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terça-feira, 15 de agosto de 2017

A ORAÇÃO DO “PAI NOSSO” - SERMÃO 012 — O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE— Mateus 6:11


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Essa série tem por objetivo expor de maneira ampla, bíblica, literária, histórica e teologicamente, a oração que chamamos de “Oração do Pai Nosso”. Nosso desejo é enriquecer a vida de todos por meio desses esboços de mensagens que também estão disponíveis em áudio. Na parte final desse artigo o leitor encontrará os links para os outros esboços e para os áudios à medida que forem sendo publicados.

Uma Exposição Bíblica, Literária e Teológica de Mateus 6:9—13

Introdução:

A. Hoje vamos tratar da quarta petição da oração que Jesus nos ensinou e que é conhecida como oração do “Pai Nosso”.

B. Se na primeira parte da oração nós estávamos envolvidos com “Teu Nome, Teu Reino e Tua Vontade”, agora, na segunda parte a oração será dominada por nossas necessidades enquanto coletividade. Mas não podemos perder a perspectiva de que nossos pedidos estão diretamente atrelados às três primeiras petições.

C. Essa petição acontece bem no meio da oração. Como temos falado, ao ensinar essa oração Jesus estava, de fato, desmantelando as formas de oração adotadas pelos judeus que existiam nos seus dias.

D. O esquema judaico de orações era composto de 18 orações e, curiosamente, a oração de número 9 — Birkat ha-Shanim — é a oração que pede para que haja plenitude na produção do campo naquele ano corrente.

E. Mas a intenção de Jesus não é essa ao dizer: “O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE”.

F. Sendo assim, queremos entender qual foi a intenção e o que Jesus quis nos ensinar quando disse...

O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE

I. O Problema Que Existe Nessa Petição

A. Na frase que estamos considerando hoje, existe uma palavra grega que é ἐπιούσιονepioúsion — que está traduzida por “cada dia” na versão de Almeida Revista e Atualizada.
B. Essa palavra nos chama a atenção porque é a única vez em todo o Novo Testamento em que a mesma aparece. Ela não existe no grego em que o Novo Testamento foi escrito — grego Koinê — nem no grego clássico.

C. Esse aparecimento único dessa palavra nos impede de ver como a mesma poderia ter sido usada em outros contextos, o que nos ajudaria a entendê-la, e cria uma dificuldade para a tradução dessa frase.

D. Durante a história da igreja a expressão  ἐπιούσιονepioúsion — foi entendida de quatro maneiras: duas relacionadas ao tempo e duas outras relacionadas com a quantidade:

1. A expressão refere-se ao tempo e diz respeito ao dia de hoje.

2. A expressão refere-se ao tempo e diz respeito ao dia de amanhã.

3. A expressão refere-se à quantidade de pão que precisamos sem especificar por quanto tempo

4. A expressão refere-se ao fato de que devemos pedir somente o suficiente para nossa subsistência.

E. Com isso, nós saímos de uma situação sem solução para quatro soluções propostas.

II. A Melhor Solução Para o problema causado pela expressão ἐπιούσιονepioúsion.

A. À medida que a Igreja se expandiu e que a mensagem do evangelho chegou a outros países, tornou-se necessário traduzir os escritos do Novo Testamento para as línguas faladas naqueles países.

B. Uma das traduções mais antigas, senão a mais antiga é a que foi feita ainda no século II d.C., para o Siríaco Antigo — língua muito próxima do aramaico bíblico — e que ficou conhecida como a “Versão Peshita”.

C. Os tradutores da Peshita lutaram com a mesma dificuldade com que nós estamos lutando hoje. A opção deles foi traduzir o texto grego da seguinte maneira: “Dá-nos hoje o pão que nunca se acaba”.
   
III. A Verdadeira Questão Envolvida Nessa Petição.
  
A. Uma das questões humanas mais básicas é o medo terrível que temos de passar por alguma privação, especialmente quando pensamos que podemos chegar a não ter o que comer.

B. Hoje estamos bem. Mas, e amanhã? E quanto ao futuro? E se eu perder meu emprego? E se um dos meus filhos ficar muito doente e tivermos que gastar todo o dinheiro no tratamento de saúde dele? Como sobreviveremos?

C. Um dos mais terríveis medos, capazes de nos paralisar é pensar que não teremos o suficiente para comer amanhã.

D. É muito provável que ao nos ensinar a dizer: O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE, Jesus queria nos libertar desse tipo de medo.

E. Na linguagem bíblica, o “pão” representa aquilo que nos é estritamente necessário para viver, o mínimo de alimento, sem o qual o pobre não pode passar, o mínimo necessário ao mendigo, ao peregrino. É o oposto à noção de fome. Esse mínimo que nos permite viver hoje será que o teremos amanhã também? Essa é uma questão vital. Agora, vivemos. Mas amanhã? Ninguém sabe. Não há garantia se Deus não nos dá esse pão necessário, e, com nosso pão, a vida. Os filhos de Deus conhecem essa precariedade da existência humana. Sejam ricos ou pobres, sabem que somos um povo peregrino, preocupado com a causa de Deus. Quando pedimos pelo pão no dia de hoje, confessamos a nossa dependência de Deus hoje e admitimos que não temos controle sobre o dia de amanhã.

