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sexta-feira, 14 de julho de 2017

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 018 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MARCOS — CARACTERÍSTICAS — 001

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Essa série pretende disponibilizar as informações mais importantes acerca de cada um dos 27 livros que compõem o Novo Testamento. Desde que lançamos nossa série de Introdução ao Antigo Testamento, muitos leitores têm nos questionando acerca de algum material semelhante com respeito ao Novo Testamento. Então, aproveitando que iniciamos uma série de estudos acerca dos manuscritos do Novo Testamento — tecnicamente chamada de “baixa crítica” — estamos usando essa oportunidade para lançar uma série que trate também do texto do Novo Testamento em si, e da interpretação geral do mesmo — “alta crítica”.

II. O EVANGELHO DE MARCOS

O Evangelho de Marcos atravessou os séculos praticamente ignorado, até tronar-se central nas discussões levantadas pela chamada crítica textual do século XIX. Comentários antigos em Marcos são raros, o que indica claramente que o mesmo tinha um apelo muito pequeno. Mateus era considerado bem mais importante e, como Marcos era visto apenas como uma reprodução menor de Mateus, não é à toa que o mesmo era ignorado. Todavia, essa abordagem não era parte da postura da igreja primitiva acerca de Marcos já que o mesmo era considerado como sendo o registro feito por Marcos das reminiscências do apóstolo Pedro. Marcos alcançou uma posição de destaque nas discussões acerca dos evangelhos ao ser colocado no centro do chamado Problema Sinótico — falaremos acerca desse problema mais adiante.

A. CARACTERÍSTICAS

1. Um Evangelho de Ação

Não é difícil para nenhum leitor perceber que para Marcos a ação é mais importante que o discurso. Os ensinamentos de Cristo são sempre apresentados no contexto de algum tipo de narrativa. A história se move em passos rápidos até culminar na crucificação de Jesus. Alguns exemplos do que estamos falando serão suficientes para estabelecer esse fato:
a. Marcos descreve como o telhado de uma casa foi removido para que um paralítico pudesse ser colocado diante de Jesus — Marcos 2:4.

b. Marcos descreve Jesus dormindo com sua cabeça sobre um travesseiro dentro de um barco em meio a uma forte tormenta — Marcos 4:37—38.

c. Marcos nos fala de como a multidão foi ordeiramente dividida e assentada quando da multiplicação dos pões e dos peixes — Marcos 6:39.

d. Marcos descreve a forma como um surdo-mudo foi curado por Jesus, isto é, como Jesus colocou seu dedo no ouvido e também na língua do homem — Marcos 7:33.

e. Marcos descreve a restauração gradual da vista a um cego — Marcos 8:23—25.

f. Marcos descreve como Pedro estava se aquecendo junto com os servos da casa do sumo sacerdote — Marcos 14:54.

É óbvio que todas estas descrições são fruto de alguém que, certamente, foi testemunha ocular do que está sendo dito, mas existem opiniões ao contrário, que discutiremos adiante.

Marcos não tem um prólogo, ou melhor, tem um prólogo brevíssimo — Marcos 1:1 — e já inicia seu evangelho com o aparecimento de João Batista. Depois da narrativa envolvendo João Batista, inclusive o relacionamento dele com Jesus por ocasião do batismo do Senhor, Marcos mergulha imediatamente no ministério de Jesus e nos confrontos com mos fariseus que se estenderão por todo o evangelho, culminando com a crucificação de Jesus. O Evangelho de Marcos tem as seguintes divisões principais:

PRÓLOGO E A MISSÃO DE JOÃO BATISTA — MARCOS 1:1—13.

A FASE INICIAL DO MINISTÉRIO DE JESUS — MARCOS 1:14  — 3:6.

A FASE TARDIA DO MINISTÉRIO NA GALILEIA — MARCOS 3:7 — 6:13.

JESUS SE RETIRA DA GALILEIA — MARCOS 6:14 — 8:30.

A VIAGEM ATÉ JERUSALÉM — MARCOS 8:31 — 10:52.

MINISTÉRIO EM JERUSALÉM — MARCOS 11:1 — 13:37.

