Desde que lançamos nossa série de Introdução ao Antigo Testamento, muitos leitores têm nos questionando acerca de algum material semelhante com respeito ao Novo Testamento. Então, aproveitando que iniciamos uma série de estudos acerca dos manuscritos do Novo Testamento — tecnicamente chamada de “baixa crítica” — estamos usando essa oportunidade para lançar uma série que trate também do texto do Novo Testamento em si, e da interpretação geral do mesmo — “alta crítica”.

I. OS EVANGELHOS

D. O LUGAR OCUPADO PELOS EVANGELHOS NO NOVO TESTAMENTO

Não é nossa intenção discutir nessa série como foi o desenvolvimento do cânon do Novo Testamento. Para todos que têm interesse nessa área específica recomendamos, em português, a obra de Werner Georg Kümel Introdução ao Novo Testamento, publicada no Brasil pela Editora Paulus. Mesmo não sendo nossa intenção nesse momento, ainda assim cremos que devemos fazer um breve apanhado descrevendo a atitude da igreja primitiva com relação aos Evangelhos, com o objetivo de localizar o problema da introdução dos mesmos numa perspectiva correta.

Perto do final do século II d.C., fica claro, por meio de toda a evidência que temos disponível, que os quatros Evangelhos que chamamos de “canônicos” já haviam sido aceitos, não apenas como sendo documentos autênticos, mas também como sendo Escrituras Sagradas, no mesmo nível do Antigo Testamento. Irineu, um dos pais da Igreja — que viveu entre 130 e 201 d.C., datas são aproximadas — faz uma afirmação muito interessante, quando diz que: “a existência de quatro Evangelhos é análoga à existência dos quatro cantos do mundo, dos quatro ventos que sopram sobre a terra e da necessidade de uma construção ter quatro pilares de sustentação. É óbvio que podemos questionar o método analógico de Irineu, mas por outro lado, seu testemunho a favor da exclusividade desses quatro evangelhos e desses quatro apenas, é inegável. Ou seja, já em seus dias a igreja não aceitava nenhum outro Evangelho. Além disso, nessa mesma passagem original de Irineu, ele nos fala acerca dos autores de cada evangelho, de acordo com as tradições da sua própria época. Em seguida ele procede delineando a doutrina da inspiração dos Evangelhos. Mesmo que Irineu nos apresente sua opinião de maneira acrítica, ele o faz apoiado nas melhores tradições disponíveis em seus dias. Ninguém, em sã consciência pode desprezar o testemunho de Irineu quando discute qualquer questão introdutória relativa aos Evangelhos.

Apesar de Clemente de Alexandria — viveu entre 150 e 215 d.C., datas são aproximadas — fazer algumas citações de outros evangelhos tais como, por exemplo: O Evangelho de Acordo com Os Egípcios, ainda assim ele procura fazer uma clara distinção entre esses outros evangelhos e os Quatro Evangelhos. Já Tertuliano — viveu entre 160 e 220 d.C., datas são aproximadas — cita, exclusivamente, os quatro Evangelhos canônicos, ao mesmo tempo em que apresenta uma forte argumentação para a autoridade dos mesmos, com base de que os mesmos foram produzidos por apóstolos ou por pessoas diretamente associadas a eles. Nenhum desses escritores que mencionamos, parece ter questionado a origem desses quatro Evangelhos como oriundos, diretamente, da era apostólica. Mas a posição deles tem sido desafiada por críticos modernos, que não apresentam nenhuma alternativa melhor, nem conseguem fornecer uma interpretação mais aceitável. Os críticos de hoje se limitam apenas a atacar as testemunhas do passado.