F. No Antigo e no Novo Testamento, a palavra “pão” também representa o sinal da graça temporal de Deus. Os orientais, da Bacia do Mediterrâneo, de um modo geral, sabem o significado profundo e sublime expresso pela palavra “pão”. O pão é um sinal de Deus que foi dado ao povo no deserto; foi dado aos pobres, aos aflitos, àqueles que têm fome e sede, àqueles que se acham entre as foices da morte. Por causa desse significado o pão é algo sagrado. O pão é a promessa, e não somente a promessa, mas também a presença misteriosa desse alimento que nutre bem e para sempre. Na Bíblia, cada refeição, tanto a mais modesta como a mais requintada, é coisa sagrada, pois temos nelas a promessa de um banquete, de um festim eterno.

G. Diante disso, toda a ansiedade deve ser deixada de lado:

Mateus 6:25

Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes?

Filipenses 4:6

Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.

H. Que a oração substitua a inquietude, e acompanhe o nosso trabalho para amanhã. Os filhos de Deus não se inquietam pelo trabalho, eles trabalham porque eles oram.

Conclusão:

A. Teremos pão amanhã? Calvino em seu comentário aos evangelhos sinóticos, diz que é necessário trabalhar para assegurar o alimento do dia seguinte. Mas temos que destacar que nem a inquietude — condenada por Jesus em Mateus 6:25—34 — nem o trabalho dão uma resposta que satisfaça. A questão envolvida na oração é uma questão de CONFIANÇA EM DEUS.

B. Quando oramos pelo pão de cada dia devemos orar exatamente por isso mesmo: O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE. Não devemos orar, por bolos, ou picanhas e sim pelo suficiente para nosso sustento.

Filipenses 4:11

Digo isto, não por causa da pobreza, porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação.

1 Timóteo 6:8

Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes.

C. Por fim, nosso pedido é no sentido coletivo: O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE.

1. O “nós” é o da irmandade dos homens que se acham com Jesus Cristo, o Deus-Homem, que nos permite e nos ordena que nos juntemos a Ele, à Sua própria intervenção junto de Deus, para juntos orar com Ele.

2. É o “nós” da irmandade que une os homens entre eles, ao mesmo tempo em que eles são unidos a Jesus Cristo, unidos entre eles por esta permissão e este mandamento. É uma irmandade que não está fechada, ela está aberta, no sentido que ela está engajada neste mundo, o que representa, que compreendemos nessa palavra, “mundo”, aqueles que ainda não ouviram  e que ainda não seguem o convite do Senhor.

Que Deus Abençoe a todos e nos supra sempre com o pão que nunca se acaba.

OUTRAS MENSAGENS DA SÉRIE DO PAI NOSSO
005 — O PAI NOSSO — PARTE 004 — MATEUS 6:9a — PAI NOSSO QUE ESTÁS NOS CÉUS
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/02/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-005-pai_24.html
006 — O PAI NOSSO — PARTE 005 — INTRODUÇÃO À ESTRUTURA DO PAI NOSSO — Mateus 6:9—13
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/04/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-006.html
007 — O PAI NOSSO — PARTE 006 — SANTIFICADO SEJA TEU NOME — Mateus 6:9
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/06/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-007.html
008 — O PAI NOSSO — PARTE 007 — A RELAÇÃO DA SANTIDADE DE DEUS COM A JUSTIÇA E O AMOR — Mateus 6:9
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/08/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-008.html
009 — O PAI NOSSO — PARTE 008 — O REINO DE DEUS — PARTE 001 — Mateus 6:10
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2016/10/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-009-o.html
010 — O PAI NOSSO — PARTE 009 — O REINO DE DEUS — PARTE 002 — Mateus 6:10
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/01/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-010-o.html
011 — O PAI NOSSO — PARTE 010 — A VONTADE DE DEUS
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/04/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-011.html
012 — O PAI NOSSO — PARTE 011 — O PÃO NOSSO DE CADA DIA DÁ-NOS HOJE
http://ograndedialogo.blogspot.com.br/2017/08/a-oracao-do-pai-nosso-sermao-012-o-pao.html

Que Deus abençoa a todos

Alexandros Meimaridis

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sábado, 8 de outubro de 2016

IGREJA NOS LARES: UMA NOVA REFORMA EM ANDAMENTO - PARTE 001


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No mês em que a Reforma Protestante do século XVI completa 499 anos, queremos compartilhar com todos uma série de artigos que tratam da grande e necessária Nova Reforma, como temos defendido em vários dos nossos artigos. POR FAVOR, NÃO CONFUNDA O CONCEITO DE IGREJA NOS LARES, COM O MOVIMENTO DE GRUPOS FAMILIARES OU DA IGREJA EM CÉLULAS.