A NARRATIVA DA PAIXÃO — MARCOS 14:1 — 15:47

A RESSURREIÇÃO DE JESUS — MARCOS 16

Usando o esboço acima sugerimos que os leitores leiam o Evangelho de Marcos. A leitura do evangelho completa leva cerca de 90 minitos.

Marcos é, fundamentalmente, uma narrativa concreta da fida de Jesus. Ele nos conta as ações do Mestre de uma forma bastante objetiva. O evangelho está, praticamente, desprovido de apelos emocionais e o conteúdo dos ensinamentos de Jesus é bem menor do que aquele que encontramos nos outros evangelhos sinóticos de Mateus e Lucas. Os ensinamentos de Jesus em Marcos são breves afirmações que sempre fazem parte de alguma narrativa. E apesar de termos muitos desses ensinamentos nesse evangelho, é bem evidente que Marcos está bem mais interessado nas ações do que nos ensinamentos de Jesus propriamente ditos. Por esse motivo, o conteúdo de Marcos não está muito envolvido em debates teológicos. Para os que tiverem interesse nesse tipo de abordagem de Marcos, recomendamos o excelente livro de Ralph Martin Mark Evangelist and Theologian da série Contemporary Evagelicals Perspectives, publicado pela Zondervan Publishing House.  

CONTINUA...

OUTROS ESTUDOS ACERCA DA INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 001 — INTRODUÇÃO GERAL AOS EVANGELHOS — ESTUDO 001
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 002 — A FORMA LITARÁRIA DOS EVANGELHOS
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 003 — MOTIVOS PORQUE OS EVANGELHOS FORAM ESCRITOS
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 004 — O LUGAR OCUPADO PELOS QUATRO EVANGELHOS NO NOVO TESTAMENTO
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 005 —  A MELHOR FORMA DE ABORDAR OS QUATRO EVANGELHOS
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 006 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 001
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 007 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 002
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 008 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 003
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 009 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 004
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 010 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 005
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 011 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 006
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 012 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 007
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 013 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 008
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 014 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 009
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 015 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 010 — AUTOR — PARTE 002
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 016 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 011 — DATA DA COMPOSIÇÃO
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 017 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 012 — IDIOMA ORIGINAL
INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 018 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MARCOS — PARTE 001 — CARACTERÍSTICAS — PARTE 001.
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/07/introducao-ao-novo-testamento-estudo_14.html

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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sexta-feira, 2 de junho de 2017

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 017 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO A MATEUS — PARTE 012 — O IDIOMA EM QUE MATEUS FOI ESCRITO


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Essa série pretende disponibilizar as informações mais importantes acerca de cada um dos 27 livros que compõem o Novo Testamento. Desde que lançamos nossa série de Introdução ao Antigo Testamento, muitos leitores têm nos questionando acerca de algum material semelhante com respeito ao Novo Testamento. Então, aproveitando que iniciamos uma série de estudos acerca dos manuscritos do Novo Testamento — tecnicamente chamada de “baixa crítica” — estamos usando essa oportunidade para lançar uma série que trate também do texto do Novo Testamento em si, e da interpretação geral do mesmo — “alta crítica”.

I. O EVANGELHO DE MATEUS

J. O Idioma em que o Evangelho Mateus Foi Escrito.

O debate que trata da busca para se determinar em que idioma o Evangelho de Mateus foi escrito originalmente prossegue. As duas propostas que permanecem são:
1. Mateus teria escrito seu evangelho originalmente na língua aramaica.

2. Mateus teria produzido seu evangelho no idioma grego.

Entre os defensores que propõem a língua aramaica como o idioma original, nenhum se sobressai tanto quanto o teólogo alemão Joachin Jeremias, morto em 1979.

Jeremias, tomando como base uma discussão anterior a ele mesmo e que continua presente em nossos dias acerca das chamadas Impssissima Vox — o que Jesus falou como está registrado nos evangelhos — e a Ipssissima Verba — a próprias palavras que Jesus teria usado em aramaico — se deu ao trabalho de traduzir o Evangelho de Mateus do grego de volta para o que alegava ser o original em aramaico, com o intuito de descobrir as próprias palavras que Cristo teria utilizado durante seus muitos ensinamentos.