Antes do ano 180 d.C., a evidência disponível é menos específica, mas mesmo assim, continua apontando para a alta estima dedicada aos quatro Evangelhos desde o início dos primeiro registros existentes. A Harmonia de Taciano — viveu entre 120 e 180 a.C., datas são aproximadas — é composta de parte dos nossos quatro evangelhos canônicos, e demonstra a perplexidade que existia diante desse material que contava as Boas Novas acerca de Jesus Cristo. Apesar do material de Taciano ter recebido uma ampla aceitação na igreja do Oriente, o mesmo foi logo abandonado pelo uso de cópias dos quatro Evangelhos canônicos. Isso é uma prova indisputável, de que esses últimos eram tidos na mais alta estima quando comparados a quaisquer outros escritos que, nessa altura já começavam a circular e se multiplicar. Os cristãos daqueles dias estavam mais interessados numa “vida de Cristo” consecutiva, compilada de fontes originais, do que nas próprias fontes originais. Numa data ainda anterior, Justino Mártir — viveu entre 100 a 165 d.C., datas são aproximadas — aparentemente conhecia e usou todos os quatro Evangelhos canônicos, apesar de não podermos ter absoluta certeza disso, por causa da forma livre com que as citações são feitas. De grande importância para nós é sua afirmação de como as memórias dos apóstolos eram usadas nos cultos a Deus. Essas memórias são identificadas, em outros lugares como sendo εὐαγγέλιαeuvangélia — Evangelhos, e fica claro pelo uso dessa expressão que os mesmos eram considerados autoritativos, por causa da relação direta com as lembranças dos próprios apóstolos.    

Tanto Clemente Romano — viveu entre 35 a 97 d.C., datas são aproximadas — quanto Inácio de Antioquia — viveu entre 35 a 107 d.C., datas são aproximadas — fizeram uso do material dos quatro evangelhos e, mesmo que tal uso tenha sido na forma de alusões e não de citações diretas, todo o material encontra paralelos no material original dos quatro Evangelhos canônicos. A única exceção é uma citação de Clemente que contém um dito dominical de Jesus que não se encontra nos escritos originais. Mas apesar de tudo isso, existe muita discussão se os chamados pais da igreja — entre os séculos II e VII d.C., — e o material que produziram chamado de patrística — tinham conhecimento do material contido nos quatro Evangelhos canônicos. Todavia, alguns autores falam de uma espécie de “tradição pré-sinótica”, como por exemplo, H. Köster. Por outro lado, a Epístola de Policarpo, contém paralelos precisos com os quatros Evangelhos canônicos, o que nos dá plena certeza que o mesmo estava familiarizado com os mesmos. Policarpo de Esmirna viveu entre 69 a 155 d.C., as datas são aproximadas. Com respeito a todos esses autores citados nesse parágrafo, os estudiosos críticos têm duvidas se os mesmos tinham conhecimento do Evangelho de João.    

Durante o período chamado de sub-apostólico, o Testemunho de Papias de Hierápolis — viveu entre 70 e 155 d.C., datas são aproximadas — acerca de dois Evangelhos é notável, mesmo sendo um tanto quanto enigmático. Iremos discutir todos esses aspectos de maneira mais aprofundada, à medida que avançarmos nesses estudos. Por agora, basta reafirmar que não existe nada em Papias que contradiga a evidência patrística citada anteriormente nesse estudo. Papias fez duas afirmações acerca dos Evangelhos, uma de Mateus e outra de Marcos, que são consideradas as mais antigas citações acerca da autoria desses Evangelhos. Papias acreditava que Marcos era o intérprete do apóstolo Pedro e que Mateus escreveu seu Evangelho, originalmente em hebraico. Suas duas afirmações se tornaram em verdadeiros campos de batalha para os críticos que não conseguem, realmente, provar nata mais apenas levantar suspeitas. Para nós, que cremos na inspiração das Escrituras a evidência é importante por causa da sua antiguidade.    

CONTINUA...  

OUTROS ESTUDOS ACERCA DA INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 001 — INTRODUÇÃO GERAL AOS EVANGELHOS — ESTUDO 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 002 — A FORMA LITARÁRIA DOS EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 003 — MOTIVOS PORQUE OS EVANGELHOS FORAM ESCRITOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 004 — O LUGAR OCUPADO PELOS QUATRO EVANGELHOS NO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 005 —  A MELHOR FORMA DE ABORDAR OS QUATRO EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 006 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 007 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 002

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 008 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 003

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 009 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 004

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 010 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 005

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 011 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 006

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 012 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 007

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 013 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 008

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 014 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 009

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 015 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 010 — AUTOR — PARTE 002



INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 016 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 011 — DATA DA COMPOSIÇÃO

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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Desde já agradecemos a todos.  

quinta-feira, 11 de junho de 2015

FALSOS EVANGELHOS: DE APÓCRIFOS A PSEUDOEPIGRÁFICOS



Jesus na presença de Pilatos - Concepção artística

O material abaixo foi publicado pelo site da revista superinteressante e é da autoria de Érica Montenegro


Um outro Jesus

Érica Montenegro
                   
Os evangelhos apócrifos — textos que foram proibidos pela Igreja e que desapareceram por mais de um milênio — trazem um Jesus diferente daquele que conhecemos.