O artigo abaixo é de autoria de Wolfgang Simson e parte de seu livro Casas que Transformam o Mundo — Igreja nos Lares, publicado pela Editora Evangélica Esperança

15 Teses Acerca da Reforma Necessária à Igreja
Wolfgang Simson

Deus transforma a igreja e isso, por sua vez, transformará o mundo. Milhões de cristãos em todo mundo sentem que uma nova e surpreendente Reforma está se aproximando. Afirmam: “A igreja como a conhecemos impede uma igreja como Deus a quer”. É admirável o grande numero de cristãos que parece perceber que Deus está tentando dizer-lhes a mesma coisa. Desse modo forma-se uma nova consciência coletiva para uma revelação existente há milênios, um eco espiritual coletivo. Estou convicto de que as 15 teses a seguir reproduzem uma parcela daquilo que “o Espírito diz hoje as igrejas”. Para alguns, isso será apenas uma pequena nuvem no horizonte de Elias. Outros já se encontram no meio da chuva.

1. Cristianismo como estilo de vida, não como sucessão de eventos religiosos

Bem antes de serem chamados de cristãos dava-se aos seguidores de Jesus Cristo o nome de “o Caminho”.

Um dos motivos era que eles literalmente haviam encontrado o caminho de como se vive. O cerne da igreja cristã não é apropriadamente espelhado por uma série de eventos religiosos em recinto eclesiásticos reservados especialmente para encontros com Deus, oferecidos por clérigos profissionais. Pelo contrário, está em questão o estilo de vida profético dos seguidores de Jesus Cristo no dia-a-dia, que como famílias extensas espiritualmente ampliadas respondem a perguntas formuladas pela sociedade – justamente no local em que isso é mais decisivo: em casa.

2. Mudar o sistema das “categorias”

Depois da época de Constantino Magno, século IV, as igrejas Ortodoxa e Católica desenvolveram e sancionaram um sistema religioso que consistia de um templo “cristão” (a catedral) e de um padrão básico de culto que imitava a sinagoga judaica. Dessa maneira, um sistema religioso não expressamente revelado por Deus, a “categoga”, uma mescla de catedral e sinagoga, tornou-se a matriz dos cultos de todas as épocas subsequentes. Tingido com um acervo gentílico de pensamentos helenistas que, p. ex., faz separação entre o sagrado e o secular, o conceito das categogas recebeu uma função de “buraco negro”, que suga pela raiz praticamente todas as energias de transformação social da igreja e que por séculos deixou o cristianismo absorto em si próprio.

É verdade que Lutero reformou o conteúdo do evangelho, mas é notório que ele deixou as estruturas e formas exteriores da “igreja” intactas.

As comunidades livres libertaram do Estado esse sistema eclesiástico, os batistas o batizaram, os quacres[1] o drenaram, o Exército da Salvação o enfiou num uniforme, os pentecostais o ungiram e os carismáticos o renovaram, porém até hoje ninguém realmente o transformou. É precisamente essa hora que chegou agora.

3. A terceira reforma

Por ter redescoberto o evangelho da redenção “somente pela graça mediante a fé”, Lutero desencadeou uma Reforma – uma reforma da teologia. A partir do final do século XVII, movimentos de renovação como o Pietismo descobriram novamente o relacionamento pessoal do individuo com Deus. Isso levou a uma reforma da espiritualidade, a segunda Reforma. Agora Deus está avançando mais um passo, ao mexer com as formas básicas do ser igreja. Dessa forma ele desencadeia uma terceira Reforma, uma reforma das estruturas.

4. De casas que são igreja para igreja nas casas

Desde os tempos do Novo Testamento não existe mais algo como a “casa de Deus”. Deus não vive em templos, erguidos por mãos humanas. É o povo de Deus que constitui a igreja. Por essa razão a igreja está em casa no exato lugar em que as pessoas estão em casa: nos lares. É ali que os seguidores de Cristo partilham a vida no poder do Espírito de Deus, tomam refeições em conjunto e muitas vezes nem mesmo hesitam vender propriedade particular, repartindo as bênçãos materiais e espirituais com outras pessoas. Instruem-se sobre como se inserir melhor, enquanto ser humano, nas leis espirituais constitutivas de Deus em meio à vida prática – e justamente não por meio de palestras professorais, mas de modo dinâmico, no estilo de pergunta e resposta. É ali que oram, batizam e profetizam uns aos outros. É ali que podem deixar cair à máscara e até confessar pecados, porque conquistam uma nova identidade coletiva pelo fato de se amarem mutuamente, apesar de se conhecerem e constantemente tornarem a se perdoar e se aceitar.