Dentro do grupo de proponentes de um original em aramaico estão outros teólogos[1] que também defendem que o Evangelho de Mateus em aramaico teria sido o primeiro evangelho a ser escrito, do qual Marcos e Lucas estariam dependentes. Uma discussão mais abrangente quanto ao primeiro evangelho que foi escrito será apresentada quando discutirmos a questão envolvendo o que chamado de Problema Sinótico.

Para nós, pessoalmente, achamos que Mateus escreveu seu texto originalmente em grego mesmo, apesar dele não demonstrar amplo domínio da sintaxe literária. Todavia, Mateus foi muito cuidadoso ao evitar o uso de expressões vulgares, algo que poderia ter facilmente acontecido com alguém que não dominava o idioma no qual estava escrevendo. Por outro lado, temos que admitir que como Jesus ensinava em aramaico, existe sim, um background aramaico perceptível no Evangelho de Mateus. Mas não ao ponto defendido por Jeremias e outros.

OUTROS ESTUDOS ACERCA DA INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 001 — INTRODUÇÃO GERAL AOS EVANGELHOS — ESTUDO 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 002 — A FORMA LITARÁRIA DOS EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 003 — MOTIVOS PORQUE OS EVANGELHOS FORAM ESCRITOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 004 — O LUGAR OCUPADO PELOS QUATRO EVANGELHOS NO NOVO TESTAMENTO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — PARTE 005 —  A MELHOR FORMA DE ABORDAR OS QUATRO EVANGELHOS

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 006 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 001

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 007 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 002

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 008 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 003

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 009 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 004

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 010 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 005

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 011 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 006

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 012 – INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 007

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 013 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 008

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 014 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — INTRODUÇÃO AO EVANGELHO DE MATEUS — PARTE 009

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 015 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 010 — AUTOR — PARTE 002

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 016 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 011 — DATA DA COMPOSIÇÃO

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 017 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MATEUS — PARTE 012 — IDIOMA ORIGINAL
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/06/introducao-ao-novo-testamento-estudo.html

INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO — ESTUDO 018 — INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS — MARCOS — PARTE 001 — CARACTERÍSTICAS — PARTE 001.
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[1] Charles, Fox Burney, R. A. Torrey e Mathew Black.

sábado, 12 de novembro de 2016

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — ESTUDO 013


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Tabelas de Eusébio para Harmonia das Passagens dos Evangelhos

Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato, queremos incentivar que todos possam ler esses artigos e compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

ESTUDO 013 — ESCRIBAS E OS MANUSCRITOS QUE PRODUZIRAM — PARTE 005

CONTINUAÇÃO...

II. AUXÍLIOS PRA OS LEITORES DO NOVO TESTAMENTO

B. Os Títulos dos Capítulos

Os títulos dos capítulos foram primeiro chamados de kefálaia — cabeçalhos — e foram registrados pela primeira vez no Código Alexandrino. Em manuscritos posteriores passaram a ser chamados de títlos — títulos. Tais cabeçalhos ou títulos eram, na realidade, breves anotações colocadas na margem do texto principal — geralmente acima do texto — e descreviam o conteúdo do capítulo. Tais títulos geralmente começavam com expressões tais como: acerca de ou a respeito de e eram, frequentemente, escritos com tinta vermelha. Desse modo, o cabeçalho do Evangelho de João que está registrado antes de João 2:1 tem o seguinte texto: A respeito do casamento em Caná. Todos os títulos de um determinado livro encontram-se agrupados numa lista colocada antes do livro e servem como índice e também como um resumo da obra inteira.

C. Os Cânones de Eusébio

Um sistema bastante criativo para se localizar passagens paralelas nos evangelhos foi desenvolvido por Eusébio de Cesareia — 263 a 339. Aparentemente o mesmo era bastante útil uma vez que o mesmo encontra-se reproduzido em muitos manuscritos em grego e também em muitos manuscritos traduzidos para outros idiomas como o lati, o siríaco, o copta, o gótico, o armênio e etc.