Quem não conheceu a si mesmo não conhece nada, mas quem se conheceu veio a conhecer simultaneamente a profundidade de todas as coisas.

Esta frase acima é atribuída a Jesus Cristo. Mas não adianta ir procurá-la na Bíblia. Ela não está em nenhum lugar dos Evangelhos de Lucas, Marcos, Mateus ou João, os únicos relatos da vida de Jesus que a Igreja considera autênticos. A citação faz parte de um outro evangelho – o de Tomé. Também não perca seu tempo procurando por esse livro no Novo Testamento. Não há por lá nenhum evangelho com o nome do mais cético dos apóstolos, aquele que queria "ver para crer".

Acontece que o texto existe. E é um documento antigo – segundo alguns pesquisadores, tão antigo quanto os que estão na Bíblia (veja quadro mais abaixo). O Evangelho de Tomé, assim como outras dezenas – ou centenas – de textos semelhantes, foi escrito por alguns dos primeiros cristãos, entre os séculos 1 e 3 da nossa era. Ele foi cultuado por muito tempo. Até que, em 325, sob o comando do imperador romano Constantino, a Igreja se reuniu na cidade de Niceia, na atual Turquia, e definiu que, entre os inúmeros relatos sobre a vinda de Cristo que existiam, só quatro eram "inspirados" pelo filho de Deus – os "evangelhos canônicos" ("evangelho" vem da palavra grega que significa "boa nova", usada para designar a notícia da chegada de Cristo, e "canônico" é aquele que entrou para o cânone, a lista dos textos escolhidos). Os outros eram "apócrifos" (de legitimidade duvidosa). Esses foram proibidos, seus seguidores passaram a ser considerados hereges e muitos foram excomungados, perseguidos, presos. A maioria dos apócrifos acabou destruída e os textos sumiram, alguns para sempre.

Mas nem todos. O Evangelho de Tomé, o de Filipe e o de Maria Madalena, por exemplo, escaparam por pouco da destruição – graças a um egípcio anônimo. Em algum momento do século 4, esse egípcio teve a boa idéia de esconder num jarro de barro cópias manuscritas na língua copta desses textos e de muitos outros ameaçados pela perseguição da Igreja. O jarro ficou 1 600 anos sob a areia do deserto. Acabou resgatado por um grupo de beduínos, em 1945, perto da cidade egípcia de Nag Hammadi. Só nos últimos anos os textos acabaram de ser traduzidos e chegaram ao conhecimento dos cristãos do mundo.

Assim, por acidente, alguns apócrifos sobreviveram ao tempo. E agora, 2 mil anos depois da morte de Cristo, eles estão fazendo um tremendo sucesso. Inspiram filmes milionários (como Matrix) e best sellers (como O Código Da Vinci). São adotados por seitas cristãs, geram religiões, dão origem a teorias conspiratórias e são cada vez mais lidos por fiéis do mundo, inclusive cristãos tradicionais, que não veem contradição entre alguns desses textos e a religião que eles seguem. Só no Brasil há pelo menos 30 grupos cujas crenças são baseadas nos apócrifos. Como explicar essa súbita popularidade para textos que estiveram sumidos por mais de um milênio e meio?

Talvez a principal razão seja o fato de que os textos revelam mais sobre Jesus. Os quatro evangelhos canônicos contam uma história fascinante, mas deixam muitas brechas. Os cristãos do mundo têm vontade de saber mais sobre esse homem, ainda que seja através de textos que a Igreja não considera legítimos.

E vários dos apócrifos trazem passagens reveladoras para aqueles que tentam enxergar o homem por trás do Deus. "É um Jesus mais humano, em situações mais próximas da vida de homens e mulheres de hoje", diz o jornalista espanhol Juan Arias, do El País, autor de livros sobre a história do cristianismo. Arias, que cobriu o Vaticano por 14 anos, está terminando um livro em que resume as pesquisas históricas a respeito de Maria. Um dos temas que ele examina é a falta de referência em alguns apócrifos à virgindade da mãe de Jesus. "Que mulher se identifica com outra que foi mãe sem perder a virgindade?", pergunta.