5. Primeiro a igreja tem de encolher, antes que possa crescer

A maioria das igrejas cristãs simplesmente é grande demais para realmente proporcionar espaço para a comunhão. Foi assim que se tornaram “comunidade sem comunhão”. As comunidades eclesiais do Novo Testamento eram, invariavelmente, grupos pequenos, com cerca de 15 a 20 pessoas. O crescimento não acontecia pelo inchaço aditivo, formando comunidades eclesiásticas grandes, estacionárias e que lotavam catedrais com 20 a 300 pessoas, mas pelo crescimento multiplicativo da amplitude, apresentando características de um movimento. As igrejas nos lares se subdividiam quando tinham atingido o limite orgânico de cerca de 15 a 20 pessoas. Esse crescimento multiplicativo pela base possibilitou aos cristãos que também se congregassem para reuniões celebrativas que abrangiam a cidade toda, como, p.ex., nos salões do Templo de Jerusalém.

Em comparação com isso, a congregação cristã típica de hoje é um triste meio-termo: estatisticamente ela não é mais uma igreja no lar, mas tampouco é um evento celebrativo. Dessa maneira, ela perde duas dinâmicas imaginadas pelo seu Inventor: a atmosfera familiar dinâmica e relacional e o mega-evento eletrizante, com efeito de sucção.

6. Do sistema de um pastor único para a estrutura de equipe

Igrejas nos lares não são conduzidas por um “pastor”, mas acompanhas por um presbítero e por um dono de casa sábio e atento à realidade.

As igrejas nos lares são interligadas em rede, formando movimentos, pela conexão orgânica dos presbíteros com o assim chamado ministério quíntuplo (apóstolos, profetas, pastores, evangelistas e mestre), que circula “de casa em casa” pelas igrejas, como um saudável sistema de circulação sanguínea. Nessa atividade as pessoas com dons apostólicos e proféticos (Efésios 4:11—12; 2:20) desempenham um papel fundamental.

Sem dúvida os pastores são uma parte importante de toda a equipe, porém não podem ser mais que um fragmento dela, “para capacitar os santos para serviço”. Seu ministério precisa ser complementado pelos outros quatros ministérios, do contrário as igrejas não apenas sofrem de enfermidades de carência espiritual, devido à dieta unilateral, mas igualmente os próprios pastores não conseguem mover nada, ficando impedidos de se realizar em sua vocação.

7. As peças certas – montadas erroneamente

Num quebra-cabeça é essencial que as peças sejam montadas de acordo com o modelo certo, do contrário não apenas fica incorreto o quadro inteiro, mas também as diversas peças que não fazem sentido. No cristianismo temos todas as peças à disposição, mas por tradição, lógica de poder e zelo religioso quase sempre as montamos erroneamente. Assim como existe H²O nos três estados de agregação (gelo, água e vapor) também os dons de serviço (Efésios 4:11—12), como, p. ex., o do pastor, ocorrem de três formas, porém muitas vezes na forma errada no lugar errado. Eles congelaram como pedras por meio do clericalismo eclesiástico, correm como água límpida ou ainda evaporam na falta de compromisso.

Assim como a melhor coisa é regar flores com água, também os cinco ministérios que fomentam a igreja (apóstolos, profetas, pastores, evangelistas e mestres) têm de reencontrar formas novas – e muito antigas – na igreja, para que o sistema todo comece a florescer e cada pessoa encontre um lugar apropriado no todo. Por isso a igreja não pode nem deve voltar atrás na história, porém precisa retornar à matriz original.

8. Das mãos dos burocratas eclesiásticos ao sacerdócio de todos os que creem

As igrejas do Novo Testamento nunca foram dirigidas por um “homem santo” ou “senhor pastor”, que se encontra numa ligação especial com Deus em substituição a outros e que regularmente alimenta consumidores relativamente passivos na fé, como se fosse um Moisés do Novo Testamento. O cristianismo assumiu das religiões gentílicas – ou, na melhor das hipóteses, do judaísmo – a categoria dos sacerdotes como um espaço amortecedor de mediação entre Deus e o ser humano.

Desde os dias de Constantino Magno a rigorosa profissionalização da igreja já pesou tempo suficiente como maldição sobre a igreja, subdividindo artificialmente o povo de Deus em leigos infantilizados e clero profissional. Conforme o Novo Testamento há “um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus” (1 Timóteo 2:5).

Deus retém sua bênção quando profissionais da religião se imiscuem entre ele e o povo. O véu do Templo foi rasgado e Deus possibilita a todas as pessoas a terem acesso a ele diretamente por meio de Jesus Cristo, o único Caminho e Advogado. Já não precisam manter contato com ele de forma mediada e indireta através do representante de uma casta religiosa. A fim de transportar para a prática o “sacerdócio de todos os que creem”, que entrementes já foi impetrado há 500 anos pela primeira Reforma, o atual sistema de uma igreja profissionalizada e burocratizada terá de ser transformado radicalmente – ou afundará na irrelevância religiosa.