A sinopse ou harmonia dos evangelhos foi preparada por Eusébio da seguinte maneira: cada um dos evangelhos foi dividido em seções curtas ou longas, de acordo com seções paralelas encontradas nos outros evangelhos. Em seguida as seções foram numeradas de forma contínua referente a cada um dos evangelhos. Assim, Mateus tinha 355 seções, Marcos 233, Lucas 342 e João 232. Em seguida Eusébio preparou dez listas ou kánones — cânones.

1. A primeira tabela continha uma lista numerada com passagens paralelas encontradas em todos os quatro evangelhos. 

2. A segunda tinha uma lista com as passagens paralelas encontradas em Mateus, Marcos e Lucas.

3. A terceira com passagens em Mateus, Lucas e João.

4—9. E assim em diante, até que todas as possibilidades estivessem, praticamente, esgotadas.

10. Uma última tabela apresentava uma lista do material exclusivo a cada um dos quatro evangelhos.

As tabelas de Eusébio eram reproduzidas em colunas paralelas e ocupavam as primeiras páginas dos manuscritos dos evangelhos. Em seguida, na margem manuscrita do texto do evangelho ou logo abaixo duma seção sequencial escrevia-se o numeral da tabela dos cânones onde tal seção podia ser encontrada. Uma vez acessada a tabela apropriada o leitor tinha acesso às referências paralelas nos outros evangelhos.

Em alguns casos, quando as folhas eram numeradas, uma determinada referência apresentava o exato número da página onde passagens paralelas poderiam ser encontradas sem necessidade de consultar nenhuma tabela.

Eusébio explicou suas criativas tabelas numa carta dirigida para outro cristão chamado Carpiano. Uma cópia dessa carta junto com as tabelas é comum nas primeiras páginas de muitos manuscritos na língua grega. Algumas edições modernas do Novo Testamento grego trazem copias da carta e das tabelas de Eusébio. Desse modo, sua criação continua servindo os cristãos até o dia de hoje.

CONTINUA...

OUTROS ARTIGOS DE COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 001 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 002 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 003 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO — FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 004 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — OS PERGAMINHOS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 005 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — PAPEL E BARRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 006 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 001
COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 007 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 008 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 – FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 009 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 010 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 011 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 003

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 012 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 004

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 013 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 005

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 014 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 006
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/02/como-o-novo-testamento-chegou-ate-nos.html

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 015 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 007
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terça-feira, 5 de janeiro de 2016

PARÁBOLAS DE JESUS - MATEUS 18:12—14 E LUCAS 15:4—7 — A PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA — PARTE 001 — SERMÃO 037A



Esse artigo é parte da série "Parábolas de Jesus" e é muito recomendável que o leitor procure conhecer todos os aspectos das verdades contidas nessa série, com aplicações para os nossos dias. No final do artigo você encontrará links para os outros artigos dessa série.

A Parábola da Ovelha perdida

Mateus 18:12—14

12 Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou?

13 E, se porventura a encontra, em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram.

14 Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos.

Lucas 15:4—7

4  Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?

5  Achando-a, põe-na sobre os ombros, cheio de júbilo.

6  E, indo para casa, reúne os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo, porque já achei a minha ovelha perdida.

7  Digo-vos que, assim, haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.

I. O Tipo da Parábola

Tanto na versão de Mateus quanto na de Lucas estamos lidando com o que é chamado de “parábola interrogativa”. Em Mateus a questão introdutória — “Que vos parece” — é seguida por uma série de circunstâncias hipotéticas, as quais são seguidas pela questão que envolve a parábola — “não deixará ele”.

A condição que descreve o ato de encontrar — verso 18:13 “E, se porventura a encontra” — é seguida pela afirmação das consequências e uma explicação moral ou uma nimshal.

Já em Lucas temos uma parábola do tipo “Qual, dentre vós?, o que literalmente significa “qual é o homem dentre vós?”, seguido pela afirmação das consequências e pela moral da história. Alguns intérpretes costumam classificar essas narrativas como similitudes[1], enquanto outros defendem a ideia que se tratava, originalmente, de uma parábola que fazia referência a algum fato real do conhecimento de todos.