Além disso, vários apócrifos trazem o retrato de um Jesus diferente do que conhecíamos. "As questões de gênero, as relações de poder e até mesmo a espiritualidade estão colocadas em termos mais ecumênicos e holísticos nos apócrifos", diz o frei franciscano Jacir de Freitas Farias, professor do Instituto São Tomás de Aquino, em Belo Horizonte. Frei Jacir promove retiros em que evangelhos apócrifos, meditação e ioga se misturam para proporcionar conforto espiritual aos participantes.

Veja por exemplo aquela citação lá atrás, a que abre a reportagem. O que está escrito ali é que nada é mais importante que a sabedoria, e que o autoconhecimento é o caminho para a sabedoria. Essa idéia – que não é muito diferente daquilo que prega o budismo – está completamente ausente dos evangelhos de Mateus, Marcos, João e Lucas. Qualquer bom cristão sabe que o Novo Testamento oferece um caminho de só duas pistas para a salvação. Primeiro: é preciso ter fé (ela remove montanhas). Segundo: suas ações têm que ser boas (ame o próximo como a si mesmo). Em nenhum lugar há referência a outra rota para o Paraíso. Nem Lucas, nem Marcos, nem Mateus, nem João mencionam a salvação pelo autoconhecimento, ou pela sabedoria.

Se o cristianismo tradicional ignorava a importância do autoconhecimento, a idéia não é nova para nós, ocidentais do século 21. Sigmund Freud, no século 19, trouxe para a ciência a idéia de que há algo para ser descoberto dentro de nós mesmos – no caso, o subconsciente – e que esse algo pode nos trazer conforto e felicidade. Talvez esteja aí – na herança freudiana – uma das explicações para o sucesso dos apócrifos nos tempos atuais.

Há outras. O Evangelho de Tomé e outros apócrifos falam ao coração de um contingente que não pára de crescer nos tempos atuais: os ávidos por espiritualidade, mas desconfiados da religião (é bom lembrar que a maior parte dos católicos brasileiros se diz "não praticante"). "O reino está dentro de vós e também em vosso exterior. Quando conseguirdes conhecer a vós mesmos, sereis conhecidos e compreendereis que sois os filhos do Pai Vivo. Mas, se não vos conhecerdes, vivereis na pobreza e sereis a pobreza", diz o texto de Tomé.

Muitos apócrifos pregam também códigos de conduta menos rígidos que os do cristianismo tradicional. Numa passagem do Evangelho de Maria Madalena, Cristo diz que "eu não deixei nenhuma ordem senão o que eu lhe ordenei, e eu não lhe dei nenhuma lei, como fez o legislador, para que não seja limitada por ela". Esse trecho parece contrariar a própria autoridade da Igreja. Em Tomé, também aparece um Jesus menos dado a imposições, que diz "não façais aquilo que detestais, pois todas as coisas são desveladas aos olhos do Céu". Bem diferente das aulas de catecismo, não?



Outra novidade é que vários apócrifos valorizam o papel da mulher. Os evangelhos de Filipe e de Maria Madalena afirmam que Madalena recebia revelações privilegiadas do Salvador. "O Senhor amava Maria mais do que todos os discípulos e a beijou na boca repetidas vezes", afirma o de Filipe. Para Karen King, historiadora eclesiástica da Universidade Harvard, Madalena estava tão autorizada a pregar a palavra de Jesus quanto os 12 apóstolos. "Os textos mostram que Maria Madalena entendeu os ensinamentos de Jesus melhor do que ninguém", afirmou, em entrevista à revista National Geographic.


Sem falar que muitos apócrifos deixam em segundo plano uma velha conhecida dos cristãos: a culpa. Você conhece a história dos livros canônicos: eu e você somos pecadores, e Cristo morreu na cruz para nos salvar. Nós pecamos, ele morreu – durma-se com isso na consciência. Já os evangelhos de Tomé, Filipe e Maria Madalena não contêm uma só linha sobre o julgamento e a condenação de Jesus. Ou seja, a Paixão de Cristo, que hoje consideramos central para a fé cristã, não tinha a menor importância para os seguidores desses textos. Nada de culpa, portanto. Ele traz apenas charadas que convocam seus leitores a reflexões espirituais.