A burocracia é a mais diabólica de todas as formas de administração, porque no fundo levanta apenas duas perguntas: sim ou não. Nela dificilmente há espaço para a espontaneidade, a humanidade e a vida genuína cheia de variações. Essa forma estrutural pode ser adequada a empreendimentos políticos ou econômicos, porém não ao cristianismo. Deus parece estar em vias de libertar seu povo do cativeiro babilônico de burocratas eclesiásticos e de pessoas no exercício do poder religioso, bem como tornar a igreja novamente um bem comum. Faz isso ao colocá-la nas mãos de pessoas simples, chamadas por Deus para algo extraordinário e que, como nos dias de outrora, talvez ainda estejam cheirando a peixe, perfume ou revolução.

Você também está convidado a aderir a esse mover aberto, e dar a sua própria contribuição. Dessa maneira provavelmente também a sua casa há de ser uma casa que transforma o mundo.

FIM DA PRIMEIRA PARTE. CONTINUA...

(Texto publicado em português no livro “Casas que transforma o mundo — Igreja nos lares”, de Wolfgang Simson — Editora Evangélica Esperança)

O artigo original em Inglês acesse:


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Alexandros Meimaridis

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[1] Membro de seita religiosa protestante inglesa (a Sociedade dos Amigos), fundada no século XVII [Prega a existência da luz interior, rejeita os sacramentos e os representantes eclesiásticos, não presta nenhum juramento e opõe-se à guerra.]

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

PORQUE OS JOVENS ESTÃO DEIXANDO AS IGREJAS?


O artigo abaixo foi publicado pelo site da revista Cristianismo Hoje e é de autoria de Ed Stetzer

A raiz do problema
Jovens adultos abandonam a igreja porque não têm uma fé própria
Escrito por  Ed Stetzer

As estatísticas são alardeadas todos os dias e apavoram os pais, líderes e educadores cristãos: cada vez mais jovens criados no Evangelho abandonam a igreja, sobretudo após a conclusão do ensino médio. Em números, seriam 94% (alguns dizem 86%) dos jovens evangélicos que saem para nunca mais voltar. Só isso já comprometeria, em termos aritméticos, a próxima geração de evangélicos. As razões alegadas são as mais diversas possíveis, e boa parte delas se deve ao assédio das atrações “do mundo”, às novas conquistas intelectuais que esvaziam a noção do sagrado e o secularismo exacerbado de nossos dias. O cerne da questão, todavia, é mais sutil, e nem sempre reconhecido pela própria igreja. Os jovens adultos que a abandonam, muitas vezes, não possuem uma fé verdadeira – uma fé própria – e um relacionamento com Cristo que seja profundamente importante para suas vidas pessoais, algo que fuja à mera pressão exercida por seus pais ou responsáveis nos primeiros anos de sua vida.

Quem se debruça com mais seriedade sobre o fenômeno descobre algumas verdades. Tais estatísticas, muitas vezes, são, com se diz, meras lendas urbanas – ou, pelo menos, expressam uma meia verdade. Nenhuma pesquisa, de fato, chegou a essa conclusão. É claro que a evasão existe, e deve gerar preocupações. A realidade é que existem desafios em relação a esse fato, mas pesquisas confiáveis mostram que a fé é bastante resistente de uma geração a outra, desde que seja genuína e pessoal. Há alguns anos, a LifeWay Research analisou a questão, observando algumas das coisas que ajudam os jovens a ficarem na igreja e a terem uma fé forte. O estudo queria saber o que é necessário para que um aluno permaneça seguindo a Cristo durante o ensino médio, a faculdade, a carreira e além. Observou-se a fé de alunos que frequentavam uma igreja protestante (tradicional ou renovada) duas vezes ao mês ou mais por, pelo menos, um ano durante o ensino médio. Mais tarde, cerca de 70% dos jovens com idade entre 18 e 22 anos pararam de frequentar a igreja regularmente por pelo menos um ano. Uma taxa de abandono da ordem de 70% – muito alta, por sinal.

Outras pesquisas e estudos entre jovens evangélicos, no entanto, indicam que o número é quase certamente muito menor. E é importante notar que quase dois terços daqueles que largaram a igreja ao longo do estudo voltaram para suas igrejas até o fim da pesquisa. Também perguntou-se a esses jovens por que eles abandonaram a igreja. Dos que saíram, cerca de 97% (quase todos, portanto) afirmaram que o motivo foram mudanças de vida ou algumas situações. Entre as razões mais específicas, destacaram-se:

•          Simplesmente, queriam “dar um tempo” da igreja (27%)
•          Mudaram de domicílio em função de estudos (25%)
•          O trabalho dificultou ou impossibilitou o comparecimento (23%)

Cinquenta e oito por cento dos jovens alegaram que saíram por causa de suas igrejas ou pastores. Um aprofundamento das perguntas indicou algumas causas mais específicas:

•          Os membros pareciam críticos e hipócritas (26%)
•          Não sentiam empatia pelas pessoas da igreja (20%)
•          Os membros não eram amigáveis e acolhedores (15%).

Dos pesquisados, 52% indicaram alguma espécie de crença religiosa, ética ou política como razão pela saída. Em outras palavras, mais da metade deles mudaram suas visões cristãs. Talvez, eles não acreditassem no que suas igrejas ensinavam, ou não davam crédito àquilo no que os outros membros pareciam acreditar.