Todavia, como não existe nenhuma trama central fica difícil definirmos essa história, tecnicamente, como uma parábola. Na melhor das hipóteses estamos diante de uma similitude implícita. É como se Jesus estivesse querendo dizer: “minha associação com os pecadores é semelhante à circunstância de um pastor que perdeu uma ovelha e que se alegra com seus amigos depois de havê-la encontrado”. Entretanto, diante do interesse maior da clareza, o melhor é rotular nosso texto com sua forma mais simples, quer dizer, como uma parábola interrogativa.

As parábolas interrogativas não estão muito distantes das parábolas judiciais, pois elas estabelecem uma situação hipotética, forçam o ouvinte ou leitor a responder a uma questão e obrigam o indivíduo a transferir a resposta dada para outra situação. No caso das parábolas judiciais as mesmas têm ainda um elemento acusatório adicional.

II. Uma Comparação Entre As Narrativas de Mateus e Lucas

Mateus e Lucas possuem, relativamente, pouco em comum na narrativa dessa parábola. Além disso, as duas narrativas nos mostram um fenômeno surpreendente na relação existente entre os chamados “Evangelhos Sinóticos”. Como é de se esperar, uma tradição tripla de qualquer material — Mateus, Marcos e Lucas — mantém uma relação de proximidade muito grande. Mas numa tradição dupla — Mateus e Marcos, Marcos e Lucas ou Mateus e Lucas —, essa proximidade é ainda maior.

A. Exemplos do que estamos dizendo podem ser vistos nas seguintes parábolas —
1. A parábola dos dois construtores — Mateus 7:24 e Lucas 6:47—49.
2. A parábola do Fermento — Mateus 13;33 e Lucas 13:20—21.
3. A parábola do servo fiel e do servo infiel — Mateus 24:45—51 e Lucas 12:41—48.

B. Por outro lado, também em tradições duplas, as parábolas são tão distintas que devemos perguntar se existe mesmo alguma relação entre as mesmas. Exemplos do que estamos dizendo podem ser vistos nas seguintes parábolas —
1. A Parábola das Bodas — Mateus 22:1—15 e Lucas 14:15—24.
2. A parábola dos Talentos — Mateus 25;14—30 e Lucas 19:11—27

As duas narrativas da Ovelha Perdida se encaixam nessa segunda categoria mencionada. Mateus usa 65 palavras e Lucas 89 palavras. Dessas palavras todas, apenas 14 são idênticas nas duas narrativas. Ainda quatro outras palavras são compartilhadas, mas que são expressadas de forma gramatical diferente. As palavras em comum envolvem os conceitos básicos como “cem ovelhas”, “uma delas” e “noventa e nove”, mas para todo o resto, cada evangelista usa sua própria coleção de palavras. Entre as diferenças mais importantes, nós podemos citar as seguintes:

Mateus
Lucas
A parábola é contada para os discípulos de acordo com Mateus 18:1. Ela é parte do discurso eclesiástico de Mateus e seu objetivo principal são discípulos que se desviam
A parábola é contada por Jesus como uma resposta contra a murmuração dos fariseus e dos escribas porque o Senhor recebia e participava de refeições com pecadores — Lucas 15:1—2
A ovelha se extravia — πλανηθῇplanethê.
A ovelha se perde — ἀπολέσαςapolésas.
A palavra para deixar é — ἀφήσει afései.
A palavra para deixar é — καταλείπειkataleípei.
A palavra para deserto é — τὰ ὄρηtà ore.
A palavra para deserto é — ἐν τῇ ἐρήμῳén tê erémo.  
 E, se porventura a encontra
até encontrá-la
A parábola é mais curta
A parábola é mais extensa. O homem coloca a ovelha sobre seus ombros e se alegra. Quando chega em sua casa ele chama os amigos para se alegrarem com ele.
A conclusão permanece dentro da própria narrativa da parábola e diz que o homem se alegra mais pela ovelha perdida que ele voltou a encontrar do que pelas outras 99 ovelhas.
A conclusão move-se na direção do plano teológico e explica que haverá um maior regozijo no céu sobre um pecador arrependido do que sobre noventa e nove justos que não precisam de arrependimento.
O texto então se move em direção ao plano teológico concluindo que é contrário à vontade de Deus que até mesmo um desses pequeninos venha a se perder — ἀπόληταιapóletai.
Lucas não tem nada que possa ser visto como paralelo a essa conclusão.