Para resumir: os apócrifos revelam um Jesus mais democrático e menos sexista, mais tolerante e menos autoritário – características que combinam com nossos dias. Eles eliminam a culpa e abrem caminho para uma fé pessoal, algo que faz sucesso nestes tempos individualistas. Sem falar que estão cercados de uma charmosa aura de mistério. "Esta é uma sociedade que desconfia de qualquer instituição, então dizer que eles foram condenados pela Igreja vira um chamariz e tanto", diz o teólogo Pedro Vasconcellos, da PUC de São Paulo. Deu para entender por que eles estão tão na moda?

Mas, afinal, que textos são esses? Dá para dizer que eles são vestígios de cristianismos perdidos. Sim, é isso mesmo: o cristianismo, no começo, não era um só, eram vários. "Nos séculos 2 e 3, havia cristãos que acreditavam em um Deus. Outros insistiam que Ele era dois. Alguns diziam que havia 30. Outros, 365", escreve Bart Ehrman, professor de Estudos Religiosos na Universidade da Carolina do Norte, no livro Lost Christianities ("Cristianismos Perdidos", sem versão em português).


Os primeiros cristãos viviam em comunidades clandestinas, que se reuniam às escondidas nas periferias das cidades e que tinham pouco contato umas com as outras. Essas comunidades eram lideradas muitas vezes por pessoas que conheceram Cristo ou pelos próprios apóstolos. Como Cristo não deixou nada escrito, coube a essas primeiras lideranças do cristianismo construir a religião.


Não há como saber se o Evangelho de Mateus foi escrito pelo próprio Mateus. "Naquele tempo, como ainda hoje, não faltava quem se candidatasse a pregar em nome de um personagem tão importante", afirma o teólogo Paulo Nogueira, da Universidade Metodista de São Paulo. Mas é bastante provável que o texto tenha sido construído a partir dos ensinamentos do apóstolo recolhidos por seus seguidores. Da mesma forma, os evangelhos de João, Pedro, Maria Madalena, Tomé e Filipe devem ter sido os textos que guiavam as práticas dos grupos que se reuniram em torno dessas figuras importantes da religião nascente (ou que buscaram inspiração nelas). "Os evangelhos apócrifos, da mesma forma que os canônicos, não devem ser encarados como reproduções exatas das palavras de Jesus Cristo, mas como interpretações da mensagem dele feitas pelas primeiras comunidades cristãs", diz o teólogo Vasconcellos. É claro que essas interpretações nem sempre concordavam umas com as outras. E, portanto, é claro que, naquela aurora do cristianismo, produziram-se diversos textos – muitas vezes contraditórios entre si.



Entre os primeiros grupos cristãos havia, por exemplo, os ebionitas, uma das seitas mais antigas. Eles se consideravam judeus e achavam que Jesus era o Salvador apenas do povo hebreu. Os ebionitas mantinham os rituais judaicos, rezavam voltados para Jerusalém e acreditavam que Cristo tinha sido especial não por ser filho de Deus, mas por ter seguido à perfeição a lei judaica.

No outro extremo, estavam os marcionitas, para quem havia dois deuses. O primeiro deles seria um deus mau – o deus dos judeus, responsável por tudo de ruim no planeta. Jesus seria o segundo, um deus bom, que teria surgido para nos liberar da divindade maligna. Esse cristianismo, que hoje soa bizarro, foi popular no começo do século 2, antes de ser condenado como heresia em 139. Uma das razões para o sucesso é que a tese de dois deuses exclui a culpa cristã. Se um deus mau criou o mundo, é ele o responsável pelos sofrimentos sobre a terra.