Mais especificamente, 18% discordavam com a posição da igreja em relação a questões políticas e sociais; 17% disseram que só iam à igreja para agradar a outras pessoas; e 16% disseram que não queriam mais ser identificados com a igreja ou com qualquer religião organizada.

A razão pela qual muitos jovens abandonam a igreja depois do ensino médio é porque a sua fé não era pessoalmente significativa para eles. Em outras palavras, eles não tinham uma fé verdadeira. A igreja não havia se tornado algo valioso em suas vidas – algo que impactasse a sua maneira de viver, de se relacionar e amadurecer. Talvez, a igreja fosse algo que os pais queriam que eles frequentassem. Eles podem ter crescido na igreja e talvez sofreram pressão dos pais ou colegas para se envolverem; mas não se tratava de uma fé pessoal e verdadeira.

Independentemente da exatidão dos números, o fato é que muitos e muitos jovens cedem aos apelos da carne e da sociedade em uma época crucial, justamente quando estão para tomar decisões que se refletirão por toda a sua vida. Não se pode tratar os jovens como crianças. Precisamos prepará-los para os desafios espirituais que virão e as questões de fé que precisarão enfrentar. A fé pessoal e verdadeira leva à transformação de vida e ao compromisso – para toda a vida. (Tradução: Julia Ramalho)

Ed Stetzer é missionário, escritor, professor e supervisor de LifeWay Insigths, divisão do ministério LifeWay

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


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Alexandros Meimaridis

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quarta-feira, 17 de junho de 2015

NÃO ESTOU OFENDIDO - Por Augustus Nicodemus Lopes



Diante de tanta papagaiada estrelada por senadores e outros políticos da república, associados a tantos falsos pastores midiáticos acerca de representação de uma cena de crucificação feita por uma transexual durante a parada GLBT de 2015, as sábias palavras do irmão Augustus devem servir para todos que amam e conhecem verdadeiramente o senhor Jesus.

Segue o artigo do irmão Augustus:

Quando vi as imagens da transexual "crucificada" na parada gay não me senti ofendido, como cristão. É óbvio que discordei da estratégia de marketing dos organizadores e sem dúvida percebi que o alvo era mesmo a provocação aos cristãos. Embora o episódio tenha sido justificado como sendo uma forma de expor a humilhação sofrida pelos gays, a impressão que dá é outra.

Mas, afora isto, não me senti provocado, atingido ou ofendido. Por uma razão simples. Ali não estava acontecendo uma profanação de objetos sagrados para mim - no caso, a cruz - simplesmente por que para mim uma cruz de madeira nada tem de sagrada nela. Meu cristianismo evangélico reformado não tem templos sagrados, objetos sagrados, imagens sagradas, símbolos sagrados ou líderes sagrados. Por isto não ficamos explodindo bombas quando zombam de Lutero, Zuínglio ou Calvino, quando tripudiam sobre a Bíblia ou quando picham as igrejas. E por isto eu não me sinto ofendido quando alguém usa uma cruz de madeira para suas manifestações anticristãs ou para outros objetivos.

As coisas que considero santas estão muito além do alcance dos homens, para que estes possam profaná-las. O meu Salvador está nos céus, o meu Deus é rei do universo, minha morada é celestial, a Palavra de Deus está escrita nos céus e é eterna, o pão e o vinho nada mais são que representações materiais daquele que se assenta no trono do universo. Realmente, não há nada no meu cristianismo que esteja ao alcance de quem deseja me ofender através da profanação.

Claro, para quem a cruz é sagrada, as imagens são sagradas, os templos são sagrados, seus líderes são sagrados... estes ficarão ofendidos. Eu os entendo. Devemos respeitar toda crença. Mas, no meu caso, uma transexual pendurada numa cruz provoca, no máximo, a confirmação do que eu já sei, que nenhum pecador consegue se livrar de Deus, ou daquilo que ele pensa que é Deus.

Só me vem à mente o Salmo 2:

1 Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?

2 Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram
contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo:

3 Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas.

4 Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles.

5 Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá.

Que Deus abençoe a todos.

Alexandros Meimaridis

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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A ALMA CATÓLICA DOS EVANGÉLICOS NO BRASIL


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O artigo abaixo foi escrito e publicado originalmente em 2006, mas seu conteúdo provou não ter sido afetado pelo tempo. Pelo contrário, sentimos que várias das características citadas pelo irmão Augustus, não só permanecem como se espalharam ainda mais e se tornaram, praticamente a única regra a ser seguida. Convidamos todos a fazerem uma leitura, atenta, do material abaixo.

Por Augustus Nicodemus Lopes

Os evangélicos no Brasil nunca conseguiram se livrar totalmente da influência do Catolicismo Romano. Por séculos, o Catolicismo formou a mentalidade brasileira, a sua maneira de ver o mundo ("cosmovisão"). O crescimento do número de evangélicos no Brasil é cada vez maior – segundo o IBGE, seremos 40 milhões esse ano de 2006 – mas há várias evidências de que boa parte dos evangélicos não tem conseguido se livrar da herança católica.