CONTINUA...



OUTRAS PARÁBOLAS DE JESUS PODEM SER ENCONTRADAS NOS LINKS ABAIXO:

001 – O Sal

002 – Os Dois Fundamentos

003 – O Semeador

004 – O Joio e o Trigo =

005 – O Credor Incompassivo

006 — O Grão de Mostarda e o Fermento

007 — Os Meninos Brincando na Praça

008 — A Semente Germinando Secretamente

009 e 010 — O Tesouro Escondido e a Pérola de Grande Valor

011 — A Eterna Fornalha de Fogo

012 — A Parábola dos Trabalhadores na Vinha

013 — A Parábola dos Dois Irmãos

014 — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 1

014A — A Parábola dos Lavradores Maus — Parte 2

015 — A Parábola das Bodas —

016 — A Parábola da Figueira

017 — A Parábola do Servo Vigilante

018 — A Parábola do Ladrão

019 — A Parábola do Servo Fiel e Prudente

020 — A Parábola das Dez Virgens

021 — A Parábola dos Talentos

022 — A Parábola das Ovelhas e dos Cabritos

023 — A Parábola dos Dois Devedores

024 — A Parábola dos Pássaros e da Raposa

025 — A Parábola do Discípulo que Desejava Sepultar Seu Pai

026 — A Parábola da Mão no Arado

027 — A Parábola do Bom Samaritano — Completo

027A — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 1

027B — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 2 — Os Ladrões e o Sacerdote

027C — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 3 — O Levita

027D — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 4 — O Samaritano

027E — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 5 — O Socorro

027F — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 6 — O transporte até a hospedaria

027G — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 7 — O pagamento final

027H — A Parábola do Bom Samaritano — Parte 8 — O diálogo final entre Jesus e o doutor da Lei

028 — A Parábola do Rico Tolo —

029 — A Parábola do Amigo Importuno —

030 — A Parábola Acerca de Pilatos e da Torre de Siloé

031 — A Parábola da Figueira Estéril

032 — A Parábola Acerca dos Primeiros Lugares

033 — A Parábola do Grande Banquete

034 — A Parábola do Construtor da Torre e do Grande Guerreiro

035 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 001

036 — Introdução a Lucas 15 — Parábolas Acerca da Condição Perdida da Raça Humana — Parte 002

037A — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 001

037B — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 002

037C — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 003

037D — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 004 — A Influência do Antigo Testamento

037E — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 005 — Características Cristológicas da Parábola da Ovelha Perdida

037F — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 006 — A importância das pessoas perdidas.
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/11/parabolas-de-jesus-mateus-181214-e.html

037H — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Parte 008 — Conclusão.
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/05/parabolas-de-jesus-sermao-037h-parabola.html

037 — Parábolas de Jesus — Mateus 18:12—14 e Lucas 15:4—7 — A Parábola da Ovelha Perdida — Completa
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/06/parabolas-de-jesus-sermao-037-parabola.html



038A — PARÁBOLAS DE JESUS — A PARÁBOLA DA DRACMA PERDIDA — LUCAS 15:8—10 —— PARTE 001
Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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[1]  Similitude — s.f. Característica ou estado do que é similar; semelhança.

sábado, 2 de janeiro de 2016

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — ESTUDO 008



Essa é uma série estritamente acadêmica, mas não existe na mesma absolutamente nada que impeça a leitura por todas as pessoas. De fato queremos incentivar que todos possam ler esses artigos compartilhar os mesmos com todos os seus contatos, parentes e conhecidos.

ESTUDO 008 — ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 — FINAL

CONTINUAÇÃO...