Os gnósticos tinham crenças aparentadas às dos marcionistas. Também para eles o mundo foi criado por uma divindade imperfeita e não havia por que nos sentirmos culpados pelos males que existem. A diferença é que os gnósticos acreditavam que o Deus bom influiu na criação. Ele dotou cada um dos seres humanos de uma centelha divina – que nos dava a capacidade de despertar dessa imperfeição e conhecer a verdade. Se conseguirmos acumular conhecimento (gnosis, em grego), nos libertaremos desse mundo mau e estaremos salvos. Cristo, para os gnósticos, seria um enviado desse Deus verdadeiro, cujo objetivo seria nos ensinar a despertar. A escrita e a leitura cumpririam um papel importante nesse processo, e por isso eles deixaram muitos textos (boa parte dos apócrifos são gnósticos). Nota-se uma forte influência da filosofia grega nesse cristianismo.

Há uma boa pitada de gnosticismo naquela frase do Evangelho de Tomé que abre esta reportagem. Mas os tomasinos (seguidores de Tomé) eram uma seita à parte. Eles também acreditavam na salvação pelo conhecimento, mas iam além: pregavam que a busca é completamente individual. Os tomasinos rejeitavam a hierarquia – e, portanto, a Igreja. A salvação está dentro de cada um de nós e podemos atingi-la sem a ajuda de um padre.


E havia, claro, os seguidores de Paulo e os de Pedro, fortes especialmente em Roma, bem no centro do império. Esse grupo, no início, não era maior nem mais representativo que os outros. A proximidade com a burocracia estatal que administrava o Império Romano certamente exerceu influência sobre ele – não é à toa que o cristianismo romano era o mais organizado e hierarquizado de todos.


Cada uma dessas comunidades cristãs seguia um certo conjunto de textos – e rejeitava outros. Mas a maioria considerava legítimos os evangelhos de Marcos, Matias, Lucas e João, que provavelmente são os mais antigos e menos controversos. Em 312, o imperador romano Constantino se converteu ao cristianismo. E foi o cristianismo de Roma que ele escolheu. Constantino administrava um império que era quase "universal", e queria também uma "Igreja universal". Quando, 13 anos depois, sob as ordens do imperador, a Igreja se reuniu para decidir o que era o cristianismo, os bispos de Roma, mais organizados e com o apoio decisivo do imperador, sobressaíram nas discussões. "O credo de Nicéia acabaria por se tornar a doutrina oficial que todos os cristãos deveriam aceitar para participar da Santa Igreja, a Igreja Católica", escreve o teóloga Elaine Pagels, da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, no livro Além de Toda Crença: O Evangelho Desconhecido de Tomé.


Os textos que não davam importância à crucificação de Cristo acabaram proibidos. Afinal, a Igreja romana, que cresceu em meio a violentas perseguições, valorizava muito o martírio – associado ao martírio de Cristo. Os evangelhos dos tomasinos, que pregavam a busca individual pela salvação, também caíram fora. A hierarquizada Igreja de Roma obviamente não simpatizava com essas idéias libertárias. Entre os textos que foram proibidos, vários faziam parte das bibliotecas gnósticas. Para Eusébio de Cesária, que no século 4 escreveu o primeiro livro sobre a história do cristianismo, o gnosticismo estava sendo introduzido pelo demônio, "que odeia o que é Deus, que é inimigo da verdade, hostil à salvação do mundo, voltando todas suas forças contra a Igreja". Acredita-se que os manuscritos de Nag Hammadi sejam tesouros salvos da biblioteca gnóstica do Mosteiro de São Pacômio, que ficava lá perto.

Ninguém sabe ao certo quantos evangelhos foram suprimidos. O que se sabe é que só quatro livros foram considerados "corretos". Apenas neles "o ensinamento das linhas de Deus é proclamado. Não acrescentem nada a eles, não deixem nada se afastar deles", segundo um decreto de um bispo de Alexandria. Daí para a frente, haveria quatro evangelhos. E, pela primeira vez, um só cristianismo.

Voltemos então à pregação gnóstica, expressa em vários dos evangelhos apócrifos. O mundo é mau por natureza, mas cada um de nós traz dentro de si uma centelha e, se atingirmos o conhecimento, iremos despertar. Jesus veio à Terra para nos ensinar o caminho. Agora substitua nessa história o nome de Jesus pelo de Neo. E temos um dos maiores sucessos pop dos últimos anos, a trilogia Matrix.