É um fato que conversão verdadeira (arrependimento e fé) implica numa mudança espiritual e moral, mas não significa necessariamente uma mudança na maneira como a pessoa vê o mundo. Alguém pode ter sido regenerado pelo Espírito e ainda continuar, por um tempo, a enxergar as coisas com os pressupostos antigos. É o caso dos crentes de Corinto, por exemplo. Alguns deles haviam sido impuros, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes e roubadores. Todavia, haviam sido lavados, santificados e justificados "em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus" (1Co 6.9-11) sem que isso significasse que uma mudança completa de mentalidade houvesse ocorrido com eles. Na primeira carta que lhes escreve, Paulo revela duas áreas em que eles continuavam a agir como pagãos: na maneira grega dicotômica de ver o mundo dividido em matéria e espírito (que dificultava a aceitação entre eles das relações sexuais no casamento e a ressurreição física dos mortos – capítulos 7 e 15) e o culto à personalidade mantido para com os filósofos gregos (que logo os levou à formar partidos na igreja em torno de Paulo, Pedro, Apolo e mesmo o próprio Cristo – capítulos 1 a 4). Eles eram cristãos, mas com a alma grega pagã.

Da mesma forma, creio que grande parte dos evangélicos no Brasil tem a alma católica. Antes de passar às argumentações, preciso esclarecer um ponto. Todas as tendências que eu identifico entre os evangélicos como sendo herança católica, no fundo, antes de serem católicas, são realmente tendências da nossa natureza humana decaída, corrompida e manchada pelo pecado, que se manifestam em todos os lugares, em todos os sistemas e não somente no Catolicismo. Como disse o reformado R. Hooykas, famoso historiador da ciência, “no fundo, somos todos romanos” (Philosophia Liberta, 1957). Todavia, alguns sistemas são mais vulneráveis a essas tendências e as absorveram mais que outros, como penso que é o caso com o Catolicismo no Brasil. E que tendências são essas?

1) O gosto por bispos e apóstolos – Na Igreja Católica, o sistema papal impõe a autoridade de um único homem sobre todo o povo. A distinção entre clérigos (padres, bispos, cardeais e o papa) e leigos (o povo comum) coloca os sacerdotes católicos em um nível acima das pessoas normais, como se fossem revestidos de uma autoridade, um carisma, uma espiritualidade inacessível, que provoca a admiração e o espanto da gente comum, infundindo respeito e veneração. Há um gosto na alma brasileira por bispos, catedrais, pompas, rituais. Só assim consigo entender a aceitação generalizada por parte dos próprios evangélicos de bispos e apóstolos auto-nomeados, mesmo após Lutero ter rasgado a bula papal que o excomungava e queimá-la na fogueira. A doutrina reformada do sacerdócio universal dos crentes e a abolição da distinção entre clérigos e leigos ainda não permearam a cosmovisão dos evangélicos no Brasil, com poucas exceções.

2) A ideia que pastores são mediadores entre Deus e os homens – No Catolicismo, a Igreja é mediadora entre Deus e os homens e transmite a graça divina mediante os sacramentos, as indulgências, as orações. Os sacerdotes católicos são vistos como aqueles através de quem essa graça é concedida, pois são eles que, com as suas palavras, transformam, na Missa, o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo; que aplicam a água benta no batismo para remissão de pecados; que ouvem a confissão do povo e pronunciam o perdão de pecados. Essa mentalidade de mediação humana passou para os evangélicos, com algumas poucas mudanças. Até nas igrejas chamadas históricas os crentes brasileiros agem como se a oração do pastor fosse mais poderosa do que a deles, e que os pastores funcionam como mediadores entre eles e os favores divinos. Esse ranço do Catolicismo vem sendo cada vez mais explorado por setores neopentecostais do evangelicalismo, a julgar por práticas já assimiladas como “a oração dos 318 homens de Deus”, “a prece poderosa do bispo tal”, “a oração da irmã fulana, que é profetisa”, etc.

3) O misticismo supersticioso no apego a objetos sagrados – O Catolicismo no Brasil, por sua vez influenciado pelas religiões afro-brasileiras, semeou misticismo e superstição durante séculos na alma brasileira: milagres de santos, uso de relíquias, aparições de Cristo e de Maria, objetos ungidos e santificados, água benta, entre outros. Hoje, há um crescimento espantoso entre setores evangélicos do uso de copo d’água, rosa ungida, sal grosso, pulseiras abençoadas, pentes santos do kit de beleza da rainha Ester, peças de roupa de entes queridos, oração no monte, no vale; óleos de oliveiras de Jerusalém, água do Jordão, sal do Vale do Sal, trombetas de Gideão (distribuídas em profusão), o cajado de Moisés... é infindável e sem limites a imaginação dos líderes e a credulidade do povo. Esse fenômeno só pode se explicado, ao meu ver, por um gosto intrínseco pelo misticismo impresso na alma católica dos evangélicos.