Uma complicação adicional é que o arquétipo de um documento do Novo Testamento específico pode divergir, quando comparado, ao seu autógrafo. A melhor ilustração que temos para isso pode ser encontrada nas epístolas paulinas. Podemos afirmar, quase com certeza absoluta que, muito cedo — certamente antes do tempo do surgimento dos papiros mais antigos — a maioria das cartas de Paulo já estavam agregadas em algum tipo de coleção — com Hebreus e as Pastorais sendo exceções possíveis. Mas a maioria das epístolas já estavam agregadas em coleções, no máximo, durante a metade do século II d.C. — por esse motivo é, perfeitamente possível — talvez até mesmo provável — que essa coleção seja o arquétipo e que a próprias epístolas individuais  não são sequer a fonte da qual corre o rio textual.

Desse modo temos a afirmação de Gunther Zuntz[1], onde ele afirma que tanto Inácio quanto Policarpo aparentemente estavam familiarizados com o corpus paulino, mas o autor de 1 Clemente não. Isso o leva a concluir o seguinte: Assim temos que, mais ou menos, o ano 100 d.C, é a data provável em que o corpus paulino foi reunido e publicado, com tal, pela primeira vez. Isto é, de quarenta a cinquenta anos depois que as epistolas foram originalmente escritas. Nesse caso, como acontece de forma tão comum na tradição que envolve autores da antiguidade, ‘Arquétipo’ e ‘Original’ não são documentos idênticos.

Mesmo que esse não seja o caso aqui, e cada uma dessas cartas possua um arquétipo individual, isso não quer dizer que o arquétipo seja um descendente puro do original. Diversos documentos são considerados, pelo menos por alguns críticos de forma, como sendo documentos compostos. Esse é, aparentemente, o caso de 2 Coríntios, acerca da qual, muitas autoridades acreditam que duas cartas distintas foram utilizadas para produzir o documento que temos diante de nós conhecido como 2 Coríntios. Dessa forma, se isso for mesmo verdade, a cópia mais antiga que temos e chamamos de 2 Coríntios não se trata de um autógrafo e sim de algo que é chamado de fusão ou mistura. Falando francamente, mesmo que conseguíssemos recuperar os textos completos que foram usados para criar 2 Coríntios, estaríamos diante da inusitada situação que, as passagens de 2 Coríntios, que não fossem encontradas nos textos originais, dificilmente poderiam ser consideradas canônicas. Aqui teríamos muito material para longos debates. Mas, no momento tudo não passa de suposição.

Todavia devemos notar que não é responsabilidade, nem parte da missão do crítico textual desembaraçar as partes de 2 Coríntios ou de qualquer outro documento antigo que se encontre na mesma situação. A missão do crítico textual é procurar reconstruir o arquétipo. Se formos afortunados nosso trabalho acabará por produzir um documento que é idêntico ao autógrafo original — ou então tão próximo que realmente não faz nenhuma diferença. Mas não faz mesmo nenhuma diferença se o autógrafo e o arquétipo são muito próximos ou muito distantes um do outro? Nossa missão é reconstruir o texto mais antigo que esteja disponível. O crítico textual precisa estar consciente que o arquétipo pode não ser o autógrafo original. Além disso, ele deve considerar como é possível, por exemplo, que a existência de um corpus paulino, possa afetar a leitura de qualquer uma das epistolas contidas no mesmo. É muito possível que certas cartas tenham sido ajustadas para se encaixarem numa antologia, assim como certas passagens foram adaptadas para se encaixar em certos lecionários.  

Existem muitas possibilidades que em todo o Novo Testamento, mas apenas o corpo paulino sofre com esse problema. O livro dos Atos dos Apóstolos e o Apocalipse são livros isolados e únicos, que nunca foram incorporados a nenhum tipo de corpus. As chamadas epístolas católica ou gerais, não foram agregadas em um corpus até bem mais tarde. Chegamos a essa conclusão pelo fato de 1 Pedro e 1 João serem universalmente aceitas logo, mas as outras 5 demoraram bastante para receberem o reconhecimento devido — 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Tiago. Um exemplo típico disso pode ser encontrado, por exemplo, no chamado Papiro 72 que tem as cartas de 1 e 2 Pedro e Judas, junto com materiais não canônicos. Mas esse mesmo documento não tem 1 João, apesar dessa epístola já ser considerada canônica quando o documento P72 foi compilado, e Judas ainda se encontrava entre as epistolas questionadas. Os evangelhos foram agrupados, muito provavelmente, bem antes das epístolas católicas ou gerais. Eles foram aceitos como uma coleção canônica produzida lá pelo final do século III d.C., quando o documento Papiro 45 foi escrito. Mas todos os quatro evangelhos circulavam amplamente antes dessa data final. Assim temos que: enquanto é possível que a coleção final dos quatro evangelhos tivesse certa influência em tempos posteriores, a mesma não pode ser considerada como um arquétipo.