Matrix fez tanto sucesso porque toca num tema com o qual é difícil não se identificar: a sensação de não pertencer a esse mundo, de se sentir estranho nele, e de que ele é banal demais para nossas altas aspirações espirituais. É claro que seria um absurdo dizer que o sujeito que saiu do cinema empolgado com a saga dos irmãos Wachowski tenha sido tocado pelo mesmo tipo de revelação que os cristãos envolvidos pelas pregações gnósticas no século 2 ou 3. Mas talvez não seja por coincidência que o roteiro, inspirado por textos gnósticos, tenha soado tão transcendental.


Os evangelhos apócrifos, assim como os canônicos, foram escritos por pessoas inquietas, numa época conturbada e difícil, em que as antigas respostas já não davam conta de acalmar os espíritos. É claro que os tempos, hoje, são muito diferentes. Mas, de novo, boa parte da humanidade está inquieta e insatisfeita com as respostas que existem. Tem muita gente em busca de alguma coisa que torne nossa existência mais transcendente, mais valiosa. E esses textos escritos por outros homens, numa busca parecida, podem nos dar uma dica de onde começar a procurar.


Um dos critérios para explicar por que só os evangelhos de Marcos, Lucas, Mateus e João entraram na Bíblia é a datação. Um consenso entre os especialistas situa os canônicos como tendo sido escritos entre 60 e 90. Já os apócrifos teriam sido produzidos a partir do século 2. Mas também sobre essa questão pairam dúvidas.



Está lá no Evangelho de João. Cristo disse: "Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram". Alguns pesquisadores, como a americana Elaine Pagels, da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, acham que o autor do texto, quando o escreveu, estava respondendo ao Evangelho de Tomé. Se a tese dela está correta, o Evangelho de Tomé é mais antigo que o de João.


Segundo essa teoria, o Evangelho de João seria um esforço para negar que a salvação pudesse ser atingida pela busca pessoal do autoconhecimento, tese central de Tomé. O Evangelho de João coloca então Tomé no papel do cético exagerado que é repreendido por Cristo. E conclui apontando um caminho mais simples para a salvação: basta acreditar nela. A fé salva.

     Evangelho - Evangelho de Pedro
     Conteúdo - Provavelmente circulou no século 2, tendo sua autoria atribuída ao apóstolo Pedro. Conta uma versão diferente da ressurreição de Cristo: o Salvador teria sido conduzido ao céu por dois anjos
     Por que foi proibido - Foi acusado de uma heresia chamada "docetismo", pela qual Jesus era somente espírito
      Como foi descoberto - Arqueólogos franceses encontraram um fragmento do texto na tumba de um monge no Egito, em 1886

      Evangelho - Evangelho de Filipe
      Conteúdo - Traz histórias que não estão na Bíblia, como a de que Jesus mudava de aparência para conhecer aqueles a quem se revelava. Sugere seu relacionamento com Madalena. Circulou no século 3
      Por que foi proibido - Por ser gnóstico e afirmar que só mulheres virgens entravam no Paraíso (o que inviabilizaria as famílias)
     Como foi descoberto - Foi encontrado em 1945, em meio aos manuscritos enterrados num vaso em Nag Hammadi

     Evangelho - Evangelho de Maria Madalena
     Conteúdo - Num dos poucos fragmentos que restaram, Cristo ressuscitado instrui os discípulos a espalhar o gnosticismo e avisa que não deixou leis. Afirma que Jesus transmitiu segredos a Madalena
     Por que foi proibido - O texto é escrito de acordo com o gnosticismo, que foi condenado como heresia
     Como foi descoberto - Um pedaço foi descoberto em um mosteiro egípcio em 1896. Outra versão estava em Nag Hammadi

      Evangelho - Evangelho de Tomé
     Conteúdo - São 114 frases atribuídas a Jesus. Nelas, Ele afirma que a salvação vem do autoconhecimento e que a centelha divina está em cada um. Alguns pesquisadores dizem que o texto é do século 1
      Por que foi proibido - Foi combatido pelos primeiros padres da Igreja por causa de seu conteúdo gnóstico
     Como foi descoberto - É um dos textos que estavam perdidos até a descoberta de Nag Hammadi, em 1945

"Jesus disse ao jovem o que devia fazer, e à noite este veio a ele com um vestido de linho sobre o corpo nu. E ficaram juntos aquela noite, pois Jesus ensinou-lhe o mistério do reino de Deus." Esse trecho explosivo foi divulgado nos anos 70 por Morton Smith, pesquisador da Universidade da Califórnia.