4) A separação entre sagrado e profano – No centro do pensamento católico existe a distinção entre natureza e graça idealizada e defendida por Tomás de Aquino, um dos mais importantes teólogos da Igreja Católica. Na prática, isso significou a aceitação de duas realidades co-existentes, antagônicas e frequentemente irreconciliáveis: o sagrado, substanciado na Santa Igreja, e o profano, que é tudo o mais no mundo lá fora. Os brasileiros aprenderam durante séculos a não misturar as coisas: sagrado é aquilo que a gente vai fazer na Igreja: assistir Missa e se confessar. O profano – meu trabalho, meus estudos, as ciências – permanece intocado pelos pressupostos cristãos, separado de forma estanque. É a mesma atitude dos evangélicos. Falta-nos uma mentalidade que integre a fé às demais áreas da vida, conforme a visão bíblica de que tudo é sagrado. Por exemplo, na área da educação, temos por séculos deixado que a mentalidade humanista secularizada, permeada de pressupostos anticristãos, eduque os nossos filhos, do ensino fundamental até o superior, com algumas exceções. Em outros países os evangélicos têm tido mais sucesso em manter instituições de ensino que além de serem tão competentes como as outras, oferecem uma visão de mundo, de ciência, de tecnologia e da história oriunda de pressupostos cristãos. Numa cultura permeada pela ideia de que o sagrado e profano, a religião e o mundo, são dois reinos distintos e frequentemente antagônicos, não há como uma visão integral surgir e prevalecer a não ser por uma profunda reforma de mentalidade entre os evangélicos.

5) Somente pecados sexuais são realmente graves – A distinção entre pecados mortais e veniais feita pelo romanismo católico vem permeando a ética brasileira há séculos. Segundo essa distinção, pecados considerados mortais privam a alma da graça salvadora e condenam ao inferno, enquanto que os veniais, como o nome já indica, são mais leves e merecem somente castigos temporais. A nossa cultura se encarregou de preencher as listas dos mortais e dos veniais. Dessa forma, enquanto se pode aceitar a “mentirinha”, o jeitinho, o tirar vantagem, a maledicência, etc., o adultério se tornou imperdoável. Lula foi reeleito cercado de acusações de corrupção. Mas, se tivesse ocorrido uma denúncia de escândalo sexual, tenho dúvidas de que teria sido reeleito, ou que teria sido reeleito por uma margem tão grande. Nas igrejas evangélicas – onde se sabe pela Bíblia que todo pecado é odioso e que quem guarda toda a lei de Deus e quebra um só mandamento é culpado de todos – é raro que alguém seja disciplinado, corrigido, admoestado, destituído ou despojado por pecados como mentira, preguiça, orgulho, vaidade, maledicência, entre outros. As disciplinas eclesiásticas acontecem via de regra por pecados de natureza sexual, como adultério, prostituição, fornicação, adição à pornografia, homossexualismo, etc., embora até mesmo esses estão sendo cada vez mais aceitáveis aos olhos evangélicos. Mais um resquício de catolicismo na alma dos evangélicos?

O que é mais surpreendente é que os evangélicos no Brasil estão entre os mais anti-católicos do mundo. Só para ilustrar (e sem entrar no mérito dessa polêmica) o Brasil é um dos poucos países onde convertidos do catolicismo são rebatizados nas igrejas evangélicas. O anti-catolicismo brasileiro, todavia, se concentrou apenas na questão das imagens e de Maria, e em questões éticas como não fumar, não beber e não dançar. Não foi e não é profundo o suficiente para fazer uma crítica mais completa de outros pontos que, por anos, vêm moldando a mentalidade do brasileiro, como mencionei acima. Além de uma conversão dos ídolos e de Maria a Cristo, os brasileiros evangélicos precisam de conversão na mentalidade, na maneira de ver o mundo. Temos de trazer cativo a Cristo todo pensamento e não somente os nossos pecados. Nossa cosmovisão precisa também de conversão (2Coríntios 10.4-5).

Quando vejo o retorno de grandes massas ditas evangélicas às práticas medievais católicas de usar no culto a Deus objetos ungidos e consagrados, procurando para si bispos e apóstolos, imersas em práticas supersticiosas, me pergunto se, ao final das contas, o neopentecostalismo brasileiro não é, na verdade, um filho da Igreja Católica medieval, uma forma de neo-catolicismo tardio que surge e cresce em nosso país onde até os evangélicos têm alma católica.

O artigo original poderá ser visto por meio desse link aqui:


Além da alma católica o povo evangélico também possui uma “alma judaica e judaizante”. Por isso aproveitamos essa oportunidade para recomendar a leitura do nosso artigo “JUDAIZANTES MODERNOS” por meio desse link aqui:


Que Deus abençoe a todos

Alexandros Meimaridis

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