Por outro lado, cada documento do Novo Testamento pode ter sofrido do problema que chamamos de “qual cópia”. Isso é mais óbvio no corpus paulino. Pelo que sabemos Paulo ditou a maioria, senão todas as suas cartas. Note bem o que é possível de acontecer numa situação como essa, pois a mesma é muito semelhante ao que vimos na primeira parte dessa série acerca de autógrafos e arquétipos. Paulo ditava um primeiro manuscrito. Aqui estamos diante de duas possibilidades:

1. Paulo usava dois escribas para escreverem o que ditava, apesar dele fazer referência constante a apenas um, chamado Tércio.

2. Se existia apenas uma cópia, então era necessário que alguém, poderia ser o próprio Tércio, fizesse uma segunda cópia, que certamente teria pequenas variações, para ser distribuída ou mesmo para ser arquivada por Paulo.

A segunda cópia, certamente tinha uma aparência melhor, e certamente deveria conter certas correções de erros causados pelo ditado e pela forma como as palavras eram entendidas por Tércio. Então resta perguntar: qual cópia Paulo enviava aos destinatários? A carta ditada originalmente ou a cópia? Não sabemos, mas podemos supor que ele optaria por enviar a cópia que tinha uma aparência melhor. Então surge a questão: qual das duas cópias pode ser considerada como autógrafo original? E qual delas foi usada como base para a edição canônica posterior? Realmente, creio que ninguém sabe a resposta correta quanto a essas questões.

Outros autores do Novo Testamento escreveram cartas, que foram patrocinadas por terceiros. Devemos mesmo acreditar que Lucas teria entregue o Evangelho de Lucas e o Livro de Atos para Teófilo sem guardar um cópia de cada para si mesmo? Isso seria mesmo algo inacreditável. Mas qual dessas duas primeiras cópias tornou-se o Evangelho Canônico? E as diversas cópias do mesmo sofreram algum tipo de contaminação cruzada? A resposta não é óbvia. Mas é, todavia, muito importante.

Devemos notar, incidentalmente, que estudiosos clássicos, criaram um esquema de notas que usam para distinguir o que eles consideram o autógrafo de um arquétipo. O autógrafo é indicado pelo uso de algum tipo de símbolo. Algumas vezes usa-se a letra “o” para distinguir o autógrafo original e o símbolo de aspas simples para indicar um arquétipo. No caso do Novo Testamento a maioria dos estudiosos não se atreve a ir além de reconhecer algum arquétipo. Isso nunca foi tentado com um possível original. O consenso é que os originais estão, definitivamente, perdidos.       

OUTROS ARTIGOS DE COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 001 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 002 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 003 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — O PAPIRO — FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 004 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — OS PERGAMINHOS

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 005 – MATERIAL DE ESCRITA ANTIGO — PAPEL E BARRO

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 006 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 007 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 008 – ARQUÉTIPOS E AUTÓGRAFOS — PARTE 003 – FINAL

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 009 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 001

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 010 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 002

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 011 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 003

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 012 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 004

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS – PARTE 013 – OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 005

COMO O NOVO TESTAMENTO CHEGOU ATÉ NÓS — PARTE 014 — OS ESCRIBAS E OS COPISTAS E OS MANUSCRITOS QUE ELES PRODUZIRAM — PARTE 006
Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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[1] Zuntz, Gunther. Text of the Epistles: Disquisition Upon the Corpus Paulinum (Schweich Lectures on Biblical Archaeology). Oxford University Press, Oxford, 1946.