Um Evangelho gay? Ou uma falsificação competente?

 Morton afirma que organizava a biblioteca do mosteiro de Mar Saba, próximo a Jerusalém, em 1958, quando encontrou a citação copiada na contracapa de um livro. O trecho teria vindo de um certo Evangelho Secreto de Marcos, escrito pelo mesmo autor do Evangelho de Marcos.

Especialistas confirmaram que o texto correspondia ao estilo do autor. Morton publicou dois livros polêmicos em que defendia a tese de que a conjunção carnal fazia parte da iniciação cristã. Seria uma grande descoberta, não fosse um detalhe: o único que viu o achado foi o próprio Morton. O livro sumiu do mosteiro. Portanto, uma dúvida insolúvel ronda o suposto evangelho homoerótico: seria verdadeiro ou uma fraude engendrada por um exímio conhecedor de textos antigos?


Apócrito é POP

A trilogia Matrix não é o único sinal da influência dos evangelhos apócrifos sobre a cultura pop. Outro que se fartava na fonte era o autor de ficção científica Philip K. Dick. O escritor, cujos livros inspiraram filmes como o clássico-mor do sci-fi, Blade Runner, e também Minority Report (de Spielberg) e O Troco (de John Woo), era entusiasta de textos gnósticos, que abasteceram a "dualidade bem e mal" em sua obra. Outra história pop é a do relacionamento entre Maria Madalena e Jesus Cristo. O megabest seller O Código Da Vinci, do americano Dan Brown, pega carona nessa onda e sustenta uma trama mirabolante sobre os filhos de Jesus e Madalena, que foi levado às telas em 2005, pelas mãos do diretor Ron Howard. Hollywoodianamente, a influência dos apócrifos pôde ser vista até mesmo em blockbusters descartáveis, caso do rocambolesco Stigmata. Nele, a atriz Patricia Arquette é acometida pelas chagas de Cristo. Num clima de suspense de segunda, o filme evoca os escritos de Tomé quando entra no assunto de que a Igreja seria dispensável para que o cristão se aproximasse de Deus. Detalhe bizarro: algumas cenas se passam no Brasil e os figurantes falam uma tosca mistura de português, espanhol e italiano.

Na livraria:

Lost Christianities: The Battles for Scripture and the Faiths We Never Knew - Bart D. Ehrman, Oxford University Press, EUA, 2003

Além de Toda Crença: O Evangelho Desconhecido de Tomé - Elaine Pagels, Objetiva, Rio de Janeiro, 2003

Apócrifos da Bíblia e Pseudo-Epígrafos - Cristão Novo Século, São Paulo, 2004
As Origens Apócrifas do Cristianismo - Jacir de Freitas Faria, Paulinas, São Paulo, 2003

Jesus, Esse Grande Desconhecido - Juan Arias, Objetiva, Rio de Janeiro, 2002

O artigo original poderá ser lido por meio do seguinte link:


NOSSO COMENTÁRIO:

Usando e abusando de citações imprecisas a autora que não tem formação teológica, cria uma fantasia idêntica às fantasias existentes nos evangelhos apócrifos e pseudoepigráficos. Ela trata tanto sua própria fantasia como a que encontramos nos evangelhos apócrifos como se fossem verdades às quais devemos nos submeter com exceção da citação envolvendo uma suposta relação homossexual entre Jesus e um menor.

Nós cremos que todo esse besteirol se perde por si mesmo, porque não está amparado em absolutamente nada, mas apenas em opiniões de pessoas cujo propósito é apenas tentar destruir a revelação da Palavra de Deus que é eterna e dura para sempre.

Queremos sugeris que nossos leitores leiam e acompanhem nossa série sobre “INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO” cujos três primeiros estudos poderão ser vistos por meio dos links abaixo. Nesses estudos respondemos a toda esse besteirol fantasioso que não cansa de ser repetido desde meados do século XVIII. Os links são os seguintes:

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 001 — INTRODUÇÃO GERAL AOS EVANGELHOS — ESTUDO 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 002 — A FORMA LITERÁRIA DOS EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 003 — MOTIVOS PORQUE OS EVANGELHOS FORAM ESCRITOS

Que Deus abençoe a todos

Alexandros Meimaridis

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